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sábado, 12 de outubro de 2013

O inconsciente mutilado da mulher negra

por  


Por Márcia Santos Severino para as Blogueiras Negras
O racismo no Brasil aponta duas representações do negro: uma como exótico-sensual, que atrai e dá prazer e outra como exótico-violento que gera repulsa e dá medo (SANTOS, 2004, p.30).
Essas duas formas de representação também são elementos da ideologia racista e é interessante que as analisemos do ponto de vista da mulher negra. Com efeito, a mulher negra é um ser que possui grande sofrimento ontológico. Carrega consigo os “pesares” de ser negra em uma sociedade racista e mulher em uma sociedade patriarcal além de, na grande maioria das vezes, ser pobre em uma sociedade de classes.
A análise da autora Gislene Aparecida dos Santos nos coloca interessantes elementos de análise acerca dos processos que envolvem a psiquê da mulher negra. A partir das considerações da autora inseriremos um conceito muito usado em psicologia. Trata-se do conceito de arquétipo. Segundo analistas junguianos, um arquétipo pode ser vivenciado de forma tanto positiva quanto negativa.
Quando atuam de modo positivo, os arquétipos estão por trás de toda realização humana criativa no âmbito da cultura. Já a forma negativa pode se traduzir em termos sociais como uma possessão, fanatismo cego, e rigidez ideológica . Isto demonstraria o potencial para uma profunda investigação antropológica baseado na percepção das formas como são vividos cada arquétipo e desdobramentos das nossas ações nas diferentes sociedades e culturas, já que os ciclos vitais das culturas são determinados por formas arquetípicas. Cada cultura poderia estar atualizando determinados arquétipos (MARIE-LOUSIE VON FRANZ apud SANTOS, 2004, p. 36).
O conceito de arquétipo é aqui inserido para a análise de um conto de fadas muito lido pelas crianças e que nos dá pistas de como a psiquê da mulher negra é afetada pela ideologia racista.
No conto “A borralheira”, lido e usado como arquétipo mundialmente por várias crianças, principalmente meninas, três irmãs brigam entre si pelo amor do príncipe encantado. A cinderela ou borralheira é renegada pelas irmãs, pela madrasta e pelo próprio pai que não a defende, mas ao cabo consegue ficar com o príncipe. O nome original da personagem vem do francês Cendrillon e faz alusão a alguém que vive entre as cinzas. Como borralheira executava todas as funções domésticas da casa, obrigada pela madrasta e pelas irmãs, as cinzas do fogão escureciam sua pele e, por esse fato, ela era obrigada a dormir e viver longe do restante da família. O interessante é observarmos a analogia que Gislene Santos faz entre esse conto e a situação, por exemplo, das escravas no período colonial e das empregadas domésticas nos dias atuais.
Os piores lugares das casas costumam ser destinados aos empregados. Quanto mais indignos forem considerados, mais distantes dos olhos dos donos das casas devem estar. Foi assim que, no Brasil colonial, Gilberto Freyre demonstrou que as escravas mais claras poderiam viver dentro da casa-grande, enquanto as mais escuras deveriam habitar as senzalas. A separação do espaço geográfico das casas e dos prédios de acordo com a cor da pele ainda se faz presente nos aposentos de empregadas, nos elevadores de serviço (mesmo que proibidos). No Brasil, sabemos que grande parte dos empregados domésticos e empregadas domésticas é negra. (SANTOS, 2004, pp. 41-42).
Gislene Santos considera que o conto faz uma analogia não só aos aspectos psíquicos, mas também aos aspectos sociais e atenta para o fato de que borralheira foi excluída pelas suas irmãs (as demais mulheres) e por seus pais (a sociedade e a cultura) (SANTOS, 2004). Daí podemos constatar, inclusive, que a busca pelo objeto amoroso branco de que falaremos a seguir também leva as mulheres negras a uma certa rivalidade.
Após se limpar se seus borralhos e se cobrir de ouro e prata, borralheira consegue conquistar e casar com o príncipe branco. Esse fator também é essencial para que entendamos porque o inconsciente da mulher negra é mutilado após um processo de mutilação de seu próprio corpo que será mais bem analisado adiante.
Gislene Santos também cita a autora Neusa Souza para nos apontar a diferença que há entre a borralheira e suas irmãs. Na verdade as irmãs a invejam porque ela possuiria o privilégio de ser mais completa ao se casar com o príncipe branco. Isso evidencia que a escolha do objeto amoroso também é uma forma de realização do Ideal de Ego (SANTOS, 2004).
Um objeto que, por suas características, possa ser o substituto do Ideal irrealizável. Um parceiro branco com quem o negro – através da intimidade da relação afetivo-sexual – possa se identificar e realizar o Ideal de Ego inatingível [...] O parceiro branco é transformado em instrumento tático, numa luta cuja estratégia é cumprir os ditames superegóigos, calcados nos valores hegemônicos da ideologia dominante (SOUZA apud SANTOS, 2004, p. 53).
Por seu lado, o homem negro também busca realizar o seu Ideal de Ego buscando na mulher branca o seu objeto amoroso, no entanto, as complexas relações de gênero que envolvem os relacionamentos inter-raciais (tanto do homem negro com a mulher branca, como da mulher negra com o homem branco) dão conta de que a mulher negra sofre sempre uma dupla rejeição: por parte do homem negro que a rejeita por ela não representar seu Ideal de Ego e sua possibilidade de ascensão social (possibilidades essas que ele pode encontrar na mulher branca), como pelo homem branco que vê nela apenas uma representação exótico-sensual.
A mulher negra ocupa um lugar de destaque no imaginário do homem branco. Ela é, ao mesmo tempo, um objeto de desejo e um ser que está fora de seu campo de expectativas mais duradouras. O exotismo que a cerca e a carga histórica que pesa sob seus ombros limitam suas possibilidades de ação. Ao toparem com um branco, poucas conseguem um relacionamento para além do sexo (FRENETTE apud SANTOS, 2004, p. 57).
As complexas relações de gênero que há nas relações inter-raciais, principalmente no Brasil, e especificamente na relação da mulher negra com o homem branco, assumem um aspecto diferenciado das demais localidades, pois no Brasil desde a época colonial, existe o que Dussel denominou de patriarcalismo paternalista que poderia ser identificado com a figura do senhor de engenho (DUSSEL, …). Sabemos que a relação do senhor de engenho com a escrava negra era construída sobre bases opressivas. Além de muitas vezes fundamentada no estupro, os frutos das relações do senhor de engenho com a escrava não eram, obviamente, assumidos. Muitas vezes os filhos dessas relações se transformavam nos futuros opressores de escravos, visto que, atingindo a idade adulta eles poderiam se tornar capatazes e trabalhar para seu próprio pai.
Dessa maneira, a opressão de gênero sobre a mulher negra assume matizes diferenciados da opressão patriarcal sobre a mulher branca desde a época colonial e encontramos o ranço dessas relações nos dias atuais em nossa sociedade. O senhor de engenho não assumia seus filhos, mas transformava-os em mão-de-obra para dar continuidade à repressão aos negros. O paternalismo como fenômeno político opera de forma bastante parecida, pois, o paternalista é a um só tempo pai de todos e pai de ninguém. Daí o entendimento que podemos conferir ao conceito de Dussel.
Talvez essa seja a pista para entendermos, nos dias atuais, porque a maioria das mães solteiras e das mulheres que sofrem complicações com a prática do aborto clandestino são negras. Um estudo da UFRJ com dados coletados entre 1999 e 2005 revela que entre 565 vítimas de aborto nesse período, 50,6% são mulheres negras e pardas . Segundo dados da II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, realizada em 2007, 60% das famílias sem rendimentos são chefiadas por mulheres negras. Esses dados apontam para um círculo vicioso, dado que os filhos dessas mulheres acabam sendo os futuros jovens que serão vítimas da violência no país. Esses dados mostram um grande entrave para a tomada de consciência negra. Segundo Dussel, a família seria um local privilegiado para a tomada dessa consciência, a exemplo do que parece ocorrer entre as famílias negras nos E.UA.
A afirmação psicológica do afro-americano é, então, essencial. É necessário destruir o “Ideal do Eu” como ideal do branco, do senhor, da cultura dominada por outras raças. É necessário construir um novo “Ideal do Eu”, onde a raça negra seja “vivida” psicologicamente, desde a infância como um valor, uma honra, uma herança histórica. Para isto urge uma árdua tarefa educativa, sobretudo na família, lugar do Eros, da afetividade, da reta liberação da libido não traumática (DUSSEL, …, p. 225).
Foto: Ligiane Braga
Sabemos que essa não é a realidade da maioria das famílias dos jovens negros. Basta ouvir as letras do grupo de rap Facção Central e ver as notícias que apontam para o extermínio da juventude negra no país.
Foto: Ligiane Braga
A busca do objeto amoroso branco, com vistas a atingir o Ideal de Ego branco também pode ser vista como uma reprodução, por parte da mulher negra, da ideologia do “embranquecimento”. 


Assim, busca-se um parceiro branco para que a próxima geração seja “menos negra” e assim por diante. Isso deve ser encarado não como uma simples reprodução do racismo, mas também como uma forma atenuadora do sofrimento. Por saber da complexidade e do sofrimento que é ser negro em uma sociedade racista, a mulher negra busca atenuar esse sofrimento em seus filhos gerando crianças “mais claras” ou “menos negras” como já dito acima.
O que o conto de fadas “A borralheira” também nos denota é que a mutilação é usada pela mulher negra para que ela possa ser aceita no mundo branco (SANTOS, 2004, p. 46). No conto, isso é expresso através das irmãs de borralheira que cortam os dedos e o calcanhar para caber no sapato e, assim, conquistar o príncipe branco. A própria borralheira só é aceita pelo príncipe porque os “artifícios” e a cosmética a livram de seus borralhos.
Com efeito, o conceito de “boa aparência”, no Brasil, significa brancura ou algo que é restrito aos brancos (SANTOS, 2004). As formas de mutilação não só do corpo como também, por corolário, do inconsciente da mulher negra se expressam nessa busca aparência “menos negra”.
Sem a mutilação do corpo, a mulher negra “padeceria” de uma “má aparência crônica”. A cosmética a tornaria mais aceitável ou diminuiria o grau de rejeição de seu corpo negro, de seu cabelo crespo, seu nariz, sua boca [...] Seria possível a uma mulher negra, sem a máscara da cosmética, almejar a menor aceitação na sociedade branca? (SANTOS, 2004, p. 46).
Com esse questionamento terminamos por aqui, porém sem um ponto final, a proposta de reflexão sobre as angústias e aflições que atingem o dia a dia de nós mulheres negras. Esperamos que essa simples reflexão sirva para a tomada de consciência das mulheres acerca da carga social e histórica que nos aflige.
PODER PARA O POVO PRETO.
Referências
[1] Aqui o termo ideologia toma o significado clássico marxista que, grosso modo, significa mascaramento da realidade.
[2] Aqui o conceito de Ideal de Eu pode ser identificado com o conceito de Ideal de Ego havendo simplesmente uma tradução diferenciada do termo em textos diferentes.
DUSSEL, Enrique. Racismo, América Latina negra e teologia da libertação. In: Escravidão Negra e História da Igreja na América Latina e no Caribe. 1 ed. São Paulo: Vozes, 1987.
SANTOS, Gislene A. Mulher negra, homem branco. 1 ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
SOUZA, Neusa S. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 2. Ed. Rio de Janeiro: Graal, 1990.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A face racista da miscigenação brasileira

210513 miscigenacaoBrasil - Blogueiras Negras - [Jarid Arraes] A questão da miscigenação racial no Brasil costuma ser muito simplificada e romantizada.

Não é raro ouvirmos que o Brasil é um país mestiço e plural e que, consequentemente, todos os seus habitantes tiveram sua etnia inevitavelmente misturada em algum ponto de sua ancestralidade. Mas sob o axioma de um país miscigenado se esconde uma realidade violenta e racista: a generalização da branquitude em um país predominantemente negro.
Se todos os brasileiros são miscigenados e possuem sangue negro e indígena em suas veias, por que tantas pessoas resistem em reconhecer a própria ascendência? Acontece que a identificação social da pessoa negra no Brasil acontece diretamente devido ao tom da pele. O entendimento das pessoas a respeito da negritude é muitas vezes distorcido: mesmo que a família direta ou os pais de um indivíduo sejam negros, o que pesa para que essa pessoa seja reconhecida como negra é a cor da sua pele. Mesmo o tom escuro não é garantia de que alguém será visto como negro; basta lembrar de quantas vezes são adotados eufemismos como "moreno" para se referir a pessoas com a cor da pele escura, como se a palavra pudesse de algum modo reduzir a carga negativa que o termo "negro" parece ter.
Embora a sociedade nem sempre valide a negritude alheia, as pessoas costumam reconhecer essa mesma negritude em traços e características físicas, que são constantemente transformados em justificativas para o racismo e a violência. O nariz largo, os lábios grossos ou o cabelo crespo, popularmente conhecido como "cabelo ruim", são alvos de degradação e repúdio. É interessante lembrar que a África é um vasto continente com uma grande variedade de etnias, das quais não são todas que se encaixam no molde conhecido de "traços negros". Ainda assim, são essas as características interpretadas como negras e que acabam por fermentar o racismo em suas mais diversas formas.
Mesmo com tantas histórias de violência racista, muitas pessoas ainda se sentem inseguras quando questionadas sobre sua negritude. Na última semana, foi aberto um formulário de pesquisa voltado para pessoas miscigenadas e as respostas obtidas foram bastante similares entre si. Algumas pessoas dizem que não se sentem no direito de se afirmar como negras devido ao tom não tão escuro da sua pele. Muitas delas são descendentes diretas de negros, ou contam com parentes próximos negros, mas a afirmação racial simplesmente não acontece. Por um lado, essa é uma demonstração de respeito às pessoas negras de pele inquestionavelmente escura, que sofrem o racismo diário impassível de debates ou especulações – o racismo contra a pele escura e contra a aparência. Por outro lado, uma discussão séria e sensível se faz necessária: por que tanta gente afrodescendente não reconhece a própria negritude e não consegue afirmá-la de forma política e subjetiva?
Para os brasileiros, é melhor ser branco sempre que for possível. Se a pele não é escura o suficiente, ou se um dos pais é loiro de olhos azuis, então a pessoa é considerada branca, em uma tentativa incansável de clarear os descendentes, a família e a nação. Da mistura de raças, nasce o branco por consideração e, com isso, morrem a cultura, a religião e a identidade afrodescendente. A negritude e a cultura africana, com seus símbolos e tradições, se tornam cada vez mais algo do passado, de uma ancestralidade que é, na maioria esmagadora das vezes, totalmente desconhecida.
Mas os tópicos para debate não param por aí, pois não é o reconhecimento da identidade negra que fará uma pessoa ser negra. Mesmo que os seus pais ou os seus avós sejam negros, uma pessoa de pele branca e cabelo claro dificilmente sofre o racismo destinado às pessoas negras. É uma questão de bom senso: não há empatia em tomar uma afirmação política contra uma discriminação da qual você não é vítima. Resgatar suas raízes familiares, conhecê-las, celebrá-las e promovê-las é algo desejável e inspirador, mas é importante tomar cuidado para não banalizar a afirmação política negra e a sua luta. Há pessoas brancas, essas sem nenhum vínculo familiar negro, que são repletas de má fé e dizem que também são negras por causa da miscigenação brasileira. Mas esse argumento é uma farsa: em nosso país, negro é quem é reconhecido pelos outros como negro e, consequentemente, sofre racismo e discriminação social.
O racismo é um problema enraizado desde a formação do Brasil. Há séculos nosso país vem lutando para destruir as heranças culturais africanas e impedir a afirmação política negra de autorreconhecimento racial. Fazemos parte de um país que não tanto tempo atrás tinha abertamente uma política de branqueamento racial, incentivando a entrada de imigrantes brancos para clarear a cor do Brasil. A cultura brasileira deseja apagar o negro da sua história, sob a máscara pretenciosa da miscigenação. Mas a miscigenação também pode ser uma arma de luta e empoderamento: basta nos compreendermos como afrodescendentes, sem perdermos de vista o racismo que sofremos. Quando a face racista da sociedade se revela, não há quase-brancos, quase-negros ou morenos, mas sim pessoas nas quais a negritude foi reconhecida.
Por fim, esse texto sozinho jamais seria capaz de abordar todas as nuances e complexidade do tema. É preciso desbravar a miscigenação brasileira e promover a conscientização sobre o assunto. Que essa seja somente a nossa largada para a reflexão e a realização de novos debates e projetos.
Fonte: http://www.diarioliberdade.org

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Racismo filho do fascismo


A luta para acabar com as repetidas manifestações de racismo e xenofobia, na Europa inteira, vai ser longa

Por Vito Giannotti

Na Europa, todos os meses, há notícias de um ataque racista contra “extra-comunitários”, isto é, não europeus. Sempre a mesma cena: mortes de imigrantes e a imediata apresentação dos atacantes como loucos, neuróticos, desequilibrados. Em seguida a absolvição dos criminosos e o rápido esquecimento do fato, com silêncio de toda a mídia que apoia o sistema.
Todos lembramos da chacina de quase cem pessoas de meses atrás, cometida por um jovem da Noruega. Ele já foi declarado “psicopata”, isto é, absolvido. Não era nenhum louco especial, só um cara de direita, amigo de amigos de grupos nazistas ou fascistas e todos racistas cheios de ódio de árabes, africanos e eslavos.
No ano passado, o governo do presidente francês Sarkozy mandou “limpar” Paris e a França de imigrantes miseráveis da Romênia, que já viviam no país há anos. Qual o crime? Não são franceses legítimos.
Em dezembro passado, dia 10, na cidade modelo da cultura italiana, Florença, um pacato cidadão matou a tiros de revólver dois imigrantes do Senegal, num mercado público, e deixou dezenas de feridos. Este “pacato” cidadão também pertencia a um grupo racista e planejou detalhadamente a chacina.
Três dias antes, em Turim, uma garota de 16 anos resolveu transar com o namorado. Acabou a virgindade. E daí? Correu para casa para contar para os pais e os irmãos que tinha sido atacada e estuprada por dois “rom”, isto é, por dois imigrantes romenos “que fediam muito”. Duas horas depois, jovens da bem comportada Turim, armados de picaretas, machados e latas de gasolina, destruíram e incendiaram uma favelinha de 25 barracos de imigrantes perto da casa da moçoila. Essa mesma mocinha, arrependida, uma hora depois declarou na delegacia que ela tinha inventado tudo por medo dos pais descobrirem o pecado que ela fez com o namoradinho. E daí? O acampamento dos imigrantes já estava em chamas e os jovens alegres a comemorar.
No dia 17 de dezembro, em Florença, 20 mil manifestantes prestaram solidariedade aos dois senegaleses assassinados na semana anterior. Foi bom. Mas é pouco para reverter 20 anos de avanço da ideologia de direita neoliberal. A ideia chave desta ideologia é o individualismo. E o racismo é o individualismo expandido à etnia. Eu sou o centro. O problema são os outros. Os diferentes. E os imigrantes, os estrangeiros são muito diferentes. Daí vem o ódio a todos eles. Hitler também dizia que os judeus eram muito diferentes.
A luta para acabar com as repetidas manifestações de racismo e xenofobia, na Europa inteira, vai ser longa. Na Itália, por exemplo, há quase seis milhões de imigrantes que não tem direitos civis. Cerca de 10% da força de trabalho deste país não têm direito de voto. Isso vale mesmo para aqueles que nasceram na Itália, mas tem a mancha de não ser filhos de italianos “legítimos”.
Até o presidente da República, o antigo comunista Giorgio Napolitano, no dia da manifestação de Florença, declarou: “Precisamos bloquear a cultura racista. Tivemos tolerância demais com a xenofobia e o racismo”.
O líder do partido de esquerda, Socialismo, Ecologia e Liberdade (SEL), foi taxativo: “Nossa classe dirigente por 15 anos fez racismo de Estado”. É isso mesmo. O momento, para a Itália de hoje, e para a Europa, é de avançar nestas constatações e voltar a levantar as causas desta derrota de esquerda que gerou este racismo. Retomar o combate unitário à cultura da direita neoliberal que imperou nestas últimas décadas. E mostrar que a única alternativa é retomar a construção de uma nova cultura socialista baseada na solidariedade. Ou isso, ou dar razão a Hitler. Enfim, é o velho dilema que colocava Rosa Luxemburgo, cem anos atrás: “Socialismo ou barbárie”.

Vito Giannotti é escritor e Coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação.

Texto originalmente publicado na edição 462 do Brasil de Fato.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/

domingo, 30 de outubro de 2011

O perfeito imbecil politicamente incorreto


No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião. Saiba como reconhecê-lo. Por Cynara Menezes. Foto: Reprodução
 PorEm 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.
Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:
1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.
2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.
3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mais de 500 mil pessoas foram mortas no Brasil entre 1997 e 2007 O extermínio da população negra.


1 branco é morto no País para cada 2 negros

Mapa da Violência mostra que, em 2008, morreram 103% mais negros assassinados no Brasil; crimes contra eles não param de crescer


No Brasil, em cada três assassinatos, dois são de negros. Em 2008, morreram 103% mais negros que brancos. Dez anos antes, essa diferença já existia, mas era de 20%. Esses números estão no Mapa da Violência 2011, um estudo nacional que será apresentado hoje pelo pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz.
Os números mostram que, enquanto os assassinatos de brancos vêm caindo, os de negros continuam a subir. De 2005 para 2008, houve uma queda de 22,7% nos homicídios de pessoas brancas; entre os negros, as taxas subiram 12,1%.
O cenário é ainda pior entre os jovens (15 a 24 anos). Entre os brancos, o número de homicídios caiu de 6.592 para 4.582 entre 2002 e 2008, uma diferença de 30%. Enquanto isso, os assassinatos entre os jovens negros passaram de 11.308 para 12.749 - aumento de 13%. Em 2008, morriam proporcionalmente mais 127,6% jovens negros que brancos. Dez anos antes, essa diferença era de 39%.
Paraíba. Os dados são mais impressionantes quando se analisam números de alguns Estados. Na Paraíba, em 2008, morreram 1.083% mais negros do que brancos. Em Alagoas, no mesmo ano, foram 974,8% mais mortes de negros. Em 11 Estados, esse índice ultrapassa 200%. As diferenças são pequenas apenas nos Estados onde a população negra também é menor, como no Rio Grande do Sul, onde a diferença é de 12,5%; Santa Catarina, com 14,7%; e Acre, com 4%.
O Mapa da Violência 2011 mostra que apenas no Paraná morrem mais brancos do que negros, com uma diferença de 34,7%. Na população jovem, o campeão é Alagoas. Em 2008, morreram 1.304 % mais negros que brancos. Na Bahia, onde se concentra a maior população preta e parda do País, a diferença foi de 798,5%.
Pobres. "Alguns Estados têm taxas insuportáveis. Não é uma situação premeditada, mas tem as características de um extermínio", disse Waiselfisz, em entrevista ontem ao Estado. "A distância entre brancos e negros cresce muito rápido", ressalta.
O pesquisador credita essa diferença à falta de segurança que envolve a população mais pobre, em que os negros são maioria. "O que acontece com a segurança pública é o que já aconteceu com outros setores, como educação, saúde, previdência social: a privatização. Quem pode paga a segurança privada. Os negros estão entre os mais pobres, moram em zonas de risco e não podem pagar."
PARA ENTENDER
O Mapa da Violência utiliza o sistema de classificação de cor adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para simplificação, negro passou a ser adotado tanto para os que se declaram pretos quanto para os pardos. O sistema só incluiu a informação em 2002, quando 92% dos óbitos já relacionavam a cor da vítima.
Fonte: http://bandeiranegrarep.blogspot.com/2011/02/mais-de-500-mil-pessoas-foram-mortas-no.html

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A IDEOLOGIA RACISTA ENTRA EM CAMPO


Rosenverck E. Santos

Prof. de História - São Luís/MA

* Algumas reflexões sobre o racismo na Copa do Mundo

A copa do mundo de futebol é a celebração entre os povos e continentes. Esse é o discurso oficial. É como a democracia racial no Brasil: - uma celebração entre as raças. Tal discurso afirma: democraticamente as raças no Brasil estariam harmonicamente relacionadas! Na copa do mundo aconteceria o mesmo, os povos estariam harmonicamente relacionados, teriam as mesmas oportunidades futebolísticas de ganhar ou perder e nada que não fosse estritamente esportivo influenciaria nos resultados.
O discurso jurídico racista construído no Brasil não foge a esta regra. Todas as oportunidades igualitárias são dadas a qualquer um, não importando condições de classe, gênero e raça. Dessa forma, todas as determinações que não fossem estritamente ligadas à capacidade intelectual e moral dos indivíduos estariam isentas de responsabilização pelas desigualdades e fracassos sociais.
A realidade concreta, no entanto, é diferente do discurso. Assim como na democracia racial brasileira onde a população negra não está socialmente igual ao segmento branco, pois os anos de escravidão e ideologia racista influenciam determinantemente nos espaços socioeconômicos ocupados por brancos e negros; na copa do mundo os resultados aparentemente esportivos não poderiam estar isentos de séculos de ideologia racista e dominação colonial impostas aos povos africanos. Senão vejamos!
Todos os times africanos que estão participando da Copa do Mundo de futebol carregam consigo – segundo quase toda a imprensa – a pecha de violentos e ingênuos. Percebam que essas afirmações em nada fogem à regra de como o continente e a história africana é percebida pela maior parte do senso comum popular e mesmo por intelectuais racistas. A África e os africanos, segundo esse discurso, não teria e não tem condições de controlar e administrar as suas riquezas e os seus territórios, cabendo aos europeus ou empresas multinacionais o comando e controle do espaço africano. A ingenuidade africana necessitaria – por esse discurso – da capacidade intelectual européia para realizar o progresso e a civilização. As violências tribais africanas seriam o exemplo dessa incapacidade de autonomia. Como se percebe, não por acaso os africanos no futebol são vistos como ingênuos e violentos.
Mas não é segredo pra ninguém que a maioria dos jogadores africanos moram desde crianças no continente europeu, foram educados nas línguas e culturas européias e jogam em grandes times do futebol da Europa. São jogadores milionários que tem acesso a todos os artefatos da cultura e educação européia, bem como de todos os recursos técnicos e táticos dos mais avançados no mundo. Mas, se a maioria foi educada no ideário europeu, jogam em grandes times do futebol e tem todos os recursos técnicos e táticos do futebol, por que são vistos e apontados como violentos e ingênuos. A explicação que parece complexa, na verdade é muito simples: a ideologia racista entra em campo.
Comecemos por definir: o que é racismo? De forma objetiva é a vinculação das capacidades intelectuais e morais à sua condição racial ou cultural. É atribuir inferioridade, anomalias e degenerações à condição de indivíduo pertencente a um grupo social e etinicorracial específico. Não é por acaso, portanto, que apesar dos jogadores africanos viverem e trabalharem na Europa serem taxados de violentos e ingênuos.
O que a maioria da imprensa faz é atribuir uma condição intelectual e moral ao fato de serem africanos. Em essência, o problema não está em fazer faltas e perder o jogo, pois qualquer time é sujeito a isto. A questão está no fato de serem africanos e, portanto, incapazes de terem outra condição intelectual que não seja a ingenuidade e outro comportamento moral que não seja a violência.
Repete-se a máxima de Marx: é a história se repetindo como farsa e tragédia. Como farsa na medida em que retoma o discurso falacioso da inferioridade e ingenuidade africana e trágica no sentido de perpetuar o racismo consciente e inconsciente na memória coletiva do brasileiro.
Mas uma vez é necessário retomar o sentido real da história e por no devido lugar a condição africana. Assim como negamos a democracia racial, o racismo e a escravidão, buscando a nossa construção enquanto seres humanos ativos e transformadores; negamos também a ideologia racista futebolisticamente sofisticada que infantiliza e animaliza os africanos, reafirmando a máxima de Solano Trindade, pois nos navios negreiros que se deslocaram para o Brasil e para o mundo não tinham boçais e animais, mas pelo contrário: resistência e inteligência.
Fonte: Blog do Noleto

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Negros ainda são vítimas de escravidão

De cada 4 trabalhadores libertados no país, 3 são pretos ou pardos, diz estudo de economista da UFRJ

Por ANTÔNIO GOIS - DA SUCURSAL DO RIO

Passados 122 anos desde a Lei Áurea, 3 em cada 4 trabalhadores libertados de situações análogas à escravidão hoje são pretos ou pardos.
É o que mostra um estudo do economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, feito a partir do cadastro de beneficiados pelo Bolsa Família incluídos no programa após ações de fiscalização que flagraram trabalhadores em situações que, para a ONU, são consideradas formas contemporâneas de escravidão.
São pessoas trabalhando em situações degradantes, com jornada exaustiva, dívidas com o empregador -que o impedem de largar o posto- e correndo riscos de serem mortas.
Paixão, que publica anualmente um Relatório de Desigualdades Raciais (ed. Garamond), diz que foi a primeira vez em que conseguiu investigar a cor ou raça desses trabalhadores, graças à inclusão do grupo no Bolsa Família.
Os autodeclarados pretos e pardos -que Paixão soma em seu estudo, classificando como negros- representavam 73% desse grupo, apesar de serem 51% da população total do Brasil. Tal como nas pesquisas do IBGE, é o próprio entrevistado que, a partir de cinco opções (branco, preto, pardo, amarelo ou indígena) define sua cor.
Para o economista, "a cor do escravo de ontem se reproduz nos dias de hoje. Os negros e índios, escravos do passado, continuam sendo alvo de situações em que são obrigados a trabalhar sem direito ao próprio salário. É como se a escravidão se mantivesse como memória".
Pretos e pardos são maioria entre a população mais pobre. Segundo o IBGE, entre os brasileiros que se encontravam entre os 10% mais pobres, 74% se diziam pretos ou pardos.
Para Paixão, ainda que hoje a cor não seja o único fator a determinar que um trabalhador esteja numa condição análoga à escravidão, o dado sugere que ser preto ou pardo eleva consideravalmente a probabilidade.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo (13.05.2010)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Racismo e violência insuportável! É preciso Reagir!


Foto: revista Carta Capital



A realidade de pobreza, descriminação e violência à qual a população negra é submetida tem alcançando níveis absurdos. A exposição na “grande mídia” de casos escandalosos de violência por parte da Polícia Militar de São Paulo gerou, nas últimas semanas, um sentimento generalizado de revolta em grande parte da população.
A ofensiva racista, há tempos promovida pelos governos do Estado de São Paulo, já não aceita maquiagem! A PM agride, violenta, tortura e mata.
Infelizmente, em duas semanas, novas situações foram expostas pela própria mídia burguesa:






· Rapaz negro é torturado pela PM; outro é baleado por PM’s a paisana.
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1255787-7823-RAPAZ+DE+ANOS+DIZ+QUE+FOI+TORTURADO+DENTRO+DE+CARRO+DA+PM,00.html

As ações violentas e racistas da Polícia Militar do Estado de São Paulo incentivam e endossam atos similares por parte de Guardas Municipais em todo o Estado, em especial na capital, bem como por empresas de segurança privadas, como nos seguintes casos:

· Espancamento do vigilante negro Januário Alves de Santana, agredido por seguranças do Carrefour
(
http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL1273462-10406,00-HOMEM+NEGRO+E+CONFUNDIDO+COM+LADRAO+EM+SAO+PAULO.html)

· Violência sofrida pelo aposentado negro Domingos Conceição dos Santos, de 47 anos, baleado na cabeça por um segurança prestador de serviços no Banco Bradesco.


Por tudo o que foi divulgado e por tudo que não é divulgado e só nós, por sentir na própria pele o peso da violência racista em todos os níveis, sabemos, chamamos todos (as) militantes de organizações negras, militantes sociais e toda população a participar do ato político-cultural e da AULA PÚBLICA de 13 de maio, conforme a convocação abaixo!
É passada a hora da reação! Todos(as) ao 13 de maio de luta!!!!


13 de maio

quarta-feira, 3 de março de 2010

Brasil: automenosprezo e racismo


Por Luís Carlos Lopes
O racismo brasileiro fundamentou, e ainda fundamenta, o automenosprezo de segmentos da população, que imaginam o país como inferior e sem solução. As elites adoram e disseminam este sentimento, que é fortemente conservador e útil aos propósitos dos mais ricos e poderosos.

Ao contrário de vários povos, o brasileiro tem a mania de se automenosprezar, de se achar menor e de assumir culpas de fatos e problemas que não são seus. Se há corrupção, é que todos seriam corruptos. Facilmente, deslizes pequenos cometidos pelos pobres são comparados aos atos deliberados agentes de Estado e de ladrões engravatados (empresários) que enriquecem com o dinheiro público.
Segundo este vício terrível, os brasileiros seriam menores por terem origem nos negros africanos, nos índios das Américas e nos portugueses, vindos para cá para roubar. O caráter nacional da população desse país teria nascido torto e sem solução. Por compensação, os habitantes do Brasil teriam uma natureza geográfica exuberante e, Deus, de fato, seria nascido aqui. Estas afirmações não são tão difíceis de serem compreendidas. Observe-se que nelas há uma tentativa de ocultar o que é possível ver a olho nu. A autofagia brasílica tem origem colonial, foi refundada no Império e reafirmada na República. Nela, se misturam o olhar do colonizador e criador dos fundamentos culturais dominantes do país com o dos colonizados que se miraram no espelho dos que vieram para cá e se apossaram deste pedaço das Américas. Nesta visão, tudo de bom era o que vinha de fora, aqui era o lugar para acumular riquezas de modo fácil e usar dos lucros para comprar as mercadorias do além-mar.Os racismos antinegros e anti-ameríndios têm a idade do início da colonização, logo, cinco séculos.
A inferiorização das maiorias foi estendida aos seus descendentes, gerando um sentimento de menoridade e incapacidade até mesmo nas elites mestiças. Este modo de ver o mundo deixou raízes profundas e se escamoteou em vários modos de dizer que os brasileiros eram um povo de segunda classe. Jamais isto foi inteiramente superado, persistindo de algum modo até o século XXI. O modo de falar isto já não é o mesmo do passado. Mas, o racismo continua presente em fontes insuspeitas, por exemplo, nas emissões da tv aberta. Nelas, os índios praticamente não existem e os negros, apesar de serem a maioria dos habitantes do Brasil, têm apenas uma cota informal, conseguida com bastante dificuldade e muito recentemente. O pano de fundo de tudo isto foi os quatro séculos de escravidão dos afrodescendentes que embutiram os esquecidos dois séculos de cativeiro dos nativos. Mesmo com a escravidão em crise na segunda metade do XIX, quem eram os que não eram escravos?
Os imigrantes europeus que aportaram no Brasil, aqui encontraram condições de vida bem próximas as da escravidão. Como nos EUA coloniais, usou-se, com eles, o sistema de servidão por contrato. Neste, os que vinham estavam sempre devendo aos fazendeiros e as empresas que os traziam. Os escravos alforriados na mesma época, deviam quase sempre obrigações aos seus ex-senhores. Não eram mais escravos de direito, mas continuavam próximos à situação de escravos de fato. A abolição legal da escravidão (1888) representou uma importante mudança. Entretanto, os estoques de populações originárias do passado escravista continuaram a ser discriminados, até mesmo pelos imigrantes brancos que vieram substituí-los, progressivamente, desde o governo do Pedro II.
O racismo brasileiro fundamentou, e ainda fundamenta, o automenosprezo de segmentos da população, que imaginam o país como inferior e sem solução. As elites adoram e disseminam este sentimento, que é fortemente conservador e útil aos propósitos dos mais ricos e poderosos. Felizmente, desde há muito, há quem não concorde com nada disto e lute para dizer o óbvio. O Brasil é um país como outro qualquer. Do ponto de vista moral, não é menor e nem maior. Seu povo tem qualidades e defeitos, como qualquer outro.
O que existe aqui pode ser modificado para melhor ou para pior, dependendo de quem estiver no poder e do comportamento dos governados. Oficialmente, o país não é mais racista. Desde a era Vargas, o Estado foi abandonando pouco a pouco uma postura discriminadora. Trocou o racismo escancarado do Império e da República Velha pelo mito questionável e problemático da democracia racial.
O fazer político precisava de se organizar, isto é, os governantes necessitavam inventar um povo de governados. Precisava se dirigir diretamente à maioria da população, tal como Vargas o fazia: “Trabalhadores do Brasil...”. A mestiçagem foi considerada um bálsamo, sem que o velho racismo desaparecesse por completo. Afastado de uma militância estatal ostensiva, ele se refugiou nas estruturas sociais, dando um jeito de se manter.
Memoráveis lutas antiracistas fizeram o combate a esta ideologia, nos últimos cinqüenta anos. Entretanto, apesar de cada vez mais acuado, denunciado e criminalizado, o racismo continua presente no cotidiano brasileiro. Ninguém mais tem a coragem de dizer publicamente que os negros, os índios e os mestiços são povos inferiores. Mas, eles continuam tendo níveis de segregação facilmente constatáveis nos dados que indicam que eles são os que: são mais pobres; mais estão presentes nos presídios; são os maiores números de desempregados; enfrentam piores condições de vida; têm suas histórias sonegadas no ensino de qualquer nível; menos aparecem nas grandes mídias. Há exceções importantes.
No futebol, a negritude e a mestiçagem brasileiras são celebradas como gênios da raça. No carnaval, como diz o poeta, “napoleões retintos”, desfilam para os brancos do Brasil e do mundo, encantando as audiências e escondendo uma dura realidade. Nos últimos anos, foram possíveis o aparecimento e desenvolvimento de classes médias negras, ávidas para consumir e se diferenciar. O que continua como dantes é a ignorância sobre as histórias dos povos de origem africana que aqui aportaram e, ainda mais forte, o silêncio sobre a história das populações indígenas encontradas pelos portugueses no século XVI.
Os jovens sabem bastante sobre as últimas novidades de consumo midiático e tecnológico. Nada, ou quase nada, conseguem alcançar sobre suas origens. Mesmo que na Internet exista bastante informação sobre estas coisas. O problema é que elas são raramente acessadas e são rarefeitas e pulverizadas no universo comunicacional caótico do tempo presente.
Luís Carlos Lopes é professor e autor do livro "Tv, poder e substância: a espiral da intriga", dentre outros
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4553&alterarHomeAtual=1

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Racismo na PUC: Carta de repúdio ao racismo praticado na formatura de História e Geografia! Pela punição dos agressores!


Durante a tradicional cerimônia de formatura da PUC, onde o custo de participação é pago e altamente caro, formandos do curso de Geografia solicitaram participação na festa custeada por estudantes de História. O acesso para os demais participarem da cerimônia foi liberada, no entanto, vetando os demais de se expressarem através de falas no microfone por uma decisão unilateral de um reduzido número de alunos da organização. O que por si só já seria um absurdo, se tornou pior.
A estudante Ângela, do curso de Geografia, pediu a palavra e expressou sua felicidade diante de um diploma conquistado sobre todas as dificuldades impostas pelo preconceito e as demais dificuldades de acesso e permanência enfrentada pela juventude negra e trabalhadora, bem como no mercado de trabalho. Foi nesse momento em que Ângela e os demais estudantes negros foram hostilizados em meio à cerimônia pelo mesmo número determinado de alunos, dos quais se ouviram além de gritos como “sai daí negrinha!”, vaias e ofensas racistas. Não plenamente satisfeitas com a humilhação pública que pretenderam, três alunas da História, Giuliana Gasparrone, Camila e Maira (cujos sobrenomes não foram divulgados), ainda se prestaram ao trabalho de escrever uma carta enviada para o e-mail pessoal de Ângela (que, devido ao conteúdo, passou a circular em diversas listas da PUC e se tornou de conhecimento público) para hostilizá-la novamente, insinuado de que Ângela não seria merecedora de estar presente na mesma formatura da qual esta estaria “de favor”, pois pertenceria a uma classe “de povo ‘inho’, de gente ‘inha’”.
Este comportamento praticado por uma clara minoria de alunos e alunas do curso de História possui conteúdo claramente racista e elitista e é uma perseguição não apenas à Ângela, mas a todas as estudantes negras e trabalhadoras que existem no curso de Serviço Social, assim como para todos os demais estudantes da PUC-SP. Acreditamos que esta manifestação é reflexo da enorme exclusão e elitismo fomentados de forma direta pela situação que passa o atual sistema educacional superior brasileiro, assim como seu conteúdo curricular racista e anti-democrático dos dias atuais. A mesma lógica de modelo universitário que possibilita ações como essa na PUC, possibilita a publicação de cartazes racistas na UFRGS em 2008; possibilita o crime racial praticado por três universitários que espancaram um trabalhador negro da USP de São Carlos; ou no assédio machista e perseguição moral praticada por alunos e pela direção da universidade contra uma estudante no caso da UNIBAN. E, precisamente por isso, não pode ser encarado como um problema específico da PUC-SP, nem muito menos do curso de História, mas como uma questão muito mais ampla e que demanda a necessidade imperativa de uma campanha contra a repressão a partir das universidades.
Por meio desta viemos expressar que esse acontecimento nefasto é de repúdio de todos os estudantes do Conselho de Centros Acadêmicos (CCA). Estaremos nos próximos dias solicitando assinaturas e a participação das demais entidades para a organização de uma Comissão Interna de Defesa no intuito de julgar este caso de racismo e exigir da direção da PUC-SP a devida punição aos praticantes de qualquer ato de racismo contra estudantes desta universidade, tendo como pena a cassação do diploma e banimento de todos os envolvidos da PUC-SP. Esta comissão deve estar aberta, assim como seus trabalhos a todas as entidades e organizações da universidade, assim como seus membros e base.
Desde o CCA, esperamos uma posição dos demais professores dos departamentos, assim como da direção da universidade. Consideramos que a PUC-SP, como universidade que reivindica e diz orgulhar-se de seu passado democrático, não deve tolerar o racismo e nem possibilitar a formação deste tipo de profissionais.
Quarta Feira, 16 de Dezembro de 2009.
Assinam:
Centro Acadêmico de Serviço Social
Centro Acadêmico 22 de Agosto
Centro Acadêmico Benevides Paixão
Centro Acadêmico de Relações Internacionais
Centro Acadêmico de Psicologia
Por e-mail

domingo, 22 de novembro de 2009

Documentário: COINTELPRO e Partido dos Panteras Negras

Uma boa dica para quem estiver com vontade de assistir um documentário nesse fim de semana é o “COINTELPRO e Partido dos Panteras Negras” que conta a forma como o Black Panthers Party foi desmontado pelo governo dos Estados Unidos. O documentário está no YouTube dividido em sete partes e com legendas em português.
Parte 1

Parte 2



Parte 3



Parte 4



Parte 5



Parte 6



Parte 7



Dicas: Blog do Molotov

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Enquanto Isso...no feriado da Consciência Negra...


Folha de S.Paulo - 20.11.2006

Reflexão sobre o racismo - Clovis Moura

Foto: Revista Carta Capital
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Se a “cor” dos indivíduos funcionou, e funciona até os nossos dias, como um diferencial na repartição dos direitos e das oportunidades, certamente as escritas da história e literatura contribuíram para esse processo. Portanto, explicitar as marcas do racismo e de diferenciação escamoteadas nas obras historiográficas e literárias produzidas no século XX em nosso país é uma forma de contribuir na construção de ações positivas de combate ao racismo e a exclusão étnica e social.

Foto: Latuf

Vejamos uma reflexão sobre o racismo e uma das vertentes desse pensamento racista pelas lentes de Clóvis Moura.
Por Clovis Moura
Um pensamento comum entre os historiadores precursores do racismoe é a visão de que os negros. índios e mestiços em geral são elementos bárbaros, pagãos, gentios sem capacidade civilizadora e os brancos, detentores das estruturas de poder, aqueles elementos que impulsionaram a nossa sociedade em direção à civilização.
Não queremos dizer que haja um racismo racionalizado e sistematizado, pelo menos nos primeiros produtores dessa litera­tura, até o século XIX. mas um racismo larvar, indefinido, que era justificado pela situação de barbárie dessas populações, fato que explicaria a sua escravização, subalternização e discriminação. Os pretextos religiosos ou de outra ordem justificavam a aventura colonialista. A ideologia religiosa, especialmente a 'cristã, foi, no particular, um anteparo que justifica a escravização dos Filhos de Cam. Todos os historiadores cujo pensamento analisamos são acordes num particular: os negros não tinham condições de dirigir a sociedade; eram por determinação divina ou de outra ordem condenados a serem massa dominada pelos brancos, detentores do poder e do privilégio divino ou racial de dominar o mundo.
A partir de determinada época, mais especificamente a partir do século XIX, surge uma corrente historiográfica científica, a qual procurava, através de categorias evolucionistas vulgares, de­monstrar que o negro fora escravizado e dominado na Africa por razões de ordem biológica, isto é. por se encontrarem na última escala da evolução racial e, por isto, o seu cérebro e equipamento de psicológico e moral não tinham condições acompanhar o pro­ cesso civilizatório.
A partir daí, época que coincide com a expansão do capita­lismo na Europa e o seu sistema de dominação planetária dos povos coloniais, toda uma antropologia colonialista adquire o status de ciência e passa a dar respaldo à aventura de dominação das metrópoles dominadoras. O capitalismo monta toda uma arqui­tetura teórica para justificar cientificamente o que antes era justi­ficado através de razões bíblicas, morais ou de competições locais. Com isto, o racismo como é hoje conhecido racionaliza-se, isto é. deixa de considerar essas diferenças raciais como simples opiniões teológicas ou empíricas, para afirmar que cientificamente as raças não-brancas e o negro em particular encontram-se oprimidos e discriminados por incapacidade biológica de acompanharem o pro­cesso civilizatório, aqui confundido e identificado com a expansão capitalista.
Um dos teóricos desse racismo antropológico, V. de Lapouge, escrevia em 1880: "Estou convencido de que no próximo século milhões de homens se matarão por um ou dois graus a mais do índice cefálico." Esta afirmativa inteiramente destituída de con­teúdo científico, mas cheia de realismo político (realpolitik) foi dramaticamente concretizada na ideologia nazista a qual, apoiada no mito da superioridade racial dos nórdicos arianos, levou o mundo a uma tragédia sem precedentes. O racismo, o mito de superioridade racial de um povo sobre outro, encobre, presente­mente, os interesses expansionistas ou messiânicos de povos que se julgam eleitos e desejam, através dessa cortina de fumaça, con­seguir a hegemonia econômica, social e cultural sobre povos mais fracos. Esta racionalização do preconceito através do racismo, por isto mesmo, não morreu e ainda exerce papel e função de impor­tância em diversos blocos de poder de nações que disputam a hegemonia no mundo capitalista.
Há, portanto, no presente momento, uma reformulação do racismo que se corporifica em uma série de ideologias, muitas delas reivindicadoras de pseudo-direitos milenares que nos levariam nova­mente a ter de ouvir o discurso de um povo eleito o qual, através de um mandato bíblico, estaria destinado a dominar o mundo. No entanto, a função dessas ideologias é sempre a mesma: dar respaldo a projetos de exploração de um povo militarmente mais forte sobre outro mais fraco. Com isto queremos dizer que a função do mo­derno racismo é racionalizar a permanência do capitalismo e da sua expansão sobre outros povos.
Definindo este novo racismo, Immanuel WalIerstein escreve:
O que entendemos por racismo tem pouca relação com a xe­nofobia existente em vários sistemas históricos anteriores. A xenofobia era literalmente horror ao "estrangeiro". O racismo do capitalismo histórico não tinha nada a ver com os "estran­geiros". Muito pelo contrário. O racismo era a forma como vários setores da força de trabalho na mesma estrutura eco­nômica eram obrigados a se relacionar entre si. O racismo era a justificação ideológica para a hierarquização da força de trabalho e suas distribuições enormemente desiguais do ren­dimento. O que entendemos por racismo é aquele conjunto de asserções ideológicas combinado com aquele conjunto de prá­ticas contínuas, que resultaram na manutenção ao longo do tempo, de uma ulta correlação entre etnicidade e alocação da força de trabalho. As asserções ideológicas davam-se sob a forma de alegações que supunhum traços "culturais" genéti­cos e/ou de longa permanência de vários grupos, e eram de fato a causa principal da locação direrencial das posições nas estruturas econômicas. Entretanto, as crenças de que certos grupos são "superiores" a outros, em certas características re­levantes para o desempenho na área econômica, sempre sur­giu de fato depois, e não antes da locação desses grupos na força de trabalho. O racismo sempre foi post hoc. Conside­rava-se que os que eram econômica e politicamente oprimidos eram "inferiores" (lmmanuel WaJlerstein. O capilalismo hislórico)

No caso particular do Brasil, esse etnocentrismo do branco em relação ao negro e ao não-branco em geral teve e tem como função exatamente estabelecer fronteiras hierárquicas do ponto de vista étnico para que essas etnias consideradas inferiores não possam transpô-Ias através da mobilidade social vertical individual ou massiva. Fecha-se, assim, o leque de oportunidades para os membros considerados inferiores. Isto aconteceu desde o Brasil colônia e durante todo o período imperial, prosseguindo, com modi­ficações odernizadoras, até os nossos dias.
Os historiadores que estudamos estavam, neste sentido, ao inferiorizar etnicamente os negros índios e mestiços em geral, exer­cendo um papel ideológico seletor que empurrava para baixo, por compressão, em vários níveis essas populações oprimidas sob o pretexto de que eram inferiores. Em todos esses produtores da obra histórica perpassa essa ideologia alienadora em maior ou menor grau.
No caso particular que analisamos - a historiografia brasi­leira - podemos verificar como é uma produção feita por intelec­tuais orgânicos do escravismo ou do capitalismo dependente que o sucedeu, com o objetivo ideológico de barrar as populações opri­midas, através da discriminação racial. Durante os anos em que essa produção se verificou a sociedade brasileira teve nesses histo­riadores os municiadores de uma história que, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, refletia os interesses das estru­turas de poder dominantes, municiava-as de combustível ideológico e contribuía para que se tivesse uma visão alienada dos verdadeiros agentes históricos que impulsionavam a dinâmica emergente da sociedade brasileira.
De Frei Vicente do Salvador a Oliveira Vianna, os nossos historiadores retiram créditos da grande, senão fundamental, con­tribuição do negro (social, cultural e economicamente) colocando-o ou como animal de tração, bárbaro ou biologicamente inferior. Toda essa produção serviu e serve para manter essas populações' desest}'uturadas etnicamente, em função da imagem desfigurada que os his'toriadores apresentam. Desta maneira, a historiografia aban­dona o seu papel de ciência para transformar-se em um instrumento ideológico das nossas elites racistas dominantes.
Uma visão crítica sobre o assunto está surgindo por parte de setores universitários e elementos de diversos movimentos negros ora em atividade no Brasil e que estão procurando desviar a nossa produção historiográfica desse caminho alienador e repor os acon­tecimentos históricos no seu devido lugar, resgatando. com isto, o papel social, político. econômico e cultural que o negro desem­penhou na formação e desenvolvimento do Brasil.
uma corrente revisionista que apenas se inicia. mas tende a aumentar à medida que a sociedade' brasileira. através dos seus setores dinâmicos. avançar no sentido de criar em nosso país uma democracia social, política e econômica que terá o seu coroamento com uma democracia racial.

OLIVEIRA VIANNA: ARIANIZAÇÃO COMO SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA ÉTNICO E SOCIAL

De todos os estudiosos que fizeram da história social do Brasil um prolongamento do processo de interação racial nos seus diver­sos aspectos, quer de quantificação, quer de qualificação dos esto­ques étnicos que para aqui vieram, a miscigenação e os seus efeitos, e, finalmente, a necessidade de se estimular um processo ariani­zante para que as nossas possibilidades de evolução no processo civilizatório fossem possíveis e favoráveis, Oliveira Vianna ocupa, indiscutivelmente, o primeiro lugar.
Embora afirmando colocar-se numa posição crítica em relação aos naturalistas, antropólogos e geógrafos que procuravam apresen­tar a evolução das sociedades através de causas "naturais" (clima, geografia, raça) Oliveira Vianna, incontestavelmente, usa-os como base teórica da interpretação que faz da nossa evolução, ora apoian­do-se em um, ora em outro, mas, de qualquer forma aproveitando­se deles como elementos teóricos que compõem a sua visão do mundo. Spencer, cuja "lei universal da evolução" ele combate, Darwin, Lapouge, Haechel, Vidal de Ia Blanche e Ratzel servem de esteios às suas afirmações.
Esta visão biologizada da interpretação social e histórica de­termina no autor a certeza de que existe uma escala biológica entre as raças humanas e que essa escala determina o maior ou menor grau de cada uma como agente civilizador. Claro está que a branca é apresentada como aquela que contribui com a parcela maior de dinamismo no processo civilizatório e a negra, por se encontrar no estágio mais primitivo dessa escala, a que menos possui essas qua­lidades. O negro, assim, seria o componente de uma raça que, pela sua estrutura biológica inferior, menor parcela traria como contri­buição ao nosso desenvolvimento social.
Nenhum outro pensador mais do que ele, no Brasil, assimilou e manipulou os valores da antropologia do século XIX e início do do século XX, que surgiu na Europa e difundia-se aqui com toda a força coercitiva de ciência importada. A civilização era um subpro­duto das raças. E o tipo ariano deveria ser aquele modelo do qual todos os povos deveriam almejar aproximar-se, pois nesse processo de arianização estava embutida a possibilidade de ascender na esca­la da evolução social.
Escolhemos, para elemento de análise da sua vasta e erudita obra, o livro Evolução do povo brasileiro, não somente porque ele satisfaz os requisitos para o fim a que nos propusemos, corno tam­bém, porque é nele que Oliveira Vianna consegue filtrar, de forma compacta e sintética, a sua visão diacrônica dos mecanismos que nos subdesenvolveram corno nação.
O problema racial, para ele, sobrepõe-se a todos os outros. Essa biologização da história, via antropologia física, tão em voga no Brasil daquela época, era urna forma fácil e simplificadora, mas, ao mesmo tempo, revestida da respeitabilidade de "ciência", para escamotear os elementos econômicos, sociais, políticos e culturais que nos subalternizavam corno nação. Estabelecia-se um critério de classificação racial analógica e anticientífica, e daí se inferia, den­tro da escala de valores que esta classificação estabelecia, a causa de desenvolvimento e/ou atraso dos povos.
As raças inferiores, a negra principalmente, tinham de desapa­recer na luta com outras raças mais fortes e superiores. O processo civilizatório, por seu turno, era um atributo da raça branca que, mesmo quando se misturava com os negros e outras raças inferiores, arianizava-os. Por isto, ao contrário de outros pensadores da época, corno Euclides da Cunha, por exemplo, Oliveira Vianna não estigmatizava o mestiço, mas pregava, ao contrário, o estabe­lecimento de um processo miscigenatório alternativo (o fundamen­tal era o cruzamento entre parceiros do mesmo sangue) capaz de arianizá-Io. Esse processo de arianização através do eugenismo, no entanto, não igualava essas raças, isto porque, para ele:
"Em todas as raças humanas, mesmo as mais baixamente colocadas na escala da civilização, esses tipos superiores aparecem: não há raças sem eugenismo. O que principalmente se distingue é a sua maior ou menor quantidade de eugênicos. Quando duas ou mais raças, de desigual fecundidade em tipos superiores, são postas em contato num dado meio. as raças menos fecundas estão condenadas. Mesmo na hipótese da igualdade do ponto de vista .de partida, a serem absorvidas ou, no mínimo, dominadas pela raça de maior fecun­didade. Esta gera os senhores; aquélas os servidores. Esta, as oligar­quias dirigentes; aquelas, as maiorias passivas e abdicatórias."
Por isto, do ponto de vista sociológico, achava que as oligar­quias existentes, para que o Brasil evoluísse, deviam deixar de ser broncas e se modernizassem. E isso somente seria possível através de mecanismos de arianização das suas populações, especialmente dos seus grupos de poder.

2. **************************************

Oliveira Vianna nasceu em Niterói, em 1883, e faleceu em 1951. Foi professor da Faculdade de Direito de Niterói, tendo dei­xado urna vasta obra não apenas jurídica, com especialização no direito do trabalho, mas, também livros de sociologia, política e sobre as instituições nacionais. Ele, conforme já dissemos, defende veementemente a inferioridade racial do negro, negando-lhe quali­dades civilizadoras, chegando a escrever que o "negro, puro, não foi nunca, pelo menos do campo histórico em que conhecemos, um criador de civilizações. Se, no presente, os vemos sempre subor­dinados aos povos de raça branca, com os quais entraram em con­tato; se nos seus grupos mais evoluídos das regiões das grandes planícies nativas, são os elementos mestiços, não os indivíduos de tipo negróide, aqueles que trazem doses sensíveis de sangue semita, os que ascenderam às classes superiores, formam a aristocracia e dirigem a massa de negros puros".
Inúmeros foram os autores que, ao analisarem a obra de Oli­veira Vianna, apontaram esta posição racista e pseudamente cien­tífica. No particular, Artur Ramos e Nélson Werneck Sodré tive­ram oportunidade de se deterem na análise da sua obra procurando apontar as falhas gritantes que existem na área de antropologia, defeito que se desdobra na sua sociologia. que nada mais é do que uma explicação biológica da história a partir de critérios eurocên­tricos e que via na raça caucásica. européia. o elemento que con­duzia o processo civilizatório. Oliveira Vianna é um deslumbrado pelo mito ariano de superioridade do branco e inferioridade do negro. Por tulo isto. Artur Ramos ao fazer um balanço da sua posi­ção. escreve que para ele "o negro não gera. em tanta abundância. mestiços assim tão superiormente dotados no tocante à moralidade: os cronistas coloniais são unânimes em reconhecerem na maioria dos mulatos falhas de caráter muito graves". E vê inevitáveis cita­ções dos cronistas coloniais com relação a essas "falhas" dos mu­latos que quando existem, estão na dependência de fatores sociais forrados de método científico.
De um modo geral, porém, para Oliveira Vianna nenhum mestiço presta, seja ele tipo cruzado do índio. seja o negro. O aná­tema estende-se a todos eles:
"Essa desambição natural do índio e essa mediocridade ingênita (sic) do negro se transmitem aos seus mestiços: daí a extrema sobriedade das nossas populações mestiças. Curibocas. cafusos, mulatos, todos, com exceção de uma pequena minoria de eugênicos (sic) vivem a mesma vida dos seus ancestrais, satisfeitos na sua miséria, contentes na sua parcimônia e incapazes de realizar, espontaneamente. o mais leve esforço para melhorar o teor da sua existência miserável. Essa ausência de stímulos de melhoria na sua psiquê fá-Ios elementos inertes e improgressivos, forças negativas, que dificultam e retardam o movimento ascencio­nal da nossa massa social para riqueza e para a civilização."
Concluindo sua crítica. Ramos escreve que "Oliveira Vianna põe. .no mesmo parágrafo antropológico. cor da pele e moralidade, matiz dos cabelos e vigor da inteligência, numa confusão lamentá­vel entre os temas biológicos de raça e os sociológicos de meio sócio-cultural".
À essa análise crítica da obra de Oliveira Vianna, feita por Artur Ramos, seguiu-se a de Nélson Werneck Sodré. O autor de O ocaso do império afirma que:

Na sua fascinação antropológica, Oliveira Vianna não usa qual­quer disfarce: o que é branco. o que é "ariano". é nobre, fidalgo, excelente. e tudo isso porque se trata, no fundo. da classe dominante, aquela que detém a propriedade e exerce o poder. senão o poder público formal, na fase da colônia, pelo menos o enorme, o desmedido poder privado, que é o verda­deiro, o único poder que tem aqui exercício pleno. Quando negros, índios, mamelucos, cafusos desmandam-se sexualmente, isto é corrupção; quando se desmamdam os "arianos" isso passa a ser "padreação". e lá surge a velha lenda do clima para explicar os desmandos. O branco proprietário tem direito a tudo, para o ensaísta, e na sua linguagem descreve o fenô­meno com cores interessantes. A antropologia de Oliveira Vianna. da física à cultural, é das mais curiosas. É a antropologia de Lapouge nas Sélections sociales. é a antropologia de Huntington em The Charecter of Races, quando não é a pretensa psicologia social de De­molins com La superiorité des anglo-saxol1s, ou de Pritchard com Where BIack Rules Wi/he quando não desvaira para as teorins de Ammon e Gobineau.
Essa visão racista travestida em ciência social perpassa por toda a sua obra. O livro que iremos analisar, em seguida. Evolução do povo brasileiro, foi escrito como introdução ao recenseamento de 1920 e divide-se em três partes. São elas: "Evolução da socie­dade", "Evolução da raça" e "Evolução dos sistemas políticos". Através desses três cortes metodológicos procura traçar a nossa evolução social do início da povoação até o período republicano.
No início, abordando o processo de povoamento. afirma que somos um país de vocação agrária pois "é no campo que se forma a nossa raça e se elaboram as forças íntimas da nossa civilização. Do campo, as bases em que se assenta a estabilidade admirável da nossa sociedade no período imperial".:;
O que ele entendia por realidade agrícola era a grande pro­priedade, o latifúndio. Escreve, definindo a sua visão do problema, que "em nosso país. ao contrário dos outros, a agricultura se inicia tendo por base a grande propriedade. Os romanos evoluíram da pequena propriedade para a grande propriedade: das suas primiti­ vas "jugadas" do tempo dos reis, lavráveis em um dia, para os grandes latifúndios da época da conquista. Os outros povos tiveram evolução igual. Nós, desde o início, temos sido, ao invés disso, um povo de latifundiários; entre nós a história da pequena proprie­dade pode-se dizer que data apenas de um século. Todo o longo período colonial é um período de grande esplendor e glória da grande propriedade territorial". 6 E é sobre essa realidade de pro­priedade fundiária que a população brasileira será distribuída e redistribuída ao longo da hisfória. Como não podia deixar de ser, essa "aristocracia rural", como ele chama os senhores de terra, iria comandar essa distribuição U durante esses trezentos anos fecun­dos e gloriosos".
É justamente aí que entra a análise das "raças exóticas" na sua terminologia, que formaram "um problema prático, que interessa fundamentalmente à orientação dos nossos destinos". Isto porque é da composição étnica do Brasil, da sua pureza ou da sua mistura com os dois componentes inferiores - negros e índios - que a psicologia do brasileiro se definirá. Quanto à raça branca que para aqui veio (os portugueses), afirma que os elementos primordiais da colônia não são "de modo algum, como se há dito, essa escorralha de criminosos e degredados, varridos das masmorras peninsulares".
Pelo contrário. Esses elementos "sadios" que aqui se fixaram, vindos de Portugal "quando requeriam sesmarias para "fazerem fa­zendas", costumavam alegar que são "homens de calidades", por­que só a homens tais se dá ingresso à propriedade da terra". 9 Para ele, portanto, houve uma seleção racial e social na escolha dos primeiros sesmeiros, fato que justificaria o seu direito de proprie­dade;.
Para justificar essa superioridade. Oliveira Vianna comete des­lizes elementares, afirmando que
dada à composição étnica das classes sociais na península e na Europa. por aquele tempo. tudo nos leva a crer: a) que nos primeiros contingentes colonizadores, que para aqui vêm voluntariamente, os elementos mais importantes ou influentes deviam pertencer ao tipo dólico-Iouro e de alta estatura. b) que as copiosas correntes que afluem mais tarde, para a nossa terra, no II e III séculos, principalmente neste, depois da descoberta das minas, devem ser, ao contrário, compostas de branquióides brunos e de pequena estatura, da raça celti­bérica, que é a que dominava e domina nas classes populares e rurais da sociedade peninsular. Quanto aos elementos dólicoIouros, há uma série de in­dícios que nos levam à convicção de que grande número deles aqui se fixam, formando as figuras centrais da nossa aristo­cracia rural.
Como se pode ver, para Oliveira Vianna o início de nosso povoamento foi feito por dólico-louros de Portugal, que pelas suas virtudes morais decorrentes da sua raça foram selecionados pela metrópole para se apoderarem das terras da colônia.
Quanto aos componentes das duas raças inferiores, a nativa e a transportada (índios e negros) Oliveira Vianna se compraz em salientar a sua contribuição negativa ao processo civilizatório. Depois de mostrar as variações antropológicas dos índios (cor, estatura, crânio e compleição) afirma que:
Entre esses aborígenes alguns possuem temperamento pacífico e dócil, como os guaianases de Piratininga, e, em geral, os que habitam o vale amazônico; outros, porém, são guerreiros intratáveis, como os aimorés, por exemplo, cuja ferocidade enche de pavor os primeiros colonizadores brancos. Em alguns as qualidades intelectuais são mais acentuadas - o que se revela pela posse de uma civilização superior e por certo gosto artístico na elaboraçãodos seus artefatos. Outros nem sequer haviam evoluído até à organização social das aldeias, que não conhecem [...] Em tudo isto se pressente a enorme diversi­dade de atributos de ordem moral, que essas várias tribos vão trazer à formação étnica do nosso povo, quando, ou puros ou cruzados com os dominadores brancos, se incorporam à sociedade colonial como elemento de trabalho ou como força guerreira.
Em face disso, Oliveira Vianna afirma que "por aí já se vê como é revoltoso e confuso o caos étnico, onde vai sair o nosso tipo antropológico e social".
Quanto aos índios, Oliveira Vianna, embora considerando-os membros de uma raça inferior, não os coloca na posição de quase animais em que ele aloca os negros. "Os tipos africanos [são] os que vão trazer a esse caos o contingente maior de confusão e dis­cordância" .
Procura especificar os diversos grupos étnicos africanos que para aqui foram trazidos de forma confusa e demonstrativa da sua ignorância da etonografia africana, mas procura destacar essas di­ferenças físicas para analisar os atributos morais de que eram possuidores por "atavismos" congênitos.
Somos obrigados a fazer uma longa citação para que se tenha uma visão de como ele via o negro e conferia-lhe qualidades morais de acordo com a sua etnia.
Sensível é a diversidade dos tipos negros, essa é desconcer­tante. Só a enumeração das tribos ou "nações" aqui entradas forma um rosário interminável: e são "felupos", "minas", "ca­bindas", "angolas", "gêgis", "monjolos", "bengalas", "caçan­jes", "libolos, "gingas", "mandingas", "haussás", "iorubás", "egbas", "felanins", "aschantis", "fulas", "iebus", "crumanos", "timinins", "efãs", "congos", "cangalas", "bambas", "bantus", "nagôs" e tantíssimas outras, todas elas possuindo caracteres diferenciais específicos, divergindo e distinguindo-se entre si por particularidades morfológicas e atributos psicológicos in­confundíveis. Os negros da tribo iebu, por exemplo, ou das tribos casanje, ou haussá, embora reforçados e entroncados lêm a fealdade repulsiva dos tipos negros puros. [grifos nossos] Os da nação mina, ou fula, ou aschanti, ou felamim, são tipos, ao contrário, de grande beleza pela proporcionalidade das for­mas, pela suavidade dos traços, pela esbelteza da estrutura, pela pele mais clara [grifos nossos] e pelos cabelos menos incarapinhados [grifo noso] do que os das demais nações.

Como vemos, Oliveira Vianna destaca, sempre, como elemento de beleza, atributos da raça branca para classificar o negro. Isto porque, como acentua, o negro puro é portador de uma fealdade repulsiva.
Depois de expor as diversidades da raça negra, passa a ana­lisar os seus padrões de moralidade.
Há tribos de negros indolentes, com os gêis e os angolas, como os há de negros laboriosós, como os timinins, ou minas, os daomeanos. Os minas, os iorubas, os egbas, os' crumanos, os felamins possuem temperamento dócil e civilizável, são negros pacíficos, afeitos à obediência e à humildade; já os haussás, os efãs, os galas mostram qualidades de altivez, rebeldia e mesmo ferocidade que os fazem pouco apreciáveis pelos senhores ou insusceptíveis de cativeiro. O grau de mo­ralidade também varia muito de tribo a tribo e, se há negros de costumes honestos, como os iorubas, os egbas, os haussás, há os de caráter pouco resistente e facilmente corrompíveis, como os gêgis e os angolas. Estes últimos são, porém, supe­riormente dotados no ponto de vista intelectual, ao passo que os outros, como os gêgis, os crumanos, os cabindas, revelam a inferioridade mental, própria dos tipos mais baixos da raça negra.

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Não precisamos de muita argúcia para concluir que, segundo Oliveira Vianna. os negros eram melhores moralmente à medida que revelavam um temperamento dócil, adaptável à escravidão, assim como esteticamente eram mais bonitos à medida que se apro­ximavam das características e padrões da beleza grega. O negro puro era portador de "fisionomia repulsiva, facies troglodítica" e "cataduras simiescas" (sic).
Esses negros são distribuidos em vários pontos do território fato que irá determinar a emergência de uma estratificação social coincidente com as qualidades das raças. Neste sentido, ainda se­gundo Oliveira Vianna, "pelo estudo da distribuição geográfica das três raças formadoras. já podemos ajuizar qual a sua distribuição social, isto é, a sua especialização funcional na economia da socie­dade colonial. Cada raça se distribui pelas diversas classes sociais conforme as aptidões específicas, e já vimos como os brancos sabem distinguir essas aptidões e orientar a distribuição e a fixa­ção das duas raças inferiores no sentido do seu melhor aprovei­tamento".
É, portanto, uma distribuição no espaço geográfico e social que os brancos colonizadores estabeleceram para ordenar a socie­dade e essa ordenação corresponderia às aptidões das raças. As raças inferiores (negro e índio) eram alocadas nos espaços físico e social pelo colonizador membro de uma raça superior.
Daí o negro ter sido escolhido pelo branco dominador de acordo com as suas aptidões, 'todas elas, no entanto, limitadas pela sua inferioridade racial. Afirma que "das diversas tribos negras aquelas mais bem dotadas de inteligência e de sentimentos são utili­zadas nas profissões em que esses dotes se fazem mais necessá­rios: é por isto que os 'minas', os 'angolas' e os 'iorubas' dominam principalmente entre os oficiais de ofício manual, como pedreiros, carpinteiros, tanoeiros, ferreiros, calafates. Nos serviços domésti­cos, as negras 'minas', dóceis, afetuosas e possuindo uma inata habi­lidade culinária. são preferidas como mucamas e cozinheiras, Elas e as de raça fula, porque são mais belas, elevavam-se mesmo à condição de donas de casa, ou caseiras conforme se depreende o citado testemunho de V AIA MONTEIRO".
Oliveira Vianna achava que não apenas a hierarquização so­cial dependia da raça, mas a própria divisão do trabalho entre as "raças inferiores" era determinada por essas qualidades inatas. Assim, haveria uma superposição étnica no sentido vertical e uma divisão social do trabalho, no sentido horizontal, de acordo com as aptidões raciais. A sociedade brasileira estaria, assim, harmonizada porque esses componentes populacionais poliétnicos situavam-se de acordo com aquilo que um dos seus elementos poderia dar dentro da sociedade escravista.
Como elemento intermediário, por isto mesmo, situavam-se os mulatos, U em via de regra mais inteligentes". Esse componente mestiço os senhores aplicavam em ofícios mais finos, como sapa­teiros, siringueiros e alfaiates, em que se revelavam habilíssimos"
Desta forma estava estabelecido o equilíbrio social. O mestiço do negro com o branco ou deste com o índio era o elemento que algumas vezes poderia ser mais bem dotado e capaz de chegar a posições sociais porque:
Os que negam o valor dos nossos mestiços, corno os que afir­mam a sua superioridade, falseiam a verdade, porque a vêm unilateralmente: os nossos mestiços nem todos são absoluta­mente inferiores nem absolutamente superiores. Há, entre nós, mestiços superiores e mestiços inferiores. O conhecimento que temos da diversidade do tipo mental das várias tribos negras e índias que entraram em caldeamento com o branco, nos leva, aliás, logicamente a essa conclusão. Um cruzamento feliz de um tipo superior ou negro ou índio com o branco bem dotado de eugenismo pode produzir um mulato ou mameluco superior, se porventura, pelo jogo das influências hereditárias, preponderar nesse cruzamento o eugenismo do tipo branco. É claro que essas combinações felizes não são comuns: na sua maioria os mestiços ficam abaixo do tipo superior, de que provêm. Nestes, por exemplo, o branco imprime os seus atributos intelectuais, mas é do negro ou do índio que eles herdam a estrutura do caráter, Naqueles, dominam, ao contrá­rio, os sentimentos do homem branco, mas a inteligência se limita e a energia da vontade, a ambição de riquezas, o de­sejo de ascensão, dominantes no ariano, desaparecerem des­truídos pela ação regressiva dos atavismos bárbaros.
A dinâmica social fica, assim, para a raça branca. Apoiado nos seus postulados racistas chega a absurdos quando interpreta fatos da nossa história, Na guerra dos mascates, por exemplo, des­cobre um núcleo ariano que a alimentou. Afirma que "nas cidades mais importantes da costa. como o Rio e Recife, esses elementos arianos também se condensam fortemente. formando núcleos pode­rosos: e a guerra dos mascates em Pernambuco nos começos do III século, e as lutas ardentes, pela mesma época, no Rio, travadas entre a aristocracia rural e os "mercadores" lusitanos, mostram como é grande o número dos elementos brancos ali concentrados",
Essas limitações estruturais "atávicas" das raças negra e índia determinam que cada membro delas seja situado convenientemente na estrutura social, pois os escravos "negros ou mulatos são inteli­gentemente distribuídos pelos diversos serviços e ofícios do lati­fúndio". Dentro desse processo de mestiçagem agem, por outro lado, para branquear a sociedade brasileira, as "seleções naturais e sociais que aceleram extraordinariamente entre nós a rapidez do processo redutor dos elementos bárbaros".

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Diante de tal quadro nada mais natural do que justificar-se a escravidão de índios e negros. Os negros eugênicos eram aqueles que se adaptavam à escravidão; o que para o autor significava terem mais elementos capazes de civilizar-se. O rebelde era a borra de negros puros de "catadura simiesca" e "troglodítica". Daí por­que os atos de rebeldia do escravo negro, principalmente os qui­lombos, eram um perigo permanente". E, em conseqüência, a exal­tação dos bandeirantes quando os destróem. Escreve neste senti­do que:
Não são somente os índios que exigem essa organização defen­siva da parte dos senhores rurais: também os negros fugidos e acoutados no interior das florestas, em núcleos a que cha­mam "quilombos", constituem um grave e inquietante perigo para as populações rurais da colônia. Daí a necessidade de grandes expedições guerreiros para atacá-los e destruí-los. Des­sas expedições se incumbem os mais famosos potentados rurais, senhores de vastos latifúndios e de arcos inumeráveis. Dos célebres quilombos formados na região do Rio das Mortes, a destruição é realizada por um grande potentado paulista BAR­TOLOMEU BUENO DO PRADO, que de volta da expe­dição, traz, como troféu de guerra. cerca de quatro mil pares de orelhas de negros aniquilados. No norte, o grande reduto africano denominado "Palmares" é atacado e dizimado pelo ferro de um caudilho possante, DOMINGOS JORGE VELHO. Com um formidável exército de curibocas, desce da sua fazenda de Piancó, nos altos sertões da Paraíba. para realizar estu façanha guerreira.
Repare-se o estilo triunfa lista do autor ao descrever as faça­nhas desses bandeirantes, todos elogiados pelos seus feitos. As bandeiras, por isto mesmo, tiveram "maravilhosa irradiação", eram "sertanistas intrépidos", 22 e os senhores mantinham "formi­dável organização militar", 23 praticando" proezas assombrosas", 24 tudo isto objetivando manter a paz social contra os atos destruti­vos da "indiada inútil", 25 "gentio feroz", 26 e do "negro bárba­ro".27 Não ap~nas a paz social, mas a civilização, pois ela" é obra exclusiva do homem branco. O negro e o índio, durante o longo processo de nossa formação social, não dão, como se vê, às classes superiores e dirigentes, que realizam a obra da civilização e cons­trução, nenhum elemento de valor. Um e outro formam uma massa passiva e improgressiva, sobre que trabalha, nem sempre com êxito feliz, a ação modeladora do homem da raça branca".
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Finalmente, a abolição. Para Oliveira Vianna ela é um fator desequilibrador da nossa economia agrária, pois:
Desde o momento, porém, em que a nossa tradicional orga. nização do trabalho agrícola, assentada sobre a base da escra­vidão, é substancialmente refundida. toda a sociedade rural é. conseqüentemente, abalada das suas cumeadas aOs seus fun­damentos. Dado o imprevisto e o subtâneo golpe que lhe édesferido a \3 de maio de 1888, ela não tem, por assim dizer, tempo para reorganizar-se no sentido de uma adaptação ime­diata à nova ordem de coisas - e desmorona quase inteira. mente. Os grandes latifúndios açucareiros, que se estendem pela longuíssima faixa da costa. do sul ao norte do país. E cuja atividade agrícola se apóia exclusivamente sobre o braço negro, sofrem uma desorganização e entram numa fase opres­siva e prolongada de agonia econômica [...] Desordenada essa velha e soberba edificação, que é a nossa aristocracia territorial, parte dos seus elementos entram a viver na soli­dão dos seus vastos domínios, agora incultos, a vida vegeta. tiva dos decaídos: de modo que hoje não raro encontramos, quando percorremos o nosso interior agrícola, descendentes de grandes e antigas famílias aristocráticas niveladas com os elementos mais obscuros da nossa plebe rural.
Como podemos ver, Oliveira Vianna tece uma verdadeira apo­logia saudosista aos senhores de escravos que representam para ele a "aristocracia rural", ariana e civilizadora. Esta posição de defesa do latifúndio escravista, de um lado, e a estigmatização do negro, índio ou mestiço, de outro, são uma constante no seu pensamento social e determinam todas as teses do seu livro. Não há meios termos. Nossa evolução social deveria acompanhar a nossa evolu­ção racial, de acordo com a capacidade de cada raça. De um lado, o branco civilizador, de outro'" a massa amorfa" a "patuléia de mestiços" incapaz de progredir, avançar e civilizar-se em conse­qüência da limitação congênita da sua inteligência e destituída de senso moral pelo mesmo motivo.
Daí, Oliveira Vianna não demonstrar nenhuma simpatia pelo movimento abolicionista e a sua conclusão, mesmo com as limitações sociais como foi feita a abolição. Ocupa-se dela em apenas seis linhas afirmando que "a abolição do elemento servil, em 1888, afasta do trono as simpatias da grande aristocracia territorial, essencialmentente conservadora e lealista. O próprio monarca, já enfermo e envelhecido, não exerce mais sobre o país aquela ação moderada, mas enérgica e vigilante, dos primeiros tempos”.
Diante da abolição apenas deplora que ela tenha tornado mais longa a eliminação da população negra, afirmando que "sob esse aspecto, pode-se dizer que a lei da abolição, de 1888, concorre para retardar a eliminação do H. aleI' em nosso país - porque, não há dúvida que em escravidão, ele teria desaparecido mais rapi­damente".
Era a eugenia por ele tanto elogiada, feita através da supres­são, pela morte, do elemento negro e que se daria através de três causas principais: .. miséria, vício e castigo".
O livro Evolução do povo brasileiro não sintetiza o nosso pro­cesso evolutivo, mas é, pelo contrário, um espelho do pensamento das elites brasileiras dominadoras. Não é uma contribuição objetiva para o conhecimento do nosso povo, mas um anátema violento e deformado contra ele. Jarbas Medeiros escreve neste sentido que "em conseqüência mesmo da sua adesão. às suas teorias raciais, Oliveira Vianna recorre à teoria das elites como fator explicativo da história e toda a sua obra é um elogio permanente e grandiloquente das nossas elites dirigentes".
Concluindo, devemos dizer que Oliveira Vianna estabeleceu uma escala racial mítica, na qual o branco estava no cume da pirâ­mide e o negro na sua base e transferiu essa escala para explicar as relações escravistas no Brasil. Daí ter concluído que os negros e índios, por serem membros de "raças bárbaras", estavam destinados a trabalhar e obedecer e os brancos dominadores, por serem de uma raça pura e superior, destinados a impor, por um mandato biológico. Essa hierarquização social corresponderia, assim, a uma fatalidade. Os negros, por outro lado, não poderiam transpor as barreiras sociais em conseqüência das limitações psicológicas e morais da sua raça e todos aqueles que tentassem transpô-las produziriam um desequilíbrio na sua estrutura social que deveria estar rigidamente ordenada de acordo com a capacidade de cada raça que compunha a nossa população.
Intoxicado pelo cientificismo arianizante da ciência eurocên­trica do seu tempo, deixou uma obra que é um monumento de exal­tação às elites dirigentes e um libelo contra os seus componentes populares: negros, índios, curibocas e outros não-brancos. Uma obra que nada tem de científíca e serve, ainda, para justificar des­mandos contra essas camadas populares que, para ele, eram a patu­léia de mestiços" incapazes de se inserirem no processo civilizató­rio. Um livro que deforma e deturpa os fatos para defender as elites e o racismo.

Fonte: Por Clovis Moura, em: As Injustiças de Clio: O negro na Historiografia Brasileira