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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Resistência Bacteriana

Por Karl
O anúncio pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) de que a venda sem receita médica de antibióticos será
proibida, gerou polêmica no meio médico e entre consumidores, farmacêuticos e associações de varejistas. A medida vem de encontro a uma resolução do ano passado da própria ANVISA, no sentido de diminuir as altas taxas de infecções multi-resistentes no Brasil.
O Brasil, por sinal, é um dos poucos países em que se pode comprar antibióticos de última geração no balcão, apenas pedindo pelo nome. Se não souber o nome, o balconista com certeza, o ajudará a encontrar a medicação mais apropriada ao seu problema. Farmacêuticos e médicos estão unidos contra a automedicação. Entretanto, ouvi numa entrevista da CBN o presidente da associação varejista de farmácias de que essa resolução estaria em desacordo ao direito do cidadão em defender-se e cuidar de sua própria saúde (!!!).
O problema da resistência bacteriana é o ponto nevrálgico da antibioticoterapia em pacientes graves. Em terapias intensivas, os germes multirresistentes são muito comuns, alguns deles, resistentes a todas as drogas antimicrobianas conhecidas! Estamos atualmente, com problemas seríssimos com cepas de Acinetobacter sp, Enterobacter aerogenes e Klebsiella pneumophila.
Os mecanismos de resistência são engenhosos sistemas de inativação das drogas.
A figura ao lado ilustra alguns desses mecanismos. Enzimas inativadoras ou degradadoras de antibióticos são codificadas por genes naturais de algumas bactérias ou conseguidas através de outras. Interessante notar que alguns desses genes são ativados por antibióticos. Isso mesmo. Alguns antibióticos desreprimem genes que causam resistência.

O pior é que isso pode ser extendido à antibióticos de maior espectro, restringindo o uso de "armas mais fortes" e tornando a bactéria mais resistente. Esses genes podem também ser transmitidos de bactéria para bactéria da mesma espécie ou até de outras espécies. Esse tipo de transmissão é chamado de horizontal (para diferencial do vertical - mãe para filha) ou HGT (horizontal gene transfer). As bactérias podem "trocar" material genético entre si (conjugação); podem captar material genético espalhado por uma co-irmã morta em combate (transformação); e por fim, podem contrair - tal como uma "doença" material genético de outra bactéria, da mesma espécie ou não, através de um vírus chamado phago (transdução). Se contar, ninguém acredita. Parece ficção científica mas é a pura realidade.Bombas de efluxo são mecanismos de bombeamento de antibióticos para fora do citoplasma bacteriano. Muitos antibióticos causam furos na membrana bacteriana para que elas tenham uma morte osmótica. Quem lembra do Star Wars III, quando Anakin e Obi Wan em naves da Federação entram em combate com outras naves e um grupo de "robozinhos do mal" sobem nas asas e começam a desmontá-las chegando a tirar a cabeça do robô do Obi Wan? Esses robozinhos são como antibióticos e as bactérias, assim como as naves, têm formas de inativá-los.
E assim segue a guerra interminável entre hospedeiro e parasita que assume, muitas vezes aspectos épicos, como o que estamos vivendo agora nas unidades de terapia intensiva.
A decisão da ANVISA em minimizar o uso indiscriminado de antibióticos pelos leigos pesa a nosso favor na luta. Agora só falta minimizar o uso indiscriminado de antibióticos também em quem tem o poder de prescrevê-los.
Mas essa é uma batalha muito mais difícil.
Texto Original Publicado em:

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A saúde sob fogo cerrado

Escrito por Raul Marcelo
Recentemente a ALESP aprovou o Projeto de Lei Complementar 62/2008, de autoria do governador do estado José Serra (PSDB), que possibilita a entrega da gestão de qualquer unidade de saúde - hospitais, laboratórios etc. - em funcionamento antes do ano de 1998 para as chamadas OSs (Organizações Sociais).
Este PLC alterou a Lei 846/1998, aprovada no governo Covas (PSDB), que entregava os hospitais inaugurados a partir da promulgação da mesma às OSs. Agora, todo e qualquer equipamento público de saúde do estado de São Paulo pode ser entregue às chamadas organizações sociais, que, segundo a definição legal, são "pessoas jurídicas de direito privado cujas atividades sejam dirigidas à saúde..., e qualificadas pelo Poder Executivo...".
A Lei 846/08 dispõe também, em seu artigo 6°, "a dispensa de licitação" para a celebração dos contratos, bem como que os mesmos serão realizados entre as OSs e a Secretaria Estadual da Saúde.
Pois bem, todo o discurso construído pelo governo e reforçado pelos partidos que lhe dão sustentação - entre os quais o Estadão, a Folha, a Globo, a Editora Abril etc. - está calcado na necessidade de melhorar a "gestão" dos hospitais e dotá-los de maior "eficiência".
O ponto fundamental deste artigo é deslindar o que esconde este discurso, quais interesses atende e seus impactos no serviço de saúde pública.
O processo de formação da atual política de saúde pública brasileira tem um longo caminho já percorrido de avanços e retrocessos, enfrentamentos ora abertos ora escamoteados.
Enfim, uma história de lutas. Basta lembrar da Revolta da Vacina, ponto alto da resistência popular e exemplo de política autoritária de saúde pública no período do Brasil Fazenda, onde a única preocupação da burguesia era manter as epidemias longe dos portos, garantindo assim que os navios pudessem atracar tranquilamente e levar nossas riquezas para a Europa.
Durante o processo de industrialização, a partir dos anos 1930, a preocupação da burguesia brasileira era conter a pressão dos trabalhadores. Já as ditaduras Getúlio e a Civil-Militar, de 1964 a 1979, encontraram como solução para a questão da saúde, no plano da política, empurrar os trabalhadores com carteira assinada para os planos de saúde privados. Desde então todo o setor privado da saúde recebe grande volume de recursos públicos. A ponto de, em 2006, todo o gasto privado na área (R$ 87 bilhões) superar o gasto público (R$ 78 bilhões).
Com a redemocratização veio o movimento pela reforma sanitária, que defendia um sistema universal de saúde. Uma luz no fim do túnel surge para os milhões de brasileiros pobres e miseráveis que vivem na informalidade e têm no serviço público a única via de acesso à assistência médica.
A saúde torna-se um "direito de todos" com a Constituição Federal de 1988, que também cria o Sistema Único de Saúde - cuja implementação é regulamentada pelas leis 8.080/90 e 8.142/90.
Essa legislação foi um avanço, em que pese o fato de continuarmos com um sistema dividido entre o público e o privado (também chamado de "complementar"). Para muitos era o passo que faltava, sendo que dali em diante era lutar para que a legislação fosse implementada. Luta inglória em tempos neoliberais.
Nos anos 1990, a Constituição Cidadã entrou na mira dos novos donos do poder no Brasil, e os direitos previstos no artigo 5° da CF começaram a sofrer ataques de todos os lados. Em especial aqueles dispostos no capítulo constitucional da Seguridade Social, que abrange o direito à saúde, à assistência social e à previdência. Reformas e mais reformas começaram a ser feitas em nossa Constituição, todas no intuito de desobrigar o Estado da responsabilidade com as áreas sociais e direcionar sua atenção para a banca da especulação.
Para delírio de Bresser Pereira e deleite do FMI e Banco Mundial, estas mudanças obtiveram êxito e o orçamento público foi seqüestrado, literalmente, por meio de um mecanismo complexo para a grande massa da população - qual seja, o endividamento público e a rolagem da respectiva dívida pública, via pagamento de juros.
Em livro publicado recentemente, sob o título "A economia política do Governo Lula", os professores Luiz Filgueiras e Reinaldo Gonçalves demonstram que os governos FHC e Lula propiciaram ao capital financeiro o montante de mais de R$ 1 trilhão em juros da dívida.
No período 1995 a 2006, os superávits primários acumulados foram de R$ 489 bilhões e a dívida pública total aumentou em mais de R$ 900 bilhões. De modo que quanto mais se paga mais a dívida cresce. No ano passado, 31% do orçamento executado da União foi gasto com a rolagem da dívida, enquanto o governo gastou míseros 4,8% com a saúde.
A Desvinculação das Receitas da União (DRU), que retira todos os anos 20% das contribuições destinadas às áreas sociais, completa o quadro de sub-financiamento do SUS.
Portanto, a grande questão colocada não é de gestão, como repetem os defensores do Capital que elaboram diversos modelos privatizantes como solução, mas sim a necessidade de aumentar os gastos públicos com saúde no Brasil.
O céu não é o limite para o Capital. Chegamos ao ponto de termos aprovado pelo Congresso Nacional a Lei 101/2000 - a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal -, que diz expressamente que os gastos públicos nos estados e municípios estão limitados para a contratação de pessoal, sob pena de o governante incorrer em crime de improbidade administrativa.
O argumento do controle das contas públicas e da necessidade de "responsabilidade fiscal" foi utilizado quando Covas fez aprovar a lei que criou as OSs no estado de São Paulo, em 1998. A não contratação de trabalhadores para os novos hospitais por concurso público, como manda a Constituição, e sim por meio da contratação destas organizações sociais, sem licitação, transferiu os recursos da rubrica orçamentária "Gastos com Pessoal" para a rubrica "Outras Despesas Correntes".
Esta metodologia seria logo em seguida disposta na Lei de Responsabilidade Fiscal e estendida para toda administração pública brasileira. Em razão do artigo 20, inciso II, da Lei Fiscal, os estados não podem "exceder o limite de 49% de seus gastos com pessoal, em relação a sua Receita Corrente Líquida". A exceção para o limite de gastos são as contratações por terceirização.
Estava dada a largada para a precarização das relações de trabalho no serviço público, via ampliação das terceirizações - agora por meio de norma legal - para todo o Brasil.
De 1998 até agora esta forma de contratação só tem feito crescer o repasse do Estado para essas entidades privadas. Segundo o relatório de execução orçamentária do governo (SIGEO), em 2004, o estado despendeu R$ 600 milhões com as OSs. Para este ano estão previstos gastos de R$ 1,8 bilhão de reais.
Quando terminamos nosso sub-relatório na CPI sobre a Remuneração dos Serviços Médicos-Hospitalares, em junho de 2008, eram 13 os hospitais sob essa modalidade de contrato. Hoje, segundo a Secretaria da Saúde, já são 25. Com previsão de chegarmos ao final do governo Serra com 40 hospitais sendo administrados pelas OSs. Ou seja, todo o sistema público de saúde está ameaçado de ser privatizado.
Como a habilitação para a celebração do contrato entre uma OSs e a Secretaria de Estado da Saúde é um ato exclusivo do secretário, está dada a abertura para todo tipo de obscuridade. Órgãos como o Conselho Estadual de Saúde não são consultados sobre a contratação dessas entidades, embora a legislação estabeleça que os conselhos devem formular, debater e fiscalizar as políticas públicas de saúde em curso no Estado.
A ausência de licitação, somada ao fato de setores do Capital terem muito interesse no "Negócio Saúde", abre os mais diferentes caminhos para o favorecimento de interesses particulares. Haja vista o fato do SECONCI (Serviço Social da Construção Civil do Estado de SP), uma entidade ligada a empresários da construção civil, administrar quatro hospitais (Itapecerica da Serra, Vila Alpina, Sapopemba e Cotia). Ou seja, mau negócio é que não é ser uma OS.
O presidente do Tribunal de Contas do Estado, Edgard Camargo Rodrigues, em recente entrevista, apontou o problema central deste modelo. "Como precificar o serviço que se está comprando? Um estado que mal tem condições de fiscalizar o que está comprando tem menos condições ainda de estabelecer preços justos pelos serviços que compra", disse. Para prosseguir afirmando, "queremos saber como se chegou a esse valor? E é sempre uma resposta vaga".
O presidente do TCE também entende que esse modelo caminha para a privatização: "Se não é essa a intenção, o caminho está aberto para isso. Especialmente com as modificações na lei das OSs em São Paulo", afirmou, acrescentando que "é como aconteceu nas estradas. Primeiro se sucateia, depois se diz: ‘só tem uma saída, vamos privatizar e cobrar pedágio’".
As terceirizações nos hospitais administrados pelas OSs ganham novo significado. Transformam-se em "quarteirização" e até "quinteirização" dos serviços prestados, como diagnosticamos em nosso sub-relatório à CPI.
Em que pese as OSs não terem fins lucrativos, ao terem a permissão de contratar todo tipo de serviços, sem controle público, o que ocorre é que empresas que prestam serviços hospitalares são convidadas a atuar dentro dos hospitais públicos e subcontratam outras. E assim por diante, gerando todo tipo de favorecimentos, acordos, e - por que não? - relações com partidos e parlamentares, financiamento de campanhas etc.
Os serviços de saúde privados já estão entre os principais doadores das campanhas eleitorais. O que temos, portanto, é uma espiral de relações que se retroalimentam a partir dos recursos públicos.
Todos os trabalhadores das OSs são terceirizados, portanto, não têm nenhum tipo de estabilidade. É esse o instrumental utilizado pelos administradores das OSs para fazer com que sejam cumpridas as metas estabelecidas nos contratos de gestão. Metas que muitas vezes não são condizentes com as necessidades de saúde da população atendida pelo hospital.
Assim, o menor número de trabalhadores possível deve produzir o máximo possível, lógica comum no capitalismo, que é ainda mais nociva quando implementada na saúde, pois critérios como a relação entre número de altas por leitos, intervalo de substituição ou taxa de mortalidade podem priorizar a produtividade e alterar a conduta médica, da mais adequada para a mais rápida. Isso sem mencionar que a super-exploração combinada com todos os tipos de assédio moral sofridos pelos trabalhadores da saúde para cumprimento das metas pode acarretar em uma série de erros médicos. Ou seja, a maior produtividade alegada pelo governador José Serra para justificar a aprovação da lei em discussão é uma grande falácia quando a análise se dá no impacto social e epidemiológico na saúde de uma determinada população atendida pelas OSs.
Soma-se a isto o fato de que, infelizmente, a representação sindical dos trabalhadores terceirizados quase inexiste ou é fragilizada por conta da alta rotatividade dos trabalhadores, que ou são demitidos ou se demitem pelas estressantes condições de trabalho, não estabelecendo nenhum vínculo com a população atendida, fato de tamanha importância para o seguimento do tratamento dos pacientes.
De maneira quase sádica, a super-exploração do trabalhador é apontada como positiva em editorial do jornal "Folha de S. Paulo", quando do debate do PLC 62/08. O jornal afirma que as OSs são boas porque trazem a "moderna contratação flexível". Quanta hipocrisia!
Na verdade, isso nada mais é do que precarização e redução de direitos dos trabalhadores. Para os milhões de trabalhadores na informalidade, que dependem exclusivamente do setor público para ter acesso a algum serviço de saúde, as filas e as peregrinações para conseguir um atendimento qualquer tendem a se intensificar em função do atendimento seletivo dos hospitais administrados pelas OSs. Seu funcionamento é de "porta fechada" em muitos casos, o que inclusive tem gerado ações por parte do Ministério Público, no sentido de garantir a internação e o atendimento dos pacientes. Caso emblemático é do Hospital Estadual de Bauru, administrado pela OS Famesp.
O planejamento das políticas públicas de saúde também fica prejudicado em função da inexistência de participação dos trabalhadores e usuários na sua formulação. Dessa forma, uma política que necessita de continuidade, até porque seus resultados dependem de uma escala temporal longa, fica à mercê da avaliação do secretário estadual de Saúde e da vontade das OSs em realizar tal e qual política lhes interessar, sem nenhum tipo de controle da sociedade.
O discurso da gestão é pura cortina de fumaça, o que se quer é privatizar o sistema. A gestão deve ser aperfeiçoada, mas isso se faz com plano de cargos e carreira, salários melhores, cursos de capacitação, democratização da gestão. Enfim, com um ambiente de trabalho saudável e uma boa carreira. Esses são os ingredientes essenciais para que os concursos públicos periódicos possam arregimentar os melhores quadros para a saúde pública.
Ter uma política de saúde digna tem um custo. E para um projeto de saúde sério será preciso investimento proporcional de recursos, não sendo razoável que gastemos, como está previsto para este ano, R$ 12 bilhões com toda a saúde pública estadual e R$ 8,8 bilhões com a rolagem dos títulos da dívida pública do estado de São Paulo. Dívida esta que cresce a cada dia, mesmo com todo o arrocho sobre o funcionalismo e o processo predatório de privatizações que ainda está em curso. Enfim, como se diz no interior, "ou o veado morre ou a onça passa fome".
Concluo com a tristeza de ver que o Ministério da Saúde do governo Lula copiou a proposta de São Paulo, em que pese sua tênue diferença, e enviou ao Congresso o Projeto de Lei 92/2007 (que cria em âmbito federal as fundações estatais de direito privado para que as mesmas possam administrar os hospitais públicos federais).
Na atual quadra da história, a defesa do SUS e da conseqüente universalização da saúde só terá êxito se vier acompanhada da denúncia do regime político hegemônico implementado no Brasil no último período e ainda em curso. A perspectiva da implementação de um atendimento universal em saúde está na capacidade de os trabalhadores brasileiros conseguirem derrotar o metabolismo do Capital e iniciarem nossa caminhada ao Socialismo.
Raul Marcelo é deputado estadual pelo PSOL/SP, líder da bancada na Assembléia Legislativa do estado de São Paulo e foi sub-relator sobre Organizações Sociais da CPI sobre a Remuneração dos Serviços Médico-Hospitalares na Alesp, entre setembro de 2007 e junho de 2008.
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3794/9/

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Serra cria “apartheid” no sistema público de saúde

Por Michelle Amaral da Silva
Por Eduardo Sales de Lima
Com nova lei, organizações sociais e planos de saúde são presenteados por tucanos.
No dia 14, fazia quatro dias que a neta de Lúcia Rejane estava internada na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Recém-nascida, a menina possui um tumor na parte externa de sua cabeça. Ela permanece internada porque a máquina de ressonância magnética está quebrada e só esse exame permitirá o diagnóstico: tumor maligno ou benigno. Preocupada, tensa, Rejane fumava dentro do complexo da Santa Casa, num espaço exterior. O hospital é público e administrado por uma organização social (OS), a Irmandade Santa Casa de Misericórdia do Estado de São Paulo.A alguns metros de Rejane, uma contradição. Existe um outro hospital, o Santa Isabel, que só atende a pessoas conveniadas e também pertence à Irmandade Santa Casa. Causa estranheza, entretanto, um hospital privado ocupando um complexo hospitalar público. A porta do pronto-socorro do hospital Santa Isabel é automática, seu interior é bem acabado, mas o mesmo se encontra vazio. Do lado dos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), contando 50 metros de distância, cerca de 150 pessoas lotavam um pronto-socorro.Rejane não estava no PS, mas, diante da sua realidade e das dezenas de pessoas esperando por atendimento médico, desabafa: “A gente não tem dinheiro e fica assim; é ruim ter essa diferença, mas os governantes querem assim”.
A dona de casa reclamou também da falta de informação e do péssimo atendimento dado a sua neta. A “diferença” de tratamento citada pela avó aflita poderá aumentar ainda mais com a nova lei aprovada pelo governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Com a mudança, o tucano poderá ampliar a terceirização de unidades públicas de saúde para entidades privadas em São Paulo e permitirá que até 25% dos atendimentos sejam dedicados aos planos de saúde. Ou seja, os hospitais estaduais gerenciados por OSs serão reembolsados por atendimentos prestados a pacientes que tenham planos de saúde.
O deputado estadual Raul Marcelo (Psol) explica que o que já é presenciado por Lúcia Rejane também o será por inúmeras pessoas. “Vai criar o apartheid nos hospitais. Nas Santas Casas já existe uma porta do SUS e outra de um órgão privado”. Como na realidade presenciada por Lúcia Rejane, Raul reforça: “é a porta do plano de saúde vai ser a modernizada”.
Para os críticos da nova lei, o atendimento a convênios prejudicará os pacientes mais pobres, que comumente enfrentam filas enormes, enquanto pessoas com cobertura privada desfrutarão, dentro da rede pública, de melhores serviços. Em declaração ao Correio da Cidadania, o diretor do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, Mário Scheffer, reforça o conceito de divisão social já dito pelo deputado Raul Marcelo e também acredita que "isso cria um verdadeiro apartheid dentro do sistema".
É só fazer as contas.
Agora, as OSs vão atender 75% dos usuários do SUS e 25% de clientes com planos de saúde. Quer dizer, um pessoa que antes esperava sete meses para ser atendida por um endocrinologista, por exemplo, terá um acréscimo de 25% no tempo. Para a administração tucana, o atendimento de planos traria mais recursos ao setor público. Mas a promotora pública Ana Trotta Yarid entrará com ação de inconstitucionalidade contra o projeto, que visa somente “abrir caminho para a entrada das organizações".Abre caminho para um setor e literalmente presenteia outro. Ela lembra, em entrevista ao Correio da Cidadania, que o governo sempre teve a possibilidade de cobrar dos planos pelos atendimentos que esses utilizaram na rede pública. O próprio secretário do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, Ismar Barbosa Cruz, afirmou no início deste ano que a dívida dos planos de saúde com o SUS é de "no mínimo, R$ 4,3 bilhões".
Nas tetas estatais
Raul Marcelo chama atenção para dados de um relatório do Dieese. Ele mostra que, em 2004, foram gastos R$ 600 milhões com OSs e, em 2008, foram gastos mais de R$ 1 bilhão. Roberto*, funcionário de uma unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) da zona leste da capital paulista, gerenciada por uma OS, denuncia que foram gastos, só para a construção de um jardim estilo japonês,Negrito cerca de R$ 20 mil, sem nenhum tipo de fiscalização.“Isso revoltou os funcionários”, diz.Por falar em revolta dos funcionários, a terceirização como consequência da criação das OSs é fator preponderante para a diminuição dos encargos trabalhistas. Entre 2000 e 2007, os gastos proporcionais com as OSs cresceram 114,14%, saltando de 9,76% para 20,90% dos recursos da saúde. Já as verbas para “pessoal e encargos sociais” caíram, proporcionalmente, 26,08%, saindo do patamar em 2000 de 53,58% para 39,6% em 2007. Esse dados constam do Sistema de Informações Gerenciais da Execução Orçamentária (Sigeo), da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo.
O governo economiza custos e obtêm maior lucratividade. Roberto, entretanto, assinala que na AMA onde trabalha nunca observou a contratação de tantos funcionários, porém, todos terceirizados. Assim como chamou a atenção da reportagem o excesso de seguranças na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Foram observados cerca de 15 seguranças.
Assanhado
Além de abrir as portas da bonança para as OSs e os planos de saúde, em dezembro de 2007, o governador ajuizou uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin), com pedido de liminar, no Supremo Tribunal Federal (STF), para derrubar a lei estadual que criou os Conselhos Gestores de Saúde no SUS. “O destaque mais negativo [com a aprovação da nova lei] é o fato dela desarticular o pouco que conquistamos no Brasil. Em primeiro lugar, a saúde é direito e dever do Estado. Em segundo lugar, ela tem que ter o controle social”, defende Raul Marcelo.

Fonte: Jornal Brasil de Fato

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Gripe A : algumas ponderações


Diante da atual pandemia de Gripe ( Influenza A ou H1N1 ) faz-se necessário algumas ponderações:
Quanto a nomenclatura do vírus:
A letra A indica o tipo mais variável de vírus, com potencial de fazer adoecer o maior número de pessoas. Os vírus da gripe humana são classificados em A, B ou C, de acordo com esse critério.
A letra H, de H1N1, é a inicial de hemoglutinina, uma proteína localizada na superfície externa do vírus e que ele utiliza para se fixar nas células humanas. O nome vem da aglutinação das células do sangue.
A letra N, de H1N1, é a inicial de neuraminidase, uma proteína que quebra os açúcares da célula sob ataque para liberar novos vírus.
Como as duas proteínas localizam-se no lado externo do vírus, são elas que o sistema imunológico detecta e que os cientistas procuram alvejar na busca por formas de matar o vírus.
Existem 16 tipos de hemoglutinina e 9 tipos de neuraminidase. Apenas as hemoglutininas 1, 2 e 3 ocorrem nos seres humanos (daí os H1, H2 e H3 nas denominações dos vírus). Da mesma forma, apenas as neuraminidases N1 e N2 são frequentes no ser humano.
Os outros tipos são encontrados em aves. Como não ficam gripadas - os vírus atacam seu sistema digestivo e não o sistema respiratório - as aves migratórias misturam os vírus em escala mundial.

Quanto ao poder dos cartéis dos Remédios.
Sabemos que a lógica capitalista é a da maximização dos lucros a qualquer custo, mesmo que seja sobre cadáveres de milhões de víveres. Essa lógica também é observada no combate a gripe suína. Vamos ao fatos:
2005 - A OMS alarma o mundo dizendo que a pandemia de gripe aviária era uma possibilidade real. Surgiram especulações e comparações com a Peste Negra, a pandemia de peste bubônica que dizimou 25 milhões de europeus no século XIV.
OMS considerou o antiviral Tamiflú, fabricado pela farmacêutica suíça Roche, sócia de Rumsfeld (lembra-se do secretário de segurança do governo Bush), o medicamento mais eficiente para reduzir o risco de morte dos pacientes infectados pelo vírus H5N1.
Resultado: Com prescrição direta da OMS orientando muitos governos a comprar doses suficientes para dar conta de 25% da população de seus países. As vendas do remédio subiram em mais de 260%, gerando receitas extras de mais de 500 milhões de dólares para os cofres da empresa suíça. (http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2005/10/18/
ult1766u12527.jhtm). Só o Brasil comprou material suficiente para fazer 9 milhões de doses.
Agora em 2009 aparece a gripe suína que segundo a Folha de São Paulo “Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses” e novamente a OMS orienta muitos governos a comprar milhões de doses dessas drogas. A OMS - O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) - informa que o vírus é sensível, in vitro, a dois inibidores da neuraminidase, o Tamiflu (fosfato de oseltamivir), da Roche, e o Relenza (zanamivir), da GlaxoSmithKline.

Mesmo sob a suspeita da ineficiência desses medicamentos, visto que o vírus Influenza é mutante, (http://www.who.int/csr/disease/swineflu/notes/h1n1_antiviral_resista
nce_20090708/es/index.html) a bondosa Roche doa seus estoques de Tamiflu (fosfato de oseltamivir) à OMS.
Será que estamos diante de uma aberração capitalista? Acredito que não. Não podemos confiar nesse pacote de “bondades” e acreditar no altruísmo dessa empresa.
“O grupo farmacêutico suíço Roche mais do que triplicou no primeiro semestre de 2009 seu faturamento com o Tamiflu, muito usado contra o vírus influenza A(H1N1), a chamada gripe suína”. (
http://www.swissinfo.ch/), (http://www.saudebusinessweb.com.br/noticias/index.asp?cod=51918)
Há muito tempo a saúde deixou de ser direito do cidadão e passou a ser um negócio muito lucrativo para as empresas principalmente àquelas que detêm o monopólio da biotecnologia. Não seria o caso que quebrar a patente desses medicamentos, se realmente for eficaz, e distribuir para os hospitais públicos?

“Me diga com quem andas que digo quem tu és”
Se investigarmos a Roche chegaremos a Gilead, empresa de Donald Rumsfeld, como frisado acima, juntos administram conjuntamente a fabricação mundial do Tamiflú, decidem juntas as eventuais autorizações de “sub licença” e coordenam em dueto as vendas nos mercados mais importantes, como Estados Unidos e Europa. (
http://www.saudebusinessweb.com.br/noticias/index.asp?cod=51918), se prosseguirmos chegaremos também a outras conclusões: a Gilead, de Donald Rumsfeld (O secretário da Defesa dos EUA) , financiada pelo governo dos Estados Unidos e pela Fundação Bill e Melinda Gates, era a responsável por testes na Nigéria, em Camarões e no Camboja com um medicamento para tratamento da AIDS. Estes testes foram suspensos após pressões populares com força suficiente para resistir à mutilação do organismo de sua própria população.
Mas, a podridão é ainda maior.
Em 1996, durante uma epidemia de meningite em Kano, Nigéria, 200 crianças doentes foram objeto dos testes de uma nova droga da Pfizer, o Trovan. A metade delas foi tratada com o Trovan. A outra com um medicamento concorrente do qual foram aplicadas doses abaixo do necessário, com o objetivo de se garantirem resultados inferiores.
Muitas das crianças-cobaia morreram ou sofreram danos permanentes como: cegueira, surdez e paralisia. Graças ao sacrifício das crianças africanas, o Trovan nunca foi aprovado para uso das crianças americanas.
Detalhe: a Pfizer não informou aos pais das crianças que se tratava de um teste, embora sabendo que o Trovan apresentava efeitos colaterais prejudiciais à saúde e poderia ser impróprio para uso humano, nem que existia um produto comprovado e relativamente barato, o clorofenicol. (http://www.correiocidadania.com.br/content/view/400/)
Essa é a lógica capitalista da maximização dos lucros a qualquer custo.

Quantos cadáveres teremos que contar até isso terminar?

Quanto aos investimentos em saúde públicas:
Alguns discursos já começam a ganhar destaque na grande mídia e na Internet.
Alguns meios de comunicação amedrontam a população empurrando-os para as unidades de saúde já superlotadas, espalhando ainda mais o vírus. Outros acusam o Ministério da Saúde de fazer uma centralização excessiva dos antivirais. ” (http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=geral&news
ID=a2589035.xml), “ é uma postura criminosa do governo recolher os antivirais” esbraveja outro internauta. Outros questionam a competência do governo federal em administrar as ações para conter multiplicação dos casos da Gripe A.
Mas, segundo a OMS e o próprio Ministério da Saúde, o índice de mortalidade dessa gripe é bem próximo a da gripe sazonal, portanto é provável que ela se espalhe por todo país sem matar em massa os brasileiros. E a automedicação seria um tiro no pé nesse momento, pois se as pessoas passarem a tomar o medicamento (antiviral) por prevenção, ou ao sentir qualquer coisa que possa ser um sintoma é que teremos é uma variedade de virus resistente, que terá uma vantagem sobre linhagens sensíveis e poderá se espalhar.
O importante nesse momento seria a prevenção (habito básicos de higiene, evitar aglomerações) e somente em caso de complicações procurar uma unidade de saúde.
Portanto, todas as pressões dessa epidemia convergirão para as unidades de saúde. Conseqüentemente é onde deverá ser empregado a grande maioria dos recursos públicos (três esferas da federação). Visto que em todo país há muitos problemas: falta de médicos, pessoal qualificado, equipamentos hospitalares, estrutura degradada ou insuficiente para suprir a demanda.
A Grande Mídia deveria investigar se todas as esferas da federação estão aplicando os recursos conforme estabelece a constituição. (a União - valor determinado a partir do crescimento anual do PIB, os Estados: 12% dos recursos próprios provenientes de impostos; e os Municípios: 15% dos recursos próprios provenientes de impostos).
Tudo indica que isso não vai acontecer. A grande mídia vai continuar desinformando, confundindo e amedrontando a população. Influenciando a automedicação e enriquecendo o cartel dos remédios.
Acredito que nesse momento de redobrarmos a participação dos cidadãos como garantido na constituição (art. 198), que por meios de nossas entidades representativas (sindicatos, movimentos sociais, associações ) e da mídia alternativa participar do processo de formulação das políticas de saúde e do controle de sua execução, em todos os níveis, desde o federal até o local.
Portanto, esse é o momento esclarecer a todos os brasileiros que a saúde é um direito primordial a vida como assegurado na CF de 1988:

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. (Constituição Federal)
Art. 198. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes:
I – descentralização, com direção única em cada esfera de governo;
II – atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais;
III – participação da comunidade.
§ 1º O sistema único de saúde será financiado, nos termos do
art. 195, com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes. (Parágrafo único renumerado para § 1º pela EC n. 29, de 2000.)