quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Nota sobre o brutal assassinato do companheiro Valmir Lopes em Boa Vista (RR)
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Cabeça a prêmio: R$ 80 mil - Defensor da floresta pede ajuda para não morrer
Antes de empreender sua longa jornada selva adentro, Raimundo Belmiro me disse:
sábado, 21 de novembro de 2009
Entre a morte e a escravidão
A fatalidade ocorreu no início de outubro, um mês antes de Cristina completar 50 anos. O marido está chegando aos 60, e agora só espera o fim da safra, em dezembro, para se aposentar. Não suportará permanecer. A irmã e companheira ainda está em estado de choque, e não voltou a trabalhar. Os sete filhos perderam aquela que consideravam "o alicerce de sua família". Tida como uma liderança entre os cortadores de cana, Cristina ocupava há alguns anos a função de encarregada, que é como se chamam os feitores no século XXI. Segundo seus companheiros, era afetuosa e justa, porém rígida.
Na cidade há entre 8 e 10 mil trabalhadores da monocultura de cana. Estima-se que pelo menos metade seja "clandestina" - não tem registro nem direitos. A região é fértil em denúncias de trabalho escravo ou degradante. Em julho, foram libertados 280 trabalhadores em condições de escravidão na cidade e redondezas. Entre eles, 22 mulheres e quatro adolescentes, sendo um de 13 anos. "A degradação aumentou nos últimos anos, porque a fiscalização é menor", diz um dos coordenadores do Comitê Popular de Combate e Erradicação do Trabalho Escravo que não quis se identificar. Em Campos, as queimadas são apenas um problema pequeno perto de uma realidade que deveria ter sido abandonada nas páginas da história.
Os trabalhadores são roubados em diversos momentos. Saem de casa para o trabalho sem saber quanto vão ganhar. O patrão é quem define o valor da cana, geralmente abaixo do preço justo. Em seguida, pode ser roubado na pesagem, na conversão de valores, e até pelo programa de computador - os patrões chegaram a desenvolver softwares "desonestos" de cálculo. "O trabalhador faz o serviço sem saber quanto vai ganhar. Nem Marx previu tanta exploração", comenta o mesmo coordenador. Bebe-se água insalubre, come-se comida estragada, mora-se em lugares sujos. Uma amostra da água bebida pelos trabalhadores chegou a apontar 100 vezes o índice máximo aceito de cloroformes fecais.
Ser clandestino acaba sendo mesmo, em parte, melhor negócio. Ganha-se 40% a mais, em média, do valor. Entretanto, trabalha-se em condições ainda mais degradantes. Trabalhadores são aliciados pelos chamados "gatos" em estados como Bahia, Alagoas, Maranhão, Piauí e Sergipe. Chegam em Campos com a promessa de carteira assinada e boas condições de trabalho. Terminam presos ao trabalho, sem dinheiro para voltar pra casa.
Emanuel é um alagoano que chegou há seis meses na região, com a promessa de ser "fichado". Terminou prisioneiro do trabalho. O Ministério Público esteve em sua casa, há dois meses, entrevistando moradores e recolhendo provas. Desde então, não voltou mais. "Só consigo dinheiro para comida e aluguel. Se pudesse, voltava pra casa [em Alagoas] hoje mesmo", diz. Emanuel às vezes se nega a cortar cana por considerar o preço muito injusto. Os alagoanos são considerados bravos na região. Talvez seja apenas um aspecto cultural. Em Campos é comum o trabalhador enxergar a si mesmo como mercadoria. Quem vem de fora nem sempre reproduz esse comportamento.
No último ano, 4.418 pessoas foram libertadas no território nacional por trabalho escravo. A cultura da cana teve forte aumento em proporção. Em 2003, representava apenas 11,4% dos casos. Em 2008, após as políticas de incentivo ao etanol, ultrapassavam 50%. O Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo foi lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2003 com o objetivo, na época, de eliminar a prática até 2006. A União Europeia chegou a ameaçar, recentemente, não importar etanol do Brasil se o trabalho escravo não fosse combatido. Segundo o artigo 149 do Código Penal, há condições análogas à escravidão quando a pessoa for submetida a trabalhos forçados ou jornada exaustiva, seja pelas condições degradantes ou por dívida provocada pelo empregador.
Cidade se caracteriza por conservadorismo e desigualdadeTalvez seja suficiente lembrar que a cidade é o berço político do casal Anthony e Rosinha Garotinho, e do falecido presidente da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, o "Caixa d´Água". A história da maior cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro é repleta de tradição, conservadorismo, e fragil mobilização social. "Basta verificar as colunas sociais. São as mesmas famílias há anos", resume o professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Marcos Pedlowski.
Com 432 mil habitantes, e a maior extensão territorial do Estado, Campos é a sexta cidade mais rica do país. Qualquer um que visita suas ruas duvida do que vê. Ruas sujas, habitações precárias, comércio pouco desenvolvido e transporte sucateado marcam a paisagem a todo momento. Negro e pobre, o povo campista parece não ser beneficiado por um centavo dos R$ 1,4 bilhão do orçamento do município. Se pudesse ser simplesmente distribuído à população, cada habitante receberia R$ 3,2 mil. O valor bilionário se deve aos royalties do petróleo.
A cidade não por acaso foi a última no Brasil a acatar a abolição da escravidão no século XIX. Os ultraconservadores barões da cana, entretanto, enfrentaram uma resistência heroica. José do Patrocínio, o "Tigre da Abolição", é campista. Com o jornalista Luís Carlos de Lacerda liderava a Sociedade Campista Emancipadora. Nos anos 60, a cidade seria o berço da organização de extrema-direita católica Tradição Família e Propriedade (TFP). Liderada pelo jornalista Plínio Correia, a TFP deu base social ao golpe civil-militar de 1964. O bispo Castro Maia apoiou Plinio até o momento em que o jornalista passou a santificar a própria mãe. Ainda forte na cidade, a TFP tem hoje duas tendências.
Politicamente, parece que toda a institucionalidade campista está interligada. Basicamente, o poder se divide entre os que orbitam em torno de Garotinho e os que começaram a trajetória a seu lado mas mudaram de rumo. Sua esposa e ex-governadora Rosinha é a prefeita da cidade, e com a política de uniformização do preço das passagens de ônibus a R$ 1,00 tende a manter o domínio. A resistência ao poder das oligarquias começou a tomar corpo em 2009. Uma série de assentamentos foi surgindo nas terras do município. Zumbi dos Palmares, Dandara, Che Guevara e Ilha Grande são os principais. Reunindo 18 organizações, o Comitê Popular de Combate e Erradicação do Trabalho Escravo é o movimento mais forte que a cidade já teve. Em 2003, seu primeiro ano, conseguiram importantes vitórias. Entretanto, sofrem com a invisibilidade e a força institucional das tradições medievais.
Um escravocrata amigo de presidenteUm nome se destaca entre os empresários do setor sucroalcooleiro. O presidente da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool, José Pessoa de Queiroz Bisneto, é a quarta geração de uma família que se construiu com a exploração da monocultura da cana. Além do Estado do Rio, tem plantações em São Paulo, Mato Grosso e Sergipe. Suas empresas tem a capacidade de moer mais de 8 milhões de toneladas de cana por ano (a título de comparação, a safra no Estado do Rio, este ano, deve ser próxima desse valor). "É o grande escravocrata hoje", define Pedlowski. Em 2004, deu R$ 1,2 milhão à Salgueiro, que levava à passarela do samba o enredo "A cana que aqui se planta tudo dá, até energia... Álcool, o combustível do futuro". A música satanizava o petróleo, alavancando a imagem do álcool. J. Pessoa, como é conhecido, chegou a ser cogitado a ministro do governo Lula, de quem é bastante próximo.
Fonte: Jornal Brasil de Fati (22 a 28 de outubro de 2009)
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Nas terras dos Carajás: um debate sobre o saque
Os professores Jean Hébette (UFPA), Rodrigo Dantas (UnB), Wanderlei Padilha (UFPA), Bruno Malheiros (UFPA) estão entre os professores que animaram os debates do Seminário Interações entre o Global e o Local, que iniciou ontem, 17, no campi da Universidade Federal do Pará (UFPA), do município de Marabá, sudeste do Pará.
O encontro que encerra no dia 19 tem como objetivo refletir sobre as tensões sociais, econômicas e políticas que conformam a região.
O debate ocorre justo quando o processo de satanizar a representação popular ganha proporção na mídia. Num momento em que a disputa pelo território se aprofunda para além das fronteiras do extrativismo mineral, na latitude conhecida como região de Carajás.
Nos dias atuais há um transbordamento para outros municípios, a exemplo do que ocorre em Ourilândia do Norte, Xinguara, São Félix do Xingu e Juruti, a oeste do estado. Tem-se ainda no sudeste do Pará nos derradeiros anos a presença de um novo sujeito, o banqueiro Daniel Dantas. O mesmo é acusado através de seu braço rural, a Agropecuária Santa Bárbara, de lavar dinheiro na região adquirindo fazendas.
Terras em particular em nome da família Mutran, que se apropriou ilegalmente de propriedades públicas cedidas através do expediente de aforamento. A ferramenta jurídica concede apenas direito de uso para o extrativismo, quando ali era frondosa uma floresta de castanha.
Além da apropriação de terras públicas há os crimes ambientais, como a derrubada da floresta para a instalação da pecuária. Tudo devidamente já registrado no Ministério Público Federal. E nada disso é contextualizado nos noticiários.
Noticiários que tal os registros dos colonizadores ou alguns romances, sempre tenderam ao enquadramento pejorativo das pelejas populares dos negros, dos índios e dos mestiços. Assim o que se convenciona chamar de elite local, sempre tratou os Cabanos como esfarrapados, bandidos e saqueadores.
Assim a mesma elite ratifica a leitura de tempos idos. Da mesma forma, no complexo xadrez na disputa pela terra e as riquezas locais, tem sido mister o tratamento com relação às populações originárias (quilombolas e indígenas), camponeses, extrativistas, pescadores e tantas outras modalidades da vasta diversidade social local.
Sempre tratados como uma representação do atraso. Gente que deve se submeter ao processo de "eficiência capitalista", ao invés de questioná-lo. A elite zanga, como se questionasse: quem é essa gente? Deveriam levar as mãos aos céus e agradecer...
A gente esfarrapa e humilde ao questionar o processo de desenvolvimento, sente o peso da lei e da construção simbólica como se fossem a encarnação do capeta na terra. Tem sido a homogeneização a perspectiva das experiências econômicas na região, baseada no extrativismo. Uma lógica em que a única coisa socializada é a tragédia dos assassinatos, a impunidade, o desmatamento e o trabalho escravo.
Uma lógica que se espraia pela Pan-Amazônia e a América Latina, onde o estado brasileiro tem peso significativo. Peso encarnado na cessão a juros módicos de fortunas para a iniciativa privada nacional e internacional através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Assim o Estado garante através de vasto recurso, afrouxamento nos processos de licenciamentos e revisão de territórios já estabelecidos, como os quilombolas o estupro às riquezas locais de corporações como Alcoa, Vale, Tractebel, Camargo Correa, entre tantas.
Na disputa pela terra e as riquezas cá existentes, é como se proclamassem: é preciso limpar o terreno: seja através de marcos legais ou não, e em particular, no universo simbólico através da mídia.
Veja como a mídia esconde os verdadeiros criminosos (latifundiários, banqueiros e grileiros)
domingo, 1 de novembro de 2009
A Concentração da Terra no Brasil e a violência no campo e na cidade

O Brasil possui os maiores latifúndios e a maior concentração de renda do mundo. Somos o país onde a miséria na zona rural cresceu mais em todo o planeta.Na história da humanidade, o latifúndio tem sido gerador de miséria para a maioria do povo e de riqueza para a ínfima elite que detém o poder, impõe políticas antipopulares e defende o imobilismo social. Os latifundiários não querem mudanças porque não admitem perder privilégios concedidos desde que os europeus começaram a explorar o Brasil. Não importa que esses privilégios beneficiem uma parcela insignificante de grandes proprietários de terras e prejudiquem o conjunto da nação.
O resultado, além da miséria e do atraso social e econômico, é uma onda de violência, que, do campo, se esparrama pela sociedade brasileira.A violência social no Brasil tem origem na má distribuição de terras, que gera injustiça e multiplica a violência em todos os graus e em todos os setores da sociedade.Partindo de alguns aspectos da violência no campo, o livro tenta demonstrar as suas relações com a sociedade. A análise da posse da terra, com base na violência repressiva contra os sem-terra, indica claramente que o Brasil precisa fazer a reforma agrária: ela deveria ter acontecido há pelo menos 200 anos.
As leis brasileiras não ajudam os trabalhadores, mas servem aos latifundiários. O Judiciário, por sua vez, respalda ações violentas da Polícia Militar, que nos últimos anos tem assassinado abertamente centenas de sem-terra, às vezes com requintes de crueldade.Quanto aos políticos, esses ficam entre o cinismo e o oportunismo: não produziram nenhuma lei ou ação efetiva para distribuir as terras improdutivas aos milhões de camponeses brasileiros.
As Formas da Violência. Todos sabemos o que é violência. Mas, para não ficarmos impressionados apenas com as cenas explícitas de pancadaria e sangue, é preciso que nos aprofundemos um pouco mais no conceito de violência. A atual velocidade da informação induz a uma certa superficialidade cômoda em relação ao sistema político que nos domina. Portanto, não é bom nos apressarmos dizendo que a violência, além das balas perdidas que matam os cariocas, ou da ação dos justiceiros que "limpam" os subúrbios paulistanos, também é a Polícia Militar armada de metralhadoras, invadindo com cães e bombas de gás os acampamentos de trabalhadores rurais ou áreas ocupadas nas periferias das cidades.. A cena já se banalizou na televisão: o camponês ou o favelado tenso, as veias do pescoço intumescidas, defende-se, com a enxada ou com pedaços de paus, da tropa que avança com cassetetes e atira para o ar, tentando o dispersar o grupo que protesta ou pretende ocupar uma área. Banal também é o repórter mostrar os cartuchos queimados de escopetas ou metralhadores, que foram disparados contra os camponeses, sem-terras ou sem-tetos. Não raro, a mãe — ou pai, marido, esposa etc. — aos prantos expõe o cadáver, o sangue, os feridos. E, fechando a reportagem, a indignação do bispo ou do padre, acusando as autoridades de se acumpliciarem com os latifundiários ou a elite econômica para expulsar o trabalhador da terra ou da área ocupada. Essas cenas, freqüentemente mostradas em horário nobre na televisão brasileira, são a face menos grave da violência no campo. São as superfícies do problema, as imagens visíveis de uma realidade muito mais densa e grave. A televisão "dramatiza" a violência, exibindo a brutalidade da repressão. As imagens de pancadaria e assassinato revelam os resultados da violência formal, com cenas tão fortes e emotivas que nos afastam da crítica das suas causas. Fácil e difícil. É necessário examinar o conteúdo dessa violência. E isso tem sido uma tarefa bastante fácil, embora repudiada. Fácil, porque é evidente que a causa da violência dramática vista na televisão é a absurda concentração de renda no Brasil: a maior do mundo. Uma ínfima minoria detém a maior parte da renda e É dona da maioria das propriedades. É o processo histórico ainda em andamento — que produziu o sistema latifundiário, em que extensões de terras, às vezes maiores que muitos países da Europa, pertencem a um único dono. Eis por que também é difícil trabalhar essa realidade: as elites sociais e políticas brasileiras são originárias e beneficiárias desse sistema de exploração e sentem-se desconfortáveis ao discutir seriamente a questão agrária. Não é à toa que tais elites, que compõem as classes dominantes e dirigentes, sintam-se mal diante do problema: debater a reforma agrária é assumir a responsabilidade de privilégios que precisam acabar, porque prejudicam o povo brasileiro. Grande parte, ainda, dessa elite repudia qualquer discussão sobre a reforma agrária, pois não quer perder nenhum dos privilégios que usurpou historicamente. Para os homens mais poderosos do Brasil — os latifundiários —, essa usurpação é considerada um direito e está garantida por lei. Racionalmente, é impossível separar as coisas: os problemas agrários, agrícolas e trabalhistas no campo só se resolvem com uma nova política fundiária, isto é, com uma redistribuição de rendas que comece pela divisão de terras dos latifundiários entre os camponeses. É evidente que os latifundiários seriam prejudicados, já que perderiam suas terras ociosas, que servem de lastro para empréstimos e especulação junto aos bancos oficiais os quais quebram, entre outras causas, por atender a esses parasitas estabelecidos tambem nas Câmaras, no Senado e em todos os desvãos do poder. Sem sua base territorial, os latifundiários perderiam tambem a capacidade de corromper e, principalmente, de explorar — ao limite de matar de fome crianças no ventre das mães —, para se enriquecer cada vez mais, enquanto a nação navega na sua histórica desgraça. Por isso é fácil e difícil. É como a aids. Diagnosticar é fácil, curar ainda é impossível. Há aqueles que sequer acreditam na doença... Nós somos a violência
Ao analisar as estatísticas, é fácil constatar a injustiça na distribuição de terras, bem como verificar que o trabalhador rural é tratado como escravo. Difícil é discutir a realidade em nível que englobe toda a estrutura social do Brasil. Esse debate mexeria com os grandes interesses, exigiria a participação de todos no processo de mudança e poderia comprometer os privilégios que estão arraigados nas nossas elites e. tambem, nas classes médias altas. Além do mais, nestes tempos neoliberais, a classe média ascendente não quer perder o carnaval consumista e sonha com um importado qualquer. Por isso é difícil mudar. A questão rural deixa de ser um problema para transformar se em um drama. Dramatiza-se a violência. As imagens de homens, mulheres e crianças espancados ou mortos emocionam. A emoção afasta-nos da crítica. Aliás, estamos condicionados a não criticar a sociedade em seu conteúdo: foi assim que nos educaram. Somos, portanto, pessoas "cultas". Como nossos avós, que nada tinham em comum com os negros da senzala, também nós nada temos a ver com os rudes homens do campo. Como nossos avós, que, nada tendo a ver com os escravos, desejavam sua liberdade, porque tudo aquilo era desumano, nós preferimos que os camponeses não sejam mortos ou espancados, pois isso é muito cruel. E como nossos bons avós. Que fizeram a Lei Áurea, a qual deu aos negros o trabalho pesado sem dor de consciência aos brancos cultos, assim nós gostaríamos de uma lei que punisse os homens maus, que, armados de cassetetes e metralhadoras, espancam e matam os bons camponeses, que produzem os alimentos que comemos. Assim, inconscientemente, alimentamos a violência. Na medida em que não avaliamos profundamente o conteúdo da violência, e nos deixamos envolver pela sua aparência, permitimos que as autoridades nos iludam com medidas formais. A emoção leva-nos à solidariedade e à dor pelas vítimas e contentamo-nos com a punição dos malvados. O sistema beneficia-se dessa falta de consciência crítica e a sua estrutura econômica, que gera a violência, permanece intocada. E preciso lembrar que existe uma violência formal, derivada de uma violência em conteúdo, que determina certos procedimentos sociais. Por exemplo, as pessoas que se indignam com a brutalidade da Polícia espancando e matando, e esperam que o Judiciário contenha os soldados, precisam ser lembradas de que a Força Policial só se move por determinação judicial. O trabalho infantil Há muitas modalidades de violência, desde a exploração do trabalho infantil e modelos “modernizados" de escravismo até o mais agressivo confito social. São formas que derivam de um conteúdo', a concentração de terras (o latifúndio) com a conseqüente concentração de riquezas. O trabalho infantil continua sendo comum no campo. Hoje, trabalham nele 1,28 milhão de crianças. Mesmo na região agrícola mais evoluída do Estado de São Paulo, exploram-se crianças no corte de cana, como em Ribeirão Preto (conforme constatou o Ministério Público, em maio de 1995), a despeito de o Estatuto da Criança e do Adolescente proibir "trabalhos penosos" aos menores de 18 anos. A exploração de crianças em atividades perigosas pode acarretar de três meses a um ano de prisão. No entanto, como sempre, os usineiros nunca são incriminados, já que nas suas terras trabalham menores contratados pêlos "gatos", empreiteiros de mão-de-obra que, entre outras coisas, livram os latifundiários das obrigações trabalhistas e lhes permitem usufruir do trabalho de adolescentes e mesmo de crianças de 5 anos. As crianças empregadas na colheita de cana ganham por produção e chegam a cortar 5 toneladas por dia. Até o final da década de 80, 17% dos trabalhadores rurais no Estado de São Paulo eram menores de 15 anos. Só na região de Lins, em 1986, havia 150 mil menores trabalhando no campo. O corte de cana é um dos serviços mais duros: as folhas ferem o rosto e as mãos, por isso as crianças trabalham com panos enrolados sobre o corpo. Às vezes, a exploração do trabalho infantil chega a extremos de violência, como no caso do menino Valmir Rodrigues de Souza, de 8 anos. Em outubro de 1991, ele foi assassinado a socos pelo seu patrão, o fazendeiro Toinho Chorenga, em Barreiras (BA), porque, ao conduzir um carro de bois, drixou-o encalhar. Trabalho escravo Essa prática vem aumentando no Brasil. Configura-se como trabalho escravo o camponês que é impedido de deixar a propriedade e obrigado a exercer, forçosamente, suas tarefas. Geralmente, o trabalhador fica preso ao patrão ao contrair dívidas no armazém da fazenda, que cobra preços abusivos. Enquanto não saldar a dívida, fica impossibilitado de sair. Vigiado pêlos "seguranças", é caçado se tentar fugir e pode ser morto caso não volte pacificamente. As convenções internacionais reconhecem esse trabalho escravo como um gênero do trabalho forçado. No Brasil, o número de trabalhadores escravos vem aumentando: de 1989 até 1993 cresceu 33,4 vezes. Essa prática, mais comum do que se pensa — e verificada até mesmo em regiões desenvolvidas do país, como no Estado de São Paulo —, não é um anacronismo; pelo contrário, está ligada ao "progresso" e à mecanização do campo, em uma das mais extraordinárias contradições brasileiras. Em 1993, foram registrados 19.940 casos de trabalhos forçados, tendo sido encontradas carvoarias que mantinham 8 mil camponeses coagidos. Empresas modernas, como a Destilaria Debrasa, em Brasilândia (MS), mantiveram, em 1993, 1.306 pessoas em regime de trabalho forçado. As conhecidas como "61 Fazendas", em Carmo do Paranaíba e Patrocínio (MG), utilizaram-se de 4.3 16. No Estado de São Paulo, em Limeira, a Usina Santa Bárbara utilizou 51 "escravos", e, em Pirapora do Bom Jesus, a Fazenda Cacique usou 32. Esses são casos comprovados legalmente c reconhecidos como "trabalho escravo". No entanto existem inúmeros casos envolvendo trabalho forçado que acabam sendo julgados como infrações trabalhistas, sem maiores punições para os responsáveis. Foi o que ocorreu, por exemplo, com 92 lavradores vindos, em maio de 1995, do norte de Minas para Luís António - na região de Ribeirão Prelo (SP) -, para cortar cana. O empreiteiro que os trouxe colocou-os em um galpão de 18 metros quadrados, onde viviam em condições subumanas. Esses trabalhadores foram abandonados pelo "gato" e não encontraram emprego. Ficaram sem alimentos, partilhavam de uma só privada, já sem descarga, e não tinham chuveiro. O "gato" desapareceu, o dono do galpão disse que não tinha nada com a questão. A Polícia Militar interditou o local e "recolheu" os trabalhadores, que posteriormente deveriam ser devolvidos às suas cidades. E o episódio, assim, acabou. Corno esse, existem dezenas de outros casos, às vezes até mais graves do que o trabalho forçado, mas que, por várias razões, não entram nas "estatísticas". É preciso considerar ainda que não há fiscais do trabalho em número suficiente e grande parte dos existentes não cumprem sua tarefa a contento. As Delegacias Regionais do Trabalho contavam com 2.695 fiscais em 1993. O trabalho forçado ou escravo assumiu tão graves proporções que, em setembro de 1992, o governo criou o Programa de Erradicação do Trabalho Forçado e do Aliciamento de Trabalhadores (Perfor), mas ainda não conseguiu regulamentá-lo. Até mesmo o Incra perdeu sua capacidade administrativa e fiscalizadora, por falta de pessoal. Um relatório da Associação dos funcionários desse instituto informou que para assentar as 500 mil famílias, cujos processos de desapropriação estão concluídos, bastando a assinatura dos decretos, seria necessário contratar mais 8 mil funcionários. Como se sabe, o governo federal (FHC) vem fazendo o inverso: demite.
Violência e cultura
Um processo de maior gravidade do que as armas e a brutalidade policial contra o sem-terra é sujeitá-lo ao conflito cultural que destrói inexoravelmente sua sanidade psíquica, Pior, talvez, que matá-lo fisicamente, alijá-lo da terra significa matar sua alma, transformá-lo em um autômato, alienado da sua cultura — mais um lúpem (individuo desvinculado da produção social ou que vive na extrema miséria) que o latifúndio joga na periferia suburbana. Quando o trabalhador é expulso do campo e toma-se migrante, ele não se integra à nova comunidade urbana. Vive na periferia, à margem, nas favelas ou cortiços, em choque constante com uma cultura que não é a sua. Ocorre, pois, um conflito social e cultural. Perde os seus valores culturais e morais, que não pode manter na suburbanidade onde vive, e confronta-se desfavoravelmente com uma nova moral, que lhe determina outro comportamento. Perdendo o seu espaço físico, sem a sua paisagem, fica indefeso à penetração da cultura urbana. Mas essa aculturação acontece falsamente, com uma absorção ilegítima de valores "urbanóides", como a música sertaneja, representada por famosas duplas caipiras do tipo Chitãozinho e Xororó. Essa música e tais duplas, símbolos da profanação cultural que sofre o migrante rural, não são o resultado de uma adaptação, degeneração ou exploração da música rural autêntica, que faz parte do universo do homem do campo: na verdade, são corruptelas ordinárias da country music estadunidense. Em suma, o que esse tipo de música provoca (porque é reconhecida, mas identificada) é a alienação que o joga sem defesas na máquina de massificação industrial. O migrante rural transforma-se duplamente em escravo: como trabalhador, lúmpen (mendigo, sem-trabalho)ou subempregado e como potencial consumidor do lixo consumista mais kitsch da sociedade capitalista — há uma indústria de vestuário e de toda sorte de objetos lucrando com esse assassinato cultural. Na outra ponta do consumo, cria-se ironicamente um mercado grã-fino inspirado na miséria camponesa exposta na sociedade urbana. E o modismo country de butique, a moda de viola eletrônica explodindo nos tapes de camionetas de luxo. Alguns intelectuais até acham chique freqüentar "festas populares" como a caricatural festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, no interior de São Paulo. O que você tem a ver com isso? Seria mais "eficiente" escrever este texto com uma "boa técnica jornalística". Os jornais não "teorizam" a violência. Os jornalistas acostumaram-s e a ir aos fatos, mostrar o que aconteceu: o que se demonstra por si. Evita-se interpretar os acontecimentos e, assim, para o público estes são o que aparentam ser. Na verdade, essa busca da "realidade", que pode parecer materialista para alguns, nada mais é — sei que a comparação ó grosseira — que um tratamento "metafísico". Para a metafísica, as coisas são o que são. O bem é o bem, o mal é o mal. Para entender o fenômeno da violência e da injusta distribuição de terra, será melhor olhar as coisas dialeticamente. Há mais de 2 mil anos, os gregos nos ensinaram que dialeticamente as coisas estão sempre mudando: se aparentam ser de uma forma hoje, é porque foram diferentes ontem além de ter uma origem concreta, plena de contradições. A linguagem jornalística vai direto ao assunto: "aconteceram tantas invasões de terras"; "a polícia reprimiu com violência"; "mortos, feridos..." São entrevistas com camponeses, militares, políticos, latifundiários e talvez um editorial pedindo uma política agrária. Tudo isso, feito em demasia, aborda apenas uma face da questão: justamente a da violência formal, o último ato de acontecimentos e que tem raízes bem mais profundas, alicerçadas na estrutura social e afirmadas na nossa tradição histórica. Enfim, o impacto dramático dos "últimos atos" tem dimensão suficiente para despertar o interesse do leitor de jornal: homens, mulheres c crianças fugindo de bombas, tiros e patas de cavalos — alguns morrem. Os efeitos são mais espetaculares do que as causas. Mas, se quisermos entender o problema, é melhor que procuremos suas raízes. Antes, cabe uma pergunta: o que você tem a ver com isso? O leitor deste livro, certamente habitante urbano, de cidade média ou grande, com muita sorte talvez já tenha visto um milharal ou uma vaca. A questão agrícola, portanto, mais especificamente a violência no campo, pode lhe parecer distante, sobretudo porque também enfrenta no cotidiano ameaças concretas à sua vida. Ir à escola, ao trabalho, ou simplesmente sair de casa são riscos nas grandes e médias cidades. Se podemos ser assaltados e mortos por alguém que quer o nosso tênis, por que nos preocuparmos prioritariamente com a violência no campo? Justamente para não sermos assaltados e mortos. Para justificar essa resposta, devemos ter em mente que a violência no campo é fruto da má distribuição da terra, que é a raiz da injustiça social. Esta, por sua vez, é a responsável pela extrema riqueza de uns poucos e a miséria de muitos. Dentro desse sistema o homem se brutaliza. O processo atinge a todos. A sociedade consumista urbana agrava as diferenças. O velho humanismo ensinava o homem a ser e o novo modismo ensina-o a ter. Em meio a essas contradições econômicas e filosóficas explode a violência formal espancamentos, assassinatos de camponeses, assaltos nas cidades são os resultados do conteúdo de uma sociedade injusta. O princípio do processo está no campo.
Fonte: VIOLÊNCIA NO CAMPO: O latifúndio e a reforma agrária de Júlio José Chiavenato
Conflitos sociais no Campo: Um Histórico (1850-1960)
A imprensa brasileira tem registrado as evidências e as marcas da violência presentes nos conflitos sociais no campo brasileiro. Notícias sobre assassinatos de posseiros, bóias-frias, líderes sindicais, agentes pastorais, padres e advogados têm sido comuns entre nós. Talvez pelo fato de terem se tornado quase diárias, ninguém mais toma sequer conhecimento delas. Com ou sem indiferença geral, a verdade é que muitos brasileiros perderam a vida na luta por um pedaço de terra no território do latifúndio.
A história da violência no campo, como já salientamos, não é recente: é talvez um traço da história dos vencidos no Brasil. Contratar jagunços pistoleiros para matar não é um expediente dos grileiros e latifundiários de nossos tempos. A história está repleta de muitos outros exemplos. Em geral estes exemplos foram, em muitos casos, tentativas dos vencidos em romper com a injustiça reinante no paìs.
AS LUTAS NA ESCRAVIDÃO
Nos tempos da escravidão os quilombos e os quilombolas lutaram pela libertação:
"Entre as várias formas que os negros tinham para lutar contra o sistema de opressão, uma das mais significativas foi a formação de quilombos. Os
quilombos eram lugares de resistência negra. As pessoas que moravam nos quilombos se chamavam quilombolas. Os quilombos eram um sistema comunitário de vida na floresta para onde iam os negros que conseguiam fugir da escravidão. Às vezes eram cinco, seis casas apenas. Outras vezes chegavam a formar verdadeiras cidades. Estes quilombos eram sempre perseguidos pelos exércitos dos fazendeiros. Quando podiam, destruíam e matavam os negros e os recapturados eram levados de volta para os engenhos, onde eram duramente castigados e marcados." (Comissão, 1987.)
Entre os quilombos, território negro livre no seio do latifúndio branco europeu, Palmares foi o grande exemplo de luta, resistência e destruição. Lá reinaram Zambi, Ganga Zumba e Zumbi, mas o jagunço/pistoleiro, capitão-do-mato, Domingos Jorge Velho (bandeirante de então) e seus capangas a mando do latifúndio destruíram o espaço/reduto da liberdade negra:
"O maior dos quilombos foi o de Palmares, em Alagoas. Este foi o que mais tempo resistiu aos ataques dos fazendeiros. Essa resistência que durou cem anos deve muito a seu grande líder Zumbi e à sua capacidade de organização. O número de habitantes neste quilombo chegou a vinte mil. Era uma verdadeira cidade onde os negros viviam numa comunidade de fato. Aí se fazia a experiência de fraternidade verdadeira. Era o lugar onde os negros se sentiam iguais de verdade. O quilombo dos Pai mares tinha sua base na organização social e política voltada para se defender dos exércitos dos fazendeiros e para garantir a posse coletiva da propriedade. Os quilombos representavam a única possibilidade, fora a morte, para fugir da escravidão e a tentativa de estabelecer uma comunidade negra, autônoma, livre, no meio da floresta. O quilombo dos Pai mares foi destruído por um grande caçador de índios e negros chamado Domingos Jorge Velho e seus soldados. Este capitão-do-mato assassinou Zumbi e muitos outros negros e índios, além de recapturar outros para vendê-Ios e enriquecer-se com isto.
Mesmo com a destruição de Pai mares e com a morte de Zumbi, os negros continuaram a fugir das senzalas e a se agrupar nas florestas, lutando pela sobrevivência e pela liberdade." (Comissão, 1987.)
AS LUTAS DE CANUDOS E CONTESTADO
o fim da escravidão no século passado não foi suficiente para remover as injustiças sociais, e o nordeste latifundiário viu nascer no
sertão a luta sangrenta de Canudos. Camponeses e Exército lutaram violentamente por mais de um ano: "em 1896-1897, a Guerra de Canudos, nos sertões da Bahia, que durou cerca de um ano, também envolvera metade do Exército e milhares de camponeses e tivera uns cinco mil mortos entre estes, impondo severas derrotas às forças militares." (Marfins, 1981.)
Além de Canudos, no final do século, o início dos anos dez marcou, com a Guerra do Contestado, talvez, o maior confronto armado entre camponeses e o Exército no Brasil. De novo a violência esteve presente:
"A maior guerra popular da história contemporânea do Brasil foi a Guerra do Contestado, uma guerra camponesa no sul do país, nas regiões do Paraná e Santa Catarina, de 1912 a 1916. Abrangeu 20 mil rebeldes, envolveu metade dos efetivos do Exército brasileiro em 1914, mais uma tropa de mil"vaqueanos", combatentes irregulares. Deixou um saldo de pelo menos três mil mortos." (Marfins, 1981.)
AS LUTAS DOS COLONOS NA FAZENDA DE CAFÉ
Não eram apenas os camponeses nordestinos ou sulistas os envolvidos com a luta pela liberdade, pois as greves dos colonos nas fazendas de café foram quase sempre reprimidas pelos capangas armados. Elas também constituíram-se no instrumento de luta e resistência dos colonos migrantes explorados:
"Em 1913, o jornal em língua italiana Fanfulla havia registrado várias dúzias de greves. Entre 1913 e 1930, o Patronato Agrícola (uma agência estatal fundada em 1911 para mediar nos conflitos entre fazendeiros e trabalhadores), bem como a imprensa dos trabalhadores, citam mais de cem greves nas fazendas de café. Embora a maioria dessas greves se limitasse a uma única fazenda, houve um caso em 1911, quando cerca de mil trabalhadores de meia dúzia de fazendas da área de Bragança entraram em greve por vinte dias, e como resultado conseguiram um ligeiro aumento no pagamento. No ano seguinte, trabalhadores de mais de uma dúzia de fazendas na área de Ribeirão Preto entraram em greve e também conseguiram um pequeno aumento salarial. A maior greve do período ocorreu na mesma área em 1913, mas, embora mobilizasse entre dez mil e quinze mil trabalhadores, terminou em derrota totaL" (Stolcke, 1986.)
Em geral estes movimentos eram provocados pela deterioração das relações estabelecidas no colonato. Entretanto os fazendeiros de café sempre reagiram, utilizando-se da repressão policial:
"As greves geralmente ocorriam por questões tais como o preço baixo pago na colheita, não-pagamento dos salários, tentativa de redução do pagamento, castigos e multas pesadas arbitrários ou excessivos, ou limitações do direito de plantio. de alimentos. Nessa ocasião, à parte um aumento no pagamento na colheita, os trabalhadores grevistas estavam exigindo também a suspensão de uma proibição sobre o plantio intercalado e o fim de certas irregularidades que os privavam de parte de seus salários. Mas os fazendeiros se organizaram para resistir à expansão do movimento grevista, possivelmente detonado pela safra pobre, e, com o respaldo da polícia, conseguiram romper a greve ameaçando os trabalhadores com expulsão imediata e negando o fornecimento de alimentos." (Stolcke, 1986.)
AS LUTAS CAMPONESAS EM MEADOS DO SÉCULO XX
Palmares, Canudos, Contestado, greves nos cafezais paulistas, muitos têm sido os exemplos de luta na história dos trabalhadores e dos rebeldes. Foi, pois, nesse processo combativo que os trabalhadores do campo foram forjando os movimentos sociais de luta pela terra e pelo estabelecimento de relações de trabalho condizentes com a dignidade humana.
O século XX tem sido rico em exemplos de luta pela terra e dois processos têm atuado no sentido de soldar o movimento dos camponeses no Brasil. De um lado a tentativa de resgate da condição de camponês autônomo frente à expropriação, representada pelos posseiros e sua luta contra os fazendeiros grileiros. De outro, o movimento originado na luta dos camponeses parceiros ou moradores contra a expropriação completa no seio do latifúndio, que os transformava em trabalhadores assalariados.
Estes dois processos gerais de luta no campo vão praticamente comandar o pipocar de conflitos durante todo este século. É a luta sangrenta dos camponeses contra o pagamento da renda da terra.
Exemplos desses processos foram a Revolta de Trombas e Formoso em Goiás, a guerrilha de Porecatu no Paraná e a formação das Ligas Camponesas, sobretudo no Nordeste brasileiro.
Martins, estudando estas lutas no campo, afirma que a revolta de Trombas e Formoso representa a expressão maior dos muitos conflitos e expulsões no campo brasileiro de Goiás:
"Em Goiás, nessa época, ocorreram conflitos e expulsões que encontraram na Revolta de Trombas e Formoso a sua expressão maior. Em 1948, com a estrada Transbrasiliana, as terras do então município de Uruaçu se valorizam. Essa estrada viria a fazer parte da futura Rodovia Belém-Brasflia, iniciada a construção da capital em 1956. No ano seguinte ao da chegada da estrada a Uruaçu, camponeses originários do Maranhão e do Piauí, mas que viviam em Pedro Afonso, no norte de Goiás, também chegaram à região, em grupo, liderados por José Porfírio, e ali formaram posses numa área de terras devolutas. As mesmas terras, entretanto, foram griladas por um grupo de fazendeiros, além do juiz e do dono do cartório local, consumando-se o processo de grilagem em 1952. Inicialmente, são feitas propostas de compra das posses aos posseiros, o que quer dizer compra mediante pagamento unicamente das benfeitorias. Diante da recusa são lançados jagunços sobre os camponeses. Diante da resistência são feitas tentativas de transformar os posseiros em parceiros, como ocorria em Minas na mesma ocasião. Nessa altura já havia três mil pessoas na região.. Por essa época, em 1953, violências foram cometidas contra José Porfírio (cuja mulher e filho recém-nascido foram arrancados de casa e a casa queimada, do que resultou a morte da mulher alguns dias depois).
Os conflitos já eram muitos quando chegaram à região, em 1954, quatro militantes enviados pelo Partido Comunista do Brasil, que passaram a viver e trabalhar na área. A partir de então, os camponeses se organizaram em Conselhos de Córregos, desenvolveram o trabalho coletivo do mutirão nos momentos de tensão mais aguda, para permitir que grupos de camponeses armados montassem guarda contra ataques de jagunços e da polícia, e fundaram aAssociação dos Lavradores de Formoso e Trombas, encarregada de representá-los e organizá-los, para obtenção da propriedade da terra. Quando em 1957 o governo estadual mandou para a região forte contingente para combatê-los, o Partido Comunista propôs um acordo: apoiaria as pretensões do governador Pedro Ludovico de estender o seu mandato e apoiaria a candidatura de seu filho, Mauro Borges, à sucessão governamental. Em troca, o governo retiraria as tropas da região, o que foi feito. Com isso, até 1964, a região de Trombas e Formoso se constituiu num território liberado, de certo modo sujeito a governo próprio, uma espécie de governo popular; o que foi facilitado pela criação do município de Formoso, por solicitação dos camponeses, além da eleição de José Porfírio como deputado estadual. Embora o Exército só tenha entrado na região alguns anos depois do golpe, conforme nota oficial publicada nos jornais, já em 1964 os líderes do movimento haviam fugido. Foram presos em 1970 e barbaramente torturados. José Porfírio foi preso em 1972, no Maranhão, durante as batidas relacionadas com o combate à guerrilha do Araguaia. Solto em 1975, em Brasília, desapareceu completamente, havendo a suspeita de seqüestro e assassinato." (Martins, 1981.)
AS LUTAS PELA TERRA NO PARANÁ

As lutas pela terra no Paraná, segundo Martins passam pelas relações entre os latifundiários e o Estado e as muitas falcatruas realizadas pelos governantes no exercício do poder contra os camponeses posseiros. Estes conflitos vão conter, como se viu em Trombas e Formoso, a participação do Partido Comunista do Brasil:
"Na mesma época em que começava o problema de Trombas e Formoso, começava também o problema de terras que culminaria com a guerrilha de Porecatu, no Paraná, em 1950. Desde 1946, mil e quinhentas famílias de posseiros, habitando terras devolutas em Jaguapitã, passaram a sofrer o problema do despejo porque o governo do Estado cedera aquelas terras já ocupadas por eles para grandes proprietários. Os despejos violentos levaram à formação de grupos armados que resistiam ou atacavam fazendas. Vários confrontos entre posseiros e polícia ocorreram, com derramamento de sangue. A situação se agravou ainda mais porque o governador, envolvido ele próprio em famosas negociatas de terras, procurou os camponeses de Jaguapitã e Ihes propôs transferência segura para outras terras no vale do rio Paranavaí, com casa e transporte. A promessa não foi cumprida.
A essa situação violenta, que se repetia em outras regiões do Paraná na mesma ocasião, veio somar-se a revolta dos lavradores de Porecatu, localidade também no norte do Paraná, não muito distante de Jaguapitã. A situação era ali idêntica àquela outra. Tendo notícia de que o governo pretendia desenvolver na área um projeto de colonização, muitos camponeses começaram a se deslocar para lá, abrindo suas posses. Na verdade, sem nenhum respeito pelos posseiros, o governo havia traficado com as terras, vendendo-as a outras pessoas. Nos últimos meses de 1950, devido à ação do Partido Comunista do Brasil, através dos seus comitês regionais de Londrina, no Paraná, e de Presidente Prudente e Assis, em São Paulo, eclodiu a guerrilha de Porecatu, tendo como um dos chefes José Billar. As lutas prosseguiram, com mortos e feridos, até janeiro de 1951 , quando assumiu um novo governador disposto a resolver o problema. Apesar de o governo ter, em 15 de março, declarado as terras de utilidade pública para desapropriação por interesse social (fato que ocorria pela primeira vez no país), ainda em junho havia de trezentos a quatrocentos camponeses armados, emboscados nas matas, de onde saíam apenas para atacar. Foram desarmados por uma força policial de duzentos e cinqüenta homens. Consta, porém, que o próprio Partido Comunista determinara a cessação da guerrilha."
"Mas é no sudoeste do Paraná, quando Lupion, já envolvido em negociatas anteriores de terras, volta ao governo do Estado, que têm lugar os conflitos que culminam com a revolta de 1957, nas regiões de Pato Branco, Francisco Beltrão e Capanema. Ali a situação era extremamente confusa, pois se tratava de área litigiosa entre o governo da União e o governo estadual. Isso porque, embora as terras devolutas tenham sido transferidas aos estados, em 1891, as terras da faixa de fronteira continuaram dependentes do governo federal. Ambos os governos fizeram concessões de terras na área. Companhias imobiliárias venderam essas terras a colonos gaúchos e catarinenses. Estes, entretanto, apesar de terem pago e de serem, portanto, proprietários, viram-se na situação de posseiros, além do mais sujeitos a despejo sumário. Toda a sorte de violências foi cometida contra os camponeses da região, arrancados violentamente das terras, que estavam sendo vendidas por companhias colonizadoras, ligadas ao governador, a outras pessoas. Com freqüência essas terras eram negociadas e tituladas em favor de amigos e parentes do próprio governador, que imediatamente hipotecavam os títulos no Banco do Estado, obtendo grossos capitais em cima de terras que ,não lhes pertenciam de fato.
Extrema violência desencadeou-se em toda a região do sudoeste do Paraná em abril e maio de 1957. Conflitos armados ocorreram daí em diante em toda a região, contando os posseiros com o auxilio de vários bandoleiros que viviam na fronteira entre o Paraná e aArgentina. Em outubro houve a revolta, conclamada para resistir a um ataque geral de jagunços da Citla, a empresa ligada a Lupion. Os camponeses formaram Assembléias Gerais do Povo em Pato Branco, Francisco Beltrão, Capanema e Santo Antônio. Juntas Governativas foram eleitas em todos esses lugares. Só em Beltrão, quatro mil camponeses marcharam sobre a cidade. As autoridades locais fugiram. Estações de rádio regionais foram tomadas. Após negociações com o chefe de policia do estado e com a entrada das tropas da Policia Militar nas várias localidades, as juntas governativas se dissolveram. Na verdade, a corrupção e o terror continuaram. As questões somente começaram a ser resolvidas em 1961, após a saída de Juscelino Kubitschek da presidência da República, pois pertencia ao mesmo partido de Lupion, o PSD. Medidas começaram a ser tomadas apenas no governo de Jãnio Quadros, institucionalizadas Rara uma parte da área em 1962, no governo Goulart, quando se criou o GETSOP - Grupo Executivo de Terras do Sudoeste do Paraná, uma instituição com forte presença do Exército." (Marfins, 1981.)
A FORMAÇÃO DAS LIGAS CAMPONESAS
Foi com as Ligas Camponesas, nas décadas de 50 e 60, que a luta camponesa no Brasil ganhou dimensão nacional. Nascidas muitas vezes como sociedade beneficente dos defuntos, as Ligas foram organizando, no Nordeste brasileiro, a luta dos foreiros, moradores, arrendatários, pequenos proprietários e trabalhadores da Zona da Mata, contra o latifúndio.
A origem da expressão "Ligas Camponesas" está relacionada ao movimento de organização de horticultores da região de Recife pelo Partido Comunista do Brasil, durante seu curto período de legalidade na década de 40. Este movimento decorreu do fato de, na época, os sindicatos rurais serem inconstitucionais. A maioria desses núcleos desapareceu com a colocação do partido na ilegalidade. A "Liga" de Ipatinga, fundada em 3 de janeiro de 1946 em Pernambuco, foi uma das poucas que resistiu ao desaparecimento geral.
Na década de 50, mais precisamente no ano de 1954, foi no Engenho da Galiléia, localizado no município de Vitória de Santo Antão, a pouco mais de 60 km de Recife, que praticamente nasceu o movimento conhecido como "Ligas Camponesas". A luta dos galileus foi estruturada contra a elevação absurda do foro, ou seja, contra a alta dos preços dos arrendamentos.
"O Engenho da Galiléia localiza-se em Pernambuco, no município de Vitória de Santo Antão, distante 60 km de Recife, em região de transição entre a Mata e o Agreste. Desde os fins da década de 40, os proprietários deixam de explorar a cana em suas terras e passam a arrendá-las. Os 500 ha são arrendados por cento e quarenta famílias, reunindo cerca de mil pessoas. Arrendatários da terra e proprietários dos outros meios de produção utilizam a força de trabalho familiar e combinam a produção de subsistência com a mercantil, produzindo legumes, frutas, mandioca e algodão.
A área média das propriedades é de 3,5 ha e foi impossível reconstituir, através de sistema contábil, a situação econômica dessas famílias que, além da reposição dos meios de produção, devem retirar do rendimento global o pagamento da renda da terra, que é feito em dinheiro: é o foro.
Nesse engenho, no ano de 1954, o aluguel anual estabelecido por hectare era de Cr$ 6.000,00. Na região, no mesmo ano, o preço de venda da terra variava entre Cr$ 10.000,00 e Cr$ 15.000,00 por hectare. Isso equivalia a que o pagamento de dois anos de renda correspondesse ao valor da terra arrendada. Nesse ano, o foreiro José Hortêncio, não podendo pagar os
Cr$ 7.200,00 de renda atrasada que devia, foi ameaçado de expulsão pelo dono da terra. Procurou José dos Prazeres, antigo membro do Partido Comunista então dedicado a contatar camponeses em litígio com os proprietários. Este, percebendo que não se tratava de caso isolado, mas que a situação era vivenciada por inúmeros foreiros do engenho, propôs lhe a formação de uma sociedade, com o fim de adquirir um engenho, para que todos se livrassem do pagamento da renda e da ameaça de expulsão. Era maio de 1954.
Ao fim do mesmo ano, Hortêncio reuniu um pequeno grupo de foreiros, entre os quais José Francisco de Souza, administrador do engenho, conhecido como Zezé da Galiléia, que exercia forte liderança. Sob a orientação de José dos Prazeres, fundaram a sociedade, cuja diretoria estava assim constituída: Presidente - Paulo Travassos; Vice-Presidente - Zezé da Galiléia; 1° Secretário - Oswaldo Lisboa; 2° Secretário - Severino de Souza; 1° Tesoureiro - Romildo José; 2° Tesoureiro - José Hortêncio; Fiscais - Amaro Aquino (Amaro do Capim), Oswaldo Campelo e João Virgílio. A associação - Sociedade Agrícola de Planta dores e Pecuaristas de Pernambuco - SAPP- obteve seu registro após um mês. Do ponto de vista legal, caracterizou-se por constituir-se numa sociedade civil beneficente, de auxilio mútuo, cujos objetivos eram, primeiramente, a fundação de uma escola e a constituição de um fundo funerário (as sociedades funerárias eram comuns na região) e, secundariamente, a aquisição de implementos agrícolas (sementes, inseticidas, adubos, instrumentos) e reivindicação de assistência técnica governamental." (Rugai Bastos, 1984.)
No entanto, o movimento das Ligas Camponesas tem que ser entendido, não como um movimento local, mas como manifestação nacional de um estado de tensão e injustiças a que estavam submetidos os trabalhadores do campo e as profundas desigualdades nas condições gerais do desenvolvimento capitalista no país:
"As ligas se espalharam rapidamente pelo Nordeste, contando, de início, com o apoio do Partido Comunista do Brasil e com severa oposição da Igreja Católica. Elas surgiram e se difundiram principalmente entre foreiros de antigos engenhos que começavam a ser retomados por seus proprietários absenteístas, devido à valorização do açúcar e à expansão dos canaviais. Desde os anos 40 os foreiros vinham sendo expulsos da terra ou então, como vimos, reduzidos a moradores de condição, passo para se tornarem trabalhadores assalariados não-residentes.
Na verdade, as ligas surgiram no contexto mais amplo não só da expulsão de foreiros e da redução ou extinção dos roçados dos moradores de usina, mas também no contexto de uma crise polftica regional. Essa crise se particularizou numa tomada de consciência do subdesenvolvimento do Nordeste e particularmente numa ação definida da burguesia regional no sentido de obter do governo federal não mais uma polftica paterna lista de socorros emergenciais nos períodos de seca grave, mas sim uma efetiva polftica de desenvolvimento econômico. Isso queria dizer, uma política de industrialização do Nordeste. O problema da miséria dos camponeses e do seu êxodo para o sul era explicado como resultado do latifúndio subutilizado, que impede a ocupação da terra por quem dela precisa. Uma política regional de desenvolvimento baseado na industrialização deveria sustar e inverter o círculo vicioso da pobreza de uma agricultura monocultora e latifundiária. É assim que surge a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste e é assim que surgem alianças políticas envolvendo extremos tão opostos como o Partido Comunista e a União Democrática Nacional, o partido por excelência da burguesia. Em Pernambuco, essa aliança de "centro-esquerda" permite a conquista eleitoral da Prefeitura de Recife e, posteriormente, a conquista do governo do Estado por Cid Sampaio, um usineiro." (Martins, 1981.)
A ULTAB E AS LUTAS DAS LIGAS CAMPONESAS
A compreensão do processo de expansão nacional do movimento das Ligas Camponesas tem que ser entendido, também, no seio da discussão capitalista no Brasil, entre as diferentes tendências políticas da esquerda. Fundamentalmente, com a orientação do Partido Comunista do Brasil, é criada em 1954 em São Paulo a ULTAB - União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil -, com a finalidade de coordenar as associações camponesas então existentes. Esta organização vai funcionar como instrumento de articulação e organização do Partido, na condução e unificação do processo de luta camponesa no seio do processo de luta dos trabalhadores em geral no pais. Este processo deveria caminhar no sentido da revolução democrático-burguesa, como etapa necessária para a revolução socialista.
Elide Rugai Bastos, assim se refere à ULTAB:
"O fim da década de 50 marca a existência de várias associações de trabalhadores por todo o Brasil. Embora o registro legal dos sindicatos de trabalhadores rurais só se possa fazer a partir de processo pedindo a aplicação do Decreto n° 7.038 de 1944, o que dificulta sua existência, já em 1956 o jornal Terra Livre, órgão da ULTAB, assinala a existência de 49 sindicatos registrados oficialmente. Em 1959, num balanço realizado pela mesma ULTAB, relaciona-se a existência de 122 organizações independentes, reunindo 35 mil trabalhadores rurais; e 50 sindicatos, reunindo 30 mil..."
Entretanto" as cisões e dissidências instauradas no seio do PC, sobretudo após o 111 Congresso de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas no Brasil, realizado em 1961 em Belo Horizonte, vão marcar o inicio das divergências entre os movimentos da ULTAB - mais na direção da sindicalização - e as ligas, com suas propostas de luta por uma reforma agrária radical. .
Martins (1981) explica o contexto social em que a dissidência se
dá:
"Apesar da oposição dos senhores de engenho, agora reduzidos à condição de meros fornecedores de cana das poderosas usinas de açúcar, as ligas camponesas e, logo depois, um forte movimento de sindicalização rural têm lugar na região, garantido num primeiro momento pelo enfraquecimento político desses antigos coronéis.
Havia dois grupos distintos de trabalhadores a serem mobilizados e organizados. De um lado, os foreiros das terras de engenhos, camponeses em vias de expulsão. De outro lado, os moradores das usinas, trabalhadores em vias de converterem-se definitivamente em assalariados, perdendo as características camponesas, além daqueles que já estavam efetivamente reduzidos à condição de assalariados, expulsos de seus roçados para as pontas de ruas, os povoados próximos às usinas. Embora formalmente reconhecidos pela Consolidação das Leis do Trabalho, de 1943, os trabalhadores rurais não gozavam, no país inteiro, o direito de sindicalização. O processo era e é muito complicado, porque a fundação e legalização de um sindicato depende de reconhecimento do próprio Ministério do Trabalho, ao qual o sindicalismo está subordinado. Francisco Julião, o advogado e deputado socialista que os camponeses da Galiléia procuraram para tratar da defesa dos seus direitos, observa que era mais viável organizar uma sociedade civil e não um sindicato, porque para isso as formalidades legais eram muito simples, bastando registrar a associação no cartório mais próximo. Isso tornava desnecessário o reconhecimento do Ministério do Trabalho, que não era provável, e garantia a legalidade da ação dos camponeses. Julião justifica, também, a superioridade do foreiro em relação ao trabalhador de usina, como categoria de mobilização mais eficaz. É que os camponeses produzem os seus próprios meios de subsistência, têm condições de suportar melhor os confrontos com os fazendeiros, têm liberdade de locomoção. O mesmo não acontece com o trabalhador de usina, sujeito ao salário, sem mobilidade, sujeito ao favor da moradia."
A marca da violência, entretanto, sempre esteve presente no processo de luta das Ligas Camponesas. Junto com o crescimento das greves, registra-se o assassinato das lideranças dos trabalhadores:
",.. entre 1954 e 1962 ocorre em Pernambuco apenas uma greve entre os trabalhadores rurais (cortadores de cana em um engenho em Goiana, em outubro de 1955). O ano de 63 assinala a ocorrência de 48 greves, sendo duas delas gerais (a nível estadual). Mas crescem também as ações repressivas: ocorre em janeiro desse ano o assassinato de cinco camponeses na Usina Estreliana; entre agosto e setembro são assassinados Jeremias (Paulo Roberto Pinto, Uder trotskista) em També, Antônio Cícero, em Bom Jardim, o delegado sindical da Usina de Caxangá. Na Paraíba, além do assassinato de João Pedro Teixeira, em Sapé, ocorrem choques, com várias mortes, ainda em Sapé e Mari." (Ruga; Bastos, 1981.)
Dentre a onda de violência, o assassinato de João Pedro Teixeira, Ilder e camponês da Liga do Sapé - Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas de Sapé - foi um dos que ganhou projeção nacional, pois essa liga era uma das maiores do Nordeste, com mais de sete mil sócios.
A imprensa escrita deu em manchete: "Líder camponês morto numa emboscada com 3 tiros de fuzil', "cinco mil camponeses foram ao enterro de João Pedro mostrar que a luta continua', etc. Usineiros e latifundiários mandantes do crime ficaram impunes. Eduardo Coutinho muito bem retratou este episódio em seu filme "Cabra marcado pra morrer" .
O movimento militar de 64, que assumiu o controle do país, instaurou a perseguição e "desaparecimento" das lideranças do movimento das Ligas Camponesas, e sua desarticulação foi inevitável. Deu-se, aí, o início de um grande número de assassinatos no campo brasileiro, conforme os dados levantados nos dossiês: Assassinatos no campo: crime e impunidade - 1964/1986 - publicado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, Conflitos de Terra - 1986, elaborado pelo MIRAD - Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário e Conflitos no Campo - Brasil 1987, 1988, 1987, 1990, 1991, 1992, 1993 e 1994 - publicados anualmente pela CPT - Comissão Pastoral da Terra.
Fonte: Ariovaldo Umbelino Oliveira - A Geografia das Lutas no Campo -Editora Contexto.


