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terça-feira, 19 de abril de 2011

Uma mesa para nove bilhões

A urgência de “fazer algo” se intensifica, especialmente no mundo em desenvolvimento, onde entre 30% e 80% da renda é gasta com comida, o que evidencia a extrema vulnerabilidade aos preços altos. Ali vive a maior parte dos dois bilhões de subnutridos e um bilhão dos famintos de hoje. E também ali a insegurança alimentar é moeda corrente. Os analistas preveem que, até 2050, nessas áreas terão nascido entre dois bilhões e três bilhões de pessoas.

Enquanto a carestia dos alimentos é prioridade na agenda das reuniões anuais de primavera do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, alguns analistas já se perguntam como faremos em 2050 para dar de comer a uma população mundial de 8,9 bilhões. A maioria dessas pessoas vivendo em países em desenvolvimento.

“As pessoas pobres são as que mais sofrem e as que mais podem cair na pobreza devido à alta e à volatilidade dos preços dos alimentos”, disse, no dia 14, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Somente desde junho, 44 milhões de pessoas já foram empurradas para a pobreza devido à carestia dos alimentos, acrescentou. “Devemos dar prioridade aos alimentos e proteger os pobres e vulneráveis, que gastam a maior parte de seu dinheiro em alimentos”, enfatizou Zoellick.

Embora nesta ocasião tenha apontado a carestia dos alimentos como “a maior ameaça aos pobres em todo o mundo”, a escassez mundial de alimentos ainda não é um problema para a população mundial, que – se espera – deverá superar os sete bilhões de pessoas este ano. Entretanto, vários analistas afirmam que a demanda por alimentos, originada não só por haver mais bocas a alimentar, como também pelo aumento da renda nas economias emergentes, superarão a produção agrícola nas próximas décadas.

“A comida não escasseia no mundo de hoje”, disse Hafez Ghanem, diretor-geral adjunto da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), encarregado do Departamento de Desenvolvimento Econômico e Social. Porém, “a demanda geral está crescendo cerca de 2%, enquanto os rendimentos crescem 1%”, acrescentou.

Com uma projeção para 2050, “quando a população mundial terá aumentando em cerca de dois bilhões de pessoas, o que implica que a demanda de alimentos será 70% maior do que a atual, isto se torna mais problemático e a necessidade de fazer algo agora se torna mais óbvia”, disse Zoellick em um debate organizado na semana passada pelo Carnegie Endowment for International Peace.

A urgência de “fazer algo” se intensifica, especialmente no mundo em desenvolvimento, onde entre 30% e 80% da renda é gasta com comida, o que evidencia a extrema vulnerabilidade aos preços altos. Ali vive a maior parte dos dois bilhões de subnutridos e um bilhão dos famintos de hoje. E também ali a insegurança alimentar é moeda corrente. Os analistas preveem que, até 2050, nessas áreas terão nascido entre dois bilhões e três bilhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, se prevê que muitas economias emergentes, como China e Índia, contarão com um bilhão a mais de habitantes cada uma. Isto multiplicará a demanda de alimentos, segundo os especialistas, porque as famílias mais abastadas tendem a comer mais proteínas, e, inclusive, é necessário alimentar esses animais que depois acabarão em suas mesas.

Atualmente, os especialistas já estimam que cerca de 35% dos grãos do mundo são destinados a alimentar animais. Além disso, a continuada urbanização nas próximas décadas afastará a população do setor agrícola, o que tornará mais complexa a demanda por alimentos. Para satisfazê-la, os analistas consideram que a produção mundial de alimentos precisará duplicar nos próximos 40 anos.

No entanto, há muitos obstáculos no caminho até 2050. Entre eles, a crescente incidência, causada pela mudança climática, de fenômenos meteorológicos que destroem cultivos, a previsão de que haverá menos água para a agricultura devido à maior demanda para beber, a falta de diversidade agrícola em alguns lugares, maior suscetibilidade às pragas que devastam cultivos e uma quantidade limitada de terra arável no mundo, ao lado de uma maior consciência sobre os problemas que representa o desmatamento com fins agrícolas.

Segundo alguns especialistas, também é um fator limitante a existência de políticas governamentais que desestimulam os investimentos na agricultura para o consumo, como as que têm como objetivo a elaboração de biocombustíveis, o que faz com que os cultivos não sejam destinados à alimentação. Outros elementos mencionados são tarifas alfandegárias e subsídios que favorecem a produção das economias avançadas, desestimulando os países em desenvolvimento – que são os mais vulneráveis à insegurança alimentar e à carestia dos alimentos –, a priorizar a agricultura em seus territórios.

Embora não haja soluções rápidas, para impedir uma catástrofe, é preciso voltar a priorizar a agricultura para impulsionar a produção de alimentos, dizem os especialistas. “Investe-se o suficiente, mas os recursos não serão suficientes para alimentar todos no mundo em 2050”, disse Ghanem. Mas os números absolutos do fornecimento alimentar são apenas um aspecto da nutrição da população mundial. Uma preocupação mais grave do que a produção é o consumo: como e que tipo de alimentos serão distribuídos para os futuros nove bilhões de habitantes do mundo.

“Estamos falando do plano mundial. Há certas regiões que não poderão alimentar a si mesmas em 2050, regiões com populações enormes, como Ásia meridional, Oriente Médio e Norte da África”, disse Ghanem. No mesmo debate, Will Martin, pesquisador do Banco Mundial para temas de agricultura e desenvolvimento rural, disse: “Pensar no acesso das pessoas aos alimentos e na qualidade dos alimentos que consomem é mais fundamental do que pensar na quantidade total disponível”. Mesmo agora, tanto as populações com carência como com excesso de alimentos são particularmente preocupantes, com seus efeitos sobre a saúde, como raquitismo e inanição, por um lado, e diabetes e doenças cardíacas, por outro.

Isto somente enfatiza a importância dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, com a esperança de gerar uma “nova revolução verde”, com cultivos fortificados com nutrientes e multiplicação de rendimentos em meados deste século, insistem otimistas especialistas em tecnologia. De todo modo, tão ou mais imperativo é a necessidade de tonar mais igualitária a distribuição dos alimentos, com um comércio que favoreça os pobres e um fortalecimento das redes de segurança social, bem com repensar as práticas de assistência alimentar dos doadores e aumentar seus vínculos Sul-Sul. (Envolverde/IPS)

Fonte: Agencia Carta Maior

terça-feira, 1 de março de 2011

ECOSSOCIALISMO. POR UMA ECOLOGIA SOCIALISTA.

ENTREVISTA ESPECIAL COM MICHAEL LÖWY

A crise ecológica abre a possibilidade para um novo projeto político, econômico e social: o ecossocialismo, defendido pelo sociólogo brasileiro, radicado na França, Michael Löwy. A ideia central da proposta é romper com o capitalismo e transformar as estruturas das forças produtivas e do aparelho produtivo. “Trata-se de destruir esse aparelho de Estado e criar um outro tipo de poder. Essa lógica tem que ser aplicada também ao aparelho produtivo: ele tem que ser, senão destruído, ao menos radicalmente transformado. Ele não pode ser simplesmente apropriado pelos trabalhadores, pelo proletariado e posto a trabalhar a seu serviço, mas precisa ser estruturalmente transformado”, esclarece.

Crítico ao capitalismo verde, que pretende transformar o capital e torná-lo menos agressivo ao meio ambiente, Löwy acredita que a crise ecológica é mais grave do que a econômica, pois “coloca em perigo a sobrevivência da vida humana neste planeta”. Em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, ele enfatiza que é preciso reorganizar o modo de produção e consumo, atendendo “às necessidades reais da população e à defesa do equilíbrio ecológico”. As economias emergentes devem se desenvolver, mas não precisam “copiar o modelo de desenvolvimento capitalista do Ocidente”, aconselha. “Se trata de buscar um outro modelo, um desenvolvimento ecossocialista, baseado na agricultura orgânica dos camponeses e nas cooperativas agrárias, nos transportes coletivos, nas energias alternativas e na satisfação igualitária e democrática das necessidades sociais da grande maioria”.

Michael Löwy é cientista social e leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, da Universidade de Paris. Entre sua vasta obra, destacamos Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma análise marxista (São Paulo: Cortez, 1985); As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen (São Paulo: Cortez, 1998); A estrela da manhã. Surrealismo e marxismo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002); Walter Benjamin: Aviso de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história” (São Paulo: Boitempo, 2005) e Lucien Goldmann, ou a dialética da totalidade (São Paulo: Boitempo, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que o senhor entende por ecossocialismo? Quais as ideias principais dessa corrente?

Michael Löwy – O ecossocialismo é uma proposta estratégica que resulta da convergência entre a reflexão ecológica e a reflexão socialista, a reflexão marxista. Existe hoje em escala mundial uma corrente ecossocialista: há um movimento ecossocialista internacional, que recentemente, por ocasião do Fórum Social Mundial de Belém (janeiro de 2009), publicou uma declaração sobre a mudança climática; e existe no Brasil uma rede ecossocialista que publicou também um manifesto, há alguns anos. Ao mesmo tempo, o ecossocialismo é uma reflexão crítica.

Em primeiro lugar, crítica à ecologia não socialista, à ecologia capitalista ou reformista, que considera possível reformar o capitalismo, desenvolver um capitalismo mais verde, mais respeitoso ao meio ambiente. Trata-se da crítica e da busca de superação dessa ecologia reformista, limitada, que não aceita a perspectiva socialista, que não se relaciona com o processo da luta de classes, que não coloca a questão da propriedade dos meios de produção. Mas o ecossocialismo é também uma crítica ao socialismo não ecológico, por exemplo, da União Soviética, onde a perspectiva socialista se perdeu rapidamente com o processo de burocratização e o resultado foi um processo de industrialização tremendamente destruidor do meio ambiente. Há outras experiências socialistas, porém, mais interessantes do ponto de vista ecológico – por exemplo, a experiência cubana (com todos seus limites).

O projeto ecossocialista implica uma reorganização do conjunto do modo de produção e de consumo, baseada em critérios exteriores ao mercado capitalista: as necessidades reais da população e a defesa do equilíbrio ecológico. Isto significa uma economia de transição ao socialismo, na qual a própria população – e não as leis do mercado ou um “burô político” autoritário – decide, num processo de planificação democrática, as prioridades e os investimentos. Esta transição conduziria não só a um novo modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais democrática, mas também a um modo de vida alternativo, uma nova civilização, ecossocialista, mais além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade, e da produção ao infinito de mercadorias inúteis.

IHU On-Line – Em que consiste o Manifesto Ecossocialista Internacional?

Michael Löwy – O Manifesto Ecossocialista Internacional, redigido em 2001 por Joel Kovele por mim, foi uma primeira tentativa de resumir, em algumas páginas, as ideias principais do ecossocialismo, como projeto radicalmente anticapitalista e antiprodutivista, e como crítica às experiências socialistas não ecológicas do século XX.

IHU On-Line – A tentativa de aplicar o socialismo no mundo fracassou. Será possível vingar o ecossocialismo? Por quê?

Michael Löwy – As experiências de corte social-democrata fracassaram porque não sairam dos limites de uma gestão mais social do capitalismo e, nos últimos anos do neoliberalismo, as experiências de tipo soviético ou stalinista fracassaram por ausência de democracia, liberdade e auto-organização das classes oprimidas. As duas tinham em comum uma visão produtivista de exploração da natureza, com dramáticas consequências ecológicas.

O ecossocialismo parte de uma visão crítica destes fracassos e propõe um projeto democrático, libertário e ecológico. Nada garante que possa vingar. Depende das lutas ecossociais do futuro.

IHU On-Line – Sob quais aspectos a crise ecológica é mais grave do que a econômica?

Michael Löwy – A crise econômica tem consequências sociais dramáticas – desemprego, crise alimentar etc. –, mas a crise ecológica coloca em perigo a sobrevivência da vida humana neste planeta. O processo de mudança climática e aquecimento global, provocado pela lógica expansiva e destruidora do capitalismo, pode resultar, nas próximas décadas, numa catástrofe sem precedente na história da humanidade: desertificação das terras, desaparecimento da água potável, inundação das cidades marítimas pela subida do nível dos oceanos etc.

IHU On-Line – Como pensar em ecossocialismo se a Modernidade é capitalista? Seria
o ecossocialismo uma proposta para romper com o capital?

Michael Löwy – Absolutamente! Uma das ideias fundamentais do ecossocialismo é a necessidade de uma ruptura com o capitalismo. Uma ruptura que vai mais além de uma mudança das relações de produção, das relações de propriedade. Trata-se de transformar a própria estrutura das forças produtivas, a estrutura do aparelho produtivo. Há que aplicar ao aparelho produtivo a mesma lógica que Marx aplicava ao aparelho de Estado a partir da experiência da Comuna de Paris, quando ele diz o seguinte: os trabalhadores não podem apropriar-se do aparelho de Estado burguês e usá-lo a serviço do proletariado; não é possível, porque o aparelho do Estado burguês nunca vai estar a serviço dos trabalhadores.

Então, trata-se de destruir esse aparelho de Estado e de criar um outro tipo de poder. Essa lógica tem que ser aplicada também ao aparelho produtivo: ele tem que ser, senão destruído, ao menos radicalmente transformado. Ele não pode ser simplesmente apropriado pelos trabalhadores, pelo proletariado e posto a trabalhar a seu serviço, mas precisa ser estruturalmente transformado. É impossível separar a ideia de socialismo, de uma nova sociedade, da ideia de novas fontes de energia, em particular do Sol – alguns ecossocialistas falam do comunismo solar, pois entre o calor, a energia do Sol e o socialismo e o comunismo haveria uma espécie de afinidade eletiva.

IHU On-Line – Como o ecossosialismo pode se sustentar em economias emergentes, que ainda não conquistaram um status de bem-estar social das economias desenvolvidas?

Michael Löwy – As economias dos países do Sul, da Ásia, África e América Latina devem se desenvolver, mas isto não significa copiar o modelo de desenvolvimento capitalista do Ocidente e seu padrão de consumo insustentável. Trata-se de buscar um outro modelo, um desenvolvimento ecossocialista, baseado na agricultura orgânica dos camponeses e nas cooperativas agrárias, nos transportes coletivos, nas energias alternativas e na satisfação igualitária e democrática das necessidades sociais da grande maioria. O modelo ocidental não so é absurdo e irracional, mas não é generalizável: se os chineses quisessem imitar o American way of life, cinco planetas seriam necessários.

IHU On-Line – A humanidade deve preocupar-se com o ecossocialismo ou com o capitalismo verde?

Michael Löwy – O capitalismo verde é uma contradição nos têrmos. A lógica intrinsecamente perversa do sistema capitalista, baseada na concorrência impiedosa, nas exigências de rentabilidade, na corrida pelo lucro rápido, é necessariamente destruidora do meio ambiente e responsável pela catastrófica mudança do clima. As pretensas soluções capitalistas como o etanol, o carro elétrico, a energia atômica, as bolsas de direitos de emissão são totalmente ilusórias.

Os acordos de Kyoto, a fórmula mais avançada até agora de capitalismo verde, demonstrou-se incapaz de conter o processo de mudança climática. As soluções que aceitam as regras do jogo capitalista, que se adaptam às regras do mercado, que aceitam a lógica de expansão infinita do capital, não são soluções, são incapazes de enfrentar a crise ambiental – uma crise que se transforma, devido à mudança climática, numa crise de sobrevivência da espécie humana. Como disse recentemente o secretário das Nações Unidas, Ban Ki Moon: “Estamos correndo para o abismo com os pés colados no acelerador”.

IHU On-Line – Em que sentido a crise ecológica atual pode ser entendida como um
problema de luta de classes?

Michael Löwy – Por um lado, a crise ecológica é um problema de toda a humanidade, pessoas de várias classes sociais podem se mobilizar por esta causa. Por outro lado, as classes dominantes são cegadas por seus interesses imediatos, pensam exclusivamente em seus lucros, sua competitividade, suas partes de mercado e defendem, com unhas e dentes, o sistema capitalista responsavel pela crise. As classes subalternas, os trabalhadores da cidade e do campo, os desempregados, o pobretariado têm interesses conflitivos com o capitalismo e podem ser ganhos para o combate ecossocialista. Não se trata de um processo inevitável, mas de uma possibilidade histórica.

IHU On-Line – Nas últimas conferências do clima, em Copenhague e Cancun, os movimentos sociais e ambientalistas fracassaram? Por que não se vê perspectiva de avançar nas lutas ambientais?

Michael Löwy – O que fracassou em Copenhague e Cancun foram as políticas dos governos comprometidos com o sistema, que demonstraram sua total incapacidade de tomar qualquer decisão, mesmo a mais ínfima, no sentido de buscar reduzir significativamente as emissões de CO2, responsáveis pelo aquecimento global.

A manifestação de cem mil pessoas nas ruas de Copenhague nem 2009, protestando contra o fracasso da conferência oficial, com a palavra de ordem “Mudemos o sistema, não o clima”, é um primeiro passo, alentandor, no sentido de uma mobilização ecológica radical. Ainda estamos longe de ter uma luta ecológica planetária capaz de mudar a relação de forças e impor as drásticas mudanças necessárias. Mas esta é a única esperança de evitar a catástrofe anunciada.

IHU On-Line – Considerando o contexto de capitalismo exacerbado, acredita que as pessoas estão preparadas para o ecossocialismo?

Michael Löwy – Existe um sentimento anticapitalista difuso na América Latina, na Europa e em outras partes do mundo. O movimento altermundialista é uma das expressões disto. Por outro lado, cresce a consciência ecológica, a preocupação com as ameaças profundamente inquietantes que representa a mudança climática. Mas é no curso das lutas ecossociais contra as multinacionais destruidoras do meio ambiente e contra as políticas neoliberais que poderá surgir uma perspective ecossocialista. Não há nenhuma garantia; é apenas uma possibilidade, mas dela depende o futuro da vida neste planeta.

IHU On-Line – Qual é o papel das populações originárias como os indígenas e quilombolas na consolidação do ecossocialismo?

Michael Löwy – Em toda a América Latina – mas também na América do Norte e em outras regiões do mundo – as populações indígenas estão na primeira linha do combate à destruição capitalista do meio ambiente, em defesa da terra, dos rios, das florestas, contra as empresas mineiras, o agronegócio e outras manifestações da guerra do capital contra a natureza. Não por acaso os indígenas tiveram um papel determinante na organização da Conferência de Cochabamba em Defese da Mãe Terra e contra a Mudança Climática, em 2010, que contou com a participação de dezenas de milhares de delegados de comunidades indígenas e movimentos sociais. Temos muito a aprender com as comunidades indígenas, que representam outra visão da relação dos seres humanos com a natureza, totalmente oposta ao ethos explorador e destruidor do mercantilismo capitalista. Como diz nosso companheiro, o histórico lider indígena peruano Hugo Blanco: “Os indígenas já praticam o ecossocialismo há séculos!”

Para ler mais:

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Três redes de supermercados controlam metade dos alimentos

Artigo 1 - Três redes de supermercados controlam metade dos alimentos
Artigo 2 - A cara oculta dos supermercados


Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), juntas as redes de supermercados Carrefour, Walmart e Pão de Açúcar controlam 50% dos alimentos comercializados no Brasil. Considerados os três maiores grupos do segmento em atuação no país, eles são responsáveis pela maior parte dos 20 mil produtos com marcas próprias lançados anualmente. O integrante da Via Campesina Luiz Zarref, acredita que essa concentração do mercado de alimentos desestabiliza as economias locais e prejudica tanto o agricultor, como os pequenos e médios empresários. Além disso, reduz a presença de produtos orgânicos nas prateleiras. Atualmente, 10 empresas dominam o mercado mundial de sementes, chegando a operar 70% do fornecimento aos produtores rurais. Para Zarref, os agricultores perderam a autonomia sobre a produção quando as grandes empresas romperam o sistema de adubação, que antes era de origem animal e foi substituído por adubos químicos. Zarref ainda lembra que a demanda por produtos como milho e soja em países com problemas de segurança alimentar está reduzindo as áreas cultivadas com outras variedades de alimentos, o que determina os altos preços repassados ao consumidor. (pulsar/anp) Fonte: http://www.brasil.agenciapulsar.org/nota.php?id=7397

A cara oculta dos supermercados
Por Esther Vivas

[EcoDebate] A grande distribuição comercial (supermercados, hipermercados, cadeias de desconto…) têm experimentado nos últimos anos um forte processo de expansão, crescimento e concentração industrial. As principais companhias de venda a varejo passaram a formar parte do ranking das maiores multinacionais do planeta e se converteram em um dos atores mais significativos do processo de globalização capitalista.

Seu aparecimento e desenvolvimento mudaram radicalmente nossa maneira de nos alimentar e de consumir, submetendo essas necessidades básicas a uma lógica mercantil e aos interesses econômicos das grandes corporações do setor. Produz-se, distribui-se e se come aquilo que se considera mias rentável, obviando a qualidade de nossa alimentação. Aditivos, corantes e conservantes têm se convertido em algo cotidiano na elaboração do que comemos. Nos Estados Unidos, por exemplo, devido á generalização da comida rápida, calcula-se que cada cidadão ingere anualmente 52 quilos de aditivos, fato que gera crescentes doses de intolerância e alergias. O publicitado como “natural” não tem nada de ecológico e é resultado de processos de transformação química. Nossa alimentação, longe do que produzem os ciclos de cultivo tradicionais no campo, acaba desembocando em uma alimentação “desnaturalizada” e de laboratório. Suas consequências? Obesidade, desequilíbrios alimentares, colesterol, hipertensão…; e os custos acabam sendo socializados e assumidos pela saúde pública.

Os alimentos “viajantes” são outra cara do atual modelo de alimentação. A maior parte do que comemos viaje entre 2.500 a 4.000 quilômetros antes de chegar a nossa mesa, com o conseguinte impacto ambiental, quando, paradoxalmente, esses mesmos produtos são elaborados em âmbito local. A energia utilizada para enviar alfaces de Almería para a Holanda, por exemplo, acaba sendo três vezes superior à utilizada para cultivá-las. Nos encontramos diante de um modelo produtivo que induz à uniformização e à estandardização alimentar, abandonando o cultivo de variedades autóctones em favor daquelas que têm uma maior demanda por parte da grande distribuição, por suas características de cor, tamanho, etc. Trata-se de baratear os custos de produção, aumentar o preço final do produto e conseguir o máximo benefício econômico.

Segundo o sindicato agrário COAG, os preços na origem dos alimentos chegaram a multiplicar-se até por 11 no destino, existindo uma diferença média de 390% entre o preço na origem e no final. Calcula-se que mais de 60% do lucro do preço do produto vai parar na grande distribuição. A situação de monopólio no setor é total: cinco grandes cadeias de supermercados controlam a distribuição de mais da metade dos alimentos que são comprados no Estado Espanhol, embolsando um total de 55% da quota de mercado. Se a isso somamos a distribuição realizada pelas duas principais centrais de compra maioristas, chegamos à conclusão de que somente sete empresas controlam 75% da distribuição de alimentos. Essa mesma dinâmica se observa em muitos outros países da Europa. Na Suécia, três cadeias de supermercados têm 95,1% da quota de mercado; na Dinamarca, três companhias controlam 63,8%; e na Bélgica, na Áustria e na França umas poucas empresas dominam mais de 50%.

Uma tendência que se prevê ainda maior nos próximos anos e que se visualiza muito claramente a partir do que se passou a chamar “teoria da trapaça”: milhões de consumidores por um lado e milhares de camponeses pelo outro e somente umas poucas empresas controlam a cadeia de distribuição de alimentos. Na Europa, são contabilizados uns 160 milhões de consumidores em um extremo da cadeia e uns três milhões de produtores no outro; no meio, umas 110 centrais e grupos que compram e controlam o setor. Esse monopólio tem graves consequências não só para o agricultor e para o consumidor, mas também para o emprego, para o meio ambiente, para o comércio local e para o modelo de consumo.

Porém, existem alternativas. Em um planeta com recursos naturais finitos, é imprescindível estabelecer um modelo de consumo responsável e consumir em função do que realmente necessitamos, combatendo um consumismo excessivo, antiecológico e supérfluo. Na prática, podemos abastecer-nos através de circuitos curtos e de proximidade, nos mercados locais, e participar na medida das possibilidades em cooperativas de consumidores de produtos agroecológicos, cada vez mais numerosas em todo o Estado, que funcionam no âmbito barrial e que, a partir de um trabalho autogestionado, estabelecem relações de compra direta com os camponeses e produtores de seu entorno.

Da mesma forma, é necessário atuar coletivamente para estabelecer alianças entre distintos setores sociais atingidos por esse modelo de distribuição comercial e pelo impacto da globalização capitalista: camponeses, trabalhadores, consumidores, mulheres, migrantes, jovens… Uma mudança de paradigma na produção, na distribuição e no consumo de alimentos somente será possível em um marco mais amplo de transformação política, econômica e social e para consegui-lo é fundamental o impulso de espaços de resistência, de transformação e de mobilização social.

Esther Vivas em Madri, abril de 2008. Foto da Wikipedia

* Esther Vivas é co-autora de “Supermecados, no gracias” (Icaria editorial, 2007) e membro do Centro de Estudios sobre Movimientos Sociales (CEMS) – Universitat Pompeu Fabra, colaboradora internacional do EcoDebate

** Artigo enviado pela Autora e originalmente publicado no Público, 25/02/09. Tradução: ADITAL

Fonte: http://www.ecodebate.com.br


sábado, 19 de dezembro de 2009

Eucalipto, monocultura e insustentabilidade ambiental


Árvores de eucalipto, consomem, em média, 30 litros de água por dia. O dado foi apresentado pelo defensor público do estado de São Paulo Wagner Giron de la Torre, em artigo publicado no Jornal Contato, de Taubaté-SP. No texto, Giron faz uma análise dos monocultivos de eucalipto, que na opinião dele, produzem efeitos não contabilizados por seus produtores.
O autor cita fatores como a devastação ambiental, a aniquilação de fontes d’água e a desertificação de grandes áreas de terra. “A monocultura do eucalipto não pode ser aceita como floresta, posto que não cumpre o ciclo biológico de devolução dos nutrientes”, enfatiza o autor. Para Giron, os órgãos responsáveis pela fiscalização deveriam levar em consideração as consequências ambientais dos plantios de eucalipto.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Gravidez precoce e o monopólio dos alimentos: um crime escondido

Por Rosana Bond
A explosão de casos de gravidez precoce nos últimos tempos, em meninas e adolescentes do mundo inteiro, inclusive dos países ricos, tem sido definida como epidemia. Este, porém, é um termo nebuloso que propositalmente dificulta a compreensão das massas sobre a questão.

O correto seria chamá-la de crime.
Durante esses anos de aflição para milhões de jovens, nunca ou quase nunca apontou-se claramente os culpados (possivelmente os maiores) por essa situação de prejuízo extremo individual e coletivo que é a maternidade antecipada: o monopólio dos alimentos.

O monopólio dos meios de comunicação, comprometido até a medula na propagação do erotismo para crianças (ver box), tratou de divulgar explicações diversionistas. Transformando o povo em vilão, a vítima em réu, não cansou de afirmar que as meninas estavam engravidando "por falta de orientação dos pais", ou porque "os adolescentes são rebeldes".
Ou ainda, numa manipulação execrável, diz que os jovens não estão sabendo lidar com a "liberdade" dentro de uma sociedade que "evoluiu" e que hoje apóia, sem preconceitos, o sexo antes do casamento. Risível, porque sexo pré-casamento ou até sem casamento é coisa velha.
Só que antes nunca houve um estouro mundial na estatística de mães adolescentes. Por que só agora?
Numerosos estudos surgiram. Mas não houve estímulo a pesquisas científicas profundas e descompromissadas com o capital, que desvendassem os reais motivos pelos quais estão ocorrendo tão altos índices de puberdade precoce já a partir dos 8 anos (primeira menstruação, capacidade de gestação, aumento dos seios, pelos pubianos, etc) que trazem, como consequência, a elevação da maternidade juvenil.Nunca há dinheiro para estudos sérios.
Eis o que disse um boletim da Cimac do México (Comunicação e Informação da Mulher) de 2002:"Sem orçamento para pesquisas amplas, empresas e instituições continuarão negando os impactos dos alimentos com modificações químicas e genéticas na saúde reprodutiva.Cada menina com puberdade precoce relacionada com a ingestão de frangos artificialmente engordados, cada mulher com infecções vaginais por produtos lácteos com antibióticos, etc, estão longe de ser 'evidência contundente'. Com um ano e meio de idade, uma criança desta cidade (México, DF) apresentou um incipiente crescimento de pelos púbicos. A anomalia parou quando deixaram de alimentá-la com frango.
Em apenas um ano, a pediatra Isabel Zurbia Flores Soltero observou dois casos de puberdade precoce em uma menina de seis e outra de 10 anos de idade, também vinculados ao consumo de frangos criados com hormônios sintéticos".
A médica entrevistada, Zurbia, tem uma década de trabalho num hospital infantil mexicano e lamenta que "são escassos os estudos para chegar a evidências conclusivas sobre transgênicos, hormônios e outros aditivos em alimentos".
Mas sua experiência clínica diária apresenta indícios que a enchem de preocupação. Foi também acompanhando o dia-a-dia em consultórios pediátricos franceses que o médico e professor Charles Sultan decidiu escrever o livro Ginecologia pediátrica e adolescente: evidências baseadas na prática clínica. Ele, que é da Unidade de Endocrinologia e Ginecologia Pediátrica da Universidade de Montpellier, França, afirmou agora em 2008 num seminário na Europa, que a puberdade precoce se deve ao uso de hormônios sintéticos, pesticidas, detergentes e outros produtos.
O ginecologista e obstetra mexicano Felipe Lazar Júnior igualmente diz que os alimentos estão interferindo, sim, na menstruação precoce. Declarou ele à repórter Victoria Bensaude: "Em geral, boa parte dos alimentos possuem conservantes que têm efeito hormonal.
Recentemente, um pesquisador de meio ambiente fez um estudo em uma represa e constatou que as amostras de água colhidas continham níveis elevados de hormônio feminino, o que com certeza estão associados à menarca precoce, e também ao aumento da incidência de câncer nas mulheres e ginecomastia nos homens (crescimento anormal da glândula mamária)".

Anabolizantes no frango
Em julho do ano passado, uma comissão da Câmara dos Deputados brasileira soltou uma recomendação de proibição do uso de hormônios na avicultura. Afirmava que tais produtos estavam sendo utilizados pela indústria do frango para acelerar o crescimento e a engorda dos animais, mas que resíduos dos produtos permanecem na carne e nos ovos. Segundo os deputados, o consumo de alimentos com esses resíduos pode ocasionar disfunções no aparelho reprodutor.

Além de câncer, distúrbios no sistema imunológico, entre outras doenças. "Os efeitos indesejáveis dos resíduos de hormônios anabolizantes são mais maléficos em crianças e jovens", disse o relator.Ao que se sabe, foram palavras ao vento. Nada mudou.
Os hormônios e outras substâncias usadas nos últimos anos nos alimentos pelos monopólios, para obter mais lucros, não têm provocado somente puberdade/ gravidez precoce, está afetando gravemente também pessoas mais maduras, de 30 e 40 anos, que num efeito contrário, estão perdendo a fertilidade mais cedo."Está havendo um climatério feminino e masculino precoce", advertiu o Dr. Arturo Zárate Treviño, do Hospital de Especialidades do Centro Médico Nacional Século XXI, do México. "E esta modificação não se trata de uma evolução natural da espécie humana, mas sim a fatores como o uso de substâncias químicas na agricultura e nos alimentos, além da obesidade e do sedentarismo". Complementou que "os fertilizantes e pesticidas que são utilizados na agricultura, assim como os alimentos industrializados, que contêm conservantes, saborizantes, colorantes e muitos elementos artificiais, atuam como estrógenos ou antiestrógenos".Atualmente, no México, um em cada seis casais tem problema para obter gravidez, pois de acordo com Treviño, "o padrão hormonal em homens e mulheres sofreu uma mudança e agora, entre a terceira e a quarta década de vida, eles produzem menos testosterona e elas menos estrógeno".

Infertilidade nos meninos
O consumo de carne bovina tratada com hormônios, além de diversos outros problemas, está causando infertilidade em meninos de pouca idade.Um estudo da Universidade de Rochester, no USA, publicado na Human Reproduction, relacionou o uso de substâncias hormonais a danos no espermatozóide humano, ao constatar que os filhos de mulheres que consumiram carne diariamente têm uma possibilidade três vezes maior de ter uma contagem de espermatozóides tão baixa que podem ser classificados como subférteis.

Para ludibriar o povo e as críticas, o USA proibiu alguns produtos no gado em 1979, porém outros, tais como os hormônios sexuais testosterona e progesterona continuaram liberados para uso na pecuária.A equipe da Rochester descobriu que entre os filhos de mulheres que comiam carne todos os dias, 17,7% tinha uma concentração de espermatozóides abaixo dos 20 milhões por mililitro, o que é considerado subfertilidade pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A porcentagem entre filhos de mulheres que comiam menos carne foi de 5,7%. Allan Pacey, especialista em Andrologia da Universidade de Sheffield, Grã-Bretanha, considerou os resultados da pesquisa "alarmantes". Informou que, além da carne, "há anos os cientistas estão preocupados que substâncias que imitam o estrógeno, presentes em caixas d’água, plásticos ou maquiagem possam estar afetando as etapas críticas do desenvolvimento do testículos de meninos pequenos."
As transnacionais e o leite
Por outro lado, o hormônio BST, aplicado pela indústria para aumentar a produção de leite, foi proibido na Europa, mas continua liberado no Brasil, desde 1990, pelas gerências coniventes e irresponsáveis do Palácio do Planalto e seus ministérios.

O BST (somatotropina) é um hormônio de crescimento natural secretado por alguns animais. No começo da década de 1980, ainda no nascedouro das experiências transgênicas, cientistas conseguiram produzi-la em laboratório.
O "medicamento" começou a ser vendido para produtores para ser injetado em vacas, que passaram a produzir mais leite.Seu uso prejudica o sistema imunológico humano e também causa câncer. Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento mostram que em 2005 os produtores de leite brasileiros compraram 745 mil doses de BST.
No Brasil, a venda do produto foi liberada em 1990, pela gerência Collor. O laboratório Eli Lilly, do qual a Elanco é a divisão para produtos animais, foi autorizado a vender o Lactotropin, hormônio produzido pela Monsanto, a gigante mundial na área de transgênicos. E o Schering Plough Saúde Animal conseguiu licença para comercializar o Boostin, o BST produzido pelo sul-coreano LG.

Propaganda erótica
As crianças e jovens, ao mesmo tempo em que consomem quilos de alimentos com hormônios que as levam à trágica precocidade sexual, estão expostas a um amestramento erótico por parte do hipócrita monopólio dos meios de comunicação, resultando num coquetel fatal. Márcio Ruiz Schiavo, professor das áreas de Informação, Educação e Comunicação de universidades e outras instituições brasileiras, realizou na década de 1990 uma investigação denominada Pesquisa sobre Sexualidade e Relações de Gênero nos Programas Infantis de TV.
Foram monitoradas 152 horas de programação infantil das seis principais redes de televisão do país: Bandeirantes, Educativa (TVE), Globo, Manchete, Record e SBT. Em conjunto, de segunda a sexta-feira, essas emissoras disponibilizam um total de 26 horas de programação por dia, em horários facilmente acessíveis às crianças e pré-adolescentes;Segundo ele, os resultados foram preocupantes: "Uma possível exposição das crianças e pré-adolescentes a estímulos eróticos sistemáticos pode configurar, a médio e longo prazos, um processo de erotização precoce desses grupos. Este fenômeno pode resultar em consequências adversas ao desenvolvimento integral dos meninos e meninas — pois a sexualidade na TV, com frequência, aparece reduzida aos aspectos físicos, em detrimento dos componentes afetivos, psicológicos e de convivência". E conclui: "Está plenamente justificada, portanto, a grande preocupação com que muitos pais e educadores vêem essa questão".
Eis um resumo dos dados coletados:
a. É marcante a presença de estímulos eróticos e referências de gênero nos programas infantis. Em 152 horas de programação monitorada, registraram-se nada menos que 308 incidências.
b. Em média, a cada 29 minutos, as crianças e pré-adolescentes recebem um estímulo erótico e/ou referência de gênero.
c. Em geral, a referência erótica é machista e preconceituosa.
d. Há programas com conteúdos educativos. Os desenhos animados, porém, abusam dos estereótipos sexuais e/ou de gênero.
e. As produções estrangeiras (estadunidenses, mexicanas e japonesas, em sua maioria) também são pouco criteriosas na abordagem das questões de sexualidade e gênero.
f. As crianças e pré-adolescentes percebem e compreendem os estímulos eróticos que ocorrem nos programas.
g. Os meninos, além de se mostrarem mais "ligados" nessas questões que as meninas, tendem a introjetar e reproduzir os mitos, os estereótipos e preconceitos sexuais ou de gênero difundidos nos programas infantis de TV.

Números cruéis
Nesta década, a nível mundial, de cada cem adolescentes entre 15 e 19 anos, estima-se que 5 se tornam mães anualmente, o que somaria 22.473.600 nascidos de mães adolescentes.
No Brasil, as taxas de gravidez na adolescência variam, mas estima-se que de 20% a 25% do total de mulheres gestantes sejam adolescentes, havendo assim uma gestante adolescente em cada cinco mulheres.
Segundo as médicas Maria Sylvia de Souza Vitalle e Olga Maria Silverio Amancio, da Universidade Federal de São Paulo/ Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM): "Sabe-se que as adolescentes engravidam mais e mais a cada dia e em idades cada vez mais precoces.
Observa-se que a idade em que ocorre a menarca tem se adiantado em torno de quatro meses por década no nosso século. Sendo a menarca, em última análise, a resposta orgânica que reflete a interação dos vários segmentos do eixo neuroendócrino feminino, quanto mais precocemente ocorrer, mais exposta estará a adolescente à gestação".Dizem Maria Silvia e Olga que: ..."a gravidez na adolescência tem sérias implicações biológicas, familiares, emocionais e econômicas, além das jurídico-sociais, que atingem o indivíduo isoladamente e a sociedade como um todo".
No tocante à educação, a interrupção, temporária ou definitiva, no processo de educação formal, afirmam as médicas que a gravidez precoce "acarreta prejuízo na qualidade de vida e nas oportunidades futuras.
Não raro a adolescente se afasta da escola, frente a gravidez indesejada".Com frequência o pai adolescente também terá sua vida escolar, profissional e pessoal abalada e dificultada: "De modo geral, o pai costuma ser dois a três anos mais velho que a mãe adolescente.
A paternidade precoce se associa com maior frequência ao abandono dos estudos, à sujeição a trabalhos aquém da sua qualificação, a prole mais numerosa e a maior incidência de divórcios"."Outro ponto doloroso dessa questão", dizem as médicas, "é a morte da mãe decorrente de complicações da gravidez, parto e puerpério.
Sendo que na adolescência, em estudo realizado no nosso meio, verificou-se ser esta a sexta causa de morte.
Além disso, dada a imaturidade e instabilidade emocional da adolescente, podem ocorrer importantes alterações psicológicas. As taxas de suicídio nas adolescentes grávidas são mais elevadas em relação às não grávidas, principalmente nas jovens grávidas solteiras".
Texto Original Publicado em: http://www.anovademocracia.com.br/content/view/1999/105/