Mostrando postagens com marcador Revolução Arabe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revolução Arabe. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Declaração dos revolucionários socialistas no Egito: a máscara caiu


260711_tahrir11Revolutas - [Socialist Worker] Em 25 de janeiro, a cabeça do regime caiu, mas deixou o corpo corrupto. O povo jurou que não iria parar antes da queda do regime: se não for hoje, será amanhã.


Muito pouco tempo atrás, o porta-voz do Conselho Militar, major General Fangari, saudou os mártires da revolução e comoveu os corações egípcios lembrando os dias que dizia aos quatro ventos que o exército e o povo eram "um só braço".

Hoje, ele acena com outro tipo de mensagem aos revolucionários: ameaça "tomar todas as medidas necessárias para enfrentar o perigo que cerca a pátria, a menos que cesse o processo de contestação que está em curso (...), assim como os rumores e mal-entendidos que levam à discórdia, à rebelião e à promoção dos interesses de uma pequena minoria em prejuízo do país como um todo".

O major chama os cidadãos honestos a trabalhar pelo retorno da vida normal para "nosso grande povo", e, apontando o dedo na cara de pessoas como Mubarak, insiste em que "as Forças Armadas não permitirão que ninguém tome o poder ou substitua a autoridades, exceto no quadro de legitimidade legal e constitucional”.

Assim terminou o discurso, feito menos de 24 horas após o anúncio da curta gestão do primeiro-ministro Essam Sharaf, e que confirmou que o ministério Sharaf nada mais é do que uma máscara que esconde a cara feia do regime militar. Mas nos últimos seis meses, as pessoas começaram a perceber o joguinho combinado entre o Primeiro-Ministro fazendo o papel de "tira bom", enquanto o "tira mau" é representado pelo Conselho Militar.

A posição dos revolucionários é a de que, desta vez, não haverá como voltar atrás. Vamos ocupar as ruas até as exigências da revolução serem atendidas. Isto significa, inevitavelmente, justiça para os mártires que derramaram o seu sangue nas praças do Egito, lutando por liberdade. Não vamos aceitar menos do que um julgamento justo e público dos criminosos do regime de Mubarak e dos assassinos dos que tombaram lutando. Não vamos deixar de exigir justiça social e dignidade através da implementação de um salário mínimo decente, condições dignas de trabalho e o fim da escravidão do contrato temporário de trabalho.

Vamos defender o nosso direito à greve e ocupações. Esses direitos não foram concedidos. Foram conquistados pelo povo através de anos de luta nas ruas. Anos com o gosto amargo de prisões, tortura e perseguição. Não aceitaremos nenhuma lei do Conselho Militar que criminalize as greves e ocupações, nem punições que tentem tirar esses direitos do povo.

Os tribunais militares, que roubaram anos da vida de nossos jovens lutadores, deveriam ter sido acionados para processar o presidente deposto em sua qualidade de ex-chefe das forças armadas, em vez de dar-lhe o luxo de um julgamento civil. O fato é que o ex-ditador vem sendo protegido pelo Conselho Militar, que, ora adia a data do julgamento sob o pretexto de que ele está doente, ora espalha rumores sobre sua morte iminente.

Não estamos questionando “o processo em curso". Estamos denunciando que o processo é lento e suspeito, pois pretende impedir que seja feita justiça aos policiais assassinos. Estamos dizendo ao mundo que 10 mil filhos deste país estão trancados em prisões militares, depois de sofrer as piores torturas.

Sabemos que o sistema está fazendo todo o esforço para impedir que o povo recupere a riqueza que lhe foi saqueada ao longo de décadas. Sabemos que somente os revolucionários estão sendo levado aos tribunais militares, enquanto os assassinos desfrutam de julgamentos em tribunais civis, com direito a liberação sob fiança.

Não espalhamos “falsos rumores". Dizemos a verdade que estão tentando esconder. A verdade é que a pobreza e a repressão, tortura e detenções ainda estão ocorrendo em toda parte, desde 25 de janeiro, do mesmo modo que vinham acontecendo antes. A diferença é que as prisões comuns foram trocadas pelas prisões militares. Promotores militares estão no lugar dos promotores públicos. Tribunais militares tornaram-se tribunais de exceção.

As leis de emergência não satisfizeram os governantes militares: eles criaram novas leis que criminalizam greves e ocupações em uma tentativa de tirar a liberdade dos egípcios. O orçamento que o governo nos prometeu que seria justo acabou promovendo cortes nos gastos com saúde, educação e aposentadorias, a fim de financiar o Ministério do Interior e do Exército.

Os interesses do povo não são "minoritários". Suas demandas são por pão, saúde, educação, habitação digna, liberdade de expressão. O direito ao trabalho e à realização da justiça está no centro das exigências da Revolução. Eles não se comparam com os estreitos interesses de empresários e seus colaboradores, que não cessam de saquear a riqueza do povo.

Essas pessoas estão aterrorizadas pelas bolsas em queda, mas não se comovem pelo sangue derramado por 1.200 mártires ou pelo fato de que metade da população vive abaixo da linha da pobreza ... ou que os jovens estejam perdendo anos de suas vidas na prisão. Tudo o que lhes interessa são suas gordas contas bancárias e continuar a sugar sangue e suor dos trabalhadores.

Finalmente, os revolucionários não querem "tomam o poder": este é deles por direito. Este país deve ser governado por quem derramou seu sangue por ele. Se alguém "tomou o poder" sem legitimidade, foi o Conselho Militar e os seus aliados, que não foram convidados por ninguém para governar o país. Na verdade, roubaram - ou tentam roubar - a revolução pela força, aproveitando a euforia do povo pela derrubada do ditador.

Aqueles que apontam seus dedos e ameaçam os revolucionários não entendem o que significa perder seus filhos. Não no campo de batalha contra um inimigo estrangeiro, mas no solo de sua terra natal, nas mãos de policiais cujos salários eram pagos por suas vítimas.

Eles não entendem o que aconteceu no dia 25 de janeiro. Naquele dia, o povo do Egito levantou-se, determinado a nunca mais ser escravizado, humilhado ou explorado. Em 25 de janeiro, o povo egípcio recuperou seu senso de dignidade e confiança e conseguiram derrubar os símbolos da ditadura. A cabeça caiu, mas deixou o corpo corrupto. O povo jurou que não iria parar antes da queda do regime: se não for hoje, será amanhã.

Glória aos mártires!
Vitória da revolução!
Poder para o povo!

The Revolutionary Socialists

12 July 2011
www.e-socialists.net/node/7123

Fonte: http://www.diarioliberdade.org

terça-feira, 5 de julho de 2011

Egito rejeita 'ajuda' e condições impostas pelo FMI

or

O Egito recusou as condições impostas pelo Fundo Monetário Internacional para conceder-lhe o empréstimo solicitado de mais de 3 bilhões de euros, por entender que violam a soberania nacional e atendendo à pressão exercida por manifestações populares. A decisão foi anunciada pelos governantes militares que assumiram o poder após a queda de Mubarak. Algumas das condições impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial incluíam a privatização de bancos e uma maciça redução dos subsídios para energia e alimentos e já tinham desagradado a população.

O general Sameh Sadeq, integrante do conselho militar governante, afirmou que foram suspensos outros pacotes que estavam sendo negociados com o Banco Mundial em razão de “cinco condições que atentavam contra os princípios de soberania nacional”, informaram vários jornais locais. Mas não foram dados mais detalhes sobre o assunto.

Se tivesse aceito, o Egito seria o primeiro país a receber dinheiro do FMI no Oriente Médio após a Primavera Árabe, levante popular contra os regimes autoritários apoiados pelo Ocidente iniciado no ano passado. O FMI anunciou em maio, durante a cúpula do Grupo dos Oito países mais ricos do mundo, que poderia emprestar mais de 24 bilhões de euros aos Estados do Oriente Médio nos próximos anos.

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, anunciou nesse mesmo mês que poderia conceder cerca de 4 bilhões de euros em dois anos ao Egito e à Tunísia para contribuir para a modernização das suas economias. O Cairo teria recebido 3,1 bilhões de euros desse pacote. Os movimentos revolucionários começaram nesses dois países antes de se espalhar pela região.

A declaração feita no dia 28 pelo general Sadeq contradiz as do primeiro-ministro, Essam Sharaf, e do ministro das Finanças, Samir Radwan, sobre os empréstimos não estarem acompanhados de condições. Os funcionários ocupam os cargos interinamente desde a queda do presidente Hosni Mubarak em 11 de fevereiro deste ano. Ambos defenderam publicamente a necessidade de empréstimos para espantar o fantasma do déficit, principal argumento de muitos países que solicitam ajuda das duas instituições multilaterais de crédito.

A decisão foi anunciada pelos governantes militares que assumiram o poder após a queda de Mubarak. Algumas das condições impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial incluíam a privatização de bancos e uma maciça redução dos subsídios para energia e alimentos e já tinham desagradado a população.

O ministro das Finanças teve que voltar atrás e escreveu no seu site que a decisão de rejeitar os empréstimos ocorreu após “debate público e consultas ao Conselho Supremo das Forças Armadas” (CSFA), à frente do governo interino. Também informou que após modificar o déficit orçamental este ficou em 15,4 bilhões de euros, em relação aos 19,6 bilhões de euros previstos antes de aceitar o empréstimo do FMI.

O CSFA, que cumpre funções presidenciais até ser eleito o novo parlamento em setembro, disse que os fundos locais e regionais permitem não recorrer às instituições multilaterais de crédito. “Pode-se cobrir o déficit com o mercado local e com empréstimos e assistência de nações amigas e outras instituições internacionais”, diz a declaração do Ministério das Finanças.

Nas últimas semanas, Arábia Saudita, Estados Unidos e Quatar, entre outros, prometeram grandes somas de dinheiro ao Egito. Os bancos locais podem cobrir facilmente o déficit, afirmou Moustapha Abdelsalam, especialista do jornal de negócios Al Alam Alyoum. O governo conseguiu 13,8 bilhões de euros internamente.

A decisão do CSFA acompanhou os protestos populares. Vários ativistas alertaram que, com os novos empréstimos o Egito poderia ficar sujeito às condições do Banco Mundial e do FMI, bem como à pressão externa, o que muitas pessoas temiam que pudesse acabar com a revolução.

“Os empréstimos do exterior contradizem os princípios da revolução que reclamavam ser livres de toda pressão, local e estrangeira”, diz uma declaração do Conselho de Administração Revolucionária, uma organização não governamental formada após a queda de Mubarak por defensores da democracia que enfrentaram as forças de segurança do regime. “O povo egípcio, que está começando uma nova era, não quer fazê-lo com novos empréstimos. Preferimos passar fome a mendigar a essas instituições”, afirma o comunicado.

Surpreendeu a solicitude do governo de Sharaf por ser interino e não ter suficiente autoridade. Foi criticado por tomar essa decisão carecendo de representação popular.

O Banco Mundial, o FMI e outros bancos multilaterais de desenvolvimento anunciaram a “Associação Deauville para o Oriente Médio” para conceder empréstimos a outros países da região, no contexto da cúpula do G-8 realizada em maio nessa cidade francesa. O Banco Mundial prometeu 3,1 bilhões de euros ao Egito nos próximos dois anos para compensar a queda das reservas e o orçamento, e financiar as mudanças económicas a fim de fortalecer os seus projetos de investimento e créditos.

Agora é esperar para ver se desta vez os países da região seguirão o exemplo do Egito.

Fonte: Agencia Carta Maior

terça-feira, 28 de junho de 2011

Egito: Uma revolução em curso

Os ventos da revolução ainda sopram no Cairo
As conversas com trabalhadores e ativistas deixaram claro que os ventos da revolução ainda sopram no Egito. O processo que se iniciou em 25 de janeiro continua apresentando, a todo momento, a disjuntiva revolução ou contrarrevolução.
A cidade respira revolução. O Cairo tem 7,9 milhões de habitantes e dois milhões estavam na Praça Tahir no desfecho dos grandes acontecimentos de fevereiro. Observando os números é fácil entender: a consciência de que a revolução foi feita pela força de milhões nas ruas é amplamente majoritária. O taxista, o porteiro, o operário, o estudante, a jovem desempregada..., todos estiveram na praça, viram o poder das massas em movimento, sabem que, após o dia 25 de janeiro, o país não é o mesmo. Ao perguntar a Ahmed, um jovem taxista, o que mudou depois da queda de Mubarak, ele respondeu categoricamente: “Tudo.
A juventude na vanguarda
Nesses dias, completou um ano do dia em que Khaled Said, um jovem de classe média, foi detido, torturado e assassinado pela polícia da ditadura de Mubarak. Toda a população se comoveu com esta terrível injustiça, pensando que poderiam ter sido eles ou seu próprio filho. Transformou-se em um grande símbolo da luta e, em 2010, milhares saíram às ruas com sua foto: “Somos todos Khaled Said.
Conversamos com muitos jovens, os protagonistas da revolução. Quase todos já foram presos ou têm alguma história para contar da repressão que sofreram na época de Mubarak. Muitos têm, inclusive, algum amigo que foi morto. Quando entramos na Universidade Americana do Cairo, visitamos uma exposição com as fotos dos estudantes que morreram durante a revolução.
Conseguimos fazer uma reunião com representantes do Movimento 6 de Abril que, embora não tenha um programa socialista nem uma estratégia clara de poder, teve um papel central na revolução. São jovens que, em 2006, organizaram-se a partir de uma greve de operários de Mahallah, no norte do Egito, quando estes tomaram as fábricas. Esses jovens, muitos deles estudantes, identificaram-se com a luta dos trabalhadores e perceberam sua importância para enfrentar a ditadura. Começaram a ter uma maior projeção em 2007, com uma grande audiência conquistada pela internet.
A revolução
Deram-nos um relato muito bonito sobre a revolução: “Depois do levante na Tunísia, que derrubou Ben Ali, combinado com o enorme repúdio (um verdadeiro ódio) da população à polícia de Mubarak, amanheceu o dia 25 de janeiro. A partir dessas duas condições, uma reunião no Sindicato dos Engenheiros convocou um ato para o dia 25 de janeiro, tradicionalmente um dia de comemoração institucional da polícia egípcia. No entanto, quando fizemos esse chamado, não tínhamos ideia de como essa data ficaria marcada na história.
A manifestação foi um sucesso e, em vários pontos da cidade, reuniram-se milhares e milhares de trabalhadores e jovens, que foram se juntando aos poucos. A marcha cantava: ‘Venham, venham, juntem-se com suas famílias a nós’. Enquanto isso, a polícia aumentava sua violência contra os manifestantes e os que estavam assistindo. Mas provocava o efeito inverso: mais pessoas saíram às ruas.” Chegavam notícias de outras cidades do Egito: também estavam ocupando praças e ruas, o que gerava mais confiança para resistir.
‘OK, já temos uma revolução. O que deveríamos fazer?’, pensávamos. Meio milhão de pessoas ocupava a praça, e não parava de chegar gente, como parte de um mesmo movimento nacional, cada vez mais confiante de que só pararia quando Mubarak caísse”. Não havia outra coisa a concluir: estavam diante de uma revolução.
A repressão intensificou-se muito. Prenderam milhares de manifestantes e mataram alguns. Isso só produziu mais abnegação e disposição para lutar até o fim. Além disso, o sentimento de igualdade crescia entre os presentes. Homens e mulheres, muçulmanos e cristãos, jovens e mais velhos, todos juntos eram iguais e revolucionários.
Havia começado a auto-organização das massas. Formavam-se comissões para garantir a segurança, a alimentação e a limpeza. Eram milhões que, em uma harmonia inexplicável, viviam naquele momento o que buscavam construir para o futuro de seu país. “A praça era o lugar mais perfeito do mundo naquele momento”, disse-nos um dirigente.
Mubarak tentava desmoralizá-los, dizendo que era um movimento isolado na Praça Tahrir e que se reduzia aos jovens. Fez terríveis ameaças, cancelou a internet em todo o país para evitar a comunicação pelas redes sociais. Neste momento, discutiram a necessidade de expandir a revolução aos trabalhadores. E isso foi decisivo. As tentativas de Mubarak de isolar a revolução na Praça Tahrir não deram resultado: trabalhadores das fábricas e empresas entraram em greve, como nos três dias de paralisação do Canal de Suez, tão importante economicamente para o imperialismo. A revolução só se fortaleceu, até que, em 11 de fevereiro de 2011, Mubarak caiu.
As novas tarefas
Um jovem ativista nos perguntou sobre a experiência brasileira, apresentando assim o problema: “Todos nós temos menos de 30 anos, ninguém nunca militou antes da ditadura de Mubarak. Não sabemos como é militar abertamente.
Um amplo processo de reorganização política e sindical está em curso. As greves se espalharam pelo país, nas universidades há um amplo processo de mobilização contra as direções e administrações locais, os ativistas discutem a formação de sindicatos, associações estudantis independentes e partidos políticos.
No entanto, inclusive do ponto de vista democrático, ainda há muitas tarefas inconclusas. O exército comanda o país, a mesma polícia ainda está nas ruas, os funcionários do antigo regime não foram punidos, as novas regras exigem a quantia de 160 mil dólares para montar um partido etc.
O desemprego, a miséria e a pobreza continuam
Ao ser questionado sobre as condições de vida, aquele taxista afirmou: “Ah! Isso continua tudo igual”. As condições estruturais que levaram à revolução não mudaram: a crise econômica, a inflação dos alimentos, o desemprego e a pobreza.
Um ativista expressou bem a indignação da população: “Você entende isso? Um quilo de carne aqui custa 15 dólares. Milhares de egípcios não conhecem o gosto da carne”.
A mudança nas condições de vida da população, e inclusive os avanços das conquistas democráticas, dependem da ruptura com o imperialismo e tropeçam nos limites do capitalismo na região. Demonstrando sua total subordinação ao imperialismo, o governo militar assinou recentemente um acordo com o FMI, que prevê um empréstimo de três bilhões de dólares. Supostamente uma “ajuda” para “garantir a transição para a democracia e a liberdade”.
Na realidade, o empréstimo está condicionado a que o novo governo mantenha o Egito sob as pautas neoliberais e em consonância com a receita do FMI, com medidas como privatizações, abertura ao investimento estrangeiro e o livre trânsito dos capitais.
A juventude continua lutando contra o autoritarismo do governo
Desde o dia 25 de janeiro, as sextas-feiras transformaram-se em um dia de protestos. Em atos maiores ou menores, a praça nunca mais esteve vazia. São jovens trabalhadores, desempregados, muitos recém-formados nas universidades, que não tinham nenhuma perspectiva de futuro. O governo da Junta Militar trata de controlar e, se necessário, reprimir o movimento. Mas se enfrenta com toda uma geração de ativistas que se formou nesta revolução. O governo reprimiu uma marcha em apoio aos palestinos que se dirigia à fronteira com Gaza na data da Nakba.
O exército, a instituição mais forte do novo regime, continua cometendo todo tipo de abusos e se envolveu em um escândalo recentemente. Um oficial militar afirmou que faziam um “teste de virgindade” nas mulheres ativistas que eram detidas nos protestos da Praça Tahrir, para garantir que, depois, não os acusassem de estupro. Uma verdadeira agressão às mulheres, que gerou comoção entre a população.
Os jovens avançaram muito em sua organização, inclusive nos bairros e junto com os trabalhadores. Nas universidades, estão realizando, pela primeira vez na história do Egito, eleições livres dos centros universitários, sindicatos de professores e de empregados. Notamos que existe entre eles uma grande desconfiança em relação ao atual regime, governado pelos militares.
Há poucos dias, um jornal publicou um artigo expressando a possibilidade de Mubarak ser libertado sem um julgamento. Houve uma grande reação da população, indignada, e depois o governo deu uma declaração, dizendo que a culpa era exclusivamente do jornal e que, a partir daquele momento, para a publicação de cada artigo, seria necessária sua aprovação. Ainda temem a força das massas e, em especial, a abnegação e radicalização da juventude egípcia.
A contradição: as massas ainda confiam no governo da junta militar
A grande contradição é que a maioria da população tem ilusões no atual governo. O Conselho Superior das Forças Armadas afirma ser parte da revolução de 25 de janeiro, quando, na realidade, é parte da contrarrevolução. Apoiaram o regime até o último instante e só saíram ante a intransigência das massas, quando já era inevitável mudar para manter a ordem social. Mas isso não ficou claro para todos: as forças armadas têm muito prestígio no país. Inclusive, devido a sua própria crise diante da revolução, atravessaram o processo sem se dividir, porque, ainda que tenham sido coniventes e deixado a polícia entrar para reprimir, suas tropas não reprimiram diretamente os protestos.
Foi a polícia que atacou abertamente e disparou contra os manifestantes. Por isso, a polícia ficou mal vista, teve que abandonar a praça e foi formalmente dissolvida depois da queda de Mubarak, ainda que seus quadros tenham sido realocados em outras tarefas e continuem fazendo parte do esquema repressivo.
Por isso, a situação do país é complexa: há uma enorme confusão na consciência dos trabalhadores sobre o atual governo liderado pelas forças armadas, e uma grande dúvida de como será o futuro. Mas, segundo os jovens com quem conversamos, o povo tem uma noção clara de que a revolução foi feita pelos trabalhadores e pelo povo, e não pelos militares, ainda que esperem que o exército faça a transição para uma democracia e uma mudança no país.
O recente referendo sobre as reformas na Constituição propostas pelo governo era uma forma de canalizar a revolução para pequenas mudanças constitucionais que dessem a ilusão de que há uma verdadeira mudança em suas vidas. O Movimento 6 de Abril defendeu o voto pelo NÃO. Disseram-nos que a grande maioria dos jovens votou NÃO, especialmente no Cairo. As regiões do interior, que foram menos atingidas pela revolução e recebem mais a propaganda ideológica feita pelo Exército, acabaram garantindo o resultado de 77% para o SIM.
“Revolução no Egito: Sim ou Não?”
A experiência da juventude que participou das mobilizações é mais avançada. Por exemplo, conhecemos um jovem que escrevia em um muro em frente à Praça Tahrir: “Revolução no Egito: Sim ou Não?.
Quando lhe perguntamos o significado, falou da indignação com os problemas sociais do país e com o governo militar. Querida dizer com isso que a revolução no Egito não chegou a seu fim, que não podemos comemorar tanto, já que as bandeiras levantadas na Praça Tahrir ainda não foram conquistadas. Criticou muito o atual governo, e disse que as condições de vida da população não mudaram. Lamentou que as mobilizações não se mantenham com a mesma força, mas demonstrou ter esperança de que continuem lutando pelas reivindicações econômicas e sociais, além das democráticas. Era um arquiteto recém-formado, desempregado. Ele era a cara da revolução. A crítica ao governo foi um tema recorrente nas conversas com os jovens: é possível dizer que a juventude olha com mais desconfiança o Conselho Superior das Forças Armadas.
A vanguarda jovem da revolução não se sente representada pelas figuras que dirigem o país. Na sexta-feira, 27 de maio, várias organizações juvenis, encabeçadas pelo Movimento 6 de Abril, chamaram um dia de mobilizações. Aproximadamente 500 mil pessoas participaram do maior ato desde a revolução. A principal exigência era o julgamento de Mubarak e a instalação imediata de um governo civil.
Foi uma grande mobilização, apesar do boicote da Irmandade Muçulmana que, coerente com seu papel de principal sustentáculo político do governo e do Conselho das Forças Armadas, posicionou-se contra os protestos.
O ato expressou que o processo revolucionário continua e que os trabalhadores, apesar de suas direções tradicionais, estão buscando caminhos e estão construindo suas próprias organizações independentes. O governo das forças armadas procura um meio de impedi-los. Os trabalhadores e a juventude egípcia, entretanto, têm consciência da profunda mudança que provocaram: Mubarak caiu. As massas entraram em cena e se impuseram com uma força impressionante. Quando os trabalhadores e a juventude se unem e se propõem a tarefa de mudar suas vidas, não há força que os detenha.
“Kadafi e Assad são ditadores”
Entre os ativistas egípcios, não há dúvidas de que a revolução iniciada em 25 de janeiro no Egito só foi possível graças à vitória conquistada na Tunísia, com a queda de Ben Ali. A consciência de que as mobilizações em todos os países (Egito, Síria, Líbia, Iêmen etc.) são partes de um único processo revolucionário no conjunto do mundo árabe é indiscutível.
Além disso, há uma evidente identificação entre o povo árabe e sua cultura. Essa identificação tem um aspecto político fundamental que se materializa no repúdio ao Estado de Israel. Especialmente entre os ativistas, mas inclusive em um setor mais amplo da população, há um enorme rechaço ao Estado de Israel e ao papel nefasto que cumpre em relação aos palestinos. Sabem que é um Estado completamente controlado e financiado pelo imperialismo e, por isso, as revoluções, necessariamente, têm um eixo contra Israel e o genocídio promovido contra os palestinos.
Portanto, a questão da Palestina, combinada com a consciência de que todas as mobilizações são parte de um mesmo processo, deixa muito claro que o papel cumprido por Kadafi e Assad, na Líbia e na Síria, é o mesmo dos outros ditadores do mundo árabe. Em todas as reuniões que fizemos no Egito, os ativistas deixavam muito claro que, para construir e fortalecer a revolução árabe, a luta deve ser contra esses ditadores e também contra o imperialismo.
“Chávez não está do nosso lado”
Como parte da compreensão do papel que Kadafi e Assad cumprem, os ativistas repudiam a posição de Chávez e Castro. Ainda que tenham uma referência nas revoluções da América Latina, a impressão que tivemos foi que a posição de apoio a Kadafi e Assad foi um verdadeiro divisor de águas para que hoje não tenham esperanças ou referências nesses governantes.
Em uma reunião, estávamos explicando o processo que a América Latina vive atualmente e perguntamos a um companheiro a sua posição sobre Chávez, e ele respondeu: “Está com Kadafi, não está do nosso lado”. Acreditamos que esta seja a posição majoritária entre os ativistas de esquerda no Egito.
Além do repúdio a esses ditadores, também não aceitam a intervenção militar imperialista, pois sabem que o interesse está nas riquezas naturais e na subjugação da Líbia. A partir dessa discussão, era muito simples explicar que Chávez e Castro não cumprem hoje nenhum papel para melhorar a condição de vida dos trabalhadores. Pelo contrário, também estão do lado do imperialismo.
Uma impressão que tivemos foi que um setor um pouco mais amplo que participou da revolução tem uma tendência a aceitar a intervenção do imperialismo, dizendo: “Os líbios são assassinados pelas tropas de Kadafi, é preciso apoiá-los”. No entanto, este posicionamento não vem acompanhado de uma confiança política no imperialismo. Pelo contrário. Pela relação que existe com o Estado de Israel, conhecem seus verdadeiros interesses, mas tendem a apoiar a intervenção militar porque temem pelo que pode acontecer com o povo líbio. Subestimam quanto essa intervenção imperialista pode ser prejudicial aos interesses da revolução. Mas nem passa pela cabeça de qualquer cidadão comum do Egito apoiar Kadafi. Por isso, a posição de Chávez e Castro não encontra nenhum apoio no país.
Tradução: Rosangela Botelho
Entre os dias 3 e 6 de junho, uma delegação de brasileiros participou, no Egito, da Conferência de Solidariedade à Revolução Árabe. Fizeram parte da delegação Dirceu Travesso, representando a CSP-Conlutas, Clara Saraiva, pela ANEL (Assembleia Nacional de Estudantes – Livre), e Glória Ferreira, pelo PSTU. Este texto é um relato feito pelas companheiras Clara e Glória sobre a situação no Egito.
Fonte: http://www.litci.org

terça-feira, 14 de junho de 2011

Cinco causas da revolta árabe




Quais são as causas do vendaval de liberdade que, de Marrocos ao Bahrein, passando pela Tunísia, pela Líbia e pelo Egipto, sopra sobre o mundo árabe? Por que motivos estas ânsias simultâneas de democracia se expressam precisamente agora?

Por Ignacio Ramonet

A estas duas perguntas, as respostas são de diversa índole: histórica, política, económica, climática e social.

1. Histórica. Desde o final da Primeira Guerra Mundial e a implosão do império otomano, o interesse das potências ocidentais pelo mundo árabe (Médio Oriente e Norte de África) teve dois principais incentivos: controlar os hidrocarbonetos e garantir um lar nacional judeu. Após a Segunda Guerra Mundial e o traumatismo universal do Holocausto, a criação do Estado de Israel, em 1948, teve como contrapartida a chegada ao poder, em vários Estados árabes libertados do colonialismo, de forças anti-sionistas (opostas à existência de Israel): de tipo “militar nacionalista” no Egipto e Iémen, ou de carácter “socialista árabe” no Iraque, na Síria, na Líbia e na Argélia.

Três guerras perdidas contra Israel (em 1956, 1967 e 1973) conduziram o Egipto e a Jordânia a assinar tratados de paz com o Estado judeu e a alinhar-se com os Estados Unidos, que já controlavam – no enquadramento da Guerra Fria – todas as petromonarquias da Península Arábica, bem como o Líbano, a Tunísia e Marrocos. Deste modo, Washington e os seus aliados ocidentais mantinham os seus dois objetivos prioritários: o controlo do petróleo e a segurança de Israel. Em contrapartida, protegiam a permanência de ferozes tiranos (Hassan II, o general Mubarak, o general Ben Ali, os reis sauditas Faisal, Fahd e Abdalá, etc.) e sacrificavam qualquer aspiração democrática das sociedades.

2. Política. Nos Estados do pretendido “socialismo árabe” (Iraque, Síria, Líbia e Argélia), sob os cómodos pretextos da “luta anti-imperialista” e da “caça aos comunistas”, também se estabeleceram ditaduras de partido único, governadas com mão de ferro por déspotas de antologia (Saddam Hussein, Al Assad pai e filho, e Muamar al Khadafi, o mais demencial deles). Ditaduras que garantiam, de resto, o abastecimento em hidrocarbonetos das potências ocidentais e que não ameaçavam realmente Israel (quando o Iraque pareceu fazê-lo, foi destruído). Desse modo, sobre os cidadãos árabes, caiu uma lápide de silêncio e de terror.

As ondas de democratização sucediam-se no resto do mundo. Desapareceram, na década de 1970, as ditaduras em Portugal, Espanha e Grécia. Em 1983, na Turquia. Depois da queda do muro do Berlim, em 1989, derrubou-se a União Soviética, bem como o “socialismo real” da Europa do Leste. Na América Latina caíram as ditaduras militares na década de 1990. Entretanto, a escassos quilómetros da União Europeia, com a cumplicidade das potências ocidentais (entre elas Espanha), o mundo árabe continuava em estado de glaciação autocrática.

Ao não se permitir nenhuma forma de expressão crítica, o protesto localizou-se no único local de reunião não proibido: a mesquita. E em torno do único livro não censurável: o Corão. Assim se foram fortalecendo os islamismos. O mais reaccionário foi difundido pela Arábia Saudita com o decidido apoio de Washington, que via nele um argumento para manter os povos árabes na “submissão” (significado da palavra ‘islão’). Mas também surgiu, sobretudo depois da “revolução islâmica” de 1979 no Irão, o islamismo político, que encontrou nos versos do Corão argumentos para reclamar justiça social e denunciar a corrupção, o nepotismo e a tirania.

Daí nasceram vários ramos mais radicais, dispostas a conquistar o poder pela violência e a “Guerra Santa”. Assim se engendrou a Al Qaeda…

Depois dos atentados do 11 de setembro de 2001, as potências ocidentais, com a cumplicidade das “ditaduras amigas”, adicionaram um novo motivo para manter sob férreo controlo as sociedades árabes: o medo ao islamismo. Em vez de entender que este era a consequência da carência de liberdade e da ausência de justiça social, acrescentaram mais injustiça, mais despotismo, mais repressão…

3. Económica. Vários Estados árabes sofreram as repercussões da crise global iniciada em 2008. Muitos trabalhadores destes países, emigrados na Europa, perderam o seu trabalho. O volume das remessas de dinheiro enviadas às suas famílias diminuiu. A indústria turística murchou. Os preços dos hidrocarbonetos (em aumento nestas últimas semanas por causa da revolta popular na Líbia) depreciaram-se. Simultaneamente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) impôs, à Tunísia, ao Egipto e á Líbia, programas de privatização dos serviços públicos, reduções drásticas dos orçamentos do Estado, diminuição do número de funcionários… Severos planos de ajustamento que pioraram, se possível, a vida dos pobres e, sobretudo, ameaçaram socavar a situação das classes médias urbanas (as que têm precisamente acesso ao computador, ao telemóvel e às redes sociais) atirando-as para a pobreza.

4. Climática. Neste contexto, já por si explosivo, produziu-se, no Verão passado, um desastre ecológico numa região afastada do mundo árabe. Mas o planeta é um só. Durante semanas, a Rússia, um dos principais exportadores de cereais do mundo, conheceu a pior onda de calor e de incêndios da sua história. Um terço da sua colheita de trigo foi destruída. Moscovo suspendeu a exportação de cereais (que servem também para nutrir o gado), cujos preços imediatamente subiram 45%. Esse aumento repercutiu-se nos alimentos: pão, carne, leite, frango… Provocando, a partir de Dezembro de 2010, o maior aumento de preços alimentares desde 1990. No mundo árabe, uma das principais regiões importadoras desses produtos, os protestos contra a carestia da vida multiplicaram-se…

5. Social. Acrescente-se ao anterior: uma população muito jovem e monumentais níveis de desemprego. Impossibilidade de emigrar, porque Europa blindou as suas fronteiras e descaradamente estabeleceu acordos para que as autocracias árabes se encarreguem do trabalho sujo de conter os emigrantes clandestinos. Um açambarcamento dos melhores lugares pelas camarilhas das ditaduras mais arcaicas do mundo…

Faltava uma chispa para incendiar a pradaria. Houve duas. Ambas na Tunísia. Em primeiro lugar, a 17 de Dezembro, a auto-imolação pelo fogo de Mohamed Buazizi, um vendedor ambulante de fruta, como símbolo de condenação da tirania. E, em segundo lugar, repercutidas pelos telemóveis, pelas redes sociais (Facebook, Twitter), pelo correio electrónico e pelo canal Al-Jazira, as revelações da WikiLeaks sobre a realidade concreta do desavergonhado sistema mafioso estabelecido pelo clã Ben Ali-Trabelsi.

O papel das redes sociais resultou fundamental. Permitiram franquear o muro do medo: saber de antemão que dezenas de milhares de pessoas se vão manifestar num dia D e numa hora H é uma garantia de que alguém não protestará isolado expondo-se sozinho à repressão do sistema. O sucesso tunisino desta estratégia do enxame iria convulsionar todo o mundo árabe.

Fonte: http://infoalternativa.org/ via http://www.controversia.com.b

quarta-feira, 1 de junho de 2011

As rivalidades da primavera árabe



A Turquia e o Qatar começaram a demonstrar uma apaixonada irritação contra o regime sírio de Bashar al Assad. Os turcos, inclusive, estão planejando uma espécie de “lugar seguro” dentro do território sírio para evitar que uma maré de refugiados invada a fronteira turca. Enquanto isso, os árabes do Golfo suspeitam que a Argélia está fornecendo armas a Líbia. A Turquia acredita que Assad desonrou duas vezes sua promessa de retirar seus capangas armados das ruas sírias. A cobertura da rebelião neste país pela cadeia de notícias Al Jazeera, do Qatar, enfureceu por sua vez os sírios. O artigo é de Robert Fisk.

A primavera árabe esconde seus segredos. A Turquia e o Qatar começaram a demonstrar uma apaixonada irritação contra o regime sírio de Bashar al Assad. Os turcos, inclusive, estão planejando uma espécie de “lugar seguro” dentro do território sírio para evitar que uma maré de refugiados invada a fronteira turca. Enquanto isso, os árabes do Golfo suspeitam que a Argélia está fornecendo armas a Líbia.

A Turquia acredita que Assad desonrou duas vezes sua promessa de retirar seus capangas armados das ruas sírias. A cobertura da rebelião neste país pela cadeia de notícias Al Jazeera, do Qatar, enfureceu tanto os sírios que eles acabaram bloqueando projetos do Qatar em seus território, equivalentes a investimentos superiores a 4 bilhões de dólares.

Hoje, as forças armadas do Qatar auxiliam os rebeldes líbios na cidade portuária de Misrata, no oeste do país. Seus oficiais estão treinando rebeldes líbios que combatem na guerra de guerrilhas, no perímetro do enfrentamento principal. Embora não tenha havido nenhum comunicado oficial acerca da vinculação do Qatar no conflito líbio, os emirados do Golfo mantem seis aviões bombardeios estacionados em Creta e outros tanto sobrevoando de maneira permanente o país de Muammar Kadafi.

O medo de que a Argélia esteja fornecendo tanques e pessoal militar armado ao regime de Kadafi através da fronteira desértica de 1.200 quilômetros que ambos países compartilham é a verdadeira razão que impulsionou a visita do emir do Qatar ao presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, que conta com um exército melhor equipado que o do líder líbio.

Os líderes dos países do Golfo acreditam que as armas que os argelinos enviaram ao regime líbio são a causa do lento progresso da missão aérea da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contra Kadafi.

Mais sérios, talvez, sejam os planos que a Turquia começou a delinear em torno da construção de uma “zona de proteção” dentro da Síria, para utilizar em caso de a rebelião neste país converter-se em uma guerra civil.

Os turcos recordam com terror as semanas nas quais centenas de milhares de turcos iraquianos fugiram desesperados para as fronteiras da Turquia. Naquela época, Sadam Hussein tinha lançado suas forças contra eles, após a libertação do Kuwait em 1991. Milhares de curdos morreram nas montanhas congeladas e só a “zona liberada” propiciada pelos Estados Unidos dentro do Iraque permitiu a Turquia devolver os refugiados a seu país.

Assim como ocorre no norte iraquiano, a maioria dos habitantes do norte sírio são curdos. Muitos deles acreditam que Assad não tem nenhuma intenção de manter sua promessa de garantir-lhes a cidadania. Além disso, as forças turcas nas montanhas do sudeste permanecem travando sua própria guerra de guerrilha com os cursos e não querem mais deles cruzando as fronteiras.

Aparentemente, Assad prometeu a Turquia que falaria publicamente para convencer suas forças a abandonar a luta nas ruas. Ele não cumpriu a promessa, o que enfureceu o ministro de Relações Exteriores turco.

(*) Do The Independent, da Grã Bretanha. Especial para o Página/12.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agencia Carta Maior

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Líbia e o mundo do petróleo

O mundo do petróleo raramente está longe quando se trata de assuntos que envolvem o Oriente Médio e o norte da África. Esse mundo oferece um guia útil para entender as reações ocidentais diante dos levantes populares no mundo árabe. Argumenta-se que o petróleo não pode ser considerado um motivo para a intervenção na Líbia porque o Ocidente já tem acesso ao mesmo sob o regime de Kadafi. Isso é certo, mas irrelevante. Afinal, o mesmo poderia ser dito sobre o Iraque sob o regime de Saddam Hussein.

O artigo é de Noam Chomsky.

No mês passado, no tribunal internacional sobre crimes durante a guerra civil em Serra Leoa, o julgamento do ex-presidente liberiano Charles Taylor chegou ao fim. O promotor geral, o professor de Direito estadunidense David Crane, informou ao jornal The Times, de Londres, que o caso estava incompleto: os promotores queriam processar Muammar Kadafi, que, disse Crane, era, em última instância, o responsável pela mutilação e/ou assassinato de 1,2 milhões de pessoas.

Mas isso não aconteceria, esclareceu. Os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países interviram para bloquear essa decisão. Ao ser perguntado sobre o porquê disso, respondeu: Bem vindo ao mundo do petróleo!
Outra vítima recente de Kadafi foi sir Howard Davies, diretor da Escola de Economia de Londres, que renunciou depois de revelações sobre os laços da escola com o ditador líbio.

Em Cambridge, Massachusetts, o Monitor Group, uma empresa de consultoria fundada por professores de Harvard, foi bem paga por serviços tais como um livro para levar as palavras imortais de Kadafi ao público em conversão com famosos especialistas internacionais, junto com outros esforços para melhorar a imagem internacional da Líbia (de Kadafi).
O mundo do petróleo raramente está longe quando se trata de assuntos que envolvem esta região.

Por exemplo, quando as dimensões da derrota estadunidense no Iraque já não podiam ser escondidas, a retórica bonita foi substituída pelo anúncio honesto de objetivos políticos. Em novembro de 2007, a Casa Branca emitiu uma declaração de princípios que insistia em que o Iraque deve conceder acesso e privilégio indefinidos aos invasores estadunidenses.

Dois meses depois, o presidente George W. Bush informou ao Congresso que rechaçaria a legislação que limitasse o emprego permanente das forças armadas estadunidenses no Iraque ou o controle dos EUA dos recursos petroleiros do Iraque; demandas que os Estados Unidos teriam que abandonar um pouco depois diante da resistência iraquiana.

O mundo do petróleo oferece um guia útil para entender as reações ocidentais diante dos notáveis levantes pró-democráticos no mundo árabe. O ditador rico em petróleo, que é um cliente confiável, é tratado com rédea solta. Houve pouca reação quando a Arábia Saudita declarou no dia 5 de março: as leis e regulamentos no reino proíbem totalmente qualquer tipo de manifestações, marchas e atos, assim como a sua convocação, já que vão contra os princípios da Shariah, os costumes e as tradições sauditas. O reino mobilizou enormes forças de segurança que aplicaram rigorosamente a proibição.

No Kuwait, pequenas manifestações foram sufocadas. O punho de ferro golpeou a população no Bahrein, depois que forças militares encabeçadas pela Arábia Saudita interviram para garantir que a monarquia sunita minoritária não fosse ameaçada pelas reivindicações de reformas democráticas.

O Bahrein é sensível não só porque abriga a Quinta Frota dos Estados Unidos, mas também porque faz fronteira com áreas xiitas da Arábia Saudita, local de maior parte das reservas do reino. Os recursos energéticos primários do mundo se localizam perto do norte do Golfo Pérsico (ou Golfo Arábico, como costuma ser chamado pelos árabes), uma área em grande medida xiita, um potencial pesadelo para os planejadores ocidentais.

No Egito e na Tunísia, o levante popular conseguiu vitórias impressionantes, mas, como informou a Fundação Carnegie, os regimes permanecem e aparentemente estão decididos a frear o ímpeto pró-democracia gerado até agora. Uma mudança nas elites governantes e no sistema de governo segue sendo um objetivo distante, e que o Ocidente buscará mantê-lo assim.

A Líbia é um caso diferente, um Estado rico em petróleo dirigido por um ditador brutal que, não obstante, é pouco confiável: seria melhor ter um cliente digno de confiança. Quando iniciaram os protestos não violentos, Muammar Kadafi atuou rapidamente para sufocá-las.

No dia 22 de março, enquanto as forças de Kadafi convergiam para a capital rebelde de Bengasi, o principal assessor do presidente Barack Obama sobre Oriente Médio, Dennis Ross, advertiu que se ocorresse um massacre, todos culpariam os EUA por isso, uma consequência inaceitável.

E o Ocidente certamente não queria que o coronel Kadafi aumentasse seu poder e independência, sufocando a rebelião. Os EUA trabalharam então pela autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas de uma zona de exclusão aérea, que seria posta em prática por França, Inglaterra e os próprios EUA.

A intervenção evitou um provável massacre, mas foi interpretada pela coalizão como a autorização para o apoio direto aos rebeldes. Um cessar-fogo foi imposto às forças de Kadafi, mas se ajudou os rebeldes a avançar para o oeste. Em pouco tempo conquistaram as principais fontes da produção petroleira da Líbia, ao menos temporariamente.

No dia 28 de março, o jornal em língua árabe sediado em Londres Al-Quds Al-Arabi advertiu que a intervenção deixaria a Líbia com dois estados, um leste rico em petróleo e em mãos dos rebeldes e um oeste encabeçado por Kadafi e mergulhado na pobreza. Com o controle dos poços petrolíferos assegurados, poderíamos estar diante de um novo emirado petroleiro líbio, escassamente habitado, protegido pelo Ocidente e muito similar aos estados emirados do golfo. Ou a rebelião respaldada pelo Ocidente poderia seguir adiante até eliminar o irritante ditador.

Argumenta-se que o petróleo não pode ser um motivo para a intervenção porque o Ocidente já tem acesso ao mesmo sob o regime de Kadafi. Isso é certo, mas irrelevante. O mesmo poderia ser dito sobre o Iraque sob o regime de Saddam Hussein, ou sobre Irã e Cuba atualmente.

O que o Ocidente busca é o que Bush anunciou: o controle, ou ao menos clientes dignos de confiança e, no caso da Líbia, o acesso a enormes áreas inexploradas que se espera sejam ricas em petróleo. Documentos internos britânicos e estadunidenses insistem que o vírus do nacionalismo é o maior temor, já que poderia engendrar desobediência.

A intervenção está sendo realizada pelas três potências imperiais tradicionais (poderíamos lembrar – os líbios presumivelmente o fazem – que, depois da Primeira Guerra Mundial, a Itália foi responsável por um genocídio no leste da Líbia).

As potências ocidentais estão atuando em virtual isolamento. Os estados na região – Turquia e Egito – não querem participar, tampouco a África. Os ditadores do golfo se sentiriam felizes de ver Kadafi partir, mas, ainda empanturrados pelas armas avançadas que recebem para reciclar os petrodólares e assegurar a obediência, oferecem apenas uma participação simbólica. O mesmo se aplica em outros lugares: Índia, Brasil e, inclusive, Alemanha.

A primavera árabe tem raízes profundas. A região está em fermentação há muitos anos. A primeira da atual onda de protestos começou no ano passado no Saara Ocidental, a última colônia africana, invadido pelo Marrocos em 1975 e retido ilegalmente desde então, de maneira similar ao Timor Oriental e aos territórios ocupados por Israel.

Um protesto não violento em novembro passado foi sufocado por forças marroquinas. A França interveio para bloquear uma investigação do Conselho de Segurança sobre os crimes de seu cliente. Logo acendeu-se uma chama na Tunísia que, desde então, espalhou-se e tornou-se uma conflagração.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agencia Carta Maior

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O "nosso homem em Tripoli": Oposição líbia inclui terroristas islâmicos

por Michel Chossudovsky

Moussa Koussa, o agente duplo. Há várias facções no interior da oposição líbia: Monárquicos, desertores do regime Kadafi incluindo o ministro da Justiça e mais recentemente o ministro dos Negócios Estrangeiros Moussa Koussa, membros das Forças Armadas Líbia, a Frente Nacional para a Salvação da Líbia (NFSL na sigla em inglês), a Conferência Nacional para a Oposição Líbia (NCLO na sigla em inglês) a qual actua como uma organização superior.

Raramente reconhecido pelos media ocidentais, a Al-Jamaa al-Islamiyyah al-Muqatilah bi Libya, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (Libya Islamic Fighting Group, LIFG) é parte integral da oposição líbia.

O Conselho Interino Líbio (Libyan Interim Council) não constitui uma entidade claramente definida. É baseado na representação de conselhos locais recém criados estabelecidos para "administrar a vida diária nas cidades e aldeias libertadas)". ( The Libyan Interim National Council" The Council's statement )

As forças de oposição são em grande parte constituídas por milícias civis não treinadas, antigos das Forças Armadas Líbias juntamente com paramilitares treinados do Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG).

O LIFG, o qual está alinhado com a Al Qaeda está, segundo relatórios, na linha de frente da insurreição armada.

Tanto o LIFG como entidade como os seus membros individuais são classificados pelo Conselho de Segurança da ONU como terroristas. Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA: "O Grupo de Combate Islâmico da Líbia ameaça a segurança global e a estabilidade através da utilização da violência e da sua aliança ideológica com a Al Qaida e outras organizações terroristas brutais" ( Treasury Designates UK-Based Individuals, Entities Financing Al Qaida -Affiliated Libyan Islamic Fighting Group - US Fed News Service , February 8, 2006)

Os conceitos estão invertidos. Tanto Washington como a NATO, que afirmam estarem a travar "uma Guerra ao Terrorismo" estão a apoiar um "movimento pró democracia" integrado por membros de uma organização terrorista.

Numa ironia cruel, Washington e a Aliança Atlântica estão a actuar em desobediência às suas próprias leis e regulamentos anti-terroristas.

Além disso, o apoio sob a "Responsabilidade de proteger" ("Responsibility to Protect", R2P) forças de oposição integradas por terroristas é implementado de acordo com a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, o qual está a violar flagrantemente a Resolução 1267 do próprio CSONU. Este último identifica o Al-Jama'a al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG) como uma organização terrorista.

Por outras palavras, o Conselho de Segurança da ONU está em flagrante violação não só da Carta das Nações Unidos como das suas próprias resoluções. ( The Al-Qaida and Taliban Sanctions Committee - 1267 ).

A rede Al Qaeda como instrumento de intervenção dos EUA-NATO

Amplamente documentada, a "Jihad islâmica" foi apoiada encobertamente pela CIA desde o desencadeamento da guerra soviético-afegã. (Ver Michel Chossudovsky, America's War on Terrorism, Global Research, Montreal, 2005). A Central Intelligence Agency (CIA) utilizando a Inter-Services Intelligence (ISI) dos militares do Paquistão desempenhou um papel chave no treino dos Mujahideen. Por sua vez, o treino de guerrilha patrocinado pela CIA foi integrado com os ensinamentos do Islão:

"Em Março de 1985, o presidente Reagan assinou a Decisão Directiva de Segurança Nacional 166, ... [a qual] autoriza um avanço na ajuda militar encoberta ao Mujahideen e deixava claro que a guerra secreta afegã tinha um novo objectivo: derrotar as tropas soviéticas no Afeganistão através da acção encoberta e encorajar a sua retirada. A nova assistência encoberta dos EUA começou com um aumento dramático nos fornecimentos de armas – uma ascensão firme para 65 mil toneladas anuais em 1987, ... bem como um "fluxo incessante" de especialistas da CIA e do Pentágono que viajavam para a sede secreta do ISI do Paquistão na estrada principal próxima a Rawalpindi, Paquistão. Ali os especialistas da CIA encontravam-se com oficiais da inteligência paquistanesa a fim de ajudar a planear operações para os rebeldes afegãos". (Steve Coll, Washington Post, July 19, 1992).

Origens históricas do Libya Islamic Fighting Group (LIFG)

O Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG), Al-Jama'a al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya foi fundado no Afeganistão pelo mujahideens veteranos líbios da guerra afegã contra os soviéticos.

Desde o início, na primeira metade da década de 1990, o LIFG desempenhou o papel de um "activo de inteligência" por conta da CIA e do serviço secreto de inteligência britânico, MI6. Arrancando em 1995, o LIFG esteve envolvido activamente numa Jihad islâmica contra o regime leigo líbio, incluindo uma tentativa de assassínio de Muamar Kadafi em 1996.

"O antigo operacional do MI5, David Shayler, revelou que enquanto estava a trabalhar sobre a secção da Líbia em meados da década de 1990, pessoal do serviço secreto britânico colaborou com o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG), o qual está conectado da um dos lugares-tenentes de confiança de Osama bin Laden. O LIFG é agora considerado um grupo terrorista no Reino Unido". (Gerald A. Perreira, British Intelligence Worked with Al Qaeda to Kill Qaddafi, http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23957 Global Research, March 25 2011, sublinhado nosso)

Ataque terroristas em estilo guerrilha foram rotineiramente efectuados contra forças de segurança, polícia e pessoal militar do governo líbio:

"Choques violentos entre forças de segurança (de Kadafi) e guerrilhas islâmicas irromperam em Bengazi em Setembro de 1995, deixando dezenas de mortos em ambos os lados. Após semanas de combate intenso, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG) declarou formalmente a sua existência num comunicado em que chamava o governo de Kadafi de "regime apóstata que blasfemou contra a fé de Deus Poderoso" e declarava que o seu derrube era "o mais premente dever após a fé em Deus". Este e os seguintes comunicados da LIFG foram emitidos por afegãos líbios aos quais fora concedido asilo político na Grã-Bretanha... O envolvimento do governo britânico na campanha do LIFG contra Kadafi permanece assunto de imensa controvérsia. A grande operação seguinte do LIFG, uma tentativa de assassinato de Kadafi em Fevereiro de 1996 que matou vários dos seus guarda-costas, foi dito posteriormente que fora financiada pela inteligência britânica ao custo considerável de US$160 mil, segundo o ex-oficial do MI5 David Shayler. Se bem que as alegações de Shayler não tenham sido confirmadas independentemente, é claro que a Grã-Bretanha permitiu ao LIFG desenvolver uma base de apoio logístico e levantamento de fundos no seu território. De qualquer modo, o financiamento por bin Laden parece ter sido muito mais importante. Segundo um relatório, o LIFG recebeu mais de US$50 mil do mentor terrorista saudita por cada um do seus militantes mortos no campo de batalha ". [2005] (Citado em Peter Dale Scott, Who are the Libyan Freedom Fighters and Their Patrons? Global Research, March 2011, sublinhados nossos).

Há informações contraditórios sobre se o LIFG é parte da Al Qaeda ou está a actuar como uma entidade jihadista independente. Um relatório sugere que em 2007 o LIFG tornou-se "uma subsidiária da Al Qaeda, assumindo posteriormente o nome de Al Qaeda no Maghreb Islâmico (Al Qaeda in the Islamic Maghreb, AQIM). (Ver Webster Tarpley The CIA's Libya Rebels: The Same Terrorists who Killed US, NATO Troops in Iraq , Global Research, March 2011)

Continuidade nas operações de inteligência dos EUA e aliados: Operacionais da Al Qaeda na Jugoslávia

Desde a guerra soviético-afegã, a rede Al Qaeda tem servido como um "activo de inteligência" para a CIA. Como confirmado por um documento de 1997 do Senado dos EUA, operacionais da Al Qaeda foram utilizados pela administração Clinton para canalizar apoio para o Exército Muçulmano Bósnio no princípio da década de 1990. US Senate, Republican Party Committee, Clinton-Approved Iranian Arms Transfers Help Turn Bosnia into Militant Islamic Base, http://rpc.senate.gov/releases/1997/iran.htm , 1998)

O Exército de Libertação do Kosovo (KLA na sigla em inglês), o qual foi apoiado pela NATO, desenvolveu laços extensos com a rede de terror islâmico. ( US Senate, Republican Party Committee, The Clinton Administration Sets Course for NATO Intervention in Kosovo, 1998, http://rpc.senate.gov/releases/1998/kosovo.htm , Ver também Michel Chossudovsky, America's "War on Terrorism" , Global Research, Montreal, 2005)

A Al Qaeda na Jugoslávia serviu como um activo de inteligência no contexto da "guerra humanitária" da NATO. Organizações terroristas foram encobertamente apoiadas e financiadas. A intervenção da NATO chegou para resgatar o Exército de Libertação do Kosovo (KLA) o qual era apoiado por operacionais da Al Qaeda. (US Republican Party Committee documents, op cit)

Isto faz parte do padrão EUA-NATO: Apoiar uma insurreição integrada por terroristas tendo em vista justificar intervenção com argumentos humanitários para "salvar as vidas de civis".

Esta foi a justificação da NATO para intervir na Bósnia e no Kosovo. Que lições extrair para a Líbia?

Antigo chefe da inteligência líbia, Moussa Koussa, deserta para o Reino Unido

O LIFG era apoiado não só pela CIA e pelo serviços de inteligência britânico (MI6) como também por facções dentro da agência de inteligência da Líbia, chefiada pelo antigo responsável de inteligência e ministro dos Negócios Estrangeiros, Moussa Koussa, que desertou para o Reino Unido no fim de Março de 2011.

William Burns. Em Outubro de 2001 o chefe da inteligência líbia Moussa Koussa encontrou-se com o secretário de Estado assistente dos EUA William J. Burns. O encontro Koussa-Burns foi de importância crucial. Estiveram presentes nas reuniões responsáveis superiores da CIA e do MI6 incluindo sir John Scarlett que naquele tempo (Outubro 2001) era o chefe do Joint Intelligence Committee (JIC) do gabinete, subordinado directamente ao primeiro-ministro Tony Blair. O JIC supervisiona em nome do governo britânico o estabelecimento de prioridades para o MI6, MI5 e Defense Intelligence.

John Scarlett. Nosso homem em Tripoli, Moussa Koussa, devia desempenhar o papel de um agente duplo. Em reuniões secretas com sir John Scarlett acordou-se que "um agente britânico podia operar em Tripoli". ( Libya defector Moussa Koussa was an MI6 double agent , Sunday Express, April 3, 2011)

O desenvolvimento do LIFG como um movimento paramilitar jihadista bem como a sua integração nas forças de oposição anti-Kadafi revela um relacionamento directo com o papel central desempenhado pelo agente duplo Moussa Koussa, o qual foi instrumental no estabelecimento de estreitos laços bilaterais com a CIA e o MI6.

A este respeito, a deserção de Moussa Koussa no fim de Março tem toda a aparência de uma operação cuidadosamente encenada. De um modo inabitual, o acordo foi negociado com o governo britânico através da intermediação de um antigo líder do LIFG, organização terrorista relacionada com a Al Qaeda, que agora está a trabalhar com uma fundação de direitos humanos com sede em Londres:

Noman Benotman, amigo do ministro líbio dos Negócios Estrangeiros Moussa Koussa, contou à BBC como ajudou a organizar a sua deserção do regime Kadafi.

O sr. Benotman foi líder do Libyan Islamic Fighting Group mas agora trabalha para o think tank contra-extremista da Quilliam Foundation .

Ele disse acreditar que o sr. Koussa estaria a negociar com o governo britânico e era muito cooperativo quanto a inteligência.

Gordon Corera da BBC acrescentou que o governo britânico estava num dilema sobre como tratar o sr. Koussa devido aos seus antecedentes como chefe da inteligência líbia.

O sr. Benotman contou no BBC Breakfast como ajudou Koussa a desertar e como costumavam ser rivais. ( BBC Breakfast April 1, 2011, sublinhado nosso)

Ironicamente, Benotman foi recrutado como Mujahideen para combater na guerra soviético-afegã. Ele foi um dos fundados do LIFG no Afeganistão. Centrando-se em questões de "contra-extremismo", Benotman é actualmente analista sénior na Quilliam Foundation. Suas responsabilidades actuais incluem estender a mão "para actuais e antigos extremistas e utilizar a Quilliam como uma plataforma a partir da qual partilha seu conhecimento interno da Al-Qaeda e outros grupos jihadistas junto a uma audiência mais vasta".

O programa de contra-terrorismo da CIA

Os laços bilaterais estabelecidos em Outubro de 2001 entre a CIA-MI6 e a inteligência líbia proporcionaram às agências de inteligência ocidentais acesso directo e vigilância dentro da Líbia, através dos seus colegas pró EUA na agência de inteligência dirigida por Moussa Koussa. Este acordo permitiu à inteligência ocidental infiltrar efectivamente a Agência de Inteligência Líbia a qual estava sob o comando de um agente duplo do MI6.

Segundo o Departamento de Estado num relatório de 2008, o governo líbio "continuou a cooperar com os Estados Unidos e a comunidade internacional para combater o terrorismo e o financiamento terrorista". "U.S. officials hope to extend counterterrorism assistance to Libya during FY2010 and FY2011...." (Ver Christopher M. Blanchard Libya: Background and U.S. Relations , US Congress Research Service, July 16, 2010)

Em 2009 a inteligência líbia estabeleceu um programa conjunto de contra-terrorismo através do qual responsáveis da inteligência líbia receberiam treino da CIA em contra-terrorismo. Este programa fazia parte de um acordo negociado por Moussa Koussa com a CIA. Em teoria pretendia-se desmantelar o LIFG com a ajuda da CIA. Ter em consideração a ambiguidade do "contra-terrorismo" da CIA. O lançamento do LIFG no Afeganistão no princípio da década de 1990 fazia parte de um projecto da CIA de criar um exército líbio a partir da sua rede Al Qaeda.

Também em 2009, os líderes aprisionados do Libyan Islamic Fighting Group (LIFG) alegadamente renunciaram à sua luta armada travada contra o regime Kadafi num acordo alcançado com responsáveis da segurança líbia. ( New jihad code threatens al Qaeda , CNN, November 2009)

Qual era o papel do programa de contra-terrorismo EUA-Líbia na perspectiva de Washington?

Oficialmente, era identificar membros do LIFG e desmantelar o LIFG como organização. Na prática, a operação conduzida pelos EUA na Líbia, incluindo treino sob os auspícios da CIA, proporcionava à agência uma cortina de fumo conveniente para efectuar operações de inteligência dentro da Líbia. Por um lado o programa de treino permitiu à CIA infiltrar e adquirir interlocutores confiáveis dentro da inteligência líbia.

Também permitiu à Agência, em conjunto com o serviço secreto de inteligência britânico (MI6), proporcionar realmente apoio encoberto ao LIFG na expectativa da insurreição armada de Março de 2011.

Os media sugerem que o LIFG foi desmantelado (a seguir à implementação do programa de contra-terrorismo patrocinado pela CIA). Não há prova disso. O LIFG permanece na lista de terroristas (actualizada até 24/Março/2011) do Conselho de Segurança das Nações Unidas:

QE.L.11.01. Name: LIBYAN ISLAMIC FIGHTING GROUP

Name (original script):

A.k.a.: LIFG F.k.a.: na Address: na Listed on: 6 Oct. 2001 (amended on 5 Mar. 2009)

Other information: Review pursuant to Security Council resolution 1822 (2008) was concluded on 21 Jun. 2010

United Nations Security Council: Consolidated List established and maintained by the 1267 Committee with respect to Al-Qaida, Usama bin Laden, and the Taliban and other individuals, groups, undertakings and entities associated with them (updated March 24, 2011)

(p. 70, http://www.un.org/sc/committees/1267/pdf/consolidatedlist.pdf , De acordo com as regras do CSONU, organizações terroristas desmanteladas são removidas da lista em conformidade com um procedimento de deslistagem. O LIFG não foi removida da lista)

Armas e apoio encoberto a rebeldes do LIFG

Há indicações de que a CIA e MI6 continuam a proporcionar apoio encoberto ao LIFG, o qual agora constitui a linha de frente da insurreição armada contra o regime Kadafi.

Hakim al-Hasidi, o líder rebelde líbio, disse que jihadistas que combateram contra tropas aliadas no Iraque estão na linha de frente da batalha contra o regime de Muammar Kadafi.

... O sr. al-Hasidi insistiu em que os seus combatentes "são patriotas e bons muçulmanos, não terroristas", mas acrescentou que os "membros da al-Qaeda também são bons muçulmanos e estão a combater contra o invasor". (Libyan rebel commander admits his fighters have al-Qaeda links, Daily Telegraph, March 25, 2011, italics added)

Abdul Hakim Al-Hasadi é o líder do LIFG que recebeu treino militar num campo de guerrilha no Afeganistão. Ele é o chefe de segurança das forças de oposição num dos territórios mantidos pelos rebeldes, com cerca de 1000 homens sob o seu comando. ( Libyan rebels at pains to distance themselves from extremists - The Globe and Mail" , March 12, 2011)

Estão a ser canalizadas armas para o LIFG a partir da Arábia Saudita, a qual historicamente, desde o início da guerra soviético-afegã, apoiou a jihad islâmica. Os sauditas estão agora a abastecer os rebeldes, em ligação com Washington e Bruxelas, com rockets anti-tanque e mísseis terra-ar.

Desinformação dos media: Terroristas islâmicos aderem ao Movimento Pró Democracia "a título pessoal"

O almirante James Stavridis, Comandante Supremo dos Aliados da NATO na Europa, reconheceu tacitamente que a "inteligência americana havia detectado "lampejos" de actividade terrorista entre os grupos rebeldes". "Muito alarmante"... Mas não estamos a tratar de "lampejos". Os combatentes do LIFG constituem o esqueleto da insurreição armada.

Os media ocidentais também exprimiram preocupação, se bem que insistindo em que os jihadistas são "antigos" membros do LIFG que aderiram à luta armada "a título pessoal" e não como membros da organização terrorista. Conforme Benotman numa entrevista à CNN:

... Dúzias de antigos combatentes do LIFG aderiram agora aos esforços rebeldes para derrubar Kadafi, mas asseverou que fizeram-no a título pessoal e não como grupo organizado.

Alguns responsáveis ocidentais em contra-terrorismo preocupam-se em que uma guerra civil prolongada na Líbia possa abrir espaço para a Al Qaeda. Governos e ONGs têm de ser rápidas, afirma Benotman, em ajudar a desenvolver educação, cuidados de saúde e instituições democráticas em áreas mantidas pelos rebeldes. (Paul Cruickshank e Tim Lister, Libyan civil war: An opening for al Qaeda and jihad? CNN , March 23, 2011)

Uma organização terrorista relacionada com a Al Qaeda integra o movimento pró democracia líbio? Desde quando terroristas actuam como indivíduos "a título pessoal"?

Mas o LIFG como entidade e também os seus membros individuais são classificados pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas como terroristas de acordo com a Resolução 1267 do CSON. ( The Al-Qaida and Taliban Sanctions Committee - 1267 )

"Nosso homem em Tripoli"

Antigo chefe da inteligência líbia, Moussa Koussa desempenhou um papel na canalização de apoio encoberto ao LIFG por conta dos seus colegas dos serviços de inteligência ocidentais.

O ex-director da CIA George Tenet, se bem que sem se referir explicitamente ao "Nosso homem em Tripoli", reconheceu na sua autobiografia de 2007 que "o relaxamento de tensões com a Líbia [foi] um dos maiores êxitos do seu mandato, pois levou à cooperação entre as duas agências de espionagem contra a al-Qaeda". (citado em Intelligence Partnership between Qadhafi and the CIA on counter-terrorism , op cit)

Moussa Koussa era o "Nosso homem em Tripoli". As circunstâncias da sua deserção, bem como o historial da sua colaboração com a CIA e o MI6, sugerem que, pelo menos durante os últimos dez anos, ele esteve a servir interesses dos EUA e aliados, incluindo o planeamento da insurreição armada "pró democracia" na Líbia Oriental.

Já não deveria haver dúvida: A aliança militar ocidental está a apoiar uma rebelião integrada por terroristas islâmicos em nome da "guerra ao terrorismo".

Quem são os terroristas? Numa torção amarga, enquanto a jihad islâmica é caracterizada pela administração dos EUA como "uma ameaça à civilização ocidental", estas mesmas organizações islâmicas, incluindo o Libya Islamica Fighting Group (LIFG) constitui um instrumento chave das operações militares e de inteligência dos EUA na Ásia Central, no Médio Oriente e no Norte de África, sem mencionar as repúblicas islâmicas da antiga União Soviética.

03/Abril/2011
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=24096

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .