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sexta-feira, 1 de maio de 2020
segunda-feira, 13 de abril de 2020
sexta-feira, 10 de abril de 2020
O futuro pós-coronavírus já está em disputa
Como impedir que o
capitalismo, que já nos roubou o presente, nos roube também o amanhã?
Nós, os que
hoje estamos vivos, nunca enfrentamos uma ameaça como o novo coronavírus. Se tantos repetem que o
mundo nunca mais será o mesmo, qual é então o mundo que queremos?
Ninguém se
iluda. Enquanto a pandemia é enfrentada, essa resposta já está sendo disputada.
É ela que vai determinar o futuro próximo. Lutar pela vida ameaçada pelo vírus
é o imperativo da emergência. É preciso, porém, fazer algo ainda mais difícil:
lutar pelo futuro pós-vírus. Se não o fizermos, a retomada da “normalidade”
será a volta da brutalidade cotidiana que só é “normal” para poucos, uma normalidade
arrancada da vida dos muitos que diariamente têm seus corpos esgotados. O
rompimento do “normal”, provocado pelo vírus, pode ser a oportunidade para
desenhar uma sociedade baseada em outros princípios, capaz de barrar a catástrofe climática e promover
justiça social. O pior que pode nos acontecer depois da pandemia será
justamente voltar à “normalidade”.
As grandes corporações já começam a se mover para garantir o controle
do que virá. Na semana passada, as companhias de petróleo foram recebidas por Donald Trump na Casa Branca. Não
foram discutir como salvar os mais pobres dos efeitos da pandemia. No Reino
Unido, as companhias de aviação fazem lobby por subsídio governamental e,
claro, desregulamentação. Tampouco elas foram se reunir para tomar chá e
discutir investimentos na área social.
Diante do novo coronavírus, até baluartes da imprensa liberal,
como The Economist e Financial Times, ambos
nascidos no berço do capitalismo, têm anunciado que é preciso dar um passo
atrás. Maior intervenção do Estado e
políticas como renda mínima e
taxação de fortunas, antes consideradas “exóticas” por esses segmentos, têm
sido elencadas na abordagem do novo contrato social no mundo pós-pandemia.
Conceder um pouco para garantir que nada mude no essencial é um truque antigo.
Com o vírus, descobrimos que aqueles que afirmavam ser
impossível parar de produzir, reduzir o número de voos, aumentar os
investimentos dos governos e mudar radicalmente os hábitos apenas mentiam. O mundo mudou em menos de três meses em
nome da vida. É também em nome da vida que precisamos manter as boas práticas
que surgiram deste período e pressionar como nunca antes por outro tipo de
sociedade, tecida com outros fios.
A tarefa é inadiável. Se não fizermos isso, o mundo
pós-coronavírus será ainda mais brutal e o colapso climático se aprofundará.
Para o extermínio da natureza não há nem jamais haverá vacina. Nosso futuro
depende de enterrar o sistema capitalista que exauriu
o planeta e nos trouxe até o tempo das pandemias. E para isso
também não serve o comunismo que explorou, destruiu vidas, corroeu a natureza e
oprimiu os corpos. Precisamos encontrar outros caminhos. E rápido. Muitos dizem
que é ingênuo. Outros dizem que é impossível. O que é ingênuo é sentar na
cadeira de pregos que se tornou o presente e esperar os efeitos da brutal
superexploração da natureza (terminar de) deformar a face do planeta.
Impossível é seguirmos vivendo como temos vivido.
O isolamento físico tem
que ser usado para produzir pensamento social e para atuar coletivamente, em
rede. Este artigo, dividido em duas partes, é uma colaboração para o debate do
futuro que precisa ser travado no presente. Agora.
1) No
Brasil, todos os caminhos levam ao neoliberalismo
O presente, no Brasil, é uma armadilha. Temos um antipresidente
– e a antipresidência é um conceito
criado pelo bolsonarismo – que faz oposição ao seu próprio
governo. A técnica ficou clara desde o início do mandato, mas ganhou contornos
dramáticos na pandemia, quando Jair Bolsonaro abriu guerra contra
seu próprio ministro da Saúde. A negação da realidade, como método
de manutenção do poder, tem vários efeitos sobre a população. Um deles é ocupar
o noticiário e sequestrar o debate.
Em vez de debater a ameaça mais urgente, estamos travando o
falso debate lançado contra os brasileiros por Bolsonaro: isolamento ou
não isolamento, ou saúde versus economia. É o
que acontece quando se elege um homem que, no passado, planejou explodir bombas
nos quartéis para pressionar por aumento salarial. As bombas de Bolsonaro hoje
são de desinformação, visam ao caos e também podem matar.
O problema é ainda maior porque a negação da realidade também
produz realidade. Neste caso, não só a de colocar a população em risco, mas
também a de fazer acreditar que há oposição real. Essa ilusão que cresce no
Brasil, até por desespero, pode comprometer o futuro de forma irreversível.
Se Jair Bolsonaro (sem partido) renunciar, o que parece bastante
improvável no momento, ou se for impedido, o que também ainda parece distante,
quem assume é o vice. Hamilton Mourão é um
general quatro estrelas da reserva que até a eleição era considerado golpista,
devido a várias declarações públicas. Ainda na campanha, chegou a dizer, em
entrevista à GloboNews, que em “caso de anarquia” um presidente pode dar um
“autogolpe” com “o emprego das forças armadas”. Comparado a Bolsonaro, até um
pitbull torna-se “moderado”. É o que vem acontecendo com Mourão, como escrevi mais de um ano atrás.
O terceiro na hierarquia é Rodrigo Maia (DEM).
Além de indiciado pela Polícia Federal por corrupção, o presidente da Câmara
dos Deputados é totalmente identificado com o neoliberalismo que nos trouxe até
a situação atual e com as forças mais conservadoras do país, com exceção (por
enquanto) dos evangélicos de resultados. O que tornou Maia um exemplo de
moderação e competência para o que chamam de “mercado” foi realizar a reforma
previdenciária que, se era necessária, claramente o modelo aprovado não foi nem
o melhor nem o mais justo para os trabalhadores, que tiveram suas vidas ainda
mais precarizadas. Maia, a quem até o advento do bolsonanorismo parte dos
brasileiros preferia ver pelas costas (ou na cadeia), tornou-se uma espécie de
oráculo do bom senso, o que mostra o nível do abismo em se encontra o Brasil.
E então temos os novos candidatos a estadistas, na figura dos
governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro. João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC). Doria, o gerente
privatizador, e Witzel, defensor da violência policial nas favelas. Até ontem,
ambos eram unha e carne com Bolsonaro. Ou vogal e consoante, no caso de Doria, que se
elegeu como “Bolsodoria”. Para conter a pandemia, eles apenas seguem em seus
estados as orientações sanitárias internacionais, mas, como fazer o óbvio é fazer
o oposto do que Bolsonaro prega, despontam como defensores do povo contra o
bolsovírus. Têm os olhos grudados na eleição presidencial de 2022.
Bolsonaro presta um grande serviço aos ex-melhores amigos. Em
São Paulo, especialmente, ele livra Doria de explicar o pouco investimento na
rede de saúde pública pelo seu partido, que comanda o Estado há mais de 25
anos. Na ponta, é essa falta de investimento no Sistema Único de Saúde (SUS) que vai
resultar em mortes por coronavírus.
Em todo o país, o falso debate eclipsa o verdadeiro debate. A
pandemia tornou explícita a importância do estatuto público da saúde. E revelou
toda a monstruosidade da PEC-95, a do teto dos gastos públicos do
governo de Michel Temer (MDB), típica política neoliberal de
Estado mínimo, que tirou bilhões da saúde. Grande parte desta conta está sendo
paga agora. Com vidas.
No atestado de óbito, as vítimas terão “morte por coronavírus”.
Mas, em parte dos casos, o que as terá matado é a precarização da saúde
pública, o aumento da desigualdade e da miséria nos últimos anos, a falta de
investimento em saneamento e moradia digna. E, finalmente, o fato de que há uma
parte da população que segue exposta ao vírus porque não lhes é permitido parar de
trabalhar.
A imagem da armadilha em que o Brasil está enfiado é a do
ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Ao afrontar o chefe e tomar medidas
óbvias na pandemia, Mandetta se tornou o novo herói nacional. Todos
os erros, como demorar a providenciar testes, máscaras e outros equipamentos de
proteção, são perdoados. Principal opositor de seu ministro, Bolsonaro também
presta um grande serviço a ele. E a seu próprio governo, já que, qualquer que
seja o resultado, pode ser atribuído ou distanciado do governo. Essa é a
esperteza de abarcar a situação e a oposição.
Vejamos quem é o novo herói nacional, hoje adulado e apoiado por
todos os campos ideológicos. Mandetta, conhecido defensor dos ruralistas, na saúde
se manifestou frontalmente contra o programa Mais Médicos e militou contra o
aborto. Também já lamentou a fragmentação das famílias causadas pela Lei do
Divórcio. Dilma Rousseff demarcou muito menos terras indígenas que seus
antecessores, uma das razões porque recebe severas críticas de indígenas e
ativistas do meio ambiente. Ainda assim, Mandetta achou que a presidenta
exagerava. “A presidente está dirigindo a sua raiva contra os produtores
rurais, colocando todo o seu querer mal ao Brasil no agronegócio",
discursou no plenário, em 2016. No ano seguinte, foi um crítico feroz da Carne
Fraca, operação da Polícia Federal que investigou as irregularidades nos
frigoríficos.
O novo herói brasileiro aponta onde está o Brasil. Cada um
conclua. A oposição real, como já se tornou explícito, é fraca. E não consegue
mostrar qual é a sua grande diferença, muito menos convencer a população de que
é diferente. Enroscada com Lula e com o PT, ou brigando com Lula e com o PT, a esquerda deixou de disputar o país.
Acha que disputa, é claro, mas ninguém liga. O desempenho mais sólido é o do
Psol, mas o partido ecoa apenas num número pequeno de brasileiros.
Isso não significa dizer que a esquerda seria uma solução, na
medida em que parte significativa da esquerda brasileira segue cimentada no
século 20, totalmente alienada das grandes questões atuais, como a crise
climática e a destruição da vida natural no planeta. Quem fez oposição de fato,
no Brasil pré-pandemia dos últimos anos, foram grupos identitários: mulheres,
jovens, negros e indígenas. A oposição é política, mas não tem partidos
políticos como protagonistas. E ainda é preciso ter partidos políticos para
fazer a disputa do futuro.
Assim, no período pós-pandemia, ou mesmo durante a pandemia, já
que não se sabe se ela acaba, todos os caminhos levam à direita neoliberal.
Este é o buraco diante do Brasil. É também o buraco em muitos países – grande
parte deles atolados na crise das democracias ocidentais, alguns às voltas com
os déspotas eleitos.
O Brasil tem, portanto, dois gigantescos desafios. O primeiro é
impedir que o vírus mate milhares de brasileiros. Não há dúvida de que serão os mais
pobres que morrerão mais. Os que não têm casas compatíveis com o
isolamento; os que têm sido obrigados pelos patrões a trabalhar; os que foram demitidos; os
que vivem de bicos, na informalidade, e já não conseguem trabalhar. Os que não
vão conseguir se alimentar com os 600 reais que o governo está oferecendo. Os
que não têm esgoto, não têm água e logo não terão também comida. Os que ficarem
doentes e não encontrarem vagas na rede pública de saúde, sabotada nos últimos
anos em nome da privatização e do lobby dos planos privados de saúde.
O auxílio emergencial de 600 reais para
os informais é mais uma prova do buraco paradoxalmente grande –
e ao mesmo tempo claustrofóbico – em que o país está enfiado. Diante dos 200
reais inicialmente propostos pelo ministro da Economia Paulo Guedes, de repente
600 reais passaram a soar com notas de decência. O valor, porém, é totalmente
indecente. Ninguém vive no Brasil com dignidade mínima com 600 reais. Para a
outra metade dos trabalhadores, a que têm carteira assinada, o governo permitiu cortes de jornada
e de salários.
Para quem se enrosca com o significado de neoliberal, é isso.
Vale a pena pesquisar para encontrar definições mais sofisticadas e completas.
Em um parágrafo, o que pode ser dito é que os neoliberais acreditam que o
Estado deve interferir o mínimo possível e que o Mercado se autorregula. Para
isso, é fundamental enfraquecer as representações de trabalhadores e a palavra
para tudo é “flexibilização”. Privatizar, desregulamentar, flexibilizar – estes
são os verbos favoritos do neoliberalismo. Perceba então que toda vez que
“flexibilizaram” algo no Brasil, foram os trabalhadores urbanos e rurais, os
indígenas, a natureza e outras espécies que se ferraram. Ao trabalhador
precarizado e com cada vez menos direitos deram o nome bonito e moderno de
“empreendedor”. Livre e autônomo para morrer trabalhando. E, se não conseguiu
“empreender”, as razões para o fracasso também lhe pertencem. Veja agora você,
que é “empreendedor”, em que situação está. E veja se é isso que você quer
continuar a ser.
No estágio neoliberal do capitalismo todas as relações são, ao
mesmo tempo, reduzidas ao consumo – e submetidas ao consumo. O que define cada
“indivíduo” é sua capacidade de consumir. Suas escolhas se reduzem a escolher
entre produtos, marcas, preços, cores, formatos; sua liberdade é a de consumir
o que sua renda permitir e a de desejar se exaurir mais para ter mais dinheiro
para consumir. Toda a vida é mediada por mercadorias e, acima de qualquer outra
identidade, você é consumidor.
É neste sistema que o planeta, supostamente à disposição dos
consumidores, foi consumido; que espécies inteiras foram destruídas e outras
subjugadas para terem seus corpos consumidos em produção industrial. É assim
que você nasce para, consumindo seu corpo e seu tempo, se consumir. E é assim
que os humanos se tornaram, a partir da revolução industrial, que iniciou um
processo cada vez mais veloz de emissão de CO2 pela queima de combustíveis
fósseis (carvão, petróleo etc), uma força de destruição do planeta.
Pressionadas pelo colapso da natureza que provocaram e pela
evidência de que haverá mais pandemias, as grandes corporações que controlam o
mundo e aqueles que se beneficiam delas tentam agora reinventar o sistema de
destruição, como já fizeram no passado, para continuar no controle. Têm muita
chance de conseguir.
No Brasil, Bolsonaro fez o serviço de esticar tanto os limites,
que tornou todas as forças conservadoras ao seu redor aceitáveis. Não sei o
quanto ele percebe que este é o seu principal papel. O fato é que o executa
brilhantemente. Cada vez que se comporta como um maníaco, faz figuras que até
ontem causariam arrepios despontarem como estadistas. Antes dele, um Mourão na presidência
era inimaginável depois de mais de 20 anos de ditadura militar. Antes dele,
Rodrigo Maia era só mais um representante tradicionalíssimo de um Congresso
marcado por corrupção e fisiologia. Antes dele, Doria e Witzel, cada um no seu
estilo, jamais receberiam aplausos de parte da esquerda ou afagos de Lula.
Antes dele, Mandetta era um político preocupado em apoiar projetos corporativos
de setores da saúde e fazer lobby para ruralistas. Graças a Bolsonaro e à
incompetência da oposição real, todos eles nos lideram.
É assim que vai ser, então?
O Brasil tem dois enfrentamentos urgentes para fazer: a disputa
do presente, que é o novo coronavírus, e a disputa do futuro, que se dá também
agora, no presente.
Enfrentar uma pandemia num país em que desigualdade e pobreza
extrema aumentaram nos últimos anos pelas políticas neoliberais é um imenso
desafio. Mas talvez seja ainda maior o desafio de imaginar um futuro que não
seja a volta de uma normalidade que só era normal para os privilegiados de
sempre. Na armadilha que se tornou o país, todos os caminhos levam ao mesmo
lugar. Os personagens que disputam o presente e o futuro dentro da estrutura do
Estado são no fundo todos iguais – ou pelo menos muito parecidos.
Como aprender com o coronavírus a criar um futuro que não seja
mais aniquilação?
Parece quase impossível quando todas as saídas estão barradas
pelas tropas neoliberais. Elas já se organizam para chicotear a população após
a pandemia, com o imperativo de produzir para poder superar a recessão e
retomar o dogma do crescimento. Já tivemos indícios de que o coronavírus será
usado para impor perdas de direitos e de liberdades. A China, com seu comunismo
capitalista (sim, isso é possível), ampliou ainda mais sua vigilância despótica
sobre a população. É apenas um sinal do que está por vir.
Em breve, pode apostar, os governos vão pedir o sacrifício de
todos, que nunca é o de todos, mas o dos de sempre. Prestem atenção ao
significado que será dado à palavra “retomada” – e pensem no que será retomado.
A pandemia é nova. Os métodos dos que trouxeram o planeta até este estado de
coisas, não.
Parece impossível disputar o futuro nessas condições. Mas tudo o
que temos é encontrar um caminho para minar a criatura chamada capitalismo, que
no nosso tempo se expressa pelo neoliberalismo, e impedir que se regenere. Mais
do que nunca, hoje lutamos pela vida.
2) Temos
que barrar os senhores do mundo antes de eles conseguirem dar o golpe (mais uma
vez)
Há tempos os pensadores ocidentais não se empenhavam tanto em
interpretar um momento. Faz todo o sentido. Nada é – ou foi – maior do que essa
pandemia como ameaça global capaz de mudar tudo em um segundo. Inclusive o
olhar dos humanos sobre si mesmos, ao descobrir a espécie, esta que sempre se
considerou dona do planeta, ameaçada por um ser microscópico. Já existe pelo
menos um livro com coletânea de artigos de filósofos sobre o coronavírus e seus
efeitos. Há uma diferença, porém. Há os pensadores que compreenderam a crise
climática e há os que seguem às voltas com dilemas do século 20, como grande
parte da esquerda mundial, e que não foram afetados pelas angústias da época
atual.
Entre os pensadores conectados com a emergência do clima, o
francês Bruno Latour é o autor de uma das melhores contribuições para pensar o
momento já como ação. O texto foi traduzido pela
filósofa brasileira Déborah Danowski, outra pensadora relevante sobre o
contexto atual. Em sua análise, Latour assim define a lição posta pelo novo
coronavírus: “A primeira lição do coronavírus é também a mais espantosa. De
fato, ficou provado que é possível, em questão de semanas, suspender, em todo o
mundo e ao mesmo tempo, um sistema econômico que até agora nos diziam ser
impossível desacelerar ou redirecionar. A todos os argumentos apresentados
pelos ecologistas sobre a necessidade de alterarmos nosso modo de vida, sempre
se opunha o argumento da força irreversível do ‘trem do progresso’, que nada
era capaz de tirar dos trilhos, ‘em virtude’, dizia-se, da ‘globalização’”.
E aponta o risco: “Qualquer motorista sabe que, para ter alguma
chance de se salvar fazendo uma rápida manobra no volante, sem sair da estrada,
é melhor primeiro desacelerar... Infelizmente, não são só os ecologistas que
veem nessa pausa súbita no sistema de produção globalizado uma grande
oportunidade de fazer avançar seu programa de aterrissagem. Os adeptos da
globalização, aqueles que, em meados do século 20, inventaram a ideia de
escapar das restrições planetárias, também veem nela uma excelente oportunidade
de se desvencilhar ainda mais radicalmente do que resta de obstáculos à sua
fuga para fora do mundo. Para eles, essa é uma oportunidade boa demais de se
livrar do resto do Estado social, da rede de segurança dos mais pobres, do que
ainda resta de regulamentação contra a poluição e, mais cinicamente ainda, de
se livrar de toda essa gente em excesso que atulha o planeta. (...) Os adeptos
da globalização são perigosos porque eles sabem que perderam, sabem que a
negação das mudanças climáticas não poderá continuar indefinidamente, que não
há mais nenhuma chance de conciliar seu ‘desenvolvimento’ com os vários
‘envelopes’ do planeta com os quais a economia terá que se haver mais cedo ou
mais tarde. Isto é o que os torna dispostos a tentar de tudo para se aproveitar
mais uma (última?) vez das condições excepcionais, para poder durar um pouco
mais e proteger a si próprios e aos seus filhos”.
Antes que alguém levante a balela do desenvolvimento
“sustentável” como a panaceia capaz de colocar o capitalismo de novo nos
trilhos, vale escutar outro pensador, este indígena. Autor de Ideias
para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras), Ailton Krenak provocou
ódio e ranger de dentes tempos atrás, ao afirmar que “sustentabilidade era
vaidade pessoal”. Toda corporação, incluindo as mais destrutivas, tem hoje um
gerente de sustentabilidade. Faz parte da capacidade de cooptação e adaptação
do capitalismo. Sempre uma cretinice a mais.
Em março, já com a pandemia atravessando o globo, Krenak assim
explicou na abertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, ao falar
sobre perspectivas anticoloniais: “Nós vivemos precariamente uma relação de
consumir o que a mãe natureza nos proporciona. E nós sempre fizemos um uso do
que a nossa mãe nos proporciona da maneira mais folgada possível. Até que um
dia nós nos constituímos numa constelação tão imensa de gente que consome tudo,
que a nossa mãe natureza falou: peraí, vocês estão a fim de acabar geral com
tudo que pode existir, aqui, como equilíbrio e como possibilidade daquilo que é
fluxo da vida? Vocês vão esquadrinhar a produção da vida e decidir quantos
pedaços de vida cada um pode obter? E, nessa desigualdade escandalosa, vocês
vão sair por aí administrando a água, o oxigênio, a comida, o solo? E então [a
natureza] começou a botar limites à nossa ambição.
Uma maneira que os humanos fizeram para administrar isso foi
criando a ideia, por exemplo, de que existe um meio ambiente e que esse
universo é uma coisa que você pode gerenciar. E dentro desse meio ambiente
alguns fluxos vitais podem ser medidos, avaliados e habilitados, alguns deles
inclusive com selos de sustentabilidade.
Se você tirar água do aquífero Guarani, por exemplo, uma água de
muito boa qualidade, e se você engarrafar direitinho, você é uma empresa
sustentável. Mas quem disse que tirar água do aquífero Guarani é sustentável?
Você pratica uma violência na origem e recebe um selo sustentável no caminho. E
assim com a madeira. Isso é uma sacanagem, não tem esse papo de água
sustentável e não tem esse papo de madeira sustentável”.
Diz então a verdade terrível, que é também o ponto de partida de
qualquer proposta para o futuro que formos capazes de esboçar: “Nós somos uma
civilização insustentável, nós somos insustentáveis. Como é que então vamos
produzir alguma coisa em equilíbrio?”.
Este é o desafio.
Assim que novo coronavírus der uma brecha, os profetas do neoliberalismo
começarão a sua pregação: “É preciso produzir e crescer!”. Não há
dogma maior na economia do que o do crescimento. Milhares de economistas
perderão seu emprego no ramo da astrologia econômica caso o dogma do
crescimento seja desmascarado. Crescer é o imperativo de todo país. Quem não lembra
do “fazer o bolo da economia crescer para então repartir o bolo” que o ministro
da ditadura e astrólogo econômico maior do Brasil, Delfim Netto, repetia no
regime de exceção? Mais tarde, com a expansão do neoliberalismo, nem isso.
Bastava que os mais pobres soubessem que, se o país crescesse, alguma coisinha
poderia eventualmente sobrar pra eles.
O dogma do crescimento é construído sobre uma mentira: a
possibilidade de explorar infinitamente os recursos de um planeta com recursos
finitos. Bastam dois neurônios para entender que não é possível. E aí vem o
outro dogma, o da sustentabilidade, como se fosse possível tornar sustentável o
que, em sua estrutura, é insustentável.
O que o dogma do crescimento faz é proteger os privilégios dos
muito ricos: o problema deixa de ser a distribuição igualitária das riquezas
existentes e passa a ser o crescimento insuficiente, que não permite garantir o
suficiente para todos. O imperativo de crescer é repetido à exaustão para
encobrir a injustiça estrutural: a desigualdade na distribuição de riquezas.
Carregando seu corpo exaurido, mesmo o pobre passa a acreditar que sua miséria
é provocada por falta de crescimento. Sem reparar que nos momentos em que o tal
bolo cresceu, as fatias se tornaram maiores para os que já eram donos do bolo e
sobrou para ele, quando muito, a farofa da cobertura.
No Brasil, o 1% mais rico concentra quase um terço da renda
(28,3%), o que dá ao país o título de vice-campeão mundial em desigualdade,
segundo o último Relatório de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações
Unidas (ONU). O Brasil só perde para o Catar – e apenas por 0,7%. Cinco
bilionários brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre do
país, segundo estudo da organização não-governamental britânica Oxfam, publicado
em 2018. Cinco pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de brasileiros.
Este é o problema. Não é por falta de exploração da natureza que o país é
tremendamente desigual. Ao contrário. O esgotamento dos suportes de vida do
planeta é um dos principais geradores de pobreza e de desigualdade.
O dogma do crescimento, que faz as engrenagens do capitalismo
girar, foi determinante para produzir a emergência climática. O que a
emergência climática torna explícito é que já não será possível “crescer”. É
necessário mudar radicalmente o modo de vida porque, como diz a jovem Greta Thunberg, “nossa casa está em
chamas”. Diante do superaquecimento global e da perda de ecossistemas vitais,
realmente imperativo é distribuir as riquezas existentes.
É esse conteúdo explosivo que faz com que as grandes corporações
que dominam o planeta apoiem negacionistas do clima como Donald Trump e Jair
Bolsonaro. Com esses déspotas eleitos
disseminando mentiras e distraindo o mundo com falsos problemas,
elas ganham tempo. Já sabem que não dá mais para seguir, mas farão o impossível
para ganhar o máximo enquanto for possível. Guardadas as proporções, é como a
indústria do cigarro: negou os malefícios por décadas, contra todas as
pesquisas científicas, e ganhou dinheiro produzindo câncer enquanto deu. Ainda
hoje, contabiliza cifras bilionárias.
O desafio que nossa geração tem pela frente é imenso. E será
duro. Muito duro. Como a crise climática se desenrola num outro tempo, o
encontro com a realidade era sempre adiado pela maioria, apesar dos gritos dos
cientistas e dos jovens. Os negacionistas foram eleitos porque grande parte da
população mundial quer continuar negando o inegável junto com eles. Então o
vírus escancara a realidade. Dele não dá para fugir, já que fugir é morrer.
O que temos hoje é uma janela de realidade, o momento em que
todos, absolutamente todos, são obrigados a se encontrar com a verdade. É por
isso que Bolsonaro se tornou ainda mais pirotécnico. Para manter o poder ele
precisa falsificar a realidade. Vinha conseguindo, e o vírus arrancou de uma
vez essa possibilidade. Diz então que “o vírus não é tudo isso que dizem”.
Porque, apavorado, sabe que o vírus é muito mais. Diante da verdade da morte,
nenhuma mentira vinga.
Bruno Latour assim anuncia o impasse da
janela aberta pelo coronavírus: “Se a oportunidade serve para eles, serve para
nós também. Se tudo para, tudo pode ser recolocado em questão, infletido,
selecionado, triado, interrompido de vez ou, pelo contrário, acelerado. Agora é
que é a hora de fazer o balanço de fim de ano. À exigência do bom senso:
‘Retomemos a produção o mais rápido possível’, temos de responder com um grito:
‘De jeito nenhum!’. A última coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que
fizemos antes”.
Para que possamos seguir esse debate, reproduzo aqui as
perguntas que ele lança para cada um e para o coletivo:
“Aproveitemos a suspensão forçada da maior parte das atividades
para fazer um inventário daquelas que gostaríamos que não fossem retomadas e
daquelas que, pelo contrário, gostaríamos que fossem ampliadas. Responda às
seguintes perguntas, primeiro individualmente e depois coletivamente:
1) Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que não
fossem retomadas?
2) Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial /
supérflua / perigosa / sem sentido e de que forma o seu desaparecimento /
suspensão / substituição tornaria outras atividades que você prefere mais fáceis
/ pertinentes. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas
na pergunta 1).
3) Que medidas você sugere para facilitar a transição para
outras atividades daqueles trabalhadores /empregados / agentes / empresários
que não poderão mais continuar nas atividades que você está suprimindo?
4) Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que
fossem ampliadas / retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?
5) Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como
ela torna outras atividades que você prefere mais fáceis / harmoniosas /
pertinentes e ajuda a combater aquelas que você considera desfavoráveis. (Faça
um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).
6) Que medidas você sugere para ajudar os trabalhadores /
empregados /agentes / empresários a adquirir as capacidades / meios / receitas
/ instrumentos para retomar / desenvolver / criar esta atividade?
Acrescento à lista uma pergunta minha. Não há nada que as
grandes corporações que controlam o planeta, assim como os políticos
neoliberais que os representam nas várias instâncias do Estado, temam mais do
que a desobediência civil. No Brasil, as esmolas que concedem para que os mais
pobres sobrevivam à pandemia têm por objetivo estancar a possibilidade do “caos
social” ou de uma “convulsão social”. Ou seja: o povo nas ruas e já sem nada a
perder.
Desde o final de 2018, o movimento que mais balançou a
“normalidade” que os senhores do mundo tanto prezam foi a desobediência civil
dos adolescentes, que se recusaram a ir para a escola a
cada sexta-feira. No ato da greve escolar, eles denunciavam que os
adultos roubaram o seu futuro ao não fazer o necessário para conter o colapso
climático. Sem futuro, para que estudar? Como são crianças e adolescentes, esta
era a desobediência civil disponível. E como funcionou.
Assim, a minha pergunta é: qual poderia ser a melhor ação de
desobediência civil neste momento?
No Brasil de Bolsonaro, sabemos que nossa principal
desobediência civil é sobreviver. Mas, para além de nos mantermos vivos, como
podemos desobedecer aos produtores de morte para criarmos um futuro onde
possamos existir com todos os outros?
Encerro com Ailton Krenak, porque acho que as melhores ideias
virão dos pensadores indígenas, daqueles que sabem como viver sem esgotar o
planeta e sem produzir iniquidades. Ele diz: “O próprio enunciado de alguma
coisa que virá depois anima nosso sentido de viver. É a ideia de adiar o fim do
mundo. Nós adiamos o fim de cada mundo, a cada dia, exatamente criando um desejo
de verdade de nos encontrarmos amanhã, no final do dia, no ano que vem. Esses
mundos encapsulados uns nos outros que nos desafiam a pensar um possível
encontro das nossas existências – é um desafio maravilhoso”.
Vamos?
Eliane Brum é
escritora, repórter e documentarista. Autora de Brasil, Construtor de Ruínas:
um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago). Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter,
Instagram e Facebook: @brumelianebrum
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
Proposta de Redação: “Importância do investimento em educação, ciência e tecnologia para combater doenças no Brasil”
Proposta de Redação:
A partir da leitura dos textos
motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação,
redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua
portuguesa sobre o tema “Importância do investimento em educação,
ciência e tecnologia para combater doenças no Brasil” apresentando proposta de
intervenção. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa,
argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.
Obs: Vocês poderão argumentar sobre a importância dos investimentos governamentais em escolas, universidades (pesquisa) e no sistema único de saúde (SUS) para combater doenças no Brasil.
Textos de apoio:
Texto 1: “Apesar
das fragilidades, SUS está preparado para coronavírus", diz sanitarista
O Sistema Único de Saúde (SUS) passará
por um dos maiores desafios desde sua criação: combater a pandemia do novo
coronavírus, que já tem mais de 234 casos e outros 2.064 casos suspeitos em todo o
Brasil. Um dos pilares
contra o avanço do vírus é a Estratégia de Saúde da Família, programa que,
desde 1993, por meio do trabalho comunitário na atenção básica já erradicou
doenças como o Sarampo e a Poliomelite. Para a médica sanitarista e
supervisora no Programa Mais Médicos na Grande São Paulo, Maria Célia Medina,
apesar do sucateamento e da sobrecarga, o SUS está preparado e é a principal
alternativa para milhões de brasileiros que terão que enfrentar o
Covid-19. "A gente acredita que agora essa pandemia pode ter o
benefício dessa estrutura, apesar de que hoje a gente tem um SUS um pouco
mais enfraquecido, com um número de profissionais reduzidos, a gente perdeu
mais de 18 mil médicos do programa mais médicos”, explica Célia, que endossa o
coro do Conselho Nacional de Saúde (CNS) pela revogação do teto dos gastos. De
acordo com estudo do CNS, a emenda já tirou R$ 20 bilhões do SUS, desde sua
implantação em 2016 no governo de Michel Temer.
(fonte: https://www.brasildefato.com.br/2020/03/16/apesar-das-fragilidades-sus-esta-preparado-para-coronavirus-diz-sanitarista
- 16 de Março de 2020)
Texto 2: Reinaldo Guimarães ressalta importância atuação do SUS na
epidemia da Covid-19
IHU On-Line –
Como avalia as ações do governo brasileiro para tentar conter o avanço da
Covid-19? Quais as potencialidades e as fragilidades das medidas que
vêm sendo adotadas pelas autoridades na contenção e no tratamento da doença?
Reinaldo Guimarães – As nossas
vantagens dizem respeito a estarmos sendo atingidos após as experiências da
China, da Itália, dos
Estados Unidos etc. Estamos aproveitando as lições aprendidas nesses países. De
modo geral, as equipes profissionais de servidores no Ministério da Saúde e em várias
Secretarias nos estados têm tido protagonismo na proposição de medidas, e seus
chefes têm, de modo geral, acatado suas sugestões.
Nossa
desvantagem é a política de arrocho financeiro-orçamentário instituída pelo
governo federal, cuja mais perniciosa expressão é a Emenda Constitucional 95,
que provoca a diminuição real dos
gastos públicos. Na saúde, isso significou uma frustração financeira
de cerca de R$ 20 bilhões desde
o início da vigência dessa emenda.
IHU On-Line – Qual a centralidade do
Sistema Único de Saúde – SUS nessas ações?
Reinaldo Guimarães – O SUS é o
elemento central no enfrentamento da pandemia entre nós. O fato de os primeiros
casos terem sido diagnosticados em hospitais privados decorre de os primeiros
pacientes terem sido pessoas de posses que são clientes desses hospitais e que
vieram de países europeus. Conforme a onda epidêmica vai se tornando
comunitária, com a circulação do vírus de pessoa a pessoa dentro do país, o
papel do SUS vai se tornando evidente e central.
IHU On-Line – Em que medida esse episódio
pode/deve servir para reiterar e evidenciar a importância do SUS e a emergência
de robustos investimentos em saúde pública?
Reinaldo Guimarães – Se não
houver um aporte suplementar urgente de recursos financeiros para o SUS nos
estados e municípios, pode ser reforçada a falsa visão de que o SUS é
ineficiente. Caso haja uma correta irrigação de recursos e as equipes técnicas
continuarem a dar as cartas, a imagem do SUS pode sair fortalecida desse
episódio. Espero que isso aconteça.
Fonte:(https://www.abrasco.org.br/site/outras-noticias/sistemas-de-saude/entrevista-reinaldo-guimaraes-ressalta-importancia-atuacao-do-sus-na-epidemia-da-covid-19/45852/
- )
domingo, 2 de fevereiro de 2020
Coronavírus: Médico brasileiro que trabalha na OMS, na Ásia, e colega de hospital universitário, em SP, afirmam que, no momento, não há motivo para pânico no Brasil
Por Conceição Lemes
Com mais de 10
milhões de habitantes, é considerada o centro político, econômico, financeiro,
comercial, cultural e educacional da China Central. Rapidamente, em uma semana,
os cientistas chineses identificaram o patógeno responsável: um novo
coronavírus, o 2019-nCoV, como é chamado oficialmente.
Ontem,
quinta-feira, 30/01, exato um mês após o aviso inicial, já havia no mundo 7.818
casos confirmados. A esmagadora maioria na China: 7.736, com 170 mortes.
Fora
da China, havia 82 casos confirmados em 18 países.
Os dados constam do
relatório publicado nessa quinta-feira pela OMS, que também divulgou duas
importantes medidas:
*O nome oficial da doença causada pelo novo coronavírus. Chama-se Doença Respiratória de 2019-nCoV.
* Declarou o novo coronavírus uma emergência de saúde pública de interesse internacional.
A OMS só utiliza essa
terminologia para epidemias que exigem forte reação global. Tanto que, até
aqui, isso havia acontecido com a gripe suína H1N1 (2009), a poliomielite
(2014), o zika vírus (2016) e a febre ebola, que de 2014 a 2016 devastou parte
da população da África Ocidental e desde 2018 atinge a República Democrática do
Congo.
Os casos confirmados do coronavírus 2019 na
China já superam os 9 mil, com 213 mortes. Dos mais de 1.300 chineses em estado
grave, 130 se recuperaram e tiveram alta. Fora da China, já são mais de 90
casos confirmados, entre os quais dois na Itália, onde a infecção pelo
2019-nCoV ainda não tinha caso registrada. Há casos comprovados em todos os
continentes.
No Brasil, segundo o Ministério da Saúde,
existem nove casos suspeitos em investigação nos estados de Minas Gerais (1),
Rio de Janeiro (1), Rio Grande do Sul (2), São Paulo (3), Paraná (1) e Ceará
(1). Nenhum ainda provável ou confirmado. Os dados referem-se ao período de 18
a 30 de janeiro de 2020.
Nós ouvimos dois médicos brasileiros já a
postos para enfrentar o 2019-nCoV. Um, por sinal, está no olho do furacão. É o
sanitarista Fábio Mesquita, que trabalha na OMS em Mianmar (antiga Birmânia),
fronteira com a China, Tailândia, Índia, Bangladesh e Laos. Mesquita integra o
comitê de monitoramento diário do país. É o responsável pelo acompanhamento dos
casos de internação hospitalar e tratamento. O outro é o infectologista Gerson
Salvador, do Hospital Universitário (HU) da Universidade de São Paulo (USP). Uma
distância de 16.171 km em linha reta (do aeroporto internacional de Guarulhos,
em São Paulo, e o centro de Mianmar) os separam. Interessantemente, em se
tratando do Brasil, ambos avaliam de modo semelhante a nova ameaça. “É lógico que a situação é preocupante, não
podemos menosprezar a epidemia”, diz Salvador.
“Mas também não há motivo para desespero. Pegar esse coranavírus não é
sentença de morte”, acrescenta.
Em mensagem a amigos e familiares no Brasil,
Mesquita, brincando, falou sério:
Além de muitos
amigos queridos, tenho filha, neta, irmãos, tias e primas aí no Brasil. Também
filha e neta na Holanda. Portanto, me sinto corresponsável global pelo atento
controle do curso desta nova epidemia. Mas, em suma, até o momento não há
motivos para pânico.
A taxa de letalidade pelo 2019-nCoV é
praticamente a mesma desde o começo da epidemia. Está em torno de 2%. Claro que
esse índice pode mudar, mas, por enquanto, está bem abaixo do registrado em
epidemias anteriores causadas por outros coronavírus.
Explico. O coranavírus não é um
vírus só, mas uma grande família de vírus. “Nós tivemos dois casos severos de
epidemias semelhantes pelo coranavírus; a Sars, que emergiu em 2002/2003, e a
Mers, em 2012”, atenta Mesquita. Sars (na sigla em inglês) é a Síndrome Respiratória
Aguda Grave, que também se disseminou a partir de China. Das 8.098 pessoas
infectadas ao redor do mundo, matou 774. Portanto, 10%. A Mers (na sigla em inglês) é a Síndrome
Respiratória do Oriente Médio. Dos 2.494 pacientes identificados, matou 858. Ou
seja, 36%. Aproximadamente 80% dos casos em humanos foram relatados pela Arábia
Saudita, que foi onde surgiu. Se você ainda duvida de que não há motivo para
pânico, o infectologista Gerson Salvador observa:
*O vírus da gripe (transmite de forma semelhante
ao novo coronavírus) mata no mundo 290 mil a 640 mil pessoas por ano.
*Em 2018, o sarampo causou 110 mil mortes no
mundo. *A tuberculose causa 1,5 milhão
de mortes por ano.
Mesmo depois da OMS ter declarado o coronavírus
emergência de saúde pública internacional, não há motivo para pânico? – alguns
devem estar querendo saber.
Os doutores Fábio e Gerson mantêm a avaliação
que fizeram no início desta reportagem. “Não é preciso entrar em pânico, mas a
atenção e a vigilância devem ser ampliadas”, traduz Mesquita. Por uma razão. Já
há sete novos casos comprovados em outros países de pessoas que nunca foram
para a China. O que demonstra que novo coronavírus pode ser, sim, transmitido
de pessoa para pessoa.
O que fazer então para me proteger, já que não
tem vacina?Quando vai ter vacina?
Realmente, não há ainda vacina
contra 2019-nCoV. Aliás, é o que sempre acontece quando uma doença é nova. Isso
perdura até que uma seja desenvolvida, o que pode levar anos. A única vacina que começou a ser desenvolvida
para o coronavírus da Sars passou apenas pela primeira etapa de testes. A
pesquisa foi interrompida porque desde 2003 não houve novas mortes por Sars. Quanto à vacina contra o novo coranavírus, a
corrida científica nesse sentido já começou.
Há expectativa de que em um ano ela seja realidade, mas não dá para
garantir nada.
O que
fazer então para evitar a infecção pelo 2019-nCoV agora?
Fazer o que você sempre deveria fazer para se
proteger de outras doenças de transmissão respiratória, inclusive resfriado e gripe
influenza: lavar as mãos com frequência, evitar colocar as mãos nos olhos,
nariz e boca, cobrir a boca ao tossir. Essas
medidas ajudam a evitar a Doença Respiratória de 2019-nCoV, assim como demais
infecções das vias respiratórias.
SINTOMAS, TEMPO DE INCUBAÇÃO, TRATAMENTO
Sempre que há surtos de caráter global muitas
informações equivocadas são disseminadas, gerando pânico às vezes. Para combatê-las, pedimos mais alguns
esclarecimentos aos dois entrevistados.
Blog da Saúde – O que é o coronavírus?
Gerson
Salvador – Na verdade, não é
um vírus, mas uma grande família de vírus, que geralmente causam problemas
respiratórios, que variam causa desde o resfriado comum a doenças mais graves,
como a Sars, a Mers e agora Doença Respiratória de 2019-nCoV.
Blog da
Saúde – Há quanto tempo são conhecidos?
Gerson
Salvador — Desde a década de
1960.
Blog da
Saúde – Algum motivo especial para se chamarem coronavírus?
Gerson
Salvador — Eles têm esse nome
devido ao seu aspecto. Visto em microscópio, lembra uma coroa.
Blog da
Saúde – Quantos coranavírus são conhecidos?
Gerson
Salvador – O coronavírus 2019
é sétimo que infecta o ser humano. Até então seis tipos diferentes tinham sido
confirmados como causa de infecções em seres humanos.
Blog da
Saúde – Como são transmitidos os coronavírus?
Fábio
Mesquita– O coronavírus é uma
zoonose, que começa em animais e progride para seres humanos. Vira epidemia,
quando ele começa a ser transmitido entre seres humanos.
Gerson
Salvador – Muitos coronavírus
são transmitidos entre animais da mesma espécie ou de espécies muito parecidas.
Você tem coronavírus que se hospeda em morcego e transmite para morcego. Tem
aquele que pega camelo e transmite pra camelo.
Só que eventualmente pode haver transmissão de uma cepa mutante de
animais para humanos, dependendo da mudança no material genético do vírus
(RNA). E, depois, de ser humano para ser
humano, podendo, aí, sim, causar epidemia em pessoas, como bem observou o
doutor Fábio.
Blog da
Saúde – Por exemplo.
Gerson
Salvador — O coronavírus da
Sars foi isolado primeiramente em morcegos. Ele foi transmitido para humanos a
partir de contato com civetas, um felino selvagem originário do Sul e Sudeste
Asiático, também chamado de gato-de-algália.
Já o coronavírus da Mers foi transmitido de camelos para humanos.
Estudos mostraram que os seres humanos foram infectados por contato direto ou
indireto com camelos. O coronavírus da Mers foi identificado em camelos de
países do Oriente Médio, África e Sul da Ásia.
Blog da
Saúde – E 2019-nCov já sabe qual a fonte inicial?
Gerson
Salvador – Ainda, não. Os
cientistas estão trabalhando nisso. No
início, muitos dos pacientes do surto em Wuhan, na China, tinham alguma ligação
com um grande mercado de frutos do mar e animais vivos, sugerindo que o vírus
provavelmente surgiu de uma fonte animal. No entanto, um número crescente de pacientes
supostamente não teve exposição ao mercado de animais, indicando a ocorrência
de disseminação de pessoa para pessoa. O
vírus 2019 é provavelmente um betacoronavírus, semelhante aos encontrados em
morcegos.
Blog da
Saúde – O novo coronavírus é transmitido como o vírus da gripe?
Gerson
Salvador –– A transmissão se
parece, sim, com a do vírus da gripe, ou seja, pode ser transmitida de pessoa a
pessoa a partir de secreções respiratórias.
Blog da
Saúde – E o que pode causar?
Gerson
Salvador – Assim como o vírus
da gripe, pode dar um quadro leve, que lembra resfriado. Mas, assim como o
vírus da gripe, o 2019-nCoV pode eventualmente se manifestar por formas graves,
com infecções pulmonares que podem levar à morte. O novo coronavírus tem um
comportamento que lembra o vírus influenza, que é mais agressivo do que os
vírus de resfriado comum.
Blog da
Saúde – É verdade que a maioria das pessoas já foi exposta a algum tipo de
coronavírus?
Gerson
Salvador – Sim. É um dos
muitos vírus que causam infecção de vias aéreas em crianças.
Blog da
Saúde – Qual o tempo de incubação desse novo coronavírus?
Fábio
Mesquita — De 2 a 14 dias e
pode ser modificado à medida que o conhecimento progredir.
Blog da
Saúde – Quais os sinais/sintomas da infecção pelo coronavírus 2019?
Gerson
Salvador — A maior parte
lembra um resfriado ou infecção de vias aéreas superiores.
Dados preliminares da epidemia atual mostram
que quase todos (98%) relataram febre, 76% tinham tosse, 55%, falta de ar e
44%, mialgias/fadiga. Já 20% tiveram doenças mais graves e precisaram de
cuidados intensivos.
Blog da
Saúde – Em caso positivo, qual o tratamento?
Fábio
Mesquita — Não há nenhum
tratamento específico, como um antiviral, eficiente para coronavírus. Os
pacientes recebem tratamentos sintomáticos e nos casos graves suporte com
oferta de oxigênio e eventualmente cuidados intensivos. Antivirais estão sendo
testados, mas ainda não há um protocolo de tratamento universalmente aceito.
Certamente isso estará em curso nos próximos dias. Aliás, a tecnologia avançou
rapidamente desde 2002, quando houve a primeira crise pelo coronavírus da Sars.
Portanto, o kit para diagnóstico já foi estabelecido e está sendo produzido em
larga escala pela China e pelos Estados Unidos. O relato de casos também foi
imediato, em comparação com o que aconteceu há 18 anos.
Blog da
Saúde – Por último, que medidas estão adotando para prevenir o 2019-nCoV?
Começando pelo doutor Fábio, que já está na zona do furacão.
Fábio
Mesquita – É sempre
inspirador usar tudo o que aprendemos para controlar uma epidemia e ver os
passos que vão sendo dados. Mas, ao mesmo tempo, lamentar que a gente não se
preparou para mais esta epidemia que vai impactar muitas vidas e muitas
famílias.
Blog da
Saúde – E o senhor, doutor Gerson?
Gerson
Salvador — Nós estamos no
Brasil e ainda não temos casos confirmados. Para adquirir o coronavírus 2019 é
preciso ter estado numa área em que está ocorrendo a transmissão, notadamente
na China. Ou ter contato com caso confirmado ou suspeito. Quem não se enquadra
nessas situações, não tem risco de pegar o vírus. Agora, é fundamental
incorporar alguns hábitos que ajudam a prevenir não só o coranavírus 2019, mas
também resfriados e gripes pelo vírus influenza:
*lavar as mãos com sabão com frequência;
*desinfetar frequentemente as mãos com álcool
gel 70%, em especial quando estiver em grandes aglomerações;
*evitar colocar as mãos nos olhos, nariz e
boca;
*cobrir a boca ao tossir.
Essas medidas devem ser adotadas por todos.
Blog da
Saúde — O senhor adota tudo isso?!
Gerson
Salvador –Adoto. sim (risos).
Blog da
Saúde — A propósito, o uso de máscara funciona contra a transmissão do
coronavírus?
Gerson
Salvador — Em termos de vírus
respiratórios, as medidas de barreira têm o seu papel. Por exemplo, num
ambiente hospitalar, quando o paciente está em isolamento respiratório, quem
entrar em contato com ele tem que usar máscara, entre outras medidas de
proteção. Já em ambientes abertos,
públicos, há estudos que mostram que funcionam, mas há também estudos dizem que
não. Ou seja, é uma questão polêmica.
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