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quinta-feira, 5 de julho de 2012

O "Mundo Livre" e seus parceiros liberticidas da América Latina


           Tratei, na última postagem, dos pactos assumidos pelas potências ocidentais com os tiranos pró-capitalismo asiáticos e africanos.  Esta tendência, contudo, de forma alguma se limitou às regiões que então saíam da dominação colonial direta.  Coube sobretudo aos Estados Unidos a manutenção do status quo nos países da América Latina, que embora dispusessem de governos autônomos desde o século XIX estavam presumidamente incluídos numa vasta área de influência norte-americana; na verdade, os eventos continentais ligados à Guerra Fria reviveram, mediante outras estratégias, a política do Big Stick, que resultara, na primeira metade do século XX, em invasões pelos marines de nações como Cuba, Haiti e Nicarágua.      
           A bandeira do anticomunismo por vezes serviu de pretexto para legitimar o poder de ditadores truculentos e corruptos, porém comprometidos com os interesses das multinacionais sediadas no "mundo desenvolvido"; em outras ocasiões, como justificativa para a derrubada de governantes democraticamente eleitos, porém portadores de ambições de autonomia tidas como inconvenientes em tempos de Guerra Fria, fossem ou não efetivamente apoiados pelos comunistas.  Limito-me novamente, por questões relacionadas à administração do espaço, a três exemplos.          





Anastasio Somoza Debayle (1925-1980)
Anastasio Somoza Garcia (1896-1956)


                                                                        









Sua obra:

Bruit 93/94

Seus parceiros:


Bruit 94


Peña 316


Fulgencio Batista (1901-1973)

Sua obra:


Gott 174


Gott 180/181

Seus parceiros:


Gott 186

Gott 189/190


Augusto Pinochet (1915-2006)

Sua obra:


Rossi 50


Rossi 55


Rossi 56

Seus parceiros:



Peña 323/324


Referências:

BRUIT, Héctor H.  Revoluções na América Latina.  São Paulo: Atual, 1988.
GOTT, Richard.  Cuba: uma nova história.  Rio de Janeiro: Zahar, 2006. 
PEÑA, Paco.  As intervenções norte-americanas na América Latina.  In: O livro negro do capítalismo/org. Gilles Perrault.  Rio de Janeiro: Record, 2000. 
ROSSI, Clóvis.  A contra-revolução na América Latina.  São Paulo: Atual; Campinas: Unicamp, 1987.

                                                                    Adendo

O poeta uruguaio Mario Benedetti (1920- 2009) expressa seus sentimentos ao saber da morte de Pinochet:

Obituario con hurras 

Vamos a festejarlo
vengan todos
los inocentes
los damnificados los que gritan de noche
los que sueñan de día
los que sufren el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan
vamos a festejarlo
vengan todos
el crápula se ha muerto
se acabó el alma negra
el ladrón
el cochino
se acabó para siempre
hurra
que vengan todos
vamos a festejarlo
a no decir
la muerte
siempre lo borra todo
todo lo purifica
cualquier día
la muerte
no borra nada
quedan
siempre las cicatrices
hurra
murió el cretino
vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas
se acabó el monstruo prócer
se acabó para siempre
vamos a festejarlo
a no ponernos tibios
a no creer que éste
es un muerto cualquiera
vamos a festejarlo
a no volvernos flojos
a no olvidar que éste
es un muerto de mierda.


Fonte: http://gustavoacmoreira.blogspot.com.br/

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Presidenciais na Colômbia: 56% do eleitorado adoptou a posição das FARC

por James Petras [*]

Chury: Bem, Petras, conta-me os temas em que estás a trabalhar agora...

Santos, o  continuador de Uribe.Petras: Em primeiro lugar, o mais importante que estamos a analisar é o processo eleitoral na Colômbia. Esse é o tema principal que temos tratado porque a própria esquerda semeou muita confusão sobre os resultados do processo eleitoral. Ou melhor, não trataram o resultado eleitoral num contexto mais amplo e é isso que o que devemos discutir. Porque o facto mais destacado é que 56% do eleitorado não votou. Ou seja, 56% consciente ou inconscientemente tomaram a posição das FARC. Não digo que estejam informados pelas FARC nem necessariamente que seja simpatizantes, mas por várias razões compartilham a ideia de que não vale a pena votar nas eleições principalmente porque ambas as opções eram muito desfavoráveis e nada ofereciam ao povo.

Para entender isso creio que devemos voltar uns anos atrás, particularmente aos últimos 10 anos do governo de Uribe e inclusive antes. Este resultado eleitoral tem como contexto o deslocamento de 4,3 milhões de pessoas. Tem o contexto de uma repressão feroz que matou mais de 1.800 sindicalistas, incluindo dirigentes. Mataram centenas de activistas de direitos humanos, advogados e jornalistas. E isso influi muito sobre a atitude das pessoas para com as eleições. Em dois sentidos: sentem-se aterrorizados pelo governo e alguns, neste contexto, pressionados a votar porque os militares estavam presentes em todos os lugares de votação. Os paramilitares e os políticos vinculados ao paramilitarismo, que chega ao próprio governo, influenciavam em todos os lugares de votação.

Mas antes de mais nada devemos entender que quando se organiza uma eleição isso é um processo de debate, de reivindicar e não reivindicar as necessidades do povo. E num contexto de terrorismo prolongado e generalizado não se pode avaliar o que sentem as pessoas, o que um contexto pacífico e democrático pode permitir. Neste contexto temos um país militarizado, 300 mil soldados, mais polícias, mais paramilitares, não é um contexto democrático para eleições.

E além disso o Estado utiliza todos os mecanismos, os meios de comunicação e incomunicação, utilizam tudo o que são as prebendas do Estado circulando nos bairros para conseguir algum voto. E também temos o facto de que o candidato presidencial, o que ganhou, o "Diabo" Santos, é uma pessoa envolvida nos assassinatos, foi o ministro da Defesa que organizou os chamados "falsos positivos", estimulando os militares a matar civis para mostrar que o exército teve grandes êxitos matando subversivos.

Descobrimos em pouco tempo que muitas das vítimas nada tinham a ver com a guerrilha nem com os grupos simpatizantes. Eram simplesmente civis, camponeses principalmente e gente pobre, escolhidos para assassinatos para mostrar que o exército teve grandes êxitos no combate. O senhor Santos é implicado e julgado neste contexto.

Os diários, tanto no Uruguai como no México, dizem que a direita arrasa. Arrasa o que? O voto em Santos foi simplesmente 30,8% do eleitorado. Se consideramos os que não votaram, os 70% que conseguiu, os 70% de 44% não chegam ao que eles dizem, chegam a 30 e poucos por cento.

E é preciso analisar os lugares onde votaram e não votaram. Nos grandes bairros popular o absentismo foi quase de 65%. O mesmo se passou em sectores rurais, algumas províncias tiveram quase 75% de absentismo.

Onde conseguiram uma maioria esmagadora de votantes foi nos bairros influentes, os bairros da classe média acomodada, e na classe média baixa em menor percentagem. Mas nos bairros altos conseguiram uns 70% ou 75%. Então há uma grande diferença entre os sectores populares e as regiões no resultado das votações. Muitos sindicalistas, particularmente nas províncias, não votaram por nenhum dos dois. E o mesmo se passou com alguns grupos de direitos humanos.

Agora, para disfarçar este processo eleitoral ilegítimo, os oficialistas utilizaram dois pretextos. Primeiro disseram que as chuvas reduziram a participação. Se alguém não quiser molhar-se por um candidato isso é um bom indicador do desprestígio que tem o sistema eleitoral.

E segundo, o campeonato mundial, não afecta todas as horas do dia, há tempo para ver as partidas e há tempo para votar. Assim, estas desculpas para justificar a baixíssima participação não têm legitimidade.

Por que os diário estão a dar tanta publicidade, disfarçando o facto de que o pior assassino do governo Uribe ganha as eleições com uns 30,8% do eleitorado. Por que? Creio que indica estarem preparados para apoiar-se numa nova política de acomodação com o imperialismo norte-americano. É um sinal de que no próximo período o senhor Santos, com Obama e a direita na América Latina, estão preparados para uma nova ofensiva. E os meios de comunicação, inclusive os jornais supostamente progressistas, estão dispostos a entrar nesse jogo.

Chury: Petras, passemos a outra das realidades que estamos a analisar e de que tens geralmente informação muito profunda. Parecem haver-se aplacado as repercussões dos delitos de lesa humanidade cometidos por Israel. O sionismo tem tanto poder sobre os meios de comunicação que já está a conseguir a amnésia e o esquecimento no mundo. Como se pode analisar isto?

Petras: Há duas razões. Primeiro, o poder que tem Israel a partir da quinta coluna das organizações sionistas e da grande maioria das organizações judias que são filiadas ao sionismo. Chega a tal ponto a força do sionismo que a partir dos Estados Unidos está a globalizar-se. Uma expressão disso é o forte trabalho que o sionismo norte-americano faz sobre o governo de Kirchner [presidenta da Argentina] e particularmente através do novo chanceler, senhor Héctor Timerman.

Timerman é a ligação entre o sionismo norte-americano e Israel com a política argentina. E a senhora Kichner nomeou Timerman, primeiro como embaixador nos Estados Unidos e agora como chanceler em substituição de Taiana, um funcionário que em certa medida mantinha alguma posição de distância em relação ao sionismo. Agora tem um funcionário a tempo inteiro a trabalhar por Israel e coordenando a política com os sionistas dos Estados Unidos. Aqui o vimos actuar uma forma muito vergonhosa, pior do que qualquer outro embaixador em Washington pelas suas relações promíscuas e íntimas com os sionistas e este problema vai repercutir na América Latina.

Aqui estão a dar repercussão nos meios publicitários ao facto de Israel, sob enorme pressão, estar a permitir entrar comida e medicamentos, pelo menos algumas linhas de alimentos de consumo em Gaza. O que não está a permitir são maquinarias para que os palestinos não só possam consumir como possam produzir, cultivar, exportar, possam abrir fábricas que estão todas fechadas. Há que continuar o boicote os protestos. Este fim-de-semana, na cidade Oakland, perto de San Francisco, Califórnia, que é o quito porto mais importante dos EUA, os portuários organizaram um boicote a um navio de Israel: não deixaram descarregar a mercadoria e isso foi um grande êxito. A companhia requereu um processo judicial para terminar o boicote. O juiz decidiu que Israel era um violador de direitos humanos e que têm razão aqueles que organizaram o boicote.

A consciência do assassinato da flotilha é muito generalizada. Os outros crimes diários que Israel comete, como o de ontem, a morte de um pai de família com três filhos, ou ante ontem outros palestinos na fronteira. As atrocidades de Israel não saem na primeira página e nem na segunda. Se há alguma reportagem é uma pequena notícia nas páginas internas. Aqui, em caso algum temos uma condenação a Israel nos meios de comunicação.

Agora a campanha dos sionistas no New York Times, no Washington Post e no Wall Street Journal, que são quase jornais da embaixada de Israel e cem por cento a favor de qualquer crime, lançaram uma propaganda feroz contra a Turquia. Se se pensar por um momento, há três todo o grupo de Israel aqui nos Estados Unidos actuava a favor da Turquia. De repente a Turquia critica Israel pelos assassinatos dos seus cidadãos e os assassinatos em Gaza, de repente a maquinaria faz uma volta de 180 graus e passa a dizer que a Turquia é um país de terroristas islâmicos, os mortos na flotilha eram islâmicos. E lançaram uma campanha lançando lixo sobre o primeiro-ministro da Turquia. Não têm vergonha nenhuma.

Quando Israel muda a linha eles dão um giro de 180 graus. Os sionistas são piores que os piores momentos do estalinismo. Não têm nada independente na cabeça, são apenas voz de Israel e é uma coisa espantosa. Não importa se é um cirurgião, um prémio Nobel, se é um famoso actor ou director de Holliwood, têm toda esta mentalidade de fidelidade incondicional a qualquer acto de delinquência do Estado de Israel. O servilismo aqui é incrível.

Chury: Houve críticas para com o presidente Correa, do Equador, pelos problemas que estão os movimentos indígenas, particularmente pela lei da água. O que sabe disso?

Petras: Correa é um político com tinturas reformistas pela sua política reivindicacionista, atando algumas concessões a programas sociais, subvenções, mas no âmbito macroeconómico é uma política destrutiva. Convidaram a multinacionais mineiras e explorarem a jazidas e muitas delas estão nos territórios tradicionais dos indígenas.

Agora cometeu dois erros. Primeiro, sem consultar os indígenas assinou estes contratos marginalizando as condições ambientais, as condições de pesca e de água do povo indígena.

Segundo, tomou estas decisões com beligerância para com os opositores e críticos, actuando com uma agressividade que não tolera uma reconsideração. E isso provou a ira dos grupos indígenas.

E terceiro, os grupos indígenas têm muita experiência nestas histórias de exploração, tanto de agrotóxicos e petróleo como de outras minas que no passado contaminaram enormes regiões de cultivos, ar, água e terras dos povos. Então, não falam de forma teórica, tiveram experiências negativas.

E para o Equador, para Correa, é uma política destrutiva. O que ele quer é estimular o crescimento a partir das exportações mineiras para compensar a queda nas exportações industriais e agrícolas. Primeiro porque não mudaram a moeda, continua a utilizar o dólar, o que torna caras as exportações não tradicionais como as manufacturas. E isso também criou uma situação em que Correa mantém um discurso populista, crítico de aspectos da política externa dos EUA, mas por outro lado é muito amistoso para com as multinacionais.

Ultimamente deu meia volta em relação à política norte-americana, abraçando Hillary Clinton e dizendo que estão a caminho de melhoria das relações. Temos que ver até que ponto isso é influenciado pela sua política mineira. Está-se a combinar agora a resolução da contradição entre uma política interna mineira conservadora com uma crítica ao imperialismo. Agora parece que há uma aproximação com o governo de Obama-Clinton juntamente com este projecto de explorar a mineração.
25/Junho/2010

[*] Comentários transmitidos pela CX36 Radio Centenario , em 21/Junho/2010.

O original encontra-se em http://www.lahaine.org/index.php?blog=3&p=46482

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Sujeitos da transformação

Entrevista do sacerdote e intelectual europeu François Houtart, que esteve de passagem por Buenos Aires e a concedeu ao jornal Clarín. François traça uma análise da atual crise na Europa através do peso do Estado e compara os problemas do Mercosul com a União Européia. Destaco, pessoalmente, sua citação sobre as assimetrias em nosso continente, assim como um nascente movimento de direita crescendo nos países da região. Boa leitura.

Entrevista: Horacio Bilbao

Tradução: Bruno Moreno
A última crise do capitalismo abre brechas e desigualdades sociais como há muito não acontecia na Europa. Qual é o verdadeiro poder de Bruxelas para acalmar as águas?

–As políticas dos últimos anos fizeram com que nossos Estados diminuíssem suas intervenções no campo social. Isso tende a aumentar com a crise. Mas são muitos os fatores que batem forte neste modelo da pós-guerra, que era um modelo keynesiano de distribuição de riqueza. O principal é que as bases da União Européia são econômicas. Não foi construida sobre um projeto político ou humanístico. E, neste sentido, a crise a afeta de maneira profunda. A UE continua com suas políticas de privatização de serviços públicos e impondo medidas fiscais regressivas. Assim, a única jogada forte nos últimos tempos foi para salvar o sistema financeiro. E agora que os bancos estão ganhando dinheiro novamente, tudo continua igual, com a diferença de que existe uma grande crise de desemprego. Mas a UE não tem meios para enfrentar isto e em alguns casos não quer fazer isso. Claro que diante de casos como o da Grécia ou Espanha, tem que sair para ajudar, porque sua fraqueza ficaria totalmente evidenciada.

-Estas contradições foram forjando fenômenos medulares, como o crescimento dos movimentos de direita e a crise da social-democracia, que também se inclinou para a direita. Há tempo e razões para se voltar àquelas políticas keynesianas ou neo-keynesianas?

–Existe um discurso neo-keynesiano articulado pela social-democracia ou pela Democracia cristão nos países em que último partido não é totalmente de direita. Mas essas propostas vão de encontro com suas políticas. Existe uma contradição enorme entre esse discurso de voltar ao Estado e, por exemplo, a onda privatizadora que continua pelos quatro cantos. Estamos todos mergulhados nessa contradição.

-É o cerne da União?

–É muito difícil para um país tomar decisões por si só. Agora estamos na União e existem essas orientações que os governos devem aplicar. Mas tem uma exceção, momentaneamente, e é em relação ao déficit fiscal. A regra de Maastricht dita 3 por cento, mas já temos vários países que estão em 6, 7, 8 por cento, sem falar da Grécia, que supera 10% e que praticamente vivia dos subsídios da UE. Essa liberdade foi dada para que o déficit se alargasse, mas fizeram isso para salvar os bancos. Então as possibilidades de voltar a um Estado regulador são muito escassas. Contando que existem muitas propostas que pedem uma mudança de paradigma e não uma volta ao keynesianismo.

-Com a esquerda atomizada e os movimentos sociais quase ausentes, ficou mais improvável que nunca…

–Exatamente. Em curto prazo, não há esperanças. Mas dá pra pensar que se estas contradições continuarem se aprofundando, este modelo não vai poder continuar. Atualmente existe uma enorme abstenção política, de mais de 50 por cento, o que significa que a direita tem todo o espaço, ou pelo menos maior, tanto no parlamento quanto na Comissão Européia. E existe essa desorientação da social-democracia, que não faz nada além do feijão com arroz. E a crise dos movimentos sociais na Europa é grande, não têm o dinamismo que mostram na América Latina.

-É com essa União Européia com a que o Mercosul avança em um tratado de livre comércio. Qual é a sua opinião sobre essa possibilidade? É muito diferente ao que era proposto com a ALCA?

–Os tratados que estão em discussão com a UE não são tão diferentes as dos TLC. A lógica fundamental é a mesma. A liberalização do mercado significa dar mais peso aos que têm mais poder econômico. O Mercosul tem mais peso que os países individuais, mas a lógica ainda é a mesma. Neste último tratado, existe um equilíbrio mais próximo, mas com a ALCA não havia nenhuma possibilidade.

-Mercosul, Unasul, Alba… nossos países não encontram o caminho para harmonizar posições e isto parece mais difícil agora que a região está ficando mais heterogênea. Por quê?

–A única possibilidade de ser um ator na economia mundial é caminhando de mãos dadas. Mas o mundo ainda é unipolar, com Estados Unidos, Europa e Japão como principais atores, e com os BRICS (Brasil, India, China e África do Sul) crescendo. E para a união latino-americana, que teria um peso específico neste cenário, ainda falta muito. O primeiro problema é o distanciamento entre os regimes de direita e os que são mais ou menos de esquerda.

-Essa brecha está aumentando?

–É um distanciamento que os Estados Unidos e alguns poderes europeus tentam e vão tentar aumentar. Já estamos vendo um princípio de reconquista da direita na América Latina. E vai ser muito difícil entrar de acordo em políticas comuns, como por exemplo o “Sucre” (a moeda comum do Alba). Por outro lado, temos a diferença de peso entre os países da região. Brasil é uma potência que tende a ser sub-imperialista, tentando impor seus interesses. O capital brasileiro comprou a indústria cervejeira da Bélgica e se comporta pior que os capitalistas europeus.

-Como se opôr a essas tentativas de distanciamento?

–A região depende muito das eleições locais. Por exemplo, se o PRD tivesse vencido no México em vez do Calderón, haveria uma possibilidade, pelo menos para uma pequena mudança. E por isso também é lamentável o que aconteceu com o Polo Democrático na Colômbia, minado pelas divisões internas e pelas brigas entre seus integrantes para chegar ao poder. Se um dia a Colômbia passasse a um regime de centro-esquerda, mudaria toda a conjuntura latino-americana.

-As fórmulas assistencialistas para redistribuir riqueza produzem uma mudança verdadeira?

–Da Bolívia ao Brasil, eu acho, existe uma vontade de redistribuir esta riqueza, mas que batem no problema de como fazer isso. Você pode fazer como no Brasil, que tem uma política puramente assistencialista, desvinculada de uma mudança estrutural, ou voce pode fazer como a Bolivia vem tentando, buscando uma mudança nas estruturas sociais. É preciso vincular as duas coisas. Não se deve apenas buscar assistir, como o Brasil faz, cuja política está sendo eficaz porque milhões de pessoas estão saindo da miséria mais absoluta. É preciso tentar combinar isso com uma participação popular, para que as pessoas sejam atores e não clientes.

-Em foruns sociais e encontros alternativos, cada vez mais jovens se vinculam com a política através do ambientalismo. Qual o teor desse compromisso?

–Os movimentos ambientalistas são um ponto de partida. Útil para poder mostrar e entender que tudo isso é fruto de uma lógica econômica. A destruição da natureza e geração de energia através da agricultura não são problemas isolados e não podem ser resolvidos se não colocarmos o problema do modelo econômico. Pode ser o ponto de partida para um processo de conscientização.

-O que resta para os jovens com preocupações tão básicas quanto as alimentares?

–Milagres não existem. A conscientização sempre é fruto de uma análise da realidade e de um julgamento sobre esta realidade, que servirá de base à ação. Esses três processos são inevitáveis. Não podemos pensar em uma ação coletiva forte e eficaz se não existe uma consciência do real, e sem uma reflexão ética do real. É preciso implicar todo o sistema educativo, os meios de comunicação de massa, os movimentos sociais, para começar a provocar este tipo de processo.

-Que exemplo daria aqui na América Latina?

–Sem dúvidas o trabalho dos Sem-Terra no Brasil tem muito disso. Eles aplicam esta metodologia de ver, julgar, agir, para transformar as pessoas em atores da mudança social. Os movimentos indigenistas da Bolívia também estão percorrendo o mesmo caminho.

-E qual é o caminho que os sacerdotes do Terceiro Mundo estão percorrendo hoje em dia?

–Agora são muito menos que antes, parecem os veteranos, porque o novo clero também é bastante conservador. Mas não desapareceram totalmente. E até me animo a dizer que existe uma certa renovação da Teologia da Libertação e das comunidades de base que no Equador, por exemplo, começaram a trabalhar em um centro de formação. Na Colômbia, também existe uma reconstrução do movimento, e de um compromisso social, político e cristão em função da realidade atual. É muito difícil porque a Igreja, como instituição, caminha no sentido contrário. Após a visita dos bispos brasileiros ao Papa, este voltou a condenar de maneira muito dura a Teologia da Libertação. Estão fechados a este tipo de pensamento, de compromisso e de espiritualidade, mas não conseguiram matá-la. Está ressurgindo em alguns países, embora sem a força que teve no passado.

-Alguns movimentos políticos também não têm a força do passado. Sandinismo e orteguismo, para dar um exemplo, que o senhor conhece bem de perto. É parte do mesmo?

–Isso é simplificar demais. Há dois anos, antes das eleições, eu escrevi um artigo no “La Jornada”. Lá, perguntava: Ainda existe uma esquerda na Nicaragua? E a resposta era não. Mas o partido que mais se aproxima da esquerda é a Frente Sandinista, o que me valeu muitas críticas. O sandinismo ainda tem uma base social bastante grande, e a política desenvolvida por Ortega nestes dois anos tiveram alguns efeitos positivos, como o crédito aos camponeses, a campanha de alfabetização, a gratuidade da saúde e educação. Obviamente podemos criticar os dirigentes, e a crítica à Ortega é muito forte. Porém isso é mais forte dentro da burguesia sandinista e os intelectuais do que da massa popular. Se nós, os cristãos, esperamos que os anjos façam as revoluções, vamos esperar até o fim do mundo. Então somos críticos, mas nos comprometemos com as coisas que avançam, mantendo nosso espírito dialético. A realidade não muda de maneira linear.

-Diferentemente de um passado revolucionário anti-clerical, agora o senhor tem a seu lado líderes cristãos, como Chávez e Correa…

–Sim, claro, sempre que vejo o Chávez ele me diz: “Francois, benção. Preciso da sua benção.” (risos). Ele tem uma fé um pouco popular, mas inquebrantável. E é a mesma coisa com Correa, a quem conheço muito bem porque passou um ano comigo em minha casa de Lovaina. Inclusive em Cuba desapareceu esse espírito antirreligioso, que era mais o fruto do influxo soviético. Já em 86, o Comitê Central do partido me convidou a dar um curso sobre Sociologia da religião durante 15 dias a responsáveis da ideologia do partido. E o partidão publicou o meu curso.

-Como os convenceu?

-Tomei uma posição e lhes disse: “Se vocês são marxistas, não podem ser dogmáticos. O marxismo é uma ferramenta de análise da realidade”. E vimos a realidade, analisamos o fator religioso através da história em várias sociedades e várias religiões para chegar à conclusão de que sim, de que em muitos casos a religião funcionava como o ópio do povo, mas também vimos que em muitos outros casos tinha sido uma motivação para um compromisso social e também revolucionário.
Fonte: Grupo CEGeT - Unesp Presidente Prudente (por e-mail)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

“Ou morre o capitalismo, ou morre a Terra”, diz Morales ao abrir Cúpula do Clima



O presidente boliviano, Evo Morales, um esquerdista de origem aimara, abriu, esta terça-feira, na Bolívia, uma conferência mundial de 20 mil ativistas para discutir propostas contra o aquecimento global e difundir uma mensagem clara:
“ou morre o capitalismo, ou morre a Terra”.“O capitalismo é sinônimo de inanição, o capitalismo é sinônimo de desigualdade, é sinônimo de destruição da mãe Terra. Ou morre o capitalismo, ou morre a Terra”, afirmou o presidente, na inauguração do evento no povoado de Tiquipaya, vizinho a Cochabamba, região central da Bolívia.
Em um campo de futebol diante de milhares de pessoas, o presidente disse que só os movimentos sociais do mundo, unidos a povos indígenas e intelectuais, “podem derrotar esse poder político e econômico (capitalismo), em defesa da mãe Terra”.
Durante três dias, Tiquipaya se tornará no centro de uma conferência mundial de aborígenes e movimentos sociais de 129 países, celebrada para debater uma proposta para enfrentar as mudanças climáticas, que será apresentada na próxima Conferência Climática da ONU, agendada para o fim deste ano, no México. Morales assumiu, em dezembro passado, o compromisso de organizar uma reunião mundial da sociedade civil, após criticar, junto a colegas de Venezuela, Nicarágua e Cuba, as conclusões da Conferência do Clima de Copenhague que, segundo ele, não obteve o consenso mínimo necessário para conter o aquecimento global.
A inauguração se realizou em meio a uma festa folclórica no estádio do povoado de Tiquipaya, que não bastou para abrigar todas as pessoas que ali foram para ouvir o presidente. Bandeiras de Bolívia, Peru, Chile, Equador, México e do ‘whipala’ – xadrez multicolorido, símbolo dos indígenas andinos – dominavam o estádio de Tiquipaya. Um barulhento grupo de argentinos gritava vivas para o presidente Morales e entoava cânticos esquerdista dos anos 1970. Indígenas bolivianos quechuas e aimaras, bem como de Chile, Peru, América Central, Estados Unidos e Europa estiveram presentes à inauguração.
Ativistas antiglobalização de África, Oceania e países sul-americanos também integravam a multidão de movimentos sociais que exigiam das potências industrializadas que freassem o aumento da temperatura do planeta, com o slogan “mudem de modelo, não mudem o clima”.“Há uma profecia, uma voz do norte, uma mensagem que diz à humanidade que temos que parar para não tirar a vida da Pachamama (mãe Terra em idioma quechua)”, declarou em inglês, com ajuda de um intérprete, Faith Gammill, que disse representar os indígenas do Alasca e do Canadá.
Alicia Bárcena, representante do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, viveu um momento difícil ao ser vaiada no estádio. Secretária-geral da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), Bárcena ameaçou retirar-se caso as vaias continuassem.“Viemos escutar os povos com todo o respeito; vocês nos convidaram, mas se não querem que estejamos aqui, nós podemos nos retirar”, disse, embora em seguida tenha conseguido dar seu discurso.
Um total de 17 mesas de trabalho foram instaladas na Bolívia para debater temas principalmente referentes à formação de um tribunal de justiça climática – para punir as nações poluidoras -, a convocação de um referendo mundial – para frear acordos das potências sobre o clima – e a criação de um organismo paralelo à ONU para reforçar políticas ambientalistas.
O encontro se encerrará esta quinta-feira com a presença dos presidentes Hugo Chávez (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua), Rafael Correa (Equador) e Fernando Lugo (Paraguai). Morales impulsionou a celebração do encontro, após chamar de fiasco a Cúpula de Copenhague, no ano passado, e para gerar uma proposta alternativa para a próxima Cúpula Climática da ONU, no México.
Matéria do site Ambiente Brasil

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Os infernos de Obama


Por José Arbex Jr.
Sem acordo sobre Honduras: Arturo Valenzuela, o novo secretário assistente do Departamento de Estado dos Estados Unidos para o hemisfério ocidental, visitou o Brasil em 14 de dezembro, com o objetivo de forçar um acordo sobre o futuro de Honduras. Queria que o governo brasileiro endossasse a farsa eleitoral, em 29 de novembro, que conduziu Porfírio Lobo à presidência (segundo informações não confirmadas, Lobo é associado ao grupo católico fundamentalista Opus Dei). Ou que, pelo menos, emitisse uma declaração para atenuar sua condenação total do processo. Valenzuela saiu de mãos abanando. Marco Aurélio García, assessor para a política externa do presidente Luís Inácio Lula da Silva, tentou atenuar as discrepâncias em suas declarações à imprensa, mas reiterou a posição brasileira.
Sinal dos tempos: historicamente, Honduras sempre foi a típica “república de bananas”. Está sob intervenção militar dos Estados Unidos desde 1904, quando marines foram convocados para esmagar uma revolta de camponeses contra o regime de superexploração da mão de obra imposto pela sinistramente famosa United Fruit e outras empresas que exploravam cultivos tropicais. Ao longo da Guerra Fria, e em particular nos anos 80, Honduras era conhecida como o “porta-aviões não naufragável dos Estados Unidos”, pois o seu território era livremente utilizado pela CIA e por militares ianques para combater movimentos “inimigos”, como o governo sandinista da Nicarágua e a luta revolucionária em El Salvador. Hoje, Washington mal consegue articular um golpe de Estado em Honduras. É um fiasco.
A “ala combativa” dos governos latino-americanos (Venezuela, Bolívia, Argentina, Paraguai, Equador, Nicarágua e, claro, Cuba) condenou inequivocamente o golpe, ao passo que os governos vassalos (sobretudo, Colômbia e México) se calaram, para em seguida reconhecerem o resultado da farsa eleitoral. A posição do Brasil, nesse contexto, tornou-se muito importante para Washington. A manifestação favorável de Brasília poderia compensar a condenação pela maioria esmagadora dos governos do hemisfério ocidental. Mas Lula, ao menos até o momento, não cedeu.
E os atritos com Valenzuela não se limitaram a Honduras. O emissário de Barack Obama foi obrigado a ouvir de García que o Brasil tampouco aprova o recém-assinado acordo de Washington com Bogotá, que permite aos Estados Unidos manter centenas de soldados e civis em até dez bases militares daquele país, pelos próximos dez anos. No auge da “crise das bases”, Lula pediu a Obama que explicasse o acordo numa reunião de cúpula da Unasul (União das Nações Sul-Americanas). Obama não aceitou. Finalmente, outro ponto da conversa girou em torno da visita ao Brasil, em novembro, do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. A recepção oferecida por Lula produziu ataques histéricos por parte da secretária de estado Hillary Clinton.
Independentemente das razões que levam o governo Lula a assumir uma posição de resistência ao imperialismo estadunidense, quando já cedeu tantas vezes ao longo dos últimos seis anos, o fato é que Washington enfrenta dificuldades inéditas para manter a lógica da Doutrina Monroe. Desde 1823, quando o presidente James Monroe anunciou a sua doutrina, o hemisfério sul é tido como uma espécie de “quintal” dos Estados Unidos, sua “área de influência”, fora do alcance das outras potências colonialistas. O único país que desafiou a doutrina e conseguiu manter a sua soberania foi a pequena ilha cubana (e por isso não é perdoada por Washington). Até anteontem, a hegemonia estadunidense absoluta. Há menos de duas décadas, a Casa Branca pôde ordenar a invasão de Granada (1983) e a do Panamá (1989) sem encontrar qualquer resistência. Hoje, até mesmo o governo Lula, saudado por Barack Obama como alguém “da turma”, enfrenta com palavras e atos a petulância ianque.
A Doutrina Monroe agoniza, e este é um dado central, especialmente numa conjuntura mundial em que a disputa pelo controle das reservas de petróleo, minérios, água e biodiversidade tende a ser um marco determinante do século 21. A agonia da Doutrina Monroe, com o consequente alargamento das fissuras entre governos latino-americanos e Washington, abre a possibilidade do desenvolvimento do movimento de massas, em escala jamais vista (como já foi anunciado pelo papel de liderança dos povos originários). Além disso, o enfraquecimento da hegemonia estadunidense na região abre o espaço para o surgimento de alianças e diálogos até há pouco impensáveis (por exemplo: o diálogo entre Venezuela e Irã, ou mesmo a relativa autonomia com que o Brasil recebeu o presidente iraniano).
Mas afirmar que a Doutrina Monroe agoniza não significa, de modo algum, que ela deixou de existir, ou que seus estertores serão breves. Ao contrário. A agonia do Império Romano durou dois séculos, pelo menos, e produziu muitas mortes e sofrimento. Washington não entregará facilmente a rapadura, e tanto o acordo com a Colômbia, a “ressurreição” da Quarta Frota, também denunciada por Lula, e o próprio golpe em Honduras são claros sinais disso.
Sob Obama, a política imperialista dos Estados Unidos mantém toda a agressividade exibida sob George Bush. A diferença é o sorriso na cara. Obama acaba de ser agraciado com o Nobel da Paz, uma indicação muito forte de que os governantes europeus tentam reunificar a “sagrada aliança” com os Estados Unidos, única potência capaz, hoje, de assegurar as condições minimamente necessárias ao funcionamento do capitalismo. A permanência da Otan, uma aliança militar que, formalmente, perdeu sua função com o fim da Guerra Fria, é a expressão militar da “sagrada aliança” contemporânea.
Obama quer comprometer ainda mais as forças da Otan – isto é, das potências europeias centrais, incluindo Alemanha, França e Ingalterra - no Afeganistão, como usa a Otan como ponta de lança contra a Rússia, encarada pela Casa Branca como grande rival pelo controle da Eurásia. As tentativas de incorporar a Ucrânia e a Geórgia, bem como os acordos militares com a Polônia e a ofensiva contra o Irã são expressões dessa política, que, aliás, não é nova: foi anunciada, em 1992, por Zbigniew Brzezinski, ex-assessor de segurança nacional no governo Jimmy Carter, no livro “The Grande Chessboard – American Primacy and its Geoestrategic Imperatives”.
Mas a reviravolta na América Latina não estava nos planos de ninguém. Nem mesmo Brzezinski, com toda a sua inegável capacidade de estrategista, pôde detectar esse “pequeno imprevisto”: os povos da América Latina, incluindo a pequena Honduras, são capazes de dizer não. Trata-se de uma dessas peças que, de vez em quando, a luta de classes prega nas potências hegemônicas, permitindo que o improvável se torne possível.
Obama já enfrenta o inferno no Afeganistão.
Ele que se cuide na América Latina.
José Arbex Jr. é jornalista.

domingo, 15 de novembro de 2009

Equador e Bolívia são casos de sucesso em meio à crise global

Por Mark Weisbrot - The Guardian (Texto em português publicado no Correio Internacional)

Adivinhem qual país das Américas deve atingir o crescimento econômico mais rápido nesse ano? A Bolívia. O primeiro presidente indígena do país, Evo Morales, foi eleito em 2005 e assumiu o cargo em janeiro de 2006. Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, seguiu os acordos com o FMI [Fundo Monetário Internacional] por 20 anos consecutivos e sua renda per-capita ao final desde período era mais baixa do que 27 anos antes. E o Equador tem atingido saudáveis 4,5% de crescimento durante os dois primeiros anos da presidência de Correa. O artigo é de Mark Weisbrot, do The Guardian.
De acordo com a sabedoria convencional transmitida diariamente na imprensa econômica, os países em desenvolvimento deveriam se desdobrar para agradar as corporações multinacionais, seguir a política macroeconômica neoliberal e fazer o máximo para atingir um grau de investimento elevado e, assim, atrair capital estrangeiro.Adivinhem qual país das Américas deve atingir o crescimento econômico mais rápido nesse ano? A Bolívia.

O primeiro presidente indígena do país, Evo Morales, foi eleito em 2005 e assumiu o cargo em janeiro de 2006. Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, seguiu os acordos com o FMI [Fundo Monetário Internacional] por 20 anos consecutivos e sua renda per-capita ao final desde período era mais baixa do que 27 anos antes.Evo descartou o FMI apenas três meses depois de assumir a presidência e então nacionalizou a indústria de hidrocarbonetos (especialmente gás natural).

Não é preciso dizer que isso não agradou a comunidade corporativa internacional. Também foi mal vista a decisão do país de se retirar do painel de arbitragem internacional do Banco Mundial em maio de 2007, cujas decisões tinham tendência a favorecer as corporações internacionais em detrimento dos governos.A nacionalização e os crescentes lucros advindos dos royalties dos hidrocarbonetos, no entanto, têm rendido ao governo boliviano bilhões de dólares em receita adicional (o PIB total da Bolívia é de apenas 16,6 bilhões de dólares, para uma população de 10 milhões de habitantes).

Essas rendas têm sido úteis para a promoção do desenvolvimento pelo governo, e especialmente para manter o crescimento durante a crise. O investimento público cresceu de 6,3% do PIB em 2005 para 10,5% em 2009.O crescimento da Bolívia em meio à crise mundial é ainda mais notável, já que o país foi atingido em cheio pela queda de seus preços dos produtos de exportação mais importantes – gás natural e minerais – e também por uma perda de espaço no mercado estadunidense. A administração Bush cortou as preferências comerciais da Bolívia, que eram concedidas dentro do Pacto Andino de Promoção do Comércio e Erradicação das Drogas [ATPDA, na sigla em inglês], supostamente para punir a Bolívia por sua insuficiente cooperação na “guerra contra as drogas”.

Na realidade, foi muito mais complicado: a Bolívia expulsou o embaixador estadunidense por causa de evidências do apoio dado pelo governo estadunidense à oposição ao governo de Morales; a revogação do ATPDA aconteceu logo em seguida. De qualquer maneira, a administração Obama ainda não mudou com relação à política da administração Bush para a Bolívia. Mas a Bolívia já provou que pode se virar muito bem sem a cooperação de Washington.

O presidente de esquerda do Equador, Rafael Correa, é um economista que, muito antes de ser eleito em dezembro de 2006, entendeu e escreveu a respeito das limitações do dogma econômico neoliberal. Ele tomou posse em 2007 e estabeleceu um tribunal internacional para examinar a legitimidade da dívida do país. Em novembro de 2008 a comissão constatou que parte da dívida não foi legalmente contratada, e em dezembro Correa anunciou que o governo não pagaria cerca de 3,2 bilhões de dólares da sua dívida internacional.

Ele foi tiranizado na imprensa econômica, mas a operação foi bem sucedida. O Equador cancelou um terço da sua dívida externa declarando moratória e reembolsando os credores a uma taxa de 35 centavos por dólar. A avaliação para o crédito internacional do país continua baixa, mas não mais do que antes da eleição de Correa, e até subiu um pouco depois que a operação foi completada.O governo de Correa também causou a fúria dos investidores estrangeiros ao renegociar seus acordos com empresas estrangeiras de petróleo para captar uma parte maior dos lucros com a alta dos preços do petróleo. E Correa resistiu à pressão feita pela petrolífera Chevron e seus poderosos aliados em Washington para retirar seu apoio a um processo contra a empresa por supostamente poluir águas subterrâneas, com danos que poderiam exceder 27 bilhões de dólares.

Como o Equador está se saindo? O crescimento tem atingido saudáveis 4,5% durante os dois primeiros anos da presidência de Correa. E o governo tem garantido a redistribuição da renda: gastos com saúde em relação ao PIB dobraram e gastos sociais em geral têm sido expandidos consideravelmente de 4,5% para 8,3% do PIB em dois anos. Isso inclui a duplicação do programa de transferência de renda às famílias pobres, um aumento de 474 milhões de dólares em despesas de habitação, e outros programas para famílias de baixa renda.

O Equador foi atingido fortemente por uma queda de 77% no preço das suas exportações de petróleo de junho de 2008 até fevereiro de 2009, assim como pelo declínio das remessas de capital provenientes do exterior. Apesar disso, o país superou as adversidades muito bem. Outras políticas heterodoxas, juntamente com a moratória da dívida externa, têm ajudado o Equador a estimular sua economia sem esgotar suas reservas.A moeda do Equador é o dólar estadunidense, o que descarta a possibilidade de políticas cambiais e monetárias para esforços contra-cíclicos numa recessão – uma deficiência relevante. Em vez disso, o Equador foi capaz de fazer acordos com a China para um pagamento adiantado de 1 bilhão de dólares por petróleo e mais 1 bilhão de empréstimo.

O governo também começou a exigir dos bancos equatorianos que repatriassem algumas de suas reservas mantidas no exterior, esperando trazer de volta 1,2 bilhões e tem começado a repatriar 2,5 bilhões das reservas estrangeiras do banco central para financiar outro grande pacote de estímulo econômico.O crescimento do Equador provavelmente será de 1% esse ano, o que é muito bom em relação à maior parte de seu hemisfério. O México, por exemplo, no outro lado do espectro, tem projetado um declínio de 7,5% no seu PIB em 2009.A maior parte dos relatórios e até análises quase-acadêmicas da Bolívia e do Equador dizem que eles são vítimas de governos populistas, socialistas e “anti-americanos” – alinhados com a Venezuela de Hugo Chávez e Cuba, é claro – e estão no caminho da ruína.

É claro que ambos os países ainda têm muitos desafios pela frente, dos quais o mais importante será a implementação de estratégias econômicas que diversifiquem e desenvolvam suas economias no longo prazo. Mas eles começaram bem, dedicando à ordem econômica e política externa convencionais – na Europa e nos Estados Unidos – o respeito que ela merece.

Tradução: Raquel Tebaldi/Correio Internacional

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Política externa dos EUA recicla sua agressividade na América Latina

Por Pietro Alarcón
Os enfoques críticos, do ponto de vista jurídico e político, sobre as graves conseqüências para a criação de um ambiente de paz e segurança na América Latina que seriam ocasionadas com a instalação de bases ou instalações militares em território colombiano pelos Estados Unidos não somente são inteiramente válidos como convocam reflexões de maior fôlego, em particular sobre o reconhecimento da etapa que atravessa o projeto de consolidação pós-guerra fria de um sistema internacional de poder sob a potência americana e, ainda, da situação da unidade continental.
A relação centro-periferia e o caráter da Pax Americana - que como aponta Pinheiro Guimarães em seus ‘Quinhentos Anos de Periferia’ é substancialmente diferente do projeto imperial Romano ou Britânico, porque não visa o bem-estar das províncias, senão a consolidação de um projeto hegemônico concebido militarmente - constitui um elemento claramente identificável na relação entre a Colômbia (de regime político que assegura, sob a presidência de Uribe, os interesses americanos na região) e a política externa americana.
Para aqueles que ainda têm constrangimentos em expressar com clareza que embora o governo Obama seja mais habilidoso e menos antipático que o imediatamente anterior - no que ajuda uma campanha expansiva de marketing e produção de informações em nome da defesa de valores universais indiscutíveis como o não ao racismo e o respeito pelas minorias para a recuperação urgente da legitimidade americana – estamos a falar do governo de uma potência que se auto-afirma pelo poderio militar. Esta parece ser uma demonstração clara de que os Estados Unidos não renunciam a projetar poder e lutar em defesa de seus interesses vitais caso a política de coibição fracasse sobre a base da concentração de forças.
Isso, como logo após será dito, não tem nada a ver, por exemplo, com o combate ao narcotráfico. Os Estados Unidos não precisam de desculpas, além da sua vocação agressiva, para instalar mais umas das suas 862 bases militares que espalharam pelo mundo. Resulta cômico como alguns articulistas de grandes meios de comunicação evitam utilizar expressões como imperialismo, política de poder, grandes potências ou equilíbrio de poder ao tecer análises sobre o tema das bases militares, quando a própria Condoleezza Rice – livre de toda e qualquer suspeita de guinadas à esquerda - em artigo publicado na Foreign Affairs em fevereiro de 2000, as utilizava com absoluta tranqüilidade para justificar que a busca do interesse nacional dos Estados Unidos conduziria o mundo à prosperidade e à democracia.
Para os Estados Unidos, como afirma Malcolm Sylvers, a segurança depende da sua força militar e econômica, e do uso da primeira e da situação da segunda depende a paz no mundo (Os Estados Unidos entre Domínio e Declínio, Campo das Letras, 2000).
E poder fazer a diferença e assumir sua condição hegemônica requer muito mais que leis de mercado ou controle econômico; implica também uma supra-estrutura política, jurídica e militar, com suporte em compromissos de governos aliados a essa proposta, tratados internacionais e, obviamente, bases militares.
No caso concreto, embora exista uma singularidade com relação à Colômbia, que vem desde o anúncio do Plano que leva o nome do país - Plano Colômbia, logo transformado em Iniciativa Regional Andina – o processo de reincorporação das áreas da América Latina consideradas fora da sua esfera de influência às estruturas do sistema internacional de poder sob a liderança americana sinaliza uma projeção militar ao eixo Caribe-Andes-Amazônia.
No plano civil, por assim dizer, os Estados Unidos apostam que os governos com projetos substancial ou medianamente diferentes de seus interesses nacionais sejam um parêntese. É dizer, programam o apoio a candidaturas para as primeiras magistraturas dos Estados - nos anos 2010 e subseqüentes - de forte compromisso com a renovação de laços muito estreitos em função dos valores americanos, sobre a base de um livre comércio favorável e um sistema financeiro ainda mais lucrativo.
Por essa via, apostam numa derrota de projetos populares que desmoralize a cidadania e converta as possibilidades democráticas nisso, em meras possibilidades. É dizer, atuam de modo decisivo para que projetos que se iniciaram não se consolidem, naufraguem em contradições internas e gerem conflitos nacionais.
De maneira que a reativação da Quarta Frota e estes exercícios militares não podem ser, como vêm apresentando vários meios de comunicação nacionais e internacionais, trivializados sob a ótica de que são naturais, ou de que se trata de mais uma tentativa de combate ao narcotráfico como proclamou o general e assessor da Casa Branca Jim Jones.
A reflexão do Banco Mundial sobre o conflito colombiano explica e muito a estratégia dos Estados Unidos. Parte-se da base de que na Colômbia existe um problema de governabilidade, que é solucionável militarmente, posto que, nesse raciocínio, a insurgência colombiana está debilitada militarmente e sua periculosidade deriva da sua capacidade de se rearmar contando com o autofinanciamento obtido do narcotráfico.
Historicamente tem-se discutido e levado a cabo duas tentativas de por fim ao conflito colombiano: o militar e a solução política. A saída militar tem sido sempre um fracasso. A solução política nunca madurou pela ação dos que em alguma época foram chamados por um Conselheiro para a paz na década de 80, como os inimigos entocados da paz. Essa solução política é perfeitamente possível, na medida em que se eliminem as causas reais da violência, se implementem reformais sociais e se abram horizontes à democracia garantindo o exercício do direito de oposição e à atividade do movimento social.
O problema do narcotráfico, como vários estudos comprovaram, não se resolve com presença militar no lugar onde se concentram apenas o 2% do altíssimo lucro que produz o negócio dos narcóticos. Isso significa, entretanto, mais fumigações e sofrimento para o povo colombiano. Enquanto isso, sob a premissa de combate, se deixam intactos os círculos financeiros nos quais circulam os narcodólares e intocados os paraísos fiscais e a lavagem de divisas, como já foi anotado por especialistas no tema.
Evidencia-se, destarte, que a política externa dos Estados Unidos reafirma, no âmbito de uma multipolaridade anunciada, mas contraditória e de difícil previsão, sua agressividade. Para tanto se coloca como força de expansão. Uma força autônoma de controle dirigida à região onde devem assegurar o predomínio da sua lógica econômica, comercial e financeira, ao tempo que se obstaculiza que os Estados da periferia possam desenvolver ligações entre si ou ligações com outras potências ou grandes Estados periféricos.
Finalmente, um dos elementos mais constantes na história das relações internacionais desde e para os Estados Unidos é procurar que os aliados internacionais partilhem os custos da sua política. O governo colombiano não foi à reunião da Unasul em Quito, que começou nesta segunda feira (11/08).
O custo político para o governo colombiano é extremamente elevado, ainda que alguns analistas pretendam baixar o tom dizendo que é um problema de relações públicas. Expressam que tudo se resolveria de início se o governo colombiano tivesse usado expressão diversa à de bases militares. Essa postura, em termos políticos e diplomáticos, que prioriza a forma à substância, é tão absurda como pretender ocultar o sol com as mãos. Na Colômbia costumamos dizer que é muito complicado logo que um elefante faz um estrago em uma loja de cristais que o porteiro da loja diga que não viu o elefante ingressar nela.
A preocupação com a sorte da paz é mais do que razoável. Não é possível duvidar, após conhecer a lógica dos impérios, da importância das bases em território colombiano para o projeto americano. A Colômbia foi enquadrada no projeto. Kissinger apontava há algum tempo o que parece previsível: "Os Estados Unidos, para evitar a hecatombe das forças locais nas quais terão investido seu próprio prestígio e tesouro, serão levados a tomar o terreno por si mesmos". (Does America Needs na Foreing Policy? El Espectador-Colombia. Junho de 2001. P.8) ) Explicava dessa maneira as etapas de trabalho militar americano em solos estrangeiros.
É importante acompanhar o desenlace das negociações e a reunião da Unasul, de maneira que a situação, que se torna excepcionalmente perigosa para a paz e a segurança, seja debatida em círculos amplos da opinião pública, e não nos cenários restritos da diplomacia ou da academia. Mais importante ainda é refletir com responsabilidade sobre o princípio da não ingerência, sobre o qual se erige todo o direito nacional e internacional e qualquer raciocínio no campo da política e da economia da sociedade de Estados. E é ainda mais fundamental a mobilização consciente pela paz e contra qualquer perspectiva de maior militarização da América Latina.
Pietro Alarcón é professor da PUC/SP, assessor do convênio Cáritas-ACNUR para refugiados e membro da CEBRAPAZ.
Texto Original Publicado em: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3617/9/

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Brasil terá outra base para lançar foguetes

Antes concentrado em Alcântara, no Maranhão, um local privilegiado para o lançamento de foguetes devido a sua posição privilegiada em relação à linha do Equador, parte do programa espacial brasileiro será transferido para o litoral do Ceará, em região nas proximidades do porto de Pecém.
O assunto será discutido na quarta-feira em reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com ministérios, empresas e agências responsáveis pelo programa espacial.
A divisão tornou-se inevitável depois que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) baixou uma portaria decretando como área quilombola 78 mil hectares dos 114 mil hectares que constituem a península de Alcântara.
O município deveria abrigar o Complexo Espacial Brasileiro (CEB) - seriam quatro centros de lançamento de foguetes, três em convênios com outros países e um inteiramente nacional, o Veículo Lançador de Satélites (VLS), que é desenvolvido pela Aeronáutica.
Também seriam construídos hotéis e clubes a fim de atrair para Alcântara extensões universitárias inteiramente voltadas para a tecnologia espacial.
Devido à crise financeira mundial, o governo botou o pé no freio do complexo espacial (antes chamado de centro), mas seguiu adiante com o VLS e com o acordo firmado com a Ucrânia para o lançamento da quarta geração do foguete Cyclone a partir de Alcântara.
Devido ao conflito com os quilombolas, a Alcântara Cyclone Space (ACS) teve de se transferir para dentro da área onde a Aeronáutica desenvolve o VLS.
O programa não será afetado e o gestor brasileiro da empresa binacional, Roberto Amaral, diz que o lançamento teste ocorrerá entre outubro e novembro de 2010 - no início, a previsão era julho.
Sem área para ampliação, as autoridades brasileiras decidiram construir o CEB no litoral do Nordeste. Embora digam que ainda estudam sítios na região, o local escolhido fica no entorno do porto de Pecém, no Ceará.
Em relação a Alcântara, o local tem a vantagem de permitir uma redução nos investimentos necessários à implantação do complexo. Em Alcântara, por exemplo, será necessário construir um porto e uma estrada de 51 quilômetros, infraestrutura que já existe em Pecém. Além disso, a região é próxima de Fortaleza, tem um centro universitário em Sobral, ou seja, boa parte da infraestrutura que teria de ser feita no Maranhão.
Além disso, Pecém também dispõe de uma localização privilegiada para o lançamento de veículos com satélites: está a 3,2 graus em relação à linha do Equador, enquanto a base francesa de Kourou, na Guiana, o centro mais bem localizado do mundo para esses lançamentos, está a 5,2 graus da linha do Equador.
Mas imbatível mesmo é Alcântara - está a 2,2 graus, o que significa enorme vantagem competitiva: cada lançamento feito a partir da ilha maranhense pode custar até 30% menos que de outras bases instaladas por todo o mundo, principalmente devido à economia de combustível.
A região de Pecém conta também com a vantagem de ser próxima ao mar, assim como Alcântara.
Isso é importante porque permite a liberação de estágios - ou até destroços - do foguete com a segurança de que eles não cairão em áreas habitadas na terra. “Ainda mantemos a vantagem comparativa com relação a Kourou”, disse ao Valor um dos dirigentes do programa espacial brasileiro.
Não é raro um país ter mais de um centro de lançamento de foguetes localizados em regiões diferentes. O programa com a Ucrânia, em Alcântara, deve custar US 400 milhões, até o lançamento do foguete de qualificação (o primeiro). Mas o CEB, no litoral nordestino, vai requerer um investimento muito maior, ainda guardado em segredo pelas autoridades, mesmo que boa parte das obras de infraestrutura previstas para Alcântara não sejam mais necessárias.
O conflito com os quilombolas deve entrar na pauta da reunião de quarta-feira.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, deve pedir uma extensão do sítio de 9,2 mil hectares no qual estão agora abrigados a ACS e o programa do VLS da Aeronáutica. Quem decretou a área quilombola foi o Incra, que conta com o apoio da Secretaria da Igualdade Racial para a decisão. Defesa e o Ministério da Ciência e Tecnologia foram contrários à extensão decretada.
Além da questão dos quilombolas, Lula ouvirá um relato das conversas que o presidente da ACS, Roberto Amaral, manteve em viagem recente à Ucrânia.
A principal novidade a ser contada por Amaral é que a indústria brasileira, pelos entendimentos feitos com os ucranianos, também vai participar da fabricação do foguete Cyclone 4 - uma evolução do Cyclone 3, já em uso para colocar satélites em órbita.
A industria brasileira deve participar da fabricação de equipamentos, inclusive componentes do motor do foguete.
Pecém, no entanto, deve ser obra para o próximo governo. No momento, a prioridade é lançar o foguete ucraniano Cyclone 4, nas proximidades da eleição de outubro do próximo ano.
Texto original encontra-se em:
http://www.koinonia.org.br/oq/noticias_detalhes.asp?cod_noticia=5896&tit=Notícias

EUA cogitam instalar base militar no Recife


Por Bernardo Joffily; colaborou Ronaldo Carmona
Fonte: vermelho.org.br

A Força Aérea do Pentágono ambiciona instalar uma base na costa do Nordeste brasileiro, perto do Recife, embora julgue difícil consegui-la devido ao "relacionamento político com o Brasil".
A notícia veio à luz na esteira do anúncio da criação de três bases militares na Colômbia.

O plano da base na capital pernambucana consta de um documento do Air Mobility Command (Comando Aéreo de Mobilidade) sobre estratégias de transporte militar.

Fonte: 'Global en route strategy', Air Mobility Command O Air Mobility Command (AMC), sediado em Illinois, é um dos Comandos-Maiores da Força Aérea Americana (Usaf).

A aeronáutica é arma prioritária dos esforços de guerra do Pentágono desde a Guerra do Vietnã. O documento está no site da Universidade do Ar da Usaf. A especulação sobre uma base no Recife reacende um antigo interesse americano pelo papel estratégico do Nordeste brasileiro, que avança como uma cunha, dominando o Atlântico Sul.

"Zonas de Interesse" na "Guerra Global"

O texto traz a data de 4 de março de 2009, já na administração Barack Obama; mas considera que desde o 11 de Setembro de 2001 os Estados Unidos estão em "Guerra Global Contra o Terror" (chamada, familiarmente, pela sigla em inglês, Gwot) e trabalha com a Estratégia de Segurança Nacional elaborada pelo governo George W. Bush. Seu foco é um plano estratégico de mobilidade militar aérea, que cobre todo o planeta e tem abrangência té 2005.
Segundo o Comando Aéreo, as "zonas de hostilidade ou instabilidade" no mundo, que constituem "Zonas de Interesse" do Pentágono são: Oriente Médio, Sudeste Asiático, Coreia, África, Eurásia e Indonésia. Veja a figura 1, reproduzida do documento Global en route strategy, do Air Mobility Command.

Problemas no no flanco sul-atlântico
Todas as zonas citadas ficam distantes do Brasil. Mas logo se verá que, na cabeça dos generais americanos, as rotas até elas podem passar, por exemplo, pelo Aeroporto Internacional do Recife.
Os estrategistas do Comando Aéreo trabalham com duas rotas de acesso às "Zonas de Interesse", pelos oceanos Atlântico e Pacífico. A primeira delas tem à sua disposição, ao norte e ao centro, as numerosas bases da Otan na Europa. O texto elogia em especial as virtudes "únicas" da Base Naval de Sigonella, na Sicília.
Mas a variante sul tem problemas: conta apenas com a base anglo-americana na minúscula Ilha de Ascensão (900 habitantes), no Atlântico Sul, e a base de Camp Lemonier, no Djibuti, pequeno país de meio milhão de habitantes no nordeste africano, às margens do Mar Vermelho, única infraestrutura permanente que o documento adota em todo o Continente Negro.
A dificuldade no flanco sul-atlântico conflita com o "novo paradigma" de guerra aérea ("não linear e não contíguo", ao contrário da Guerra Fria), que "aparentemente será muito mais exigente em mobilidade aérea para deslocamentos, abastecimento e manutenção".
Conforme o documento, o avião prioritário para essa função será o C17 Globemaster. Este tem raio de ação de 3.700 quilômetros, ou 6.500 km numa viagem "ponto a ponto" (sem precisar retornar à mesma base). Isto permite alcançar a maior parte do mundo, a partir do território dos EUA, com exceção d
Negrito
a parte sul da Ásia, da Oceania e do sul-sudeste da África [figura 1]. É onde a América do Sul entra no documenro da Usaf.

Queixa sobre "relação política com o Brasil"
"Incluir a América do Sul em uma estratégia de rotas globais cumpre dois objetivos: ajuda a efetivar a estratégia de engajamento da região e auxilia na mobilidade da rota para a África. Infelizmente, uma estratégia de engajamento sul-americano que inclua facilidades aeroportuárias não está disponível", lamenta o documento.
O Air Mobility Command refere-se à base de Palanquero (uma das três cedidas dias atrás pelo governo colombiano de Alvaro Uribe) como uma "locação de segurança cooperativa". Destaca que a partir dela "cerca da metade da América do Sul pode ser coberta por um C17 sem necessidade de reabastecimento". Agrega que "com reabastecimento de combustível disponível no destino, um C17 pode cobrir toda a América do Sul, exceto a região do extremo sul do Chile e Argentina".
Também são citadas as bases já existentes em Porto Rico e nas Ilhas Virgens, no Caribe. Ambas não dependem de acordos internacionais, pois trata-se de territórios sob controle dos EUA.
Surge então o problema: nenhuma delas permite que os C17 chegue à base de Ascenção, porta de entrada para a África. "O Comando Sul dos EUA, na tentativa de obter acesso à África, colocou que Caiena, na Guiana Francesa, poderia servir como uma possível base. O Comando também considerou o acesso ao Aeroporto do Recife, Brasil", diz o documento.
"No entanto, a relação política com o Brasil não tende aos necessários acordos", diz o texto. Queixa-se ainda de que a distância entre o Recife e a grande base aérea americana de Charleston, na Carolina do Sul, chega a 7.600 km, fora do alcance dos C17, o que exigiria outra escala.

O precedente da Base de Natal
A ducha fria sobre a "relação política com o Brasil" não leva o Air Mobility Command a descartar a "hipótese". O último capítulo do texto, Chaves do sucesso, diz que "uma estratégia de engajamento diplomático de longo alcance é necessária para garantir a habilidade de perseguir esta estratégia". E volta a citar a América do Sul, aventando o possível uso de aeroportos comerciais da região por aviões da Usaf.
"Finalmente, a estratégia não pode ser estática", adverte ainda o documento. Recomenda a respeito que o Air Mobility Command promova a cada dois anos "uma ampla revisão" da temática, optando entre prossegui-la, introduzir ajustes ou modificá-la por completo.
Caso a hipotética base americana no Recife viesse a se instalar, não seria a primeira. Os EUA já tiveram uma base aérea, em Natal (RN), motivados pela mesma condição nordestina de cunha do Atlântico Sul, embora com curta duração.
A base foi implantada em 1942, como parte das operações da 2ª Guerra Mundial, em que os EUA e o Brasil compuseram o bloco dos Aliados contra o Eixo nazifascista. A base foi partilhada entre a FAB e a Usaf, que operava o seu setor leste. Além das missões de patrulha no Atlântico Sul, os americanos montaram através dela uma verdadeira ponte-aérea para o norte da África, a fim de abastecer as tropas aliadas.
Quando a 2ª Guerra acabou, o Pentágono bem que tentou permanecer em Natal. Mas a aliança antinazista cedera lugar à Guerra Fria e os brasileiros logo mudaram de opinião sobre a base. Os militares americanos reclamavam que eram hostilizados em brigas de rua (o que ocorria também no Rio, quando aportavam navios de guerra dos EUA), sutilmente estimuladas pelos comunistas e outras forças incomodadas por aquela presença militar estrangeira em tempo de paz. Meses depois a Usaf se foi e toda a base passou a pertencer à FAB.
Outro episódio, mais recente (embora apenas indiretamente ligado a esforços de guerra), envolveu a base brasileira de Alcântara, no Maranhão. O governo Fernando Henrique Cardoso havia proposto o uso da base por foguetes americanos e a proposta já tramitava no Congresso. A retirada do texto do acordo foi uma das primeiras medidas de política externa do governo Lula, em abril de 2003.

Texto: Por Bernardo Joffily; colaborou Ronaldo Carmona Postado em 06/08/2009
O Texto original encontra-se em:
http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=1bf2efbbe0c49b9f567c2e40f645279a&cod=4619