terça-feira, 8 de maio de 2012

O “Eldorado” hidrelétrico na Amazônia: desfiguração e desapossamento

Escrito por Luiz Fernando Novoa Garzon   
 
Cartas
Ilusão
Ilusão
Veja as coisas como elas são
O curinga
A noiva
O noivo
O sim
O não
O prateado
O cavaleiro
No seu espelho
Desfigurado
O cavaleiro, o prateado
Do outro lado do seu espelho
Desfigurado
Chico Buarque.
 
A forma rebaixada como se produziram os estudos de viabilidade e os estudos ambientais das UHEs de Jirau e Santo Antônio no rio Madeira(RO), e depois a entronização deles ao custo do achincalhe da legislação ambiental - gerando licenças prévias e de instalação a la carte, com formato e temporalidade pré-definidos em função do máximo retorno financeiro - representam uma senha para o acesso irrestrito dos grandes investidores ao enorme potencial hidrelétrico da Bacia Amazônica.
  A concessão do rio Madeira, seu sacrifício no altar dos investidores, ao contrário de aplacar a sanha privatizante e incorporadora de água e energia, redobra-lhes o apetite. É concessão primeira para concessões últimas. Um salvo-conduto institucional que tem custado o desmanche da legislação ambiental nacional e o remodelamento do marco regulatório do setor elétrico segundo as conveniências dos grupos privados. A instalação praticamente incondicionada dessas usinas desautoriza completamente uma regulamentação que admitia, ao menos em hipótese, a rejeição ou readequação de grandes projetos com base em critérios sócio-ambientais previamente estabelecidos.
  A partir do Madeira não se admite mais vetos técnicos ou sociais ou a readequação profunda de projetos "prioritários", assunto exclusivo das empresas concessionárias e dos entes públicos feitos seus reféns. No mais caudaloso afluente do rio Amazonas cria-se o piso regulamentar das próximas feiras livres de concessões/privatizações. O calvário do Madeira é o início da via crucis dos demais grandes rios amazônicos, assim como todas as territorialidades comunitárias indígenas, ribeirinhas, quilombolas e camponesas nutridas por eles. O Xingu e o Tapajós - e seus povos - os próximos já marcados para morrer.
  O Complexo hidrelétrico do rio Madeira instalado representa uma eficaz fórmula mercadorizante, concentrada no tempo e no espaço. Seu arranjo político-financeiro expressa um deslocamento estratégico do grande capital e das forças políticas por ele imantadas. A ofensiva se dá em nome da incondicionalidade dos investimentos em infra-estrutura. As frouxas licenças emitidas para essas UHEs, e toda sorte de subsídios financeiros e operacionais oferecidos aos Consórcios Santo Antônio Energia (SAESA), controlado pela Odebrecht, e Energia Sustentável do Brasil (ENERSUS), controlado pela SUEZ, equivalem à ratificação de um draconiano acordo de proteção de investimentos.
  A liberalização preferencial dos serviços infra-estruturais (energia, telecomunicações, transportes e serviços financeiros), em sua condição de amplificadores e coadjuvantes da expansão econômica transnacional, atrai investidores sedentos por controle de mercados. Em nome de um crescimento setorial desbalanceado e da competitividade de enclaves econômicos, vão sendo abolidas as possibilidades de um outro padrão de desenvolvimento.
  Para além das formalidades, as regras do jogo (capitalista, global, neoliberal) instituem-se no decorrer do processo expansivo das cadeias transnacionais de valorização do capital. O flexível regime de concessões do setor elétrico e o compartilhamento público-privado de recortes territoriais, nada desprezíveis, em se tratando da Amazônia, dizem tudo e um pouco mais. Mais ainda quando o Estado cumpre exemplarmente sua missão legitimadora, apresentando o repasse de serviços essenciais, bens e territórios à jurisdição totalizadora do capital como fator indispensável para a potencialização do desenvolvimento "nacional", a serviço de "todos os brasileiros".
 
A maldição dos recursos naturais e a guerra contra os povos tradicionais
  O país vai se entregando em regozijo à maldição dos recursos naturais: a riqueza que vem rápida e fácil, do mesmo modo se concentra e se esvai. Basta ver a disforme anatomia do país depois do último surto de crescimento baseado na exploração intensiva dos recursos naturais. No Brasil, ao invés de extrairmos previdentemente as vantagens do atraso, em busca de dobras na história, saltamos do capitalismo juvenil para o senil. Não há criação significativa de riqueza nova sem a desnaturação e a predação de recursos naturais, bens públicos e valores coletivos.
  A crise financeira global que eclodiu no final de 2008, ao contrário de proporcionar espaço para revisão de rota, nos aferrou ainda mais a esse modelo. Somos agora tangidos a compensar os efeitos da crise de sobreacumulação, oferecendo adicionais margens de exploração. Novos "cercamentos" a liberar excedentes de capital e de mão-de-obra a baixo custo, em uma acumulação primitiva sem fim. E o Estado brasileiro a postos, chamando para si a função de interligação da lógica territorial e capitalista do poder.
  Com relação à Amazônia, a interligação é pensada e implementada em escopo regional/transnacional, como se pode observar a partir dos marcos orientadores da expansão do capital no subcontinente: o PAC e a IIRSA. Ambos projetos concentrados na ampliação e articulação de projetos de infra-estrutura em escala continental com vistas a potencializar a subsidiaridade da economia regional frente aos mercados internacionais, com o aumento de escala e produtividade das atividades hegemônicas no continente controladas e/ou voltadas para estes.
  Em síntese, o PAC e a IIRSA atuam em forma de pinça (re)territorializante. Numa ponta, projetos de eixos inter-oceânicos para dissolver os chamados "gargalos físicos", dezenas de megacorredores de exportação sulcados por centenas de projetos de infra-estrutura considerados matriciais e ordenadores dos demais. Na outra ponta, iniciativas de convergência regulatória para destravar os "gargalos institucionais", novas reformas privatizantes e flexibilizadoras para franquear recursos naturais, setores de energia, transportes e comunicações. No centro, sob duplo tensionamento, físico e político-ideológico, vão sendo varridos os povos, repostos depois como novos assalariados ou sub-assalariados, com ampla serventia nos mercados precarizados. Os fragmentos do poder social ali antes existentes, vestígios arqueológicos "vivos", serão considerados relevantes somente na condição de figurantes para a publicização da "responsabilidade social" dos empreendedores privados. Procurar retomar ou manter o controle social e comunitário sobre a terra e as águas é crime de lesa-capital. E os massacres em massa e/ou seletivos, especialmente na região amazônica, surgem como resposta da pinça programada para não parar.
  Bem ao nosso lado, o Peru também se destaca em sua "voluntária" desconstrução, seguindo a pior versão dos novos tigres asiáticos, a de países-plataformas de exportação orientados por oligopólios e oligopsônios; processo intensificado sob a condução de Alan Garcia, provindo do APRA, histórico movimento anti-imperialista. O presidente, olvidado das idéias e achando-se no meio das propinas e do prestígio de seguir o grande chefe do Norte, faz o que pode para estabilizar o ambiente político para que os mercados possam recolher do Peru, e montar nele, o que interessa e o que serve para as redes de suprimento do cinturão industrial situado na Bacia do Pacífico.
  O presidente Garcia tratou, então, de inaugurar em alto estilo a temporada de caça aos povos indígenas-campesinos peruanos em seu manifesto "El síndrome del perro del hortelano". Nele dirigiu ao país um olhar recolonizador extremado, perscrutador. O Peru da costa, das elites despatriadas, quer mais do mesmo e se vale do neopopulismo de direita de Alan Garcia como aríete contra os povos andinos e amazônicos que se mantêm donos de si. A Amazônia peruana estaria sendo "desperdiçada" por sua possessão pelos povos tradicionais, reclama Garcia:
  "Hay millones de hectáreas para madera que están ociosas, otros millones de hectáreas que las comunidades y asociaciones no han cultivado ni cultivarán, además cientos de depósitos minerales que no se pueden trabajar (...). Los ríos que bajan a uno y otro lado de la cordillera son una fortuna que se va al mar sin producir energía eléctrica. (...) Y todo ello por el tabú de ideologías superadas, por ociosidad, por indolencia o por la ley del perro del hortelano que reza: ‘Si no lo hago yo que no lo haga nadie’."
  Garcia, a peso de ouro, se dispôs a seqüestrar num só mandato a história de seu país e sua ancestral herança. Daí o chamamento ao alistamento compulsório da natureza, vista exclusivamente como suporte e insumo dos capitais. Quem não entender ou se opuser, "hortelano", indolente, sabotador, inimigo público, será. Garcia, em fidelidade canina ao Império, põe a selva peruana e seus povos na roleta, no circuito dos investimentos. Os pacotes de medidas de liberalização do acesso aos recursos naturais da Amazônia são um desdobramento necessário do Tratado de Livre Comércio do Peru com os EUA. Da mesma forma, os massacres que o seguiram.
  A luta de classes - e de frações e de blocos de poder – se magnifica em situações de disputas inter-monopolistas por novas áreas de mercado. Guerra de (re)colonização, há nome mais apropriado para designar a expansão da fronteira agropecuária, mineral e elétrica, para e na Amazônia? Nessa guerra, exploradores de todas as partes aliam-se para depois repartirem o botim. Eles se conjugam porque sobre nossa pele recaem suas diferenças e seus rateios.
  No início de seu segundo mandato, às vésperas de lançar o PAC , Lula não fez muito diferente ao declarar guerra aos "entraves" ao desenvolvimento: "Eu estou me dedicando, em novembro e dezembro, a ver se eu pego todos os entraves que eu tenho com o meio ambiente, todos os entraves com o Ministério Público, todos os entraves com a questão dos quilombolas, com a questão dos índios brasileiros, todos os entraves que a gente tem no Tribunal de Contas."
  Se as comunidades tradicionais e as salvaguardas sociais e ambientais são entraves ao desenvolvimento, é porque esse desenvolvimento só pode ser canibalístico e predatório. As vidas de Chico Mendes e Irmã Dorothy, e de tantas outras anônimas lideranças, foram ceifadas por constituírem um entrave à expansão de um modelo econômico e social em vigor no país. A fala do presidente aniquila o exemplo que legaram, e expõe movimentos, organizações e lideranças sócio-ambientais a um ciclo redobrado de violência e impunidade.
  A malfazeja fala presidencial foi motivada pela resistência inicial do IBAMA em dar aceite à Licença Prévia das UHEs do rio Madeira. Lula discursava ao lado do governador sojicultor Blairo Maggi, mais que interessado na abertura do corredor noroeste rumo ao Pacífico, o eixo Peru-Brasil-Bolívia, do qual as usinas são parte. As UHEs do Madeira (e a extensão da hidrovia a oeste), junto com a Rodovia inter-oceânica, a Rodovia La Paz-Guajará-Mirim e a pavimentação da BR 319 (Porto Velho-Manaus) constituirão uma cunha transfronteiriça a disponibilizar e converter recursos naturais em commodities, em insumos pré-determinados para exportação .
 
Para onde vai o marco regulatório do setor elétrico
  O formato aberto e maleável das concessões de exploração do potencial hidrelétrico do rio Madeira são uma prova dos efeitos de longo prazo do processo de privatização do setor elétrico brasileiro feito a partir dos anos 90. O sistema elétrico deixou de ser mero instrumento de acumulação para ser espaço prioritário de acumulação, ele mesmo transformado em negócio, e em cada uma de suas fases. Fatiadas a geração, a transmissão e a distribuição em nichos de mercado, foi inaugurado um mercado que forneceu elevada rentabilidade aos operadores privados e transnacionais. Abriu-se-lhes também a possibilidade de planejar a expansão e condicionar o uso final da energia elétrica no país.
  O marco regulatório do setor procurou favorecer a "interação estável" entre os agentes privados, em outras palavras, a autonomização do acordo oligopolista frente à população e à nação. As alterações introduzidas em 2004 (Lei 10.848) pela então ministra de Minas e Energia Dilma Roussef, não mudaram o cenário de descapitalização das estatais; antes, multiplicaram as funções de intermediação no sistema, dilataram as tarifas pagas pela população e consolidaram um mercado livre de energia para grandes consumidores, que distorce o perfil da demanda nacional.
  O mercado livre de energia procura oferecer a maior margem possível de lucratividade para as distribuidoras que "reciprocamente" se comprometem a "recompor" o valor das tarifas de forma "proporcional". São 25% a 30% de toda a energia do país abocanhados, fora das vistas públicas. As mudanças propostas para o formato dos próximos leilões de energia nova, Belo Monte à frente, são, na verdade, disputas inter-setoriais. Cada novo grande bloco de energia a ser privatizado/concedido implica em reposicionamentos, inter e intra-oligopolísticos, no setor elétrico e nos setores eletrointensivos.
  A perspectiva de tornar as concessões mecanismos suplementares de atração de capitais, através de Parcerias Público-Privadas (PPPs) no setor elétrico, tende a se aprofundar, devendo ter lugar de destaque nos investimentos do PAC 2 . As PPPs institucionalizam requisitos de retorno financeiro e de segurança jurídica dos investimentos, o que resulta na automatização do processo político decisório de setores tidos como estratégicos. O Estado deixa de negociar com o setor privado com algum nível de equivalência e se reduz a um canal privado de negociação. Anunciando as vantagens dessa "privatização silenciosa", o ministro Paulo Bernardo afirmou: "Nós achamos que o Brasil vai atrair investimentos externos vultosos. Já é maior do que em 1999, que foi o ano das privatizações. Já está acontecendo silenciosamente. Não tem leilão, não tem bate-boca, não tem briga pública."
  Em tempos idos, avaliando a privatização do setor elétrico chileno, a mesma Dilma concluía que o problema foi ter alienado também as instâncias regulatórias, crítica que, subliminarmente, se estendia ao modelo de privatização ilimitada adotado na era FHC. A gestão do sistema elétrico chileno "evidencia que a alienação dos ativos públicos elétricos deu lugar também à privatização de certas instâncias típicas de regulação pelo Estado, enquanto representante do interesse público" (ROUSSEF, p. 132, 1995). O erro teria mudado?
  O novo modelo do setor elétrico proposto em 2004 é exemplar na aplicação da dileta equação de Dilma, "o mercado precifica e o governo planeja". Mas planeja, a rigor, a partir da precificação e em função dela. A legitimidade do governo Lula e de um eventual governo sucedâneo é devedora da otimização do "crescimento" como ele é: desigual, combinado, concentrador. O governo que queira representar eficientemente o papel de "capital coletivo" deve converter requisitos para acumulação ampliada em políticas de Estado.
  Exemplo adicional disso é a adoção do project finance como modelo de financiamento dos novos empreendimentos hidrelétricos. Formatar projetos de infra-estrutura com foco predominante no retorno financeiro significa transferir para o setor privado o planejamento de setores antes considerados estratégicos e essenciais. O pretexto invariável é a dificuldade de elevar o nível do investimento público, o comprometimento do esforço fiscal e o sobre-endividamento. A consolidação do modelo de project finance na área de infra-estrutura, na visão dos porta-vozes dos investidores privados, seria o "pilar do equacionamento" das fontes de recursos para o setor. O pretexto não se sustenta porque a rentabilidade dos projetos em operação, com suas respectivas Sociedades de Propósito Específico (SPEs), tem sido sustentada com maciças doses de recursos públicos, injetados sem qualquer dificuldade e com a prerrogativa de desconto do cômputo do superávit primário, como reza a lógica dos Planos-pilotos de Investimentos, amplificados no PAC.
  Em estudo recente do BNDES, coordenado pelo Chefe do Departamento de Energia Elétrica do Banco, Nelson Siffert, essa tese é repetida ad nauseam: " Por meio da intensificação do uso da estruturação de projetos via project finance, poderão ser viabilizadas as necessidades de capital e garantias dos agentes privados que são imprescindíveis para os vultosos investimentos requeridos pelos setores de infra-estrutura. Nesse aspecto, o project finance poderá ser utilizado para alavancar o desenvolvimento da infra-estrutura do país, contribuindo para superar os obstáculos para o desenvolvimento do Brasil."
  No project finance das usinas do Madeira, a receita futura (direitos de receber em fluxos de energia) seria transformada em recebíveis antecipadamente. O BNDES assumiu entre 60% e 75% do total financiável dos empreendimentos. Até 2015, o Banco se comprometeu a desembolsar em torno de 25 bilhões de reais para as usinas de Santo Antonio e Jirau e seu linhão de transmissão. Além disso, a amortização dos juros e do principal pode se dar antes mesmo da operação, desde que todos os riscos estejam, desde o começo, identificados, compartilhados, geridos e mitigados devidamente.
  O Madeira é um teste crucial para provar a "viabilidade" dos investimentos privados em projetos de infra-estrutura de grande vulto. Por isso, o preço de ser "modelo", "cobaia", "porta de entrada" será a certificação das incertezas, o intercâmbio das precauções sociais e ambientais - que determinam a não realização de obra ou projeto quando existam lacunas de conhecimento acerca de seus impactos – por precauções financeiras. Esta inversão de fato foi declarada, sem lapso, pelo Chefe do Departamento de Estudos Ambientais do BNDES. Frente à insuficiência de dados, atestada nos pareceres técnicos do IBAMA, o Banco, na sua avaliação, deve resguardar, sempre e antes de tudo, a viabilidade dos investimentos.
  Já se tornou corrente, no campo empresarial e no governamental conexo, maldizer as dificuldades de licenciamento de hidrelétricas no Brasil. O "meio ambiente", os ambientalistas e os índios são apresentados, portanto, como obstáculos à expansão da geração hidrelétrica, co-responsáveis de um eventual segundo "apagão" ou no mínimo cúmplices da expansão da produção termelétrica, que seria mais custosa e poluente.
  A chantagem do apagão, que se desdobra na chantagem da energia térmica, se desmonta com uma simples pergunta: qual Brasil precisa de energia em larga escala, e no curto prazo? É o Brasil dos "pobres sem geladeira", dos micro e pequenos empresários obrigados a arcar com uma perversa tarifa cruzada que materializam os elevados lucros das distribuidoras privadas? Não usando os rios Madeira, Xingu e Tapajós e todo o potencial restante da Bacia Amazônica no Brasil e no continente, alegam que não haveria outra alternativa para disponibilização imediata de energia senão aumentar a produção termelétrica convencional e nuclear. A questão é exatamente quem precisa dessa disponibilização imediata de energia senão os mesmos setores eletrointensivos, exportadores de produtos básicos, associados às próprias concessionárias-construtoras. Os investidores põem a chantagem na mesa como se estivessem representando algo mais que seu próprio interesse oligopolista.
  Sem discutir previamente qual o perfil predominante da demanda de energia no país, vinculado a um determinado modelo energético e econômico, estaremos sempre na iminência de fazer sacrifícios adicionais em termos ambientais, sociais e de soberania para uma expansão energética que não atende a nenhum projeto de país.
 
Depois de uma avaliação rigorosa do uso final, da distribuição de energia e de seus valores diferenciados que implicam em subsídios ocultos injustificados, não podemos nos furtar a discutir a matriz energética brasileira para que possamos diversificá-la e equilibrá-la a longo prazo, priorizando as fontes alternativas. O Brasil tem um enorme potencial para captar energia solar e eólica, pela nossa posição geográfica e pela extensão do território. Nós temos, também, soluções regionais e locais que passam pelo uso da biomassa, da energia eólica e de pequenas centrais hidrelétricas, estas últimas em seus devidos termos. É possível pensar a energia e o desenvolvimento a partir de matrizes distintas, com uma composição mais ampla de interesses, no que seria a construção de um novo processo de decisão. Entretanto, as decisões setoriais continuam sendo tomadas nos círculos de maior concentração do poder econômico.
  O Ministério das Minas e Energia, a EPE e a Casa Civil promovem um planejamento energético estatal na forma, mas seu conteúdo é ditado por grupos muito restritos. Daí a desenvoltura desses setores na cena pública ao propor novas facilitações e desembaraços, para que possam gerar "mais energia para o Brasil". Seguindo esta linha, o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, apresentou a proposta de agregar ao inventário hidrelétrico elementos do licenciamento ambiental de modo que ambos se interpenetrem. O inventário passaria a considerar a articulação com o planejamento de outros setores atuantes na bacia e a avaliação dos impactos causados pelo conjunto de aproveitamentos e seus efeitos cumulativos e sinérgicos. A razão dessa busca de agilização seria "racionalizar os processos de licenciamento, de modo que a hidrelétrica, um empreendimento de geração limpa, tenha o mesmo grau de agilidade no licenciamento da geração térmica."
  A ampliação do escopo dos estudos e do planejamento, em uma conjuntura social e institucional regressiva, significa desterritorialização automática e em larga escala. Não por acaso, as AAIs ou AAEs passaram a constar entre as recomendações do Banco Mundial. A mesma proposta se encontra na metodologia EASE da IIRSA. Também está implícita na última assistência técnica (DPL) do BIRD ao BNDES para o "remodelamento" de nossas políticas ambientais.
 
Conclusão
  O caso das usinas no rio Madeira demonstra que o setor elétrico está sendo encaixado ferreamente nos marcos dos investimentos privados. Inventários e estudos de encomenda, licenças licenciosas, operação antecipada, incluindo um limite mínimo/máximo de direitos e compensações nos entornos das UHEs.
  A implementação dessas usinas é a cada dia mais auto-explicativa. A pilhagem de bens naturais e sua conversão em rios barrados, escravizados pelo capital, condenados a alimentar enclaves eletrointensivos, se mostra obscenamente. Estupros territoriais vistos enquanto tais, indisfarçáveis.
  O desafio permanente é estabelecer uma agenda paralela de desenvolvimento. Discutir o modelo, entender as opções em jogo e intervir de forma articulada em suas ramificações. Clarificar como se distribuem seus custos e benefícios. Constranger a lógica do quinhão e avançar para aquilo que seja qualitativo, equalizador e libertador. Expor os super-lucros e as super-explorações de origem. Retirar a escora de consentimento a uma legalidade ad hoc, leis e regulamentos de balcão, marcos regulatórios e agências que regulam, ponta-cabeça, governo e a população.
  Para romper essa cadeia de renúncias é preciso reunir a condição crítica ao pensamento crítico, para nos livramos de falsas contraposições, na verdade espaços anversos, que totalizam os controles. Pacificar nosso campo, em trincheira comum, indicando quem se nutre da dilapidação da força coletiva. Mirar o campo, as várzeas, as barrancas, as áreas feitas de uso comum, territórios talhados e sustentados por muitas mãos. Compatibilizar territorialidades populares urbanas, camponesas e tradicionais em um mosaico de resistências e protagonismos. Um espelho que se interponha à falsa projeção de um nós, fluido, cínico e pragmático.
 
Notas:
 
1 Massacre de El Porvenir(Pando-Bolívia) em 12/09/2008 e o massacre de Bagua (Peru) em 05/02/2009.
 
2 El Comércio, 28/10/2007, Lima. Disponível em www.elcomercio.com.pe/.../el_sindrome_del_perro_del_hort.html
 
3 O Estado de São Paulo, 23/11/2006, "Índios, MP e ambientalistas são entraves para o País, diz Lula".
 
4 "Lula quer anunciar o PAC 2 em 2010". O Estado De S. Paulo, 28/07/2009.
 
5 Os PPIs são uma herança permanente do último acordo do país com o FMI. Os PPI indicam como deve se dar a participação privada em infra-estrutura propiciando "competitividade" e garantia de retorno financeiro, sem prejuízo do ajuste fiscal.
 
6 O Papel do BNDES na expansão do setor elétrico nacional e o mecanismo de project finance. Disponível em www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes.../BNDES.../200903_01.html
 
7 "Há uma dúvida muito grande entre os pesquisadores se realmente existem impactos na sedimentação. Devido à insuficiência de dados reais, não havia no parecer uma condenação total ao projeto, o que viabiliza os financiamentos" (...) "É claro que existe um princípio de precaução aqui, levando em conta os investimentos previstos. Esta obra deve ser levada à frente". Exposição de Márcio Macedo da Costa "Seminário Febraban de Finanças Sustentáveis, na cidade de São Paulo, em 02/07/2009. Fonte: http://www.amazonia.org.br/
 
8 Apresentação de Maurício Tolmasquim, no Seminário Internacional de integração energética Brasil-Peru. Gesel/UFRJ, Rio de Janeiro, 15 de Maio de 2009.
 
9 A Avaliação Ambiental e Social com Enfoque Estratégico(EASE) procurar conjugar grupos de projetos que compõem cada Eixo de Integração da IIRSA em "unidades territoriais intermediárias".
 
Luis Fernando Novoa Garzon é professor da Universidade Federal de Rondônia, Departamento de Ciências Sociais, e membro da Rede Brasil sobre IFMS e da Rede Brasileira pela Integração dos Povos.
Contato: l.novoa(0)uol.com.br
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Vídeo: "O Dia que Durou 21 anos" - completo

"O Dia que Durou 21 anos" - completo


Desequilíbrios estruturais do capitalismo atual, por Emir Sader

Fonte: Blog do Emir, 11/09/2008

A atual crise econômico-financeira internacional se insere no marco de um ciclo longo recessivo, do qual o capitalismo não logrou sair desde seu início, em meados da década de setenta do século passado. Sem essa inserção, fica difícil a apreensão do caráter dessa crise, das conseqüências que pode produzir e do cenário que deve surgir depois dela.
Os ciclos e as crises
O capitalismo vive, pela própria natureza do seu processo de reprodução, articulado por ciclos, curtos e longos. Estes coordenam os ciclos curtos, numa perspectiva expansiva, se a curva das subidas e descidas das oscilações curtas apontam para cima, recessiva, se para baixo, conforme a teoria do economista russo Kondratieff, retomada teórica e historicamente por Ernst Mandel.
No segundo pós-guerra, o capitalismo viveu sua “idade de ouro”, segundo Eric Hobsbawn, em que coincidiram virtuosamente a maior expansão concomitante das grandes economias capitalistas – Estados Unidos, Alemanha, Japão -, do chamado “campo socialista”, dirigido pela União Soviética, e por economias periféricas, como o México, a Argentina, o Brasil, com seus processos de industrialização dependente. A economia capitalista não deixou de apresentar seus ciclos curtos de crise, mas cada novo ciclo retomada a expansão e empurrava a economia para patamares cada vez mais altos.
Foi um ciclo longo expansivo comandado por grandes corporações internacionais de caráter industrial e comercial, apoiada por um sistema financeiro em expansão e por grandes transformações na produção agrícola. Um modelo hegemônico regulador – ou keynesiano ou de bem-estar, conforme se queira chamá-lo – incentivava os investimentos produtivos, tendia a fortalecer a demanda interna de consumo, promovia o fortalecimento dos Estados nacionais e a proteção de suas economias.
As crises, como é típico no capitalismo, expressavam processos de super-produção ou de sub-consumo – conforme se queira chamá-las -, refletindo o desequilíbrio estrutural desse sistema entre sua – reconhecida já por Marx no Manifesto Comunista – enorme capacidade de expansão das forças produtivas, mas que se chocam constantemente com sua incapacidade de distribuir renda na mesma medida daquela expansão.
Na sua fase final, o ciclo longo expansivo do segundo pós-guerra viu esse excedente, resultado acumulado da defasagem entre produção e consumo se transformar em capital financeiro – os chamados euro-dólares, que foi aproveitado por países como o Brasil, para reciclar seu modelo econômico, diversificando sua dependência externa e favorecendo a retomada da expansão econômica interna, ainda antes do final do ciclo longo expansivo. Este fator – o golpe militar ainda no ciclo expansivo – diferenciou o cenário econômico brasileiro do dos outros países da região, em que as ditaduras coincidiram com recessão, por já se darem no ciclo longo recessivo do capitalismo internacional.
Que características teve o final desse ciclo e o inicio do novo, de caráter recessivo? Tendo triunfado o diagnóstico de que a estagnação econômica se devia ao excesso de regulamentações, o novo modelo se centrou na desregulamentação, de que as privatizações, as aberturas para o mercado externo, as políticas de “flexibilização laboral”, de ajuste fiscal, foram expressões.
Duas conseqüências mais importantes dever ser recordadas aqui, para entendermos o caráter da crise atual e seus efeitos para os países latino-americanos. A primeira, o gigantesco processo de transferência de capitais do setor produtivo para o especulativo que a desregulamentação promoveu em escala nacional e internacional. Livre de travas, o capital migrou maciçamente para o setor financeiro e, em particular, para o setor especulativo, onde obtêm muito mais lucros, com muito maior liquidez e com menos ou nenhuma tributação para circular.
Configurou-se assim, no modelo neoliberal, a hegemonia do capital financeiro, sob a forma do capital especulativo, fazendo com que mais de 90% dos movimentos econômicos se dêem não na esfera da produção ou do comércio de bens, mas na compra e venda de papéis, nas Bolsas de Valores ou de papéis das dívidas públicas dos governos.
Promoveu-se a financeirização das economias, o que significa, em primeiro lugar, a financeirização dos Estados, cujo primeiro e maior compromisso passa a ser o pagamento das dívidas, isto é, a reserva de recursos mediante o chamado “superávit primário” e a transferência maciça e sistemática de recursos do setor produtivo para o capital financeiro. Grandes grupos econômicos têm à sua cabeça, um banco uma instituição financeira, costumam ganhar mais nos investimentos financeiros que naqueles que deram origem às empresas que os compõem. Grande quantidade de pequenas e médias empresas entraram em processos de endividamento, dos quais não conseguem sair. Outras, assim como consumidores, não se atrevem a buscar empréstimos, pelo medo ao endividamento, com as altas taxas de juros.
O capital financeiro passou a ser o sangue que corre pelas economias dos países, definindo o metabolismo que as preside. Um capital que tem na volatilidade, na sua extrema liquidez, um elemento essencial, inerente, aquele que permite deslocar-se rapidamente para onde pode ter maiores vantagens e, ao mesmo tempo, lhe atribui um grande poder de pressão, diante da fragilidade das economias que dependem estruturalmente dele.
As crises na fase neoliberal
Dessas características decorre o caráter centralmente financeiro das crises no período neoliberal, como ficou evidenciado nas crises mexicana, asiática, russa, brasileira e argentina, entre outras. O setor financeiro canaliza para si os excedentes de capital, produto da defasagem estrutural entre produção e consumo, agudizada na fase atual do capitalismo, em que a elevação da produtividade e a criatividade tecnológica seguiram se aprofundando, ao mesmo tempo que se deram processos de concentração de renda entre as classes sociais, entre países e regiões do mundo.
O poder devastador dessas crises e o potencial de contágio se revelaram da mesma dimensão do tamanho da abertura das economias ao mercado internacional e ao peso que o capital financeiro passou a desempenhar em escala nacional e mundial. O México seguiu sofrendo os impactos da crise de 1994 por muitos anos. O mesmo ocorreu com países do sudeste asiático. No Brasil, a crise de 1999 significou a passagem a anos de recessão, que só recentemente foram superados. Na Argentina a crise teve conseqüências devastadoras do ponto de vista econômico, financeiro, político e social.
São crises que se desatam a partir do elo mais frágil, mais sensível, do processo de reprodução – o setor financeiro -, mas que rapidamente se propagam pelo restante da economia, pelo papel central que esse setor passou a ter e pelos aspectos psicológicos em que se assenta. Não por acaso o segundo livro de Francis Fukuyama se chamou “Confiança”, para denotar como as expectativas, positivas ou negativas, assumem força material no jogo especulativo.
A América Latina foi assim vítima privilegiada dessas crises, que não por acaso atingiram justamente suas três economias mais fortes, que haviam sido exibidas como modelares – a mexicana, a brasileira e a argentina. Nos três casos a crise assumiu a forma de ataque especulativo, de crise financeira, que se alastra para o conjunto da economia. Os capitais especulativos se valem do peso desestabilizador que tem na economia, para fazer valer essa posição, pressionando com uma saída brusca e maciça de capitais, ações governamentais ou simplesmente o jogo do mercado, lucrando enormemente com essas operações.
As crises anteriores tinham como cenários países da periferia, com efeitos que intensificaram a tendência ao enfraquecimento dos paises globalizados e a intensificação da concentração de renda e de poder dos países globalizadores. Mesmo a crise na Rússia poderia ser caracdterizada como a de uma economia tornada periférica, especialmente em meados da década de 1990. A exceção foi a ataque do megaespeculador Georges Soros à libra esterlina inglesa, mas acabou sendo um caso pontual, que não altera a regra general de ocorrência das crises nas periferias.
No seu conjunto, como crises neoliberais, provocaram demandas de remédios neoliberais: mais abertura das economias – como passou fortemente nos países do sudeste asiático -, maior empréstimos do FMI e as correspondentes Cartas de intenção, com aumento dos ajustes fiscais. A economia mexicana recebeu um empréstimo gigante dos Estados Unidos no momento da crise de 1994, inclusive porque se dava no próprio momento em que se assinava o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e do surgimento da rebelião dos zapatistas em Chiapas. Como compromisso, o México usou esses recursos para pagar os empréstimos dos bancos norte-americanos e seguiu aprofundando o modelo neoliberal.
O governo brasileiro de FHC, frente à crise de 1999, elevou a taxa de juros a 49% e assinou a terceira Carta de intenções com o FMI, cujas conseqüências estenderam a recessão por vários anos. Na Argentina, a crise de explosão do modelo de paridade do peso com o dólar, produziu a maior regressão econômica e social que o país conheceu em toda a sua história. O governo de Fernando de la Rua tentou manter o modelo herdado de Carlos Menem e com isso caiu com poços meses do seu mandato presidencial.
A crise atual e suas conseqüências
A crise anterior da economia norte-americano se deu em 2000, quando se desvanecia a ilusão de que a “nova economia” permitiria que o capitalismo não sofresse mais suas crises cíclicas, seja porque a informática permitira prevê-las e permitir que foram evitadas, seja porque novas demandas, como as de computadores, gerariam, da mesma forma que no caso dos automóveis, o lançamento anual de novos modelos, que estenderiam cada vez mais a demanda. Naquele momento, o papel do mercado norte-americano no mundo seguia sendo determinante no mundo, transferindo os efeitos da sua recessão para o resto da economia mundial.
Desta vez a crise norte-americana se dá em um cenário internacional modificado. A continua expansão de países emergentes – entre eles sobretudo a China e a Índia, mas também países latino-americanos, que mantêm ritmos constantes de crescimento, entre os quais particularmente o Brasil e a Argentina – amortece a diminuição da demanda dos EUA e, pela primeira vez, a recessão da economia norte-americana não tem efeitos diretos e devastadores sobre a economia mundial.
Porém, como essa crise se vê agravada com o aumento dos preços dos produtos agrícolas e a continuada crise do petróleo, constituindo-se, na verdade em um triple crise, seus efeitos são mais profundos e extensos do que apenas uma crise cíclica da economia norte-americana. São afetadas então não apenas as exportações para os Estados Unidos, mas também os importadores de energia e de produtos agrícolas, lista que, em uma ou outra proporção, afeta a todos os países do mundo.
No entanto, como todo fenômeno de um sistema marcado pela extrema desigualdade de riqueza e de poder entre regiões e países e dentro de cada país, os efeitos das crises não são igualmente repartidos entre todos. Há ganhadores e perdedores, algozes e vítimas.
Como a crise está em pleno desenvolvimento, seus alcances não podem ainda ser julgados em toda sua plenitude e se dão pugnas para ver quem consegue extrair vantagens, quem trata de perder menos, ainda não é possível saber com precisão os danos em toda sua extensão e quem arcará com eles. É certo que o mundo sairá modificado desta crise até mesmo porque toca em três pontos nodais das relações econômicas e de poder atuais: dinheiro, energia e comida. No entanto, as estruturas de poder, de produção e de distribuição de riqueza reinantes, garantem resultados absolutamente diferenciados para distintas regiões e países como efeito das crises.
Na combinação entre aumento dos preços do petróleo, dos produtos agrícolas e diminuição da demanda dos EUA e da Europa, os países mais pobres, que somam a grande maioria da África, da Ásia e da América Latina, perderão claramente, com fortes pressões recessivas, déficit na balança comercial e aumento do endividamento. Os países exportadores de petróleo e de produtos agrícolas com altas mais significativas, terão suas situações minoradas, mas as pressões inflacionárias não poupam a nenhum país e, com elas, as políticas recessivas voltam a ganhar peso.
Para a América Latina, os efeitos são mais pesados e diretos para os países que seguem dependendo mais fortemente do comércio com os Estados Unidos, o México, a América Central e o Caribe, em primeiro lugar. Em segundo lugar, os países com pautas exportadoras menos valorizadas ou aqueles que tiveram seu ciclo de expansão econômica excessivamente voltada para as exportações, em particular as economias mais abertas, entre elas as que têm tratados de livre comércio com os Estados Unidos, como o Chile, o Peru, além dos já mencionados México, Costa Rica e outros países centro-americanos e caribenhos. Relativamente menos afetados devem ser os países com pautas exportadoras mais diversificadas – seja nos produtos, seja nos mercados -, como o Brasil, em parte a Argentina, e os que participam dos processos de integração regional – seja o Mercosul, seja a Alba. Para estes, as crises são uma oportunidade especial para acelerar e intensificar os processos de integração, de comércio, assim como nos planos financeiro e energético.
Seja pela combinação das crises, seja porque afeta profundamente os Estados Unidos, no momento em que, pela primeira vez, seu peso na economia mundial decresce, o mundo e a América Latina em particular, terão fisionomias distintas, seja acelerando transformações já em andamento, seja dando inicio a novas dinâmicas, passadas as crises – cujas durações e profundidades, ainda não podem ser medidas com toda precisão.
Fonte:http://imediata.org/

Karl Marx manda lembranças, por César Benjamin


Fonte: Folha de S. Paulo (20/9)
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Em meados do século 19, Karl Marx já havia revelado como este jogo se dá.

As economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam “comportamento racional”. Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação.
Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: 
  • (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; 
  • (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; 
  • (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as “necessidades do estômago” são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. 
Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria.
Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D – D” essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D – D”. Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.

*CESAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006).
Fonte:http://imediata.org

domingo, 6 de maio de 2012

Só a luta de classes funciona

 
 Em princípio, não há nada de errado no uso de medidas para eliminar a legislação reacionária, ou usar os tribunais em certas ocasiões para fazer valer os direitos da classe trabalhadora. O que é um erro é depender exclusivamente de tais medidas. Os métodos parlamentar e judicial não podem ser mais do que secundários quando a luta é contra a classe capitalista e o seu Estado. Apenas a luta de classes, que desafia o poder de classe dos patrões e do seu Estado, pode resultar numa vitória significativa e duradoura. 
A luta de vanguarda em Wisconsin contra a ofensiva capitalista que se pretende impor aos trabalhadores e a favor das medidas de austeridade sofreu um duro revés jurídico em 14 de Junho. A Corte Suprema revogou uma ordem judicial contra o projecto de lei anti-sindical convertido em lei em 11 de Março pelo reaccionário governador racista, Scott Walker. 
O tribunal do condado de Dane, depois de uma grande pressão popular, tinha emitido um mandato e medidas cautelares contra o projecto de lei em 26 de Maio. Mas Walker, o arquitecto do chamado “projecto de lei de reparação do orçamento”, contou com o apoio da classe capitalista e impôs-se no Tribunal Superior. 
O problema não é apenas a decisão do tribunal. A questão básica a ser perguntada por sindicalistas, líderes das comunidades oprimidas, estudantes e jovens militantes, todos os que impulsionaram esta grande luta, é a seguinte:
Como pode o movimento operário organizado e os seus aliados permitirem que uma decisão de um pequeno grupo de juízes num tribunal capitalista anule as acções e exigências de centenas de milhares de trabalhadores de Wisconsin - organizados ou não, empregados ou desempregados, imigrantes, agricultores, jovens e estudantes, organizações comunitárias - que estiveram em elevado estado de mobilização desde a ocupação do Capitólio em 14 de Fevereiro? 
Esta lei draconiana acaba com a negociação colectiva dos trabalhadores do sector público. Estabelece as mesmas disposições (anti-sindicais) que prevalecem nos chamados ” estados com direito ao trabalho” do sul dos USA. De acordo com as disposições do orçamento associado, serão retirados 800 milhões dólares ou mais dos serviços públicos - incluindo a educação, alimentação, saúde e assistência habitacional. Centenas de milhões de dólares serão dados aos ricos em incentivos fiscais e contratos. 
A mobilização dos trabalhadores de Wisconsin durante quatro meses foi um dos maiores actos de força e organização contínua dos sindicatos nas últimas décadas. Inspirou solidariedade nacional e internacional e um aumento do apoio público para os sindicatos. 
A ocupação de 18 dias do Capitólio e concentrações em massa atingiu o ponto máximo em 12 de Março, quando cerca de 185 mil pessoas cercaram o Capitólio, em Madison. 
Perante isto como pode um conjunto de leis impopulares impor-se a milhões de pessoas?

Isto não terminou
Não é tarde demais para fazer estas perguntas. Um capítulo da luta de Wisconsin pode ter sido concluído, mas os ataques persistem. A possibilidade de se reabrir a batalha pode voltar em breve. 
A resposta curta é que a luta tinha que passar de uma pressão puramente política de manifestações de massa, para a luta de classes directa, onde o governo, empresários e banqueiros teriam que parar ou fazê-los pagar um preço elevado.
Grande entusiasmo e esperança ocorreu quando a Federação dos Sindicatos Centro Sul de Wisconsin, que representa 45 mil trabalhadores, votou a favor das medidas tomadas pelos sindicatos para se preparar para uma greve geral se a lei fosse aprovada. Esta votação ocorreu depois de uma manifestação de 100.000 pessoas dois dias antes, no Capitólio.
A notícia de uma greve geral em Wisconsin afectou o movimento operário do país. Muitas vezes, grupos radicais exigem que o movimento sindical convoque uma greve geral sem levar em conta as condições reais. Mas, pela primeira vez em anos, pareciam estar acontecendo estas condições e até mesmo uma importante federação sindical discutiu o assunto.
Na semana seguinte, 26 de Fevereiro, as manifestações em Madison cresceram em dimensão chegando a 150.000 pessoas. Manifestações de solidariedade foram realizadas em todos os 50 estados. Delegações chegaram a Madison vindas de longe, incluindo um avião cheio de sindicalistas de Los Angeles.
Com uma manobra parlamentar ilegal, os republicanos aprovaram a lei anti-sindical e em 11 de Março o governador Walker assinou-a. No dia seguinte, deu-se a maior manifestação até ao momento, em que a AFL-CIO estimou que 185 mil pessoas tinham participado, incluindo uma grande delegação de agricultores de Wisconsin com os seus tractores.
Nesse momento tornou-se muito claro que nenhum tipo de pressão política ia demover Walker, os republicanos ou a classe dominante por trás deles.
As manifestações atingiram intensidade máxima. A lei foi aprovada. As bases e os dirigentes sindicais de nível mais baixo esperavam para ver, agora que se havia aprovado o projecto de lei, qual seria o próximo passo.
Uma opção era voltar a ocupar o Capitólio com concentrações de massas. A ocupação terminara por uma combinação de mentiras e enganos de funcionários do governo e sindicatos, que ajudaram a convencer os estudantes e trabalhadores a deixar o edifício.
Haveria ânimo para uma proposta de greve geral? O projecto de lei não foi suspenso nem anulado. A luta deveria ser intensificada.
O site da Federação Sul-Central de Wisconsin publicou uma explicação detalhada de como o movimento operário, em Ontário, no Canadá, levou a cabo entre 1995 e 1998, onze dias de acções. Estas greves gerais tinham derrotado um duro programa de austeridade e de medidas anti-sindicais.
Os líderes da luta de Ontário descreveram em detalhe a forma de superar as divisões entre os sindicatos e a criação de alianças com organizações comunitárias e movimentos sociais. Mostraram como criar comités de greve com o esforço conjunto dos sindicatos e da comunidade. Isto é muito importante em Wisconsin porque, apesar de o centro da luta ser em Madison, os negros, latinos e comunidades de imigrantes, documentados ou não, serão fundamentais para qualquer luta bem sucedida contra o governo.
Educar os trabalhadores brancos na solidariedade com as comunidades oprimidas será fundamental. Os dirigentes sindicais de Ontário mostraram como conduzir uma campanha sustentada para educar membros do sindicato em salas de aula, casas, bares e cafés. Eles explicavam como superar os diferentes estilos de organização entre os grupos comunitários e sindicatos, lidando com o governo, a polícia, os empregadores, os meios de comunicação, etc.
Descreviam a forma de organizar serviços de transporte, serviços médicos de emergência, como treinar para os piquetes; dividir a cidade em zonas; criar planos de curto e longo prazo e como estabelecer um órgão administrativo para organizar e dirigir a greve. 
Mais importante foram os exemplos de como o movimento canadiano se recusou a reconhecer que a violação de direitos dos trabalhadores era “legal” e em vez disso, disse que a luta em si é que o era. 
Assim, embora os líderes sindicais no país, basicamente, não tivessem nenhuma experiência em convocar uma greve geral, tinham disponível uma abundância de informações sobre como fazê-lo. 
No entanto, no site de Wisconsin, ao lado do documento sobre a greve geral, havia um memorando sobre os direitos legais, que praticamente declarava que qualquer acção a favor de uma greve geral ou de qualquer greve contra o Estado era ilegal e poderia pôr o sindicato e seus membros em risco de multas e prisões. 
Nesta difícil situação, a liderança sindical em Wisconsin permaneceu em silêncio sobre a greve geral. Em vez disso, voltou a atenção para o movimento para destituir os legisladores republicanos e para a possibilidade de o Tribunal anular a lei.
Todo o peso da decisão de convocar uma greve geral não pode ser deixado exclusivamente sobre os ombros dos dirigentes. Para tomar uma decisão tão importante, a liderança estadual e municipal deve saber que estão a desafiar a classe dominante inteira. Era obrigatório para a liderança sindical nacional declarar abertamente que apoiava incondicionalmente uma luta crucial em que o destino dos funcionários públicos estava em jogo. No entanto o presidente da AFL-CIO Richard Trumka aparecia em reuniões para apoiar os trabalhadores nunca apontando na direcção da luta de classes, mas mantendo a linha de apoio ao Partido Democrata. 
Os trabalhadores nunca foram derrotados em qualquer grande batalha de classe contra o estado capitalista. O revés foi o resultado da falta de os líderes sindicais em usarem a força, energia e determinação mostradas pelos trabalhadores, para superar as falsas alegações de “legalidade” capitalista determinados pelos legisladores e pelos tribunais. Em vez disso, os líderes aceitaram as decisões capitalistas.
Em princípio, não há nada de errado no uso de medidas para eliminar a legislação reaccionária ou usar os tribunais em certas ocasiões para fazer valer os direitos da classe trabalhadora.
O que é um erro é depender exclusivamente de tais medidas. Os métodos parlamentar e judicial não podem ser mais do que secundários quando a luta é contra a classe capitalista e o seu estado. Apenas a luta de classes, que desafia o poder de classe dos patrões e do seu Estado, pode resultar numa vitória significativa e duradoura. 
A única maneira de conseguir essa vitória é que os membros de base do movimento operário se organizem de baixo para cima, construindo comités para promover a luta de classes contra os patrões e seu Estado e forçar os líderes sindicais a lutar ou, caso contrário, afastá-los e assumir os sindicatos a partir de baixo. 
Tradução do Inglês para o espanhol para Workers World (EUA)
Tradução de espanhol: Guilherme Coelho

terça-feira, 1 de maio de 2012

Primeiro de Maio: dia de luta (e festa) ou dia de festa (e luta)?


Por trás dos mitos fundadores do 1º de Maio, o caráter dúplice desta data – simultaneamente dia de luta e de festa – aparece desde suas origens, e não como “desvio” de um evento originalmente criado como dia de luta.
haymarketManifestação em Haymarket, em Chicago, Maio de 1886.
É sabido e consabido que o Primeiro de Maio é o Dia do Trabalhador, não o Dia do Trabalho como consta em nossos calendários de feriados; que a data surgiu do protesto da classe trabalhadora contra o Massacre de Haymarket, acontecido em 1886 em Chigago (EUA), no qual policiais abriram fogo contra uma multidão de manifestantes em resposta a uma bomba lançada contra a polícia; que por supostamente haver lançado a bomba foram condenados à morte Georg Engel, Adolf Fischer, Albert Parsons, Auguste Spies e Louis Lingg, sendo que este último se suicidou para não ser enforcado; que em resposta a estas execuções, os trabalhadores de todo o mundo resolveram paralisar suas atividades todos os anos no dia Primeiro de Maio etc. Mas, como em qualquer dia comemorativo, nem sempre o mito fundador reflete fielmente a história real. Mitos, afinal, são histórias fantasiosas que se contam de geração em geração para registrar um evento marcante ou os feitos de determinada figura histórica, para marcar a passagem do tempo ou explicar fenômenos da natureza, enquanto a história se contenta, mais humildemente, em explicar o que se passou para que não cometamos os mesmos erros do passado.
A história tradicional do Primeiro de Maio, tal como é contada por sucessivas gerações de militantes do movimento operário, mesmo obscurecida pelo tempo e pela ação daqueles que quiseram usar a data para seus próprios fins – desde os nazi-fascistas, que recuperaram o Dia do Trabalhador como Dia do Trabalho para abafar a memória das lutas; até os capitalistas de todas as matrizes, que ou bem mudam a data do Dia do Trabalho para evitar a agitação socialista, ou bem usam o dia para sortear carros, casas, dinheiro e prêmios para os operários-padrão – contém ainda elementos de mito, de lenda, que não contribuem para expor na própria gênese da data comemorativa elementos que depois vieram a ser qualificados como elementos de sua degeneração.
Deixemos, então, a mera narrativa dos fatos e acontecimentos para as Wikipédias. É preciso resgatar alguns elementos menos conhecidos do Primeiro de Maio, levantar hipóteses sobre sua origem para analisarmos melhor seu conteúdo e desenvolvimento histórico. Teremos, para isso, que recuar até muito antes de 1886. Surpreendentemente para um artigo aberto com a crítica das lendas e mitos, nos vemos obrigados a recuar até as origens de uma data comemorativa que os místicos conhecem bem – a Noite de Walpurgis.
I
1_maio_mastro
Gravura que representa o Maypole, ou dança do mastro.
O primeiro dia de maio, no Hemisfério Norte, cai quase exatamente entre um solstício e um equinócio, marcando a transição entre inverno e primavera; por este motivo, antigas religiões européias, cada uma por seu motivo (celtas homenageavam Beltane, o deus do fogo, enquanto vikings invocavam seus deuses da fertilidade), deixaram marcada na tradição esta data como a da Noite de Walpurgis, na qual se acendiam grandes fogueiras e dançava-se algo semelhante ao que se conhece no Brasil e em Portugal como a Festa do Mastro: um grande mastro com fitas era erguido para que jovens dançassem ao redor dele segurando cada um a ponta de uma das fitas, resultando que ao final da dança, com as fitas já bastante embaraçadas ao redor do poste, poderiam – quem sabe! – arrumar alguém com quem se amarrar…
Apesar de a tradição destas comemorações de maio manter-se viva na Alemanha, na Grécia, na Suécia, na Inglaterra e em alguns outros países do Hemisfério Norte através de fogueiras, da festa da Rainha de Maio, da Morris Dance e da “dança do mastro”, tanto a perseguição oficial – o Parlamento britânico chegou a declarar a festa ilegal em 1644 por força de sua “promiscuidade” – quanto a dessacralização do mundo promovida pelo capitalismo apagaram qualquer vestígio religioso da comemoração, que ficou restrita a um dia de celebração da fertilidade, hoje quase esquecido.
Tal como o Parlamento britânico muito depois, a Igreja Católica tentou eliminar os festejos sob o argumento de que esta festa seria, na verdade, o “aniversário do diabo” ou algum tipo de sabá; sendo infrutífera a estratégia, a Igreja incorporou a Noite de Walpurgis em seu calendário como celebração do martírio de santos, comemoração da descoberta de relíquias santas ou desculpas semelhantes; o mais curioso é o Dia de Santa Walburga (também conhecida como Walpurga), monja beneditina que teria vivido entre 710 e 779 e dirigido o convento de Heidenheim, na Alemanha. Além da evidente semelhança de nome entre a santa e a data comemorativa, celebrava-se sua memória queimando fogueiras contra os poderes malignos, tal como os “pagãos” acendiam fogueiras em homenagem a seus deuses…
II
Mas deixemos estas velharias para trás. Retornemos a 1886. Entremos brevemente na história da manifestação que desembocou no Massacre de Haymarket.
O Primeiro de Maio resultou de um crescendo nas lutas pela jornada de oito horas nos Estados Unidos. Já em 1829, trabalhadores reivindicaram do legislativo de Nova Iorque a implementação da jornada normal de trabalho. O movimento operário estadunidense estava então dividido em algumas grandes federações sindicais e organizações similares, que disputavam os sindicatos com as piores táticas. Enquanto a National Labor Union (NLU) e os Industrial Congresses eram organizações criadas de cima para baixo por lideranças sindicais, organizações como os Knights of Labor surgiram posteriormente a partir da base como grupos secretos contra as listas negras e dedos-duros [denunciantes e provocadores]. A Federation of Organized Trades and Labor Unions (FOTLU) – organização que viria a se tornar em 1886 a toda-poderosa American Federation of Labor (AFL), e que já era desde 1881 presidida por Samuel Gompers – surgiu a partir da iniciativa de membros dos Knights of Labor descontentes com a organização, e muito breve, após sua transformação em American Federation of Labor, viria a suplantar sua supremacia no movimento operário. A disputa entre organizações não era limitada por qualquer forma de solidariedade de classe: os Knights of Labor, por exemplo, chegavam ao ponto de não apenas proibir seus membros de participar de greves e mobilizações puxadas pela FOTLU, mas também recomendavam-lhes oferecer-se como fura-greves em tais situações.
Em 1884, deliberou-se no quarto congresso da FOTLU por um ultimato: ou bem a jornada de oito horas seria implementada por lei, ou bem os trabalhadores estadunidenses entrariam em greve geral no dia 1.º de maio de 1886. Andrew Johnson, então presidente dos EUA, promulgou ainda em 1886 a Lei Ingersoll implementando a jornada reivindicada, mas como ela não passava de letra morta a FOTLU decidiu manter o ultimato e convocou a greve geral. O primeiro dia da greve contou com a participação de dez mil trabalhadores em Nova Iorque, onze mil em Detroit, cerca de dez mil em Milwaukee e, no país inteiro, entre trezentos a quinhentos mil trabalhadores conseguiram implementar a jornada de oito horas através da greve e de manifestações massivas, ou de sua simples ameaça.
Só em Chicago a situação ficou mais tensa. A greve, que contou com quarenta mil participantes no dia 1º de maio, durou mais dois dias. Fura-greves foram contratados, e os grevistas, cuja paralisação, comícios e passeatas seguiam bastante tranquilos e sem incidentes até o dia 3 de maio, foram atingidos pela fuzilaria da polícia na porta de uma fábrica, evento que resultou em seis mortes. Este fato foi o estopim [rastilho] para a convocação, para a noite de 4 de maio, de um comício gigantesco marcado para a Haymarket Square (“Praça do Mercado do Feno”) – não pela FOTLU, mas por uma organização anarquista chamada International Working People’s Association (IWPA) fundada e liderada por Albert Parsons.
O comício corria bem, e após a fala de diversos oradores não houve qualquer sinal de violência – mesmo o prefeito [presidente da Câmara], que havia parado para ver o comício, voltou para casa mais cedo, talvez acreditando que nada fosse acontecer – até que a polícia decidiu dispersar a multidão às 10h30min; alguém lançou uma bomba contra a formação policial que já marchava contra a multidão, e o que se seguiu foi uma fuzilaria descontrolada que durou cinco minutos e causou a morte de quatro trabalhadores e seis policiais, deixando feridos sessenta policiais e um número desconhecido de trabalhadores – poucos dentre os feridos “civis” buscaram cuidados médicos, pois temiam a prisão.
O resto é história: Georg Engel, Adolf Fischer, Albert Parsons, Auguste Spies e Louis Lingg, lideranças do movimento operário local, foram presos sob acusação de haverem planejado e executado o atentado a bomba, depois condenados à morte etc. Basta voltar ao primeiro parágrafo que está tudo lá, e quem quiser pode ir a qualquer fonte atrás de informações. Não obstante Samuel Gompers, presidente da FOTLU e depois da AFL, dizer que “embora os militantes de base mais equilibrados da AFL não concordem com os radicais, eles não podem abandoná-los ao inimigo comum”, ele não hesitava em dizer também que “divergiu por toda a vida com os métodos dos condenados”. Já Terence V. Powderly, líder dos Knights of Labour, diria que “os Knights of Labour não têm filiação, associação, simpatia ou respeito pelo bando de assassinos covardes, degoladores e ladrões conhecidos como anarquistas”.
Observem que coisa curiosa: o Massacre de Haymarket, fato que, segundo o mito fundador, dá origem ao Primeiro de Maio, na verdade aconteceu no dia 4 de maio. Para a posteridade ficou não a data do evento, mas a data determinada pela FOTLU para a paralisação inicial. Pior: nem a AFL – criada 17 dias após o Massacre de Haymarket – nem os Knights of Labour apoiaram os condenados.
III
ben_shahn_unemployment1938
Ben Shahn, Desemprego, 1938.
Trairagens [traições] à parte, como o Primeiro de Maio foi transformado na data internacional de luta dos trabalhadores?
Rosa Luxemburgo, no artigo Quais as origens do Primeiro de Maio? (publicado no jornal polonês Sprawa Robotnicza [Causa Operária] em 1894), afirma que a primeira tentativa de criar um “feriado proletário” como parte da luta pela jornada de oito horas surgiu na Austrália, em 1856; a data originalmente prevista pelos australianos não foi o Primeiro de Maio, mas o dia 21 de abril. Resgata que a ideia do “feriado proletário” fermentou mundo afora e que foi bastante discutida em 1889 no congresso de fundação da II Internacional, em julho de 1889:
“(…) o movimento operário na Europa havia se fortalecido e animado. A mais poderosa expressão deste movimento ocorreu no Congresso Internacional de Trabalhadores em 1889. Neste Congresso, assistido por quatrocentos delegados, foi decidido que a jornada de oito horas deveria ser a primeira reivindicação. Foi então que o delegado dos sindicatos franceses, o trabalhador [Raymond] Lavigne de Bordeaux, fez uma moção para que esta reivindicação fosse expressa em todos os países através de uma paralisação universal do trabalho. O delegado dos trabalhadores americanos [Hugh McGregor] chamou a atenção para a decisão de seus camaradas de fazer greve no dia 1.º de maio de 1890, e o Congresso deliberou que esta data seria de celebração proletária universal.”
Mas Rosa resumiu demais as coisas, como seria de se esperar num artigo jornalístico. Na verdade, a mesma American Federation of Labour cujo presidente buscava não se associar com a imagem dos “radicais”, alguns anos depois, já havia adotado o Primeiro de Maio como data oficial para suas manifestações. Ponto para o “golpe de gênio” de Samuel Gompers, que deu ordem direta para que a delegação da AFL ao congresso apresentasse a proposta de data. Nas palavras do próprio:
“Na medida em que os planos para a jornada de oito horas eram desenvolvidos, estávamos constantemente pensando em como alargar nossos objetivos. Como a data de realização do Congresso Internacional de Trabalhadores de Paris se aproximava, me veio a ideia de que poderíamos ajudar nosso movimento com uma moção de simpatia daquele congresso.”
Logo Gompers contatou Hugh McGregor para enviá-lo ao congresso, onde, mesmo enfrentando a oposição da delegação alemã – que incluía Wilhelm Liebknecht e August Bebel, líderes da poderosa social-democracia germânica –, fez aprovar a moção cujo texto original é este:
“Uma grande manifestação internacional deve ser organizada numa data fixa, de modo que os trabalhadores de todos os países e de todas as cidades possam, num dia determinado, dirigir simultaneamente às autoridades públicas uma reivindicação para fixar a jornada de trabalho em oito horas por dia e para colocar em prática as demais resoluções do Congresso Internacional de Paris. Tendo em vista o fato de que tal manifestação já foi deliberada pela American Federation of Labour na sua convenção de dezembro de 1888 em St. Louis para acontecer no dia 1.º de maio de 1890, este dia é aceito como o dia para a manifestação internacional. Os trabalhadores das várias nações devem organizar a demonstração de modo apropriado às condições de seus países.”
IV
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Max Beckmann, A Noite, 1918-1919.
Há quem pergunte a esta altura: “que diabos têm a ver Primeiro de Maio, uma festa pagã perdida no tempo e essa trairagem toda?” Não pensem que a Igreja Católica é a única a fixar suas datas comemorativas com base em festas populares; o movimento operário, ou ao menos suas organizações mais ostensivas, também faz das suas. É tanta coincidência que não parece que esta data haja sido escolhida inocentemente pelo movimento operário para grandes paralisações.
É difícil saber, hoje, o que realmente se passou pela cabeça dos delegados aos congressos da FOTLU de 1884 e da AFL de 1888, mas é razoável supor que, no congresso de 1884, uma vez que os Estados Unidos são um dos países onde, ao menos no século XIX, a tradição das festas populares do Primeiro de Maio se mantinha, estes delegados hajam escolhido como dia de paralisação justamente um dia de festas populares para unir a propaganda e a ação militantes aos festejos – ou seja, unir o útil ao agradável. Em 1888, se esta hipótese estiver correta, o que a AFL fez foi ligar o Massacre de Haymarket ao Primeiro de Maio ao invés de rememorá-lo em sua data correta, pois assim, mais uma vez, a agitação poderia ser feita durante os festejos populares.
A hipótese é arriscada, mas não surge à-toa. Já em 1894 o poeta Walter Crane escrevera um poema chamado The Worker’s Maypole (O Mastro de Maio dos Trabalhadores), que ligou diretamente o Primeiro de Maio com a dança do mastro remanescente da antiga Noite de Walpurgis. (Maypole, que se traduz diretamente para o português como “mastro de maio”, é o nome inglês para o mastro usado na dança de mesmo nome, típica das festas de Primeiro de Maio no mundo anglo-saxão.) Além disso, não faltam registros de que, apesar de a Noite de Wapulrgis ser uma festa eminentemente anglo-saxã, germânica e nórdica, no início do século XX o Primeiro de Maio celebrava-se em regiões do mundo não afetadas por estas culturas não apenas com grandes comícios, mobilizações e paralisações – que invariavelmente encontravam violenta oposição das autoridades, especialmente da polícia e das forças armadas –, mas também com festas, piqueniques e outras atividades aparentemente menos “militantes”.
Se esta hipótese estiver correta, o duplo caráter do Primeiro de Maio – dia de festa e luta – não parece ser invenção recente, mas sim elemento constitutivo seu desde o princípio, embora tudo indique que, postos seus dois aspectos na balança, nesta época o prato da luta pesasse mais.
V
Apesar das trairagens de suas origens, o Primeiro de Maio foi vigorosamente adotado pelos trabalhadores de todo o mundo como seu dia de luta – e de festa. Não foram poucos os trabalhadores, nestes primeiros anos do Primeiro de Maio, a ter sua consciência social despertada a partir da história dos Mártires de Chicago e das ações militantes de todos os anos.
A simbologia do Primeiro de Maio, a bem da tranquilidade da exploração capitalista, precisava ser extinta, morta, soterrada por cem mentiras contadas pelo menos cem vezes. Vimos que tanto a AFL quanto os Knights of Labour já haviam tentado lançar uma pá de terra sobre a memória dos condenados; esta segunda pá de terra pretendia ser definitiva, pois não era lançada apenas sobre a memória dos condenados, mas sobre o caráter combativo do Primeiro de Maio. Surgiu, assim, uma longa fila de indivíduos, grupos e classes sociais dispostas a mistificar o significado do Primeiro de Maio e aproveitar a mobilização social provocada pela data em seu próprio favor.
Em primeiro lugar na fila dos mistificadores vieram os capitalistas. Os Knights of Labor, conhecidos por sua postura colaboracionista frente aos empresários com quem negociavam, inauguraram a tradição de um “dia do trabalho” fazendo passeatas e manifestações na primeira segunda-feira de setembro a partir de 1882; esta data foi decretada Dia do Trabalho nos EUA pelo presidente Grover Cleveland, que pretendia, explicitamente, evitar qualquer forma de agitação socialista fundada no Massacre de Haymarket. Em 1958, no auge da Guerra Fria, o Congresso estadunidense decretou que o 1º de maio seria não o Dia do Trabalhador ou do Trabalho, mas sim o Dia da Lealdade: um dia “dedicado à reafirmação da lealdade aos EUA e ao reconhecimento da herança da liberdade americana”, segundo o texto da lei que o instituiu. Mais modestamente, Pio XII tentaria em 1955 enfiar pela goela dos católicos um certo “Dia de São José Operário” para substituir o Primeiro de Maio, com menos sucesso.
Em segundo lugar na fila dos mistificadores vieram os burocratas da União Soviética. Já em 1918 o 1º de maio havia sido transformado em assunto de Estado; segundo um decreto de 12 de abril de 1918, as estátuas em homenagem aos czares e seus servos já deveriam ter sido retiradas nesta data, e outras novas, criadas por uma comissão da diretoria do Departamento de Belas-Artes do Comissariado para a Educação, deveriam ser inauguradas durante o evento. A mesma comissão teria o dever de “organizar a decoração da cidade para o 1º de maio e substituir inscrições, emblemas, nomes de ruas, brasões etc. por outros novos que reflitam as ideias e o sentimento da Rússia revolucionária e operária”. Anatoly Lunacharsky, um dos signatários deste decreto, registraria em seu diário a respeito do 1º de maio em Petrogrado:
“Sim, a celebração do Primeiro de Maio foi tornada oficial. Foi celebrada pelo Estado. A força do Estado ficou evidente de várias maneiras. Mas não é inebriante pensar que o Estado, até recentemente nosso pior inimigo, agora nos pertence e celebrou o Primeiro de Maio como seu grande festival? Ainda assim, (…), se este festival fosse meramente oficial, não teria produzido nada além de frieza e vacuidade. Mas não, as massas do povo, a Marinha, o Exército Vermelho, todos os trabalhadores sinceros direcionaram seus esforços para ele. Podemos dizer, portanto, que este festival do trabalho nunca foi tão bonito.”
Daí para as grandes paradas e marchas sob Stalin não faltou muito.
Em terceiro lugar na fila dos mistificadores vieram os fascistas italianos. As massivas paradas fascistas tinham como modelo nada mais, nada menos que as comemorações do 1º de maio na União Soviética sob o stalinismo. O dia foi incorporado às comemorações fascistas, dada a origem sindicalista de sua militância.
Em quarto lugar na fila dos mistificadores vieram os nazistas. O Primeiro de Maio na Alemanha sob o nazismo foi transformado, como outros eventos, num palanque para os inflamados discursos de Adolf Hitler perante milhares de nazistas enfileirados sob gigantescas suásticas desfraldadas. Além disso, os responsáveis pela propaganda e arquitetura nazistas trataram de resgatar a tradição nórdica da Noite de Walpurgis – era comum encontrar “Mastros de Maio” em meio às torres com suásticas, tal como no bombástico festival do 1º de maio de 1934 testemunhado por James D. Mooney – executivo da General Motors que, mesmerizado, entraria no gabinete de Hitler no dia seguinte ensaiando um desajeitado sieg heil e facilitaria as relações entre a Opel (subsidiária da GM) e o governo alemão – ou no 1º de maio de 1936, realizado no Lustgarten berlinense.
Estas quatro formas de mistificação do caráter de luta do Primeiro de Maio frutificaram mundo afora, a leste e a oeste, em países capitalistas ou “socialistas”. Nâo é à-toa que Getúlio Vargas cooptou a data durante o Estado Novo e transformou-a em Dia do Trabalho, uma festa repleta do culto à personalidade de “Gegê, o pai dos pobres” na qual os dirigentes sindicais que contavam com a aprovação do Ministério do Trabalho eram chamados a bajulá-lo. Salazar, ditador de menos sorte neste aspecto, bem que tentou seguir o caminho americano e transformar o Primeiro de Maio no dia de São José Operário – coisa tão estapafúrdia que a proibição pura e simples de qualquer comemoração do Primeiro de Maio pareceu-lhe mais adequada.
Mas há um porém. O que fazem estes mistificadores além de tomar em mãos a balança onde fragilmente se equilibram os aspectos combativo e festivo do Primeiro de Maio e lançar mais pesos no prato das festividades? O dia de São José Operário e o Dia da Lealdade são, sim, artificialidades, mas por acaso os soviéticos inventaram alguma coisa nas comemorações do Primeiro de Maio além da gigantesca ornamentação para a festa? Os fascistas italianos, o que fizeram além de amplificar à exaustão as comemorações sindicais já existentes e submetê-las a seu controle direto? Os nazistas inventaram, sim, a mise en scène e a parafernália propagandística por trás dos discursos hitlerianos, mas por acaso inventaram Walpurgis ou o mastro de maio?
Daí a provocação: o que fazem os sindicatos de hoje com seus mega-espetáculos, seus sorteios de carros e casas, suas comemorações anódinas, o que fazem eles além de seguir a mesma trilha de seus antecessores no esforço hercúleo de ressaltar o caráter festivo do Primeiro de Maio em detrimento de seu caráter combativo?
VI
Um corte abrupto – e, convenhamos, estranho – para as Olimpíadas de 1984. Vinte minutos após a primeira colocada, Gabriela Andersen-Schiess, 39 anos, maratonista suíça, entra no estádio, para o horror da platéia. A insolação e a desidratação faziam dela a mais pálida imagem de uma atleta, ou mesmo de um ser humano. Semi-desmaiada, o tronco recurvado e a força da gravidade a empurrá-la para a frente, quase desabando a cada passo, tentava evitar a desclassificação afastando todas as equipes médicas que vinham atendê-la; ocasionalmente, parava e segurava a cabeça com o braço direito – o esquerdo pendulava desorientadamente, rijo de cãibra – enquanto os quatrocentos metros da reta final pareciam-lhe cada vez mais longos. Quase seis torturantes minutos após sua entrada, cruzou a linha de chegada e desmaiou, exausta, nos braços dos médicos. Apesar de seu fracasso competitivo, seu tempo de 2h48min45s teria-lhe valido a medalha de ouro nas cinco primeiras maratonas olímpicas. Por que não abandonou a prova antes? Quis terminar o percurso porque, segundo contou a jornalistas, devido a sua idade aquela talvez fosse sua primeira e última chance de concorrer numa Olimpíada – e seguiu seu objetivo até muito além do limite de suas forças.
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Primeiro de Maio na Coreia do Norte
O Primeiro de Maio vem quase no mesmo passo. Apropriado para os fins mais diversos por capitalistas, nazistas, fascistas, burocratas e toda escroqueria correlata; amplamente superado como dia de luta por eventos como os Dias de Ação Global, o Grito dos Excluídos, a Outra Campanha, o Abril Vermelho e outras datas menos vetustas; solidamente incorporado aos calendários oficiais de diversos países como feriado; sua origem de luta resta hoje drástica e irremediavelmente desfigurada; seu aspecto festivo serve apenas para engordar o bolso dos artistas que cobram altos cachês nos shows organizados por sindicatos e para alimentar a ilusão dos trabalhadores que a eles comparecem sonhando com o carro cujo sorteio em tais eventos é tão certo quanto a mais-valia nossa de cada dia. Por que dar-lhe ainda crédito como data de mobilizações, cento e treze anos após sua controversa origem?
Mesmo sob os regimes mais autoritários, mesmo sob a mistificação mais cerrada, a celebração do Primeiro de Maio é tradição tão arraigada que não há data mais propícia para mobilizações massivas, ou mesmo atos isolados de resistência – os eventos de 1962 em Portugal e de 1968 no Brasil bem o testemunham. Além disso, não há movimento social autônomo que não o recupere em suas atividades de formação política – que o digam o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o Movimento de Sem-Teto da Bahia (MSTB), o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento de Trabalhadores Desempregados (MTD), a Liga de Camponeses Pobres (LCP) e tantos outros – ou em suas ações militantes – que o digam os autonomen alemães, os piqueteros argentinos, os ativistas que participam do MayDay e tantos outros.
Combalido, enxovalhado, trôpego, o Primeiro de Maio chegou até nós, que vivemos num mar de trabalhadores cada vez mais precarizados a cercar ilhas de hiper-qualificação laboral praticamente inatingíveis e também postos de trabalho formal, com direitos garantidos, que se disputam a unhas e dentes. A instabilidade e a fragmentação são traços marcantes deste momento vivido pela classe trabalhadora. Será possível pormos mais peso na balança do aspecto combativo do Primeiro de Maio para reequilibrá-lo com seu aspecto festivo? Como fazê-lo? Com quem? E para quando? Ou tentá-lo servirá, hoje, apenas para recolocar aos olhos do público o mesmo espetáculo da maratonista suíça de vinte e cinco anos atrás – uma demonstração de esforço sobre-humano, de gana e perseverança, fadada, entretanto, ao mais absoluto fracasso? Passa Palavra
FONTES (classificadas por ano)
Terence. V. Powderly. (1890) Anarchy and the Knights.
Eleanor Marx. (1890) Speech at First May Day at Hyde Park.
Rosa Luxemburg. (1894) What are the origins of May Day?
Samuel Gompers. (1925) Seventy years of labor.
Victor Serge. (1930) O ano I da Revolução Russa.
Alexander Trachtenberg. (1932) The history of May Day.
Edward Hallett Carr. (1950-1978) Historia de la Rusia Soviética.
Aziz Simão. (1966) Sindicato e Estado: suas relações na formação do proletariado de São Paulo.
Boris Koval. (1968) História do proletariado brasileiro.
Francisco Foot Hardman. (1983) Nem pátria, nem patrão! Memória operária, cultura e literatura no Brasil.
Eduardo Colombo e outros. (2004) História do movimento operário revolucionário.
Arquivo Marxista na Internet. Dossiê Primeiro de Maio. (http://www.marxists.org/subject/mayday/index.htm)
Fonte: passapalavra.info/?p=3162

O 1º DE MAIO


Por Rudolf Rocker

O primeiro raio de sol do dia de maio surge sobre os túmulos silenciosos de Waldheim e descobre lentamente o modesto monumento dos cinco anarquistas que sucumbiram em novembro de 1887 nas mãos do carrasco. É do túmulo comum dos cinco militantes que surge a idéia universal do Primeiro de Maio.
O terrível assassinato de Chicago foi o epílogo sinistro desse grande movimento que se produziu em 1o de maio de 1886 em todos os centros industriais dos Estados Unidos a fim de obter para o proletariado americano, com a arma da greve geral, a jornada de oito horas. Esses cinco anarquistas, cujos restos repousam sobre o verde gramado de Waldheim, foram os porta-vozes mais valorosos e mais audaciosos na grande luta entre o capital e o trabalho, e tiveram de pagar com suas vidas a fidelidade a seus irmãos de combate. Inspirado pelo espírito dos cinco enforcados, o Congresso Internacional de Paris, em 1889, concebeu a resolução que proclamava o 1o de maio dia feriado do proletariado universal e nunca uma resolução encontrou eco tão poderoso e entusiasta no seio do grande povo dos deserdados. Viu-se na realização prática dessa resolução um símbolo da emancipação vindoura.
Nem o ódio cego dos exploradores, nem as miseráveis tentativas dos políticos socialistas foram capazes de mudar o sentido profundo dessa manifestação característica ou de fazê-la degenerar. Como um intenso clarão, a idéia viveu no imenso coração do povo trabalhador de todos os países e não pôde ser extirpada, mesmo durante os tempos de dura reação. Isso porque se tratava de uma idéia surgida das profundezas e que deveria manter solidamente no espírito das massas uma esperança lutando por  uma expressão viva e apelando à vigorosa consciência dos oprimidos como um novo pensamento. A idéia ressurgiu do mais profundo: não é de cima que florescerá nosso bem-estar, é de baixo que deve vir a força que romperá nossas correntes e dará asas à nossa aspiração.
O 1o de Maio é para nós um símbolo, um símbolo da liberação social pelo meio da ação direta que encontra sua forma mais acabada na greve geral. Todos aqueles que sofrem a servidão e que a preocupação cotidiana da existência marca com seu selo, o enorme exército de todos aqueles que extirpam o tesouro os tesouros da terra, trabalham nos altos fornos ou dirigem a charrua pelos campos, todos esses milhões de seres que devem satisfazer o capital, em inumeráveis fábricas e oficinas, por um tributo de sangue, os trabalhadores manuais e intelectuais de todos os continentes, todos serão parte dessa imensa e invencível associação do seio da qual brotará um novo futuro assim que o conhecimento de sua desoladora existência ancorar fortemente na consciência de cada um de seus membros. Sobre seus ombros, repousa um mundo inteiro; ela sustenta o destino de toda a sociedade em suas mãos e sem sua força criadora, toda vida humana está condenada à morte.
A venda de seu trabalho e de seu espírito é a causa oculta de sua servidão e de sua dependência: a recusa de efetuar esse trabalho para os monopolistas deve, por conseqüência, transformar-se em instrumento de sua emancipação. O dia em que essa evidência iluminar o espírito dos oprimidos, esse dia anunciará o grande crepúsculo dos deuses da sociedade capitalista.
O 1o de Maio dever ser para nós um ensinamento que leve à consciência dos trabalhadores e dos oprimidos a enorme energia que está em suas mãos. Essa força deita raízes na economia, em nossa atividade como produtores. A sociedade nasce todo dia dessa força e recebe a todo momento as possibilidades de sua própria existência. Nisso, o membro de um partido não conta, mas sim o mineiro, o ferroviário, o ferreiro, o camponês, o homem que produz os valores sociais e cuja energia criadora mantém o mundo em movimento. A alavanca de nossa força está aí; nesse fogo deve ser forjada a arma que ferirá mortalmente o bezerro de ouro.
Não falamos aqui da conquista do poder, mas da conquista da fábrica, dos campos, da mina. Pois todo poder político não foi outra coisa senão violência organizada que impõe às grandes massas do povo a dependência econômica em relação às minorias privilegiadas. A opressão política e a exploração econômica vão juntas, completam-se e uma não pode existir sem o apoio da outra. É absurdo crer que futuras instituições governamentais constituirão um dia uma exceção.
O importante não é a etiqueta exterior, mas a essência de uma instituição; e a pior forma das tiranias foi sempre aquela exercida em nome do povo ou de uma classe. Por conseqüência, toda autêntica luta contra o monopólio da posse é ao mesmo tempo uma luta contra o poder que o protege, e, assim como o objetivo do proletariado militante no terreno econômico é a abolição e a supressão do monopólio privado sob todas as suas formas, seu objetivo político deve ser também a supressão de toda instituição do poder. Aquele que utiliza uma dessas formas para aniquilar a outra não compreendeu a verdadeira significação do socialismo, e é sempre a aplicação do mesmo princípio de autoridade que foi até aqui a pedra angular de todas as tiranias.
O 1o de Maio deve ser um símbolo da solidariedade internacional, de uma solidariedade não limitada à competência do Estado nacional que corresponde sempre aos interesses das minorias privilegiadas do país. Entre os milhões de assalariados que suportam o jugo da escravidão, existe uma unidade de interesses, qualquer que seja a língua que eles falem e a bandeira sob a qual nasceram.
Mas entre os exploradores e os explorados de um mesmo país, existe uma guerra ininterrupta que não pode ser solucionada por qualquer princípio de autoridade e que adquire suas raízes nos interesses contraditórios das diversas classes.
Todo nacionalismo é um disfarce ideológico dos verdadeiros fatos: ele pode, num dado momento, arrastar as grandes massas para seus representantes mentirosos, mas ele nunca foi capaz de abolir desse mundo a brutal realidade das coisas.
As mesmas classes que, na época da Guerra Mundial, tentaram elevar o patriotismo do povo até a exaltação, enviam hoje os produtos do trabalho do proletariado alemão àquele que foi em outros tempos “o inimigo estrangeiro”, enquanto falta às grandes massas o mais necessário em seu próprio país. Os interesses nacionais das classes dominantes são colocados em balança quando eles são idênticos aos interesses de sua carteira e que eles produzem a porcentagem necessária. Se milhões de pobres diabos deixaram suas vidas ou seus membros nessa loucura das grandes matanças dos povos, nunca foi porque eles queriam pagar tal ou qual dívida da honra nacional, mas porque seus cérebros foram mantidos nas trevas dos preconceitos artificialmente criados. Essa sangrenta tragédia se repetirá, a menos que os operários tomem conhecimento das verdadeiras maquinações da guerra e das pantalonadas nacionalistas. A luta infatigável contra o militarismo, não as vulgaridades pacifistas, é-nos, portanto, necessária.
Enquanto os trabalhadores tiverem dispostos a produzir os instrumentos de morte violenta e do massacre das massas, a “sede de sangue” dos povos não desaparecerá; para os escravos que forjam eles próprios suas cadeias, a liberação nunca chegará. Assim, o 1o de Maio é para nós uma poderosa manifestação contra todo militarismo e contra a imensa fraude nacionalista por trás dos quais ocultam-se os interesses brutais das classes possuidoras.
É preciso criar um novo futuro sobre as bases do socialismo libertário, sob o sopro ardente do qual as concepções moribundas dos tempos passados e as instituições carcomidas do presente desaparecerão no abismo do que foi, para abrir a era da verdadeira liberdade, da autêntica igualdade e do amor humano.
Celebramos o 1o de Maio nesse sentido, como o símbolo de um futuro próximo que germinará no seio do povo revolucionário para redimir o mundo da maldição das dominações de classes e da escravidão do salariado.
1o de maio de 1936.

* Tradução: Plínio A. Coêlho.
Fonte:  http://editoraimaginario.webstorelw.com.br/