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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A história secreta da renúncia de Bento XVI

"Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral". 

O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Paris - Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.
Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.
O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.
A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.
Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.
Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.
Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.
João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.
Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.
Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.  (Tradução: Katarina Peixoto)
Fonte: http://www.cartamaior.com.br

domingo, 5 de agosto de 2012

Os documentos do mensalão do PSDB mineiro

 ISTOÉ revela relatório da Polícia Federal com a radiografia do caixa 2 da campanha do PSDB ao governo de Minas Gerais em 1998. Ele compromete um ministro de Lula e um senador. Envolve o governador Aécio Neves, deputados federais e estaduais em 17 partidos

ALAN RODRIGUES, de Belo Horizonte, e HUGO MARQUES, de Brasília
 
Nos próximos dias, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, apresentará ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma peça jurídica capaz de provocar um terremoto político tão devastador quanto o do Escândalo do Mensalão. É a denúncia contra os políticos envolvidos no inquérito policial 2245-4/140-STF, que investiga o chamado "tucanoduto" - o caixa 2 da malsucedida campanha do senador Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais, em 1998. Com mais de cinco mil páginas, o inquérito tem num relatório da Polícia Federal a completa radiografia de como foi montado o esquema e quem se beneficiou com ele.
Obtidos com exclusividade por ISTOÉ, os documentos que integram as 172 páginas dessa conclusão são mostrados pela primeira vez. Eles atingem diretamente o atual ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia (à época vice-governador e candidato a deputado federal), e envolvem o governador de Minas, Aécio Neves (que na ocasião tentava sua reeleição à Câmara). Aécio é nomeado numa lista assinada pelo coordenador financeiro da campanha, Cláudio Mourão, como beneficiário de um repasse de R$ 110 mil.
O relatório compromete ainda 159 políticos mineiros que participaram da disputa de 1998, entre eles a então senadora Júnia Marise e 82 deputados, entre federais e estaduais. No total, 17 partidos são citados, incluindo o PT, acusado de ter recebido R$ 880 mil, divididos entre 34 sacadores, sendo cinco deputados federais (confira a lista completa ao final dessa reportagem).
"Organização criminosa" - De acordo com a denúncia, o esquema capturou mais de R$ 100 milhões, com desvio de verbas de estatais e empréstimos bancários. Oficialmente, a campanha de Azeredo custou R$ 8 milhões. A intermediação entre o núcleo da campanha e os políticos favorecidos ficou a cargo da SMP&B, a agência do publicitário Marcos Valério, que, segundo a polícia, lavou parte do dinheiro com notas fiscais frias. Foi um modo de operar que serviu de laboratório de testes para o que, quatro anos depois, viria a ser o Mensalão Federal.
Reservado a promotores próximos do procurador-geral, aos poucos assessores que freqüentam o gabinete do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo, e a um grupo seleto de policiais, o documento é demolidor. "Constatou-se a existência de complexa organização criminosa que atuava a partir de uma divisão muito aprofundada de tarefas, disposta de estruturas herméticas e hierarquizadas, constituída de maneira metódica e duradoura, com o objetivo claro de obter ganhos os mais elevados possíveis, através da prática de ilícitos e do exercício de influência na política e economia local", diz o relatório da PF. Com diversos laudos periciais, extratos bancários e dezenas de depoimentos, o documento põe fim a uma batalha política entre oposição e governo que se arrasta há dois anos, desde que a CPI que apurou o Mensalão federal se recusou a investigar o caixa 2 da campanha de Eduardo Azeredo em Minas.

Com base nas informações reveladas nesse relatório fica fácil entender por que houve tanta pressão dos tucanos e até a complacência do PT para não se abrir uma CPI exclusiva para esse caso. Na ocasião, o senador Delcídio Amaral (PT-MS), que presidia a chamada CPI dos Correios, classificou de "documento apócrifo" a lista elaborada pelo então coordenador financeiro da campanha de Azeredo, Cláudio Mourão, e que serviu de base para o trabalho da PF. Outra curiosidade: a denúncia da lista tinha sido feita por um companheiro do próprio partido de Delcídio, o então deputado estadual mineiro Rogério Corrêa. Mais curioso ainda: Paulinho Abi-Ackel, o filho do deputado Ibrahim Abi-Ackel, relator da CPI da Compra de Votos (e que também poderia ter investigado o caixa 2 mineiro), recebeu R$ 50 mil do esquema (leia quadro à pág. 32). Ele disse à polícia que prestou serviços de advocacia à campanha.
Nos recibos recuperados pela PF a partir da chamada "Lista de Mourão", fica provado que o dinheiro "não contabilizado" dos tucanos irrigou não só a campanha de reeleição de Azeredo, mas de boa parte da elite da política mineira. O valor total rateado entre ela teria alcançado R$ 10,8 milhões.
"Em dinheiro vivo" - Com exceção dos 82 deputados federais ou estaduais que receberam, em nome próprio ou de assessores, depósitos feitos diretamente pelas empresas de Marcos Valério, não é possível por enquanto assegurar que os repasses ao restante dos 159 políticos, incluindo o então candidato a deputado federal Aécio Neves, tiveram origem no caixa 2 operado pelo publicitário e pelo núcleo central da campanha de Eduardo Azeredo. "Muitos dos saques foram em dinheiro vivo, o que dificulta o rastreamento", garante um dos policiais que participaram dos trabalhos. Segundo a investigação da Divisão de Repressão a Crimes Financeiros, a maior parte da derrama aconteceu para a compra de apoio político no segundo turno da eleição de 1998, no qual Azeredo acabou derrotado pelo ex-presidente Itamar Franco.
Quem organizou grande parte dessa ação foi o ministro Walfrido dos Mares Guia. Na semana passada, ISTOÉ publicou carta de sua assessoria, na qual ele reiterava que, em 1998, "não foi coordenador da campanha de Eduardo Azeredo". "Mares Guia era candidato a deputado federal pelo PTB e cuidava de sua própria campanha", diz a carta. Se tiver acesso ao depoimento do ex-prefeito de Juiz de Fora Custódio de Mattos, Walfrido pode talvez refrescar sua memória. Custódio diz que foi convocado por Walfrido para apoiar Azeredo no segundo turno, "tendo recebido a quantia de R$ 25 mil", informa o relatório à página 111. "Consta transferência da SMP&B no valor de R$ 20 mil, sendo que Custódio não soube informar como recebeu o restante", registra a PF (confira quadro à pág. 37). Na época, o ex-prefeito de Juiz de Fora se elegeu deputado federal e hoje, reeleito, é secretário de Desenvolvimento Social do governador Aécio Neves. Outros três citados integram o secretariado de Aécio: Olavo Bilac, de Ciência e Tecnologia, João Batista de Oliveira, de Direitos Humanos, e Elbe Brandão, de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha.
Nas suas diligências, a Polícia Federal encontrou quatro folhas manuscritas por Walfrido, com nomes de empreiteiras, siglas, abreviações, números e valores, muitos valores. Em seu depoimento, o ministro confirmou a autenticidade dos papéis e explicou ao delegado Luiz Flávio Zampronha que a anotação "HG", que aparece ao lado de "1.000 mil", significava Hélio Garcia, o ex-governador de Minas, que na época disputava o Senado. Colocada ao lado de "500 mil", as iniciais "JM" se referem à então senadora Júnia Marise. Em seu depoimento, a assessora Maria Cristina Cardoso de Mello confirmou ter recebido um depósito da SMP&B de R$ 175 mil para Júnia Marise, como contrapartida de seu apoio a Azeredo, no segundo turno. Outro assessor da senadora, Antônio Marum, confirmou o recebimento de R$ 25 mil para saldar empréstimo contraído na campanha de 1998. Ou seja, do que foi possível confrontar com extratos bancários, as informações do dossiê original podem divergir nos números, mas não divergem em relação a nomes.
Mistério de R$ 1,8 milhão - Nos papéis de Walfrido, permanece o mistério quanto a um certo "TP 1.800 mil". Apesar de ter revelado o significado das outras abreviações da lista, o ministro não soube dizer o que era esse R$ 1,8 milhão para TP. A polícia especula com a possibilidade de TP ser o anagrama de um partido político.
Oficialmente, o coordenador financeiro da campanha foi Cláudio Mourão, que deixou a Secretaria de Administração do primeiro governo de Eduardo Azeredo para se dedicar à reeleição do governador. Na prática, contudo, quem arrecadava era o então desconhecido Marcos Valério, enquanto o ministro Mares Guia ajudava a orientar as despesas.
Na página 1.767 do inquérito, Marcos Valério conta que a SMP&B entrou na campanha de Azeredo pela porta do atual presidente da Confederação Nacional dos Transportes, Clésio Andrade, que era sócio da agência e candidato a vice na chapa dos tucanos. Em 2002, Clésio se elegeu vice de Aécio Neves. Depois, saiu da política.
Foi Valério quem montou a principal fonte do caixa 2, a operação cruzada envolvendo a agência, as empresas estatais e os bancos. No inquérito, vários laudos periciais da PF mostram que Marcos Valério obteve um total de R$ 28,5 milhões em diversas operações de empréstimos com os bancos Rural, Cidade e de Crédito Nacional. Segundo a polícia, os empréstimos eram um subterfúgio para encobrir a origem ilícita das verbas tomadas de empresas do Estado, como a Companhia de Saneamento (Copasa), Companhia Mineradora (Comig), Banco do Estado (Bemge) ou Companhia Energética (Cemig). O delegado Zampronha concluiu que a lavagem do dinheiro seguiu um mecanismo semelhante ao do Mensalão do PT, com a diferença de que, no caso dos mineiros, a garfada sobre os recursos públicos foi ainda mais explícita. Do ponto de vista legal, isso pode complicar ainda mais a vida de Marcos Valério e de todos os que participaram dessas operações.
Estatais - Um exemplo claro é o do patrocínio do Enduro da Independência, famosa prova de motocross pelas montanhas de Minas Gerais. Segundo a chamada "Lista do Mourão", o governo, com o apoio de seis estatais, arrecadou R$ 10,67 milhões para essa promoção. Em seu depoimento, Mourão não admitiu que recursos desviados das estatais tivessem sido utilizados na campanha de reeleição. No entanto, nas análises financeiras realizadas pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal detectou- se mais semelhanças que diferenças entre os valores apontados na lista de Mourão e os efetivamente gastos pelo governo e suas estatais.
As coincidências: a Cemig entrou com R$ 1.673.981,90 e a Copasa com R$ 1,5 milhão. Este mesmo valor coube à Comig, mas a "Lista do Mourão" aponta que a Comig tinha duas cotas enquanto na prática só houve o desembolso de uma delas. O Bemge, segundo a lista, participaria com R$ 1 milhão, mas a PF constatou que cinco empresas da holding deram cotas individuais de R$ 100 mil, totalizando metade do que se esperava. Em compensação, o Tesouro do Estado aportou R$ 4,576 milhões, mais que o dobro dos R$ 2 milhões registrados na "Lista do Mourão".
Na matemática da PF, o governo e suas estatais entraram de fato com R$ 9.749.981,90, contra os R$ 10.673.981,90 previstos na lista. A questão principal, contudo, não é o que entrou, mas a mixaria que saiu. A PF apurou que a SMP&B repassou apenas R$ 98 mil para a Confederação Brasileira de Motociclismo. A diferença de operações desse tipo ajudava a montar o caixa 2 ou era usada para cobrir parte dos empréstimos que Valério tomava nos bancos, à semelhança do que fez no Mensalão Federal. Segundo a "Lista do Mourão", dos mais de R$ 100 milhões que teriam sido arrecadados para a reeleição de Azeredo, apenas a SMP&B e a DNA (outra agência de Valério) "movimentaram R$ 53.879.396,86".
Além das estatais mineiras, empreiteiras como a ARG, Queiroz Galvão, Erkal, Egesa, Tratex e Servix são citadas pela PF como patrocinadoras de doações irregulares. Segundo a PF, companhias privadas contribuíram com R$ 17,5 milhões para a campanha, através de transferências realizadas para as empresas de Marcos Valério. A ARG, por exemplo, fez depósitos totais de R$ 3 milhões, alguns às vésperas do primeiro turno. Eram valores pulverizados que transitavam por várias contas da DNA e, no final, parte desses recursos foi sacada em dinheiro vivo na boca do caixa. Durante a gestão de Azeredo, a ARG prestou diversos serviços ao Estado, como a duplicação da BR-381, que custou R$ 60 milhões. "A empreiteira ARG possuía motivação necessária para efetuar a doação irregular detectada, pois pretendia garantir futuros negócios", avalia Zampronha.
Com Valério arrecadando, foi montado um "núcleo central" da campanha que traçava as estratégias. Segundo as investigações, ele era constituído pelo próprio governador Azeredo, pelo vice Walfrido dos Mares Guia e pelos secretários Álvaro Azevedo, de Comunicação, Cláudio Mourão, de Administração, e João Heraldo Lima, da Fazenda, hoje diretor do Banco Rural. Perdida a eleição, as relações entre eles mudaram e foi isso que permitiu à polícia mapear o esquema do Mensalão Mineiro e, mais ainda, perseguir o rastro de negócios mal explicados - a ponto de a PF ter recomendado a prisão imediata de Marcos Valério, por perturbar as investigações e ocultar documentos, e a quebra de sigilo fiscal e bancário numa empresa do ministro Mares Guia.
A pista - "Como candidato, ocupeime das tarefas políticas da campanha", escreveu o senador Azeredo em carta enviada à ISTOÉ na edição passada. "Reitero que não houve 'Mensalão' em Minas Gerais. Também não houve uso de dinheiro público na campanha de 1998, quando disputei a reeleição ao governo."
A chamada "Lista do Mourão" representa ao mesmo tempo o pomo da discórdia entre os políticos mineiros e a principal pista oferecida à PF para radiografar o caixa 2 da campanha tucana em 1998. No seu depoimento, Cláudio Mourão confirma ser sua a assinatura aposta no documento, mas diz que não o elaborou. O Laudo nº 3319/05, do Instituto de Criminalística, descarta "a possibilidade de as assinaturas de Mourão terem sido transpostas de outro documento, montagem que seria facilmente detectada pelos instrumentos óticos utilizados nos exames", diz o relatório da PF.
A briga - Essa lista só surgiu depois que Mourão decidiu processar Azeredo. O motivo principal da briga entre os dois foi uma dívida de campanha. Em 1999, Mourão cobrou de Azeredo um pagamento de R$ 500 mil, referentes à aquisição de veículos, através da locadora de seus filhos. Na conversa que os dois mantiveram, o senador tucano reconheceu que deveria honrar as dívidas de campanha, mas disse que não tinha dinheiro para isso. Segundo Azeredo, a partir daí o coordenador financeiro de sua reeleição foi se afastando, a ponto de protestar uma nota promissória assinada pelo próprio Mourão, com base numa procuração do ex-governador e que ainda estava em poder dele. Além disso, Cláudio Mourão teria proposto uma ação indenizatória no Supremo, que não a aceitou.
Na medida em que a campanha de 2002 tomou corpo e Eduardo Azeredo se viu numa disputa apertada com o atual ministro das Comunicações, Hélio Costa, ele decidiu resolver a antiga questão. Recorreu então a Mares Guia, que procurou Mourão. Nas negociações, o atual ministro das Relações Institucionais conseguiu fazer o ex-aliado reduzir a dívida: dos R$ 900 mil que Mourão passou a cobrar, baixou para R$ 700 mil. E quem pagou esse dinheiro a Cláudio Mourão? O cheque nº 007683 da agência 009 do Banco Rural, da conta cujo titular é Marcos Valério.
Segundo Azeredo, Walfrido o havia informado de que saldaria o débito com um empréstimo do Banco Rural - do qual o senador foi avalista. No dia 26 de setembro de 2002, uma semana antes da eleição de Azeredo para o Senado e uma semana depois de Marcos Valério pagar Mourão, o banco emprestou R$ 511 mil em nome da Samos Participação Ltda. Segundo Walfrido, disponibilizados pelo diretor João Heraldo, o exsecretário da Fazenda e ex-integrante do núcleo central da campanha. Azeredo arrecadou com amigos os R$ 200 mil restantes. E Marcos Valério foi reembolsado.
Quebra de sigilo - A Samos é uma holding patrimonial constituída para administrar os bens de Mares Guia e de sua família, com sede na residência do ministro em Belo Horizonte. Como então Walfrido pagou o Banco Rural para não ficar com o mico da dívida de Azeredo? Ao rastrear os créditos na conta da empresa no Banque Nationale de Paris Brasil, a polícia descobriu que eles tiveram origem em fundos de investimento cujos registros permanecem sob sigilo bancário. O ministro Joaquim Barbosa, do STF, solicitou à Receita Federal o levantamento fiscal da Samos. Os dados da quebra do sigilo são intrigantes. Em 2003, por exemplo, quando Walfrido já estava no Ministério do Turismo do governo Lula, a Samos declarou uma receita de R$ 7,18 milhões, mas teve uma movimentação de R$ 12,25 milhões. No ano anterior, a receita declarada foi bem menor, de apenas R$ 1,11 milhão. Mas a movimentação financeira foi quase o dobro, R$ 22,27 milhões.
"As informações (...) caracterizam indícios de irregularidade tributária", registra Paulo Cirilo Santos Mendes, chefe da Divisão de Programação, Controle e Avaliação da Receita Federal. O caso da Samos foi encaminhado à Superintendência Regional para ser incluído no programa de fiscalização da Receita. Além dessa questão fiscal, iniciada no ano passado, o ministro Walfrido dos Mares Guia tem agora um encontro agendado com a questão legal. Se o procurador-geral achar que as provas da Polícia Federal são suficientemente fortes para pedir um julgamento ao Supremo Tribunal, ele pode vir a ser denunciado por lavagem de dinheiro, peculato e formação de quadrilha, como ocorreu com os operadores do Mensalão do PT. É por isso que, a partir de agora, Walfrido também passa a ser uma questão política para o governo Lula. Afinal, depois de sofrer por dois anos o desgaste das acusações contra José Dirceu, Delúbio e companhia, o presidente bem que poderia ter ficado livre de ver o operador de outro mensalão como o responsável pela sua articulação com o Congresso.
Fonte: http://www.istoe.com.br/

domingo, 18 de dezembro de 2011

Por que as escolas públicas paulistas só recebem as revistas Veja, Época e IstoÈ?

CartaCapital quer saber: Por que só a Veja, Época e IstoÉ?

No dia 13 de setembro passado, o NaMariaNews publicou em primeira mão o texto Alckmin: 9 milhões pela fidelidade da 'Proba Imprensa Gloriosa' sobre as novas compras de revistas (Veja, Isto É, Época) e jornais (Folha de SP, Estado de SP) pela Secretaria de Estado da Educação, precisamente através da Fundação para o Desenvolvimento da Educação - FDE. Os contratos assinados pelo atual presidente da FDE, o Sr. José Bernardo Ortiz Monteiro, chegam ao total de R$9.074.936,00.

No mesmo texto foi salientado que, como de costume, não foram assinados contratos com a revista CartaCapital. Embutido nisso a pergunta fatal: e por que não?

No dia 16 de setembro, Mino Carta publicou on-line seu editorial "A mão que lava a outra" (versão impressa: n. 664, 21/setembro, pág. 21) e muito nos enobreceu com o seguinte parágrafo:
"Neste exato instante, recebemos a informação de que, na esteira do ex-governador José Serra e do seu ex-secretário da Educação Paulo Renato, o atual presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), José Bernardo Ortiz Monteiro, acaba de renovar contratos para o fornecimento de assinaturas com as revistas Época, IstoÉ e Veja, e os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo pelo valor total de 9 milhões de reais e alguns quebrados. Não houve licitação, está claro, assim como está que CartaCapital foi excluída mais uma vez."

Pois não é que neste exato instante recebemos a informação de que a CartaCapital está pedindo oficialmente à presidência da FDE explicações sobre tais compras? Sim, está.

Agora, CartaCapital pergunta o que o blog NaMariaNews sempre quis saber em uma porção de textos publicados desde o seu nascimento, em junho de 2009.
  • Por que comprar para as escolas públicas de SP somente a Veja, Isto É e Época?
  • Não há outras publicações similares ou melhores no mercado?
  • Qual é a justificativa "pedagógica" e/ou legal para tais compras sem licitação?
  • Com qual dos orçamentos da Secretaria de Educação a FDE executa tais compras? Já que a FDE não tem orçamento próprio e o que ela executa é a mando da Secretaria, em especial aquelas do campo pedagógico. Ou seja: alguém dentro da SEE é responsável pelo negócio das assinaturas. Quem seria e como se fundamentaram as aquisições?

Justificando o injustificável

Não é a primeira vez que compras dessa natureza são questionadas legalmente. Por exemplo, em 2009 a ONG Ação Educativa encaminhou ofício à presidência da FDE e obteve, após insistência, cópia de todo processo do contrato 15/1165/08/04 (Diário Oficial 1/10/2008 e 25/out/2008) referente à compra de 220 mil assinaturas da revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita, ligada à Abril, da Veja - no valor de R$3.700.000,00. Tudo sem licitação, usando a lei 8.666.

A partir da análise dos dados, a Ação Educativa obteve um avanço histórico:
"Em 26 de maio [2009], o Ministério Público de São Paulo então propôs ação civil de responsabilidade por ato de improbidade administrativa contra o Presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação, a Diretora e o Supervisor de Projetos Especiais, ambos da FDE, bem como contra a Fundação Vitor Civita.
"A Ação, que tem como fundamento possíveis irregularidades no contrato firmado sem licitação entre a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) e a Fundação Victor Civita, requer a responsabilização dos agentes públicos por condutas que podem ser caracterizadas como improbidade administrativa e ainda tramita na Justiça Estadual."
Trata-se do processo 0018196-44.2009.8.26.0053 (053.09.018196-7), que pode ser acompanhado no site do Tribunal de Justiça de São Paulo (ver aqui).

O pedido da Ação Educativa é muito semelhante ao que a CartaCapital faz agora. Os documentos entregues pela FDE à ONG podem ser lidos aqui. Entre eles, uma "pérola", assinada por Inácio Antonio Ovigli, então supervisor da Diretoria de Projetos Especiais, cujo conteúdo muito interessa ao NaMariaNews e à CartaCapital, a justificativa dos compradores - no caso, a SEE por meio da FDE. Alguns trechos:
"Para o atendimento das Diretrizes para o Ensino de Língua Portuguesa (Leitura, Escrita e Comunicação Oral) e Matemática, e na busca de superar mais essa condição problemática para a aprendizagem dos alunos, a SEE/SP vai implantar um programa de distribuição de materiais de apoio didático-pedagógico para alunos e professores, composto de livros, revistas, fascículos e outros suportes da escrita, destacando-se, entre essas publicações, a Revista "Nova Escola".

"Tem uma pauta editorial que privilegia matérias de orientação e elaboração de planos de aulas, além de uma variedade de temas sobre a atualidade de interesse da área educacional, abordados em reportagens, entrevistas, resenhas, depoimento de professores e alunos.

"Na pesquisa de mercado realizada no período de seleção da obra a ser adquirida, não foi localizada obra similar com as mesmas características da Revista Nova Escola. Por essa razão, foram solicitadas notas fiscais à responsável pela sua publicação, com a finalidade de comprovar que o preço a ser pago pela Fundação para o Desenvolvimento da Educação é compatível com o preço cobrado pela editora às outras instituições que adquiriram essa obra.

"Desse modo, solicitamos as providências necessárias junto à editora para a aquisição do título Nova Escola, publicada com exclusividade pela Fundação Victor Civita"
.

Evidentemente a Ação Educativa contestou esses e outros argumentos da FDE. No mínimo três pontos merecem destaque. Mas o terceiro, sem dúvida, é uma "perolona", que desvenda muito mais do que se pode imaginar sobre o fabuloso mundo dos projetos dito educacionais. Atentem bem – os grifos em negrito são da Ação Educativa, o vermelho é do NaMariaNews:

1º) A lei federal 8.666 de 21 de junho de 1993 (que "estabelece normas gerais sobre licitações e contratos administrativos pertinentes a obras, serviços, inclusive de publicidade, compras, alienações e locações no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios", incluindo a inexigibilidade de licitação) foi desacatada em seu artigo 25, que deixa claro ser vedada "a preferência de marca, que ocorreu explicitamente neste caso, uma vez que outras editoras não foram sequer consultadas".

2º) A revista Nova Escola não tem exclusividade temática. "É importante mencionar ao menos duas outras revistas que poderiam ser escolhidas para cumprir as mesmas funções da Revista Nova Escola, tais como as descritas em seu processo de compra: a Carta na Escola, Editora Confiança Ltda, e a Revista Educação, da Editora Segmento Ltda".

3º) "De acordo com os documentos (fls. 4-12 do processo FDE n. 15/1165/08/04), a motivação inicial para a elaboração do contrato foi uma carta encaminhada em 1/9/2008 pela Fundação Victor Civita à então Secretária de Educação Maria Helena Guimarães de Castro, propondo parceria, com descrição da proposta pedagógica da Nova Escola, preços e condições, além de cronograma de postagem. Ora, o contrato não partiu de uma necessidade da Secretaria de Estado, mas sim de uma oferta realizada pela Fundação e aceita pela Secretaria, que viabilizou seus termos sem consulta a outras editoras ou, principalmente, aos destinatários diretos da compra – os docentes". (Fonte – Ação Educativa)

O que mais precisa ser dito?

Aguardemos a justificativas que apresentarão à CartaCapital às compras das revistas e jornais nesta nova administração da Educação e da FDE. Talvez fosse de bom alvitre pedir-lhes que mostrem não apenas o atual contrato, mas os anteriores também.

Em entrevista dada à Conceição Lemes, do Viomundo (em 14/outubro/2010), o NaMariaNews mostrou a dinheirama que o ex-governador José Serra (via o finado ex-secretário de Educação Paulo Renato Costa Souza, o então presidente da FDE Fabio Bonini Simões de Lima, a diretora de Projetos Especiais da FDE Cláudia Rosenberg Aratangy, o supervisor de Projetos Especiais Inácio Antonio Ovigli) pagou à imprensa e certas editoras, a título de execução de "projetos pedagógicos": mais de R$250 milhões, quase absolutamente tudo sem licitação.

Daquele total (parcial), comprovados com dados do Diário Oficial, "para a Editora Abril/Fundação Victor Civita [de 2005 a 2010] foram entregues R$52.014.101,20 para comprar milhares de exemplares de diferentes publicações", entre elas a Revista Nova Escola, além da Veja, Almanaque do Estudante, Revista Recreio e Atlas da National Geographic.

Para arrematar, quero repetir o que disse naquela entrevista à Conceição Lemes: "com esse dinheiro, poderiam ser construídas quase 13 escolas ou 152 salas de aula novinhas, com capacidade para mais de 15 mil alunos nos três períodos – considerando que uma escola com 12 salas custe R$4,1 milhões, e cada sala custe cerca de R$340 mil".

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O silêncio constrangedor em torno do livro A Privataria Tucana


Sete ministros da presidente Dilma já caíram. sempre em razão de denúncias de corrupção ou tráfico de influência. Em todos os casos, a mídia cumpriu seu papel. Investigou e manchetou. Impiedosamente. A oposição botou a boca no trombone, como lhe cabe fazer. Mas desde sexta-feira o que se ouve é um Estrondoso Silêncio. Sexta-feira chegou às livrarias “A privataria tucana”.
 

De autoria do jornalista Amaury Ribeiro Jr, o livro trata de um milionário esquema de lavagem de dinheiro. Dinheiro que seria fruto de operações desde a época em que, no governo Fernando Henrique, o Brasil privatizou seu setor de telefonia.
O livro tem 340 páginas: 112 páginas são documentos [clique aqui para acessar a versão online do livro]. Documentos confidencias da CPI do Banestado, documentos obtidos em juntas comercias, e em paraísos fiscais. Personagens centrais do livro são o ex-diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de OIiveira, e José Serra. Serra e alguns dos seus familiares.
Também na sexta-feira, a revista Carta Capital chegou às bancas com o mesmo tema: o livro de Amaury. Na sexta a revista Terra Magazine entrevistou Amaury, no sábado o jornal da Gazeta informou, as redes sociais debatem desde então. E é só. Nenhuma notícia nos telejornais, jornais, na chamada Grande Mídia. Só um silêncio ensurdecedor.
Se murmura que faltaria credibilidade a Amaury Ribeiro. Isso por ele ter sido indiciado pela Polícia Federal. Há um ano, sob acusação de espionar Serra e sua família. Em seu livro, Amaury diz que investigava, isso sim, era a espionagem no ninho tucano. Da campanha de Serra contra Aécio Neves.
Perguntas: alguém invocou credibilidade do Sombra, aquele que recebia e pagava e levou à queda do governador Arruda? E quando Roberto Jefferson denunciou o chamado mensalão? Os motivos que o levaram à denúncia, a sua carreira até então, silenciaram o noticiário? Não. E nem deveriam silenciar.
O policial João Dias, que recebia dinheiro como confessou, há pouco levou à queda do ministro dos Esportes, Orlando Silva. O policial fez a denúncia dizendo ter um vídeo onde entregava dinheiro para o ministro ou os seus. O vídeo não existe. Mas o noticiário seguiu, fatos surgiram e o ministro caiu.
E Paulo Lacerda? O íntegro, o competentíssimo, honesto delegado que refundou a Polícia Federal? Lacerda deixou a Abin, foi para o exílio em Portugal por conta de um grampo eletrônico que nunca existiu. Mas que serviu para começar a matar a operação Satiagraha. Aquela que prendeu Daniel Dantas. Dantas que também está no livro.
Os citados no livro A Privataria Tucana seguem em silêncio. A mídia, sempre pronta para investigar e manchetar, segue em silêncio. Um silêncio estrondoso. Se continuar assim, um silêncio profundamente revelador.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

PF investiga propina pra "Palácio Band": a casa caiu!

Esse é o Castelo de Areia? A Camargo Corrêa ajudou Serra a consertar encanamento do "Palácio Band"?

A "Folha" ficou tão preocupada em acusar Lula de "molestador sexual" que, na última sexta, "esqueceu" de dar uma notícia importante: as propinas que teriam sido pagas a políticos do PSDB em São Paulo, pela Camargo Corrêa.
O "Estadão" deu a notícia antes da "Folha". Saiu aqui -

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,documentos-indicam-mesada-de-empreiteira-a-politicos,473013,0.htm.
Foi tudo investigado pela PF, na "Operação Castelo de Areia".
Atenção: não confundir com o caso que envolve o governador do DEM em Brasília -
http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/arruda-o-chorao-amigo-da-veja-esta-sob-suspeita.

"Castelo de Areia" é outro caso. E muito mais importante, porque afeta o núcleo de poder do Serra.
Por coincidência, o ataque a Lula na "Folha" saiu no mesmo dia em que a PF concluiu a investigação sobre a "Castelo de Areia".
A "Folha" deu a noticia com um dia de atraso, porque estava empenhada em provar que Lula é um molestador sexual....
Tanto "Folha" como "Estadão" esconderam o fato principal. Na planilha das propinas, aparece uma indicação importante: doações ao "Palácio Band".
Veja como o "Estadão" descreve o fato: "Em outro arquivo, página 18, valores ao lado da expressão "Palácio Band" - 4 anotações, entre 8 de fevereiro e 30 de setembro de 1996, somando US$ 45 mil, ou R$ 46.165. Na última planilha, página 54, na coluna "Diversos" constam nove registros, um assim descrito: "14 de setembro de 1998, campanha política, Aloísio Nunes, US$ 15.780."
Ora. Imaginem se aparecesse uma planilha com a indicação "Palácio Planalto"? Imaginem! Estaria nas manchetes, durante semanas.
"Palácio Band" vocês acham que é o que?
A sede do governo paulista fica no Palácio dos Bandeirantes. Lá, vive o chefe da imprensa paulista.
Aloysio Nunes Ferreira nós sabemos quem é: chefe da Casa Civil de Serra.
Imaginem se fosse a Dilma? Estaria na manchete.

Leiam o texto do "Estadão", e reparem como a notícia saiu bem escondida...
Documentos indicam mesada de empreiteira a políticos

AE - Agencia Estado SÃO PAULO - A Polícia Federal (PF) concluiu a Operação Castelo de Areia - investigação sobre evasão de divisas e lavagem de dinheiro envolvendo executivos da Construtora Camargo Corrêa - e anexou ao relatório documento que pode indicar suposto esquema de pagamentos mensais a parlamentares e administradores públicos e doações "por fora" para partidos políticos. O dossiê é formado por 54 planilhas que sugerem provável contabilidade paralela da empreiteira. Elas registram dados sobre 208 obras e contratos da Camargo Corrêa entre 1995 e 1998, espalhados por quase todo o País e também no exterior - Bolívia e Peru.
Os repasses teriam ocorrido naquele período em favor de deputados federais, senadores, prefeitos e servidores municipais e estaduais. Em quatro anos a empreiteira desembolsou R$ 178,16 milhões. Em 1995, segundo os registros, ela pagou R$ 17,3 milhões. Em 1996, R$ 50,54 milhões. Em 1997, R$ 41,13 milhões. No ano de 1998, R$ 69,14 milhões. O que reforça a suspeita de caixa 2 é o fato de que os números alinhados aos nomes dos supostos beneficiários estão grafados em dólares, com a taxa do dia e a conversão para reais.
O Ministério Público Federal (MPF) poderá requisitar à Justiça o envio à Procuradoria-Geral da República dos dados referentes a autoridades que detêm prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Outra medida será a abertura de vários inquéritos para investigar as obras.
"Eu não conheço o documento, portanto não posso me pronunciar", disse o criminalista Marcio Thomaz Bastos, que coordena a defesa da Camargo Corrêa. Ele observou que o processo e o inquérito correm em segredo de Justiça. "É preciso lembrar que nessa mesma operação já foram divulgadas listas de nomes que depois se verificou dizerem respeito a doações absolutamente legais, declaradas à Justiça Eleitoral."
Planilhas
Na página 54, há quatro lançamentos em nome do deputado Walter Feldman (PSDB-SP). Cada registro tem o valor de US$ 5 mil, somando US$ 20 mil entre 13 de janeiro e 14 de abril de 1998. À página 21, outros 12 lançamentos associados ao nome Feldman, entre 26 de janeiro e 23 de dezembro de 1996 - US$ 5 mil por mês. O deputado indignou-se com a citação a seu nome.
Em outro arquivo, página 18, valores ao lado da expressão "Palácio Band" - 4 anotações, entre 8 de fevereiro e 30 de setembro de 1996, somando US$ 45 mil, ou R$ 46.165. Na última planilha, página 54, na coluna "Diversos" constam nove registros, um assim descrito: "14 de setembro de 1998, campanha política, Aloísio Nunes, US$ 15.780." Em 10 de novembro de 1995 o então senador Gilberto Miranda teria recebido US$ 50 mil.
A planilha "CPA", página 14, revela quatro pagamentos em 1996, todos supostamente destinados a partidos, denominados "clientes". Os destaques são de 21 de março, US$ 20 mil para "líder do PMDB, Milton Monti"; 19 de julho, US$ 200 mil para PMDB-PFL; 24 de julho, US$ 200 mil para PSDB-SP; 13 de setembro, US$ 270 mil para PSDB/PMDB/PFL/PPB. Em 1998, mostra outra planilha "CPA", foram pagos US$ 1,52 milhão em 10 parcelas a PSDB, PFL, PMDB, PPB e PTB. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte:http://www.rodrigovianna.com.br/forca-da-grana/pf-investiga-propina-pra-palacio-band-a-casa-caiu

Obs. desse Blog: Esse blog repudia o "bipartidarismo" apregoado pela imprensa, que acredita existir somente duas opções de governabilidade para o Brasil ( PT e PSDB). Reproduzimos essa mátéria para denunciar o partidarismo da mídia (pró-Serra).

É importante ainda salientar que esses dois partidos não representam os interesses da classe trabalhadora, portanto é dever daqueles "que-vivem-do-trabalho"apoir os verdadeiros representantes de nossa classe.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quem vazou a prova do ENEM?


A Plural Editora e Gráfica Ltda, empresa responsável pela impressão das provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) que imprimiu a prova do é do grupo Folha de São Paulo e a empresa americana QuadGraphics.
A Plural, uma parceria do Grupo Folha com a empresa americana Quad/Graphics, foi contratada para imprimir, grampear e intercalar as diferentes versões das provas em lotes, que depois seriam embaladas em caixas divididas por Estado.
Tem alguém jogando pesado contra o governo Lula. Tentaram criar um escândalo envolvendo o ministro da Educação, Fernando Haddad; Estranho é não ter notícia de ninguém vendendo provas do Enem nos cursinhos ou diretamente para alunos. Foram vender para jornal de oposição ao governo Lula.
Funcionários da gráfica que imprimiu o Enem, em São Paulo, são os principais suspeitos do vazamento. Na conversa com o reporter do R7, o homem afirmou que o documento poderia "derrrubar o Enem e o Ministério da Educação". E ainda disse: Sou filho de desembargador, tenho 26 anos e trabalho como auxiliar da Promotoria do Estado (de S.Paulo).
Segundo conta a jornalista, na tarde de ontem o jornal foi procurado por um homem que disse, ao telefone, ter as duas provas que seriam aplicadas no sábado e no domingo. Propôs entregá-las à reportagem em troca de R$ 500 mil. "Isto aqui é muito sério, derruba o ministério", afirmou o homem. O tal homem, também procurou o site R7,do grupo TV Record.(ouça a gravação da conversa)
O homem fala que um delegado da Polícia Federal de Brasília, injuriado por não ter sido indicado para um cargo resolveu se vingar. Por que o homem não procurou a Folha? O jornal "O Estado de S. Paulo" teve acesso a uma prova impressa, fato que levou o ministro Fernando Haddad a afirmar que acredita que o vazamento tenha ocorrido após a passagem do texto pela gráfica responsável pela impressão.Justamente a gráfica do grupo Folha
Vazamento político da prova do Enem. O alvo é o ministro Fernando Haddad, candidatíssimo ao governo de S.Paulo

Vazamento do ENEM e oportunismo


por Luiz Carlos Azenha
O oportunismo político não tem limites.
Do grão-tucano Gilberto Dimenstein, por exemplo.
O caso nem começou a ser investigado e ele já decidiu:

Gilberto Dimenstein: "MEC não estava preparado para realizar o Enem"
da Folha Online
"O vazamento da prova do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) mostrou que o MEC (Ministério da Educação) não estava devidamente preparado para a aplicação do teste, marcado para o próximo fim de semana", diz Gilberto Dimenstein, membro do Conselho Editorial da Folha e colunista da Folha Online.

O jornalista ressalta neste podcast que adiamento da prova anunciado nesta quinta-feira é um caso atípico. Ele lembra que há tempos universidades como Unicamp (Universidade de Campinas), USP (Universidade de São Paulo), entre outras, têm conseguido de forma segura evitar o vazamento.
O que o Dimenstein sugere é que José Serra é competente para proteger os exames da USP e da Unicamp. O Ministério da Educação, não.
Mas antes, será que ele não deveria perguntar à Folha de S. Paulo, da qual é empregado, se não foi ela que vazou o conteúdo do ENEM?
Sim, parece uma pergunta fora de propósito, esdrúxula, absurda.
Porém, considerando que a Folha é sócia da gráfica que imprimiu os exames e que...
1. O jornal bombou uma epidemia inexistente de febre amarela, ajudando a levar milhares de pessoas a buscar vacinação sem necessidade, o que levou à morte pelo menos uma pessoa (a Conceição Lemes me corrige: pelo menos duas mortes);
2. O jornal, através de um colunista, acusou o presidente da República de ser homicida dos passageiros do avião da TAM que caiu em Congonhas;
3. O jornal publicou na primeira página uma ficha falsa da ministra Dilma Rousseff, que circula como spam pela internet;
4. O jornal bombou o noticiário sobre uma hecatombe econômica, que no Brasil vai ser bem menor do que se previa;
5. O jornal bombou uma epidemia de gripe suína, que registraria no Brasil, segundo a Folha, ao menos 35 milhões de casos;
6. O jornal inventou a "ditabranda" e depois a "ditabranda internacional", em Honduras, com o objetivo de desgastar a diplomacia brasileira.

Considerando tudo isso, seria absurdo supor que o vazamento aconteceu na gráfica parcialmente controlada pela Folha e que teve motivação política?
Será que o Ministério da Educação vai mandar imprimir o novo exame do ENEM na mesma gráfica?
Ou vai colocar a empresa sob suspeição?
Depois de Honduras, a mídia já sentiu o cheiro do novo "caos" federal.
É o caos na Educação:

Grupo que vazou Enem também procurou o R7


Reportagem disse que não compraria o material, que seria vendido a R$ 500 mil
..A reportagem do R7 também foi procurada na quarta-feira (30) por um homem que mostrou um caderno com as questões do Enem que supostamente seriam cobradas no domingo - uma delas trazia no enunciado a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias, e outra abordava a música "É Proibido Proibir", de Caetano Veloso. O tema da redação era o Estatuto do Idoso. Escute, abaixo, a conversa entre o repórter do R7 e os negociantes.



O caderno trazia selos do Enem, do MEC e do Inep (órgão do ministério que realiza o Enem). Ele foi vazado na última segunda-feira (28) à noite, segundo o grupo que procurou a reportagem. Eles pediram R$ 500 mil para vender os cadernos de prova junto com um dossiê informando como foi feito o vazamento. O R7, no entanto, disse que não compraria o material.
Dois homens do grupo procuraram a reportagem com os documentos - um deles disse se chamar Fábio. Eles afirmaram querer "levantar dinheiro" e que o documento é legítimo. O Enem foi vazado por um agente da Polícia Federal, segundo um dos homens.
- Isso vazou para mim através de um colega que é da PF, de Brasília. Ele tinha cargo dentro do Congresso e perdeu por conta de uma indicação política. É uma forma de se vingar e de levantar dinheiro.
O grupo afirmou que o documento poderia "derrrubar o Enem e o Ministério da Educação". A prova que o grupo mostrou à reportagem tinha 45 questões de matemática, 45 de linguagens e uma redação, exatamente como o modelo de exame que seria aplicado no domingo.
- Sou filho de desembargador, tenho 26 anos e trabalho como auxiliar da Promotoria do Estado. Somos todos trabalhadores, mas isso caiu no nosso colo. Queremos vender para ganhar dinheiro com isso, mas nunca fizemos isso, não temos experiência. Tenho medo da nossa integridade física, porque isso vai derrubar a prova que vale para todas as universidades federais.
O grupo disse ter "amparo legal" de um advogado e cópias do documento registradas em cartório para o caso de serem processados.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Firmino e Lina: em busca dos elos escondidos


Perdoe uma reflexão*.Não creio que haja apenas irrelevâncias nesse caso destrambelhado Lina Maria Vieira Emerenciano.
Desde que começou esta coisa, há comentários dizendo que os blogs, frequentadores etc. estão depreciando, assassinanando a imagem da ex-secretária. Quando o nome de Marina Silva entrou na roda por causa de seu marido Fábio Vaz de Lima no processo SUDAM, fizeram o mesmo.
O mesmo para Alexandre Firmino de Melo Filho. E assim vai. Daí que eu fiquei pensando. Por que aconteceria tal revertério de opiniões se antes estava tudo beleza?Então, para responder fui pesquisar. Primeiro que não estava tudo beleza, coisa nenhuma. Só a ideia era fazer crer que estava. A ignorância é uma benesse. Os sites mostram os problemas há muito tempo.
O fato é que os textos à época em que foram escritos apareceram como “mais um” no meio de outros “mais significativos”. Aparece tudo compartimentado, espalhado, sem ligação. Escândalos e situações mais rentáveis à mídia encobriram o que só estamos vendo hoje.A internet é o maior milagre, o fim da placidez; pena que não tenha existido desde os tempos de Aristóteles, ou bem antes.
A primeira pergunta que fiz ao Oráculo de Google já me deu o nome completo do marido de Lina, o que fazia, com quem, quando e por quanto. A partir disso a bola foi crescendo, não tem fim. Agora perguntam, como se não soubessem, quem indicou a Sra. Lina para o cargo? Como se ela houvesse caído do céu, perguntam como puderam cometar tamanho equívoco? Por favor, basta olhar esta busca básica para saber que ela foi indicada pelo secretário-executivo da Fazenda, Nélson Machado (e demitida por Guido Mantega).
A mesma busca vai mostrar o que segue no próximo parágrafo: confira.
A coisa é que antes ninguém havia se preocupado com esta senhora, atualmente em todos os canais de informação. Havia? Quando ela foi empossada no cargo tão importante alguém foi lá seriamente levantar a ficha virtual da moça como estão fazendo hoje? Não. Eu não perdi dois cliques com ela. O que vemos são releases oficiais e repetições de dados. Mas hoje ficamos sabendo o que deveríamos ter sabido bem antes. Até sobre sua filha joalheira, Renata Emerenciano, e sua sociedade politicamente delicada sabemos; do mesmo modo, sobre o filho radialista popular, Mução.
Estamos fazendo um trabalho que deveria ter sido feito pela imprensa instituída, caso ela fosse séria. A Sra. Lina Vieira e seu ato, ao que tudo indica, tresloucado de inventar uma situação com Dilma, deram um tremendo makeover em sua biografia, para pior. E agora ninguém mais apaga isto. O pior, agora sabem quem pode estar por trás da trama: Agripino Maia. Pelo pior dos motivos: vingança.Se tivéssemos feito há um ano o que agora fazemos, saberíamos que o Sr. Alexandre Firmino, marido de Lina, foi do FHC até os tampos.
Que é sócio de Alexandre Magno de Macedo, um funcionário do governo de Natal, em uma das suas empresas (Impressão Gráfica e Editora). Saberíamos que ele, Alexandre Firmino, concorreu em licitações governamentais tanto com a empresa Briza (que era [?] do seu sócio funcionário público, advogado, marketeiro de políticos), como com a DoisA, ao mesmo tempo.
E ganharam. Saberíamos que Firmino foi o marketeiro de Agripino Maia, entre outros semelhantes. Saberíamos que ambos serviram aos políticos que agora se pintam como baluartes da ética e bons costumes, mas os rabos estão à mostra, cheios de nós perigosíssimos. Saberíamos das Ações de Improbidade em que estavam metidos com os políticos que os contrataram, comprovadamente, até os ossos. Saberíamos que a Governadora Wilma de Faria, do RN, em 2002, indicou o publicitário Firmino para atuar em duas frentes na transição do governo: na área de contas públicas, que engloba as secretarias de Planejamento e Fazenda, Tributação e Administração e Recursos Humanos (junto com o secretário municipal de Turismo, Vágner Araújo), e na área de desenvolvimento econômico, que envolve as secretarias de Indústria, Comércio, Ciência e Tecnologia, Agricultura e de Assuntos Fundiário. Saberíamos que as empresas de Alexandre jamais saíram da sombra do Governo, ao contrário, se refestelaram graças a ele, enquanto eram (e são) pagas por todos os lados, impunemente.
E entenderíamos porque o MP, apesar de todos os esforços, acaba sempre morrendo na praia porque eles são todos absolvidos, continuam a vida como se nada houvesse passado.E por onde andava a a Sra. Lina Vieira Emerenciano o tempo todo? Sabe-se agora que em algumas ocasiões, em 2005 e 2007, por exemplo, ela estava presente em reuniões do Conselho de Desenvolvimento do Rio Grande do Norte ao lado de Alexandre Firmino, seu marido, aprovando atas onde a agência DoisA estava sendo contratada pela SECOM (Secretaria de Comunicação), como também estava lá quando a mesma empresa e outras tão comprometidas quanto recebiam seus aditivos, reajustes... Alguém escreveu qualquer coisa? Uma linha sobre tamanha promiscuidade comercial? Não.
Porque não havia a pergunta, o link, ninguém sabia, ninguém via.Pode até ser legal este tipo de sociedade e negócios, mas sem dúvida não é moral - ou é? Ainda mais quando a esposa de Firmino também é do alto escalão do Governo, é doutora diplomada, sabe tudo de tributação; ainda mais quando o sócio do marido também é advogado e sabe das leis que ao menos à época impediam tais tipos de negócios e mesmo assim os realizaram. Tanto sabia que recentemente o Alexandre Magno entrou com pedido de liberação para poder negociar numa boa tanto de um lado quanto de outro, concomitantemente. E ganhou. Portanto ele pode ser sócio da Impressão Gráfica e ganhar, além de receber como funcionário público, além de ser marketeiro de campanha para aqueles que o chefiam no Estado, além de… É uma beleza.Se tivéssemos uma imprensa para valer, coisas como estas e bem piores, estariam na cabeça de todos, assim os julgamentos seriam melhores e atuais. Talvez até pudéssemos de fato exercer a tão apregoada democracia que dizem termos. O pessoal da arquibancada poderia chiar antes do leite derramado. Mas não temos. Notícias importantes são dadas de viés, são distorcidas, são diluídas a tal ponto que nem para homeopatia servem.Sei que não dá para uma pessoa ficar alerta o tempo todo com tudo. Mas é justamente por isto que a divisão de trabalho é necessária. Se eu faço A e B, o amigo ao lado faz D e H, outro G e Q… Então a gente junta tudo e mostra. Mostra enquanto faz, que é o mais correto, não depois. Isto não é uma utopia, é o que os blogs fazem agora.
Por isto querem tanto acabar com eles, cercear-lhes a voz. A grande imprensa se deu conta que há outros formigueiros na área e as novas formigas têm outras habilidades e competências que ora faltam ou se atrofiaram nos grandes. Os formigões não estão gostando nada disto. Sabemos há séculos: se não mudarmos para nos adaptar, morremos. A entropia é a morte. Então eles querem matar quem está mudando a cena do conhecimento e da informação. Aí complica, ultrapassa a deslealdade.
Não creio que os blogs sérios como este estejam depreciando biografias mais do que os próprios biografados já o fazem por conta própria. Estão, sim, informando. Nada do que está sendo escrito, pelo menos no meu e em outros bons que sigo é notícia ou invenção, mas arqueologia da informação, ajuntamento de dados. O que outros podem fazer com tais informações, aí é outra coisa, mas a grande mídia está de olho, talvez (re)aprendam. O que sei é que os blogs investigativos precisam transformar-se em rotina, em praga, precisam virar cultura. Assim abrem-se portas de um novo pensamento crítico às próximas gerações, o que não é absurdo dizer, nem é uma pretensão lunática.Muito mais vai aparecer, a poeira só começou a levantar.Tem pecado nisso?Eu acho é que tem o começo da salvação.

*Texto original em resposta ao post O caso Lina-Sarney,em Luiz Nassif - 22/08/2009;copiado aqui com pequenas ampliações.

Outros links interessantes para comprovações dos personagens estãoneste blog, em Firmino e Lina - Alguns dados a mais.

Ver também, de Luiz Nassif:- As ligações de Lina;- O dia apareceu; o encontro, não;- Lina-Sarney, as ligações perigosas

Texto reproduzido de:
http://namarianews.blogspot.com/2009/08/firmino-e-lina-busca-dos-elos.html

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Podridão no Senado Federal

Por Luiz Bicalho
A crise econômica ajuda a aprofundar ainda mais a crise das instituições burguesas. Começam a se revelar fissuras no seio da burguesia que já não pode mais negar a sujeira no Congresso Nacional, mas busca passar que existe uma ‘parte ética’.
O Senado brasileiro é composto por 81 senadores, hoje distribuídos segundo os seguintes partidos:


Casa do Povo ou Casa da Burguesia?
Teoricamente, o Governo Lula, eleito pelo povo trabalhador, contaria então mais de 65% dos votos no Senado Federal. Esta conta, porém, é ilusória.
Em termos gerais, só existem dois partidos de base operária no Senado: o PT e o PCdoB - contando os dois juntos com 13 senadores.
Além destes, podemos contar uma série de partidos nacionalistas e pequeno-burgueses (PDT, PSB, PSOL), que contam com 8 senadores ao todo. Somando os partidos de base operária aos partidos nacionalistas e pequeno-burgueses, chegamos a um total de 21 senadores.
A grande e média burguesia contam então com o restante dos senadores (PMDB, DEM, PSDB, PP, PR, PRB, PTB) totalizando 60 senadores. Ou seja, em termos de classe, a classe operária é sub-representada neste órgão, ainda mais que dos senadores todos, hoje, somente 1 tem origem ligada à luta operária (Paulo Paim, PT-RS). Os demais senadores do PT são médicos (2), professor universitário (4), Servidor público (2), professor do ensino médio (2), engenheiro chefe (1). Como se vê, a maior parte da base organizada do PT que são os operários industriais, contam somente com um representante direto.
Este órgão então, que representa e bem a grande burguesia, no momento em que a crise atinge o país - crise econômica com amplas repercussões sociais e políticas - este órgão formado pelos políticos “mais experientes” do país, contando com dois ex-presidentes (Sarney e Collor), começa a exalar um odor putrefato como há algum tempo não se via.Lembremos: quando se falam das patifarias, toda a imprensa anota que elas começaram muito tempo antes. Então, o que levou a que somente agora tudo isso viesse a lume? Por que não conseguiram fazer, como de outras vezes, um grande “acordo de cavalheiros” que encobertasse tudo, redistribuindo benesses, favores e cargos entre os diferentes envolvidos para que todos calassem a boca?Formalmente, a crise tem origem na disputa da presidência do Senado, onde se enfrentaram o Senador Tião Viana (PT) e o Senador José Sarney (PMDB), dividindo um setor “ético” contra o setor ligado ao Senador Renan Calheiros (PMDB) que no ano passado esteve ameaçado de ser cassado e só sobreviveu devido ao apoio do governo à manutenção de seu mandato.
Renan, seguramente o homem mais poderoso do Senado, que já foi presidente da instituição e levou ao máximo o procedimento de distribuição de benesses e nomeações, é o Senador mais articulado e, na luta contra a sua cassação, obteve uma ampla ascendência sobre os outros senadores. Ele articulou a candidatura de José Sarney, este senhor que sempre consegue um alto posto com as sobras dos outros. Virou presidente por ser vice na chapa de Tancredo Neves quando do fim da ditadura militar. Virou presidente do Senado para que não aparecesse de modo tão evidente a figura do “grande eleitor” que era Renan Calheiros.
O PT, que muitas vezes dobrou-se e redobrou-se para manter a “base aliada” unificada, traindo cada vez mais a classe, em diferentes votações contrárias ao interesse dos trabalhadores (Reforma da Previdência, MP da “regularização” das terras, etc.), encheu-se de brios e resolveu mostrar ao que veio, tendo lançado um candidato para “renovar” o Senado antes de Sarney e mantendo este candidato contra a candidatura de “consenso” que Sarney pretendia representar.Na votação, Sarney obteve 49 votos e Tião Viana 32.
Se olharmos o quadro com atenção, lembramos que a classe operária junto com a pequena burguesia tem 21 senadores, sendo esta a base principal que votou em Viana. De última hora, por divergências com Renan, o PSDB aliou-se a Tião e lhe garantiu mais 11 votos. Sim, a partida estava decidida e, a partir daí, nada deveria se mexer.
Mas, em tempos de crise, pequenos movimentos podem levar a grandes conseqüências. Nós estamos vendo isso no Irã e, embora a batalha “titânica” do Senado possa ser comparada a uma briga de botequim (para não dizer uma briga num bordel) frente ao tamanho da Revolução Iraniana, a situação guarda uma certa semelhança: lá uma eleição fraudada, como sempre fraudaram as eleições por lá, levou a um movimento de massas impressionante (ler artigo de Alan Woods: A Revolução Iraniana: O que significa e para onde vai?).
Aqui, Renan, não se contentando em apenas ganhar as eleições, ao invés de se comportar como sempre se comportaram os vencedores destas “batalhas titânicas” no senado - tentando agraciar ao máximo os vencidos e recompô-los dentro das benesses e cargos - resolve que não quer ficar sozinho com a pecha de “anti-etico”. E resolve atacar o Senador Tião Viana, depois das eleições, deixando “vazar” para a imprensa que a filha de Tião usara o telefone de uso exclusivo do Senado em uma viagem de férias para o México, gerando uma conta de mais de 14 mil reais. Tião, irritado, paga a conta e resolve dar o troco. Assim começaram as “batalhas titânicas” do Senado - esse local sagrado da alta sapiência política, onde o que mais se troca são cargos e benesses e pouco se trata do interesse público e da nação.
As denúncias começaram a se suceder, de nomeações de filhos de senadores, de viagens internacionais com dinheiro do Senado, de pagamento de viagens para parentes (até o “tão ético” Suplicy entrou nessa, pagando as viagens de sua namorada com a cota do Senado) e chegaram até o esquema que organizava tudo isso.
Um bode expiatório Aqui, queremos fazer a defesa do Sr. Agaciel Maia, um injustiçado.
Há 14 anos na Diretoria Geral do Senado, posto que ocupou com diversos presidentes de diferentes partidos:
José Sarney (PMDB) de 1995 a 1997;
Antonio Carlos Magalhães (PFL - hoje DEM) de 1997 a 2001;
Jader Barbalho (PMDB) de 2001 a 2003;
José Sarney (PMDB) de 2003 a 2005;
Renan Calheiros (PMDB) de 2005 a 2007;
Tião Viana (PT) por dois meses de 2007 (após renúncia de Renan, assumiu pois era o vice);
Garibaldi Alves (PMDB) de 2007 a 2009;
José Sarney (PMDB) eleito novamente em 2009.
Como podemos ver, o Senado consegue quase sempre eleger parlamentares do PMDB, exceção feita ao breve período em que ACM foi presidente (em dois mandatos).
E todos os presidentes mantiveram Agaciel na Diretoria Geral. Reconheça-se que o Senador Tião Viana (PT) teve pouco tempo para mudar qualquer coisa, pois assumiu sendo vice de Renan Calheiros em 11/10/2007 e foi substituído em 12/12/2007 por Garibaldi Alves, sendo o seu mandato interino enquanto não se realizava nova eleição.
Hoje, na situação atual, todos apontam Agaciel como o responsável, inclusive os que mais se apresentam como lideres dos éticos, Cristovam Buarque (PDT), Artur Virgilio (PMDB) e Mercadante (PT).
Mas, se ele cometeu todos os crimes possíveis, como ninguém notou nada e como todos os presidentes de Senado o mantiveram por 14 anos?
Apontar o dedo para Agaciel e seus auxiliares e esquecer quem os nomeou é uma tentativa canhestra de, uma vez que toda a sujeira subiu do porão para o teto da casa, querer fingir que tudo está bem e que os “coitadinhos” dos senadores nada tiveram a ver com isso.E a sujeira aumenta a cada dia. Nomeação de parentes, o que todo mundo já desconfiava e volta e meia isso é assunto de alguma nova denúncia. Nada de novo por aí. Agora, que dois senadores tenham funcionários morando no exterior – um lotado no gabinete da Senadora Seris (PT) e mora em Nova York, outra na liderança do PTB, Isabela Murad, é parente de Sarney e mora em Barcelona (Espanha).
Realmente, a coisa foi um pouquinho além do “normal”.Depois, todos os contratos de terceirização feitos pelo senado, foram feitos sem o uso de pregão eletrônico, embora seja lei o uso deste. Uma comissão designada para estudar tais contratos recomendou a anulação de todos os contratos!E todos estes processos, nomeações, contratações, passagens, diárias indevidas pagas a senadores, tudo isso foi feito através de atos secretos que uma comissão contabilizou em 663 atos secretos! Isto quando a Constituição Federal declara a necessidade da publicidade dos atos para serem válidos. A mesa do Senado reuniu-se e decidiu que somente um ato (o que concedia auxílio médico vitalício para Agaciel e seus dependentes) seria anulado, mantidos todos os outros 662! E, engraçado, se nos primeiros dias vários senadores vieram pedir a nulidade dos atos, como corretamente está mantendo um procurador da república designado para o caso, isto agora desapareceu do discurso até dos “éticos”, sendo substituído pelo pedido de afastamento de Agaciel. Ou seja, já temos o nosso bode expiatório, para que mexer com aquilo que nos ajudou durante 14 anos? Essa é a lógica que todos seguem e continuam seguindo.Agora veio à tona que o senado mantinha duas contas à parte da contabilidade pública – esta que funciona com base numa conta única do tesouro nacional. Quais os pagamentos que foram feitos por estas contas? Como o dinheiro foi parar lá? Quem foi o Senador que autorizou a abertura de tais contas e a transferência de dinheiro para elas? Quem era o senador que autorizava os pagamentos que saíam de tais contas? São perguntas legítimas, mas ganhará um doce quem apostar que provavelmente estas perguntas não serão respondidas e que, muito rapidamente, também este crime será imputado ao “poderoso chefão” Agaciel ou a qualquer outro bode expiatório que apareça pelo caminho. Mais ainda, que toda a investigação contará com a prestigiosa ajuda do TCU (Tribunal de Contas da União), cujos Ministros são nomeados pelos... senadores! Os mesmos senadores que eles deveriam investigar. Alguém espera algo destes “auditores”?
A podridão existe e funciona há muito tempo. O problema é que em tempos de crise uma pequena faísca pode desencadear um incêndio de enormes proporções. Principalmente quando as brigas se sucedem e até mesmo as CPIs que são montadas (como a CPI da Petrobrás, ver outro artigo meu: Reforma Política e CPI da Petrobrás) servem para disputar cargos e verbas eleitorais e outras não tanto eleitorais. Uma pequena frase de que “eu sou a parte ética” leva a uma pequena denúncia sobre uso de telefone pela filha do senador e, a partir daí, toda a podridão é escancarada. Toda? Não sejamos tão otimistas.
O cheiro ruim e a lama podre já se derramam demais. Mas muito mais pode subir, à medida em que as brigas pelo botim que escasseia (numa crise escasseiam verbas, até para estes fiéis serviçais da burguesia) se tornam cada vez mais desesperadas.
A Esquerda Marxista tem uma posição simples: O senado é uma instituição burguesa e como tal sempre foi um apêndice anti-democrático do Estado burguês, que em nome de manter a igualdade dos estados, serve para construir um órgão muito mais afastado da população que os demais.
O mandato de 8 anos para cada senador é algo que não existe em mais nenhum lugar. Assim, para termos um país verdadeiramente democrático, extinguir o Senado seria um pequeno passo.É claro que, em nossa opinião, isso não anistia nenhum dos crimes e roubos ali cometidos e, principalmente os mandantes, deveriam ser processados e presos. Além disso, é evidente que a existência da Câmara somente não eliminará toda a podridão que lá também existe e que os deputados estão tentando manter escondida, surfando em cima dela. O exemplo mais recente é o “parecer jurídico” que anistia os deputados que pagaram passagens para familiares, amigos e amantes.Sim, em tempos de crise, os mares de lama que constituem a administração burguesa sobem e ameaçam passar por cima de todos.
É possível limpar este mar de lama? Evidente que só é possível com uma revolução socialista, com a classe trabalhadora tomando o poder e expulsando de seus “altos cargos” esta escumalha que reúne senadores, altos funcionários, altos juízes, etc.A experiência da Comuna de Paris, onde todos os seus integrantes e funcionários ganhavam o mesmo salário de um operário especializado ou ainda a experiência dos primeiros anos dos Sovietes da URSS mostram que é possível.
O trabalho da Esquerda Marxista é ajudar os operários a fazerem a experiência, a entenderem quais são as classes representadas por estes senhores e que nada podemos esperar das administrações burguesas.
O Texto Original encontra-se em:

sábado, 25 de julho de 2009

Os chacais de guarda

Por Emir Sader
O que seria dos interesses das elites dominantes, se não contassem com escribas, pagos pelas empresas de mídia privada, para tentar fazer passar esses interesses com se fossem os interesses do país? Para isso eles contam com equipes de “cães de guarda”, que defendem, com unhas e dentes, os interesses das elites dominantes, especialmente concentrados na mídia.Tentam, por exemplo, identificar a liberdade com a liberdade do capital, condenando qualquer forma de limitação à sua livre circulação. Tentar identificar liberdade com a existência da grande propriedade privada, opondo-se a qualquer definição de critérios sociais para a propriedade, especialmente a monopólica e a propriedade não produtiva no campo, opondo-se a qualquer tipo de ação de socialização da propriedade. Porque essas próprias empresas são monopolistas. O filósofo francês Paul Nizan escreveu um livro, em 1932, a que deu o nome de “Cães de guarda” para se referir aos intelectuais que prestam serviço de promover legitimidade e dar razões de sobrevivência ao poder das elites dominantes. “Eles adorariam ser Zola, mas para acusar as vítimas...”, escreve Serge Halimi, no prefácio da edição mais recente do livro, mencionando como esses guardiães da ordem estabelecida adoram estar de acordo com seus patrões, acusando os pobres, os marginalizados, as vítimas do sistema, como se fossem verdugos. “Quanto à sua obra, ela se autodestrói um quarto de segundo depois do tiro de morteiro midiático...”, acrescenta Halimi.Na introdução do livro de Halimi, “Os novos cães de guarda” – publicado no Brasil pela Jorge Zahar -, Pierre Bourdieu recorda como trabalhos de denuncia desse tipo contribui a “arruinar um dos suportes invisíveis da prática jornalística, a amnésia...” E se pergunta: “por que, de fato, os jornalistas não deveriam responder por suas palavras, dado que eles exercem um tal poder sobre o mundo social e sobre o próprio mundo do poder?”Mas, entrando já diretamente nos chacais de guarda daqui – para não ofender aos cães -, se tiverem paciência, olhem alguns dos livros que decretaram o fim do governo Lula em 2005. Uma jornalista que insiste em fazer comentários sem voltar sobre o que disse ontem, sustentava seu livro oportunista para ganhar dinheiro e agradar seus patrões com a crise de 2005, apoiada por outro colunista que come nas mesmas mãos, que reiterava essa morte do governo na contracapa do livro. Como não tem compromisso algum com o que escrevem, que só se justifica pelos serviços prestados a seus empregadores, fontes e outros representantes das elites dominantes, seguem em frente como se não tivessem dito nada ontem, como seguirão amanhã fingindo que não disseram nada hoje. Não são mais do que ventríloquos dessas elites.Indo mais longe: a imprensa que convocou os militares a dar golpe militar, apoiou a derrubada do governo legalmente constituído de Jango e sustentou o golpe militar, inclusive reproduzindo as versões mentirosas que escondiam os seqüestros, as torturas e os fuzilamentos dos opositores, segue de acordo com as posições que tiveram. Um dos jornais, que emprestou seus carros, para que os órgãos repressivos da ditadura atuassem disfarçados de jornalistas, nem sequer tentou se defender das gravíssimas acusações, que faz com que a empresa, os jornais que publicam e os membros dos comitês editoriais, tenham as mãos sujas de sangue pelos seqüestros, torturas e execuções da ditadura. Ao não fazerem autocrítica, automaticamente aceitam ter cometido esses crimes de lesa democracia e jornalismo minimamente objetivo.Essa mesma mídia vive acusando o povo de “não ter memória”. Talvez seja essa a razão pela qual elegem e reelegem os lideres políticos execrados diariamente pela mídia, porque hoje não obedecem a seus desígnios. Mas são eles os primeiros a cultuarem a falta de memória, a amnésia, de todos, ao esquecer o que disseram ontem. Estiveram a favor da ditadura, com que moral acusam governos e partidos de não ser democráticos?O que dizem os empregados de uma empresa que praticamente nasceu durante a ditadura, foi o órgão oficial da ditadura? Que legitimidade acreditam que podem ter órgãos dessa empresa?Um dos colunistas de um dos jornais da imprensa de propriedade de uma das poucas famílias que dominam de forma monopolista o ramo, se orgulha de nunca ter ido aos Forúns Sociais Mundiais, por ter ido a todos os Foruns de Davos – onde manifestamente ele se sente no seu mundo. Seria bom ele ouvir agora os arautos da globalização – incluído seu prócer FHC – para saber o que pensam da crise atual, provocada por suas políticas. Teria que se deslocar não a Davos, mas algumas prisões, onde alguns deles foram encarcerados, depois de reveladas suas trapaças – alias, nenhuma delas revelada pela imprensa, conivente e complacente com o ricaços de Davos.Um outro jornalista disse, em outro momento da sua carreira, em conferência pública, que quando um jornalista senta para escrever uma matéria, pensa, em primeiro lugar, no dono da empresa; em segundo, nas fontes do que vai publicar; em terceiro na enorme quantidade de desempregados do lado de fora da empresa. A esse filtro haveria que acrescentar as agências de publicidade e os grandes grupos econômicos que financiam os órgãos de imprensa e acabam pagando os seus salários.Foi se criando uma verdadeira casta de jornalistas, empregados dos maiores meios de imprensa no Brasil, promíscuos com o poder, que renunciam a qualquer ataque aos interesses do poder que dominou o país durante séculos: capital financeiro, grandes monopólios, latifundiários, as próprias grandes empresas monopólicas da mídia, o imperialismo norteamericano, o FMI, o Banco Mundial, a OMC, a direita política – Tucanos, DEM, FHC, Serra, Tasso Jereissatti, Jarbas Vasconcellos.Preferem, para conveniência de seus empregos e dos interesses dos seus patrões, atacar o que incomoda à direita – sindicatos, o MST, o pensamento critico, as universidades publicas, os partidos de esquerda.Além dos casos mencionados, há os pobres diabos que querem adquirir certo verniz “intelectual” – não agüentam a inveja do pensamento crítico – e citam autores, viajam pelo mundo em eventos sem nenhuma importância, escrevem em jornais e falam em rádios e TVs, sem nenhum prestigio, colunas que ninguém leva a sério ou mesmo lê. Um deles foi chefe de gabinete de um dos ditadores, depois foi demitido, fotografado na cama para a Playboy, tentando mostrar méritos que não conseguiu na política e que circulava nos governos anteriores com toda promiscuidade pelos ministérios e Palácio do Planalto – de que esse tipo de gente sentem uma falta danada.A ideologia do “’quarto poder” se tornou antiquada, porque o monopólio da mídia privada detém muito mais poder do que isso, termina dando direção ideológica e política aos fracos partidos opositores. Claro que o que realmente não são é “contra-poder”, porque na verdade fazem parte intrínseca dos poderes constituídos, como força conservadora.Como a noticia se transformou definitivamente em uma mercadoria na mão dessa casta, perdeu toda credibilidade. Conhece-se o caso de colunistas econômicos que fingem estar preocupados com a situação de um setor do empresariado, ao vendem reunião e assessoria com eles, em troca de defender mais explicitamente seus interesses. Se devem às suas fontes, a tal ponto que a editoria econômica passou a ser a mais comprometida com os interesses criados, de forma similar a como certa cobertura policial se deve às fontes nas delegacias e nas policias, sem as quais ficam sem seus “furos”. “Quem paga, comanda”, recorda Halimi. E a mídia, como sabemos é financiada não pelos leitores com as compras na banca e as assinaturas, mas pelas agencias de publicidade. E vejam quem são os grandes anunciantes, com os quais a mídia tem o rabo preso – bancos, telefonias, fabricas de automóveis, etc. Não pelas organizações populares, sindicatos, centros culturais, nada disso. Quem paga, comanda. Já vieram jornais, rádiosm televisões, colunistas, fazem campanha de denuncia – com um pouquinho da sanha que tem contra o governo e a esquerda – contra os bancos, suas falcatruas, contra as grandes corporações mutlinacionais, contra a lavagem de dinheiro nos paraísos fiscais? Nâo, porque seria tiro no pé, atentado contra os que financiam a essa mídia.Perguntado sobre como a elite controla a mídia, Chomsky respondeu: “Como ela controla a General Motors? A questão nem se coloca. A elite não tem que controlar a General Motors. Ela lhe pertence. Albert Camus disse que a mídia francesa se tornou “a vergonha do país.” E a nossa? O Brasil e seu povo têm orgulho ou vergonha dessa mídia que anda por ai?A lei apresentada pelo governo argentino para regulamentar o audiovisual – umas das razões da brutal ofensiva da imprensa de lá contra seu governo – determina que as empresas da mídia tem que declarar publicamente suas fontes de financiamento – quem as financia, com que quantidades de dinheiro. Poderiam aproveitar e declarar publicamente quanto ganham os magnatas dessa casta midiática, enquanto a massa dos jornalistas ganha uma miséria, é terceirizado e passível a qualquer momento de serem mandado embora, se não cumprem à risca as orientações que os chacais lhes impõem.Um jornalista norteamericano citado por Halimi, disse: “Sobre as questões econômicas (impostos, ajuda social, política comercial, luta contra o déficit, atitude em relação aos sindicatos), a opinião dos jornalistas de renome tornou-se muito mais conservadora à medida que suas rendas foram aumentando”.Quem discorda dos consensos que tentam impor nos seus desagradabilíssimos e redundantes programas de entrevistas ou suas colunas de merchandising , como se sabe, é chamado de “populista”, de “demagogo”, de “aventureiro”. Que são, como também se sabe, os governantes que fazem políticas sociais e têm alto nível de apoio da população. Por isso chamam sempre os mesmos, seus amigos, operadores das bolsas de valores, empresários que passam a lhes dever favores, para dizer as mesmas baboseiras que a realidade não se cansa de desmentir.“Mídias cada vez mais concentradas, jornalistas cada vez mais dóceis, uma informação cada vez mais medíocre” –conclui Halimi. E cita um político de direita francês, Claude Allègre, sobre as possibilidades do meio midiático se reformar: “Eu vou lhes dar uma resposta estritamente marxista, eu que jamais fui marxista: porque não há interesse... Por que vocês queriam que os beneficiários dessa situação sintam necessidade de mudá-la?” E, para concluir, conforme se aproxima a Conferencia Nacional de Comunicação, declaração do também conservador jornalista Frances Jacques Julliard: “Uma das reformas mais urgentes neste país, seria aquela que pudesse dar às mídias um mínimo de seriedade e de dignidade. Sobretudo de dignidade!”
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