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sábado, 22 de outubro de 2011

KADAFFI E FILHO SÃO EXECUTADOS SUMARIAMENTE

APÓS AVIÕES DA OTAN BOMBARDEAREM UM LINHA DE VEÍCULOS EM FUGA QUE NÃO TRAZIA QUALQUER PERIGO BÉLICO OS CHAMADOS REBELDES LÍBIOS PRENDERAM E MATARAM NA QUINTA-FEIRA PASSADA, 20/10/11, SUMARIAMENTE KADAFFI E SEU FILHO MUTASSIM.

UMA "REVOLUÇÃO" CONDUZIDA PELA OTAN QUE RECEBEU MANDADO DA ONU PARA PROTEGER CIVIS MAS QUE AGIU COMO FORÇA AÉREA DOS COMBATENTES ANTI KADAFFI, REBELDES ESTES QUE AGORA DISPUTAM O CORPO INSEPULTO DE PAI E FILHO COMO TROFÉUS DE GUERRA, ENQUANTO A LÍBIA CAMINHA PARA O CAOS E SUPERVENÊNCIA AO IMPERIALISMO EUROPEU E ESTADUNIDENSE.
 
 
FONTE: http://www.azulmarinhocompequi.com

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Líbia: revolução ou golpe do imperialismo?

Escrito por Américo Astuto, ILAESE 
A derrubada de Kadafi transformou-se em mais um divisor de águas na esquerda mundial. Para isso contribui a localização dos distintos setores da esquerda no processo revolucionário contra a ditadura e também a forma em que se deu a queda. É inegável que existiu um processo contraditório, uma combinação entre uma rebelião popular e uma intervenção militar da OTAN.
 
A natureza, a vida humana, as sociedades e as revoluções são repletas de contradições. Mas existe uma essência em todos os processos que, no caso, é evidenciada na resposta às seguintes perguntas: foi uma vitória das massas ou do imperialismo? A queda de Kadafi foi um avanço ou um retrocesso? A revolução que sacode o conjunto do mundo árabe se fortalece ou enfraquece?
 
Opinamos que ocorreu uma vitória das massas líbias, que derrotaram uma ditadura pró-imperialista de 42 anos de existência. O povo líbio pegou em armas, formou milícias populares e derrotou o pilar do Estado burguês, o exército de Kadafi, algo que não tinha ocorrido até agora nem no Egito nem na Tunísia. A revolução árabe se fortalece e ditaduras como a de Assad na Síria ficam mais ameaçadas.
 
Não subestimamos, porém, as contradições do processo que apresentam profundas ameaças à revolução. O imperialismo, que antes sustentava Kadafi, passou à oposição quando a revolução explodiu. Já com a guerra civil em curso, buscou uma negociação com Kadafi, que não vingou. Até que decidiu derrubá-lo, tendo peso importante nas batalhas militares. Agora tem um peso concentrado no Conselho Nacional de Transição (CNT), que busca se constituir como o novo governo no país.
 
Isso, em nossa opinião, não muda a essência da vitória das massas. Mas mostra a dinâmica para o próximo período, com um novo governo burguês pró-imperialista tentando se apropriar da vitória das massas e estabilizar um novo Estado. De outro lado estão as massas armadas e organizadas em milícias, sem que exista um exército organizado. Revolução e contrarrevolução enfrentam-se em um novo cenário pós-Kadafi.
 
Falsificações do stalinismo
 
A Líbia é palco de uma revolução que acaba de ter uma vitória de caráter democrático. O imperialismo buscou se relocalizar no processo para frear a revolução, mantendo o controle do petróleo.
 
Mas existiram os que apoiaram diretamente a contrarrevolução, como o castro-chavismo. Tentaram deturpar o que se passava para apresentar Kadafi como um líder anti-imperialista que a OTAN queria derrubar para controlar o petróleo líbio.
 
Mas isso não passa de uma fábula do stalinismo. Pelo menos as novas gerações puderam ter contato com a típica metodologia desta corrente, que falsifica consciente e metodicamente a realidade para defender seus interesses.
 
Kadafi teve um passado nacionalista há mais de 40 anos quando tomou o poder na Líbia e nacionalizou o petróleo. Nos anos 1990 girou à direita, entregando o petróleo líbio para a Shell, British Petroleum, ENI (italiana) e a Total (francesa). Tornou-se parte da grande burguesia e sócio das multinacionais. Possui uma fortuna gigantesca, com 10% das ações da FIAT e 7% do banco italiano Unicredit. Passou a ser um aliado do imperialismo, recebido com festas pelos governos. Agora, são revelados episódios em que a CIA e o serviço de inteligência britânico entregaram opositores a Kadafi para serem torturados e mortos.
 
O castro-chavismo contra a revolução
 
A rebelião contra a ditadura de Kadafi explodiu como parte da revolução árabe. A reação brutal do ditador levou à divisão das Forças Armadas e ao início de uma guerra civil. O imperialismo rearmou-se politicamente contra Kadafi para evitar ser identificado com a ditadura questionada.
 
Os revolucionários de Benghazi conquistaram várias cidades até esbarrarem no poderio bélico de Kadafi, que contava com soldados de elite e mercenários treinados, além de grande poder aéreo, fornecido no passado recente pelo imperialismo. Kadafi chegou a encurralar a oposição em Benghazi e preparava um ataque arrasador.
 
Foi quando entrou em cena a intervenção da OTAN, mudando a relação de forças do conflito. Aproveitando-se da fragilidade da revolução, o imperialismo aprovou uma intervenção militar para reassumir um papel de ponta no processo e disputar sua direção.
 
Mais uma vez fica demonstrado o papel nefasto do castro-chavismo. Se houvessem se posicionado junto à revolução, poderiam não só apoiar seriamente a luta militar, mas disputar a influência política contra o imperialismo.
 
O exemplo de um processo distinto pode ajudar na compreensão deste fenômeno contraditório. Durante as grandes revoluções democráticas que derrubaram ditaduras na América Latina nos anos 1980, o imperialismo também se relocalizou, passando a apoiar essas lutas para poder freá-las. Nem por isso, a esquerda deixou de ser parte dessas revoluções. Era necessário participar delas, inclusive para poder disputar sua direção.
 
Existem grandes diferenças entre aquelas mobilizações e a revolução árabe em curso. As atuais são mais profundas e se transformaram em luta armada. Kadafi teve um passado distinto ao de Videla ou Figueiredo. Mas as diferenças não mudam o essencial: são revoluções democráticas em curso, pois assim como Videla e Figueiredo, Kadafi também se tornou um ditador. E o castro-chavismo ficou do lado das ditaduras questionadas pelas massas, do lado da contrarrevolução.
 
Um recuo vergonhoso
 
As posições do castro-chavismo são bem conhecidas. Mas agora, organizações que se dizem trotskistas estão se somando às do stalinismo. As posições da Fração Trotskista (FT), da qual são parte o PTS (Argentina) e a LER (Brasil) são exemplos disso.
 
Dizem que aconteceu “um triunfo da política das potências imperialistas (…) que levaram adiante uma intervenção militar para garantir que surja um governo ainda mais pró- imperialista que Kadafi". E completam afirmando que “as forças ‘rebeldes’ que tomaram Trípoli atiraram como ‘tropa terrestre’ dos bombardeios da OTAN”.
 
Ou seja, tudo que se passou foi fabricado pelo imperialismo. As milícias populares são simples marionetes da OTAN. A ação das massas que destruíram o exército burguês de Kadafi é desprezada.
 
Confundem o processo revolucionário em curso com a direção pró-imperialista da CNT. Trata-se de um erro catastrófico que os aproxima das posições do stalinismo. Se todo o processo revolucionário deixa de existir e tudo não é mais que obra do imperialismo, trata-se de um retrocesso, e é preciso se opor a ele. Não por acaso dizem que o imperialismo queria um governo "ainda mais entreguista que Kadafi", que seria o "menos ruim". Assim terminam por defender Kadafi.
 
Vejamos como o processo realmente se deu.
 
O cerco a Trípoli
 
Para a tomada de Trípoli os rebeldes conseguiram cortar as rotas rodoviárias de abastecimento, pelo oeste e pelo sul, interrompendo a linha de suprimentos. Tomaram de assalto a praça central de Zawiyah, onde se encontrava o maior foco de resistência das forças do regime. Nesta cidade, a 40 quilômetros da capital, depois de assumirem o controle da refinaria local que fornecia petróleo e gás às forças do regime, cortaram a ligação com a fronteira da Tunísia, de onde as forças governamentais tinham conseguido obter mantimentos durante o conflito. Logo anunciaram o controle de Garyan, ao sul. A partir de Zawiyah, Misrata e Gharyan o cerco foi se apertando.
 
O povo que destruiu Kadafi segue armado
 
A vitória do povo líbio foi expressa pelas imagens dos rebeldes armados, acompanhados pela população faminta e sedenta, quando entraram na capital Trípoli comemorando o que acreditavam ser a ofensiva final de uma guerra civil.
 
Quem liderou as batalhas foram os jovens desempregados, que não têm nada a perder. Portanto, dispostos a se sacrificarem por algo maior que eles mesmos.
 
O avanço da insurgência sobre Trípoli se deu inicialmente através da infiltração de rebeldes a leste da capital. A partir deles houve a sublevação do povo contra o ditador. A população saia às ruas com coquetéis molotov, bombas caseiras e armas. Tomaram o controle do prédio dos serviços de segurança e conseguiram libertar alguns prisioneiros.
 
O apoio popular e o esgotamento das forças militares de Kadafi foram decisivos para a tomada da capital, minando por dentro a resistência do regime.
 
Logo que as massas se insurgiram, a Brigada de Trípoli, estacionada nos arredores da cidade, teve de correr para ajudar os que atacaram, horas antes, sem nenhuma autorização da OTAN.
 
Apesar dos primeiros combates terem ocorrido no leste, o ataque final foi liderado por grupos rebeldes a oeste e finalizado pelos combatentes experientes de Misrata, que chegaram pelo mar, controlaram o banco central, o porto e o gabinete do primeiro-ministro, onde rebatizaram a praça de Praça Misrata com pichações. Os combatentes da cidade de Zintan, das montanhas do oeste, controlaram o aeroporto e os berberes da cidade de Yaffran assumiram o controle da praça central da cidade.
 
Os populares buscaram obter o controle dos hotéis, da base aérea de Mitiga e dos arredores de Bab al Azizia, onde fica o "palácio-bunker" de Kadafi. Somente depois os aviões da OTAN bombardearam o quartel-general de Kadafi e o aeroporto de Maitika.
 
No domingo, os revolucionários chegaram à Praça Verde, no centro de Trípoli. Os jornais noticiam ao menos 1.300 mortes e 500 feridos durante os confrontos. Os rebeldes foram aclamados, com civis correndo junto ao comboio.
 
Desde o início da revolta os rebeldes improvisaram um exército composto majoritariamente por civis armados, de forma precária. Fala-se que somente na capital são mais de 70 grupos armados, vários autônomos. As pichações que usam para marcar seu território contam a história de cada uma deles e, potencializam a crise de liderança.
 
Grande parte do território permanece dividido e controlado por brigadas semi-independentes de diferentes áreas geográficas.
 
Os fantoches do CNT
 
O imperialismo conta com o CNT para garantir que a Líbia respeite todos os acordos fechados com as empresas petrolíferas e as multinacionais. A maioria de seus membros são islamitas americanizados, velhos exilados, que há muito tempo trabalham para os EUA. Seu presidente, Mustafa Abdul-Jalil, ex-ministro da Justiça, é acusado de assinar inúmeras sentenças de morte de opositores ao governo.
 
Junto com ele estão: Ali Abd-al-Aziz al-Isawi, ex-Ministro da Economia, sócio de Seif, filho de Kadafi, em vários negócios; Inyan Merkazi Mahmoud Jebril, que serviu Kadafi no Gabinete Nacional de Desenvolvimento Econômico, onde promoveu a privatização e a liberalização econômica; Ali Suleiman Aujali, ex-embaixador nos EUA que servia a Kadafi e ao imperialismo norte-americano. O plano do imperialismo é bom e tem quadros para implementá-lo.
 
A cúpula contrarrevolucionária de Paris
 
Em 1° de setembro instaurou-se uma cúpula para a “reconstrução” da Líbia, com a presença de países e organizações internacionais em Paris. Mas a reunião se parecia mais com um encontro de piratas, que depois de um ataque querem repartir o botim.
 
Todos têm acordo de que é necessário “pacificar o país”, desarmando a população e os grupos de combatentes. Os dirigentes do CNT prometeram contratos que serão concedidos com base no “mérito", aos países que lhe deram maior apoio, e que terão “recompensas significativas”. França e Grã-Bretanha no topo da fila brilharam os olhos. Com isso as multinacionais do petróleo estarão de volta à Líbia para ressuscitar a produção.
 
Para onde vai à Líbia?
 
A verdadeira intenção do imperialismo é neutralizar o levante do povo líbio o mais rápido possível, normalizar a situação, aparecer como seu aliado e garantir o fluxo de petróleo barato. Sua primeira tática é negociar e enganar. Apresentam-se como autor principal da vitória, numa tentativa de tirá-la das mãos das massas líbias.
 
Querem se fortalecer para assumir o papel de coordenação da polícia que garantirá a segurança. Mas terão que desarmar brigadas como a dos "Mártires de 17 de Fevereiro”, unidade encarregada do policiamento revolucionário.
 
Se nada der certo, resta ainda a intervenção direta para uma ocupação, que inicialmente será apresentada como humanitária. Mas o imperialismo teme como suas tropas serão recebidas. Desta vez, diferente de todas as outras revoluções na região, o povo está armado, e diferente das invasões do Iraque e do Afeganistão, a população sente-se vitoriosa por ter derrubado a ditadura. A derrota de um ditador pró-imperialista no mundo árabe será mais um impulso à revolução. Os que lutam na Síria, Iêmen e Bahrein verão que a vitória é possível.
 
Com Kadafi fora de cena, abrem-se duas perspectivas ao país. Continuar com um governo pró-imperialista, ou avançar a revolução, superando a atual direção do Conselho e expulsando a OTAN do país para tornar a Líbia de fato independente.
 
Para isso não pode depositar a mínima confiança no governo da CNT, que não foi eleito por ninguém. O CNT é um organismo burguês-imperialista que buscará recompor o regime político e as Forças Armadas.
 
Nem governo do CNT nem intervenção imperialista. Defendemos a manutenção dos Comitês Populares armados, que devem tomar o poder em suas mãos. O povo armado é quem deve governar a Líbia e aprofundar a revolução.
 
Todas as propriedades e as fortunas de Kadafi e os bens congelados no exterior devem ser confiscados e colocados sob o controle destes comitês. Assim como devem punir sem misericórdia Kadafi e seus sócios. Todos os contratos feitos por ele com o imperialismo, particularmente os da indústria do petróleo devem ser suspensos. Por fim, a indústria petroleira deve ser nacionalizada e colocada sob controle dos operários e do povo, para atender às enormes necessidades das massas líbias.
  ·         Viva a revolução do povo líbio!
·         Viva a revolução árabe!
·         Fora o imperialismo da Líbia!
  Fonte: Jornal Opinião Socialista no. 431

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Líbia: O Clube dos Abutres de Paris e a guerra de emancipação nacional



por Carlos Aznárez

. Não faltou nenhum dos convidados na foto de família promovida em Paris pelo presidente Sarkozy. Sorridentes, como se se tratasse de algum festejo, ostentando seus fatos e gravatas de marca, ali posaram desde o inefável secretário da ONU, Ban Ki Moon, até representantes de 73 países, dentre os quais não faltavam as senhoras Clinton e Merkel, até representantes da Rússia e da China, que tão pouco podiam perder o acontecimento. Não é preciso dizer que também um delegado de alto nível do Brasil e outro da Colômbia, em nome da América Latina cativa nas relações carnais com o Império e, é claro, os assimilados da União Africana, com a honrosa excepção da África do Sul, e os obsequiosos serviçais de uma Liga que se faz chamar de Árabe e que sempre tripudia contra os povos desse imenso território que outrora Gamal Abdel Nasser sonhou unir.

O acontecimento que convocava para aquilo que denominaram Clube de Amigos da Líbia era muito especial:   repartirem as enormes riquezas do território da Líbia que os seus aviões bombardearam durante mais de 120 dias, destruindo habitações, infraestrutura, escolas, universidades, hospitais e todo ser humano vivo que se lhes cruzasse no caminho. Cinquenta mil corpos queimados por bombas de fósforo e urânio empobrecido, dizem os números mais optimistas. Cinquenta mil inocentes arrasados pela cobiça dos "salvadores e defensores dos direitos humanos", só pelo facto de serem líbios e recusarem qualquer ataque à sua soberania como povo.

Em Paris estavam todos os que desfilam pelo mundo como pregadores da "paz", enquanto mobilizam seus mísseis nos aviões de uma nova Cruzada. Na realidade, o que foi gestado pelo novo "Bush europeu", Sarkozy, assemelha mais a um Clube de Abutres Carniceiros. Diante da carniça da destruição de toda a infraestrutura de uma nação, até ontem independente, eles afiavam suas garras para ficarem com os melhores nacos. Nesse âmbito, a revelação oportuna do diário francês Libération esclarecia porque o presidente francês se havia apressado a reconhecer o governo títere do Conselho Nacional de Transição, por volta de meados de Março deste ano, quando os mercenários de Bengazi (esses a que o jornalista Walter Martinez jocosamente qualificou com acerto como "o exército de Brancaleone") entretinham-se a fazer corridas de um lado para outro com veículos artilhados e desperdiçavam balas por toda a parte.

A parte do bolo que o CNT prometeu à França (o petróleo bruto que o solo líbio proporciona tão generosamente) era mais que tentadora e oscilava nos 35% da exploração total. Ao que certamente se somará uma percentagem semelhante do que se obtiver do ouro, outra das inúmeras riquezas do país invadido.

Sarkozy desmentiu timidamente o Libération, mas seus sócios já conhecem este tipo de manhas uma vez que as utilizam habitualmente.

Contudo, o positivo desta jornada de repartição de lucros com base na morte de milhares de líbios é que já não escondem suas tropelias – fazem-no publicamente à luz do dia e com taquígrafos. São a cara mais descarada da ingerência estrangeira num país. Bombardeiam, matam, roubam, distribuem o botim e se a situação obriga, brigam entre si por uma percentagem a mais ou a menos. Essa forma de actuar esclarece os leitores inteligentes que não estejam sob os efeitos do clorofórmio da quase totalidade dos mass media, que como sempre impuseram o discurso único sobre o "assunto Líbia". Esses media que falam de "regime de ditadura" ou de "crimes" quando se referem a Kadafi e não mostram o menor recato em considerar o ultra-milionário emir do Qatar ou numerosos dos integrantes do CNT que até ontem eram acusados de serem "terroristas".

Assim estão as coisas nesta Nova Ordem Europeia construída a poder de bombas. Ela por um lado demonstra a debilidade do império norte-americano e do seu presidente, que pela primeira vez em muitos anos teve de delegar a execução de uma agressão belicista e espoliadora nos seus colegas europeus, em consequência da imensa crise económica na qual estão imersos os Estados Unidos. E, por outro lado, assinala claramente que no seu afã de restabelecerem suas economias que caem a pique, os países que integram a Europa do Capital estão dispostos não só a saquear a Líbia como, no dizer do imperador Sarkozy e seu aliados, já pensam na Síria (à qual a UE bloqueou as vendas de petróleo) e no Irão, país a que acusam de "provável agressor nuclear" (Sarkozy dixit).

INVASÃO + MORTE = DEPENDÊNCIA

Neste quadro de interesses nauseabundos, há um factor que o império ocidental deverá ter em conta: os povos já não estão a dormir o sono dos justos, despertaram e querem terminar com esta equação de invasão mais morte igual a dependência. Aí está a experiência do povo egípcio ou o de Tunes e o do Iémen, mas também, como se verificou no Iraque invadido, muito em breve, talvez neste mesmo instante, ouviremos o rugir de dignidade da resistência líbia. Não só por Kadafi convocar seus seguidores para guerrear e dar aos invasores o que merecem, mas porque é a lei da vida: país invadido por forças militares colonialistas e por mercenários, convoca seus homens e mulheres a travarem novas batalhas, não só de auto-defesa como de emancipação nacional.

No plano internacional, onde não cabem só os que foram a Paris ao beija-mão de Sarkozy, restam muitos autênticos amigos do povo líbio, como a Venezuela, Cuba – que acaba de encerrar sua embaixada e desconhece o CNT –, Nicarágua, Equador, Bolívia e todos aqueles que recusam a NATO e seus sequazes.

Neste sentido, não há dúvida de que ainda não foi dita a última palavra sobre a Líbia.
O original encontra-se em Resumen Latinoamericano

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

É a OTAN que está à conquista de Tripoli




por Manlio Dinucci

Uma foto publicada pelo New York Times conta, mais do que muitas palavras, o que está em vias de acontecer na Líbia: ela mostra o corpo carbonizado de um soldado do exército governamental, ao lado dos restos de um veículo queimado, com três rebeldes em torno que o olham com curiosidade. São eles que testemunham que o soldado foi morto por um raid da OTAN. Em menos de cinco meses, informa o Comando conjunto aliado de Nápoles, a OTAN efectuou mais de 20 mil raids aéreos, dos quais 8 mil com ataques por bombas e mísseis. Esta acção, declaram ao New York Times altos funcionários estado-unidenses e da OTAN, foi decisiva para apertar o cerco em torno de Tripoli.

Os ataques tornaram-se cada vez mais precisos, destruindo as infraestruturas líbias e impedindo assim o comando de Tripoli de controlar e aprovisionar suas forças. Aos caça-bombardeiros que lançam bombas guiadas por laser de uma tonelada, cujas cabeças penetrantes com urânio empobrecido e tungsténio podem destruir edifícios reforçados, juntaram-se os helicópteros de combate, dotados de sistemas dos sistemas de armamentos mais modernos. Dentre eles, o míssil guiado por laser Hellfire, que é lançado a 8 quilómetros do objectivo, utilizado também na Líbia pelos aviões telecomandados estado-unidenses Predator / Reaper.

Os objectivos são localizados não só pelos aviões radar Awacs, que decolam de Trapani (costa Sudoeste da Sicília) e pelos Predator italianos que decolam de Amendola (Foggia, província de Puglia), sobrevoando a Líbia 24/24 horas. Eles também são assinalado – indicam ao New York Times os funcionários da
OTAN – pelos rebeldes. Estes, embora "mal treinados e mal organizados", estão em condições, "graças a tecnologias fornecidas por países da OTAN", de transmitir importantes informações à "equipe OTAN na Itália, que escolhe os objectivos a atingir". Além disso, relatam os funcionários, "a Grã-Bretanha, a França e outros países instalaram forças especiais sobre o terreno líbio". Oficialmente para treinar e armar os rebeldes, na realidade sobretudo para tarefas operacionais.

Assim, vê-se emergir o quadro real. Se os rebeldes chegaram a Tripoli isso deve-se não à sua capacidade combate, mas ao facto de que os caça-bombardeiros, os helicópteros e os Predator da
OTAN lhes abrem o caminho, praticando a terra queimada. No sentido literal do termo, como mostra o corpo do soldado líbio carbonizado pelo raid da OTAN. Por outras palavras, criou-se para a utilização dos media a imagem de uma resistência com uma força capaz de bater um exército profissional. Mesmo que rebeldes morram nas confrontações, como é natural, não são eles que estão em vias de se apoderar de Tripoli. É a OTAN que, graças a uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, está em vias de demolir um Estado a fim de defender os civis. Evidentemente, desde que há um século as tropas italianas desembarcaram em Tripoli, a arte da guerra colonial deu grandes passos em frente.
23/Agosto/2011
O original encontra-se em il manifesto e a versão em francês em
www.legrandsoir.info/...


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Líbia e o mundo do petróleo

O mundo do petróleo raramente está longe quando se trata de assuntos que envolvem o Oriente Médio e o norte da África. Esse mundo oferece um guia útil para entender as reações ocidentais diante dos levantes populares no mundo árabe. Argumenta-se que o petróleo não pode ser considerado um motivo para a intervenção na Líbia porque o Ocidente já tem acesso ao mesmo sob o regime de Kadafi. Isso é certo, mas irrelevante. Afinal, o mesmo poderia ser dito sobre o Iraque sob o regime de Saddam Hussein.

O artigo é de Noam Chomsky.

No mês passado, no tribunal internacional sobre crimes durante a guerra civil em Serra Leoa, o julgamento do ex-presidente liberiano Charles Taylor chegou ao fim. O promotor geral, o professor de Direito estadunidense David Crane, informou ao jornal The Times, de Londres, que o caso estava incompleto: os promotores queriam processar Muammar Kadafi, que, disse Crane, era, em última instância, o responsável pela mutilação e/ou assassinato de 1,2 milhões de pessoas.

Mas isso não aconteceria, esclareceu. Os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países interviram para bloquear essa decisão. Ao ser perguntado sobre o porquê disso, respondeu: Bem vindo ao mundo do petróleo!
Outra vítima recente de Kadafi foi sir Howard Davies, diretor da Escola de Economia de Londres, que renunciou depois de revelações sobre os laços da escola com o ditador líbio.

Em Cambridge, Massachusetts, o Monitor Group, uma empresa de consultoria fundada por professores de Harvard, foi bem paga por serviços tais como um livro para levar as palavras imortais de Kadafi ao público em conversão com famosos especialistas internacionais, junto com outros esforços para melhorar a imagem internacional da Líbia (de Kadafi).
O mundo do petróleo raramente está longe quando se trata de assuntos que envolvem esta região.

Por exemplo, quando as dimensões da derrota estadunidense no Iraque já não podiam ser escondidas, a retórica bonita foi substituída pelo anúncio honesto de objetivos políticos. Em novembro de 2007, a Casa Branca emitiu uma declaração de princípios que insistia em que o Iraque deve conceder acesso e privilégio indefinidos aos invasores estadunidenses.

Dois meses depois, o presidente George W. Bush informou ao Congresso que rechaçaria a legislação que limitasse o emprego permanente das forças armadas estadunidenses no Iraque ou o controle dos EUA dos recursos petroleiros do Iraque; demandas que os Estados Unidos teriam que abandonar um pouco depois diante da resistência iraquiana.

O mundo do petróleo oferece um guia útil para entender as reações ocidentais diante dos notáveis levantes pró-democráticos no mundo árabe. O ditador rico em petróleo, que é um cliente confiável, é tratado com rédea solta. Houve pouca reação quando a Arábia Saudita declarou no dia 5 de março: as leis e regulamentos no reino proíbem totalmente qualquer tipo de manifestações, marchas e atos, assim como a sua convocação, já que vão contra os princípios da Shariah, os costumes e as tradições sauditas. O reino mobilizou enormes forças de segurança que aplicaram rigorosamente a proibição.

No Kuwait, pequenas manifestações foram sufocadas. O punho de ferro golpeou a população no Bahrein, depois que forças militares encabeçadas pela Arábia Saudita interviram para garantir que a monarquia sunita minoritária não fosse ameaçada pelas reivindicações de reformas democráticas.

O Bahrein é sensível não só porque abriga a Quinta Frota dos Estados Unidos, mas também porque faz fronteira com áreas xiitas da Arábia Saudita, local de maior parte das reservas do reino. Os recursos energéticos primários do mundo se localizam perto do norte do Golfo Pérsico (ou Golfo Arábico, como costuma ser chamado pelos árabes), uma área em grande medida xiita, um potencial pesadelo para os planejadores ocidentais.

No Egito e na Tunísia, o levante popular conseguiu vitórias impressionantes, mas, como informou a Fundação Carnegie, os regimes permanecem e aparentemente estão decididos a frear o ímpeto pró-democracia gerado até agora. Uma mudança nas elites governantes e no sistema de governo segue sendo um objetivo distante, e que o Ocidente buscará mantê-lo assim.

A Líbia é um caso diferente, um Estado rico em petróleo dirigido por um ditador brutal que, não obstante, é pouco confiável: seria melhor ter um cliente digno de confiança. Quando iniciaram os protestos não violentos, Muammar Kadafi atuou rapidamente para sufocá-las.

No dia 22 de março, enquanto as forças de Kadafi convergiam para a capital rebelde de Bengasi, o principal assessor do presidente Barack Obama sobre Oriente Médio, Dennis Ross, advertiu que se ocorresse um massacre, todos culpariam os EUA por isso, uma consequência inaceitável.

E o Ocidente certamente não queria que o coronel Kadafi aumentasse seu poder e independência, sufocando a rebelião. Os EUA trabalharam então pela autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas de uma zona de exclusão aérea, que seria posta em prática por França, Inglaterra e os próprios EUA.

A intervenção evitou um provável massacre, mas foi interpretada pela coalizão como a autorização para o apoio direto aos rebeldes. Um cessar-fogo foi imposto às forças de Kadafi, mas se ajudou os rebeldes a avançar para o oeste. Em pouco tempo conquistaram as principais fontes da produção petroleira da Líbia, ao menos temporariamente.

No dia 28 de março, o jornal em língua árabe sediado em Londres Al-Quds Al-Arabi advertiu que a intervenção deixaria a Líbia com dois estados, um leste rico em petróleo e em mãos dos rebeldes e um oeste encabeçado por Kadafi e mergulhado na pobreza. Com o controle dos poços petrolíferos assegurados, poderíamos estar diante de um novo emirado petroleiro líbio, escassamente habitado, protegido pelo Ocidente e muito similar aos estados emirados do golfo. Ou a rebelião respaldada pelo Ocidente poderia seguir adiante até eliminar o irritante ditador.

Argumenta-se que o petróleo não pode ser um motivo para a intervenção porque o Ocidente já tem acesso ao mesmo sob o regime de Kadafi. Isso é certo, mas irrelevante. O mesmo poderia ser dito sobre o Iraque sob o regime de Saddam Hussein, ou sobre Irã e Cuba atualmente.

O que o Ocidente busca é o que Bush anunciou: o controle, ou ao menos clientes dignos de confiança e, no caso da Líbia, o acesso a enormes áreas inexploradas que se espera sejam ricas em petróleo. Documentos internos britânicos e estadunidenses insistem que o vírus do nacionalismo é o maior temor, já que poderia engendrar desobediência.

A intervenção está sendo realizada pelas três potências imperiais tradicionais (poderíamos lembrar – os líbios presumivelmente o fazem – que, depois da Primeira Guerra Mundial, a Itália foi responsável por um genocídio no leste da Líbia).

As potências ocidentais estão atuando em virtual isolamento. Os estados na região – Turquia e Egito – não querem participar, tampouco a África. Os ditadores do golfo se sentiriam felizes de ver Kadafi partir, mas, ainda empanturrados pelas armas avançadas que recebem para reciclar os petrodólares e assegurar a obediência, oferecem apenas uma participação simbólica. O mesmo se aplica em outros lugares: Índia, Brasil e, inclusive, Alemanha.

A primavera árabe tem raízes profundas. A região está em fermentação há muitos anos. A primeira da atual onda de protestos começou no ano passado no Saara Ocidental, a última colônia africana, invadido pelo Marrocos em 1975 e retido ilegalmente desde então, de maneira similar ao Timor Oriental e aos territórios ocupados por Israel.

Um protesto não violento em novembro passado foi sufocado por forças marroquinas. A França interveio para bloquear uma investigação do Conselho de Segurança sobre os crimes de seu cliente. Logo acendeu-se uma chama na Tunísia que, desde então, espalhou-se e tornou-se uma conflagração.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agencia Carta Maior

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O "nosso homem em Tripoli": Oposição líbia inclui terroristas islâmicos

por Michel Chossudovsky

Moussa Koussa, o agente duplo. Há várias facções no interior da oposição líbia: Monárquicos, desertores do regime Kadafi incluindo o ministro da Justiça e mais recentemente o ministro dos Negócios Estrangeiros Moussa Koussa, membros das Forças Armadas Líbia, a Frente Nacional para a Salvação da Líbia (NFSL na sigla em inglês), a Conferência Nacional para a Oposição Líbia (NCLO na sigla em inglês) a qual actua como uma organização superior.

Raramente reconhecido pelos media ocidentais, a Al-Jamaa al-Islamiyyah al-Muqatilah bi Libya, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (Libya Islamic Fighting Group, LIFG) é parte integral da oposição líbia.

O Conselho Interino Líbio (Libyan Interim Council) não constitui uma entidade claramente definida. É baseado na representação de conselhos locais recém criados estabelecidos para "administrar a vida diária nas cidades e aldeias libertadas)". ( The Libyan Interim National Council" The Council's statement )

As forças de oposição são em grande parte constituídas por milícias civis não treinadas, antigos das Forças Armadas Líbias juntamente com paramilitares treinados do Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG).

O LIFG, o qual está alinhado com a Al Qaeda está, segundo relatórios, na linha de frente da insurreição armada.

Tanto o LIFG como entidade como os seus membros individuais são classificados pelo Conselho de Segurança da ONU como terroristas. Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA: "O Grupo de Combate Islâmico da Líbia ameaça a segurança global e a estabilidade através da utilização da violência e da sua aliança ideológica com a Al Qaida e outras organizações terroristas brutais" ( Treasury Designates UK-Based Individuals, Entities Financing Al Qaida -Affiliated Libyan Islamic Fighting Group - US Fed News Service , February 8, 2006)

Os conceitos estão invertidos. Tanto Washington como a NATO, que afirmam estarem a travar "uma Guerra ao Terrorismo" estão a apoiar um "movimento pró democracia" integrado por membros de uma organização terrorista.

Numa ironia cruel, Washington e a Aliança Atlântica estão a actuar em desobediência às suas próprias leis e regulamentos anti-terroristas.

Além disso, o apoio sob a "Responsabilidade de proteger" ("Responsibility to Protect", R2P) forças de oposição integradas por terroristas é implementado de acordo com a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, o qual está a violar flagrantemente a Resolução 1267 do próprio CSONU. Este último identifica o Al-Jama'a al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG) como uma organização terrorista.

Por outras palavras, o Conselho de Segurança da ONU está em flagrante violação não só da Carta das Nações Unidos como das suas próprias resoluções. ( The Al-Qaida and Taliban Sanctions Committee - 1267 ).

A rede Al Qaeda como instrumento de intervenção dos EUA-NATO

Amplamente documentada, a "Jihad islâmica" foi apoiada encobertamente pela CIA desde o desencadeamento da guerra soviético-afegã. (Ver Michel Chossudovsky, America's War on Terrorism, Global Research, Montreal, 2005). A Central Intelligence Agency (CIA) utilizando a Inter-Services Intelligence (ISI) dos militares do Paquistão desempenhou um papel chave no treino dos Mujahideen. Por sua vez, o treino de guerrilha patrocinado pela CIA foi integrado com os ensinamentos do Islão:

"Em Março de 1985, o presidente Reagan assinou a Decisão Directiva de Segurança Nacional 166, ... [a qual] autoriza um avanço na ajuda militar encoberta ao Mujahideen e deixava claro que a guerra secreta afegã tinha um novo objectivo: derrotar as tropas soviéticas no Afeganistão através da acção encoberta e encorajar a sua retirada. A nova assistência encoberta dos EUA começou com um aumento dramático nos fornecimentos de armas – uma ascensão firme para 65 mil toneladas anuais em 1987, ... bem como um "fluxo incessante" de especialistas da CIA e do Pentágono que viajavam para a sede secreta do ISI do Paquistão na estrada principal próxima a Rawalpindi, Paquistão. Ali os especialistas da CIA encontravam-se com oficiais da inteligência paquistanesa a fim de ajudar a planear operações para os rebeldes afegãos". (Steve Coll, Washington Post, July 19, 1992).

Origens históricas do Libya Islamic Fighting Group (LIFG)

O Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG), Al-Jama'a al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya foi fundado no Afeganistão pelo mujahideens veteranos líbios da guerra afegã contra os soviéticos.

Desde o início, na primeira metade da década de 1990, o LIFG desempenhou o papel de um "activo de inteligência" por conta da CIA e do serviço secreto de inteligência britânico, MI6. Arrancando em 1995, o LIFG esteve envolvido activamente numa Jihad islâmica contra o regime leigo líbio, incluindo uma tentativa de assassínio de Muamar Kadafi em 1996.

"O antigo operacional do MI5, David Shayler, revelou que enquanto estava a trabalhar sobre a secção da Líbia em meados da década de 1990, pessoal do serviço secreto britânico colaborou com o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG), o qual está conectado da um dos lugares-tenentes de confiança de Osama bin Laden. O LIFG é agora considerado um grupo terrorista no Reino Unido". (Gerald A. Perreira, British Intelligence Worked with Al Qaeda to Kill Qaddafi, http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23957 Global Research, March 25 2011, sublinhado nosso)

Ataque terroristas em estilo guerrilha foram rotineiramente efectuados contra forças de segurança, polícia e pessoal militar do governo líbio:

"Choques violentos entre forças de segurança (de Kadafi) e guerrilhas islâmicas irromperam em Bengazi em Setembro de 1995, deixando dezenas de mortos em ambos os lados. Após semanas de combate intenso, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG) declarou formalmente a sua existência num comunicado em que chamava o governo de Kadafi de "regime apóstata que blasfemou contra a fé de Deus Poderoso" e declarava que o seu derrube era "o mais premente dever após a fé em Deus". Este e os seguintes comunicados da LIFG foram emitidos por afegãos líbios aos quais fora concedido asilo político na Grã-Bretanha... O envolvimento do governo britânico na campanha do LIFG contra Kadafi permanece assunto de imensa controvérsia. A grande operação seguinte do LIFG, uma tentativa de assassinato de Kadafi em Fevereiro de 1996 que matou vários dos seus guarda-costas, foi dito posteriormente que fora financiada pela inteligência britânica ao custo considerável de US$160 mil, segundo o ex-oficial do MI5 David Shayler. Se bem que as alegações de Shayler não tenham sido confirmadas independentemente, é claro que a Grã-Bretanha permitiu ao LIFG desenvolver uma base de apoio logístico e levantamento de fundos no seu território. De qualquer modo, o financiamento por bin Laden parece ter sido muito mais importante. Segundo um relatório, o LIFG recebeu mais de US$50 mil do mentor terrorista saudita por cada um do seus militantes mortos no campo de batalha ". [2005] (Citado em Peter Dale Scott, Who are the Libyan Freedom Fighters and Their Patrons? Global Research, March 2011, sublinhados nossos).

Há informações contraditórios sobre se o LIFG é parte da Al Qaeda ou está a actuar como uma entidade jihadista independente. Um relatório sugere que em 2007 o LIFG tornou-se "uma subsidiária da Al Qaeda, assumindo posteriormente o nome de Al Qaeda no Maghreb Islâmico (Al Qaeda in the Islamic Maghreb, AQIM). (Ver Webster Tarpley The CIA's Libya Rebels: The Same Terrorists who Killed US, NATO Troops in Iraq , Global Research, March 2011)

Continuidade nas operações de inteligência dos EUA e aliados: Operacionais da Al Qaeda na Jugoslávia

Desde a guerra soviético-afegã, a rede Al Qaeda tem servido como um "activo de inteligência" para a CIA. Como confirmado por um documento de 1997 do Senado dos EUA, operacionais da Al Qaeda foram utilizados pela administração Clinton para canalizar apoio para o Exército Muçulmano Bósnio no princípio da década de 1990. US Senate, Republican Party Committee, Clinton-Approved Iranian Arms Transfers Help Turn Bosnia into Militant Islamic Base, http://rpc.senate.gov/releases/1997/iran.htm , 1998)

O Exército de Libertação do Kosovo (KLA na sigla em inglês), o qual foi apoiado pela NATO, desenvolveu laços extensos com a rede de terror islâmico. ( US Senate, Republican Party Committee, The Clinton Administration Sets Course for NATO Intervention in Kosovo, 1998, http://rpc.senate.gov/releases/1998/kosovo.htm , Ver também Michel Chossudovsky, America's "War on Terrorism" , Global Research, Montreal, 2005)

A Al Qaeda na Jugoslávia serviu como um activo de inteligência no contexto da "guerra humanitária" da NATO. Organizações terroristas foram encobertamente apoiadas e financiadas. A intervenção da NATO chegou para resgatar o Exército de Libertação do Kosovo (KLA) o qual era apoiado por operacionais da Al Qaeda. (US Republican Party Committee documents, op cit)

Isto faz parte do padrão EUA-NATO: Apoiar uma insurreição integrada por terroristas tendo em vista justificar intervenção com argumentos humanitários para "salvar as vidas de civis".

Esta foi a justificação da NATO para intervir na Bósnia e no Kosovo. Que lições extrair para a Líbia?

Antigo chefe da inteligência líbia, Moussa Koussa, deserta para o Reino Unido

O LIFG era apoiado não só pela CIA e pelo serviços de inteligência britânico (MI6) como também por facções dentro da agência de inteligência da Líbia, chefiada pelo antigo responsável de inteligência e ministro dos Negócios Estrangeiros, Moussa Koussa, que desertou para o Reino Unido no fim de Março de 2011.

William Burns. Em Outubro de 2001 o chefe da inteligência líbia Moussa Koussa encontrou-se com o secretário de Estado assistente dos EUA William J. Burns. O encontro Koussa-Burns foi de importância crucial. Estiveram presentes nas reuniões responsáveis superiores da CIA e do MI6 incluindo sir John Scarlett que naquele tempo (Outubro 2001) era o chefe do Joint Intelligence Committee (JIC) do gabinete, subordinado directamente ao primeiro-ministro Tony Blair. O JIC supervisiona em nome do governo britânico o estabelecimento de prioridades para o MI6, MI5 e Defense Intelligence.

John Scarlett. Nosso homem em Tripoli, Moussa Koussa, devia desempenhar o papel de um agente duplo. Em reuniões secretas com sir John Scarlett acordou-se que "um agente britânico podia operar em Tripoli". ( Libya defector Moussa Koussa was an MI6 double agent , Sunday Express, April 3, 2011)

O desenvolvimento do LIFG como um movimento paramilitar jihadista bem como a sua integração nas forças de oposição anti-Kadafi revela um relacionamento directo com o papel central desempenhado pelo agente duplo Moussa Koussa, o qual foi instrumental no estabelecimento de estreitos laços bilaterais com a CIA e o MI6.

A este respeito, a deserção de Moussa Koussa no fim de Março tem toda a aparência de uma operação cuidadosamente encenada. De um modo inabitual, o acordo foi negociado com o governo britânico através da intermediação de um antigo líder do LIFG, organização terrorista relacionada com a Al Qaeda, que agora está a trabalhar com uma fundação de direitos humanos com sede em Londres:

Noman Benotman, amigo do ministro líbio dos Negócios Estrangeiros Moussa Koussa, contou à BBC como ajudou a organizar a sua deserção do regime Kadafi.

O sr. Benotman foi líder do Libyan Islamic Fighting Group mas agora trabalha para o think tank contra-extremista da Quilliam Foundation .

Ele disse acreditar que o sr. Koussa estaria a negociar com o governo britânico e era muito cooperativo quanto a inteligência.

Gordon Corera da BBC acrescentou que o governo britânico estava num dilema sobre como tratar o sr. Koussa devido aos seus antecedentes como chefe da inteligência líbia.

O sr. Benotman contou no BBC Breakfast como ajudou Koussa a desertar e como costumavam ser rivais. ( BBC Breakfast April 1, 2011, sublinhado nosso)

Ironicamente, Benotman foi recrutado como Mujahideen para combater na guerra soviético-afegã. Ele foi um dos fundados do LIFG no Afeganistão. Centrando-se em questões de "contra-extremismo", Benotman é actualmente analista sénior na Quilliam Foundation. Suas responsabilidades actuais incluem estender a mão "para actuais e antigos extremistas e utilizar a Quilliam como uma plataforma a partir da qual partilha seu conhecimento interno da Al-Qaeda e outros grupos jihadistas junto a uma audiência mais vasta".

O programa de contra-terrorismo da CIA

Os laços bilaterais estabelecidos em Outubro de 2001 entre a CIA-MI6 e a inteligência líbia proporcionaram às agências de inteligência ocidentais acesso directo e vigilância dentro da Líbia, através dos seus colegas pró EUA na agência de inteligência dirigida por Moussa Koussa. Este acordo permitiu à inteligência ocidental infiltrar efectivamente a Agência de Inteligência Líbia a qual estava sob o comando de um agente duplo do MI6.

Segundo o Departamento de Estado num relatório de 2008, o governo líbio "continuou a cooperar com os Estados Unidos e a comunidade internacional para combater o terrorismo e o financiamento terrorista". "U.S. officials hope to extend counterterrorism assistance to Libya during FY2010 and FY2011...." (Ver Christopher M. Blanchard Libya: Background and U.S. Relations , US Congress Research Service, July 16, 2010)

Em 2009 a inteligência líbia estabeleceu um programa conjunto de contra-terrorismo através do qual responsáveis da inteligência líbia receberiam treino da CIA em contra-terrorismo. Este programa fazia parte de um acordo negociado por Moussa Koussa com a CIA. Em teoria pretendia-se desmantelar o LIFG com a ajuda da CIA. Ter em consideração a ambiguidade do "contra-terrorismo" da CIA. O lançamento do LIFG no Afeganistão no princípio da década de 1990 fazia parte de um projecto da CIA de criar um exército líbio a partir da sua rede Al Qaeda.

Também em 2009, os líderes aprisionados do Libyan Islamic Fighting Group (LIFG) alegadamente renunciaram à sua luta armada travada contra o regime Kadafi num acordo alcançado com responsáveis da segurança líbia. ( New jihad code threatens al Qaeda , CNN, November 2009)

Qual era o papel do programa de contra-terrorismo EUA-Líbia na perspectiva de Washington?

Oficialmente, era identificar membros do LIFG e desmantelar o LIFG como organização. Na prática, a operação conduzida pelos EUA na Líbia, incluindo treino sob os auspícios da CIA, proporcionava à agência uma cortina de fumo conveniente para efectuar operações de inteligência dentro da Líbia. Por um lado o programa de treino permitiu à CIA infiltrar e adquirir interlocutores confiáveis dentro da inteligência líbia.

Também permitiu à Agência, em conjunto com o serviço secreto de inteligência britânico (MI6), proporcionar realmente apoio encoberto ao LIFG na expectativa da insurreição armada de Março de 2011.

Os media sugerem que o LIFG foi desmantelado (a seguir à implementação do programa de contra-terrorismo patrocinado pela CIA). Não há prova disso. O LIFG permanece na lista de terroristas (actualizada até 24/Março/2011) do Conselho de Segurança das Nações Unidas:

QE.L.11.01. Name: LIBYAN ISLAMIC FIGHTING GROUP

Name (original script):

A.k.a.: LIFG F.k.a.: na Address: na Listed on: 6 Oct. 2001 (amended on 5 Mar. 2009)

Other information: Review pursuant to Security Council resolution 1822 (2008) was concluded on 21 Jun. 2010

United Nations Security Council: Consolidated List established and maintained by the 1267 Committee with respect to Al-Qaida, Usama bin Laden, and the Taliban and other individuals, groups, undertakings and entities associated with them (updated March 24, 2011)

(p. 70, http://www.un.org/sc/committees/1267/pdf/consolidatedlist.pdf , De acordo com as regras do CSONU, organizações terroristas desmanteladas são removidas da lista em conformidade com um procedimento de deslistagem. O LIFG não foi removida da lista)

Armas e apoio encoberto a rebeldes do LIFG

Há indicações de que a CIA e MI6 continuam a proporcionar apoio encoberto ao LIFG, o qual agora constitui a linha de frente da insurreição armada contra o regime Kadafi.

Hakim al-Hasidi, o líder rebelde líbio, disse que jihadistas que combateram contra tropas aliadas no Iraque estão na linha de frente da batalha contra o regime de Muammar Kadafi.

... O sr. al-Hasidi insistiu em que os seus combatentes "são patriotas e bons muçulmanos, não terroristas", mas acrescentou que os "membros da al-Qaeda também são bons muçulmanos e estão a combater contra o invasor". (Libyan rebel commander admits his fighters have al-Qaeda links, Daily Telegraph, March 25, 2011, italics added)

Abdul Hakim Al-Hasadi é o líder do LIFG que recebeu treino militar num campo de guerrilha no Afeganistão. Ele é o chefe de segurança das forças de oposição num dos territórios mantidos pelos rebeldes, com cerca de 1000 homens sob o seu comando. ( Libyan rebels at pains to distance themselves from extremists - The Globe and Mail" , March 12, 2011)

Estão a ser canalizadas armas para o LIFG a partir da Arábia Saudita, a qual historicamente, desde o início da guerra soviético-afegã, apoiou a jihad islâmica. Os sauditas estão agora a abastecer os rebeldes, em ligação com Washington e Bruxelas, com rockets anti-tanque e mísseis terra-ar.

Desinformação dos media: Terroristas islâmicos aderem ao Movimento Pró Democracia "a título pessoal"

O almirante James Stavridis, Comandante Supremo dos Aliados da NATO na Europa, reconheceu tacitamente que a "inteligência americana havia detectado "lampejos" de actividade terrorista entre os grupos rebeldes". "Muito alarmante"... Mas não estamos a tratar de "lampejos". Os combatentes do LIFG constituem o esqueleto da insurreição armada.

Os media ocidentais também exprimiram preocupação, se bem que insistindo em que os jihadistas são "antigos" membros do LIFG que aderiram à luta armada "a título pessoal" e não como membros da organização terrorista. Conforme Benotman numa entrevista à CNN:

... Dúzias de antigos combatentes do LIFG aderiram agora aos esforços rebeldes para derrubar Kadafi, mas asseverou que fizeram-no a título pessoal e não como grupo organizado.

Alguns responsáveis ocidentais em contra-terrorismo preocupam-se em que uma guerra civil prolongada na Líbia possa abrir espaço para a Al Qaeda. Governos e ONGs têm de ser rápidas, afirma Benotman, em ajudar a desenvolver educação, cuidados de saúde e instituições democráticas em áreas mantidas pelos rebeldes. (Paul Cruickshank e Tim Lister, Libyan civil war: An opening for al Qaeda and jihad? CNN , March 23, 2011)

Uma organização terrorista relacionada com a Al Qaeda integra o movimento pró democracia líbio? Desde quando terroristas actuam como indivíduos "a título pessoal"?

Mas o LIFG como entidade e também os seus membros individuais são classificados pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas como terroristas de acordo com a Resolução 1267 do CSON. ( The Al-Qaida and Taliban Sanctions Committee - 1267 )

"Nosso homem em Tripoli"

Antigo chefe da inteligência líbia, Moussa Koussa desempenhou um papel na canalização de apoio encoberto ao LIFG por conta dos seus colegas dos serviços de inteligência ocidentais.

O ex-director da CIA George Tenet, se bem que sem se referir explicitamente ao "Nosso homem em Tripoli", reconheceu na sua autobiografia de 2007 que "o relaxamento de tensões com a Líbia [foi] um dos maiores êxitos do seu mandato, pois levou à cooperação entre as duas agências de espionagem contra a al-Qaeda". (citado em Intelligence Partnership between Qadhafi and the CIA on counter-terrorism , op cit)

Moussa Koussa era o "Nosso homem em Tripoli". As circunstâncias da sua deserção, bem como o historial da sua colaboração com a CIA e o MI6, sugerem que, pelo menos durante os últimos dez anos, ele esteve a servir interesses dos EUA e aliados, incluindo o planeamento da insurreição armada "pró democracia" na Líbia Oriental.

Já não deveria haver dúvida: A aliança militar ocidental está a apoiar uma rebelião integrada por terroristas islâmicos em nome da "guerra ao terrorismo".

Quem são os terroristas? Numa torção amarga, enquanto a jihad islâmica é caracterizada pela administração dos EUA como "uma ameaça à civilização ocidental", estas mesmas organizações islâmicas, incluindo o Libya Islamica Fighting Group (LIFG) constitui um instrumento chave das operações militares e de inteligência dos EUA na Ásia Central, no Médio Oriente e no Norte de África, sem mencionar as repúblicas islâmicas da antiga União Soviética.

03/Abril/2011
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=24096

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .