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sexta-feira, 10 de abril de 2020

O futuro pós-coronavírus já está em disputa


Como impedir que o capitalismo, que já nos roubou o presente, nos roube também o amanhã?
Nós, os que hoje estamos vivos, nunca enfrentamos uma ameaça como o novo coronavírus. Se tantos repetem que o mundo nunca mais será o mesmo, qual é então o mundo que queremos?
Ninguém se iluda. Enquanto a pandemia é enfrentada, essa resposta já está sendo disputada. É ela que vai determinar o futuro próximo. Lutar pela vida ameaçada pelo vírus é o imperativo da emergência. É preciso, porém, fazer algo ainda mais difícil: lutar pelo futuro pós-vírus. Se não o fizermos, a retomada da “normalidade” será a volta da brutalidade cotidiana que só é “normal” para poucos, uma normalidade arrancada da vida dos muitos que diariamente têm seus corpos esgotados. O rompimento do “normal”, provocado pelo vírus, pode ser a oportunidade para desenhar uma sociedade baseada em outros princípios, capaz de barrar a catástrofe climática e promover justiça social. O pior que pode nos acontecer depois da pandemia será justamente voltar à “normalidade”.
As grandes corporações já começam a se mover para garantir o controle do que virá. Na semana passada, as companhias de petróleo foram recebidas por Donald Trump na Casa Branca. Não foram discutir como salvar os mais pobres dos efeitos da pandemia. No Reino Unido, as companhias de aviação fazem lobby por subsídio governamental e, claro, desregulamentação. Tampouco elas foram se reunir para tomar chá e discutir investimentos na área social.
Diante do novo coronavírus, até baluartes da imprensa liberal, como The Economist e Financial Times, ambos nascidos no berço do capitalismo, têm anunciado que é preciso dar um passo atrás. Maior intervenção do Estado e políticas como renda mínima e taxação de fortunas, antes consideradas “exóticas” por esses segmentos, têm sido elencadas na abordagem do novo contrato social no mundo pós-pandemia. Conceder um pouco para garantir que nada mude no essencial é um truque antigo.
Com o vírus, descobrimos que aqueles que afirmavam ser impossível parar de produzir, reduzir o número de voos, aumentar os investimentos dos governos e mudar radicalmente os hábitos apenas mentiam. O mundo mudou em menos de três meses em nome da vida. É também em nome da vida que precisamos manter as boas práticas que surgiram deste período e pressionar como nunca antes por outro tipo de sociedade, tecida com outros fios.
A tarefa é inadiável. Se não fizermos isso, o mundo pós-coronavírus será ainda mais brutal e o colapso climático se aprofundará. Para o extermínio da natureza não há nem jamais haverá vacina. Nosso futuro depende de enterrar o sistema capitalista que exauriu o planeta e nos trouxe até o tempo das pandemias. E para isso também não serve o comunismo que explorou, destruiu vidas, corroeu a natureza e oprimiu os corpos. Precisamos encontrar outros caminhos. E rápido. Muitos dizem que é ingênuo. Outros dizem que é impossível. O que é ingênuo é sentar na cadeira de pregos que se tornou o presente e esperar os efeitos da brutal superexploração da natureza (terminar de) deformar a face do planeta. Impossível é seguirmos vivendo como temos vivido.
O isolamento físico tem que ser usado para produzir pensamento social e para atuar coletivamente, em rede. Este artigo, dividido em duas partes, é uma colaboração para o debate do futuro que precisa ser travado no presente. Agora.

1) No Brasil, todos os caminhos levam ao neoliberalismo
O presente, no Brasil, é uma armadilha. Temos um antipresidente – e a antipresidência é um conceito criado pelo bolsonarismo – que faz oposição ao seu próprio governo. A técnica ficou clara desde o início do mandato, mas ganhou contornos dramáticos na pandemia, quando Jair Bolsonaro abriu guerra contra seu próprio ministro da Saúde. A negação da realidade, como método de manutenção do poder, tem vários efeitos sobre a população. Um deles é ocupar o noticiário e sequestrar o debate.
Em vez de debater a ameaça mais urgente, estamos travando o falso debate lançado contra os brasileiros por Bolsonaro: isolamento ou não isolamento, ou saúde versus economia. É o que acontece quando se elege um homem que, no passado, planejou explodir bombas nos quartéis para pressionar por aumento salarial. As bombas de Bolsonaro hoje são de desinformação, visam ao caos e também podem matar.
O problema é ainda maior porque a negação da realidade também produz realidade. Neste caso, não só a de colocar a população em risco, mas também a de fazer acreditar que há oposição real. Essa ilusão que cresce no Brasil, até por desespero, pode comprometer o futuro de forma irreversível.
Se Jair Bolsonaro (sem partido) renunciar, o que parece bastante improvável no momento, ou se for impedido, o que também ainda parece distante, quem assume é o vice. Hamilton Mourão é um general quatro estrelas da reserva que até a eleição era considerado golpista, devido a várias declarações públicas. Ainda na campanha, chegou a dizer, em entrevista à GloboNews, que em “caso de anarquia” um presidente pode dar um “autogolpe” com “o emprego das forças armadas”. Comparado a Bolsonaro, até um pitbull torna-se “moderado”. É o que vem acontecendo com Mourão, como escrevi mais de um ano atrás.
O terceiro na hierarquia é Rodrigo Maia (DEM). Além de indiciado pela Polícia Federal por corrupção, o presidente da Câmara dos Deputados é totalmente identificado com o neoliberalismo que nos trouxe até a situação atual e com as forças mais conservadoras do país, com exceção (por enquanto) dos evangélicos de resultados. O que tornou Maia um exemplo de moderação e competência para o que chamam de “mercado” foi realizar a reforma previdenciária que, se era necessária, claramente o modelo aprovado não foi nem o melhor nem o mais justo para os trabalhadores, que tiveram suas vidas ainda mais precarizadas. Maia, a quem até o advento do bolsonanorismo parte dos brasileiros preferia ver pelas costas (ou na cadeia), tornou-se uma espécie de oráculo do bom senso, o que mostra o nível do abismo em se encontra o Brasil.
E então temos os novos candidatos a estadistas, na figura dos governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro. João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC). Doria, o gerente privatizador, e Witzel, defensor da violência policial nas favelas. Até ontem, ambos eram unha e carne com Bolsonaro. Ou vogal e consoante, no caso de Doria, que se elegeu como “Bolsodoria”. Para conter a pandemia, eles apenas seguem em seus estados as orientações sanitárias internacionais, mas, como fazer o óbvio é fazer o oposto do que Bolsonaro prega, despontam como defensores do povo contra o bolsovírus. Têm os olhos grudados na eleição presidencial de 2022.
Bolsonaro presta um grande serviço aos ex-melhores amigos. Em São Paulo, especialmente, ele livra Doria de explicar o pouco investimento na rede de saúde pública pelo seu partido, que comanda o Estado há mais de 25 anos. Na ponta, é essa falta de investimento no Sistema Único de Saúde (SUS) que vai resultar em mortes por coronavírus.
Em todo o país, o falso debate eclipsa o verdadeiro debate. A pandemia tornou explícita a importância do estatuto público da saúde. E revelou toda a monstruosidade da PEC-95, a do teto dos gastos públicos do governo de Michel Temer (MDB), típica política neoliberal de Estado mínimo, que tirou bilhões da saúde. Grande parte desta conta está sendo paga agora. Com vidas.
No atestado de óbito, as vítimas terão “morte por coronavírus”. Mas, em parte dos casos, o que as terá matado é a precarização da saúde pública, o aumento da desigualdade e da miséria nos últimos anos, a falta de investimento em saneamento e moradia digna. E, finalmente, o fato de que há uma parte da população que segue exposta ao vírus porque não lhes é permitido parar de trabalhar.
A imagem da armadilha em que o Brasil está enfiado é a do ministro da Saúde, Luiz Henrique MandettaAo afrontar o chefe e tomar medidas óbvias na pandemia, Mandetta se tornou o novo herói nacional. Todos os erros, como demorar a providenciar testes, máscaras e outros equipamentos de proteção, são perdoados. Principal opositor de seu ministro, Bolsonaro também presta um grande serviço a ele. E a seu próprio governo, já que, qualquer que seja o resultado, pode ser atribuído ou distanciado do governo. Essa é a esperteza de abarcar a situação e a oposição.
Vejamos quem é o novo herói nacional, hoje adulado e apoiado por todos os campos ideológicos. Mandetta, conhecido defensor dos ruralistas, na saúde se manifestou frontalmente contra o programa Mais Médicos e militou contra o aborto. Também já lamentou a fragmentação das famílias causadas pela Lei do Divórcio. Dilma Rousseff demarcou muito menos terras indígenas que seus antecessores, uma das razões porque recebe severas críticas de indígenas e ativistas do meio ambiente. Ainda assim, Mandetta achou que a presidenta exagerava. “A presidente está dirigindo a sua raiva contra os produtores rurais, colocando todo o seu querer mal ao Brasil no agronegócio", discursou no plenário, em 2016. No ano seguinte, foi um crítico feroz da Carne Fraca, operação da Polícia Federal que investigou as irregularidades nos frigoríficos.
O novo herói brasileiro aponta onde está o Brasil. Cada um conclua. A oposição real, como já se tornou explícito, é fraca. E não consegue mostrar qual é a sua grande diferença, muito menos convencer a população de que é diferente. Enroscada com Lula e com o PT, ou brigando com Lula e com o PT, a esquerda deixou de disputar o país. Acha que disputa, é claro, mas ninguém liga. O desempenho mais sólido é o do Psol, mas o partido ecoa apenas num número pequeno de brasileiros.
Isso não significa dizer que a esquerda seria uma solução, na medida em que parte significativa da esquerda brasileira segue cimentada no século 20, totalmente alienada das grandes questões atuais, como a crise climática e a destruição da vida natural no planeta. Quem fez oposição de fato, no Brasil pré-pandemia dos últimos anos, foram grupos identitários: mulheres, jovens, negros e indígenas. A oposição é política, mas não tem partidos políticos como protagonistas. E ainda é preciso ter partidos políticos para fazer a disputa do futuro.
Assim, no período pós-pandemia, ou mesmo durante a pandemia, já que não se sabe se ela acaba, todos os caminhos levam à direita neoliberal. Este é o buraco diante do Brasil. É também o buraco em muitos países – grande parte deles atolados na crise das democracias ocidentais, alguns às voltas com os déspotas eleitos.
O Brasil tem, portanto, dois gigantescos desafios. O primeiro é impedir que o vírus mate milhares de brasileiros. Não há dúvida de que serão os mais pobres que morrerão mais. Os que não têm casas compatíveis com o isolamento; os que têm sido obrigados pelos patrões a trabalhar; os que foram demitidos; os que vivem de bicos, na informalidade, e já não conseguem trabalhar. Os que não vão conseguir se alimentar com os 600 reais que o governo está oferecendo. Os que não têm esgoto, não têm água e logo não terão também comida. Os que ficarem doentes e não encontrarem vagas na rede pública de saúde, sabotada nos últimos anos em nome da privatização e do lobby dos planos privados de saúde.
auxílio emergencial de 600 reais para os informais é mais uma prova do buraco paradoxalmente grande – e ao mesmo tempo claustrofóbico – em que o país está enfiado. Diante dos 200 reais inicialmente propostos pelo ministro da Economia Paulo Guedes, de repente 600 reais passaram a soar com notas de decência. O valor, porém, é totalmente indecente. Ninguém vive no Brasil com dignidade mínima com 600 reais. Para a outra metade dos trabalhadores, a que têm carteira assinada, o governo permitiu cortes de jornada e de salários.
Para quem se enrosca com o significado de neoliberal, é isso. Vale a pena pesquisar para encontrar definições mais sofisticadas e completas. Em um parágrafo, o que pode ser dito é que os neoliberais acreditam que o Estado deve interferir o mínimo possível e que o Mercado se autorregula. Para isso, é fundamental enfraquecer as representações de trabalhadores e a palavra para tudo é “flexibilização”. Privatizar, desregulamentar, flexibilizar – estes são os verbos favoritos do neoliberalismo. Perceba então que toda vez que “flexibilizaram” algo no Brasil, foram os trabalhadores urbanos e rurais, os indígenas, a natureza e outras espécies que se ferraram. Ao trabalhador precarizado e com cada vez menos direitos deram o nome bonito e moderno de “empreendedor”. Livre e autônomo para morrer trabalhando. E, se não conseguiu “empreender”, as razões para o fracasso também lhe pertencem. Veja agora você, que é “empreendedor”, em que situação está. E veja se é isso que você quer continuar a ser.
No estágio neoliberal do capitalismo todas as relações são, ao mesmo tempo, reduzidas ao consumo – e submetidas ao consumo. O que define cada “indivíduo” é sua capacidade de consumir. Suas escolhas se reduzem a escolher entre produtos, marcas, preços, cores, formatos; sua liberdade é a de consumir o que sua renda permitir e a de desejar se exaurir mais para ter mais dinheiro para consumir. Toda a vida é mediada por mercadorias e, acima de qualquer outra identidade, você é consumidor.
É neste sistema que o planeta, supostamente à disposição dos consumidores, foi consumido; que espécies inteiras foram destruídas e outras subjugadas para terem seus corpos consumidos em produção industrial. É assim que você nasce para, consumindo seu corpo e seu tempo, se consumir. E é assim que os humanos se tornaram, a partir da revolução industrial, que iniciou um processo cada vez mais veloz de emissão de CO2 pela queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo etc), uma força de destruição do planeta.
Pressionadas pelo colapso da natureza que provocaram e pela evidência de que haverá mais pandemias, as grandes corporações que controlam o mundo e aqueles que se beneficiam delas tentam agora reinventar o sistema de destruição, como já fizeram no passado, para continuar no controle. Têm muita chance de conseguir.
No Brasil, Bolsonaro fez o serviço de esticar tanto os limites, que tornou todas as forças conservadoras ao seu redor aceitáveis. Não sei o quanto ele percebe que este é o seu principal papel. O fato é que o executa brilhantemente. Cada vez que se comporta como um maníaco, faz figuras que até ontem causariam arrepios despontarem como estadistas. Antes dele, um Mourão na presidência era inimaginável depois de mais de 20 anos de ditadura militar. Antes dele, Rodrigo Maia era só mais um representante tradicionalíssimo de um Congresso marcado por corrupção e fisiologia. Antes dele, Doria e Witzel, cada um no seu estilo, jamais receberiam aplausos de parte da esquerda ou afagos de Lula. Antes dele, Mandetta era um político preocupado em apoiar projetos corporativos de setores da saúde e fazer lobby para ruralistas. Graças a Bolsonaro e à incompetência da oposição real, todos eles nos lideram.
É assim que vai ser, então?
O Brasil tem dois enfrentamentos urgentes para fazer: a disputa do presente, que é o novo coronavírus, e a disputa do futuro, que se dá também agora, no presente.
Enfrentar uma pandemia num país em que desigualdade e pobreza extrema aumentaram nos últimos anos pelas políticas neoliberais é um imenso desafio. Mas talvez seja ainda maior o desafio de imaginar um futuro que não seja a volta de uma normalidade que só era normal para os privilegiados de sempre. Na armadilha que se tornou o país, todos os caminhos levam ao mesmo lugar. Os personagens que disputam o presente e o futuro dentro da estrutura do Estado são no fundo todos iguais – ou pelo menos muito parecidos.
Como aprender com o coronavírus a criar um futuro que não seja mais aniquilação?
Parece quase impossível quando todas as saídas estão barradas pelas tropas neoliberais. Elas já se organizam para chicotear a população após a pandemia, com o imperativo de produzir para poder superar a recessão e retomar o dogma do crescimento. Já tivemos indícios de que o coronavírus será usado para impor perdas de direitos e de liberdades. A China, com seu comunismo capitalista (sim, isso é possível), ampliou ainda mais sua vigilância despótica sobre a população. É apenas um sinal do que está por vir.
Em breve, pode apostar, os governos vão pedir o sacrifício de todos, que nunca é o de todos, mas o dos de sempre. Prestem atenção ao significado que será dado à palavra “retomada” – e pensem no que será retomado. A pandemia é nova. Os métodos dos que trouxeram o planeta até este estado de coisas, não.
Parece impossível disputar o futuro nessas condições. Mas tudo o que temos é encontrar um caminho para minar a criatura chamada capitalismo, que no nosso tempo se expressa pelo neoliberalismo, e impedir que se regenere. Mais do que nunca, hoje lutamos pela vida.

2) Temos que barrar os senhores do mundo antes de eles conseguirem dar o golpe (mais uma vez)
Há tempos os pensadores ocidentais não se empenhavam tanto em interpretar um momento. Faz todo o sentido. Nada é – ou foi – maior do que essa pandemia como ameaça global capaz de mudar tudo em um segundo. Inclusive o olhar dos humanos sobre si mesmos, ao descobrir a espécie, esta que sempre se considerou dona do planeta, ameaçada por um ser microscópico. Já existe pelo menos um livro com coletânea de artigos de filósofos sobre o coronavírus e seus efeitos. Há uma diferença, porém. Há os pensadores que compreenderam a crise climática e há os que seguem às voltas com dilemas do século 20, como grande parte da esquerda mundial, e que não foram afetados pelas angústias da época atual.
Entre os pensadores conectados com a emergência do clima, o francês Bruno Latour é o autor de uma das melhores contribuições para pensar o momento já como ação. O texto foi traduzido pela filósofa brasileira Déborah Danowski, outra pensadora relevante sobre o contexto atual. Em sua análise, Latour assim define a lição posta pelo novo coronavírus: “A primeira lição do coronavírus é também a mais espantosa. De fato, ficou provado que é possível, em questão de semanas, suspender, em todo o mundo e ao mesmo tempo, um sistema econômico que até agora nos diziam ser impossível desacelerar ou redirecionar. A todos os argumentos apresentados pelos ecologistas sobre a necessidade de alterarmos nosso modo de vida, sempre se opunha o argumento da força irreversível do ‘trem do progresso’, que nada era capaz de tirar dos trilhos, ‘em virtude’, dizia-se, da ‘globalização’”.
E aponta o risco: “Qualquer motorista sabe que, para ter alguma chance de se salvar fazendo uma rápida manobra no volante, sem sair da estrada, é melhor primeiro desacelerar... Infelizmente, não são só os ecologistas que veem nessa pausa súbita no sistema de produção globalizado uma grande oportunidade de fazer avançar seu programa de aterrissagem. Os adeptos da globalização, aqueles que, em meados do século 20, inventaram a ideia de escapar das restrições planetárias, também veem nela uma excelente oportunidade de se desvencilhar ainda mais radicalmente do que resta de obstáculos à sua fuga para fora do mundo. Para eles, essa é uma oportunidade boa demais de se livrar do resto do Estado social, da rede de segurança dos mais pobres, do que ainda resta de regulamentação contra a poluição e, mais cinicamente ainda, de se livrar de toda essa gente em excesso que atulha o planeta. (...) Os adeptos da globalização são perigosos porque eles sabem que perderam, sabem que a negação das mudanças climáticas não poderá continuar indefinidamente, que não há mais nenhuma chance de conciliar seu ‘desenvolvimento’ com os vários ‘envelopes’ do planeta com os quais a economia terá que se haver mais cedo ou mais tarde. Isto é o que os torna dispostos a tentar de tudo para se aproveitar mais uma (última?) vez das condições excepcionais, para poder durar um pouco mais e proteger a si próprios e aos seus filhos”.
Antes que alguém levante a balela do desenvolvimento “sustentável” como a panaceia capaz de colocar o capitalismo de novo nos trilhos, vale escutar outro pensador, este indígena. Autor de Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras), Ailton Krenak provocou ódio e ranger de dentes tempos atrás, ao afirmar que “sustentabilidade era vaidade pessoal”. Toda corporação, incluindo as mais destrutivas, tem hoje um gerente de sustentabilidade. Faz parte da capacidade de cooptação e adaptação do capitalismo. Sempre uma cretinice a mais.
Em março, já com a pandemia atravessando o globo, Krenak assim explicou na abertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, ao falar sobre perspectivas anticoloniais: “Nós vivemos precariamente uma relação de consumir o que a mãe natureza nos proporciona. E nós sempre fizemos um uso do que a nossa mãe nos proporciona da maneira mais folgada possível. Até que um dia nós nos constituímos numa constelação tão imensa de gente que consome tudo, que a nossa mãe natureza falou: peraí, vocês estão a fim de acabar geral com tudo que pode existir, aqui, como equilíbrio e como possibilidade daquilo que é fluxo da vida? Vocês vão esquadrinhar a produção da vida e decidir quantos pedaços de vida cada um pode obter? E, nessa desigualdade escandalosa, vocês vão sair por aí administrando a água, o oxigênio, a comida, o solo? E então [a natureza] começou a botar limites à nossa ambição.
Uma maneira que os humanos fizeram para administrar isso foi criando a ideia, por exemplo, de que existe um meio ambiente e que esse universo é uma coisa que você pode gerenciar. E dentro desse meio ambiente alguns fluxos vitais podem ser medidos, avaliados e habilitados, alguns deles inclusive com selos de sustentabilidade.
Se você tirar água do aquífero Guarani, por exemplo, uma água de muito boa qualidade, e se você engarrafar direitinho, você é uma empresa sustentável. Mas quem disse que tirar água do aquífero Guarani é sustentável? Você pratica uma violência na origem e recebe um selo sustentável no caminho. E assim com a madeira. Isso é uma sacanagem, não tem esse papo de água sustentável e não tem esse papo de madeira sustentável”.
Diz então a verdade terrível, que é também o ponto de partida de qualquer proposta para o futuro que formos capazes de esboçar: “Nós somos uma civilização insustentável, nós somos insustentáveis. Como é que então vamos produzir alguma coisa em equilíbrio?”.
Este é o desafio.
Assim que novo coronavírus der uma brecha, os profetas do neoliberalismo começarão a sua pregação: “É preciso produzir e crescer!”. Não há dogma maior na economia do que o do crescimento. Milhares de economistas perderão seu emprego no ramo da astrologia econômica caso o dogma do crescimento seja desmascarado. Crescer é o imperativo de todo país. Quem não lembra do “fazer o bolo da economia crescer para então repartir o bolo” que o ministro da ditadura e astrólogo econômico maior do Brasil, Delfim Netto, repetia no regime de exceção? Mais tarde, com a expansão do neoliberalismo, nem isso. Bastava que os mais pobres soubessem que, se o país crescesse, alguma coisinha poderia eventualmente sobrar pra eles.
O dogma do crescimento é construído sobre uma mentira: a possibilidade de explorar infinitamente os recursos de um planeta com recursos finitos. Bastam dois neurônios para entender que não é possível. E aí vem o outro dogma, o da sustentabilidade, como se fosse possível tornar sustentável o que, em sua estrutura, é insustentável.
O que o dogma do crescimento faz é proteger os privilégios dos muito ricos: o problema deixa de ser a distribuição igualitária das riquezas existentes e passa a ser o crescimento insuficiente, que não permite garantir o suficiente para todos. O imperativo de crescer é repetido à exaustão para encobrir a injustiça estrutural: a desigualdade na distribuição de riquezas. Carregando seu corpo exaurido, mesmo o pobre passa a acreditar que sua miséria é provocada por falta de crescimento. Sem reparar que nos momentos em que o tal bolo cresceu, as fatias se tornaram maiores para os que já eram donos do bolo e sobrou para ele, quando muito, a farofa da cobertura.
No Brasil, o 1% mais rico concentra quase um terço da renda (28,3%), o que dá ao país o título de vice-campeão mundial em desigualdade, segundo o último Relatório de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU). O Brasil só perde para o Catar – e apenas por 0,7%. Cinco bilionários brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre do país, segundo estudo da organização não-governamental britânica Oxfam, publicado em 2018. Cinco pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de brasileiros. Este é o problema. Não é por falta de exploração da natureza que o país é tremendamente desigual. Ao contrário. O esgotamento dos suportes de vida do planeta é um dos principais geradores de pobreza e de desigualdade.
O dogma do crescimento, que faz as engrenagens do capitalismo girar, foi determinante para produzir a emergência climática. O que a emergência climática torna explícito é que já não será possível “crescer”. É necessário mudar radicalmente o modo de vida porque, como diz a jovem Greta Thunberg, “nossa casa está em chamas”. Diante do superaquecimento global e da perda de ecossistemas vitais, realmente imperativo é distribuir as riquezas existentes.
É esse conteúdo explosivo que faz com que as grandes corporações que dominam o planeta apoiem negacionistas do clima como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Com esses déspotas eleitos disseminando mentiras e distraindo o mundo com falsos problemas, elas ganham tempo. Já sabem que não dá mais para seguir, mas farão o impossível para ganhar o máximo enquanto for possível. Guardadas as proporções, é como a indústria do cigarro: negou os malefícios por décadas, contra todas as pesquisas científicas, e ganhou dinheiro produzindo câncer enquanto deu. Ainda hoje, contabiliza cifras bilionárias.
O desafio que nossa geração tem pela frente é imenso. E será duro. Muito duro. Como a crise climática se desenrola num outro tempo, o encontro com a realidade era sempre adiado pela maioria, apesar dos gritos dos cientistas e dos jovens. Os negacionistas foram eleitos porque grande parte da população mundial quer continuar negando o inegável junto com eles. Então o vírus escancara a realidade. Dele não dá para fugir, já que fugir é morrer.
O que temos hoje é uma janela de realidade, o momento em que todos, absolutamente todos, são obrigados a se encontrar com a verdade. É por isso que Bolsonaro se tornou ainda mais pirotécnico. Para manter o poder ele precisa falsificar a realidade. Vinha conseguindo, e o vírus arrancou de uma vez essa possibilidade. Diz então que “o vírus não é tudo isso que dizem”. Porque, apavorado, sabe que o vírus é muito mais. Diante da verdade da morte, nenhuma mentira vinga.
Bruno Latour assim anuncia o impasse da janela aberta pelo coronavírus: “Se a oportunidade serve para eles, serve para nós também. Se tudo para, tudo pode ser recolocado em questão, infletido, selecionado, triado, interrompido de vez ou, pelo contrário, acelerado. Agora é que é a hora de fazer o balanço de fim de ano. À exigência do bom senso: ‘Retomemos a produção o mais rápido possível’, temos de responder com um grito: ‘De jeito nenhum!’. A última coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes”.
Para que possamos seguir esse debate, reproduzo aqui as perguntas que ele lança para cada um e para o coletivo:
“Aproveitemos a suspensão forçada da maior parte das atividades para fazer um inventário daquelas que gostaríamos que não fossem retomadas e daquelas que, pelo contrário, gostaríamos que fossem ampliadas. Responda às seguintes perguntas, primeiro individualmente e depois coletivamente:
1) Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que não fossem retomadas?
2) Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial / supérflua / perigosa / sem sentido e de que forma o seu desaparecimento / suspensão / substituição tornaria outras atividades que você prefere mais fáceis / pertinentes. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 1).
3) Que medidas você sugere para facilitar a transição para outras atividades daqueles trabalhadores /empregados / agentes / empresários que não poderão mais continuar nas atividades que você está suprimindo?
4) Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que fossem ampliadas / retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?
5) Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como ela torna outras atividades que você prefere mais fáceis / harmoniosas / pertinentes e ajuda a combater aquelas que você considera desfavoráveis. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).
6) Que medidas você sugere para ajudar os trabalhadores / empregados /agentes / empresários a adquirir as capacidades / meios / receitas / instrumentos para retomar / desenvolver / criar esta atividade?
Acrescento à lista uma pergunta minha. Não há nada que as grandes corporações que controlam o planeta, assim como os políticos neoliberais que os representam nas várias instâncias do Estado, temam mais do que a desobediência civil. No Brasil, as esmolas que concedem para que os mais pobres sobrevivam à pandemia têm por objetivo estancar a possibilidade do “caos social” ou de uma “convulsão social”. Ou seja: o povo nas ruas e já sem nada a perder.
Desde o final de 2018, o movimento que mais balançou a “normalidade” que os senhores do mundo tanto prezam foi a desobediência civil dos adolescentes, que se recusaram a ir para a escola a cada sexta-feira. No ato da greve escolar, eles denunciavam que os adultos roubaram o seu futuro ao não fazer o necessário para conter o colapso climático. Sem futuro, para que estudar? Como são crianças e adolescentes, esta era a desobediência civil disponível. E como funcionou.
Assim, a minha pergunta é: qual poderia ser a melhor ação de desobediência civil neste momento?
No Brasil de Bolsonaro, sabemos que nossa principal desobediência civil é sobreviver. Mas, para além de nos mantermos vivos, como podemos desobedecer aos produtores de morte para criarmos um futuro onde possamos existir com todos os outros?
Encerro com Ailton Krenak, porque acho que as melhores ideias virão dos pensadores indígenas, daqueles que sabem como viver sem esgotar o planeta e sem produzir iniquidades. Ele diz: “O próprio enunciado de alguma coisa que virá depois anima nosso sentido de viver. É a ideia de adiar o fim do mundo. Nós adiamos o fim de cada mundo, a cada dia, exatamente criando um desejo de verdade de nos encontrarmos amanhã, no final do dia, no ano que vem. Esses mundos encapsulados uns nos outros que nos desafiam a pensar um possível encontro das nossas existências – é um desafio maravilhoso”.
Vamos?
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de Brasil, Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro (Arquipélago). Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter, Instagram e Facebook: @brumelianebrum


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Proposta de Redação: “Importância do investimento em educação, ciência e tecnologia para combater doenças no Brasil”



Proposta de Redação:
A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Importância do investimento em educação, ciência e tecnologia para combater doenças no Brasil” apresentando proposta de intervenção. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

 Obs: Vocês poderão argumentar sobre a importância dos investimentos governamentais em  escolas, universidades (pesquisa) e  no sistema único de saúde (SUS)  para combater doenças no Brasil.

Textos de apoio:

Texto 1: “Apesar das fragilidades, SUS está preparado para coronavírus", diz sanitarista

O Sistema Único de Saúde (SUS) passará por um dos maiores desafios desde sua criação: combater a pandemia do novo coronavírus, que já tem mais de 234 casos e outros 2.064 casos suspeitos em todo o Brasil  Um dos pilares contra o avanço do vírus é a Estratégia de Saúde da Família, programa que, desde 1993, por meio do trabalho comunitário na atenção básica já erradicou doenças como o Sarampo e a Poliomelite.  Para a médica sanitarista e supervisora no Programa Mais Médicos na Grande São Paulo, Maria Célia Medina, apesar do sucateamento e da sobrecarga, o SUS está preparado e é a principal alternativa para milhões de brasileiros que terão que enfrentar o Covid-19.  "A gente acredita que agora essa pandemia pode ter o benefício dessa estrutura, apesar de que hoje a gente tem um SUS um pouco mais enfraquecido, com um número de profissionais reduzidos, a gente perdeu mais de 18 mil médicos do programa mais médicos”, explica Célia, que endossa o coro do Conselho Nacional de Saúde (CNS) pela revogação do teto dos gastos. De acordo com estudo do CNS, a emenda já tirou R$ 20 bilhões do SUS, desde sua implantação em 2016 no governo de Michel Temer.

Texto 2: Reinaldo Guimarães ressalta importância atuação do SUS na epidemia da Covid-19

IHU On-Line – Como avalia as ações do governo brasileiro para tentar conter o avanço da Covid-19? Quais as potencialidades e as fragilidades das medidas que vêm sendo adotadas pelas autoridades na contenção e no tratamento da doença?
Reinaldo Guimarães – As nossas vantagens dizem respeito a estarmos sendo atingidos após as experiências da China, da Itália, dos Estados Unidos etc. Estamos aproveitando as lições aprendidas nesses países. De modo geral, as equipes profissionais de servidores no Ministério da Saúde e em várias Secretarias nos estados têm tido protagonismo na proposição de medidas, e seus chefes têm, de modo geral, acatado suas sugestões.
Nossa desvantagem é a política de arrocho financeiro-orçamentário instituída pelo governo federal, cuja mais perniciosa expressão é a Emenda Constitucional 95, que provoca a diminuição real dos gastos públicos. Na saúde, isso significou uma frustração financeira de cerca de R$ 20 bilhões desde o início da vigência dessa emenda.
IHU On-Line – Qual a centralidade do Sistema Único de Saúde – SUS nessas ações?
Reinaldo Guimarães – O SUS é o elemento central no enfrentamento da pandemia entre nós. O fato de os primeiros casos terem sido diagnosticados em hospitais privados decorre de os primeiros pacientes terem sido pessoas de posses que são clientes desses hospitais e que vieram de países europeus. Conforme a onda epidêmica vai se tornando comunitária, com a circulação do vírus de pessoa a pessoa dentro do país, o papel do SUS vai se tornando evidente e central.
IHU On-Line – Em que medida esse episódio pode/deve servir para reiterar e evidenciar a importância do SUS e a emergência de robustos investimentos em saúde pública?
Reinaldo Guimarães – Se não houver um aporte suplementar urgente de recursos financeiros para o SUS nos estados e municípios, pode ser reforçada a falsa visão de que o SUS é ineficiente. Caso haja uma correta irrigação de recursos e as equipes técnicas continuarem a dar as cartas, a imagem do SUS pode sair fortalecida desse episódio. Espero que isso aconteça.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Coronavírus: Médico brasileiro que trabalha na OMS, na Ásia, e colega de hospital universitário, em SP, afirmam que, no momento, não há motivo para pânico no Brasil


  Por  Conceição Lemes
 Em 31 de dezembro de 2019, o governo da China alertou a Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre um surto de pneumonia na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei.
Com mais de 10 milhões de habitantes, é considerada o centro político, econômico, financeiro, comercial, cultural e educacional da China Central. Rapidamente, em uma semana, os cientistas chineses identificaram o patógeno responsável: um novo coronavírus, o 2019-nCoV, como é chamado oficialmente.
Ontem, quinta-feira, 30/01, exato um mês após o aviso inicial, já havia no mundo 7.818 casos confirmados. A esmagadora maioria na China: 7.736, com 170 mortes. 


Fora da China, havia 82 casos confirmados em 18 países. 

Os dados constam do relatório publicado nessa quinta-feira pela OMS, que também divulgou duas importantes medidas:

*O nome oficial da doença causada pelo novo coronavírus. Chama-se Doença Respiratória de 2019-nCoV.

* Declarou o novo coronavírus uma emergência de saúde pública de interesse internacional.

A OMS só utiliza essa terminologia para epidemias que exigem forte reação global. Tanto que, até aqui, isso havia acontecido com a gripe suína H1N1 (2009), a poliomielite (2014), o zika vírus (2016) e a febre ebola, que de 2014 a 2016 devastou parte da população da África Ocidental e desde 2018 atinge a República Democrática do Congo.
Os casos confirmados do coronavírus 2019 na China já superam os 9 mil, com 213 mortes. Dos mais de 1.300 chineses em estado grave, 130 se recuperaram e tiveram alta. Fora da China, já são mais de 90 casos confirmados, entre os quais dois na Itália, onde a infecção pelo 2019-nCoV ainda não tinha caso registrada. Há casos comprovados em todos os continentes.
No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, existem nove casos suspeitos em investigação nos estados de Minas Gerais (1), Rio de Janeiro (1), Rio Grande do Sul (2), São Paulo (3), Paraná (1) e Ceará (1). Nenhum ainda provável ou confirmado. Os dados referem-se ao período de 18 a 30 de janeiro de 2020.
Nós ouvimos dois médicos brasileiros já a postos para enfrentar o 2019-nCoV. Um, por sinal, está no olho do furacão. É o sanitarista Fábio Mesquita, que trabalha na OMS em Mianmar (antiga Birmânia), fronteira com a China, Tailândia, Índia, Bangladesh e Laos. Mesquita integra o comitê de monitoramento diário do país. É o responsável pelo acompanhamento dos casos de internação hospitalar e tratamento. O outro é o infectologista Gerson Salvador, do Hospital Universitário (HU) da Universidade de São Paulo (USP). Uma distância de 16.171 km em linha reta (do aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, e o centro de Mianmar) os separam. Interessantemente, em se tratando do Brasil, ambos avaliam de modo semelhante a nova ameaça.  “É lógico que a situação é preocupante, não podemos menosprezar a epidemia”, diz Salvador.  “Mas também não há motivo para desespero. Pegar esse coranavírus não é sentença de morte”, acrescenta.
Em mensagem a amigos e familiares no Brasil, Mesquita, brincando, falou sério:
Além de muitos amigos queridos, tenho filha, neta, irmãos, tias e primas aí no Brasil. Também filha e neta na Holanda. Portanto, me sinto corresponsável global pelo atento controle do curso desta nova epidemia. Mas, em suma, até o momento não há motivos para pânico.
A taxa de letalidade pelo 2019-nCoV é praticamente a mesma desde o começo da epidemia. Está em torno de 2%. Claro que esse índice pode mudar, mas, por enquanto, está bem abaixo do registrado em epidemias anteriores causadas por outros coronavírus.
Explico. O coranavírus não é um vírus só, mas uma grande família de vírus. “Nós tivemos dois casos severos de epidemias semelhantes pelo coranavírus; a Sars, que emergiu em 2002/2003, e a Mers, em 2012”, atenta Mesquita. Sars (na sigla em inglês) é a Síndrome Respiratória Aguda Grave, que também se disseminou a partir de China. Das 8.098 pessoas infectadas ao redor do mundo, matou 774. Portanto, 10%.  A Mers (na sigla em inglês) é a Síndrome Respiratória do Oriente Médio. Dos 2.494 pacientes identificados, matou 858. Ou seja, 36%. Aproximadamente 80% dos casos em humanos foram relatados pela Arábia Saudita, que foi onde surgiu. Se você ainda duvida de que não há motivo para pânico, o infectologista Gerson Salvador observa:
 *O vírus da gripe (transmite de forma semelhante ao novo coronavírus) mata no mundo 290 mil a 640 mil pessoas por ano.
*Em 2018, o sarampo causou 110 mil mortes no mundo.  *A tuberculose causa 1,5 milhão de mortes por ano.

Mesmo depois da OMS ter declarado o coronavírus emergência de saúde pública internacional, não há motivo para pânico? – alguns devem estar querendo saber.
Os doutores Fábio e Gerson mantêm a avaliação que fizeram no início desta reportagem. “Não é preciso entrar em pânico, mas a atenção e a vigilância devem ser ampliadas”, traduz Mesquita. Por uma razão. Já há sete novos casos comprovados em outros países de pessoas que nunca foram para a China. O que demonstra que novo coronavírus pode ser, sim, transmitido de pessoa para pessoa.
 O que fazer então para me proteger, já que não tem vacina?Quando vai ter vacina?
Realmente, não há ainda vacina contra 2019-nCoV. Aliás, é o que sempre acontece quando uma doença é nova. Isso perdura até que uma seja desenvolvida, o que pode levar anos.  A única vacina que começou a ser desenvolvida para o coronavírus da Sars passou apenas pela primeira etapa de testes. A pesquisa foi interrompida porque desde 2003 não houve novas mortes por Sars.  Quanto à vacina contra o novo coranavírus, a corrida científica nesse sentido já começou.  Há expectativa de que em um ano ela seja realidade, mas não dá para garantir nada.
O que fazer então para evitar a infecção pelo 2019-nCoV agora?
Fazer o que você sempre deveria fazer para se proteger de outras doenças de transmissão respiratória, inclusive resfriado e gripe influenza: lavar as mãos com frequência, evitar colocar as mãos nos olhos, nariz e boca, cobrir a boca ao tossir.  Essas medidas ajudam a evitar a Doença Respiratória de 2019-nCoV, assim como demais infecções das vias respiratórias.
SINTOMAS, TEMPO DE INCUBAÇÃO, TRATAMENTO
Sempre que há surtos de caráter global muitas informações equivocadas são disseminadas, gerando pânico às vezes.  Para combatê-las,  pedimos mais alguns esclarecimentos aos dois entrevistados.

Blog da Saúde – O que é o coronavírus?
Gerson Salvador – Na verdade, não é um vírus, mas uma grande família de vírus, que geralmente causam problemas respiratórios, que variam causa desde o resfriado comum a doenças mais graves, como a Sars, a Mers e agora Doença Respiratória de 2019-nCoV.
Blog da Saúde – Há quanto tempo  são conhecidos?
Gerson Salvador — Desde a década de 1960.
Blog da Saúde – Algum motivo especial para se chamarem coronavírus?
Gerson Salvador — Eles têm esse nome devido ao seu aspecto. Visto em microscópio, lembra uma coroa.
Blog da Saúde – Quantos coranavírus são conhecidos?
Gerson Salvador – O coronavírus 2019 é sétimo que infecta o ser humano. Até então seis tipos diferentes tinham sido confirmados como causa de infecções em seres humanos.
Blog da Saúde – Como são transmitidos os coronavírus?
Fábio Mesquita– O coronavírus é uma zoonose, que começa em animais e progride para seres humanos. Vira epidemia, quando ele começa a ser transmitido entre seres humanos.
Gerson Salvador – Muitos coronavírus são transmitidos entre animais da mesma espécie ou de espécies muito parecidas. Você tem coronavírus que se hospeda em morcego e transmite para morcego. Tem aquele que pega camelo e transmite pra camelo.  Só que eventualmente pode haver transmissão de uma cepa mutante de animais para humanos, dependendo da mudança no material genético do vírus (RNA).  E, depois, de ser humano para ser humano, podendo, aí, sim, causar epidemia em pessoas, como bem observou o doutor Fábio.
Blog da Saúde – Por exemplo.
Gerson Salvador — O coronavírus da Sars foi isolado primeiramente em morcegos. Ele foi transmitido para humanos a partir de contato com civetas, um felino selvagem originário do Sul e Sudeste Asiático, também chamado de gato-de-algália.  Já o coronavírus da Mers foi transmitido de camelos para humanos. Estudos mostraram que os seres humanos foram infectados por contato direto ou indireto com camelos. O coronavírus da Mers foi identificado em camelos de países do Oriente Médio, África e Sul da Ásia.
Blog da Saúde – E 2019-nCov já sabe qual a fonte inicial?
Gerson Salvador – Ainda, não. Os cientistas estão trabalhando nisso.  No início, muitos dos pacientes do surto em Wuhan, na China, tinham alguma ligação com um grande mercado de frutos do mar e animais vivos, sugerindo que o vírus provavelmente surgiu de uma fonte animal.  No entanto, um número crescente de pacientes supostamente não teve exposição ao mercado de animais, indicando a ocorrência de disseminação de pessoa para pessoa.  O vírus 2019 é provavelmente um betacoronavírus, semelhante aos encontrados em morcegos.
Blog da Saúde – O novo coronavírus é transmitido como o vírus da gripe?
Gerson Salvador –– A transmissão se parece, sim, com a do vírus da gripe, ou seja, pode ser transmitida de pessoa a pessoa a partir de secreções respiratórias.
Blog da Saúde – E o que pode causar?
Gerson Salvador – Assim como o vírus da gripe, pode dar um quadro leve, que lembra resfriado. Mas, assim como o vírus da gripe, o 2019-nCoV pode eventualmente se manifestar por formas graves, com infecções pulmonares que podem levar à morte. O novo coronavírus tem um comportamento que lembra o vírus influenza, que é mais agressivo do que os vírus de resfriado comum.
Blog da Saúde – É verdade que a maioria das pessoas já foi exposta a algum tipo de coronavírus?
Gerson Salvador – Sim. É um dos muitos vírus que causam infecção de vias aéreas em crianças.
Blog da Saúde – Qual o tempo de incubação desse novo coronavírus?
Fábio Mesquita — De 2 a 14 dias e pode ser modificado à medida que o conhecimento progredir.
Blog da Saúde – Quais os sinais/sintomas da infecção pelo coronavírus 2019?
Gerson Salvador — A maior parte lembra um resfriado ou infecção de vias aéreas superiores.
Dados preliminares da epidemia atual mostram que quase todos (98%) relataram febre, 76% tinham tosse, 55%, falta de ar e 44%, mialgias/fadiga. Já 20% tiveram doenças mais graves e precisaram de cuidados intensivos.
Blog da Saúde – Em caso positivo, qual o tratamento?
Fábio Mesquita — Não há nenhum tratamento específico, como um antiviral, eficiente para coronavírus. Os pacientes recebem tratamentos sintomáticos e nos casos graves suporte com oferta de oxigênio e eventualmente cuidados intensivos. Antivirais estão sendo testados, mas ainda não há um protocolo de tratamento universalmente aceito. Certamente isso estará em curso nos próximos dias. Aliás, a tecnologia avançou rapidamente desde 2002, quando houve a primeira crise pelo coronavírus da Sars. Portanto, o kit para diagnóstico já foi estabelecido e está sendo produzido em larga escala pela China e pelos Estados Unidos. O relato de casos também foi imediato, em comparação com o que aconteceu há 18 anos.
Blog da Saúde – Por último, que medidas estão adotando para prevenir o 2019-nCoV? Começando pelo doutor Fábio, que já está na zona do furacão.
Fábio Mesquita – É sempre inspirador usar tudo o que aprendemos para controlar uma epidemia e ver os passos que vão sendo dados. Mas, ao mesmo tempo, lamentar que a gente não se preparou para mais esta epidemia que vai impactar muitas vidas e muitas famílias.
Blog da Saúde – E o senhor, doutor Gerson?
Gerson Salvador — Nós estamos no Brasil e ainda não temos casos confirmados. Para adquirir o coronavírus 2019 é preciso ter estado numa área em que está ocorrendo a transmissão, notadamente na China. Ou ter contato com caso confirmado ou suspeito. Quem não se enquadra nessas situações, não tem risco de pegar o vírus. Agora, é fundamental incorporar alguns hábitos que ajudam a prevenir não só o coranavírus 2019, mas também resfriados e gripes pelo vírus influenza:
*lavar as mãos com sabão com frequência;
*desinfetar frequentemente as mãos com álcool gel 70%, em especial quando estiver em grandes aglomerações;
*evitar colocar as mãos nos olhos, nariz e boca;
*cobrir a boca ao tossir.
Essas medidas devem ser adotadas por todos.
Blog da Saúde — O senhor adota tudo isso?!
Gerson Salvador –Adoto. sim (risos).
Blog da Saúde — A propósito, o uso de máscara funciona contra a transmissão do coronavírus? 
Gerson Salvador — Em termos de vírus respiratórios, as medidas de barreira têm o seu papel. Por exemplo, num ambiente hospitalar, quando o paciente está em isolamento respiratório, quem entrar em contato com ele tem que usar máscara, entre outras medidas de proteção.  Já em ambientes abertos, públicos, há estudos que mostram que funcionam, mas há também estudos dizem que não. Ou seja, é uma questão polêmica.