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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

China: A Revolução Silenciosa



O ano de 2011 foi marcado por grandes lutas e, principalmente, revoluções. São tantas e em tantos locais que levantes fenomenais, como ocorreu recentemente em Wukan, na província de Guangdong, não mereceram sequer análise mais profunda. Neste ano que acaba, fazer levantes transformou-se numa atitude óbvia.
Em Wukan, após vários dias de rebelião aberta contra a burocracia governante, que cercou o povoado, deixando-o isolado, a população local arrancou uma importante vitória, ainda que não se possa dizer que não venha a haver retaliações nos próximos dias.

Após o levante, que explodiu com o assassinato de Xue Jinbo, dirigente da luta contra o roubo das terras por construtoras e funcionários comunistas corruptos, os manifestantes forçaram o Partido Comunista a congelar as negociatas das terras que estavam a ser roubadas, libertar vários ativistas presos e demitir funcionários corruptos da administração local. O que, desde logo, não é pouca coisa na repressiva China e, mais do que isso, se transformou num grande símbolo de luta para todo o país.

A poeira nem tinha baixado em Wukan e, na seqüência, a população de Hainem, a apenas 130 km de Wukan, na costa da província de Guangdong, levantou-se em protestos contra a construção de uma central de carvão. “As fábricas são prejudiciais à
saúde. Os nossos peixes estão a morrer, várias pessoas estão com cancro. Em que lugar no mundo se constroem duas centrais a apenas um quilómetro de distância?”, comentou um dos manifestantes.

Greve vitoriosa na LG

As revoltas de Wukan e Hainem poderiam ser as últimas de um ano convulsivo, mas não foi o caso.

Cerca de oito mil trabalhadores da sul-coreana LG, líder mundial na produção de ecrãs, entraram em greve, que durou três dias, contra as diferenças no pagamento de bónus anuais.
Enquanto os trabalhadores coreanos recebem o equivalente a seis meses de salários como bónus de final de ano, os trabalhadores chineses recebiam apenas o equivalente a um mês de salário.

Esta foi a fagulha que desencadeou a curta greve, em Nanjing (Nankin), na província de Jiangsu, ao norte de Shangai, que obrigou a LG a pagar dois meses de salários como bónus de final de ano. Uma importante vitória parcial, sem dúvida.

Mas, se alguém pensa que essa foi a última luta do ano, enganou-se. No coração da vanguarda chinesa concentrada na província de Guangdong, que possui o mais poderoso proletariado do planeta, estourou outra mobilização.

No dia 27, os trabalhadores da Guangzhou Áries Autopeças, de capital japonês, localizada na cidade de Guangzhou, capital da província de Guangdong, que fornece peças para a Honda e Toyota, iniciaram uma mobilização contra a redução no bónus de final de ano, num período em que a empresa obriga os funcionários a uma jornada mais longa de trabalho.

Segundo pesquisadores, as greves, protestos e manifestações na China em 2010 foram cerca de 180 mil. Um numero fantástico. Segundo a burocracia chinesa, o número foi bem menor, apenas 90 mil! O que não deixa de ser, em qualquer caso, um número fabuloso.


Censura do PC

A revolução chinesa transformou-se numa revolução silenciosa, não por decisão dos trabalhadores. Mas pelo facto de o Partido Comunista censurar com todas as suas forças as informações.

Apagando-as sistematicamente da Internet, cujo número de utentes, o governo não consegue controlar completamente. A Internet tem sido um dos principais instrumentos na organização da luta e para driblar a censura governamental. Transformou-se numa fonte de dores de cabeça tão grande que o governo chinês pretende obrigar todos os
bloggers a registarem-se com os seus nomes verdadeiros. O que representa mais um ataque às poucas liberdades conquistadas.
A China transformou-se na segunda potência económica e isso todo o mundo sabe. Mas a outra face desse fenómeno, que poucas pessoas se deram conta, é de que a China está grávida de uma grandiosa revolução, que tem tudo para acontecer num futuro próximo.

O crescimento económico criou também o mais poderoso proletariado do planeta, concentrado nas fábricas de Guangdong. É um proletariado jovem, rebelde, que não está amortecido pelas burocracias sindicais que infestam o movimento operário mundial, que demonstrou neste ano que finda uma valente combatividade, protagonizando uma poderosa e simbólica maré de greves.

A crise mundial está a provocar uma desaceleração no crescimento económico chinês e isso será mais um dos combustíveis na explosão que se aproxima, já que obrigará os trabalhadores a sair à luta para se defenderem.
Fonte: http://www.esquerda.net/ 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Redes do império e realinhamentos do poder mundial

Cartaz concebido pelo rev. Briggs.




















por James Petras

Os estados imperialistas constroem redes que ligam as actividades económicas, militares e políticas num sistema coerente que se reforça mutuamente. Esta tarefa é desempenhada em grande parte pelas diversas instituições do estado imperialista.
Assim, a acção imperialista nem sempre é directamente económica, já que se torna necessária uma acção militar num país ou numa região para abrir ou proteger zonas económicas. Nem todas as acções militares são decididas por interesses económicos se o sector mais influente do estado imperialista for decisivamente militarista.
Além disso, a sequência da acção imperialista pode variar consoante as condições particulares necessárias para a construção do império. Assim, a ajuda do estado pode comprar colaboradores; a intervenção militar pode assegurar regimes clientes seguidos posteriormente por investidores privados. Noutras circunstâncias, a entrada de empresas privadas pode preceder a intervenção do estado.
Na penetração, quer privada quer estatal, liderada económica e/ou militarmente, como apoio à construção do império, o objectivo estratégico é explorar as características económicas e geopolíticas especiais do país visado para criar redes em que o império é o centro. No pós mundo colonialista eurocêntrico, a posição privilegiada dos EUA na sua política centrada no império, nos seus tratados, acordos comerciais e militares, é disfarçada e justificada por uma aura ideológica, que varia com o tempo e as circunstâncias. Na guerra para fragmentar a Jugoslávia e implantar regimes clientes, tal como no Kosovo, a ideologia imperialista utilizou a retórica humanitária. Nas guerras genocidas no Médio Oriente, é central a ideologia anti-terrorismo e anti-islâmica. Contra a China, predomina a retórica dos direitos democráticos e humanos. Na América Latina, o poder imperialista vacilante apoia-se na retórica democrática e anti-autoritária dirigida contra o governo de Chavez democraticamente eleito.
A eficácia da ideologia imperialista está em relação directa com a capacidade de o império promover alternativas de evolução viáveis e dinâmicas aos países visados. Por esses critérios a ideologia tem tido pouco poder de persuasão entre as populações visadas. A retórica islamofóbica e anti-terrorista não teve qualquer impacto nos povos do Médio Oriente e alienou o mundo islâmico. As lucrativas relações comerciais da América Latina com o governo de Chavez e o declínio da economia dos EUA corroeram a campanha ideológica de Washington para isolar a Venezuela. A campanha dos EUA pelos direitos humanos contra a China tem sido completamente ignorada em toda a UE, em África, na América Latina, na Oceânia e nas 500 maiores empresas americanas (e até mesmo no Tesouro dos EUA que se esforça por vender títulos do tesouro à China para financiar o inflado défice orçamental dos EUA).
A cada vez menor influência da propaganda imperialista e o cada vez menor peso económico de Washington, significam que as redes imperialistas americanas construídas durante os últimos cinquenta anos estão a ser corroídas ou pelo menos sujeitas a forças centrífugas. As redes, outrora totalmente integradas na Ásia, são actualmente meras bases militares à medida que as economias adquirem uma maior autonomia e se orientam para a China e para mais longe ainda. Por outras palavras, as redes imperialistas estão hoje a ser transformadas em postos avançados de operações limitadas, e já não são centros da pilhagem económica imperialista.

Redes imperialistas: O papel central dos colaboradores
A construção de um império é essencialmente um processo de penetração num país ou numa região, que institui uma posição privilegiada e que garante o controlo a fim de assegurar (1) recursos lucrativos, mercados e mão-de-obra barata (2) de instituir uma plataforma militar para se expandir a países e regiões vizinhos (3) bases militares para implantar um estrangulamento sobre estradas ou canais estratégicos a fim de permitir ou negar o acesso de competidores ou adversários (4) operações secretas e clandestinas contra adversários e competidores.
A história tem demonstrado que o custo mais baixo para manter um domínio a longo prazo e à escala imperialista é através do fomento de colaboradores locais sob a forma de dirigentes políticos, económicos e/ou militares que operam a partir de regimes clientes. Um domínio imperialista político-militar aberto resulta em guerras dispendiosas e divisões, principalmente entre uma ampla panóplia de classes negativamente afectadas pela presença imperialista.
A formação de dirigentes e classes colaboracionistas resulta de várias políticas imperialistas a curto e longo prazo que vão desde actividades directas militares, eleitorais e extra-parlamentares até ao recrutamento a médio e longo prazo, à formação e à orientação de jovens dirigentes promissores através da propaganda e de programas educacionais, atractivos culturais-financeiros, promessas de apoio político e económico para acesso a cargos políticos e através de substancial apoio financeiro clandestino.
O apelo mais básico feito pelos políticos imperialistas à "nova classe dirigente" num estado cliente emergente é a oportunidade de participar num sistema económico ligado aos centros imperialistas, em que as elites locais partilham a riqueza económica com os seus benfeitores imperialistas. Para garantir o apoio das massas, as classes colaboradoras escondem as novas formas de subserviência imperialista e de exploração económica realçando a independência política, a liberdade pessoal, as oportunidades económicas e o consumismo privado.
Os mecanismos para a transferência de poder para um estado cliente emergente aliam a propaganda imperialista, o financiamento de organizações de massas e de partidos eleitoralistas, assim como de violentos golpes de 'levantamentos populares'. Os regimes autoritários burocraticamente ossificados que se apoiam em controlos policiais para limitar ou combater a expansão imperialista são "alvos fáceis". As campanhas selectivas em defesa dos direitos humanos tornam-se na arma organizativa mais eficaz para recrutar activistas e promover dirigentes para a nova ordem política centrada no imperialismo. Logo que ocorre a transferência de poder, os membros anteriores da elite política, económica e cultural são exilados, reprimidos, detidos e presos. Emerge uma nova cultura política homogénea de partidos rivais que aderem à nova ordem mundial de centro imperialista. A primeira palavra de ordem a nível de negócios, a seguir à purga política, é a privatização e a entrega dos postos de comando da economia às empresas imperialistas. Os regimes clientes tratam de fornecer soldados que se oferecem como mercenários pagos para guerras imperialistas e de transferir bases militares para as forças imperialistas como plataformas de intervenção. Toda esta "pantomima pela independência" é acompanhada pelo desmantelamento maciço dos programas públicos de bem-estar social (pensões, saúde e educação gratuitas), códigos de trabalho e políticas de pleno emprego. A promoção de uma estrutura de classes altamente polarizada é a consequência final de domínio do estado cliente. As economias dos regimes clientes, centradas no imperialismo, enquanto réplicas de qualquer vulgar estado sátrapa, são justificadas (ou legitimadas) em nome de um sistema eleitoral alegadamente democrático – na verdade um sistema político dominado pelas novas elites capitalistas e pelos seus meios de comunicação fortemente financiados.
Os regimes centrados no imperialismo dirigidos por elites colaboracionistas, que vão desde os estados balcânicos, Europa central e de leste até aos Balcãs, são o exemplo mais flagrante da expansão imperialista no século XX. O desmantelamento e conquista da União Soviética e do bloco de leste e a sua incorporação na aliança da NATO, liderada pelos EUA, e na União Europeia resultaram num excesso de confiança imperialista. Washington fez declarações prematuras de um mundo unipolar enquanto a Europa ocidental continuava a pilhar recursos públicos, desde fábricas a imobiliário, explorando a mão-de-obra barata, no ultramar e através da imigração, constituindo um formidável 'exército de reserva' para corroer os padrões de vida da força de trabalho sindicalizada no Ocidente.
A unidade de objectivos dos regimes imperialistas europeus e americano permitiu a apropriação pacífica da riqueza das novas regiões através de monopólios privados. Os estados imperialistas subsidiaram inicialmente os novos regimes clientes com transferência em grande escala e empréstimos sob a condição de eles permitirem que empresas imperialistas se apoderassem de recursos, património, terras, fábricas, sectores de serviços, meios de comunicação, etc. Pesadamente endividados os estados passaram de crises agudas no período inicial para um crescimento 'espectacular', até chegarem a profundas e crónicas crises sociais de desemprego de dois dígitos num período de 20 anos de construção do estado cliente. Enquanto aumentavam os protestos dos trabalhadores à medida que os salários se degradavam, o desemprego aumentou e foram cortadas as prestações de benefício social. Mas a 'nova classe média' embrenhada nos aparelhos políticos e de comunicação social e em empresas económicas mistas são suficientemente financiadas por instituições financeiras imperialistas para proteger o seu domínio.
Contudo, a dinâmica da expansão imperialista no leste, centro e sul da Europa não proporcionou o impulso para um avanço estratégico, por causa da ascendência do capital financeiro altamente volátil e duma poderosa casta militar nos centros políticos euro-americanos. Em aspectos importantes, a expansão militar e política deixou de estar atrelada à conquista económica. O que se verificou foi o inverso: a pilhagem económica e o domínio político serviram de instrumento para projectar o poder militar.

Sequências imperialistas: Da guerra para a exploração à exploração pela guerra

As relações entre políticas imperialistas militares e interesses económicos são complexas e mudam com o tempo e o contexto histórico. Em determinadas circunstâncias, um regime imperialista pode investir fortemente em pessoal militar e aumentar as despesas monetárias para derrubar um dirigente anti-imperialista e implantar um regime cliente muito para além de qualquer retorno económico estatal ou privado. Por exemplo, as guerras dos EUA no Iraque e no Afeganistão, as guerras por procuração na Somália e no Iémen não proporcionaram grandes lucros às empresas multinacionais americanas nem estimularam a exploração privada de matérias-primas, mão-de-obra ou mercados. Quando muito, as guerras imperialistas deram lucros a empreiteiros mercenários, a empresas de construção e a 'indústrias de guerra' afins que beneficiaram de transferências do Tesouro dos EUA e da exploração dos contribuintes americanos, na sua maioria assalariados e trabalhadores por conta de outrem.
Em muitos casos, especialmente depois da II Guerra Mundial, o emergente estado imperialista americano gastou muitos milhares de milhões de dólares de empréstimos num programa de ajuda à Europa ocidental. O Plano Marshall evitou levantamentos sociais anti-capitalistas e recuperou o domínio político capitalista. Isso permitiu o aparecimento da NATO (uma aliança militar liderada e dominada pelos EUA). Subsequentemente, as empresas multinacionais americanas investiram e negociaram com a Europa ocidental recolhendo receitas lucrativas, visto que o estado imperialista criara condições políticas e económicas favoráveis. Por outras palavras, a intervenção político-militar do estado imperialista precedeu a ascensão e expansão do capital multi-nacional americano. Uma análise míope a curto prazo da actividade inicial pós-guerra subestimaria a importância dos interesses económicos privados americanos enquanto força motora da política dos EUA. Alargando o período de tempo às duas décadas seguintes, a interacção entre as grandes despesas iniciais estatais, militares e económicas com os posteriores altos ganhos privados, ficamos com um exemplo perfeito de como funciona o processo do poder imperialista.
O papel do estado imperialista enquanto instrumento para abrir, proteger e expandir o mercado privado, a exploração da força de trabalho e dos recursos corresponde a uma altura em que tanto o estado como as classes dominantes estavam principalmente motivados pela construção do império industrial.
A intervenção militar directa dos EUA e os golpes no Irã (1953), na Guatemala (1954), no Chile (1973), na República Dominicana (1965) estiveram ligados a interesses económicos específicos e a empresas imperialistas específicas. Por exemplo, os EUA e as empresas petrolíferas inglesas tentaram inverter a nacionalização do petróleo no Irã. A United Fruit Company, dos EUA, opôs-se à política de reforma agrária na Guatemala. As mais importantes companhias americanas de cobre e de telecomunicações apoiaram e apelaram ao golpe no Chile, patrocinado pelos EUA.
Em contraste, as actuais intervenções militares e guerras dos EUA no Médio Oriente, no sul da Ásia e no Corno de África não são promovidas por multi-nacionais americanas. A política imperialista é promovida por militaristas e sionistas infiltrados no estado, nos meios de comunicação e nas poderosas organizações 'civis'. Os mesmos métodos imperialistas (golpes e guerras) servem diferentes dirigentes imperialistas e seus interesses.

Regimes clientes, aliados e fantoches

As redes imperialistas envolvem garantir uma série de 'bases de recursos' complementares, económicas, militares e políticas, que fazem parte do sistema imperialista mas mantêm graus diversos de autonomia política e económica. Nas fases dinâmicas iniciais da construção do Império americano, por volta de 1950-1970, as empresas multinacionais americanas e a economia americana no seu conjunto dominaram a economia mundial. Os seus aliados na Europa e na Ásia estavam fortemente dependentes dos mercados, do financiamento e do desenvolvimento dos EUA. A hegemonia militar dos EUA reflectia-se numa série de pactos militares regionais que garantiam um apoio quase imediato às guerras regionais americanas, aos golpes militares e à construção de bases militares e de portos navais americanos no seu território. Os países estavam divididos em 'especializações' que serviam os interesses especiais do Império americano. A Europa ocidental era uma base avançada militar, um parceiro industrial e um colaborador ideológico. A Ásia, sobretudo o Japão e a Coreia do Sul, serviam de 'postos avançados militares de primeira linha', assim como de parceiros industriais. A Indonésia, a Malásia, as Filipinas eram essencialmente regimes clientes que forneciam matérias-primas assim como bases militares. Singapura e Hong Kong eram entrepostos financeiros e comerciais. O Paquistão era um regime militar cliente que servia de pressão na linha da frente sobre a China. A Arábia Saudita, o Irã e os mini-estados do Golfo, governados por regimes autoritários clientes, forneciam o petróleo e bases militares. O Egipto e a Jordânia e Israel asseguravam os interesses imperialistas no Médio Oriente. Beirute funcionava como centro financeiro para os banqueiros americanos, europeus e do Médio Oriente.
A África e a América Latina, que incluíam regimes clientes e nacionalistas-populistas, eram uma fonte de matérias-primas e de mercados para produtos acabados e também mão-de-obra barata. A prolongada guerra EUA-Vietnã e a subsequente derrota de Washington corroeram o poder do império. A expansão industrial na Europa ocidental, no Japão e na Coreia do Sul desafiou o predomínio industrial dos EUA. A procura da América Latina de políticas nacionalistas, de substituição das importações, forçaram o investimento dos EUA a dirigir-se para a manufactura ultramarina. No Médio Oriente os movimentos nacionalistas derrubaram os clientes dos EUA no Irão e no Iraque e corroeram os postos avançados militares. As revoluções em Angola, Namíbia, Moçambique, Argélia, Nicarágua e noutros locais cortaram o acesso 'aberto' euro-americano a matérias-primas, pelo menos temporariamente.
O declínio do Império americano foi temporariamente suspenso pelo colapso do comunismo na União Soviética e na Europa de leste e a implantação de regimes clientes por toda a região. Do mesmo modo, a onda de regimes clientes centrados no imperialismo na América latina, entre os meados dos anos 70 e os finais dos anos 90, deu a impressão duma recuperação imperialista. Mas a década de 90 não foi o início da repetição da descolagem imperialista do início dos anos 50; foi o "último hurra" antes de um declínio irreversível a longo prazo. Todo o aparelho político imperialista, que tanto êxito teve nas suas operações clandestinas para subverter os regimes soviéticos e europeus de leste, desempenhou um papel secundário quando se tratou de capitalizar as oportunidades económicas que se seguiram. A Alemanha e outros países da UE lideraram o caminho na conquista das lucrativas empresas capitalizadas. As oligarquias russas-israelenses (sete das oito principais) apoderaram-se e pilharam indústrias estratégicas privatizadas, bancos e recursos naturais. Os principais beneficiários americanos foram os bancos e empresas de Wall Street que lavaram milhares de milhões de ganhos ilícitos e cobraram comissões lucrativas a partir de fusões, aquisições, listas de acções e outras actividades menos que transparentes. Por outras palavras, o colapso do colectivismo soviético fortaleceu o sector financeiro paradisíaco do Império americano. Pior ainda, o conceito de um "mundo unipolar" tão gabado pelos ideólogos americanos, favoreceu os militaristas, que a partir daí se convenceram de que os anteriores constrangimentos em relação aos ataques militares dos EUA aos nacionalistas e seus aliados soviéticos tinham desaparecido. Em consequência, a intervenção militar tornou-se a principal força motora na construção do império americano que descambou na primeira guerra do Iraque, na invasão da Jugoslávia e da Somália, e na expansão de bases militares americana por todo o antigo bloco soviético e Europa de leste.
As sementes da decadência e do declínio foram lançadas em pleno auge do poder político e militar global dos EUA durante os anos 90, quando todos os principais regimes latino-americanos se encontravam envolvidos na trama neo-liberal centrada no imperialismo. As crises económicas dos finais dos anos 90 levaram a grandes levantamentos e derrotas eleitorais em praticamente todos os clientes americanos na América Latina, anunciando o declínio do domínio imperialista americano. O extraordinariamente dinâmico e cumulativo crescimento da China desalojou a manufactura americana e enfraqueceu o poder negocial dos EUA perante governantes na Ásia, na África e na América Latina. A enorme transferência de recursos estatais americanos para aventuras imperialistas ultramarinas, bases militares e apoio a clientes e aliados levou ao declínio interno.
O império americano, enfrentando passivamente os competidores económicos que despojavam os EUA de mercados vitais e metendo-se em guerras prolongadas e infindáveis que esgotavam o tesouro, atraiu uma legião de políticos medíocres a que faltava uma estratégia coerente para rectificar políticas e reconstruir o estado para vitalizar uma actividade produtiva capaz de 'reconquistar mercados'. Pelo contrário, as políticas de guerras sem fim e insustentáveis favoreceram um sub-grupo especial (sui generis) de militaristas, os sionistas americanos. Tiraram benefícios da sua infiltração em posições estratégicas do estado, reforçaram a sua influência nos meios de comunicação de massas e numa ampla rede de "grupos de pressão" organizados para reforçar a subordinação dos EUA à tendência de Israel para a supremacia do Médio Oriente.
O resultado foi o total "desequilíbrio" do aparelho imperialista americano: a acção militar foi desligada da construção do império económico. Uma casta superior altamente influente de militaristas sionistas atrelou o poder militar dos EUA a um estado economicamente marginal (Israel), numa hostilidade permanente para com 1,5 mil milhões no mundo muçulmano. Igualmente devastador, os ideólogos e políticos sionistas americanos promoveram instituições repressivas, legislação e propaganda ideológica islamofóbica destinada a aterrorizar a população americana. Uma ideologia islamofóbica igualmente importante serviu para justificar a guerra permanente no sul da Ásia e no Médio Oriente e os exorbitantes orçamentos militares, numa altura de aguda deterioração das condições sócio-económicas internas. Gastaram-se centenas de milhares de milhões de dólares improdutivamente na "Segurança Interna" que tentou por todos os meios recrutar, treinar, enquadrar e prender muçulmanos afro-americanos como "terroristas". Milhares de agências secretas, com centenas de milhares de funcionários a nível local, estatal e nacional, espiaram os cidadãos americanos que, em qualquer altura, pudessem ter tentado falar ou agir para corrigir ou reformar as políticas militaristas-financeiras-sionistas centradas no imperialismo.
No final da primeira década do século XXI, o império dos EUA só conseguiu destruir adversários (Iraque, Paquistão e Afeganistão), provocar tensões militares (península da Coreia, Mar da China) e corroer as relações com parceiros comerciais potencialmente lucrativos (Irã, Venezuela). Um autoritarismo galopante fundiu-se com a quinta coluna do militarismo sionista para fomentar a ideologia islamofóbica. A convergência de mediocridades autoritárias, vigaristas em ascensão e lealistas tribais da quinta coluna no regime de Obama impediu qualquer recuo previsível da decadência imperialista.
A crescente rede económica global da China e o avanço dinâmico na modernização da tecnologia aplicada em tudo, desde as energias alternativas aos comboios de alta velocidade, contrastam com o império americano, infestado de militaristas-sionistas. As exigências dos EUA aos governantes do Paquistão cliente para esgotar o seu tesouro em apoio de guerras islâmicas americanas no Afeganistão e no Paquistão, contrastam com os 30 mil milhões de dólares de investimentos chineses em infra-estruturas, energia e electricidade e os aumentos de muitos milhares de milhões de dólares no comércio.
Os subsídios militares de 3 mil milhões de dólares dos EUA a Israel contrastam com os investimentos de muitos milhares de milhões de dólares em petróleo iraniano e acordos comerciais. O financiamento dos EUA das guerras contra os países islâmicos no sul e centro da Ásia contrasta com a expansão do comércio económico da Turquia e os acordos de investimento na mesma região. A China substituiu os EUA enquanto parceiro comercial chave em importantes países da América do sul, enquanto que os desiguais acordos "de comércio livre" (NAFTA) empobrecem o México. O comércio entre a União Europeia e a China ultrapassa o dos EUA.
Na África, os EUA subsidiam as guerras na Somália e no Chifre da África, enquanto a China assina um investimento de muitos milhares de milhões de dólares e acordos comerciais, construindo infra-estruturas africanas em troca do acesso a matérias-primas. Ninguém tem dúvidas de que o futuro económico de África cada vez está mais ligado à China.
O Império dos EUA, em contraste, está num abraço mortal com um insignificante estado militarista colonialista (Israel), com estados falidos no Iémen e na Somália, com regimes clientes estagnados e corruptos na Jordânia e no Egipto e com os decadentes estados petrolíferos absolutistas e cobradores de rendas da Arábia Saudita e do Golfo. Todos eles fazem parte duma coligação atávica improdutiva apostada em manter o poder através da supremacia militar. No entanto, os Impérios do século XXI constroem-se na base de economias produtivas com redes globais ligadas a parceiros comerciais dinâmicos. Reconhecendo a supremacia económica e as oportunidades de mercados que começam a fazer parte da rede global chinesa, antigos ou actuais clientes dos EUA e até mesmo governantes fantoches começaram a desviar-se da submissão aos ditames americanos. Ocorreram por toda a América Latina viragens fundamentais nas relações económicas e nos alinhamentos políticos. O Brasil, a Venezuela, a Bolívia e outros países apoiam o programa nuclear não militar do Irão desafiando a agressão de Washington liderada pelos sionistas. Vários países desafiaram os políticos de Israel-EUA reconhecendo a Palestina enquanto estado. O comércio com a China ultrapassa o comércio com os EUA nos maiores países da região.
Os regimes fantoches no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão assinaram importantes acordos económicos com a China, o Irã e a Turquia apesar de os EUA injectarem milhares de milhões de dólares para reforçar a sua posição militar. A Turquia, um antigo cliente militar do comando EUA-NATO alarga a sua procura de hegemonia capitalista expandindo laços económicos com o Irão, a Ásia central e o mundo árabe-muçulmano, desafiando a hegemonia militar EUA-Israel.
O Império americano ainda mantém importantes clientes e perto de um milhar de bases militares em todo o mundo. À medida que os regimes clientes e fantoches diminuem, Washington aumenta o papel e o âmbito das operações de esquadrões de morte extra-territoriais de 50 para 80 países. A crescente independência de regimes no mundo em desenvolvimento é alimentada sobretudo por um cálculo económico: a China oferece maiores retornos económicos e menor interferência político-militar do que os EUA.
A rede imperialista de Washington cada vez se baseia mais em ligações militares com aliados: com a Austrália, o Japão, a Coreia do Sul, Formosa no Extremo Oriente e na Oceânia; com a União Europeia no ocidente; e com um pequeno conjunto de países na América central e do sul. Mesmo assim, os aliados militares já não são dependências económicas: os principais mercados de exportação da Austrália e da Nova Zelândia estão na Ásia (China). O comércio UE-China está a crescer exponencialmente. O Japão, a Coreia do Sul e Taiwan estão cada vez mais ligados à China, através do comércio e dos investimentos… tal como o Paquistão e a Índia.
Estão a desenvolver-se na América Latina e na Ásia novas redes regionais igualmente importantes, que excluem os EUA, criando potencial para novos blocos económicos. Por outras palavras, a rede económica imperialista americana, construída após a II Guerra Mundial e amplificada pelo colapso da URSS, está num processo de decadência, apesar de as bases militares e tratados se manterem como uma 'plataforma' formidável para novas intervenções militares.
O que é claro é que os ganhos militares, políticos e ideológicos na construção da rede dos EUA em todo o mundo, obtidos com o colapso da URSS e as guerras pós-soviéticas, não são sustentáveis. Pelo contrário o exagerado desenvolvimento do aparelho ideológico-militar-segurança suscitou expectativas económicas e esgotou recursos económicos o que resultou na incapacidade de explorar oportunidades económicas ou consolidar redes económicas. Os "levantamentos populares" na Ucrânia, financiados pelos EUA, levaram a regimes clientes incapazes de promoverem o crescimento. No caso da Geórgia, o regime meteu-se numa guerra aventureira com a Rússia que resultou em prejuízos comerciais e territoriais. É uma questão de tempo até que os regimes clientes no Egipto, na Jordânia, na Arábia Saudita, nas Filipinas e no México enfrentem importantes revoltas, devido às bases precárias de governos de dirigentes corruptos, estagnados e repressivos.
O processo de decadência do Império americano é causa e consequência do desafio das potências económicas emergentes que estabelecem centros alternativos de crescimento e desenvolvimento. As mudanças no interior de países na periferia do império e o crescente endividamento e défices comerciais no 'centro' do império estão a corroer o império. A actual classe governante dos EUA, tanto na variante financeira como militarista, não mostra nem vontade nem interesse em enfrentar as causas da decadência. Pelo contrário, apoiam-se mutuamente uma à outra: o sector financeiro baixa os impostos afundando a dívida pública e pilha o tesouro. A casta militar esgota o tesouro na manutenção de guerras e bases avançadas militares e aumenta o défice comercial sabotando as iniciativas comerciais e investimentos.

02/Janeiro/2011
O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/articulo.php?p=1834&more=1&c=1.
Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

China controla 21% da dívida americana



Por Pepe Escobar, Asia Times Online

Ninguém menos que Zbigniew Brzezinski, eminente guru de política exterior dos EUA e homem que deu à ex-URSS “seu Vietnã”, trovejou pelo New York Times que a reunião dos presidentes Barack Obama e Hu Jintao é “o mais importante encontro de alto-nível EUA-China desde a viagem histórica de Deng Xiaoping, há mais de 30 anos”.

O Dr. Zbig bem poderia ter expandido a hipérbole até as mudanças geopolíticas de alcance cósmico desses recentes 30, para não dizer 40 anos, se se considera o encontro histórico entre Richard “Dick, o Escamoso” Nixon e o Grande Timoneiro Mao Tse Tung em 1972, em Pequim.

Mas é realmente graças ao Pequeno Timoneiro Deng e sua política visionária de “atravessar o rio sentindo as pedras”, vendida às massas proletárias como rasteiro “enriquecer traz glória!”, que a China está onde as coisas acontecem no início desse século 21.

O que nos traz de volta à atual reunião da cúpula G-G, Google-GM. Sim, para as massas globais que labutam de sol a sol, trata-se exatamente disso. A China é como Google. Não se pode viver sem ela. Se alguém procura alguma coisa, qualquer coisa, clica Google. E os EUA são como a General Motors. Com tanto para ostentar, do prático (Hyundai) ao glamuroso (Aston Martin), quem, em pleno juízo, quererá comprar carro da GM? (OK, empresários bem-sucedidos em Chengdu, sim, compram Buicks made-in-China, mas esse é outro assunto.)

Ninguém jamais conseguirá exagerar o escambo enlouquecido que se instalou há semanas nos domínios de todos os presidentes que servem em Wall Street, para garantir um assento no jantar oficial – imperial – na Casa Branca, em homenagem a Hu. Já é um dos movimentos que definiram o jovem século – troncudos defensores anglo-saxões do laissez faire transformados em ardentes defensores do capitalismo autoritário à moda chinesa. O que mais poderiam fazer? Afinal, a China salvou o turbo-capitalismo ocidental – o que serve à perfeição aos planos do Pequeno Timoneiro. Para não dizer que a China controla 21% – e a conta continua a aumentar – de toda a dívida pública dos EUA, e o Banco Central chinês nada de braçada em 25% das reservas do mundo.

Hu por seu lado agiu – e de que outro modo poderia ter agido? – imperialmente; os dois nomes que encabeçam sua lista de convidados são os prefeitos de San Francisco e Oakland, os primeiros dois sino-americanos a governar metrópoles norte-americanas. Quantos norte-americanos puro-sangue matariam para sentar àquela mesa. Afinal, 44% deles, segundo pesquisa Pew recentemente divulgada, acreditam que o PIB chinês já ultrapassou o dos EUA (pode acontecer a qualquer momento, entre 2018 e 2027). A percepção já faz a realidade.

Não se acanhe, bronzeie-se na minha luz[1]

O Dr. Zbig acerta no fundamental, sobre as relações EUA-China, ao alertar sobre “a deriva rumo a uma escalada na demonização recíproca”. Acerta também ao denunciar a deterioração da infraestrutura nos EUA, para ele “simples sintoma do retrocesso dos EUA de volta ao século 20”. Mas pode-se apostar e ganhar caixas de Moët, na certeza de que nenhum daqueles presidentes de Wall Street que disputam à unha as migalhas que caiam da mesa de Hu perdeu alguma hora de sono, tentando achar meios para revitalizar a economia doméstica, inventar empregos e recompor a infraestrutura – para nem falar do investimento e da educação – nos EUA.

Como efeito colateral da crise financeira provocada por Wall Street, a China embarcou em muitos projetos de infraestrutura. Diferente da China – onde o governo central realmente governa – Washington continua esperando que os bancos norte-americanos emprestem. E os bancos, como todo mundo sabem, não estão nem aí.

Apesar de todas as platitudes usuais da imprensa sobre um relacionamento “tenso”, não haverá qualquer conversação sobre a desvalorização competitiva do yuan. O secretário do Tesouro Tim Geithner em pessoa já admitiu que Pequim desvalorizou o yuan em cerca de 10% ao ano, em valor real.

Nem Obama terá espaço e condições para pressionar a China na questão da Coreia do Norte. A Coreia do Sul pode resolver querer a unificação. O Japão teme mais a reunificação, que a peste – imaginem uma Coreia unificada, poderosa, dinâmica, unida, que rapidamente empurraria o Japão para o escanteio da irrelevância global. Pequim quer que tudo permaneça exatamente como está.

E há também a resposta chinesa à doutrina do Pentágono, de “dominação de pleno espectro” – os novos bombardeiros J-20 chineses, de tecnologia stealth [‘invisíveis’], cruzando o céu azul-inverno da cabeça de Robert ‘El Supremo’ Gates do Pentágono, semana passada. Gates imediatamente entrou em modo preventivo e declarou, para os autos, que os chineses não dominarão a tecnologia antes de 2020. Mas não faz diferença – como tampouco faz qualquer diferença o frenesi jornalístico, de que haveria ‘divergências’ entre o partido e o exército na China.

Qualquer técnico especialista em Relações Públicas de Hollywood admitiria que a foto do J-20 chinês foi montada. Foi operação cuidadosamente coordenada, co-produção entre o Partido Comunista Chinês e o Exército do Povo. E, como Mestre de Cerimônias, quem lá estava, senão Xi Jinping, certo de que será o próximo líder chinês, depois que Hu deixar o cargo em 2012. Quando você tem o USS George Washington fungando a todo momento no seu litoral, melhor arranjar logo algum stealth. E o próximo sucesso chinês arrasa-quarteirão é o porta-aviões agendado para 2014.

John Ikenberry de Princeton define os EUA como um “leviatã liberal”. E sobra o quê, para a China? Seria algum “leviatã autoritário”?

Seja como for, o que se ouve em Washington é que a equipe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca – coordenada pelo Conselheiro de Segurança Nacional Thomas Donilon – está suando a camisa, fazendo o possível para arranjar alguma estratégia racional para a questão China. Mas é pouco provável que algum esboço, que circunscreva todas as candentes questões em que se envolveu esse Grupo de Dois, venha a emergir do contato de cúpula.

Ian Morris, professor de história e classicismo em Stanford, abre seu esplêndido livro Why the West Rules – For Now [Por que o Ocidente governa – Por Enquanto] (New York: Farrar, Straus & Giroux
[2]) com um relato ficcional de uma reverência da rainha Vitória, em 1848, a Qiying, enviado do Imperador Daoguang, nas docas da “East India” em Londres – prestando uma última homenagem à suserania imperial. Claro que a história decidiu por outra via. Mas, diriam os chineses, aproveitando a deixa dos executivos de Wall Street que salivam à volta de Hu, esperemos uns anos e depois conversaremos. Até lá, o mundo continuará a seguir a trilha de Google, não da GM.

NOTAS

[1] Orig. “Feel free to bask in my glow”. É fala do rei Julien, dos Lêmures, em Madagascar (2005, desenho de animação).

[2] Resenha no New York Times, 12/12/2010, em http://www.nytimes.com/2010/12/12/books/review/Schell-t.html (em inglês).

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quinta-feira, 22 de julho de 2010

China: Os velhos revolucionários posicionam-se sobre a atual proliferação das greves


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Defender a Constituição, respeitar e garantir os Direitos Humanos, apoiar a justa luta dos trabalhadores da Honda e condenar a gestão desumana da Foxconn.

Nota do CEPRID: Tentou-se dar a imagem de que as greves operárias na China tem uma semelhança com o ocorrido na Polônia na década de 1990. Nada mais longe da realidade. A burguesia e seus "meios de comunicação" estendem a imagem de uns "sindicatos independentes" semelhantes ao "Solidariedade" polaco. Não se incomodam em explicar o que querem os trabalhadores chineses nem qual é a direção de seu movimento. E, desde logo, não refletem iniciativas como a que aqui apresentamos e que vai na linha do que este centro, modestamente, vem publicando sobre a China, as lutas operárias e camponesas e o novo papel geoestratégico deste país.

De:

Li Chengrui, Xiantian Gong, Han Xiya, Rixin Liu y Zhao Guangwu

Para:

Secretário-Geral Hu Jintao e os membros do Comitê Central do Partido

Presidente Wu Bangguo da Assembleia Popular

Primeiro-ministro Wen Jiabao e os membros do Conselho de Estado

Compatriotas de toda a China e todos os meios de comunicação:

Produziu-se recentemente numerosos incidentes em nosso país que demonstram a intensificação das contradições sociais. Segundo informes da imprensa, a Foxconn, com sede em Shenzhen e com capital de Taiwan, tratou os trabalhadores como máquinas (ou pior, como peças de reposição). Para gerar benefícios para a empresa, instituiu um sistema de gestão desumana que destrói a saúde e o espírito dos trabalhadores em tal medida que alguns consideraram que não vale a pena viver. Treze trabalhadores desta empresa suicidaram-se em um curto período de tempo. Sua trágica morte rompe nossos corações. É uma situação que comocionou o mundo. Com base em Foshan, Guangdong, a Honda Auto Parts Manufacturing Co., Ltd., é uma empresa de propriedade japonesa. Enquanto que o proprietário capitalista conseguiu um enorme lucro, os salários são demasiado baixos para garantir o sustento dos trabalhadores e o sindicato da empresa não representa seus interesses. Cerca de dois mil trabalhadores foram à greve em sua luta por aumentos salariais e para iniciar a reforma do sindicato. Entretanto, a administração japonesa só aceitou um aumento pequeno do salário, longe do que os trabalhadores pediam. Além disso, a direção injustificadamente exigiu aos trabalhadores firmar um compromisso de "não ir à greve" e ameaçou com demissões a quem se somasse a ela. Disparou-se, inclusive, contra dois líderes dos trabalhadores.

Outros incidentes [que aparecem] nos meios de comunicação também mostram um maior conflito entre capital e trabalho. Alguns trabalhadores na cadeia de engrenagem Chongqing Qijiang Co. Ltd foram obrigados a trabalhar horas extras durante os finais de semana e morreram por excesso de trabalho. O esgotamento a longo prazo, os baixos salários e a corrupção levaram os trabalhadores à greve. Cerca de 1.700 trabalhadores da Taisheng Furniture Company, com sede em Dongguan, província de Guangdong, fizeram uma greve de três dias para protestar contra o excesso de estresse e os baixos salários. Mais de mil trabalhadores da fábrica de peças de reabastecimento que abastece a Hyundai, em Pequim, declararam-se em greve para exigir um aumento do salário. Os trabalhadores da empresa Lanzhou vinylon declararam-se em greve porque não podem sequer contar com um sustento básico. Na cidade de Datong (província de Shanxi), a empresa de propriedade estatal Xinghuo, uma farmacêutica, viu-se obrigada a declarar-se em quebra e seus trabalhadores despedidos tinham suas numerosas petições recusadas uma e outra vez. Depois disto, mais de 10 mil pessoas protagonizaram uma assentada no edifício do governo municipal, alguns deles foram golpeados por policiais armados. Trabalhadores em greve de Pingdingshan, uma empresa de algodão e fios (província de Henan) foram brutalmente golpeados por capangas trazidos por veículos da polícia, provocando lesões em muitas delas. Em Shenzhen, trabalhadores que estão tomando a iniciativa de pedir demandas ou para proteger direitos dos trabalhadores [viram como] foram postos em listas negras, o que torna difícil a obtenção de um emprego. Estes são só alguns dos incidentes recentes que ilustram o alcance do problema.

Em conjunto, a burguesia transferiu a carga da crise econômica sobre os trabalhadores e lançou um ataque mais feroz contra eles. A classe trabalhadora vê-se obrigada a se levantar e resistir. Mas à medida que os trabalhadores converteram-se em um grupo social débil nos últimos anos, e com a privação dos direitos fundamentais prescritos pela Constituição de nosso país, encontram-se na triste situação em que suas mortes ficam sem resposta, suas greves não escutadas nem suas queixas. De acordo com a Constituição de nosso país, em particular os quatro princípios básicos e os direitos fundamentais reconhecidos aos cidadãos, fazemos o seguinte chamamento para fazer frente à situação atual e os problemas (1). Em primeiro lugar, estamos convencidos de que há que apoiar os trabalhadores em Foshan Honda e outras fábricas em sua justa luta pela sobrevivência e contra a opressão. O artigo 33 da Constituição de nosso país diz que "o Estado respeita e garante os direitos humanos". O direito a greve é uma parte inseparável dos direitos humanos e também é um direito fundamental estabelecido pelas constituições civis de todo o mundo. Apoiamos firmemente todas as demandas razoáveis que os trabalhadores da Honda colocaram a fim de mudar suas duras condições de trabalho e os baixos salários. Opomo-nos rotundamente à ameaça da direção de despedir trabalhadores. Os dois líderes que foram despedidos devem ser imediatamente devolvidos a seus postos de trabalho.

Acreditamos que nossa petição será apoiada por todos que defendem a autoridade da Constituição, o respeito dos direitos humanos e confiam na justiça.

Em segundo lugar, devemos exigir da Foxconn e outras empresas semelhantes que detenham de imediato seus desumanos e duros métodos de exploração. Exigimos que se respeite a integridade dos trabalhadores, lhes trate com dignidade, obedeçam-lhes as leis do estado, melhorem as condições de trabalho, aplique-se com rigor uma jornada de 8 horas de trabalho e compense-se os trabalhadores pelas horas extras. Devem garantir que seja pago aos trabalhadores salários suficientes para seu próprio sustento e sua reprodução. Esta é a única maneira de aliviar os conflitos capital-trabalho e reduzir ou prevenir os chamados "problemas psicológicos". Informou-se pelos meios que alguns daqueles que se suicidaram também mostraram signos de lesões corporais causadas por golpes. Também suspeita-se de que algum foi empurrado [desde alguma janela] para fora dos edifícios. Isto já, em si mesmo, implica uma investigação penal. Os organismos governamentais deveriam tratar este assunto a sério e averiguar a verdade.

Em terceiro lugar, os sindicatos devem estar claramente do lado da classe trabalhadora para representar e defender seus interesses segundo o prescrito pela Constituição. Se algumas organização sindical faz caso omisso da Constituição e atua em favor da empresa deve ser depreciado pela classe trabalhadora. Os dirigentes do sindicato em cada empresa devem ser democraticamente eleitos pelos trabalhadores. Os familiares e representantes dos chefes não deveriam ocupar cargos no sindicato. Se este caso se desse, não deve ser aprovado nos níveis superiores do sindicato. Em seu lugar, deveria-se ajudar que o sindicato de empresa organizasse uma reunião de todos os membros e reconstruí-lo por meio de eleições democráticas.

Em quarto lugar, o Governo, em todos os níveis, em particular o governo local, deve proteger os direitos civis seguindo estritamente a lei, resolvendo sinceramente os conflitos capital-trabalho e garantindo a liberdade de expressão dos cidadãos. O governo deve administrar com afinco a lei e impedir incidentes que violem os direitos civis básicos previstos no artigo 33 da Constituição e outras normas conexas. Deve-se tratar ativamente os casos de conflito capital-trabalho ed acordo com a lei. Ignorar as demandas dos trabalhadores através da inação ou colocar-se ao lado da empresa deve ser uma atitude decididamente corrigida. Afim de garantir o direito do povo à informação e a supervisão, deve-se permitir que os meios de comunicação informem livremente e com a verdade sobre os conflitos capital-trabalho, os casos particulares e que haja todo tipo de opiniões sem obstáculos nem interferências.

Em quinto lugar, fazemos um chamamento para o restabelecimento da classe trabalhadora como a classe dirigente de nosso país e o restabelecimento da propriedade pública socialista como o pilar de nossa economia nacional. O artigo 1 da Constituição de nosso país estabelece que "A República Popular da China é um Estado socialista encabeçado pela classe trabalhadora sobre a base de uma aliança operário-camponesa". O artigo 6 diz que "a base da economia socialista da República Popular da China é a propriedade pública socialista dos meios de produção, é dizer, a propriedade coletiva de todas as pessoas e trabalhadores". "Na fase primitiva do socialismo, o Estado deve construir um sistema econômico com a propriedade pública como pilar [fundamental] e o codesenvolvimento da economia através de [diferentes] formas de propriedade". A distribuição deveria se basear principalmente em cada um segundo seu trabalho, com a coexistência de outros métodos de distribuição. O Partido Comunista da China deve ser a verdadeira vanguarda da classe trabalhadora, reforçar sua liderança como a organização política do povo e a ditadura democrática. Fazemos uma chamada para o restabelecimento da propriedade pública como a parte principal da economia nacional. Só desta maneira podem os trabalhadores, os camponeses e o povo em geral ser donos das empresas e do país e realmente por em prática um sistema de distribuição principalmente baseado na contribuição do trabalho. Na atualidade, é imprescindível melhorar as condições de trabalho e aumentar os salários e benefícios na economia privada (financiadas pelos investimentos nacionais e estrangeiros). É completamente justo apoiar ativamente as lutas operárias nesse sentido. Entretanto, na medida em que a economia capitalista de propriedade privada domina mais que a economia socialista de propriedade pública, a classe trabalhadora não pode mudar sua posição de debilidade nas estruturas de exploração, nem o sistema de distribuição injusta e a disparidade entre ricos e pobres. Nesta condição, também é impossível transformar nossa economia orientada à exportação a uma que seja independente, autossuficiente e busque satisfazer as necessidades materiais e culturais das pessoas no país.

Nas condições atuais, só através de uma luta de longo prazo a classe trabalhadora poderá restaurar sua posição de liderança e a economia nacional possa se transformar em uma baseada principalmente na propriedade pública. Contamos com a guia do marxismo-leninismo-pensamento de Mao Tsé-Tung, e temos a Constituição, em particular seu núcleo dos quatro princípios básicos, como nosso instrumento jurídico. Todos os membros do Partido Comunista e todas as pessoas devem acatar a Constituição. A modernização socialista que defendemos se ajusta ao interesse da mais ampla gama de pessoas e se corresponde com o desenvolvimento histórico da humanidade. Se todas as pessoas que apoiam o socialismo, amam seu país e cumprem com a Constituição estão unidas e persistem nele, através de uma luta de longo prazo podemos alcançar nossa meta.

Firmantes:

Li Chengrui (Ex Diretor da Oficina de Estatística do Estado)

Xiantian Gong (Professor da Universidade de Pequim)

Han Xiya (Ex-Secretário Suplente da Secretaria da Federação Chinesa de Sindicatos)

Rixin Liu (ex-investigador na Comissão Estatal de Planificação)

Zhao Guangwu (Professor da Universidade de Pequim)

Nota:

(1) Os quatro princípios básicos incluem o socialismo, a ditadura democrática popular, a direção do Partido Comunista e o marxismo-leninismo-pensamento de Mao Tsé-Tung.

Traduzido por Julio Fucik para o Rebelión

Traduzido por Lucas Morais para o Diário Liberdade

Fonte: http://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article892

Por: http://www.diarioliberdade.org