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terça-feira, 5 de março de 2013

O porquê do ódio a Chávez




Ele cumpriu a promessa de governar para as maiorias e mostrou que História não tinha terminado. Por isso (não por seus erros) oligarquias o detestam…

Por Ignacio Ramonet e Jean-Luc Melenchon | Tradução: Daniela Frabasile
Hugo Chávez é, sem dúvida, o chefe de Estado mais difamado no mundo. Com a aproximação das eleições presidenciais de 7 de outubro, essas difamações tornam-se cada vez mais infames, em muitos países. Testemunham o desespero dos adversários da revolução bolivariana frente à perspectiva (que as pesquisas parecem confirmar) de uma nova vitória eleitoral de Chávez.
Um líder político deve ser valorizado por seus atos, não por rumores veiculados contra ele. Os candidatos fazem promessas para ser eleitos: poucos são aqueles que, uma vez no poder, cumprem tais promessas. Desde o início, a proposta eleitoral de Chávez foi muito clara: trabalhar em benefício dos pobres, ou seja – naquele momento – a maioria dos venezuelanos. E cumpriu sua palavra.
Por isso, este é o momento de recordar o que está verdadeiramente em jogo nesta eleição, agora que o povo venezuelano é convocado a votar. A Venezuela é um país muito rico, pelos fabulosos tesouros de seu subsolo, em particular o petróleo. Mas quase toda essa riqueza estava nas mãos da elite política e das empresas transnacionais. Até 1999, o povo só recebia migalhas. Os governos que se alternavam, social-democratas ou democrata-cristãos, corruptos e submetidos aos mercados, privatizavam indiscriminadamente. Mais da metade dos venezuelanos vivia abaixo da linha de pobreza (70,8% em 1996).
Chávez fez a vontade política prevalecer. Domesticou os mercados, deteve a ofensiva neoliberal e posteriormente, graças ao envolvimento popular, fez o Estado se reapropriar dos setores estratégicos da economia. Recuperou a soberania nacional. E com ela, avançou na redistribuição da riqueza, a favor dos serviços públicos e dos esquecidos. Políticas sociais, investimento público, nacionalizações, reforma agrária, quase pleno-emprego, salário mínimo, imperativos ecológicos, acesso à moradia, direito à saúde, à educação, à aposentadoria… Chávez também se dedicou à construção de um Estado moderno. Colocou em marcha uma ambiciosa política de planejamento do uso do território: estradas, ferrovias, portos, represas, gasodutos, oleodutos.
Na política externa, apostou na integração latino-americana e privilegiou os eixos sul-sul, ao mesmo tempo que impunha aos Estados Unidos uma relação baseada no respeito mútuo… O impulso da Venezuela desencadeou uma verdadeira onda de revoluções progressistas na América Latina, convertendo este continente em um exemplo de resistência das esquerdas frente aos estragos causados pelo neoliberalismo.
Tal furacão de mudanças inverteu as estruturas tradicionais do poder e trouxe a refundação de uma sociedade que até então havia sido hierárquica, vertical e elitista. Isso só podia desencadear o ódio das classes dominantes, convencidas de serem donas legítimas do país. São essas classes burguesas que, com seus amigos protetores e Washington, vivem financiando as grandes campanhas de difamação contra Chávez. Até chegaram a organizar – junto com os grandes meios de comunicação lhes que pertencem – um golpe de Estado, em 11 de abril de 2002.
Estas campanhas continuam hoje em dia e certos setores políticos e midiáticos encarregam-se de fazer coro com elas. Assumindo – lamentavelmente – a repetição de pontos de vista como se demonstrasse que estão corretos, as mentes simples acabam acreditando que Hugo Chávez estaria implantando um “regime ditatorial no qual não há liberdade de expressão”.
Mas os fatos são teimosos. Alguém viu um “regime ditatorial” estender os limites da democracia em vez de restringi-los? E conceder o direito de voto a milhões de pessoas até então excluídas? As eleições na Venezuela só aconteciam a cada quatro anos, Chávez organizou mais de uma por ano (catorze, em treze anos), em condições de legalidade democrática, reconhecidas pela ONU, pela União Europeia, pela OEA, pelo Centro Carter, etc. Chávez demonstrou que é possível construir o socialismo em liberdade e democracia. E ainda converte esse caráter democrático em uma condição para o processo de transformação social. Chávez provou seu respeito à vontade do povo, abandonando uma reforma constitucional rejeitada pelos eleitores em um referendo em 2007. Não é por acaso que a Fundação para o Avanço Democrático [Foundation for Democratic Advancement] (FDA), do Canadá, em um estudo publicado em 2011, colocou a Venezuela em primeiro lugar na lista dos países que respeitam a justiça eleitoral.
O governo de Hugo Chávez dedica 43,2% do orçamento a políticas sociais. Resultado: a taxa de mortalidade infantil caiu pela metade. O analfabetismo foi erradicado. O número de professores, multiplicado por cinco (de 65 mil a 350 mil). O país apresenta o maior corficiente de Gini (que mede a desigualdade) da América Latina. Em um informe em janeiro de 2012, a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal, uma agência da ONU) estabelece que a Venezuela é o país sulamericano que alcançou (junto com o Equador), entre 1996 e 2010, a maior redução da taxa de pobreza. Finalmente, o instituto estadunidense de pesquisa Gallup coloca o país de Hugo Chávez como a sexta nação “mais feliz do mundo”.
O mais escandaloso, na atual campanha difamatória, é a pretenção de que a liberdade de expressão esteja restrita na Venezuela. A verdade é que o setor privado, contrário a Chávez, controla amplamente os meios de comunicação. Qualquer um pode comprovar isso. De 111 canais de televisão, 61 são privados, 37 comunitários e 13 públicos. Com a particularidade de que a parte da audiência dos canais públicos não passa de 5,4%, enquanto a dos canais privados supera 61%… O mesmo cenário repete-se nos meios radiofônicos. E 80% da imprensa escrita está nas mãos da oposição, sendo que os jornais diários mais influentes – El Universal e El Nacional – são abertamente contrários ao governo.
Nada é perfeito, naturalmente, na Venezuela bolivariana – e onde existe um regime perfeito? Mas nada justifica essas campanhas de mentiras e ódio. A nova Venezuela é a ponta da lança da onda democrática que, na América Latina, varreu os regimes oligárquicos de nove países, logo depois da queda do Muro de Berlim, quando alguns previram o “fim da história” e o “choque de civilizações” como únicos horizontes para a humanidade.
La Venezuela bolivariana es una fuente de inspiración de la que nos nutrimos, sin ceguera, sin inocencia. Con el orgullo, sin embargo, de estar del buen lado de la barricada y de reservar los golpes para el malévolo imperio de Estados Unidos, sus tan estrechamente protegidas vitrinas del Cercano Oriente y dondequiera reinen el dinero y los privilegios. ¿Por qué Chávez despierta tanto resentimiento en sus adversarios? Indudablemente porque, tal como lo hizo Bolívar, ha sabido emancipar a su pueblo de la resignación. Y abrirle el apetito por lo imposible.
A Venezuela bolivariana é uma fonte de inspiração da qual nos nutrimos, sem fechar os olhos e sem inocência. Com orgulho, no entanto, de estar do lado bom da barricada e de rerservar nossos ataques ao poder imperial dos Estados Unidos, seus aliados do Oriente Médio, tão firmemente protegidos, e qualquer situação onde reinem o dinheiro e os privilégios. Por que chávez desperta tanto rancor em seus adversários? Sem dúvida, porque, assim como fez Bolívar, soube emancipar seu povo da resignação. E abrir o apetite pelo impossível.
Fonte:http://www.outraspalavras.net/

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Saudades do comunismo

Por Leandro Fortes
03/08/2009 18:41:49
Não deixa de ser engraçado – e emblemático – o pavor físico que a presença de Hugo Chávez na presidência da Venezuela provoca numa quantidade razoável de colunistas e analistas de aleatoriedades políticas que abundam na imprensa brasileira.
De certa forma, o chavismo veio suprir a lacuna deixada pelo comunismo como doutrina do medo, expediente muito caro à direita no mundo todo, mas que no Brasil sempre oscilou entre o infantilismo ideológico e o mau caratismo.
Antes do fim dos regimes comunistas da União Soviética e de seus países satélites, no final dos anos 1980, era fácil compor um bicho-papão guloso por criancinhas, ateu e cruel, prestes a ocupar condomínios de luxo com gente grosseira e sem modos, a mijar nas piscinas e sujar o mármore dos lavabos com graxa e estrume roubado a latifúndios expropriados.
Ao longo dos anos 1990, muita gente ainda conseguiu sobreviver fa lando disso, embora fosse um discurso maluco sobre um mundo que não mais existia. Entende-se: certos vícios, sobretudo os bem remunerados, são difíceis de largar.
No vasto império da América do Norte, onde o fim do comunismo também foi comemorado como o fim da História, os falcões republicanos perceberam de cara que seria inviável continuar a assustar os eleitores com o fantasma débil e inacabado da ditadura de Fidel Castro, esse sujeito que, incrivelmente, ainda faz sujar as calças dos ruralistas brasileiros e de suas penas de aluguel.
Por essa razão, e para manter azeitado o bilionário negócio de venda de armas, os americanos inventaram a tal guerra contra as drogas, cujo resultado prático, duas décadas depois, vem a ser o aumento planetário da produção e do consumo de todo tipo de entorpecente, da maconha às super anfetaminas.
O Brasil, claro, embarcou na mesma canoa furada, quando, assim como no resto da América Latina de então, o presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu militarizar o comando do combate às drogas no país – o que, aliás, não mudou muito. Na Secretaria Nacional de Políticas Antidrogas (Senad), da Presidência da República, reina soberano, desde o governo FHC, o general Paulo Roberto Uchoa. George W. Bush usou o medo do terrorismo para também suprir a ausência da ameaça comunista, embora não tenha sequer tido o cuidado de mudar os métodos, baseados na mentira e na tortura, nem sempre nessa ordem. Assim foi, desde os atentados de 11 de setembro de 2001, com as invencionices sobre as armas de destruição de massa do Iraque e a prisão de Guantánamo, em Cuba, uma espécie de Auschwitz hightech. Ao sul do Equador, consolidou o tal Plano Colômbia, um desaguadouro de dólares cujo pretexto é o combate às drogas, embora qualquer índio isolado da fronteira saiba que o país de Gabriel García Márquez se tornou um estado preposto dos EUA, um Israel sulamericano.
No fim das contas, uma estratégia para se opor ao “perigo chavista”, embora não haja nenhum argumento realmente sério que sustente essa novíssima e encomendada paranóia tão bem nutrida pelas elites locais.
O mote agora, replicado aqui e acolá por analistas apavorados, é a sombra de Hugo Chávez sobre Honduras, onde um golpe de Estado passou a ser descaradamente justificado nesse contexto.
Graças aos golpistas, visivelmente uma elite branca e desesperada, como aquela que faz manifestações trajando jogging em Caracas, o chavismo teria sido abortado em Honduras, antes que virasse coisa como a Bolívia, o Equador e o Paraguai – ou seja, repúblicas perigosamente dominadas por governos populares.
São os novos comunistas, revolucionários da pior espécie porque, justamente, abriram mão das revoluções para tomar o poder pela via do voto, da democracia.
E, pior, muitos são cristãos. Quando tucanos e pefelistas se mobilizaram, inclusive à custa de compra de votos, para aprovar o projeto de reeleição de FHC, em 1997, os editoriais e colunas da mídia nacional se desmancharam em elogios e rapapés. Saudaram a quebra da regra eleitoral como um alento à democracia e condição essencial à continuidade do desmonte do Estado e à privatização dos setores estratégicos da economia, a qualquer custo.
Quando o assunto é Chávez, no entanto, qualquer movimento institucional, todos previstos nas regras constitucionais da Venezuela, é golpe. Reeleição? É golpe. Plebiscito? É golpe. TV pública? É golpe. Usar o dinheiro do petróleo em projetos populares? Isso, então nem se fala: é mais do que golpe, é covardia.
As tentativas de re-reeleição de Álvaro Uribe, na Colômbia, contudo, ainda passeiam no noticiário brasileiro como “nova reeleição” do corajoso cruzado contra os narcoguerrilheiros das Farc.
No Brasil, a simples insinuação de que Lula pudesse querer o mesmo virou o “golpe do terceiro mandato”.
Em Honduras, as multidões contrárias ao golpe contra o presidente Zelaya são chamadas de “manifestantes contrários ao governo interino”.
Mais ou menos o que acontece com a resistência iraquiana à invasão das tropas americanas, cujos membros foram singelamente apelidados de “insurgentes” pelo jornalismo nacional.
Os tempos do anticomunismo eram estúpidos, mas pelo menos a gente sabia do que os idiotas tinham medo, de verdade.
Texto Original Postado em:
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4730

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O presidente Chávez e as FARC: Estado e revolução

por James Petras
Quando o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pediu às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) que abandonassem a luta armada e declarou que "a guerra de guerrilhas passou à história" seguia o rumo adoptado no passado por muitos líderes revolucionários. Se remontarmos ao princípio da década de 1920, Lenine instou o nascente comunismo turco a sacrificar a sua independência revolucionária para apoiar Ataturk. Seu sucessor, Iósif Staline, animou os comunistas chineses a subordinar seu movimento revolucionário ao partido nacionalista liderado por Chiang Kai-shek. Mao Zedong deu prioridade às coligações nas quais o Partido Comunista da Indonésia submetia-se à liderança do dirigente nacionalista, o general Achmed Sukarno. Durante os acordos de paz franco-indochineses de Genebra, em 1954, Ho Chi Minh aceitou a divisão do país e instou os comunistas do Vietname do Sul a que pusessem fim à guerra de guerrilhas e trabalhassem pela unificação do país por meios eleitorais. No novo milénio, Fidel Castro declarou que "a luta armada é uma coisa do passado" e que, nas condições actuais, há outras formas de luta prioritárias. Hugo Chávez pediu muitas vezes à esquerda brasileira que apoiasse o regime social liberal do presidente Lula da Silva, apesar da sua adopção da economia de livre mercado no Fórum Social Mundial de 2002. Também conclamou os movimentos sociais latino-americanos a que apoiassem uma série de regimes pró capitalistas na América Latina, apesar da sua defesa do investimento estrangeiro, dos banqueiros e dos agro exportadores. Estas experiências de governos revolucionários, ditos radicais, que exortam seus colegas ideológicos a colaborar com regimes não revolucionários e a abandonar a luta, geralmente tiveram consequências desastrosas: o Kuomintang de Chiank Kai-shek traiu o Partido Comunista, massacrou a maioria dos seus trabalhadores e empurrou-os para as montanhas do interior. À vista de todos, os comunistas indonésios legais e seus simpatizantes e famílias sofreram de 500 mil a um milhão de mortes quando um golpe da CIA derrubou Sukarno. Os comunistas do Vietname do Sul que pretenderam participar na política eleitoral foram assassinados ou encarcerados e, em última instância, os que sobreviveram viram-se obrigados a voltar à luta guerrilheira clandestina. Os regimes eleitorais reformistas que chegaram ao poder na América Latina resgataram o capitalismo da crise dos anos noventa, desmobilizaram a esquerda e abriram as portas ao ressurgimento da direita dura em quase todo o continente. No caso da Colômbia, aparentemente, a Venezuela do presidente Chávez optou por ignorar a experiência anterior das FARC na sua tentativa de trocar a luta armada pela política eleitoral. Entre 1984 e 1989, milhares de guerrilheiros das FARC abandonaram as armas e aderiram à luta eleitoral. Os candidatos que foram eleitos congressistas, homens e mulheres, foram dizimados pelos esquadrões da morte do exército colombiano, pelos paramilitares e pelos exércitos privados da oligarquia. Assassinaram mais de 5000 líderes e militantes das FARC. Não é realmente surpreendente que Chávez os exorte a aderirem ao processo eleitoral colombiano, o regime mais sangrento e o violador mais feroz dos direitos humanos da história recente? Então, por que os líderes radicais que lideraram lutas armadas, uma vez acomodados nos seus gabinetes, pedem aos seus homólogos revolucionários que abandonem a guerra de guerrilhas e participem em processos eleitorais nos quais têm possibilidade tão duvidosas? Já se deram várias explicações em diferentes momentos para explicar o que surge como uma viragem (U-turn) política. A explicação moral Alguns críticos da viragem explicam a mudança devido a uma "degeneração moral": os líderes convertem-se em autocratas burocráticos e procuram apenas consolidar-se no poder nos seus próprios países. Esta é a posição comum adoptada pela esquerda, a oposição à políticas de Staline no que se refere à política russa em relação à revolução chinesa. Os defensores da viragem na China afirmaram que se tratava do reconhecimento dos "novos tempos" e das "oportunidades objectivas" à escala mundial, e argumentavam que o surgimento da revolução anti-colonial mundial após a Segunda Guerra Mundial criou uma simetria de objectivos entre nacionalistas e comunistas que com o tempo evoluiria rumo a um Estado não capitalista. Essas frágeis alianças conduziram à divisão do regime e a que surgissem regimes de "homens fortes" da extrema direita, o que sugere que este argumento tinha uma duração limitada. Apareceram, e ainda continuam a aparecer, numerosas variações das explicações da política da viragem, mas qualquer explicação histórica estrutural tem de contar com a diferença entre um movimento revolucionário a caminho do poder e uma liderança revolucionária que já o tem. No segundo caso, o Estado revolucionário geralmente tem de lidar com um ambiente hostil, pressões militares e intervenções, boicotes económicos e isolamento diplomático dos Estados imperialistas e seus clientes. Neste contexto, o regime revolucionário radical tem uma série de opções políticas para melhorar o seu posicionamento internacional, que vão desde o apoio declarado aos movimentos de oposição radicais estrangeiros até tentativas de mostrar moderação, conciliação e acomodação dos assuntos imperiais. Há muitos factores que influem na política externa dos regimes revolucionários. É provável que se aplique uma política revolucionária nos seguintes casos: 1) Os movimentos revolucionários estão em expansão e auguram um êxito rápido, ou seja, derrubar clientes pró imperialistas ou em por em andamento um governo progressivamente favorável. 2) O regime revolucionário chegou ao poder, enfrenta uma ameaça militar iminente para a sua consolidação e o resultado será "tudo ou nada". 3) O regime revolucionário enfrenta um sólido bloco de oposição intransigente dirigido por potências imperialistas que não mostram nenhuma vontade de negociar um acordo de convivência nem estão dispostas a assumir nenhum compromisso. Pelo contrário, os regimes revolucionários são mais propensos a renunciar ou minimizar os vínculos com movimentos revolucionários estrangeiros no caso de: 1) Não serem definitivas as possibilidades de manter relações diplomáticas e comerciais, bem como intercâmbios e investimentos, com os regimes capitalistas. 2) Os movimentos radicais estão em declínio e perdem seus apoios ou são eclipsados pelos partidos eleitorais que prometem o reconhecimento e melhores relações. 3) As mudanças sócio económicas dentro do Estado revolucionário evoluem em direcção a uma acomodação com investidores locais ou estrangeiros emergentes cujo futuro crescimento depende da associação com as elites empresariais estrangeiras e uma dissociação da forças anti capitalistas radicais. Na prática, em diferentes tempos e lugares, as duas posições polares combinam-se de acordo com uma série de circunstâncias atenuantes. Exemplo: o regime revolucionário pode buscar uma posição de acomodação com grandes regimes capitalistas economicamente importantes, enquanto continua a apoiar movimentos revolucionários em países capitalistas mais pequenos e menos significativos. Em outros casos, o regime revolucionário pode dissociar-se dos movimentos revolucionários para diversificar seus mercados e intercâmbios e, ao mesmo tempo, continuar a exprimir uma "retórica revolucionária" para consumo interno e para manter as lealdades dos movimentos reformistas do estrangeiro. A política externa, revolucionária ou não, é uma prerrogativa do corpo diplomático, que costuma dispor de muitos profissionais que não têm uma posição revolucionária e são remanescentes de tempos pré revolucionários. Sua forma de entender a política externa é recorrer às ligações e relações anteriores com seus homólogos dos países capitalistas e com as elites empresariais do seu país. Portanto, em geral, estão em constante "estado de negociação", imunes às dinâmicas revolucionárias internas e procuram aumentar ao máximo os laços diplomáticos e reduzir ao mínimo as ligações externas com movimentos revolucionários que comprometem suas relações quotidianas com os seus homólogos estrangeiros. Governo e partidos: A solidariedade e os "interesses de Estado" É possível imaginar uma situação na qual um governo revolucionário execute uma política moderada de acomodação, ao passo que o partido, partidos ou movimentos revolucionários que apoiam o governo exprimem a sua solidariedade com partidos e movimentos revolucionários do estrangeiro. Isto supõe que o Estado e o partido apoiam-se mutuamente mas são independentes quanto à política e à organização. Esta dualidade é possível se o partido decide as suas políticas através dos seus próprios fóruns de deliberação, consultando os seus membros, e não é uma "correia de transmissão" do Estado e do seu poder executivo. Por desgraça, na imensa maioria dos casos, o Estado e o partido tendem a fundir-se, os líderes do partido e dos movimentos sociais de massas tomam posições no governo, os movimentos perdem a sua autonomia e convertem-se em mecanismos para implementar as políticas estatais. Assim, as manobras diplomáticas do Ministério de Negócios Estrangeiros invalidam os princípios de solidariedade revolucionária do partido e dos movimentos, reduzindo-os a uma retórica abstracta intranscendente. Enquanto o Estado pós revolucionário tem a responsabilidade quotidiana de velar pela segurança, o emprego e o abastecimento necessário ao povo e, portanto, encontrar formas de lidar com os regimes existentes para consegui-lo, os partidos e movimentos revolucionários têm como um dos seus principais objectivos o aprofundamento e a extensão das mudanças revolucionárias contidas nos seus programas. Por outras palavras, há uma tensão inevitável entre as "razões de Estado" e o "programa revolucionário" dos movimentos de massas. Com a consolidação dos Estado pós revolucionário, a tendência que predomina na classe governante é estabilizar as relações exteriores. Isto inclui dois processos: limitar o partido revolucionário a um apoio moral aos seus homólogos externos, e sua desvinculação em relação aos movimentos revolucionários estrangeiros. A retórica revolucionária, radical e internacional continuará a ser um ritual nos aniversários de vitórias históricas, heróis revolucionários e denúncias contra os agressores imperialistas imediatos, enquanto se firmam todo tipo de acordos com os regimes capitalistas. Quando os países capitalistas estabelecem acordos diplomáticos, económicos ou políticos com um regime revolucionário, este qualifica os seus novos sócios como "progressistas" que fazem parte de uma nova onda de governo "anti imperialistas" ou "independentes". O mais notável destas novas definições dos sócios capitalistas, económicos ou diplomáticos é que não se baseiam em nenhuma mudança estrutural, de propriedade ou de classe, nem sequer em qualquer tipo de ruptura de relações com os países imperialistas. A mudança da etiqueta política produz-se quase exclusivamente em resultado da política externa do país com o regime revolucionário. Venezuela: o paradoxo das mudanças revolucionárias e a política externa conservadora O governo de Chávez segue uma política praticada pela grande maioria dos líderes revolucionários ou radicais anteriores que enfrentaram potências imperialistas hostis, adoptando políticas sócio económicas radicais para debilitar os aliados internos do império, enquanto busca aliados diplomáticos externos entre regimes capitalistas reformistas e até conservadores. Chávez apoiou o regime neoliberal de Lula no Brasil (e exortou os movimentos sociais a fazerem o mesmo), inclusive quando o ex líder sindical rebaixou drasticamente as pensões dos funcionários públicos, impôs um pacto de estabilidade do FMI e favoreceu os agro exportadores e de minerais ao invés dos trabalhadores rurais sem terra. Chávez também apoiou economicamente o regime de Kirchner na Argentina por meio da compra de títulos do Estado, inclusive quando o referido regime se negou a impugnar as privatizações ilegais da década de 90, mantém as desigualdades económicas do passado e negou-se a reconhecer legalmente a Confederação sindical independente dos trabalhadores argentinos (CTA). Para Chávez, o factor chave era a oposição da Argentina a uma intervenção estado-unidense contra a Venezuela e a recusa a integrar-se no ALCA, promovido pelos EUA. A política externa de Chávez em relação à Colômbia, principal aliado político e militar dos EUA na região, alternou a reconciliação e a recusa conforme as ameaças imediatas à soberania venezuelana. Os pontos de conflito giram em torno de várias intervenções flagrantes da Colômbia na Venezuela: em 2006, o exército colombiano sequestrou no centro de Caracas um cidadão venezuelano de origem colombiana, representante das relações exteriores das FARC. Anteriormente, o exército colombiano detivera 130 membros de forças paramilitares armadas colombianas na Venezuela, a menos de 100 km da capital. Após a detenção a Venezuela suspendeu brevemente as relações económicas, mas renovaram-se pouco após numa reunião amistosa após um encontro diplomático entre o presidente dos esquadrões da morte colombianos, Uribe e Chávez. Depois, em 2008, quando Chávez tentou mediar numa libertação de preços e abrir negociações de paz entre as FARC e o regime de Uribe, este lançou um ataque militar assassino contra o grupo negociador das FARC estabelecido na fronteira do Equador. Frente à ofensa de Uribe e sua violação da soberania equatoriana na perseguição da guerrilha, Chávez viu-se obrigado a denunciar Uribe, mobilizar o exército venezuelano e apresentar a questão perante a Organização dos Estados Americanos. Uribe lançou uma ofensiva diplomática argumentando que um computador da guerrilha, conseguido durante o ataque, continha provas do relacionamento de Chávez com as FARC. Posteriormente, Uribe e Chávez negociaram um acordo temporário na base de um entendimento mínimo, pelo qual Uribe abster-se-á de futuros ataques militares transfronteiriços. Neste contexto de espadas desembainhadas e tensões diplomáticas, Chávez optou por denunciar publicamente as FARC, por uma distância entre o seu governo e a esquerda revolucionária e pedir o seu desarmamento unilateral para ganhar a simpatia diplomática da Colômbia, Europa e Estados Unidos. Claramente, Chávez acreditou que poderia apaziguar Uribe para baixar as ameaças às fronteiras da Venezuela e reduzir as probabilidades de que a Colômbia concedesse aos EUA a utilização do seu território transfronteiriço como base de lançamento para uma invasão. A decisão de Chávez foi profundamente influenciada pelo enfraquecimento político e militar das FARC nos últimos cinco anos, pelo avanço do exército colombiano e pelo cálculo de que a eficácia das FARC como contrapeso a Uribe estava em queda. Neste contexto, Chávez provavelmente considerou mais importante a distensão diplomática com a Colômbia apoiada pelos EUA do que qualquer solidariedade passada ou uma futura recuperação táctica das FARC. Em termos gerais, quando os governos revolucionários percebem ou enfrentam uma situação de enfraquecimento, movimentos revolucionários derrotados no exterior e ameaças crescentes das potências imperialistas e dos seus satélites, é mais provável que construam pontes diplomáticas com regimes centristas ou de direita. Para conseguir o apoio diplomático, a medida mais natural para construir a confiança é sacrificar qualquer identificação com a esquerda radical, incluindo o repúdio público a qualquer iniciativa extra parlamentar. Desde as crises económicas dos anos noventa, Cuba estabeleceu estreitas relações económicas e diplomáticas com todos os Estados da América Latina (inclusive a Colômbia), opôs-se a todos os movimentos de guerrilhas e renunciou a criticar os regimes de centro direita, excepto os que a atacam publicamente como sucedeu com clientes dos EUA como ex presidente Fox do México e seu ex ministro de Negócios Estrangeiros Jorge Castañeda, um reconhecido porta-voz da CIA e do exílio cubano em Miami. Conclusão Os dilemas dos governos revolucionários giram em torno do problema de administrar o Estado, o que implica maximizar as relações económicas e diplomáticas internacionais para desenvolver a economia e defender sua segurança numa ordem mundial imperialista, enquanto vive em concordância com a sua ideologia revolucionária e solidariedade com os movimentos populares no mundo capitalista. Os riscos da solidariedade diminuem quando novos regimes de esquerda chegam ao poder ou ascendem os movimentos populares. Os riscos são maiores quando ressurge e ascende a direita. O dilema é muito agudo, porque o Estado revolucionário e o partido revolucionário estão intimamente ligados e assim se identificam: o partido é dirigido pelo presidente do Estado e há coincidências a todos os níveis entre os oficiais e os membros do governo e do partido, assim como as actividades dos últimos reflectem as prioridades do governo. Nos casos onde não há um espaço independente entre o Estado e o partido, os movimentos diplomáticos necessários para as políticas do dia a dia minam a possibilidade de que o partido (baseado nos seus princípios e deliberações internas) possa actuar independentemente em apoio aos seus homólogos internacionais. Pelo contrário, a existência de um partido revolucionário independente, que apoia o Estado mas tem a sua própria vida interna, poderia resolver o dilema ao dar prioridade à solidariedade de classe na sua "política externa". Ao recusar o papel de correia de transmissão da política externa do governo, o partido revolucionário actuaria em paralelo ao Estado, exercendo a sua oposição ao imperialismo e aos inimigos de classe internos, mas seria independente na hora de escolher alianças estrangeiras e tácticas. Dada a diferente composição da burocracia e dos corpos diplomáticos da política externa e a da base de massas radical do partido revolucionário, esta separação de Estado e movimentos reflectiria as diferenças políticas e de classes inerentes entre um corpo diplomático formado sob regimes reaccionários anteriores e acostumado a modos operativos convencionais e os activistas populares radicalizados, forjados na luta de classes e habituados a trocar ideias em fóruns internacionais com revolucionários do exterior. Os riscos de dependência diplomática de aliados capitalistas pouco fiáveis e as frágeis acomodações temporárias mais arriscadas têm que se equilibrar com os ganhos da solidariedade e o apoio de partidos e movimentos de massa na oposição comprometidos em políticas extra parlamentares.
09/Julho/2008

O original encontra-se em www.pcv-venezuela.org/index.php?option=com_content&task=view&id=3034&Itemid=49
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .