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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Karl Marx manda lembranças, por César Benjamin


Fonte: Folha de S. Paulo (20/9)
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Em meados do século 19, Karl Marx já havia revelado como este jogo se dá.

As economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam “comportamento racional”. Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação.
Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: 
  • (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; 
  • (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; 
  • (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as “necessidades do estômago” são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. 
Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria.
Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D – D” essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D – D”. Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.

*CESAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006).
Fonte:http://imediata.org

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Selvageria e retrocesso: estudante é agredida em São Paulo por usar minissaia

Qualquer semelhança com a ação de algumas escolas públicas de São Paulo não é mera coincidência
Por Luciana Candidoda redação

Às vezes nos deparamos com algumas situações tão absurdas que temos de parar e ter certeza de que estamos vendo mesmo aquilo. No dia 22, uma aluna da Universidade Bandeirante (Uniban), do campus de São Bernardo do Campo (SP), região do ABC, foi à aula com um vestido curto. Nada demais. Mas, em pleno século 21, isso bastou para que centenas de alunos a perseguissem pelos corredores feito selvagens.
Aos gritos de “Puta! Puta!”, a aluna era perseguida. Alguns gritavam, outros escalavam as paredes para espiar a estudante pela janela da sala onde ela teve de se trancar. Celulares nas mãos, muitos fotografavam e filmavam a cena. O material, evidentemente, foi parar na rede. Os vídeos publicados no YouTube atingiram dezenas de milhares de acessos.Da sala de aula, a jovem só saiu escoltada pela Polícia Militar, que foi chamada para conter o tumulto. Para conseguir ir embora, teve de vestir um jaleco. Barbárie é pouco.


Reportagem feita pelo iGTV

Segundo a reportagem do site G1, a PM teria informado que a jovem “foi à faculdade ‘em trajes inapropriados’”. Já a universidade disse que vai abrir sindicância para apurar o ocorrido.
Em nota, a instituição diz que “Alunos, professores, seguranças e também a aluna estão sendo ouvidos individualmente pela universidade, que pretende aplicar medidas disciplinares aos causadores do tumulto, conforme o seu regimento interno, respeitando-se o contraditório e a ampla defesa”.
Será que o “traje inapropriado” será considerado um atenuante nesse caso?
Sim, é violência!Como bichos, os alunos foram saindo das salas de aula e cercando a estudante. As ofensas morais, os gritos de “puta” e “vagabunda” foram descendo de nível – se é que isso é imaginável – até chegar a ameaças de estupro. Estudantes que presenciaram a cena dizem que os bárbaros também gritavam que iam “comer” a jovem.A universidade diz, na mesma nota, que isso não ocorreu, porque “ não houve qualquer contato físico nem perseguição à aluna.
O que houve foram manifestações verbais de caráter ofensivo”. O que aconteceu foi o que, então, se não perseguição? E olhar para uma garota e dizer “eu vou te comer” não é ameaça de estupro?É deprimente, ao assistir aos vídeos, ver que não eram só homens que perseguiam a aluna. Muitas estudantes mulheres compunham a horda de bárbaros. Essas mesmas mulheres já devem ter ouvido coisas semelhantes em algum momento da vida. São vítimas da própria opressão que reproduziram neste episódio.
O que é apropriado?
As mesmas pessoas que condenaram o estilo de vestir da estudante, que o classificaram como “inapropriado” ou roupa de “puta” não se levantam contra a mercantilização da mulher.
A transformação da mulher em mercadoria se dá todos os dias na mídia, em mulheres seminuas, mulheres-frutas e outras aberrações criadas pela sociedade para ter mais um produto à venda.O comportamento destes estudantes não é apenas antiquado. Isso seria o menos pior. É, principalmente, expressão do mais vil preconceito. É a decadência da sociedade capitalista exposta em sua forma mais grotesca.
O apropriado num caso como este seria a punição exemplar aos selvagens que criaram o tumulto, que ofenderam e violentaram – mesmo que verbalmente – a jovem. Mas parece que a punida será ela. É possível que a estudante nunca mais use seu vestido curto, que as revistas e a televisão tanto disseram que estava na moda.
É possível que não vá mais às aulas por constrangimento (até ontem, ela não havia voltado à Uniban). É possível que carregue esta história como um trauma.Também somos vítimas todas as mulheres, inclusive as que legitimaram a violência no episódio da Uniban. Nem mesmo a punição específica neste caso é capaz de apagar a hipocrisia da sociedade.O fato é que enquanto não se coibir a propagação impune da ideologia do preconceito e enquanto mulheres continuarem sendo vendidas e expostas como pedaços de carne num açougue, os homens vão se sentir no direito de possuí-las, de comprá-las.
Afinal, o capitalismo precisa disso para sobreviver. E precisa também da divisão entre homens e mulheres, para que eles não se unam e não se voltem contra o próprio sistema. Se isso acontecesse, aí sim poderíamos vislumbrar um outro tipo de sociedade com homens e mulheres não animalizados como os que vimos na Uniban.Mostramos este vídeo a várias pessoas. Todas ficaram chocadas e custaram a acreditar. Todas questionaram se o fato teria realmente ocorrido.

“…enquanto não se coibir a propagação impune da ideologia do preconceito e enquanto mulheres continuarem sendo vendidas e expostas como pedaços de carne num açougue, os homens vão se sentir no direito de possuí-las, de comprá-las.”

É preciso repudiar com todas as forças o episódio. Abaixo o machismo! Abaixo o capitalismo que transforma tudo e todos em mercadoria!

Fonte: http://www.pstu.org.br/opressao_materia.asp?id=10937&ida=40

ObS: A Aluna foi expilsa da Universidade (Uniban expulsa aluna assediada por usar vestido curto em aula - O Estado de São Paulo)