domingo, 11 de dezembro de 2011
A geopolítica da fome
terça-feira, 26 de julho de 2011
Dinheiro imediato para salvar bancos , mas para salvar o povo.........
Fome mata crianças em "estradas da morte" na África
DA REUTERS, EM ROMA
Centros de distribuição emergencial de alimentos no leste da África, devastado pela seca, estão sobrecarregados pela chegada todos os dias de milhares de pessoas famintas. As mães são forçadas a abandonar pelas estradas seus filhos mortos ou à beira da morte, disseram nesta segunda-feira funcionários dos serviços de ajuda.
A diretora-executiva do Programa Mundial de Alimentos da ONU, Josette Sheeran, disse à imprensa em Roma que uma combinação fatal de desastre natural e conflito regional criou uma situação de emergência que afeta mais de 12 milhões de pessoas.
| Phil Moore/France Presse | ||
| Mulher somali em campo de refugiados no Quênia; mais de 12 milhões de pessoas são afetadas pela fome |
"Vemos que todos os postos capazes de distribuir comida estão completamente sobrecarregados... nosso alimento não dá conta, por isso estamos distribuindo por via aérea mais suprimentos para salvar vidas", disse ela.
"Queremos nos certificar de que os suprimentos estão lá, ao longo da estrada, porque algumas delas estão se tornando estradas da morte onde mães têm de abandonar os filhos fracos demais ou que morreram durante o caminho", afirmou.
Ela disse que um acampamento em Dadaab, no Quênia, por exemplo, construído para abrigar 90 mil pessoas está agora com 400 mil.
| Abdurashid Abdulle/France Presse | ||
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| Famílias somalis recebem alimentos da ONU em campos de refugiados em Mogadício |
Ministros e autoridades se reuniram na Organização da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO), em Roma, nesta segunda-feira, para analisar como mobilizar ajuda para enfrentar a pior seca em décadas em uma região que se estende da Somália à Etiópia, Quênia e Djibouti.
O Programa Mundial de Alimentos informou necessitar com urgência de recursos extras de US$ 360 milhões. A Oxfam avaliou que, no total, será preciso de outro US$ 1 bilhão para lidar com a situação.
Em um comunicado, o Banco Mundial disse estar destinando mais de 500 milhões de dólares para ajuda às vítimas da seca, além de US$ 12 milhões em auxílio imediato para os que estão em pior condição.
Em meio a alertas sobre a necessidade de ação urgente para impedir que um desastre humanitário se espalhe pelo Chifre da África, autoridades disseram haver ainda uma chance de apoiar as pessoas e ajudá-las a retomar sua vida como camponeses e pescadores.
RESPOSTA LENTA
A OMS e governos do mundo todo vêm sendo criticados pela lenta reação à tragédia, mas eles enfrentam grandes dificuldades para enviar ajuda a uma região imersa em conflitos violentos, que abrange boa parte do sul da Somália.
A ONU declarou que há fome em duas regiões da Somália e alertou que a crise pode se espalhar para outras áreas.
Anos de conflito anárquico no sul da Somália exacerbaram a situação de emergência, impedindo que entidades humanitárias levassem ajuda às comunidades locais. Quase 135 mil somalis abandonaram a área desde janeiro, na maioria em direção ao Quênia e Etiópia.
O programa da ONU informou que não tem como entrar em contato com mais de 2 milhões de somalis à beira da fome em áreas controladas por militantes islâmicos, que proibiram a entrega de ajuda em 2010 e costumam ameaçar as entidades humanitárias.
Fonte: Jornal Folja de São Paulo
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Um símbolo grotesco da fome na África
É cada vez maior o número de crianças caindo mortas durante a longa e difícil jornada rumo aos campos de refugiados. Aqueles que conseguem chegar ficam mais desnutridos que antes. E, de acordo com as Nações Unidas, o número de pessoas sob ameaça chegou agora a 11 milhões - como se cada homem, mulher e criança na Bélgica estivessem passando fome. Assim, a crise crônica de alimentos no Chifre da África se agudiza em direção a uma fome generalizada.
Uma imagem captura bem a atrocidade degradante enfrentada por milhões. Não é aquela de uma criança de olhos esbugalhados, barriga inchada chorando por comida - apesar de haver inúmeras dessas. É a visão de mães usando cordas para amarrar seus estômagos de forma a amenizar as dores da fome enquanto podem dar o que encontram de comida aos seus filhos - uma paródia grotesca das bandas gástricas usadas para emagrecimento no Ocidente.
Esta perigosa prática já foi destacada pela ActionAid. Zippora Mbungo, uma avó de 86 anos de idade de Makima, Quênia, disse aos funcionários da agência: "Eu amarro esta corda na minha cintura para segurar meu estômago e evitar sentir dor. Na maior parte do tempo temos pouca comida, então eu dou aos meus netos primeiro, sobrando pouco ou quase nada para mim." E acrescenta: "Essa é uma das piores secas que já vi em minha vida." Philip Kilonzo, da ActionAid do Quênia, disse: "Esta prática mostra o quão desesperadas essas mulheres estão. Mas isso pode ser mortal - mulheres morreram depois de subitamente desamarrarem seus estômagos quando a comida apareceu."
O desastre, classificado pela Unicef como "a pior crise humanitária no mundo", é o resultado de uma das mais terríveis secas em 60 anos, a qual levou a repetidas más colheitas e à morte de um grande número de animais de granjas. Cerca de 2,9 milhões de pessoas na Somália - um terço da população - precisa de ajuda humanitária, enquanto em torno de 4,5 milhões, de uma população de 80 milhões, são afetados na Etiópia. No Quênia - a fonte de influência e potência econômica da região -, em torno de 3,5 milhões correm risco de fome, dizem as Nações Unidas. Duncan Harvey, o diretor da Save the Children na Etiópia, diz: "Em termos de números absolutos de pessoas afetadas, esta é uma das piores secas que o mundo já viu por um longo período."
Fome e falta de esperança em suas próprias regiões levaram centenas de milhares a viajar por terras áridas durante dias rumo a campos na Etiópia e no Quênia. No final da última semana, por exemplo, oficiais estadunidenses conversaram com uma mãe que tinha chegado a um campo com seis crianças, incluindo uma com sete anos de idade sofrendo de poliomielite, a qual ela teve que carregar nas costas.
A gravidade dessa provação de longa distância pode ser medida por aqueles que não a fazem. Fora do vasto complexo de refugiados de Dadaab, no Quênia, corpos jovens e já sem vida são abandonados pelos pais sobre o terreno arenoso que leva ao campo. Ninguém sabe quantos morreram antes de chegarem àquele ponto, e, em outros casos, os pais pereceram na jornada, deixando crianças caminhando sozinhas pelo sertão. Andrew Wander, um porta-voz do Save the Children, diz que a agência tem prestado cuidados a mais de 300 crianças desacompanhadas encontradas à beira da estrada depois que os pais morreram ou foram abandonadas.
A agência de refugiados das Nações Unidas diz que cerca de 40% das crianças somalis que chegam a Dadaab estão desnutridas. Mais crianças morreram aqui nos primeiros meses do ano do que em todo o ano passado. A cada dia, mais de 1.400 chegam a este vasto complexo lotado com casas improvisadas de paus e lonas, onde mais de 440 mil pessoas estão abarrotadas dentro e em volta de um campo construído para 90 mil. Alexandra Lapoukhine, da Care International, disse: "Isso tem feito com que o processo de registro demore muito mais. Ao contrário de antes, quando durava poucas horas ou no máximo um dia, agora precisa-se de três ou quatro semanas no mínimo." Ela disse que as Nações Unidas e o governo do Quênia estão no momento tendo reuniões e tentando permissão para expandir o campo.
Casos de estupro e outros ataques violentos contra mulheres dobraram entre os refugiados de conflitos e fome no leste da África, de acordo com membros do Comitê de Emergência de Desastres. O plantel da Care International em dois centros de triagem no campo afirma que casos relatados subiram a 136 nos primeiros seis meses do ano, comparados com 66 no mesmo período em 2010. Lopoukhine disse: "O período mais perigoso para refugiados é quando eles estão no caminho. Mulheres e crianças são especialmente vulneráveis a estupros, sequestros, doenças e mesmo à morte durante a jornada. Muitas mulheres partem sozinhas com seus filhos, deixando os maridos para trás, e elas andam por semanas em busca de comida e segurança."
Na Etiópia, somalis fugindo da seca e da violência intensificada tem chegado ao número de mais de 1.700 por dia. A taxa média de mortalidade nos campos da Etiópia é de sete pessoas a cada 10 mil por dia, quando a taxa normal em crises é de 2 ao dia, disse um oficial do governo estadunidense. A razão das mortes estarem tão altas aqui e por todas a região não é apenas devido à fome mas também devido a doenças que tem se aproveitado de pessoas enfraquecidas pela desnutrição. A Organização Mundial de Saúde disse que há um alto risco de propagação de doenças infecciosas, especialmente poliomielite, cólera e sarampo.
Cinco milhões de pessoas correm risco de cólera na Etiópia, onde a diarréia aguda se espalhou em condições insalubres, disse a OMS nesta sexta-feira. A cólera, uma infecção intestinal, causa diarréia aguda que pode rapidamente levar à desidratação e à morte se não é tratada rapidamente. Há também sarampo, com dois milhões de crianças etíopes em risco: a doença pode ser fatal para crianças. Oficiais etíopes registraram 17.584 casos de sarampo e 114 mortes durante a primeira metade do ano. A doença também se espalhou pelos campos do Quênia, com 462 casos confirmados, incluindo 11 mortes, diz a OMS.
Em resposta à crise de alimentos e de saúde, uma grande operação de ajuda está rapidamente ganhando força. Durante oito dias, os britânicos doaram 18 milhões de libras para o Comitê de Emergência de Desastres. O governo britânico anunciou ontem mais uma ajuda de 52 milhões de libras, a qual irá, entre outras coisas, prover tratamento para quase 70 mil crianças criticamente desnutridas na Somália, oferecer cuidados médicos e água limpa para 130 mil nos campos de Dadaab, ajuda similar a 100 mil nos campos etíopes e prover auxílio extra para 300 mil quenianos, incluindo rações especiais para crianças desnutridas.
Reuben E Brigety, um oficial do Departamento de Estado dos EUA, responsável pela assistência aos refugiados e às vítimas do conflito na África afirmou: "Há muitos profissionais experientes que podem confirmar que não se via uma crise tão grave quanto essa por pelo menos uma geração." E acrescentou: "E ainda vai ficar pior antes de melhorar."
Fonte: http://www.diarioliberdade.org/
segunda-feira, 13 de junho de 2011
A Europa semeia a fome
por Stephen Leahy, da IPS
Leipzig, Alemanha, 27/5/2011 – A Europa poderá sofrer fome no futuro, a menos que mude suas políticas agrícolas e converta os produtores nos protagonistas das pesquisas no setor, alerta um informe do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (IIED), com sede em Londres. Segundo o estudo, há pouca esperança de o continente atingir sua meta anunciada de frear a perda debiodiversidade em dez anos, se não introduzir essas mudanças.
A França sofre uma grave seca, mas as leis europeias sobre sementes impedem os agricultores desse país de utilizar maior variedade de sementes, o que poderia ajudar, disse Michel Pimbert, autor do estudo. “Nossas leis sobre sementes estabelecem a uniformidade. A França só pode usar sementes aprovadas, e as novas variedades necessitam de muita água”, disse à IPS.
Para Pimbert, “a liberdade dos produtores de escolher as sementes, desenvolver variedades melhoradas de colheitas e ter uma agricultura com rica biodiversidade será fundamental para a resposta da Europa àmudança climática”. “As políticas agrícolas da Europa nos impedem de nos adaptarmos à mudança climática. Também são más para a biodiversidade, já que obrigam os agricultores a utilizar cada vez mais uma estreita gama de sementes e raças de animais”, acrescentou.
Os produtores se veem de mãos amarradas pelas leis que obrigam à uniformidade e protegem as patentes. Sob as normas de propriedade intelectual, os produtores devem pagar por usar genes e tecnologias patenteadas, em sua maioria propriedade de grandes corporações. Os cientistas estão na mesma armadilha e não podem utilizar a ampla gama de diversidade de sementes, segundo Pimbert. O resultado é uma drástica redução da diversidade genética, alerta o informe Oportunidades para as Sementes na Agricultura, divulgado no começo deste mês.
O estudo se baseia nas descobertas do projeto de mesmo nome financiado pela União Europeia (UE), no qual colaboraram institutos de pesquisa públicos, redes de camponeses e associações de produtores orgânicos de seis países do bloco. Especialistas concordam que a diversidade proporciona maior capacidade de resistência a um sistema de produção de alimentos que será duramente afetado pelo aquecimento global.
Por exemplo, uma diversificada combinação de plantas, árvores e animais duplicou a quantidade de terras cultivadas em 20 países da África subsaariana nos últimos dez anos, segundo um informe de Olivier de Schutter, relator especial da Organização das Nações Unidas sobre o Direito à Alimentação. Esta forma de produção é a agroecologia. Além de conseguir maiores resultados com menores custos, este tipo de produção também melhora a saúde do solo e reduz drasticamente a pegada de carbono, que mede a quantidade de gases-estufa emitidos por pessoas, produtos ou empresas. “É justo dizer que entre 45% e 50% de todas as emissões humanas desses gases procedem da forma atual de produzir alimentos”, disse Schutter à IPS em uma entrevista anterior.
O atual sistema de produção mundial de alimentos “ameaça matar a todos nós”, escreveu o biólogo Colin Tudge, no prefácio do estudo. “O tipo de agricultura que faz mais dinheiro no menor prazo vai totalmente contra o tipo de agricultura que pode nos alimentar, e que pode continuar nos alimentando”, escreveu Tudge. A agroecologia funciona da mesma maneira que a natureza, com uma ampla variedade de elementos que atuam sinergicamente. Há enorme evidência demonstrando que esses métodos produzem mais alimentos e são mais sustentáveis, afirmou.
A Política Agrícola Comum (PAC) da UE é um sucesso, mas somente em fazer dinheiro para as corporações e na produção de grandes quantidades de alimentos ao custo de enormes emissões de carbono, contaminação degradação das terras e redução do número de agricultores, afirmou Pimbert. A idade média de um produtor agrícola na Grã-Bretanha é superior a 60 anos. “Há apenas um punhado de agricultores na Europa ocidental. Foram substituídos por máquinas e capital”, acrescentou.
A PAC é um sistema de subsídios e programas para o setor que deve ser reformado em 2013. Atualmente, baseia-se em princípios neoliberais que fracassaram, disse Carlo Petrini, presidente da organização Slow Food International. “Cada comunidade deve ter o direito de escolher o que produzir sem influências externas ditadas pelos mercados internacionais”, afirmou.
Fortalecer o apoio aos produtores locais deve ser parte da nova PAC, disse, por sua vez, o agricultor e ativista francês José Bové, presidente do Comitê sobre Agricultura e Desenvolvimento Rural, do Parlamento Europeu. “Se as comunidades rurais não tiverem a possibilidade de decidir seu destino, a situação não vai melhorar”, disse em uma declaração. A nova PAC deve deixar de se concentrar nas monoculturas e adotar um enfoque agroecológico para salvaguardar a biodiversidade da qual dependem os fornecimentos de alimentos, disse Pimbert.
“Os cientistas não estão treinados para tratar com sistemas complexos, por isto, este é o desafio”, acrescentou Pimbert. Os agricultores também precisam de um lugar central nos esforços, com liberdade para intercambiar sementes e utilizar a diversidade, prosseguiu. Atualmente, a Europa não está preparada para enfrentar a mudança climática. “Até agora amortizamos impactos significativos, mas o que está por vir está além de nossa experiência”, concluiu Pimbert.
Envolverde/IPS
quarta-feira, 30 de junho de 2010
O capitalismo acumula um saldo de 1 bilhão 20 milhões de famintos no mundo

A fome é o mais cru testemunho da pobreza e um dos principais indicadores da injustiça no mundo atual.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), em seu informe de junho de 2009, 1 bilhão 20 milhões de pessoas, a maior cifra na história, padecem de fome no mundo.
O diretor desse organismo internacional Jacques Diouf e a Diretora do Programa Mundial de Alimentos (PMA) Josette Sheeran apresentaram as cifras como resultado da crise econômica global e dos altos preços dos alimentos.
Os dados assinalam que não só aumentou o número absoluto de pessoas famintas no mundo, mas que há três anos aumentou também a porcentagem da população que passa fome.
Segundo o diretor da FAO, graças à perigosa mistura de crise econômica e altos preços dos alimentos, em 2008, outros 100 milhões de pessoas entraram na categoría de famintos, o que supõe um incremento de 11%.
Na atualidade, uma de cada 6 pessoas no mundo padece de fome.
Origem da fome
Nos diferentes períodos da história, o homem lutou para satisfazer as necessidades básicas de alimentação, teto e vestimento. Em sua longa relação com a natureza, transformou e utilizou os recursos que esta lhe oferece para satisfazer essas necessidades. Sem embargo, as possibilidades estiveram sempre limitadas pelas técnicas de aproveitamento e pelas dimensões da demanda.
Na pré-história da espécie humana e nos posteriores períodos dos modos de produção escravista e feudal, a pobreza teve uma presença marcante, devido à escassez de recursos. O precário desenvolvimento da ciência e da tecnología limitava a produtividade do trabalho e de alguma maneira gerava pobreza e fome.
A panaceia capitalista
Com o advento do modo de produção capitalista, muitos teóricos pensaram que sobreviria o fim da pobreza e da fome no mundo, devido aos acelerados níveis de crescimento da indústria. Pensou-se que a humanidade avançava para o reino da abundância de recursos e produtos. Sem embargo, com o capitalismo como modo de produção dominante no mundo hoje, a pobreza e a fome não só se mantiveram como se incrementaram, do mesmo modo que muitas outras calamidades que são inerentes a esse sistema produtivo.
Paradoxalmente, o acelerado crescimento da produtividade do trabalho no capitalismo faz com que milhões de pessoas aptas para o trabalho não encontrem emprego, já que são desnecessárias para o capital. Sem emprego, essas pessoas não têm remuneração e, sem remuneração, não podem partcipar do consumo nem da distribuição da riqueza gerada. Dessa forma, sendo aptos para o trabalho e necessitando-o, não têm oportunidade. Assim, passam a engrossar o exército de desempregados e se afundam na pobreza e na fome.
Diferentes causas
"As razões pelas quais os escravos viviam na pobreza são muito diferentes das pelas quais se encontram na pobreza os operários de hoje em dia. De modo que, ainda que a pobreza sempre haja existido, não é da mesma natureza, como não o são tampouco as causas que a geraram nos distintos regimes sociais", diz o economista salvadorenho Aquiles Montoya, em seu trabalho É possível abater a pobreza no capitalismo?, localizável na Web.
"A pobreza" - sustenta Montoya - "tem um caráter histórico que é preciso desentranhar em cada momento, a fim de poder pensar em alternativas possíveis para sua resolução no caso particular ou específico que nos ocupa".
"As generalidades como as generalizações" - afirma - "a miúdo não brindam os resultados esperados".
"Assim, aqueles que sustentam, sem mais nem menos, que a pobreza sempre existiu e que, por isso, sempre existirá, não entendem que o capitalismo gera sua própria pobreza", afirma. E sentencia: "Portanto, resulta ilusório creer que o simples crescimento econômico (capitalista) conduzirá, por si mesmo, à eliminação da pobreza".
Outras causas
Mas o capitalismo não só gera sua própria pobreza pela exclusão dos trabalhadores dos processos produtivos. Esta circunstância, a miúdo, se vê agravada pela influência e pelo peso global de suas crises, as quais arrastam atrás de si economias inteiras e a sorte de milhões de seres humanos.
Um exjmplo dessa realidade é a situação, gerada pela bancarrota de centenas de bancos hipotecários nos Estados Unidos, que pôs na miséria milhões de familias nesse país, privándo-as de casas, de empregos e das poupanças feitas durante anos de trabalho.
A crise hipotecária da banca estadunidense provocou a queda de várias economías europeias (Grécia, Hungria, Itália e Espanha, entre outros), que hoje se afundam na insolvência e que obrigam os governos a reduzir gastos sociais, salários e custos, lançando no desemprego centenas de milhares de trabalhadores.
Esses trabalhadores com serviços sociais e salários reduzidos, e sem emprego, se somam às fileiras dos pobres e famintos do mundo, em consequência da crise capitalista.
Dessa forma, frente ao leque de produtos que pode oferecer a indústria capitalista, se encontra um amplo setor da população sem dinheiro para aceder a esses produtos.
Preços altos
É imperativo assinalar que à par do crescimento da pobreza também se incrementou os preços dos alimentos. E isso ocorre porque também se vive uma verdadeira crise alimentar capitalista pela inflação nos preços, crise na qual estão presentes fatores políticos e econômicos.
Por um lado, estão as políticas que traçam o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio e o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos, que recomendam incrementos da assistência alimentar, liberalizar o comércio agrícola e introducir cultivos transgênicos, linhas que levaram à quebra agrícola dos países do sul.
E, por outro, as grandes transnacionais dos grãos, dos fertilizantes e do transporte de alimentos: Yara Fertilizer, Cargill, Archer Daniels Midland, Syngenta, Du Pont e Monsanto, que controlam a produção agrícola mundial e manipulam os preços das diferentes rubricas.
A isso há que somar a incidência que tiveram nos preços a mudança climática e o desvío da produção agrícola para a produção de combustíveis alternativos.
Segundo o pesquisador Eric Holt Giménez, diretor do Institute for Food en Development Policy, em seu artigo Crise Mundial de Alimentos: Que há detrás e qué podemos fazer (localizável na internet), o Banco Mundial informou que nos últimos três anos os preços se elevaram em 83%, enquanto que a FAO registra um aumento de 45% em seu índice de preços nos últimos nove meses.
Mudança climática
A mudança climátic, longe de exonerar de responsabilidade o sistema capitalista em relaçaão a produção e preços dos alimentos, mais bem o inculpa. E isso em razão do aproveitamento depredador que o capitalismo faz dos recursos naturais na produção industrial.
Contaminaram mares e ríos, devastaram bosques, desertificaram enormes extensões de terra fértil e se acabou con milhares de espécies animais no altar capitalista do lucro.
A isso haveria que somar, a profusão de gases de efeito estufa dos países capitalistas e a incidência que sobre o mercado dos alimentos teve o aproveitamento da mandioca e das oleaginosas para a produção de combustível alternativo.
Porcentagem mais elevada
O diretor da FAO Jacques Diouf, ao apresentar o informe citado linhas acima, disse que, graças à perigosa mistura de crise econômica (refere-se à crise que vive o capitalismo em ambos os lados do Atlântico) e altos preços dos alimentos, só em 2008, 100 milhões de pessoas entraram na categoria de famintos. Um incremento de 11%.
Assegurou que, em 2008, a cifra se incrementou em todas as regiões do mundo, inclusive no grupo dos países desenvolvidos, onde o incremento (15,4%) foi o maior do planeta.
Por Agencia Bolivariana de Noticias
Fonte: http://www.socialismo.org.br
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Um bilhão de mortos-vivos contra as Cutrales do mundo

O diagnóstico é feito por Jacques Diouf, diretor geral da FAO (órgão da ONU para a agricultura e alimentos), durante a celebração do Dia Mundial da Alimentação (16 de outubro). Trata-se de uma crise “sem precedentes” na história mundial, afirma Diouf: entre 2006 e 2008, observou-se um aumento contínuo dos alimentos básicos. Notem a ironia: justamente nas áreas rurais, aquelas responsáveis pela produção de alimentos, “vivem 70% das pessoas que passam fome no mundo.”
“Na África Subsaariana, 80 a 90% de todos os preços dos cereais monitorados pela FAO em 27 países, continuam sendo 25% mais altos do que antes do começo da crise dos alimentos, dois anos atrás. Na Ásia e na América Latina e o Caribe, os preços são monitorados num total de 31 países, e entre 40 e 80 % do preço dos cereais mantêm mais de 25 % mais alto do que no período pré-crise dos alimentos. E a nível local, em alguns países, os preços dos alimentos básicos não sofreram qualquer tipo de baixa. Além disso, a produção continua sendo obstruída pelo aumento do custo dos insumos, – 176 % no caso dos fertilizantes, 70% sementes, 75% ração para os animais, tornando o investimento na agricultura extremamente difícil.”
O que Diouf não diz diretamente, mas apenas nas entrelinhas de uma linguagem diplomática que causa náuseas, é que a razão para o aumento da fome e da subnutrição, especialmente no campo, é bastante simples: a crescente concentração de riqueza, traduzida na implantação de vastos latifúndios que exploram monoculturas. Se aumenta a produtividade do campo mediante o uso de tecnologias cada vez mais sofisticadas – afirmação, aliás, que deve ser analisada com muita cautela –, piora muito a situação de quem não tem acesso a essas mesmas tecnologias.
Um singelo dado, também divulgado pela FAO, mostra isso com grande clareza: em franco contraste com o crescimento da fome, da subnutrição e da pobreza nas áreas rurais, há um próspero crescimento das vendas de máquinas agrícolas cada vez mais sofisticadas, muitas delas guiadas por robôs orientados via satélite (com o sistema GPS). Entre 2000 e 2005, o comércio mundial de máquinas agrícolas cresceu à razão de 6% ao ano, muito mais do que a produção de comida no mesmo período (2,6% aa) e o da população mundial (1,2% aa). Entre 2005 e 2010, prevê-se um crescimento respectivo de 4,8%, 2,5% e 1,1%. Em termos absolutos, a demanda global por máquinas agrícolas cresceu de 53 bilhões de dólares em 2000 para 70 bilhões em 2005 e deverá chegar a 88 bilhões de dólares em 2010.
Mesmo levando-se em conta que as compras de máquinas pela Índia e pela China são, em boa parte, responsáveis pelo crescimento do setor, é óbvio que existe uma relação direta entre a crescente mecanização da agricultura e o aumento da fome, como consequência da concentração da propriedade e da renda. Nas grandes culturas mecanizadas, um único trabalhador pode cultivar cerca de 200 hectares, com altíssimo índice de produtividade (medido em toneladas de cereais por trabalhador por ano), graças a investimentos em tecnologia, bioquímica, seleção de sementes etc. Em contrapartida, menos da metade dos trabalhadores rurais dispõe de tração animal para tocar suas culturas, e cerca de 1/3 estão completamente à margem.
São os camponeses pobres que formam o vasto exército de seres humanos forçados, quando podem, a vender sua força de trabalho por valores aviltantes em grandes plantações (não raro, os “salários” situam-se no limite de dois dólares diários, valor que serve de parâmetro de linha de pobreza para o Banco Mundial).
É óbvio que ninguém propõe, aqui, a destruição das máquinas e a volta à agricultura rudimentar como solução para a fome. Trata-se de fazer exatamente o oposto: colocar a máquina a serviço do ser humano. Para isso, comida teria que deixar de ser tratada como commodity, artigo de especulação negociado em mercados futuros, sem qualquer relação com a demanda real da população. O comércio da comida deveria ser submetido ao primado da segurança alimentar, priorizando o ser humano e não o lucro.
Mas, no pé em que está o “mercado globalizado”, a FAO há tempos admite a barbárie: a Cúpula Mundial da Alimentação definiu, em 1995, o objetivo de reduzir pela metade, até 2015, o número de pessoas que passam fome no mundo. E o que fazer com a outra metade? Atenção: estamos falando de 500 milhões de seres humanos condenados à morte por fome (isto é, se fosse mesmo possível mitigar as demandas de proteína da outra metade, hipótese cada vez mais longínqua).
É esse, concretamente, o contexto em que atuam a Cutrale (grileira de terras públicas, exportadora de suco de laranja e superexploradas do trabalho de seus empregados) e outras agroempresas. Elas não têm nada que ver com a “alimentação do povo brasileiro” ou de quaisquer outros povos, como quer fazer crer a asquerosa campanha de mídia destinada a criminalizar o MST pela ocupação das terras da Cutrale.
São empresas que se destinam ao ramo da especulação financeira, como qualquer banco ou corretora da bolsa de valores, com o agravante de que operam com uma mercadoria sagrada, o alimento, e exploram aquilo que deveria ser tratado como um bem comum: a terra.
A “mídia gorda” e seus especialistas ocultam a profunda, total e inegável relação entre a especulação com o alimento e a tragédia que envolve 1 bilhão de seres humanos famintos (e mais de 2 bilhões em estado de subnutrição e expostos a todo o tipo de doenças e epidemias causadas pela falta de proteínas). Eles produzem, assim, uma total inversão de valores: são criminosos os que lutam em defesa do mais sagrado dos direitos humanos, o direito à vida, e são tratados como vítimas (e heróis) os monstros, os carrascos, os que especulam com a comida. Não há limite para a canalhice.
A “mídia gorda” fez absoluta questão de ocultar a reivindicação central do MST no “caso Cutrale”: a formação de uma comissão de investigação, integrada por personalidades respeitadas por toda a sociedade, para apurar a verdade dos fatos. Os donos da mídia sabem que isso não pode acontecer. Não está em jogo, apenas, saber se o MST destruiu ou não meia dúzia de pés de laranja, mas sim o significado do agronegócio para o Brasil e para o mundo. 1 bilhão de mortos vivos serviriam de testemunha de acusação em tal julgamento
José Arbex Jr. é jornalista
terça-feira, 17 de novembro de 2009
A nova geopolítica da fome

Por João Pedro Stedile*
Nos anos 60, 80 milhões de pessoas sofriam fome no mundo. Estava no auge o capitalismo industrial e as empresas multinacionais se expandiam por todo o planeta para dominar os mercados e explorar a mão-de-obra barata e os recursos naturais dos países periféricos. Nesse contexto foi lançada a Revolução Verde, que prometia acabar com a fome. Seu mentor, Norman Borlaug, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1970.
As Transnacionais contribuem para aumentar a fome. Os Camponeses(as) oferecem soluções
A Via Campesina está aterrada com a arrogância do setor privado e, especialmente, da Nestlé, ao pretender oferecer soluções para a atual crise alimentar, considerando que são as próprias transnacionais quem têm contribuído ativamente para o surgimento dessa crise.Os comentários do presidente da Nestlé durante a Conferência do setor privado e da FAO, em Milão, no passado dia 12 de novembro, nos parecem particularmente chocantes dadas as conhecidas campanhas da Nestlé para fomentar a fórmula de consumo de leite para bebês em detrimento da amamentação materna, nos países em desenvolvimento.
Muitas transnacionais aumentaram seus lucros durante a crise alimentar e têm exercido um papel principal ao incrementar a fome no mundo, mediante o controle sobre o sistema alimentar e sobre os recursos produtivos, tais como a terra e a água, excluindo os camponeses/as da produção alimentícia.
Esses atores privados têm pressionado para que os modelos agrícolas de produção mudem, forçando modos produtivos intensivos e introduzindo tecnologias e políticas como a dos agrocombustíveis, a dos transgênicos e a liberalização do comércio, com o único interesse de incrementar seus lucros. As deslumbrantes falhas dessas estratégias corporativistas das transnacionais frente ao sistema alimentar são evidentes, dadas as estatísticas que demonstram através do constante aumento em cifras das pessoas que passam fome no mundo.
Sobre o tema dos transgênicos, Javier Sánchez, representante do Sindicato Camponês COAG (membro da Via Campesina), declarou: "Existe um consenso global entre camponeses/as e consumidores sobre as tecnologias de OGMs (Organismos Geneticamente Modificados) que permitem às multinacionais tomar o controle sobre as sementes, negando aos agricultores a possibilidade de guardar suas próprias sementes. Camponeses/as perdem o direito a produzir alimentos livres de modificações genéticas enquanto que os consumidores perdem o direito a alimentar-se com produtos sem transgênicos. Esse é um exemplo claro de como a privatização dos recursos naturais vai contra os interesses comuns. Os consumidores na Europa, com razão, estão rechaçando esse tipo de tecnologias".
Henry Saragih, coordenador geral da Via Campesina, observa que em seu país natal, Indonésia, a Nestlé tem contribuído diretamente para o empobrecimento dos camponeses/as e para o fomento da má nutrição, particularmente entre os bebês, através do controle da produção e do sistema de preços no interior do setor leiteiro.
Durante o Fórum "Soberania Alimentar Já!", paralelo à Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar, em Roma, as Organizações da Sociedade Civil estão propondo as soluções reais para a soberania alimentar.
* Movimento internacional de camponeses e camponesas, pequenos e médios produtores, mulheres rurais, indígenas, gente sem terra, jovens rurais e trabalhadores agrícolas.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Um bilhão de famintos contra as Cutrales do mundo
Por José Arbex Jr.“Pela primeira vez na história, mais de um bilhão de pessoas estão subnutridas no mundo inteiro. Isso representa cerca de 100 milhões a mais do que no ano passado e significa que uma a cada seis pessoas passa fome todos os dias. Este recente aumento da fome não tem sido consequência das fracas colheitas a nível global, mas sim resultado da crise econômica mundial, que tem reduzido rendas e oportunidades de emprego, assim como o acesso aos alimentos por parte da população mais pobre. (...) A crise espreita os pequenos agricultores e as áreas rurais aonde trabalham e vivem 70% das pessoas que passam fome no mundo.”
O diagnóstico é feito por Jacques Diouf, diretor geral da FAO (órgão da ONU para a agricultura e alimentos), durante a celebração do Dia Mundial da Alimentação (16 de outubro). Trata-se de uma crise “sem precedentes” na história mundial, afirma Diouf: entre 2006 e 2008, observou-se um aumento contínuo dos alimentos básicos. Notem a ironia: justamente nas áreas rurais, aquelas responsáveis pela produção de alimentos, “vivem 70% das pessoas que passam fome no mundo.”
“Na África Subsaariana, 80 a 90 % de todos os preços dos cereais monitorados pela FAO em 27 países, continuam sendo 25% mais altos do que antes do começo da crise dos alimentos, dois anos atrás.
O que Diouf não diz diretamente, mas apenas nas entrelinhas de uma linguagem diplomática que causa náuseas, é que a razão para o aumento da fome e da subnutrição, especialmente no campo, é bastante simples: a crescente concentração de riqueza, traduzida na implantação de vastos latifúndios que exploram monoculturas. Se aumenta a produtividade do campo mediante o uso de tecnologias cada vez mais sofisticadas – afirmação, aliás, que deve ser analisada com muita cautela -, piora muito a situação de quem não tem acesso a essas mesmas tecnologias.
Um singelo dado, também divulgado pela FAO, mostra isso com grande clareza: em franco contraste com o crescimento da fome, da subnutrição e da pobreza nas áreas rurais, há um próspero crescimento das vendas de máquinas agrícolas cada vez mais sofisticadas, muitas delas guiadas por robôs orientados via satélite (com o sistema GPS). Entre 2000 e 2005, o comércio mundial de máquinas agrícolas cresceu à razão de 6% ao ano, muito mais do que a produção de comida no mesmo período (2,6% aa) e o da população mundial (1,2% aa).
Mesmo levando-se em conta que as compras de máquinas pela Índia e pela China são, em boa parte, responsáveis pelo crescimento do setor, é óbvio que existe uma relação direta entre a crescente mecanização da agricultura e o aumento da fome, como conseqüência da concentração da propriedade e da renda. Nas grandes culturas mecanizadas, um único trabalhador pode cultivar cerca de 200 hectares, com altíssimo índice de produtividade (medido em toneladas de cereais por trabalhador por ano), graças a investimentos em tecnologia, bioquímica, seleção de sementes etc. Em contrapartida, menos da metade dos trabalhadores rurais dispõe de tração animal para tocar suas culturas, e cerca de 1/3 estão completamente à margem da “revolução verde”. São os camponeses pobres, que formam o vasto exército de seres humanos forçados, quando podem, a vender sua força de trabalho por valores aviltantes em grandes plantações (não raro, os “salários” situam-se no limite de 2 dólares diários, valor que serve de parâmetro de linha de pobreza para o Banco Mundial).
É óbvio que ninguém propõe, aqui, a destruição das máquinas e a volta à agricultura rudimentar como solução para a fome. Trata-se de fazer exatamente o oposto: colocar a máquina a serviço do ser humano. Para isso, comida teria que deixar de ser tratada como commodity, artigo de especulação negociado em mercados futuros, sem qualquer relação com a demanda real da população.
É esse, concretamente, o contexto em que atuam a Cutrale (grileira de terras públicas, exportadora de suco de laranja e superexplorada do trabalho de seus empregados) e outras agroempresas. Elas não têm nada que ver com a “alimentação do povo brasileiro” ou de quaisquer outros povos, como quer fazer crer a asquerosa campanha de mídia destinada a criminalizar o MST pela ocupação das terras da Cutrale. São empresas que se destinam ao ramo da especulação financeira, como qualquer banco ou corretora da bolsa de valores, com o agravante de que operam com uma mercadoria sagrada, o alimento, e exploram aquilo que deveria ser tratado como um bem comum: a terra.
A “mídia gorda” e seus especialistas ocultam a profunda, total e inegável relação entre a especulação com o alimento e a tragédia que envolve 1 bilhão de seres humanos famintos (e mais de dois bilhões em estado de subnutrição e expostos a todo o tipo de doenças e epidemias causadas pela falta de proteínas). Eles produzem, assim, uma total inversão de valores: são criminosos os que lutam em defesa do mais sagrado dos direitos humanos, o direito à vida, e são tratados como vítimas (e heróis) os monstros, os carrascos, os que especulam com a comida. Não há limite para a canalhice.
A “mídia gorda” fez absoluta questão de ocultar a reivindicação central do MST no “caso Cutrale”: a formação de uma comissão de investigação, integrada por personalidades respeitadas por toda a sociedade, para apurar a verdade dos fatos. Os donos da mídia sabem que isso não pode acontecer. Não está em jogo, apenas, saber se o MST destruiu ou não meia dúzia de pés de laranja, mas sim o significado do agronegócio para o Brasil e para o mundo. Um bilhão de cadáveres serviriam de testemunha de acusação em tal julgamento.
Publicado originalmente na edição de novembro da revista Caros Amigos
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Brasil lidera ranking de combate à fome

A entidade estudou as medidas adotadas por 50 países e estabeleceu duas classificações, uma para os países em desenvolvimento e outra para os países ricos. Entre os países em desenvolvimentos, de acordo com a ActionAid, o Brasil “mostra o que é possível fazer quando o Estado tem os recursos e a vontade política de reduzir a fome”. O documento cita o programa Fome Zero, do governo federal, e destaca principalmente a redução de 73% da desnutrição infantil em seis anos e da mortalidade infantil em 45% no mesmo período.
A China, outro país elogiado no relatório, reduziu o número de pessoas que passam fome em 58 milhões ao longo de dez anos. O país aparece na segunda posição do ranking dos países em desenvolvimento. Dois pequenos países da África, Gana e Malauí, aparecem em 3º e 5º lugares, o que prova, segundo os pesquisadores, que a luta contra a fome não depende apenas da disponibilidade de recursos.
O destaque negativo ficou por conta da Índia, que apesar das elevadas taxas de crescimento econômico registradas nos últimos anos tem 30 milhões de pessoas com fome a mais que em meados dos anos 90 e aparece em 22º de uma lista de 29 países, atrás de nações muito pobres como Etiópia e Lesoto. A ActionAid chama a atenção, também, para o fato de que 47% das crianças com menos de 6 anos de idade estão abaixo do peso no país.
“Na Índia, a fome não é provocada pela falta de comida e sim pela dificuldade das pessoas de ter acesso à mesma”, afirmam os pesquisadores no documento. “Alguns dos países mais pobres do mundo estão fazendo progressos notáveis na redução do número de pessoas que sofrem fome, enquanto alguns países ricos estão ficando para trás”.
É o caso, segundo a ONG, de Japão, Estados Unidos e Nova Zelândia, que aparecem nos últimos três lugares da classificação dos países ricos e são duramente criticados pela ActionAid pela redução da ajuda ao setor agrícola e por não terem respeitado os compromissos de luta contra a fome.
O documento aponta ainda que a maioria dos países ricos vem descumprindo suas promessas de aumentar a ajuda alimentar e agrícola dada aos países pobres. De acordo com o relatório, as promessas recentes do G8 de gastar US$ 20 bilhões nos próximos três anos para ajudar os países pobres a se alimentarem não estão sendo cumpridas e nem mesmo um cronograma claro para as ações foi fixado. Segundo o levantamento, o número de pessoas que passam fome no mundo ultrapassou 1 bilhão este ano – 105 milhões mais que em 2008.
O ActionAid redigiu, ainda, uma tabela mostrando até que ponto os países ricos vêm cumprindo suas promessas de aumentar a ajuda. A tabela mede a ajuda dada para a agricultura e a segurança alimentar entre 2005 e 2007, comparando-a com um chamado lançado pela ONU por US$ 30 bilhões anuais em investimentos adicionais até 2012. De acordo com o documento, com a exceção dos três maiores doadores – Luxemburgo, Suécia e Noruega – , a maioria dos países ricos não cumpre nem sequer metade do que é esperado deles para atingirem o alvo fixado para 2012.
O embaixador dos EUA junto às agências alimentares da Organização das Nações Unidas disse em Roma nesta semana que Washington vai depositar no fundo os US$ 3,5 bilhões que prometeu como parte da iniciativa do G8, mas que a forma exata que o valor irá tomar ainda não foi determinada.
Bolsões
O relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Oliver De Schutter, elogiou sexta-feira o governo federal brasileiro pela diminuição da desnutrição e pela queda da mortalidade infantil na última década. Mas chamou a atenção, no entanto, para a manutenção do que chamou de “inaceitáveis bolsões” de fome em algumas regiões do país, principalmente na zona rural da Região Norte. De Schutter disse ainda que “a concentração fundiária é um problema no Brasil” e defendeu a estratégia do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra (MST) de ocupar áreas.
– É uma forma de chamar a atenção para o problema – ponderou. Na avaliação do relator da ONU, tanto o modelo de agricultura familiar quanto o agronegócio têm méritos, mas ele sugere que haja uma avaliação objetiva sobre os dois sistemas: não só considerando produtividade mas também geração de renda, emprego e preservação do meio ambiente. (Com agências)
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Fome ameaça mais de 1 bilhão de pessoas no mundo pela primeira vez
As Nações Unidas revelaram que, pela primeira vez na história, a fome afectará no final de 2009 mais de mil milhões de pessoas (1.020 milhões). Mais grave ainda é o facto do orçamento do Progama Mundial de Alimentos ser o mais baixo dos últimos 20 anos. A ONU sublinha ainda que apenas 1% das verbas que foram injectadas nos bancos seriam suficientes para reduzir muito substanciamente esta catástrofe.A crise financeira e o aumento do preço dos alimentos são as causas avançadas pela ONU para explicar o aumento repentino do número de pessoas que passam fome. A responsável do Programa Mundial de Alimentos, Josette Sheeran, garante que "este ano há no mundo mais pessoas esfomeadas do que nunca". Os números podem ser analisados nestes gráficos.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Desnutrição? Esqueça isso. Seus problemas acabaram!
Taí a solução para a subnutrição no país! É Centrum neles!
Milhões de miseráveis, que não têm acesso a uma dieta em quantidade e qualidade adequadas para o seu desenvolvimento, não perceberam que reivindicar distribuição de renda, geração de emprego e reforma agrária para governos é inútil? É só pedir o suplemento em questão.
A utilidade e a eficácia do produto não estão em questão - longe disso. Muito menos o caráter de quem apresenta o produto. Apenas estou dizendo que a peça publicitária foi infeliz, considerando que, hoje, parte desses “dois terços” não vão conseguir fazer as três refeições de forma digna porque simplesmente não têm dinheiro. Para elas, o anúncio é um soco no estômago. Vazio.
Ah, se a solução para os problemas do mundo fossem assim:
Acampamento guarani no interior do Rio Grande do Sul. De vez em quando vem à tona a notícia de que alguma criança indígena morreu por desnutrição em algum lugar do Brasil. O avanço do agronegócio e das cidades têm expulsado muitos povos indígenas de suas terras ou transformando-as em favelas, o que tira deles sua autonomia alimentar. No Mato Grosso do Sul, isso tem sido tristemente constante. Para evitar a expulsão de comunidades tradicionais que gera fome, é suplemento vitamínico neles!
Mulher segura filhos desnutridos em comunidade rural de Sao José da Tapera, interior de Alagoas. O lugar já foi considerado o município mais pobre do país, ou melhor dizendo, com menor índice de desenvolvimento humano. De tempos em tempos, a seca lá bate forte e, ironicamente, o São Francisco está a poucos quilômetros da comunidade. Para garantir que as políticas públicas sejam voltadas a proteger a população e não apenas empreiteiras e grandes empresas doadoras de campanhas, é suplemento vitamínico neles!
Trabalhador rural escravizado, que teve o corpo queimado com ferro de marcar gado em fazenda no Pará após reclamar dos salários atrasados e da falta de comida. Outras 35 mil pessoas já foram libertadas desde 1995 pelo governo federal. Muitos deles caíram nessa armadilha devido à fome que batia à sua porta e à de seus filhos. Para manter o trabalhador na lida, sem que ele pare o serviço e diminua os lucros, é suplemento vitamínico neles!Texto original postado em:
http://colunistas.ig.com..br/sakamoto/2009/07/31/desnutricao-esqueca-isso-seus-problemas-acabaram/
terça-feira, 4 de agosto de 2009
O monopólio é a causa da fome no mundo
Bastou Luiz Inácio anunciar que pretendia fazer do Brasil "a Arábia Saudita do Biocombustível" e informar que os pobres do mundo estão comendo mais, para o imperialismo, representado por Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, pedir um esforço global contra o flagelo da fome, que seguirá em escalada até 2015 devido à alta dos preços dos alimentos.
Responsabilizando os biocombustíveis pela disparada dos preços alimentícios, Zoellick, como Luiz Inácio, finge não saber que apenas 50 transnacionais controlam a produção agrícola mundial, detendo a terra, os cultivos, a industrialização e a comercialização.
Voracidade
A escandalosa alta de preços do arroz, feijão, milho, soja e outras commodities vai matar 100 milhões de pessoas, sendo 10 milhões na América Latina, segundo cálculos da CEPAL, visto que a irracionalidade da chamada "globalização neoliberal" atingiu grau tão elevado, que as leis de mercado funcionam ao contrário do que apregoam os economistas de aluguel: a maior oferta, junto com a menor capacidade de compra, não resulta em queda de preços, mas no contrário.O mito do "livre mercado" produziu concentração e centralização de capitais e recursos em poucas mãos, ou seja, fortaleceram aqueles poucos donos do mundo que intensificam a exploração e impõem os preços que bem entendem para obter o lucro máximo. Na verdade, a "globalização" não intensificou a concorrência, mas facilitou a tomada de controle do mundo por meia dúzia de potências que dão as cartas no FMI e Banco Mundial e OMC. Sem a menor preocupação em alimentar a humanidade, os Monos-pólios condicionam diariamente a vida de todos, criando guerras reais e de mercado, infiltrando-se nos governos e meios de comunicação, concentrando enorme poder de propaganda, comprando políticos e tribunais inteiros, e se apropriando dos mercados, desde a produção até a compra direta do consumidor. Se é assim, em âmbito doméstico, pior ainda no plano internacional, no qual o preço de cada mercadoria internacionalizada é objeto de especulação. Não há mais uma relação direta do preço com o custo de produção, que é apenas uma referência. A manipulação maior dessas empresas sobre a produção nacional e comércio internacional é um instrumento para alcançar seus lucros.A influência desse setor sobre a política econômica da gerência Luiz Inácio é por meio do Banco Central, que monitora as taxas de juros e câmbio. Numerosos especialistas estabelecem uma correlação direta entre o aumento do preço do arroz e outros gêneros e a desvalorização do dólar. Para eles, governos (como o chinês) e os fundos de risco, que representam capitais especulativos, estão aplicando grandes somas de seus dólares, antes que se depreciem, em terras e bolsas de artigos agrícolas, como o arroz.
Supermercado
O bicho-papão dos supermercados é o Wal-Mart, com 4.500 lojas em 14 países e faturamento maior do que o produto interno bruto da Arábia Saudita e da Áustria. Em seguida, vêm Carrefour, Home Depot, Metro e Royal Ahold, segundo pesquisas do Grupo ETC, Oligopoly Inc 2005, que monitora as atividades das corporações globais, especialmente na agricultura, alimentação e farmácia.Maior rede varejista do mundo — tem quase 1,7 milhão de funcionários —, maior companhia ianque, mais poderosa cliente das indústrias de bens de consumo, o Wal-Mart passou de um empório a uma potência cujas vendas alcançam inacreditáveis 300 bilhões de dólares ao ano. Muitos dos grandes movimentos do capitalismo americano — como a recente fusão da Procter & Gamble com a Gillette — foram resultados da enorme pressão exercida pela rede. As prateleiras do Wal-Mart e de todos os outros supermercados do Brasil estão abarrotadas de produtos da Bunge, como as margarinas Delícia, Primor, Soya, Cyclus; os óleos Soya, Primor, Salada e Cyclus; as maioneses Primor e Soya; e azeites Delícia e Andorinha. Muitos desses óleos são transgênicos e, por determinação judicial, deveriam ter um rótulo especial para alertar o consumidor. Nunca respeitaram esse dispositivo legal. A gerência Luíz Inácio prometeu quebrar este monopólio, mas até agora não adotou nenhuma providência.Com a Cargill e a ADM, a Bunge controla 60% da produção de soja no Brasil, para alimentar o gado na Europa. O preço e o comércio das commodities, em geral, são manipulados ainda pela Dreyfus, Syngenta e Monsanto.Para colocar cada vez mais produtos no mercado mundial, esse grupo promove o desmatamento ilegal, inclusive com trabalho escravo, grilagem de terras públicas e violência contra comunidades locais.A especulação desses grupos é responsável pela elevação dos preços dos cereais, principalmente o arroz, artigo que não é utilizado na produção de biocombustíveis e cuja safra atingiu o recorde de 423 milhões de toneladas. Seu preço, entretanto, mais que duplicou em um ano, passando a tonelada de 360 para 760 dólares.
Laticínios
Na área de laticínios, o mercado é manipulado por apenas três: a Nestlé, a Parmalat e a Danone. A Nestlé domina também o setor de processamento de alimentos e vende o dobro ou o triplo dos demais componentes do monopólio: Archer Daniel Midlands, Altria, PepsiCo, Unilever, Tyson Foods, Cargill, Coca-Cola, Mars e Danone. Há décadas a Nestlé é responsabilizada pela desnutrição e morte de crianças de idade tenra, devido à suspensão precoce das campanhas em prejuízo do aleitamento materno, para expandir as vendas dos seus produtos, principalmente o leite em pó, as sopinhas e papinhas que, muitas vezes, contém até alimentos transgênicos.
Há décadas a Nestlé é responsabilizada pela desnutrição e morte de crianças devido à suspensão das campanhas do aleitamento materno, para expandir (suas) vendas principalmente do leite em pó,das sopinhas e papinhas que até contém transgênicos
Cerca de 46 milhões de crianças frequentam as 170 mil escolas fundamentais mantidas pelo poder público no Brasil. Pelo menos 30% dessas crianças só podem frequentar os bancos escolares porque é servida uma refeição na escola. E a merenda escolar também é campo para toda sorte de corrupção por parte dos monopólios.Recentemente, o Tribunal de Contas de São Paulo descobriu uma fraude na Prefeitura de São Paulo que promoveu uma licitação para a merenda escolar. Examinando o processo, o Tribunal de Contas percebeu que o edital fora preparado para beneficiar a Nestlé-Maggi, corporação transnacional que se comprometia a atender todas as exigências dos nutricionistas, compreendendo 7 kg de carne, 2 kg de cenoura e 3 kg de "outras" hortaliças (por 100 kg de sopa desidratada a ser distribuída). Logo após a contratação, Kassab autorizou a Nestlé-Maggi a mudar a receita da sopa, que passou a ter apenas 0,5 kg de carne, 0,8 kg de cenoura e 1 kg de "outras" hortaliças. O preço do contrato, todavia, permaneceu o mesmo.Constatou-se que a Nutri Plus, empresa terceirizada responsável pelo fornecimento da merenda escolar, oferece um bônus mensal de R$ 40 reais às merendeiras que reduzirem a quantidade do ali-mento dos estudantes das escolas municipais, entregando maçã aos alunos pela metade; misturando pedaços de frango a legumes não previstos no cardápio ou acrescentando bastante água ao molho de tomate para a refeição render mais.Este crime foi denunciado por nove cozinheiros de escolas municipais, que, indignados com a medida, se recusaram a receber o abono. Nem a Câmara Municipal conseguiu instalar uma comissão parlamentar de inquérito para comprovar a fraude.
Sementes e Fertilizantes
Entre 2005 e 2007, as 10 maiores indústrias de sementes, que detinham um terço comércio global, passaram a controlar a metade, e a Monsanto, após a compra da empresa mexicana Seminis, passou a controlar 90% da venda, inclusive das transgênicas, seguida pela Dupont, Syngenta, Groupe Limagrain, KWS Ag, Land O'Lakes, Sakata, Bayer Crop Sciences, Taikii, DLF Trifolium e Delta and Pine Land. Em agrotóxicos, as 10 principais concentram 84% das vendas globais e são: Bayer, Syngenta, BASF, Dow, Monsanto, Dupont, Koor, Sumitomo, Nufarm e Arista. Os analistas dizem que, com tal nível de concentração, em breve serão apenas três: Bayer, Syngenta e BASF. No Brasil, as lavouras de soja (33%), de milho (17%), de cana-de-açúcar (15%), café (8%) e algodão herbáceo (5%) são as maiores consumidoras de fertilizantes, respondendo por 78% do consumo nacional. Esse mercado movimenta mundialmente cerca de US$ 60 bilhões anuais. O grupo Bunge, com sede no USA, faturou R$ 18,2 bilhões em 2006 no Brasil. Só a Bunge fertilizantes tem aqui 3.000 funcionários e 60 mil clientes.
Criança implora por comida
Ao atribuir a escalada mundial dos preços dos alimentos ao aumento de consumo das massas empobrecidas, o Califa do Etanol, Luiz Inácio varreu da memória a pesquisa realizada pelos Correios no último Natal, comprovando que as crianças pediam a Papai Noel uma cesta básica digna do nome, e não os tradicionais brinquedos. O jornal francês Le Figaro analisou a pesquisa, batizada de "Operação Papai Noel", destacando que em Pernambuco, 60% das 11 mil cartas revelavam que as crianças pobres pediam geralmente uma cesta básica, mesmo que suas famílias fossem atingidas por um dos programas caritativos e compensatórios da gerência FMI-PT.Para o jornal francês, as cartas "têm um efeito ainda mais chocante porque as lojas experimentaram a maior explosão de consumo nos últimos 11 anos no Brasil, onde se verifica um dos mais elevados índices de desigualdade do mundo. A Operação Papai Noel demonstra que o programa de subsídios sociais instaurado pelo governo Lula não é suficiente nem para reduzir os desvios estruturais, nem para erradicar a fome.
A escassez dos alimentos Analisando os custos da alimentação, em 2007, todos os institutos de pesquisa constataram que o preço dos artigos básicos superou de longe o reajuste de 8,57% fixado para o salário mínimo em abril, com aumentos da cesta básica variando de 11,46% em Curitiba, 24,38% em Aracaju e 29,79% em Belo Horizonte. É preciso afirmar que entre os setores mais empobrecidos da população esses índices são consideravelmente ampliados.Os repetidos discursos de todos os integrantes da gerência FMI-PT, estimulando cultivos vinculados à monocultura latifundiária para exportação e destinados à produção de biodiesel, como soja, cana, milho e outros artigos, provocou o abandono da produção de alimentos como o feijão, que registrou um aumento de preço de 200%, em média. O desvio de finalidade de alimentos para os biocombustíveis causou também o aumento dos preços nos supermercados, como o milho em grão (50,7%), e óleos combustíveis (33,27%). A plantação total ocupou em 2007 uma área de 46,4 milhões de hectares, 0,3% maior que a do período anterior. Os produtos que mais apresentaram incremento na produção foram: o trigo com 71,5% (1.597,7 mil toneladas); o milho 1ª e 2ª safra com 3,9% (1.999,3 mil toneladas) e o arroz com 5,5% (625,7 mil toneladas). Porém isto não acompanha as reais necessidades da população. Como consequência, o salário mínimo necessário para suprir as despesas (alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência) de uma família de quatro pessoas seria, em dezembro, de R$ 1.803,11, de acordo com o calculo do Dieese. Isto representa 4,75 vezes o valor do salário mínimo fixado pela gerência Luiz Inácio. O economista Heron do Carmo, da Faculdade de Economia e Administração da USP, explica que o padrão de inflação registrado em 2007 foi mais intenso para os pobres, que, segundo ele, gastam mais da metade do que ganham com comida.Ele diz que foi um padrão diferente do que acontecia em anos anteriores, em que a alta de preços era sentida pelas pessoas com renda maior.
Agora, o domínio da terra
Com a intensificação das grandes jogadas no mercado de alimentos e produção de biocombustíveis, bancos e especuladores estrangeiros passaram a comprar maciçamente terras no Brasil, único país a dispor de campos com área e clima favoráveis à expansão da agricultura para atender às exigências das grandes potências. Esse movimento tem provocado alta no preço das propriedades rurais. Entre 2001 e 2007, o valor médio subiu 131% em reais e 219% em dólar. AIG Capital, fundo de investimentos que já teve participação na Gol Linhas Aéreas, no Frigorífico Mercosul e na Fertilizantes Heringer, está investindo US$ 65 milhões na compra de ações da Calix Agro, subsidiária da Louis Dreyfus Commodities, criada para adquirir terras e plantar no Brasil. A Cargill construiu ilegalmente um porto às margens do Rio Tapajós, em Santarém, no Pará, de onde exporta soja para seu terminal em Liverpool, na Inglaterra. De lá, a soja vai até a produtora Sun Valley, também de propriedade da Cargill que, por sua vez, a utiliza para alimentar frangos para produzir os nuggets, distribuídos para as lanchonetes do Mcdonalds em toda a Europa.
Texto Original Postado em:
http://www.anovademocracia.com.br/content/view/1694/105/

