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domingo, 2 de fevereiro de 2020

O SER HUMANO E SEUS DIREITOS


Toda pessoa humana tem direitos. Isso acontece em qualquer parte do mundo. Em grande número de países há pessoas que têm mais direitos do que as outras. Existem diferenças também quanto ao respeito pelos direitos, pois enquanto em certos países os direitos fundamentais da pessoa humana são muito respeitados em outros quase não há respeito.
Por que existem esses direitos? Porque todas as pessoas têm algumas necessidades fundamentais que precisam ser atendidas para que elas possam sobreviver e para que mantenham sua dignidade. Cada pessoa deve ter a possibilidade de exigir que a sociedade e todas as demais pessoas respeitem sua dignidade e garantam os meios de atendimento daquelas necessidades básicas.
Além disso as pessoas humanas são todas iguais por natureza e todas valem a mesma coisa, mas cada uma tem suas preferências, suas particularidades e seu modo próprio de apreciar os acontecimentos. Por causa destas diferenças as pessoas nem sempre estão de acordo e é preciso que existam regras regulando os comportamentos, estabelecendo o que cada um deve ou não deve fazer, o que é permitido e o que é proibido.
O fato de haver divergências e conflitos não é mau, ao contrário disso, onde as pessoas são livres é natural que não concordem em tudo e é bom que possam manifestar suas discordâncias. É desse modo que cada um se sente completo como pessoa e dá sua contribuição para o aperfeiçoamento da vida em sociedade. Não se pode, entretanto, dispensar a existência de regras de convivência, não para sufocar as pessoas e impedir que se manifestem as divergências, mas para regular as manifestações e dar a elas um sentido positivo.
Mas como todos os seres humanos valem a mesma coisa não é justo que só alguns estabeleçam as regras e os outros só fiquem com a obrigação de obedecer. Essas regras é que constituem o direito. E para que o direito seja legítimo e justo é preciso que todas as pessoas do povo possam dar sua opinião no momento em que as regras são escolhidas. E preciso também que todas as pessoas do povo, mesmo aquelas que estão no governo, ou que são poderosas, sejam obrigadas a obedecer e a respeitar o direito. Mas se o direito é necessário e se ele estabelece regras justas para a vida social como se explica a existência de injustiças apoiadas pelo direito? E se o direito é útil ou necessário para os seres humanos como se explica que os direitos não sejam respeitados por todos?
Quando existe um direito injusto é sinal de que o povo não foi ouvido ou de que algumas pessoas usaram a força econômica, militar ou política para impor a todos os outros o direito injusto. Nesse caso o que existe é um direito ilegítimo. É preciso, então, que muitas pessoas denunciem as injustiças e façam pressão para que as regras ilegítimas sejam substituídas por outras aprovadas pelo povo.
Como é evidente, as pessoas e os grupos mais poderosos procuram sempre impor sua vontade, para que o direito atenda antes de tudo aos seus interesses. Isso acontece com mais facilidade onde a maior parte das pessoas não procura saber o que o Legislativo (deputados e senadores, vereadores) o Executivo (presidente, governador e prefeito) estão fazendo e não tem interesse por assuntos políticos. O desinteresse da maioria do povo deixa sem controle e sem fiscalização os que tomam as decisões políticas. E desse modo elas ficam à vontade para decidir a favor dos poderosos, desprezando as necessidades e a vontade do povo. Assim é que se explica a existência de leis, decretos e atos administrativos contrários ao interesse público.
Por aí se percebe também que não basta votar para ter a garantia de uma ordem justa, sendo indispensável procurar conhecer bem o candidato para o qual se vai dar o voto e depois disso acompanhar a vida das instituições políticas. Com essa participação permanente do povo e das organizações de base, como associações, comunidades e sindicatos e movimentos sociais (MST, MTST), será mais fácil impedir que sejam desrespeitados os direitos fundamentais das pessoas humanas.
O que desde logo deve ficar claro é que existem certos direitos que nem as leis nem as autoridades públicas podem contrariar. Esses direitos estão quase todos na Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948.
DIREITO DE SER PESSOA
Para que um ser humano tenha direitos e para que possa exercer esses direitos, é indispensável que seja reconhecido e tratado como pessoa. Isso deve acontecer com todos os seres humanos. Reconhecer e tratar alguém como pessoa é respeitar sua vida, mas exige que também seja respeitada a dignidade, própria de todos os seres humanos. Nenhuma pessoa deve ser escrava de outra, nenhum homem deve ser humilhado ou agredido por outro, ninguém deve ser obrigado a viver em situação de que se envergonhe perante os demais, ou que os outros considerem indigna ou imoral.
Antes de tudo, como exigência para viver com dignidade, a toda pessoa humana deve ser garantido o direito de ter um nome e de ser conhecida e respeitada por esse nome. O nome identifica a pessoa e faz parte de sua personalidade. Por esses motivos o direito ao nome está contido no direito de ser pessoa.
Todo ser humano tem o direito de não ser agredido ou ferido por outro. Esse é o direito à integridade física. Em qualquer situação, mesmo que esteja preso por ter cometido um crime, o ser humano deve ter respeitada a integridade de seu corpo. Assim como não deve ser tolerado que uma pessoa agrida outra, por qualquer motivo, quando as duas estão livres e podem defender-se, com mais razão não se pode admitir que um policial pratique violência física contra um preso, que não tem como se defender.
Quando se fala em respeito à integridade física de uma pessoa, a primeira ideia que se tem é de que não deve ser tolerada a violência direta e intencional. Mas é preciso ter em conta que há muitas situações em que uma pessoa pode causar prejuízo físico a outra, sem que a agressão cause a revolta de outras pessoas e mesmo sem que muitos percebam que está havendo uma violência.
Aqui também é preciso lembrar as condições de vida e de trabalho. Muitas vezes uma pessoa é obrigada a viver ou trabalhar em condições que acarretam grande prejuízo físico, ou porque a falta de alimentos ou de cuidados de higiene e saúde causam doenças e o enfraquecimento físico, ou porque a falta de segurança sujeita a pessoa a sofrer acidentes e a perder sua capacidade física. Em todas essas situações, não está sendo respeitado o direito à integridade física das pessoas.
Igualmente grave é o sofrimento psíquico ou moral imposto a uma pessoa. Nesses casos, geralmente, poucos percebem que está havendo uma violência e que não se está respeitando a dignidade humana, mas os efeitos da agressão podem ser até mais graves do que aqueles provocados por uma violência física.
Considere-se, por exemplo, a situação de uma criança que é repreendida ou castigada com muito rigor ou injustamente, ou que é ridicularizada perante outras crianças ou na frente de adultos. Mais do que o sofrimento físico, ou independente dele, essa criança sentirá um grande sofrimento espiritual, que poderá durar muito tempo e até pela vida inteira.
Esse mesmo sofrimento psicológico e moral será imposto ao empregado que for tratado de modo grosseiro e desrespeitoso por seu empregador ou por seus superiores. O relacionamento respeitoso deverá ser observado entre professores e alunos, bem como entre qualquer pessoa que presta um serviço e os que recebem o serviço, pois a vítima do desrespeito estará sofrendo uma agressão moral e psicológica.
As agressões dessa espécie são mais comuns nas situações em que alguém ou tem uma posição de autoridade pública ou pode exigir a obediência de outros. O abuso da autoridade, a atitude arrogante de quem manda, a imposição de humilhação aos subordinados, tudo isso caracteriza agressão psicológica ou moral e, portanto, desrespeito ao direito de ser pessoa. Esse mesmo desrespeito está presente em todas as situações sociais em que alguém é obrigado a ficar em posição humilhante ou de inferioridade moral perante outras pessoas. Isso acontece, por exemplo, quando uma pessoa é forçada a viver em tal estado de pobreza que precisa mendigar para obter alimentos e outros bens essenciais para a sobrevivência ou a vida em sociedade.
A mesma coisa se verifica quando pessoas e famílias são obrigadas, por sua pobreza, a morar em favelas ou cortiços, a se vestir com roupas esfarrapadas e a revelar, em cada situação, que são muito mais pobres do que as outras. As pessoas que sofrem essa forma de agressão podem não demonstrar revolta, mas seu sofrimento psicológico e moral existe. Elas sabem que são tratadas como inferiores e sofrem com isso.
Outras formas de ofensa ao direito de ser pessoa são os preconceitos e as discriminações sociais. Essa ofensa ocorre quando alguém é tratado como inferior ou não é admitido em algum lugar por causa de sua raça, sua cor, suas crenças, suas ideias ou sua condição social.
No Brasil, atualmente, há uma ofensa ao direito de ser pessoa que vem sendo praticada em muitos lugares, todos os dias, como se fosse coisa normal. Essa ofensa está no fato de que todas as pessoas são tratadas como suspeitas, como desonestas, como possíveis criminosas, sempre que vão fazer algumas compras e querem pagar com cheque. O comprador é obrigado a exibir documentos de identidade e a provar que não está pretendendo enganar e prejudicar o vendedor. Essa mesma prova é exigida em muitas repartições públicas, em bancos e em grandes empresas. Todos são tratados como suspeitos até que provem o contrário.
Esse procedimento é consequência do fato de que o Brasil teve vários governos militares, que viam em cada brasileiro um provável inimigo. Mas é uma grave ofensa ao direito de ser pessoa.
Não existe respeito à pessoa humana e ao direito de ser pessoa se não for respeitada, em todos os momentos, em todos os lugares e em todas as situações a integridade física, psíquica e moral da pessoa. E não há qualquer justificativa para que umas pessoas sejam mais respeitadas do que outras.
Fonte: Viver em Sociedade - Dalmo de Abreu Dallari. 

Atividades:
1 - Por que existem direitos humanos?
2 – Por que é preciso que existam regras regulando os comportamentos das pessoas em uma sociedade?
3 – Por que o autor diz que “o fato de haver divergências e conflitos não é ruim” na nossa sociedade?
4 – O que é preciso para que o direito, consequentemente suas regras, seja legítimo e justo?
5 – Pode existir um direito injusto? Como isso pode ocorrer, na visão do autor?
6 – O que acontece quando o povo perde o interesse em discutir os direitos e os problemas da política?  
7 - Por que o autor diz que não basta votar para que se tenha a garantia de uma ordem justa e defesa de seus direitos? O que mais devemos fazer para garantir nossos direitos?
8 – O que é o direito de ser pessoa?
9 – O que é o sofrimento psicológico e moral? O que é o sofrimento físico?
10 – Relate alguns tipos de sofrimentos morais /psicológicos e físicos que ocorrem na escola.
11 – Relate outros tipos de sofrimentos que observamos no nosso bairro, cidade e país constantemente.   

domingo, 21 de abril de 2019

Aula 5 - Direitos Humanos - Direito à participar das riquezas - Por Dalmo A. Dallari: Viver em Sociedade.

O homem não cria a natureza. O que os seres humanos fazem, com o seu trabalho, é transformar a natureza, aproveitando as riquezas da terra e do mar, os minerais do subsolo, a vegetação, os animais, dando-lhes utilidade ou procurando satisfazer as necessidades e os desejos de uma parcela da humanidade. O máximo que o homem consegue fazer é colaborar com a natureza, criando condições mais favoráveis para que as riquezas naturais se reproduzam.
Se a natureza é apenas transformada pelo trabalho dos seres humanos, como se justifica que alguns se comportem como donos da riqueza produzida, especialmente quando foram outros que trabalharam para produzi-la? E como justificar que alguns utilizem essa riqueza de modo egoísta, acumulando com exagero e muito acima de suas necessidades aquilo de que outros têm extrema necessidade para sobreviver ou para viver com um mínimo de dignidade?
Não existem documentos ou dados de qualquer espécie que possam esclarecer como foi que uns homens começaram a agir como donos da riqueza produzida por outros. Mas é fácil verificar que a distribuição das riquezas, como é feita no mundo de hoje, contém muitas injustiças. Pessoas que não trabalham e nunca trabalharam têm patrimônio e renda muito elevados, enquanto outras que sempre trabalharam muito não têm e não conseguem sequer o essencial para morar, vestir e se alimentar de acordo com as exigências da dignidade e da natureza humanas.
Ê comum, também, que alguns vivam ostentando riqueza, gastando muito dinheiro com coisas supérfluas, desperdiçando bens valiosos para a humanidade, como os alimentos, com absoluto desprezo pelas necessidades alheias, visando apenas à satisfação de sua vaidade ou de seus caprichos. Enquanto isso, outros lutam desesperadamente para conseguir o mínimo indispensável para não morrer de fome, de frio ou de doenças consequentes da falta de um mínimo de bem-estar material.
Há quem procure justificar sua satisfação privilegiada, de dono de muitas riquezas, afirmando que tudo o que possuem é fruto de trabalho honesto. Na realidade, porém, existem muitos casos em que a riqueza acumulada não é produto de uma atividade honesta. Muitos enriqueceram enganando outras pessoas, apoderando-se do que não era seu, usando de modo indevido um cargo público ou uma posição política, valendo-se de amizades ou corrompendo outras pessoas para obterem proveito ilícito.
Na realidade, no mundo moderno existe um número muito grande de situações em que não há qualquer relação entre a riqueza e o trabalho, situações em que os que trabalham são pobres e os que nunca trabalharam são ricos.
O exemplo mais acentuado desse desligamento é o direito de herança. Um recém-nascido que, evidentemente, nunca trabalhou e não se sabe se virá a trabalhar nem como irá utilizar sua riqueza, já nasce dono de um grande patrimônio e já tem assegurada uma renda elevada pelo simples fato de ser filho de um homem rico. Outro já nasce pobre, sofrendo privações antes mesmo de nascer e tendo a perspectiva de uma vida cheia de novas privações e de sofrimentos, mesmo que trabalhe muito, pelo simples fato de ser filho de um homem pobre. Nem o rico nem o pobre podem mostrar virtudes ou falhas morais no momento em que nascem. No entanto, sem nenhum mérito ou nenhuma culpa, um é premiado pelo acaso de ser filho de um rico, outro é castigado pela circunstância de ser filho de um pobre.
Mesmo que se suponha que uma criança esteja nascente na pobreza porque seu pai não é dado ao trabalho, é evidentemente injusto castigar o recém-nascido e condená-lo a uma vida de miséria por uma falta que ele não cometeu. Por outro lado, mesmo admitindo como justo que um pai procure assegurar a seus filhos um padrão de vida digno, com possibilidade de acesso a todos os bens e serviços que a sociedade proporciona, isso não deve significar a garantia de uma posição social privilegiada, com superioridade econômica ilimitada e sem qualquer responsabilidade social.
A solução justa para o problema do direito de participação nas riquezas existentes e que foram produzidas só pode ser obtida pela conjugação de várias medidas. Antes de tudo, é indispensável assegurar a todos os seres humanos, no momento em que nascem, igual oportunidade de acesso às riquezas, desde que desenvolvam atividade socialmente útil. É preciso, também, que não se admita a excessiva acumulação de riquezas. A possibilidade de enriquecimento sem limites tem estimulado a ambição por riquezas materiais" contribuindo para acentuar o egoísmo de muitas pessoas, que, mesmo sendo muito ricas, ignoram as necessidades dos pobres e chegam até a explorá-los deliberadamente, buscando sempre acumular mais riqueza.
A par disso, é preciso que as pessoas aprendam desde a infância a não valorizar demais as riquezas materiais. Nas sociedades modernas, sobretudo onde prevalecem os valores do capitalismo, os seres humanos são avaliados pela riqueza que possuem. Não importa a origem da riqueza nem o modo como ela é usada: basta uma pessoa ser rica para ter grande prestígio social. Isso é injusto, porque muitas vezes o que tem menor riqueza é infinitamente mais útil à humanidade e porque o fato de ser rico não é prova de virtude, como o fato de ser pobre não é prova de culpa.
Atividades:
1 – “Nós, seres humanos, não criamos a natureza. Através do nosso trabalho buscamos na natureza nossa sobrevivência”. Explique a frase levando em conta a nossa dependência dos recursos naturais finitos do planeta Terra.
2 - Há quem procure justificar suas posses, suas riquezas e seu poder em relação aos bens naturais afirmando que tudo o que possuem é fruto de trabalho honesto. Segundo o texto isso é uma verdade absoluta? Explique.  
3 – O autor do texto afirma que trabalhar duro não é sinônimo de riqueza. Cite exemplo de algumas situações em que os que trabalham são pobres e os que nunca trabalharam são ricos.
4 -   O autor do texto descreve algumas medidas que a humanidade deveria tomar para resolver o problema da divisão injusta das riquezas. Descreva-as.
5 – Desenhe ou recorte (jornais, revistas, internet, livros antigos) imagens que mostram desigualdades na divisão das riquezas

domingo, 3 de abril de 2011

Semana para relembrar NOSSOS MORTOS!

Semana para relembrar NOSSOS MORTOS!

Na semana em que um dos representantes da burguesia nacional faleceu, com ampla repercussão na mídia oficial, esqueceram deliberadamente de divulgar que no dia 31 de março de 1964 aconteceu o Golpe Militar, que levou a morte diversos lutadores e lutadoras, estudantes, camponeses, sindicalistas, jornalistas, políticos, religiosos , homens e mulheres que deram suas vidas por uma sociedade justa, que infelizmente não viram e não estamos vendo ser efetivada!

Para que a memória nunca nos falhe, relembremos nossos ainda sempre camaradas.

Abelardo Rausch Alcântara
Abílio Clemente Filho
Aderval Alves Coqueiro
Adriano Fonseca Filho
Afonso Henrique Martins Saldanha
Albertino José de Oliveira
Alberto Aleixo
Alceri Maria Gomes da Silva
Aldo de Sá Brito Souza Neto
Alex de Paula Xavier Pereira
Alexander José Ibsen Voeroes
Alexandre Vannucchi Leme
Alfeu de Alcântara Monteiro
Almir Custódio de Lima
Aluísio Palhano Pedreira Ferreira
Amaro Luíz de Carvalho
Ana Maria Nacinovic Corrêa
Ana Rosa Kucinski Silva
Anatália de Souza Melo Alves
André Grabois
Ângelo Arroyo
Ângelo Cardoso da Silva
Ângelo Pezzuti da Silva
Antogildo Pacoal Vianna
Antônio Alfredo de Lima
Antônio Benetazzo
Antônio Carlos Bicalho Lana
Antônio Carlos Monteiro Teixeira
Antônio Carlos Nogueira Cabral
Antônio Carlos Silveira Alves
Antônio de Pádua Costa
Antônio dos Três Reis Oliveira
Antônio Ferreira Pinto (Alfaiate)
Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
Antônio Henrique Pereira Neto (Padre Henrique)
Antônio Joaquim Machado
Antonio Marcos Pinto de Oliveira
Antônio Raymundo Lucena
Antônio Sérgio de Mattos
Antônio Teodoro de Castro
Ari da Rocha Miranda
Ari de Oliveira Mendes Cunha
Arildo Valadão
Armando Teixeira Frutuoso
Arnaldo Cardoso Rocha
Arno Preis
Ary Abreu Lima da Rosa
Augusto Soares da Cunha
Áurea Eliza Pereira Valadão
Aurora Maria Nascimento Furtado
Avelmar Moreira de Barros
Aylton Adalberto Mortati
Benedito Gonçalves
Benedito Pereira Serra
Bergson Gurjão Farias
Bernardino Saraiva
Boanerges de Souza Massa
Caiuby Alves de Castro
Carlos Alberto Soares de Freitas
Carlos Eduardo Pires Fleury
Carlos Lamarca
Carlos Marighella
Carlos Nicolau Danielli
Carlos Roberto Zanirato
Carlos Schirmer
Carmem Jacomini
Cassimiro Luiz de Freitas
Catarina Abi-Eçab
Célio Augusto Guedes
Celso Gilberto de Oliveira
Chael Charles Schreier
Cilon da Cunha Brun
Ciro Flávio Salasar Oliveira
Cloves Dias Amorim
Custódio Saraiva Neto
Daniel José de Carvalho
Daniel Ribeiro Callado
David Capistrano da Costa
David de Souza Meira
Dênis Casemiro
Dermeval da Silva Pereira
Devanir José de Carvalho
Dilermano Melo Nascimento
Dimas Antônio Casemiro
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Divino Ferreira de Souza
Divo Fernandes de Oliveira
Djalma Carvalho Maranhão
Dorival Ferreira
Durvalino de Souza
Edgard Aquino Duarte
Edmur Péricles Camargo
Edson Luis de Lima Souto
Edson Neves Quaresma
Edu Barreto Leite
Eduardo Antônio da Fonseca
Eduardo Collen Leite (Bacuri)
Eduardo Collier Filho
Eiraldo Palha Freire
Elmo Corrêa
Elson Costa
Elvaristo Alves da Silva
Emanuel Bezerra dos Santos
Enrique Ernesto Ruggia
Epaminondas Gomes de Oliveira
Eremias Delizoicov
Eudaldo Gomes da Silva
Evaldo Luiz Ferreira de Souza
Ezequias Bezerra da Rocha
Félix Escobar Sobrinho
Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira
Fernando Augusto Valente da Fonseca
Fernando Borges de Paula Ferreira
Fernando da Silva Lembo
Flávio Carvalho Molina
Francisco das Chagas Pereira
Francisco Emanoel Penteado
Francisco José de Oliveira
Francisco Manoel Chaves
Francisco Seiko Okama
Francisco Tenório Júnior
Frederico Eduardo Mayr
Gastone Lúcia Carvalho Beltrão
Gelson Reicher
Geraldo Magela Torres Fernandes da Costa
Gerosina Silva Pereira
Gerson Theodoro de Oliveira
Getúlio de Oliveira Cabral
Gilberto Olímpio Maria
Gildo Macedo Lacerda
Grenaldo de Jesus da Silva
Guido Leão
Guilherme Gomes Lund
Hamilton Fernando da Cunha
Helber José Gomes Goulart
Hélcio Pereira Fortes
Helenira Rezende de Souza Nazareth
Heleny Telles Ferreira Guariba
Hélio Luiz Navarro de Magalhães
Henrique Cintra Ferreira de Ornellas
Higino João Pio
Hiran de Lima Pereira
Hiroaki Torigoe
Honestino Monteiro Guimarães
Iara Iavelberg
Idalísio Soares Aranha Filho
Ieda Santos Delgado
Íris Amaral
Ishiro Nagami
Ísis Dias de Oliveira
Ismael Silva de Jesus
Israel Tavares Roque
Issami Nakamura Okano
Itair José Veloso
Iuri Xavier Pereira
Ivan Mota Dias
Ivan Rocha Aguiar
Jaime Petit da Silva
James Allen da Luz
Jana Moroni Barroso
Jane Vanini
Jarbas Pereira Marques
Jayme Amorim Miranda
Jeová Assis Gomes
João Alfredo Dias
João Antônio Abi-Eçab
João Barcellos Martins
João Batista Franco Drummond
João Batista Rita
João Bosco Penido Burnier (Padre)
João Carlos Cavalcanti Reis
João Carlos Haas Sobrinho
João Domingues da Silva
João Gualberto Calatroni
João Leonardo da Silva Rocha
João Lucas Alves
João Massena Melo
João Mendes Araújo
João Roberto Borges de Souza
Joaquim Alencar de Seixas
Joaquim Câmara Ferreira
Joaquim Pires Cerveira
Joaquinzão
Joel José de Carvalho
Joel Vasconcelos Santos
Joelson Crispim
Jonas José Albuquerque Barros
Jorge Alberto Basso
Jorge Aprígio de Paula
Jorge Leal Gonçalves Pereira
Jorge Oscar Adur (Padre)
José Bartolomeu Rodrigues de Souza
José Campos Barreto
José Carlos Novaes da Mata Machado
José de Oliveira
José de Souza
José Ferreira de Almeida
José Gomes Teixeira
José Guimarães
José Huberto Bronca
José Idésio Brianezi
José Inocêncio Pereira
José Júlio de Araújo
José Lavechia
José Lima Piauhy Dourado
José Manoel da Silva
José Maria Ferreira Araújo
José Maurílio Patrício
José Maximino de Andrade Netto
José Mendes de Sá Roriz
José Milton Barbosa
José Montenegro de Lima
José Porfírio de Souza
José Raimundo da Costa
José Roberto Arantes de Almeida
José Roberto Spiegner
José Roman
José Sabino
José Silton Pinheiro
José Soares dos Santos
José Toledo de Oliveira
José Wilson Lessa Sabag
Juarez Guimarães de Brito
Juarez Rodrigues Coelho
Kleber Lemos da Silva
Labib Elias Abduch
Lauriberto José Reyes
Líbero Giancarlo Castiglia
Lígia Maria Salgado Nóbrega
Lincoln Bicalho Roque
Lincoln Cordeiro Oest
Lourdes Maria Wanderley Pontes
Lourenço Camelo de Mesquita
Lourival de Moura Paulino
Lúcia Maria de Souza
Lucimar Brandão
Lúcio Petit da Silva
Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides
Luís Almeida Araújo
Luís Antônio Santa Bárbara
Luís Inácio Maranhão Filho
Luis Paulo da Cruz Nunes
Luiz Affonso Miranda da Costa Rodrigues
Luiz Carlos Almeida
Luiz Eduardo da Rocha Merlino
Luiz Eurico Tejera Lisbôa
Luiz Fogaça Balboni
Luiz Gonzaga dos Santos
Luíz Guilhardini
Luiz Hirata
Luiz José da Cunha
Luiz Renato do Lago Faria
Luiz Renato Pires de Almeida
Luiz Renê Silveira e Silva
Luiz Vieira
Luíza Augusta Garlippe
Lyda Monteiro da Silva
Manoel Aleixo da Silva
Manoel Fiel Filho
Manoel José Mendes Nunes de Abreu
Manoel Lisboa de Moura
Manoel Raimundo Soares
Manoel Rodrigues Ferreira
Manuel Alves de Oliveira
Manuel José Nurchis
Márcio Beck Machado
Marco Antônio Brás de Carvalho
Marco Antônio da Silva Lima
Marco Antônio Dias Batista
Marcos José de Lima
Marcos Nonato Fonseca
Margarida Maria Alves
Maria Ângela Ribeiro
Maria Augusta Thomaz
Maria Auxiliadora Lara Barcelos
Maria Célia Corrêa
Maria Lúcia Petit da Silva
Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo
Maria Regina Marcondes Pinto
Mariano Joaquim da Silva
Marilena Villas Boas
Mário Alves de Souza Vieira
Mário de Souza Prata
Maurício Grabois
Maurício Guilherme da Silveira
Merival Araújo
Miguel Pereira dos Santos
Milton Soares de Castro
Míriam Lopes Verbena
Neide Alves dos Santos
Nelson de Souza Kohl
Nelson José de Almeida
Nelson Lima Piauhy Dourado
Nestor Veras
Newton Eduardo de Oliveira
Nilda Carvalho Cunha
Nilton Rosa da Silva (Bonito)
Norberto Armando Habeger
Norberto Nehring
Odijas Carvalho de Souza
Olavo Hansen
Onofre Pinto
Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior
Orlando Momente
Ornalino Cândido da Silva
Orocílio Martins Gonçalves
Osvaldo Orlando da Costa
Otávio Soares da Cunha
Otoniel Campo Barreto
Pauline Reichstul
Paulo César Botelho Massa
Paulo Costa Ribeiro Bastos
Paulo de Tarso Celestino da Silva
Paulo Mendes Rodrigues
Paulo Roberto Pereira Marques
Paulo Stuart Wright
Pedro Alexandrino de Oliveira Filho
Pedro Carretel
Pedro Domiense de Oliveira
Pedro Inácio de Araújo
Pedro Jerônimo de Souza
Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar
Péricles Gusmão Régis
Raimundo Eduardo da Silva
Raimundo Ferreira Lima
Raimundo Gonçalves Figueiredo
Raimundo Nonato Paz
Ramires Maranhão do Vale
Ranúsia Alves Rodrigues
Raul Amaro Nin Ferreira
Reinaldo Silveira Pimenta
Roberto Cieto
Roberto Macarini
Roberto Rascardo Rodrigues
Rodolfo de Carvalho Troiano
Ronaldo Mouth Queiroz
Rosalindo Souza
Rubens Beirodt Paiva
Rui Osvaldo Aguiar Pftzenreuter
Ruy Carlos Vieira Berbert
Ruy Frazão Soares
Santo Dias da Silva
Sebastião Gomes da Silva
Sérgio Correia
Sérgio Landulfo Furtado
Severino Elias de Melo
Severino Viana Colon
Sidney Fix Marques dos Santos
Silvano Soares dos Santos
Soledad Barret Viedma
Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones
Stuart Edgar Angel Jones
Suely Yumiko Kanayama
Telma Regina Cordeiro Corrêa
Therezinha Viana de Assis
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto
Tito de Alencar Lima (Frei Tito)
Tobias Pereira Júnior
Túlio Roberto Cardoso Quintiliano
Uirassu de Assis Batista
Umberto Albuquerque Câmara Neto
Valdir Sales Saboya
Vandick Reidner Pereira Coqueiro
Victor Carlos Ramos
Virgílio Gomes da Silva
Vítor Luíz Papandreu
Vitorino Alves Moitinho
Vladimir Herzog
Walkíria Afonso Costa
Walter de Souza Ribeiro
Walter Kenneth Nelson Fleury
Walter Ribeiro Novaes
Wânio José de Mattos
Wilson Silva
Wilson Souza Pinheiro
Wilton Ferreira
Yoshitane Fujimori
Zuleika Angel Jones

Todos os nossos lutadores e lutadoras! Presente!

Saudações,

Givanildo Manoel e Leon Cunha, militantes pelos direitos humanos.

Um pouco dessa história...

"Isso não é um porco e será enterrado como gente"
Arno Preis, filho do Sul do Estado, abandonou o seminário para entrar na luta armada, que acreditava ser o caminho para a revolução
Luis Fernando Assunção

Policiais chegaram ao coveiro Milton Gomes com um corpo embrulhado em uma lona de plástico preta. Gomes era o responsável pelos sepultamentos no cemitério da pequena Paraíso do Norte, interior de Goiás. "Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco", disseram os policiais ao coveiro, que retrucou: "isto não é um porco. É um homem. Alguém um dia virá procurar por ele". O coveiro tomou então um cuidado: junto ao local da cova, ergueu uma pequena pirâmide de concreto, sobre a qual fincou uma cruz de madeira. Dez dias depois, um aparato policial cercou o cemitério, enquanto alguns policiais retiravam um braço do corpo enterrado. O "porco" era o advogado Arno Preis, catarinense de Forquilhinha, integrante do Movimento de Libertação Popular (Molipo). Só foi enterrado como "gente" em 15 de outubro de 1993, depois de seus restos mortais serem encontrados a partir da cruz de madeira idealizada pelo coveiro Gomes.
Arno Preis nasceu em Forquilhinha em 8 de julho de 1934. Filho de descendentes de alemães, teve uma educação rígida. Estudou durante boa parte da infância e adolescência em seminários católicos. Desistiu da batina meses antes da ordenação. Além de ter facilidade nos estudos, aprendia rapidamente a falar outros idiomas. Ainda na faculdade em São Paulo - para onde se transferiu depois de sair do seminário - dominava fluentemente as línguas inglesa, grega, italiana, espanhola, francesa, romena, alemã, russa, latina e até a japonesa. Traduziu três livros do japonês para o português: Kamikaze, Cruz Vermelha e Iwo Jima.
Arno era o oitavo filho de Edmundo e Paulina Preis e desde os sete anos estava no seminário, primeiro no Franciscano de Luzerna e depois no Seminário de Agudo, em São Paulo. Antes de ser ordenado, decidiu seguir outro caminho e matriculou-se no curso de direito da Universidade de São Paulo, na faculdade de São Francisco. Profundo conhecedor da cultura popular brasileira, Arno dominava a capacidade de dialogar para solucionar impasses. Seu sonho: prestar concurso para o Itamaraty e ser diplomata. Também dominava instrumentos musicais, em especial a flauta.
Foi em São Paulo que Arno conheceu os movimentos populares contrários ao regime militar pós-64. Inicialmente pertencente à Ação Libertadora Nacional (ALN), viajou até Cuba para treinamento em guerrilha e, voltando ao Brasil, integrou o Molipo. "Não fosse o fechamento de todos os canais de comunicação entre a nação e o Estado, o Brasil não teria amargado a perda de muitos de seus mais dignos e generosos filhos", diz o amigo advogado Ivo Sooma, o primeiro a chegar até o local do sepultamento do corpo, no interior de Goiás.
A versão da morte de Arno ainda é contraditória. Oficialmente ele teria sido morto após troca de tiros com policiais em Paraíso do Norte. Depoimentos colhidos a partir da década de 80 pela Comissão Externa de Desaparecidos Políticos da Câmara dos Deputados comprovaram que os policiais teriam se precipitado ao ver Arno com uma pasta debaixo do braço. No momento do crime ele carregava uma maleta com dinheiro que seria utilizada para as operação do Molipo na região. A pasta de dinheiro foi encontrada vazia perto do local onde Arno foi morto. Até hoje a família luta pelo reconhecimento da culpabilidade do Estado e pelo direito à indenização a mortos políticos.

Nome
Arno Preis

Nascimento
1934, em Forquilhinha, Santa Catarina

Profissão
Advogado

Militância
Movimento de Libertação Popular (Molipo)

Morto em fevereiro de 72. Enterrado em Forquilhinha.

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Família foi
perseguida por abrigar "terrorista"

Forquilhinha - De tempos em tempos dona Elza Preis Backes visita o cemitério da cidade. Faz questão de manter limpa a capelinha da família, onde se encontra com destaque a foto do irmão Arno. Mas nem sempre foi assim. Por longos anos a família Preis foi discriminada na região. O pai Edmundo e a mãe Paulina se calaram. Recusaram-se a falar do filho com medo de perseguições e represálias dos policiais. Chegaram a ser intimidados por conta das visitas clandestinas de Arno aos familiares. "Eram tempos difíceis", reconhece dona Elza.
Descendentes de alemães, Arno e os 12 irmãos tiveram uma educação rígida. O único divertimento eram as festas ao som de sanfona que o pai costumava organizar de tempos em tempos. Arno sempre se destacou. "Era muito inteligente e se movimentava muito. Não parava quieto", relembra a irmã. A mãe morreu aos 94 anos e por muito tempo nutriu a esperança de ver o filho de volta para casa, são e salvo. Na época da morte de Arno, os jornais destacavam que "mais um terrorista" morria nas mãos da polícia. "Foi muito doído tudo. Sabíamos que o Arno era decente", diz ela. "Nossa família sofreu com isso. Quando algum militante sumia, havia certeza de que seria morto", conta João Preis, 67 anos, irmão de Arno e ex-deputado estadual pelo Paraná.
"Isso marcou nossa família para a vida inteira. Todos nós sofremos com tudo", garante Preis. Forquilhinha ficou conhecida por ser a terra natal da família Arns, em especial o ex-cardeal dom Paulo Evaristo Arns. Ele foi um dos religiosos que mais deu guarida aos perseguidos políticos e isso a cidade nunca esqueceu. No começo dos anos 80, Arns organizou uma missa e um churrasco para os moradores locais. Na missa, muitas famílias compareceram, mas o churrasco pouca gente teve a coragem de prestigiar.
O irmão João e o amigo Ivo Sooma foram incansáveis na busca pelo corpo de Arno. Mas a procura era dificultada pela repressão da época. "Todas as vezes que ia para São Paulo, por causa da semelhança com meu irmão, tinha dificuldades. O rosto dele estava em cartazes de procurado por toda a parte. Ele foi caçado como um animal", recorda. "Meu irmão estava certo. O que ele previa está acontecendo. As dificuldades por que passa o País são heranças daquele regime", finaliza Preis. (LFA)

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A mesma versão,
o mesmo tipo de morte

A morte do militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) Hamilton Fernando da Cunha parece ser uma repetição de todas as outras durante o regime militar. De acordo com relatórios oficiais da época, agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) faziam uma "vistoria" de rotina na Gráfica Urupês, em São Paulo, quando Hamilton teria reagido. Ainda segundo esses relatórios, Hamilton estaria sendo procurado "por atentados a bomba, roubo de armas e assaltos a bancos". No "tiroteio" na frente da gráfica, Hamilton teria sido ferido mortalmente por um dos companheiros. Essa é a versão oficial, levantada pelo grupo de familiares de desaparecidos junto aos arquivos do Dops.
A versão dos familiares é outra. Os policiais teriam chegado à gráfica já com a intenção de prender Hamilton. Segundo sua irmã Nilsa, em requerimento encaminhado para a Comissão Especial da Lei 9.140 - que reconheceu a responsabilidade do Estado em mortes ocorridas durante o regime militar -, ao receber voz de prisão Hamilton teria levantado os braços para o alto, assustado, perguntando o que estava acontecendo. Em seguida, teria recebido uma rajada de metralhadora.
Depois da morte, Nilsa foi impedida de tomar as providências para o enterro. Só seis dias depois ela foi chamada para reconhecimento do corpo. O caixão, lacrado, foi levado ao cemitério por quatro policiais. A perseguição policial a Nilsa continuou. Seu apartamento em São Paulo foi vasculhado e ela submetida a diversos interrogatórios e ameaças. Passou dois anos com o prédio onde morava vigiado pelos policiais. Em parecer da Comissão Especial em 18 de março de 1996, o nome de Hamilton foi incluído na relação dos crimes políticos e sua família indenizada. A única irmã, Nilsa, reside hoje em São Paulo.
Hamilton nasceu em Florianópolis, em 1941. Foi cedo com a família para São Paulo onde passou, já na adolescência, a participar dos movimentos operários. Pouco antes de morrer, atuava no grupo Centro Popular de Arte, que se reunia na sede do Partido Socialista Brasileiro, em São Paulo. Funcionário da Gráfica Urupês, auxiliava na promoção de espetáculos em favelas, portas de fábricas, vilas operárias, praças públicas e auditórios de faculdades. Negro e forte, Hamilton também era atuante militante da VPR, e participou de diversas ações do grupo em São Paulo junto com Yoshitame Fujimori, Carlos Marighela e Diógenes José Carvalho de Oliveira. (LFA)

Nome
Hamilton Fernando Cunha

Nascimento
1941, em Florianópolis/Santa Catarina

Profissão
Gráfico

Militância
Vanguarda Popular Revolucionária(VPR)

Morto em fevereiro de 1969 por policiais do Dops.

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Outra vítima
inocente da cadeira do dragão

"Segundo de meus três filhos, Frederico foi educado com muito amor dentro dos preceitos que recebi de meu pai. Desde cedo aprendeu que os homens são iguais e têm o seu valor próprio independente de seu trabalho. Era namorador, queria ser arquiteto. Frederico não foi o filho que eu perdi, mas o filho que todos nós perdemos. O que se passou conosco foi uma afronta à dignidade humana. Frederico, julgado e absolvido, inocência reafirmada no Superior Tribunal Militar em 1974, já não era mais vivo. Baleado, foi preso e torturado até morrer, três dias depois".

(Depoimento da mãe de Frederico, Gertrud Mayr)

Mesmo absolvido em inquérito policial, Frederico Eduardo Mayr foi preso e torturado até a morte em 1972
Luis Fernando Assunção

A cadeira do dragão contabilizava mais uma vítima. O jovem sobre o assento agonizava com o buraco de tiro na barriga, recebido horas antes. A equipe "C" estava a postos. Oberdan, Carioca, Mangabeira e Caio, todos policiais civis paulistanos formados na arte da tortura pela cartilha do hoje general da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra, insistiam em protagonizar o sofrimento com choques elétricos e batidas com uma madeira dura nas debilitadas pernas do rapaz. A cadeira era um instrumento de tortura pesado, com zinco em sua base. Na parte posterior havia terminais de choque, aplicados em todas as partes do corpo. Tinha também uma travessa de madeira que empurrava as pernas para trás. A cada espasmo do choque, as pernas batiam na travessa, causando ferimentos. Frederico Eduardo Mayr, 24 anos, pedia clemência a seus sarcásticos algozes. Em vão. Torturado por mais 72 horas ininterruptas, não resistiu e morreu.
Frederico Eduardo Mayr era o do meio de uma família com três filhos. Alegre, comunicativo, tinha inclinação para as artes, principalmente as plásticas. Seus quadros continham cores vivas, mostrando o cotidiano de sua vida. Seu sonho era ser arquiteto. Filho de descendentes alemães e suíços, nasceu em Timbó em 1948 e enfrentou desde cedo uma educação rígida do pai. "Nada do que os filhos faziam era bom", recorda a mãe, Gertrud.
A mãe sempre se preocupou com a educação dos filhos. Sempre que podia, levava as crianças a exposição de artes, concertos musicais e museus. Isso ficou mais freqüente quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, onde o patriarca, Carlos Henrique, médico, iria clinicar. Frederico não tinha intimidade com a música; preferiu a pintura. Ao contrário de sua mãe, que sempre dedilhava canções clássicas no piano recostado na sala de estar da residência da família. Como não tinha muito dinheiro para comprar material, Frederico improvisava. Construía suas próprias telas, o que dava ainda mais originalidade a seu trabalho.
Convivendo com a agitação cultural do Rio de Janeiro da década de 60, Frederico aos poucos construiu um círculo de amizades onde pôde debater política e sociedade sem constrangimentos. O grupo se reunia de tempos em tempos para discutir a situação do País, ações que pudessem ser feitas para melhorar as condições sociais da maioria da população. Daí para a militância foi um passo. Depois de 1968, integrou-se ao Movimento de Libertação Popular (Molipo) e passou a efetuar ações coordenadas com o grupo. Passou a viver na clandestinidade.
Na versão oficial, teria sido preso em 23 de fevereiro de 1972, na avenida Paulista, quando fazia contatos com companheiros estabelecidos em São Paulo. O inquérito policial militar aponta para um tiroteio entre Frederico e policiais, quando ele foi ferido na barriga. Um documento encontrado posteriormente pela família no Dops dá detalhes do inacreditável tiroteio, em um texto recheado de contradições. Diz o documento "que os guerrilheiros, a bordo de um Fusca, começaram a atirar contra os policiais sem serem provocados". No combate que teria acontecido, só Frederico foi baleado e os demais ocupantes do veículo não foram mais citados, nem como presos, nem como foragidos. Frederico foi enterrado como indigente no cemitério de Perus e seus restos mortais só foram identificados oficialmente em 1992.

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"A arte amenizou minha dor"

Blumenau - Demorou longos anos para que Gertrud Mayr convivesse com mais naturalidade com a perda trágica do filho Frederico. O ópio para a dor veio das artes. Foi só depois que começou a pincelar telas que ela conseguiu alento para continuar vivendo. "A arte amenizou minha dor da perda", reconhece Gertrud, enquanto passeia com as mãos pelas obras que faz questão de mostrar num ateliê improvisado na casa de idosos onde vive, em Blumenau. "Agora consigo falar sobre isso e entendo que o sacrifício dele está servindo. Um pouco, mas está servindo".
Gertrud lembra da perseguição que a família teve de suportar enquanto Frederico não era detido. "É quase como morrer aos poucos", relembra, ao contar a revista de policiais na casa da família no Rio de Janeiro. "Um deles chegou a pegar o menino, o Luiz Roberto (outro filho) para interrogar", diz. Outro alívio para dona Gertrud foi encontrar os restos mortais do filho, na vala de Perus, em São Paulo. Foi um peso retirado dos ombros. "Se não tivesse recebido a identidade do meu filho não estaria assim, vivendo. Estaria um caco, talvez até em cadeira de rodas", acredita. No pequeno apartamento do lar onde vive, guarda fotos e quadros pintados por Frederico.
Os irmãos Carlos Henrique, médico, 56 anos, e Luiz Roberto, arquiteto, 46, continuam sofrendo com a morte de Frederico. "À medida que o tempo vai passando fica ainda mais difícil lidar com tudo isso", reconhece Luiz Roberto. "Essas pessoas foram à luta, atrás de seus ideais. É um exemplo que fica", diz ele. Quando passou a viver na clandestinidade, Frederico perdeu um pouco do contato com a família. Ele foi julgado por participação em assalto a banco e condenado à revelia. O pai se recusou a pagar advogado, deixando o caso para a defensoria pública. "Quando Frederico pediu ajuda ao pai, ele não levou a sério", recorda Gertrud. Foi a partir da condenação que ele passou a viver na clandestinidade, depois de trancar a matrícula na faculdade de arquitetura. (LFA)

Nome
Frederico Eduardo Mayr

Nascimento
1948, em Timbó/SC

Profissão
Estudante

Militância
Movimento de Libertação Popular (Molipo)

Morto em 1972. Corpo localizado na vala de Perus e identificado em 1992. Enterrado no jazigo da família, no Rio de Janeiro.

Fonte: http://www1.an.com.br/2003/jul/04/0ger.htm