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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

As milícias no campo miram em direção aos movimentos sociais

Por Jorge Américo,
Seguranças privados agridem indígenas e apoiadores
para garantir invasão de construtora em terra de
ocupação tradicional - Foto: ABr
O campo de atuação das empresas de segurança privada não está restrito às cidades. É cada vez mais comum, no meio rural, a presença de grupos armados contratados por fazendeiros. Em 27 de julho de 2011, foi realizado em Curitiba (PR) o Tribunal de Júri que puniu pela primeira vez um caso de milícia privada no campo.
Os jurados consideraram Jair Firmino Borracha culpado pelo assassinato do agricultor Eduardo Anghinoni, irmão de uma das principais lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná. O réu foi condenado a 15 anos de prisão. O crime ocorreu em 1999, no município de Querência do Norte (PR). As provas e os depoimentos apresentados no julgamento reforçaram a hipótese da existência de uma organização criminosa que atuava contra militantes de movimentos sociais na região.
Um caso semelhante permanece sem solução. Após uma ação articulada pela empresa NF Segurança, o trabalhador rural Valmir Mota de Oliveira, mais conhecido como Keno, foi morto por um funcionário que prestava serviços para a transnacional Syngenta. Outros cinco trabalhadores ficaram gravemente feridos. Ambos participavam do acampamento Terra Livre, em Santa Tereza do Oeste (PR), área na qual a empresa promovia experimentos ilegais de sementes de milho transgênico. Embora o crime tenha ocorrido no final de 2007, o processo se encontra na fase inicial de consulta das testemunhas.
O advogado da ONG Terra de Direitos, Fernando Priospe, demonstra preocupação com a atuação de milícias privadas na região. “Basicamente não houve alteração na situação no que diz respeito às milícias privadas. Por exemplo, a NF Segurança continua atuando na região de Cascavel clandestinamente”. A Syngenta acusa os trabalhadores rurais de serem responsáveis pelo assassinato de Keno e de um pistoleiro. O Ministério Público do Paraná, que acatou a denúncia, alega que o fato de ocupar uma propriedade rural significa assumir o risco de provocar o assassinato das próprias pessoas que ocuparam a área.

Indígenas, ditadura e escravidão
A privatização do setor de segurança tem mais implicações negativas do que se supõe, segundo o presidente do Conselho Estadual da Defesa da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe), Ivan Seixas. “Elas [empresas de segurança], além dos serviços tradicionais, fazem arapongagem particular, espionagem eletrônica, industrial, militar, política. Isso tudo faz com que o Estado brasileiro esteja refém dessa gente”.
Nem mesmo os povos indígenas escaparam desse aparelho repressivo descrito por Ivan, que é ex-preso político da ditadura civil-militar (1964-1985). Em outubro, um grupo de homens armados – contratados por donos de construtoras – avançaram contra as comunidades instaladas no local conhecido como Santuário dos Pajés, no Setor Noroeste, em Brasília (DF). Estavam em disputa 50 hectares de terras tradicionais, onde vivem cerca de 30 pessoas das etnias tuxá, fulniô, kariri xocó e tupinambá. Na ação, foram registrados espancamentos, uso de spray de pimenta e arma de choque elétrico.
A consolidação do setor da segurança privada nos últimos anos e a exacerbação de seu poder deve-se muito à presença de militares ainda em atividade ou aposentados. A conduta repressiva contra cidadãos, de acordo com Ivan, é sintoma do autoritarismo herdado do período ditatorial. Para ele, “há uma ligação direta entre ditadura e empresas de segurança porque vários torturadores, civis e militares, são donos dessas empresas”.

Racismo
O professor de história e integrante da UNEafro-Brasil Douglas Belchior vê na escravidão as raízes dos excessos que são cometidos hoje. Para ele, as empresas de segurança não substituem as forças militares do Estado, mas atuam de forma complementar. “Os capitães do mato foram a primeira polícia da história. Eles tinham a função de correr atrás dos negros rebelados. Essa lógica se repetiu ao longo dos anos e, quando os policiais migraram para a segurança privada, levaram consigo essas práticas abomináveis. Daí a razão de os negros serem as principais vítimas da truculência, ao lado dos camponeses e indígenas.”
Para Marcelo Braga Edmundo, coordenador da Central de Movimentos Populares e do Comitê Social da Copa 2014 e dos Jogos Olímpicos, a segurança privada está tão estruturada que consegue obter vantagens de todos os lados. Isso se dá ou por meio da repressão ou por meio da extorsão. “Recentemente, isso aconteceu no Jardim Botânico [no Rio de Janeiro]. Algumas pessoas se recusaram a pagar os seguranças e de repente começou a ter assaltos na rua, o que claramente se configurou como uma forma de pressão”. Braga afirma que o processo de coação é parecido. “Estigmatizam a população mais pobre da zona oeste, dominada pela milícia, enquanto a classe média que vive nas áreas mais abastadas há muito tempo aceita a ação delas passivamente, as paga e fica por isso mesmo”.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/

sábado, 10 de dezembro de 2011

Sem teto, sem terra e trabalhadores fazem ato em São Paulo

Cerca de 3 mil pessoas, militantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e outros sem-terra de Campinas e trabalhadores da Flaskô – fábrica ocupada há mais de 8 anos – realizaram um ato nesta quinta-feira (8), na avenida Paulista em São Paulo. O objetivo da ação era conseguir uma reunião com representantes do governo federal para pedir uma política nacional de desapropriações que facilite as reformas agrária e urbana.

Cerca de 3 mil pessoas, militantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e outros sem-terra de Campinas e trabalhadores da Flaskô – fábrica ocupada há mais de 8 anos – realizaram um ato nesta quinta-feira (8), na avenida Paulista em São Paulo. A avenida, que completa 120 anos hoje, foi tomada completamente do MASP até o escritório da Presidência da República em São Paulo.

Na chegada ao prédio da Presidência, os manifestantes ocuparam os três andares do edifício até serem recebidos pela chefia de gabinete. O objetivo da ação era conseguir uma reunião com representantes do governo federal para pedir uma política nacional de desapropriações que facilite as reformas agrária e urbana.

Os representantes dos movimentos saíram com a promessa de uma reunião com o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, no próximo dia 19, em São Paulo. Guilherme Boulos, do MTST, afirmou que hoje os programas habitacionais ficam reféns da especulação imobiliária e “se o governo federal tivesse uma política nacional de desapropriação de terra, o programa Minha Casa Minha Vida poderia ser mais efetivo para atender a população de baixa renda”.


Além das desapropriações, os movimentos pedem o fim das remoções que estão sendo realizadas amplamente, algumas delas para construção das obras para a Copa do Mundo e Olimpíadas. No próximo final de semana, por exemplo, está marcado um despejo de cerca de duas mil famílias na ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos.

Criminalização

Um dos pedidos para a reunião do dia 19 é a presença da ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, pois existem alguns relatos de tentativas de assassinatos de militantes sem teto em Minas Gerais, Distrito Federal e Amazonas. O movimento formulou um relatório com o relato dos casos e entregou ao Senado em audiência pública recente.

Na sequência da visita ao escritório na avenida Paulista, os militantes sem teto, apoiados por alguns estudantes e professores em greve da USP, seguiram para a Assembleia Legislativa de SP para lançamento estadual da campanha “Sem teto, com vida”, para denunciar a criminalização dos movimentos sociais.
Fonte: http://www.cartamaior.com.br

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A terra é pra quem vive e trabalha nela!

Escrito por Zé Neto   
barracos na Fazenda Pitombera retomada pelos camponesesCapela, interior de Alagoas, como muitas deste estado, é uma pequena cidade que possui sua economia centrada, principalmente, nas movimentações comerciais das Usinas de moagem de cana-de-açúcar. Esta economia sofre enorme influência dos já consagrados membros do grupo dos mais ricos, a classe dominante.

Muitos destes, além de latifundiários, fazem parte da gerência do velho e carcomido Estado, como o Deputado Federal João Lyra, o deputado estadual Sérgio Toledo e como o próprio João de Paula Gomes, prefeito de Capela e detentor de um vasto latifúndio, como os da maioria, para monocultura de cana-de-açúcar.  

Nesta circunstância o povo fica a mercê da época de moagem, a mercê do principal meio empregatício da cidade, o corte de cana. Como era de se esperar de uma cidade essencialmente agrícola, onde a maioria das terras produtivas está nas mãos do putrefato latifúndio.

Em decorrência desta concentração do latifúndio, preocupado apenas com o plantio de cana, nas feiras da cidade de Capela e das cidades vizinhas, encontramos o absurdo preço dos alimentos. bloqueio feito na entrada da fazenda Pitombeira em novembro de 2010 imedindo a entrada da políciaE é por isso que os camponeses em sua maioria estão sem terra para trabalhar e desta forma, o povo paga alto preço na hora de comprar o feijão, a batata, a farinha, a macaxeira, etc.

Sem esperar por falsas promessas de politiqueiros, camponeses capelenses se organizam e foram à luta. Mesmo depois de resistirem firmemente a dois despejos das áreas que estavam a cerca de cinco anos, levantam alto a bandeira vermelha da luta combativa.

No final do ano passado estes camponeses receberam a arbitrária reintegração de pose das Fazendas Reunidas e da Fazenda Pitombeira, junto à onda fascista de reintegração de posse feita pelo do velho Estado com a direção dos reeleitos gerentes do governo de Alagoas.

Na fazenda Pitombeira nem se quer existiu documentação para alegar propriedade do latifúndio João Lyra. O único documento era o as armas nas mãos do “centro de gerenciamento de crise” (BOPE). Não mais que três meses se passaram, desde o primeiro despejo no final de 2010, para que os camponeses, junto com as chuvas do início do ano, retomassem a fazenda Pitombeira pela terceira vez ocupada.

Retomaram para trabalhar e viver na fazenda que, como consta na documentação em cartório da cidade de capela além das dividas com o estado a fazenda não corresponde ao total alegado pelo latifundiário. Ou seja, dos mais de 250 hectares reivindicados pelo  deputado João Lyra, apenas 90hec. realmente pertencem à fazenda Pitombeira. E os mais de 160hec. a quem pertencem? Como os próprios camponeses relatam no seu panfleto reproduzido abaixo: “a terra tem que ser destinada para quem vive e trabalha nela”.

Camponeses quer terra e não repressão!
Terra para quem nela vive e trabalha!
Viva a Revolução Agrária!


O povo quer terra, não repressão!!!

Dia de feira e o preço do feijão aumentou, a qualidade da macaxeira é duvidosa e o dinheiro no bolso diminui a cada semana que passa. Fim da moagem e a usina manda dezenas de trabalhadores para rua, sem contrato os trabalhadores ficam com as contas para pagar. Quantas vezes nos deparamos nesta situação? Nós trabalhadores rurais de Capela organizados na Liga dos Camponeses Pobres acreditamos que para solucionar esses problemas a terra tem que ser destinada para quem vive e trabalha nela. Queremos plantar! E por isso lutamos.

A “Fazenda Pitombeira” há anos não possui produção. Hoje, boa parte da cana existente nela trata-se de cana velha remanescente do antigo arrendamento da falida Usina João de Deus. A verdadeira produção nesta fazenda ocorreu em 2007. Nesta data a fazenda estava nas mãos dos camponeses, que garantiram, para população de Capela, alimentos frescos, sem agrotóxicos e baratos.

A época de chuva está aí. E nós vamos trabalhar na terra. Essa é a saída que temos para não deixar nossos filhos crescerem em um ambiente de violência e drogas, com trabalho podemos dar o melhor para as nossas famílias. Já organizamos os roçados para as famílias que chegaram e iniciamos a produção.

Convidamos todos que procuram uma saída digna para a falta de trabalho e moradia, chamamos todos para plantar e produzir conosco.

 Terra para quem nela vive e trabalha!

 LCP - Liga dos Camponeses Pobres

Fonte: http://www.resistenciacamponesa.com

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Dilma prepara novo massacre em Corumbiara

Por Codevise   
Seg, 28 de Novembro de 2011


Base do Exército em Cerejeiras/RODesde o fim de semana tropas do Exército brasileiro e Força Nacional de Segurança estão estacionadas na cidade de Cerejeiras, outras unidades da Aeronáutica que contam com helicópteros e aviões estão em Vilhena para participarem de operações na região sul do estado. Uma dessas ações seria retirar as mais de 260 famílias que em dezembro comemoram um ano da realização do corte popular e posse das terras pelos remanescentes das vítimas de Santa Elina e camponeses sem terra. Desde julho de 2010 estas famílias retomaram as terras depois de 15 anos de promessas e muita enrolação. Também fazem parte da operação as Polícias Federal, Militar e tropas da Marinha do Brasil.
  Tropas da Força Nacional desembarcaram em VilhenaEm maio de 2008 quando as famílias retomaram as terras pela primeira vez após 13 anos do massacre, sofreram ataques de bandos armados de latifundiários, perseguições, prisões e foram despejadas pela polícia militar. Ao mesmo tempo tiveram que enfrentar as constantes tentativas do Incra e Fetagro – Federação dos Trabalhadores na Agricultura de desmobilizar os acampados.
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 Nos últimos meses o Incra e a Fetagro retomaram esses ataques ameaçando despejar as famílias que trabalham e produzem nas terras. A polícia militar e civil tem realizado levantamentos de lideranças e trabalhadores visando a sua prisão e perseguição. Membros da Fetagro e representantes do Incra também tem realizado um amplo trabalho de deduragem de ativistas e lideranças camponesas junto à policia.
 Existem boatos de que latifundiários estariam preocupados com a presença da LCP temendo um aumento das tomadas de terra na região. Ao mesmo tempo sindicatos ligados à Fetagro (PT/CUT) também tentam a todo custo desmobilizar as famílias. Há denúncias de que representantes do Incra teriam negociado o direito dos lotes com pessoas de outras cidades da região. Formou-se uma “santa aliança” entre as forças repressoras do Estado, latifundiários e oportunistas do PT que preparam um novo massacre contra as famílias de Santa Elina.
 A situação é grave, estão preparando uma onda de prisões e perseguições aos camponeses de Santa Elina. Um delegado que esteve na área disse que fariam como no sul do Pará, em alusão a chamada operação “Paz no Campo” levada a cabo pela então governadora Ana Júlia Carepa (PT) no despejo de 1100 famílias da fazenda Forkilha em novembro de 2007. Nesta ocasião cerca de 200 camponeses foram presos e torturados pela PM e doze ativistas que participaram da mobilização para a tomada da área foram assassinados posteriormente por pistoleiros a serviço do latifúndio.
 Camponeses celebram 16 anos da resistência de CorumbiaraO governo Dilma Roussef (PT) já deixou claro que esta é a sua política agrária: financiar com bilhões o agronegócio exportador de matéria prima barata e concentrador de terras e criminalizar os camponeses que lutam pela terra de forma combativa. Há anos Lula prometeu que assentaria as vítimas de Santa Elina, mas nunca fez nada. Sequer recebeu uma delegação de camponeses que ficaram acampados em Brasília por mais de 23 dias em agosto de 2007. Depois de tanto esperar, as famílias decidiram retomar as terras e exigem o reconhecimento de sua posse.
Manifestação 9 de agosto 2011 Nós, as vítimas de Santa Elina e todas as famílias que vivem e trabalham nestas terras não desistiremos de lutar por elas, estamos dispostos a defendê-las com unhas e dentes. Qualquer coisa que venha a acontecer com as famílias será de inteira responsabilidade da gerência Dilma/PT e Ouvidoria Agrária Nacional. Conclamamos a todos os trabalhadores, professores, estudantes, intelectuais honestos, organizações classistas a denunciar este absurdo contra as famílias vítimas de Corumbiara.
Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina - Codevise
Fonte: http://www.resistenciacamponesa.com

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Por um Brasil sem latifundios...

Jornada do MST chega a 42 ocupações pela Reforma Agrária -15 de abril de 2010

A jornada de lutas do MST chegou a 42 ocupação de latifúndios, protestos em prédios públicos e marchas em 16 estados, em defesa do assentamento das 90 mil famílias acampadas, pela atualização dos índices de produtividade e por políticas públicas para as áreas de Reforma Agrária.
O MST cobra os compromissos assumidos pelo governo federal, depois da jornada de agosto, que ainda não foram cumpridos.
“Queremos apresentar na jornada a nossa pauta de reivindicações, que está amarela”, afirma o integrante da coordenação nacional do MST, João Paulo Rodrigues.
A maioria das áreas ocupadas já foram classificadas como improdutivas em vistorias do Incra, mas ainda não foram desapropriadas e destinadas à Reforma Agrária.
A jornada denuncia também o processo de repressão de desmoralização dos movimentos sociais, realizada pela bancada ruralista, por setores do Poder Judiciários e pelo mídia burguesa, com o lema “Lutar Não é Crime”.
“Vamos combater a campanha da CNA com ocupações de latifúndios”, afirmou João Paulo, em referência à tentativa de criminalização dos movimentos sociais do campo pelos latifundiários.
O MST realiza mobilizações em todo o país na semana do Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, em 17 de Abril, que foi instituído no governo Fernando Henrique Cardoso, em 2002, em memória dos 19 Sem-terras assassinados no Massacre de Eldorado de Carajás, em 1996.
Com o lema “Lutar não é crime”, o MST exige o assentamento das 90 mil famílias acampadas em todo o Brasil; a atualização dos índices de produtividade; a garantia de recursos para as desapropriações e investimentos públicos nos assentamentos (crédito para produção, habitação rural, educação e saúde).
Foram ocupados latifúndios em Pernambuco (19), São Paulo (9), Paraíba (5), Sergipe (3), Ceará (2), Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul (uma em cada estado).
Os Sem Terra fizeram também protestos em prédios públicos por apoio aos assentamentos, em São Paulo (ocupação do Incra em Bauru e Itesp em Itaberá), Paraná (acampamento em frente ao Incra em Curitiba), Mato Grosso (acampamento em frente ao Incra em Cuiabá), Goiás (marcha com 850 trabalhadores rurais), Rio de Janeiro (sede da Justiça Federal em Itaperuna), Alagoas (ocupação de cinco prefeituras), Rio Grande do Norte (ocupação da prefeitura de Mossoró), Ceará (prefeitura de Itapiúna) e Pará (dois acampamentos, em Eldorado de Carajás e Belém).
Abaixo, um panorama geral, por estado, das manifestações na Jornada de Lutas pela Reforma Agrária.
Alagoas
Desde domingo, mais de sete manifestações foram realizadas no estado. Foram ocupados dois latifúndios e as prefeituras de Delmiro Gouveia, Inhapi, Olho d'Água do Casado, Girau do Ponciano e Atalaia. Ainda, com a negativa do prefeito em receber a marcha do MST em Atalaia, os manifestantes decidiram bloquear a rodovia BR-316, que passa pelo município.
Ceará
Mais de 600 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Movimento dos Conselhos Populares ocuparam, na manhã desta quinta-feira (15/4), o Sítio São Jorge, uma fazenda de 800 hectares localizada entre a Avenida Perimetral e a Avenida I, no bairro José Walter, em Fortaleza. Outras ações estão ocorrendo, como é o caso da ocupação, por 100 famílias, da fazenda Currais Novos, em Madalena, também nesta quinta-feira (15/4) e da ocupação, por 200 assentados, da prefeitura de Itapiúna, no norte cearense.
Distrito Federal
A Comissão de Legislação Participativa (CLP) realizou na quarta-feira (14/4), audiência pública para discutir a criminalização dos movimentos sociais no Brasil e as causas da violência no campo. Participaram João Pedro Stedile, do MST, Sergio Sauer e o deputado federal Dr. Rosinha, Coordenador da Frente Parlamentar da Terra. Foi feito um balanço geral do processo de criminalização dos movimentos do campo e de momentos simbólicos de repressão como o assassinato de Dorothy Stang, o Massacre de Eldorado dos Carajás. Ainda, o integrante da direção nacional do MST João Pedro Stedile defendeu mudanças no modelo de Reforma Agrária brasileiro. De acordo com ele, é preciso combinar as desapropriações, com o estímulo às agroindústrias, sob técnicas advindas da agroecologia e a educação no campo.
Goiás
Cerca de 850 Sem Terra estão em marcha desde segunda-feira (12/4). Saíram de Itaberaí rumo à capital Goiânia, num percurso de 100 quilômetros, que deve terminar nesta sexta-feira. Na capital, onde devem ficar até dia 23/4, haverá negociações com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o governo do estado, para discutir obtenção de terras para a Reforma Agrária e política de infra-estrutura em assentamentos do estado.
Maranhão
A Caravana dos Povos do Maranhão e Pará terminou com uma grande plenária e vários protestos contra a empresa Vale na região, em Açailândia (MA), no sábado. As atividades deram início à Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária no estado. Reunidos desde segunda-feira (5/4), a Caravana, composta por representantes de seis países, percorreu várias cidades do Pará e Maranhão debatendo os impactos da Mineradora Vale e trocando experiências de lutas dos diversos países contra a Empresa.
Mato Grosso
Cerca de 200 homens e mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Mato Grosso, em Cuiabá, montaram acampamento nesta segunda-feira (12/4) em frente ao Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), iniciando a Jornada de Lutas por Reforma Agrária, que acontece no mês de abril em todo o Brasil. Acampados em frente ao Incra, os Sem Terra, que vivem em acampamentos e assentamentos no interior do Estado, vão cobrar novamente a pauta proposta ano passado e que em nenhum ponto foi cumprida. Eles querem, essencialmente, o assentamento de 2.500 famílias e estrutura para os assentamentos.
Paraíba
Foram ocupados cinco latifúndios na Paraíba nos municípios de Uirauna, Vale do Piancó, Santa Rita, Cabeceiras e Algodão de Jandaira. Na segunda-feira, 300 famílias montaram acampamento na rodovia PB-415, próximo ao município de Uiraúna, sertão da Paraíba, para reivindicar a desapropriação de três imóveis rurais: a fazenda Rio do Peixe, com 900 hectares, a fazenda Val Paraíso, com 1500 hectares, e a fazenda Canadá, com 700 hectares. Já na região do Vale do Piancó, 60 famílias ocuparam a fazenda Riachão, no município de Ibiara.
Pará
Neste ano, em sua quinta edição, o Acampamento acontece desde o último sábado na entrada do assentamento 17 de abril (PA 275), onde hoje estão assentadas as 699 famílias que conquistaram a terra logo após o massacre. O Acampamento conta com a participação de 250 jovens do MST, FETAGRI e jovens convidados da UES (União dos Estudantes do Ensino Superior de Santarém), que todos os dias fazem estudos sobre a realidade da juventude, sexualidade e saúde, educação, cultura e comunicação.Todos os dias a rodovia PA 275 é interditada às 17h30 (hora do início do massacre) por 19 minutos, em lembrança aos 19 militantes assassinados na curva do “S” pela Polícia Militar do estado do Pará. Desde 2006, quando o massacre de Eldorado do Carajás completou 10 anos, o MST realiza no Pará o Acampamento Pedagógico da Juventude Camponesa, com diversas atividades. Na capital, Belém, será montado um grande acampamento na Praça Mártires de Abril, de 16 a 20 deste mês, com 1000 pessoas.
Paraná
Na terça-feira, cerca de 1.000 trabalhadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná chegaram a Curitiba para participar da Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Pela manhã, no Monumento Antonio Tavares, BR 277, houve o ato de abertura da mobilização, com o lema “Lutar não é crime”. Depois do ato, os Sem Terra seguiram em caminhada até a Superintendência Regional do INCRA, onde foi entregue uma pauta de reivindicações. Durante a mobilização serão realizadas negociações com o Incra, Banco do Brasil, Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e secretarias estaduais. Para o dia 16/4, sexta-feira, está prevista uma Audiência com autoridades estaduais e federais no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.
Pernambuco
Desde domingo (11), 2850 famílias ocuparam 19 latifúndios, em Pernambuco. As ocupações foram feitas em diversas regiões do estado e fazem parte da Jornada NegritoNacional de Luta pela Reforma Agrária. As ações da jornada denunciam trabalho escravo, dívidas das usinas com a união e extrema pobreza no campo pernambucano.
Rio de Janeiro
Na quarta-feira, diversas famílias Sem Terra se mobilizaram em frente à sede da Justiça Federal, na cidade de Itaperuna, norte do Rio de Janeiro, para pressionar a Justiça federal para dar a imissão na posse da Fazenda Santa Maria, para o assentamento das famílias. Em 2008, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) entrou com o pedido de desapropriação, embargado agora no Judiciário. Mais ações ocorrem no estado até o fim do mês.
Rio Grande do Norte
Cerca de 350 famílias ocuparam a prefeitura de Mossoró (RN) nesta quinta-feira (15/4), para apresentar uma pauta de reivindicações que envolve o abastecimento de água aos assentamentos e acampamentos, investimentos em saúde, infra-estrutura para as escolas, coleta seletiva e reciclagem, transporte e comercialização dos produtos agrícolas dos assentamentos. Na região de Mossoró, existem onze assentamentos, e mais de mil famílias ainda vivem em baixo da lona preta, distribuídas em três acampamentos do MST.
Rio Grande do Sul
Cerca de 200 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Sul ocuparam uma fazenda na cidade de Sananduva, no Norte do estado. A Fazenda Bela Vista possui 500 hectares. O proprietário da área possui dívidas com o Banco do Brasil e a área ainda é alvo de crime ambiental.
São Paulo
Desde segunda-feira, cerca de 3000 trabalhadores Sem Terra fizeram nove ocupações no estado de São Paulo. As ações foram feitas em diversas regiões do estado, como Ribeirão Preto, Iaras, Campinas, Itapeva, Bauru, São Paulo, dentre outras. As ações foram direcionadas aos órgãos do estado, como INCRA e o Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), além de latifúndios improdutivos. Diversas pautas foram apresentadas, como a desapropriação de áreas, incluindo a área grilada utilizada pela Cutrale.
Santa Catarina
Cerca de 200 famílias ocuparam, nesta terça-feira (13/4), uma fazenda em Curitibanos, na região serrana de Santa Catarina. A área, a fazenda Xaxim, já tem decreto de desapropriação e estava pronta para a posse dos Sem Terra, mas o proprietário entrou com uma ação no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre e suspendeu a decisão do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A ocupação é uma forma de pressionar por uma decisão favorável e garantir a área aos trabalhadores rurais. Em Santa Catarina, cerca de duas mil famílias vivem acampadas.
Sergipe
Na manhã de quinta-feira (15/4), 100 famílias ocuparam a fazenda São Luiz, em Poço Redondo. Na terça-feira (13/4), outras duas fazendas foram ocupadas no estado. A Água Branca, também conhecida como São José, foi ocupada por 50 famílias, no município de Estância. Na mesma cidade, 50 famílias ocuparam ainda a fazenda Rio Fundo

Fonte: http://www.mst.org.br/

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Latifundiário ou Sem Terra: um dos dois tem que perder

Ao longo dessa semana, o MST realizou marchas, atos, ocupações - de propriedades rurais e de prédios públicos - em diversos Estados para cobrar do governo federal medidas concretas para a realização da Reforma Agrária.
As principais reivindicações dos Sem Terra são o assentamento imediato de 90 mil famílias acampadas há mais de quatro anos pelo país; a atualização dos índices de produtividade da terra, que servem de parâmetro para classificar as propriedades rurais improdutivas, inalterados desde 1975; e o descontigenciamento de R$ 800 milhões retidos do orçamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) por conta da crise econômica.
Principal liderança do MST, o gaúcho João Pedro Stedile concedeu entrevista ao UOL Notícias (em 14/08/09), na qual falou sobre a questão agrária no Brasil, as eleições presidenciais de 2010, o governo Lula, a crise no Senado, além de fazer um balanço dos 25 anos do movimento.
UOL - Sob o ponto de vista dos Sem Terra, a situação agrária no Brasil evoluiu ou continua praticamente igual a de 1996, quando houve o massacre de Eldorado dos Carajás e o movimento ganhou projeção?
João Pedro Stedile - Há aspectos que melhoraram muito, como, por exemplo, a criação do programa Luz Para Todos, que praticamente universalizou o acesso à energia elétrica. Há outros aspectos que pioraram, como as condições de trabalho, as relações trabalhistas, a existência de trabalho escravo. Melhorou o nível de violência dos conflitos. Antigamente havia muito mais assassinatos, os fazendeiros eram mais prepotentes, queriam resolver tudo no tiro. Isso não significa que nós deixamos de ser reprimidos, mas agora a repressão é judiciária. É mais uma perseguição política ao MST e às suas lideranças. Do ponto de vista da organização da produção, eu acho que a situação piorou. Ainda somos reféns de 15 anos de neoliberalismo, que conseguiu impor ao Brasil esse modelo do agronegócio. Isso é um desastre para os nossos recursos naturais, para o meio ambiente, para a produção de alimentos. Recentemente a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou uma pesquisa não recomendando o consumo de 20 produtos e não aconteceu nada. Se fossemos uma sociedade mais organizada, o consumo desses produtos seria proibido. Mas é preciso criar condições para produzir alimentos saudáveis. E isso só em um outro modelo agrícola, baseado na agroecologia, na pluricultura. Hoje, a pequena agricultura perdeu espaço e as empresas transnacionais tomaram conta. Em cada segmento da produção agrícola, a produção se concentrou de tal maneira que nós temos quatro ou cinco empresas transnacionais controlando tudo. Nós regredimos do ponto de vista da soberania alimentar e do controle da nossa agricultura.

UOL - Em 25 anos, no que o MST evoluiu, no que regrediu, o que precisa mudar, quais são as maiores dificuldades que vocês enfrentam e quais os desafios?
João Pedro Stedile - Evoluímos em muitos aspectos internos. Em convênio com o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), já formamos mais de 3.000 filhos de camponeses em cursos superiores. Temos atualmente mais de 3.500 frequentando universidades e mais de 300 companheiros fazendo pós-graduação, mestrado e doutorado. Isso é um avanço para a nossa organização, porque nos demos conta de que o conhecimento é fundamental para você construir uma sociedade democrática e, sobretudo, para resolver os problemas concretos. O MST investiu muito na educação da sua militância e da sua base. O que é uma novidade. Porque não havia essa tradição nos movimentos camponeses nem no Brasil, nem no mundo. Nós avançamos muito e digo isso com uma autocrítica porque há seis, dez anos atrás nós não dávamos bola para a agroecologia, achávamos que era coisa de ambientalista. Quando começamos perceber a gravidade da produção agrícola, as consequências dos agrotóxicos, do monocultivo, é que fizemos uma autocrítica e adotamos a agroecologia. Avançamos também no sentido de valorizar a cultura camponesa. O MST hoje tem vários pontos de cultura, estimulamos o teatro, fizemos convênios com o Teatro do Oprimido, do [Augusto] Boal, com o Ministério da Cultura, passamos filmes no interior...

Uol - E os desafios?
João Pedro Stedile - Os desafios ainda são enormes. Hoje não se trata mais de descobrir qual é o latifundiário atrasado e ocupar a fazenda dele. O latifúndio se modernizou porque se vinculou às empresas multinacionais e adotou o agronegócio. Vamos pegar o exemplo do banco Opportunity. O Daniel Dantas comprou 600 mil hectares no Pará, em 52 fazendas, onde ele cria mais de 450 mil bois. Para que um banco precisa de terra? Quando nós começamos a ocupar essas fazendas, nós enfrentamos um banco que, segundo relatório da Polícia Federal, é testa de ferro do Citigroup. Então, quando se ocupa uma fazenda do Dantas, não é só de um fazendeiro atrasado do Pará. Se enfrenta o capital financeiro instalado na avenida Paulista (em São Paulo). E eles têm tentáculos nos meios de comunicação, como a Isto É, [que] é do Dantas, do banco Opportunity. Então, a Isto É, na outra semana após a ocupação, na capa, nos chama de bandidos, terroristas etc (em 2007, foi noticiado que o grupo de Dantas iria adquirir 51% do capital da Editora Três, proprietária da Isto É, mas a negociação não se concretizou por desistência da editora; o UOL Notícias procurou a empresa que, por meio da sua secretaria jurídica, afirmou que o grupo de Dantas não possui qualquer participação no seu capital e questionou o porquê de Stédile ter se referido ao banqueiro). Em São Paulo, antigamente nós ocupávamos uma área de pecuária extensiva, no Pontal [do Paranapanema]. Hoje, as melhores áreas produtivas se transformaram em monocultivo da cana. E de quem é a maior fazenda de cana aqui em São Paulo com 100 mil hectares? Da usina comprada pela Cargill. Então, quando nós vamos lá nos manifestar contra o monocultivo da cana, estamos enfrentando a Cargill, que é o maior grupo mundial de grãos. Essa é a mudança na correlação de forças que prejudicou muito os camponeses. E daí vem a necessidade de fazer uma Reforma Agrária não mais só ocupando a terra, mas com a mudança de modelo econômico.

UOL - Eu gostaria que o senhor comentasse a política agrária dos dois últimos governos do Estado São Paulo, de José Serra e Geraldo Alckmin (ambos do PSDB)?
João Pedro Stedile - A minha atuação é mais em nível nacional. Embora eu more aqui em São Paulo, não acompanho as questões mais relativas aos Estado. São outros companheiros que acompanham isso. Pelo o que sei, os dois governos foram apenas apoio ao processo de expansão do agronegócio, sobretudo da expansão do monocultivo da cana, que é lamentável. Nós esperamos que algum dia eles se deem conta que temos que urgentemente mudar o modelo agrícola, até porque o modelo do monocultivo da cana traz conseqüências graves no equilíbrio climático e afeta as populações das cidades. Na região de Ribeirão Preto, que hoje já virou monopólio da cana, tem pesquisas da USP (Universidade de São Paulo) que [mostram que] nos últimos 20 anos a temperatura aumentou 2ºC na média. A prefeitura de Ribeirão já tem problemas porque ela capta água do lençol freático do aquífero Guarani para abastecer a população. A cada ano eles têm que aprofundar ainda mais a captação porque o monocultivo da cana suga muita água. Então falta abastecimento de água para a população por causa do modelo agrícola. Isso é de responsabilidade do governo estadual. Então, faço até como um apelo para que o governo de SP fique mais alerta sobre as consequências que o atual modelo agrícola traz para a população em geral.

UOL - O que o senhor pensa da crise do Senado?
João Pedro Stedile - A crise do Senado é o espelho mais verdadeiro possível da forma como a classe dominante brasileira trata os bens públicos e a democracia. Eles são o espelho disso. Eles tratam as coisas públicas como se fossem propriedade privada e tratam a opinião pública com escárnio. Por isso, eu acho que a melhor solução para o Senado é aquela que a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) já está defendendo, que na próxima Constituinte nós eliminemos o Senado da sociedade brasileira. Nossa sociedade não precisa do Senado. Basta uma Câmara dos Deputados. E ainda mais representativa, com, em vez de 500 deputados, mil. Na Câmara também tem que haver uma proporcionalidade [de deputados] mais adequada. O voto daquele que mora no Acre ou no Amazonas vale 20 vezes mais do que o voto de um cara que vota em São Paulo. Isso é uma distorção na democracia, na qual cada pessoa representa um voto. E essas questões que envolvem a federação dos Estados poderiam ser resolvidas em um conselho da República, que não precisasse de tanto dinheiro. Quem pode imaginar que o Senado gasta hoje R$ 2 bilhões por ano? Isso não tem necessidade nenhuma. Porém, mais do que isso, é preciso fortalecer outros mecanismos da democracia brasileira, que certamente não passam pelo Senado.

UOL - É possível pensar em um projeto de esquerda para o Brasil, ou vislumbrar uma sociedade mais justa e igualitária, por meio das instituições democráticas que temos hoje?
João Pedro Stedile - Claro. Há um debate na sociedade que se aglutina em quatro campos: alguns setores das elites, das classes dominantes, defendem a subordinação total do Brasil ao capital internacional. Aí estão os 5% mais ricos, as empresas transnacionais, os bancos, que são os que defendem políticas neoliberais e que, nos partidos, tem sua expressão, sobretudo, entre os tucanos e entre o DEM; temos um setor nacionalista, que está presente em todos os partidos, que defende um projeto "neo-keynesiano" para o Brasil, com algumas políticas de distribuição de renda, redução da taxa de juros e fortalecimento do mercado interno; há outros setores da esquerda brasileira, mais radicais, como correntes do PSOL e do PSTU, que defendem o "socialismo já". Eles acreditam que o capitalismo já chegou a sua maioridade aqui no Brasil e que não há outra saída sem o socialismo. Só que a palavra socialismo é muito forte. Significa socialização da propriedade dos meios de produção. Não é apenas você ser socialista no sentido humanista, ser socialista por querer uma sociedade mais justa; nós, dos movimentos sociais, defendemos um quarto projeto, que chamamos de projeto popular, que é, nos marcos da nossa sociedade, fortalecermos de fato o Estado para que ele adote uma política econômica que leve ao desenvolvimento do país em benefício do povo. Quais são os problemas fundamentais do povo no Brasil? Desemprego alto, falta de moradia, necessidade de Reforma Agrária e ausência de educação. Então, [nós defendemos] um programa para a sociedade que coloque o dinheiro público como prioridade para resolver os problemas do povo. Mas não basta colocar no papel "esse é o nosso projeto". É preciso construir, acumular forças populares que atuem para a implementação desse projeto.

UOL - Esse projeto popular é um caminho para uma sociedade socialista?
João Pedro Stedile - Ele é fundamental. Ele seria uma espécie de transição para nós construirmos uma sociedade mais igualitária. Primeiro vamos resolver os problemas fundamentais da população. Que é comida, trabalho, moradia e educação. Depois, podemos avançar para a socialização de outros meios de produção da nossa sociedade.

UOL - Qual é o modelo de Reforma Agrária defendido hoje pelo MST?
João Pedro Stedile - Na história das Reformas Agrárias, há dois tipos clássicos. Primeiro, a Reforma Agrária capitalista, que todos os países do hemisfério norte fizeram entre a metade do século 19 e ao longo do século 20 até a Segunda Guerra Mundial. E eles fizeram as Reformas Agrárias clássicas capitalistas, distribuindo a propriedade da terra para fortalecer o mercado interno e desenvolver a indústria nacional. Depois houve uma outra Reforma Agrária clássica, que aconteceu no bojo de Revoluções Socialistas, ou de Revoluções Populares, como no Vietnã, China, Rússia, Nicarágua e Cuba. Qual é a realidade hoje no Brasil? Nós tentamos desde o início do movimento defender uma Reforma Agrária clássica capitalista, mas não há forças acumuladas burguesas que queiram essa reforma. Por isso que o governo não faz Reforma Agrária. Quem fez as reformas agrárias capitalistas? Foram as burguesias industriais, que queriam desenvolver o mercado interno e a indústria. Também seria uma ilusão achar que a solução seria uma Reforma Agrária socialista, porque essa reforma só acontece depois de uma revolução. Ela é casada com um processo revolucionário, que não é o que temos hoje no Brasil. O que nós propomos é uma Reforma Agrária que chamamos de popular, que se diferencia das duas. Nessa reforma não basta distribuir terra, como na reforma capitalista. É necessário também desenvolver agroindústrias na forma cooperativa, criar pequenas agroindústrias nos assentamentos. Assim, o agricultor sai mais rápido da pobreza, porque daí ele não vai só produzir matéria prima, mas também se apropriar do valor agregado dos produtos e gerar emprego no meio rural.

UOL - Na quarta-feira (12/8), houve uma reunião entre representantes do sem-terra e dos ministérios, na qual o governo afirmou desconhecer a pauta de reivindicações do MST, muitas delas já apresentadas ao presidente Lula em 2005. O senhor acha que o governo Lula é realmente melhor para os Sem Terra ou é apenas aparência?
João Pedro Stedile - Na audiência havia cinco ministérios. Evidentemente que nem o Palácio do Planalto, e muito menos o ministro da Reforma Agrária (Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário), disseram que desconheciam a pauta. Quem disse que desconhecia foi o ministério da Fazenda e do Planejamento, porque não é a área deles. Agora, o ponto mais negativo da conversa não foi isso. O ponto mais negativo é que o Ministério da Fazenda abriu o jogo, disse que a crise é grave, que a arrecadação diminuiu entre 30 e 50% nesse primeiro semestre e que o governo tem dificuldades de recompor o orçamento do Incra, porque eles cortaram pela metade o orçamento de R$ 958 milhões destinado a obtenção de terras. Então, nossa reivindicação principal agora é que o governo, como um todo, determine que o Ministério da Fazenda recomponha o orçamento do Incra. Eu ouvi pessoalmente o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) se comprometendo que não haveria cortes nos orçamentos relativos à pequena agricultura. Portanto, temos o compromisso da palavra dele e do presidente Lula de que não haveria cortes sociais. Por isso insistimos que o presidente enquadre o Ministério da Fazenda e mande repor o orçamento do Incra, até porque está na lei orçamentária aprovada no Congresso. Não estamos pedindo nada a mais do que cumprir a lei e não acreditamos que não tenha dinheiro no Ministério da Fazenda. Porque para outros setores da sociedade, como indústria automobilística, desoneraram o IPI - o que representou um custo de cerca de 20 bilhões -, desoneraram o depósito à vista dos bancos, o que representou R$ 80 bilhões dos cofres dos bancos. Portanto nós não estamos convencidos de que [o governo] não tenha dinheiro. O que não tem é dinheiro para a reforma agrária e para a pequena agricultura.

UOL- Qual o balanço que o senhor faz dos dois mandatos de Lula com relação a questões sociais e agrárias?
João Pedro Stedile - O governo Lula, como ele mesmo gosta de comparar, é muito parecido com o do Getúlio Vargas. É um governo de composição de classes. Ao longo desses sete anos, ele adotou uma política que agradou gregos e troianos. Ou seja, ele, com sua política econômica, beneficiou os banqueiros, os grandes grupos transnacionais, e, ao mesmo tempo, fez políticas de assistência social, como o Bolsa Família, Prouni, [promoveu] a valorização do salário mínimo, aumentou os recursos para o Pronaf, o que atendeu a uma parcela mais pobre da sociedade brasileira. Agora, em relação à Reforma Agrária e à pequena agricultura, o governo Lula está em dívida. Porque na Reforma Agrária não tem como você compactuar latifundiário com sem-terra. Um dos dois tem que perder. E, infelizmente, o número de desapropriações de fazendas, em especial na região Nordeste e nas regiões Sudeste e Sul, que são as regiões mais agrícolas, as desapropriações foram menores do que no governo Fernando Henrique Cardoso. O atual governo repetiu uma tática que o Jugmann (Raul Jungmann, ministro extraordinário da Reforma Agrária no governo Fernando Henrique) fazia: para manter as estatísticas, fizeram projetos de colonização na Amazônia. Pegaram terras públicas e distribuíram, e com isso mantiveram as estatísticas. Mas, na verdade, o que vem acontecendo no Brasil nos últimos 10 anos é que há um violento processo de concentração da propriedade da terra. Ou seja, é um movimento contra a Reforma Agrária. Em vez de nós estarmos democratizando a propriedade da terra, dando acesso a mais gente e criando mais oportunidade de trabalho para que as pessoas não venham para a cidade, nesses últimos anos nós sofremos um processo de concentração, justamente por essa ineficácia do governo Lula em desapropriar fazendas nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul.

UOL - O MST é criticado por setores da esquerda e da opinião pública por suposto abrandamento das ações e da postura durante o governo Lula. O que o senhor pensa disso?
João Pedro Stedile - Isso é uma manipulação ideológica. Tanto pela direita, quanto pela esquerda. Porque se você pegar as estatísticas, nós nunca fizemos tantas ocupações quanto agora, então setores da esquerda, tipo Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas) e o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), dizem que nós ficamos chapa branca e o editoral do Estadão diz que por causa do governo Lula nós viramos sem-lei. Então, claro, cada um interpreta da sua maneira, mas nós estamos com a consciência tranquila, o nosso papel é ser um movimento que faz luta social, e a luta social nós aumentamos, e ao mesmo tempo nós temos autonomia do governo. Desafio alguém dizer que o MST segue as orientações do PT, PCdoB, ou de qualquer outro partido, do PSOL, desafio alguém a provar que o MST é refém das medidas do governo. Tanto que nessa semana acabamos de ocupar o Ministério da Fazenda e neste momento estamos com manifestações em 12 Estados, vários Incras ocupados, porque nós queremos que se resolvam os problemas concretos do povo.Se o nosso objetivo fosse ter apenas indices de popularidade para a opinião pública nós tínhamos fundado uma banda de rock.

UOL - Recentemente o senhor afirmou que a Dilma Rousseff é ignorante em questões rurais. Por quê?
João Pedro Stedile - A formação técnica dela é na área de energia. Ela é uma economista tipicamente urbana. Eu acho que ela está preparada para essas questões mais amplas. E quando eu me referi a isso, foi num debate no Incra justamente no dia em que o governo cortou 48% do orçamento para a reforma agrária. E eu disse, como uma reação natural, de que um governo, em uma crise dessa, que toma uma decisão que corta 48% da verba para a reforma agrária, é um governo ignorante, que não sabe que a reforma agrária poderia ser um dos principais instrumentos, e mais baratos, para conter a crise no meio rural. Essa crise que afetou a produção de soja, algodão e milho, diminuiu o preço das commodities, diminuiu a taxa de lucro dos fazendeiros, e quem pagou a conta foram os trabalhadores assalariados rurais. Cerca de 300 mil trabalhadores perderam o trabalho. Para onde eles foram? Para a cidade. Alguns já moravam na periferia das cidades. E foram fazer bico. Ora, se o governo quer arrefecer as consequências da crise no meio rural, ele poderia imediatamente acelerar, aumentar até o orçamento da reforma agrária para dar terra a esses 300 mil trabalhadores que ficaram sem emprego no campo.

L- Nessa mesma época, segundo notícias veiculadas na imprensa, a Casa Civil e o Planalto teriam buscado se aproximar dos movimentos sociais por conta de uma possível candidatura da Dilma. Houve essa aproximação?
João Pedro Stedile - Nós percebemos que o Partido dos Trabalhadores (PT), do qual ela é filiada, multiplicou reuniões de consulta aos movimentos, como partido, não como candidatura. Assim como outros [partidos]. Nós, MST, como somos um movimento social que zela pela autonomia em relação ao governo, ao Estado, aos partidos e à religião, estamos muito à vontade, porque nós conversamos com todos os partidos. Conversamos com PDT - eu mesmo sou muito amigo do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) -, com o PCB, PCdoB, e PMDB. Nós temos ótimas relações com o governador [Roberto] Requião no Paraná. Conversar e ter diálogo faz parte da democracia. Não significa se subordinar. E essa é a política do MST e que os movimentos sociais em geral vão adotar. De diálogo, conversações, sem subordinação.

UOL - Entre Dilma e Lula, quem busca mais diálogo com os movimentos e qual dos dois é mais alinhado ao agronegócio?
João Pedro Stedile - Isso são questões mais pessoais. Evidentemente que o presidente Lula tem uma história mais vinculada. Ele é fruto do reascenso do movimento de massas, que houve de 1978 até 1990. E por isso que se construiu todo esse carisma em torno da sua pessoa, o que a Dilma não tem. É claro que ele tem mais projeção entre movimentos sociais e entre os pobres do campo. Agora, a relação do governo com o agronegócio não depende de carisma pessoal, de comportamento pessoal, nem de conhecimento. A relação com o agronegócio vai depender de como vai evoluir a luta de classes no Brasil. Eu acredito que nos próximos anos nós precisamos e teremos um grande debate na sociedade brasileira em torno de um novo modelo de produção de alimentos e de agricultura. Porque o modelo do agronegócio está falido. É um modelo que só interessa a empresas transnacionais e a exportações. E, cobra como fatura do povo brasileiro, uma degradação ambiental. Não é à toa que o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Na safra passada, jogamos 713 milhões de toneladas de veneno sobre o nosso solo, a nossa água e os nossos alimentos. O agronegócio é o modelo de produção que expulsa mão-de-obra porque adota a mecanização intensiva. Então não há lugar para camponeses e para os pobres nesse modelo. O resultado de tudo isso é que pode até aumentar as exportações, mas pro mercado interno aumenta cada vez mais a produção de alimentos contaminados. Então, eu acredito que a população da cidade, que é quem está comendo esses alimentos contaminados, quem está sentindo um aumento do câncer, e está sentindo na pele a conseqüência desse processo, assim como os ambientalistas, serão os aliados do MST para nós mudarmos o modelo agrícola e fortalecemos outro modelo baseado na Reforma Agrária e na agricultura familiar.

UOL - O que o senhor falou dos ambientalistas, a senadora Marina Silva pode se desfiliar do PT e concorrer à presidência pelo PV. O que o senhor pensa disso?
João Pedro Stedile - Eu vou te dar uma opinião pessoal porque o fato é muito recente e nós não conversamos nos coletivos do MST. Pessoalmente eu vejo com muito bons olhos, com muita simpatia. Porque nós vivemos em uma sociedade democrática e quanto mais candidatos a presidente houver, melhor. Porque isso gera debate na sociedade. E um dos problemas que nós temos daqui até 2010 é a necessidade de debater projetos para sociedade. Não basta apenas debater candidaturas e partidos. E o pior dos cenários que nós podemos ter para a democracia brasileira e para o projeto de sociedade é se nós chegarmos a uma conjuntura eleitoral de que a decisão se defina apenas entre Dilma e Serra no primeiro turno. Por isso, pessoalmente, mesmo sendo filiado ao PT, vejo com muita simpatia que haja outras candidaturas porque isso vai oxigenar a política brasileira e obrigar a se fazer um debate não de nomes, mas sim de projetos. Então, uma candidatura da Marina vai trazer para o debate um projeto que ela defende. Com o enfoque muito maior à sustentabilidade do meio ambiente, à produção de alimentos sadios, à preservação da Amazônia, que é a região dela, e isso que é importante, é debater. O número de votos é o de menos.

UOL - Temos a chance de ter três mulheres disputando a eleição com possibilidade de alcançar grande eleitorado: Heloísa Helena pelo PSOL, Dilma pelo PT, e possivelmente a Marina Silva pelo PV. Considerando a história de cada uma, o senhor estaria mais inclinado a apoiar qual em uma eleição?
João Pedro Stedile - Eu acho que o problema não é em quem votar. Eu acho que nós, como movimento social e como militantes, devemos estimular sempre o debate político. O debate de projetos. Então vamos esperar. Não é só julgar as pessoas e as suas biografias. Se nós ficássemos julgando a biografia dos parlamentares, 70% deles não deveria estar no Congresso. No entanto o povo vota neles. Então, eu prefiro defender a idéia de que tenham mais candidatas e candidatos e que nós aproveitemos bem essa pluralidade de idéias para daqui até outubro de 2010 nós dedicarmos o máximo de tempo para debater projetos.

(Fonte: UOL Notícias)

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