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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Honduras resiste!


Agencia Brasil de Fato - Editorial
Barack Obama mostra sua verdadeira face. A América Latina não mais se curva docilmente aos ianques da Casa Branca. A resistência do povo hondurenho mostra o caminho
As eleições em Honduras, organizadas de modo a legitimar o golpe que, em 28 de junho, afastou do poder o presidente Manuel Zelaya, foram um completo fiasco. Oficialmente, o Tribunal Supremo Eleitoral declarou vencedor Porfírio “Pepe” Lobo Sosa, num processo que teria atraído pouco mais de 60% dos eleitores. A cifra é completamente falsa e absurda. Uma delegação de observadores estadunidenses, reconhecidamente de direita (vinculada ao Partido Republicano e à comunidade cubana) admitiu que a participação foi inferior a 47% dos eleitores. Já o Comitê para a Defesa dos Direitos Humanos de Honduras, integrado por movimentos sociais e grupos apoiadores de Zelaya, afirma que apenas 22% dos eleitores participaram. Isto é, a população atendeu ao chamado de boicote à farsa.
Os governos de alguns dos países mais importantes da América Latina não reconhecem o resultado eleitoral, incluindo Brasil, Venezuela e Argentina. Como resultado geral, o golpe armado por Washington resultou em total fiasco, e isso é muito importante, dado o fato de que, historicamente, Honduras era considerado o “porta-aviões não naufragável dos Estados Unidos”. Sequer em seu próprio “quintal” o imperialismo estadunidense encontra-se em condições de determinar o ritmo e a forma do jogo. Em outros termos, estados assistindo à agonia da Doutrina Monroe.
Que ninguém se iluda: coube à administração Obama armar o golpe atrapalhado de 28 de junho, assim como o de tentar conferir legitimidade à farsa que deu a vitória a Lobo Sosa.
Os generais golpistas são todos graduados pela Escola das Américas, centro de formação mantido pelo exército dos Estados Unidos, por onde passaram alguns dos mais célebres ditadores e torturadores latino-americanos durante o período da Guerra Fria. Todos têm relações íntimas com os diplomatas e oficiais estadunidenses baseados em Tegucigalpa, incluindo o general Romeo Vásquez Velásquez, comandante das Forças Armadas de Honduras até as vésperas do golpe (foi destituído por Zelaya dias antes). Ninguém pode imaginar seriamente que os agentes de CIA em Honduras ignoravam os planos para depor Zelaya. Menos imaginável ainda é a idéia que eles sabiam, mas não informaram a Casa Branca. E mais: o embaixador estadunidense em Honduras, Hugo Llores, é um conhecido agente provocador. Entre outros feitos, ele foi expulso da Bolívia, em setembro de 2008, por sua comprovada participação na tentativa de orquestrar uma guerra civil no país.
A mídia burguesa, para variar um pouco, desinformou sobre as reais motivações do golpe. Ele não aconteceu porque Zelaya pretendia “eternizar-se no poder”, mas por ter cometido o grande pecado de associar Honduras à Alternativa Bolivariana para a América Latina e Caribe (Alba)e ao Petrocaribe. Isto é, aproximou-se do demônio Chávez. Mas, sobretudo, Zelaya anunciou que transformaria a base militar estadunidense de Soto Cano (situada a 30 km de Tegucigalpa) em aeroporto civil, e que faria isso com financiamento venezuelano.
A base de Soto Cano era utilizada pela CIA, ao longo dos anos 1980, como centro de operações contra o governo sandinista da vizinha Nicarágua, e para treinar soldados e oficiais que lutavam na guerra civil de El Salvador. A Casa Branca não admitiu a hipótese de perder esse “porta-aviões”, especialmente quando sabia que teria que fechar, em setembro, a sua base militar em Manta, na costa do Pacífico equatoriana, por determinação do presidente Rafael Corrêa. Por uma incrível coincidência, a retirada das tropas estadunidenses do Equador foi, praticamente, simultânea à assinatura do acordo com a Colômbia e para instalar sete bases militares em plena região amazônica e... ao golpe em Honduras.
Mas a operação, em seu conjunto, fracassou. O presidente “eleito” Lobo Sosa carece de qualquer legitimidade. É óbvio, para quem quer ver, que nada ficou resolvido em Honduras. E isso acontece num momento em que o governo Obama experimenta o inferno no Afeganistão, onde também acaba de tentar, sem conseguir, organizar uma farsa eleitoral para assegurar no poder a permanência do presidente Hamid Karzai, um ex-agente da CIA. A fraude eleitoral foi tão escandalosa, que mesmo a revista Economistqualificou como inaceitável a “reeleição” de Karzai. Com um pequeno detalhe: a guerra do Afeganistão já envolve o Paquistão, país com armamento nuclear e com uma população cada vez mais convencida de que os Estados Unidos devem retirar suas tropas da região. Não por acaso, a Guerra do Afeganistão já é chamada de “o Vietnã de Obama”.
Em Honduras, como no Afeganistão, Barack Obama, laureado com o Nobel da Paz (reflexo do consenso capitalista em torno de sua liderança), mostra sua verdadeira face. Cai rapidamente a máscara, mas a América Latina não mais se curva docilmente aos ianques da Casa Branca (exceto pelos fiéis escudeiros capitaneados por Álvaro Uribe). Evidencia-se a crise de hegemonia dos Estados Unidos, novos conflitos se preparam. A resistência do povo hondurenho mostra o caminho.
Fonte: Jornal Brasil de Fato

domingo, 29 de novembro de 2009

HONDURAS - Boletim da Resistência



HONDURAS – AMÉRICA LATINA LIVRE BOLETIM DE LUTA – III – 29/11/2009
(Resistência Hondurenha)
A FARSA
Com apoio político, material e militar dos Estados Unidos o governo golpista tenta hoje seu último lance para “legalizar” o golpe de estado que derrubou o presidente constitucional Manuel Zelaya. “Eleições” dirigidas, com cartas marcadas onde o poder, qualquer que seja o vencedor, será sempre dos golpistas. O povo hondurenho está sendo ameaçado, coagido a comparecer para dar números que possam justificar o golpe e permitir que a barbárie ganhe contornos de “democracia”.
Todas as tentativas de retomar a legalidade foram feitas pela Resistência, com amplo apoio popular e não há como reconhecer a legitimidade dessas eleições se restritas aos grupos que controlam as instituições e a economia do país com o apoio das forças armadas ditas hondurenhas. São forças auxiliares do governo dos EUA e subordinadas aos comandantes da base militar norte-americana em Tegucigalpa.
Nós, os resistentes, não pretendemos impor nenhum governo, nenhuma ordem política, econômica e social que não seja o reflexo da vontade dos hondurenhos. Livre, sem a violência da ditadura sob a qual vivemos. Continuaremos a lutar apoiados por povos e governos democráticos da América Latina, de todas as partes do mundo, agora numa etapa diferente, a refundação de Honduras a partir de uma nova carta magna que seja elaborada pela vontade popular expressão numa assembléia nacional constituinte e sem perder de vista que o presidente legítimo dos hondurenhos é Manuel Zelaya.
Para que a farsa se consuma contam com apoio da chamada grande mídia internacional, controlada toda ela pelo capital dos grandes grupos econômicos que sustentam e formam o império norte-americano. Não toleram que deles se discorde, ou que modelos diversos existam no mundo.

A BARBÁRIE ANIMALESCA DOS “PATRIOTAS” FARDADOS
São bárbaros, são cruéis, são cínicos, são covardes e são desumanos. Obama não é diferente de George Bush, só no estilo, no sorriso hipócrita e nos acordos não cumpridos.
Essa característica, que é um desrespeito ao povo hondurenho, por extensão a todos os povos da América Latina, às nações livres do mundo, se mostra na ação criminosa de militares destituídos de princípios, honra e compromissos com o que chamam de pátria, na verdade, a deles, é o soldo que chega de Washington. São répteis na essência da palavra.
Prisões, invasões de domicílios de líderes oposicionista, assassinatos, tortura, estupro, tudo isso é o cotidiano de Honduras desde o golpe em julho.
Hoje a população está sendo coagida a votar por todos os meios de pressão possíveis. Desde ameaças de prisão pura e simples com flagrantes montados, a advertências sob risco de perder empregos com o não comparecimento às urnas, muitas vezes pessoas são presas em casa e levadas a votar – funcionários públicos principalmente – além das fraudes costumeiras de muitos deles votarem várias vezes. Não importa para eles o resultado que já está decidido em cédulas previamente marcadas, mas a presença para justificar ao mundo tamanha ignomínia.
Em todas as ruas de todas as cidades hondurenhas militares armados até os dentes se posicionam, inclusive franco atiradores para que a “democracia” deles se exerça e a farsa se consuma.
A grande mídia ignora isso, pois foi orientada pelas redes CNN e FOX a dizer que tudo é “uma festa democrática”.
Um exército subalterno armado enfrentando um povo desarmado, a típica covardia dos boçais, dos torturadores, dos criminosos assalariados por potência e interesses estrangeiros.
Militares assassinaram Mario Hernández e seu filho Henrý Hernández, de 24 anos. Mario era casado com a candidata a alcaideria (prefeitura) de San Francisco, no departamento de Atlántica. Ambos foram torturados antes de serem executados. O fato aconteceu ontem, 28 de novembro. Não admitem contestações quaisquer que sejam.
Hoje pela manhã duzentos bandoleiros fardados dos golpistas, ditos militares, mas com atitudes animalescas de bestas feras, invadiram o Sindicato dos Trabalhadores de Bebidas e Similares – STIBYS – local de reunião da resistência todos os dias desde o golpe. Pela manhã o esquadrão de assassinos deixou o local, mas lá ficou um jipe com soldados evitando a presença de resistentes.
O jovem Gencis Mario Orlando Umanzor Gutiérrez foi detido na madrugada de 28 para 29 de novembro na operação terror dos militares hondurenhos e levado para local desconhecido. A divulgação dos nomes é importante para que organizações internacionais de direitos humanos possam cobrar medidas de proteção, antes que os prisioneiros sejam assassinados. A prisão foi na colônia Centroamericana de Comayauela. Depois de preso foi entregue à patrulha MO3-03, um dos códigos do terrorismo financiado e montado por Washington.
Os observadores internacionais considerados suspeitos estão confinados em locais onde não podem tomar conhecimento de toda essa barbárie e só aqueles autorizados pelo governo golpista depois de ordens de Washington podem circular por Honduras. A CIA e o MOSSAD trabalham livremente no processo de escravização e brutalização do povo hondurenho e da nação hondurenha. São os tais “conselheiros”.
LISTA JÁ CONHECIDA DE PESSOAS DETIDAS EM 28 DE NOVEMBRO
Marcus Gualan Cortes, detido às 01h50m /am pela Polícia Nacional (esquadrão da morte).
Gustavo Adolfo Cortes Gualan detido às 01h50m/am, pela Polícia Nacional (esquadrão da morte).
Victor Corrales Danly, detido em El Paraíso, às 23horas, pela Polícia Nacional (esquadrão da morte).
Gencis Mario Orlando Umanzor Gutiérrez, Centroamericana, Comayaguela, 02h30/am, militares (soldados supostamente hondurenhos mas controlados pelos EUA).
Humberto Castillo, Oficina Selcon, Tegucigalpa, 6h/am, policiais militares (esquadrão da morte).
As notícias sobre presos e desaparecidos são enviadas pelo CENTRO DE PREVENCION, TRATAMIENTO Y REABILITACION DE LAS VICTIMAS DE LA TORTURA Y SUS FAMILIARES e enviadas por mail a FIAN, organismo da resistência.
O PODER É DO POVO! ZELAYA É O PRESIDENTE. RESISTIMOS A BRUTALIDADE MILITAR DOS EUA!
LEIA TAMBÉM: - Contra a ilegitimidade da eleição, representante da Conlutas leva solidariedade ao povo hondurenho –clique aqui

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Diplomacia teme golpe na Guatemala


EUA, Brasil e OEA creem que setores guatemaltecos podem seguir o mesmo caminho que em Honduras
Denise Chrispim Marin, ENVIADA ESPECIAL, TEGUCIGALPA
EUA, Brasil e a Organização dos Estados Americanos (OEA) temem que o golpe que derrubou o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, motive setores da Guatemala a seguir pelo mesmo caminho. O risco não parece ser iminente, mas deverá aumentar à medida que se aproxime a corrida eleitoral para a sucessão do presidente Álvaro Colom, em 2011. Sobretudo, se a primeira-dama, Sandra Torres, vier a se candidatar.
Na semana passada, um observador dos EUA comentou a preocupação do Departamento de Estado com o possível colapso institucional na Guatemala. A mesma ponderação foi ouvida de representantes da OEA. Embora não houvesse mencionado a Guatemala, o chanceler Celso Amorim várias vezes ressaltou que o golpe de Estado em Honduras poderia abrir um precedente perigoso na América Latina.
O caso da Guatemala preocupa desde maio, quando foi descoberto um vídeo gravado pelo advogado Rodrigo Rosenberg, dias antes de ser assassinado, no qual acusava o presidente Colom, os principais assessores dele e a primeira-dama por sua morte. Colom negou a acusação. A denúncia está sendo investigada pela Comissão da ONU contra a Impunidade na Guatemala - órgão que tentar corrigir o nível de 98% de crimes sem punição no país.
"Na época, falou-se em golpe de Estado. Mas, dada a divisão da sociedade guatemalteca, seria mais provável uma guerra civil", afirmou o embaixador do Brasil na Cidade da Guatemala, Luís Antonio Fachini Gomes. "Não vejo essa possibilidade hoje. Mas não excluo o risco de golpe de Estado no futuro."
Conforme explicou, as políticas de redução da pobreza e de renda mínima adotadas pelo governo Colom provocam duras reações de setores sociais tradicionalmente mais favorecidos. Colom tem 45% de aprovação, segundo recentes pesquisas. Em especial, mantém-se apoiado na população do interior do país, nas camadas mais pobres e nos sindicatos.
Nos últimos dois meses, a preocupação com a contaminação da crise hondurenha na Guatemala motivou uma espécie de romaria de políticos e de empresários de lado a lado da fronteira.

"EVITA GUATEMALTECA"
Eleito pela União Nacional para a Esperança (UNE), partido criado pouco antes das eleições de 2007, Colom conta com maioria no Congresso, graças à aliança com outro partido novo, o Grande Aliança Nacional (Gana). Assim como em Honduras, a Constituição não lhe permitirá nunca mais sentar-se na cadeira do presidente. Mas há possibilidade de uma leitura menos rigorosa da Constituição - que não permite a candidatura de parentes de ex-presidentes - para a indicação da mulher de Colom, Sandra. Essa opção, entretanto, deve acentuar a divisão e armar espíritos mais favoráveis a uma solução não institucional.
A primeira-dama é a coordenadora dos programas sociais do governo e converteu-se em uma espécie de "Evita guatemalteca". Ao contrário de Colom, originário de famílias tradicionais, ela vem de camadas menos privilegiadas e foi criada em Belize. "A primeira-dama tem um imenso carisma, é conhecida como a mãe dos pobres e acumula grande aversão das elites guatemaltecas", explicou Gomes.

Fonte: Estadão, 05.10.2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Noites de terror em Honduras

Cartoon de Latuff.
Por Angel Palacios (resistir.info)
A ditadura converteu Honduras numa imensa prisão onde as noites são aproveitadas por matilhas de polícias e militares que invadem, torturam e saqueiam.
À noite em Honduras o que percorre as ruas é o terror com botas, capacetes e uniformes. Veículos com militares e polícias encapuzados patrulham as ruas nas noites, disparando contra os bairros e as casas. Saem a toda velocidade dos comissariados para regressar em pouco tempo com as camionetas repletas de cidadãos golpeados, humilhados, sangrentos...
A noite com toque de recolher é o cenário preferido pelos sabujos. O toque de recolher, sem garantias constitucionais, sem câmaras de televisão, nem multidões nas ruas, é o momento que os cães da ditadura aproveitam para semear o terror. Na noite passada pudemos percorrer vários bairros e foi isto que vimos:
Avisam-nos que numa das escadas de um bairro um comando policial chegou de forma intempestiva e vão invadir uma vivenda. Trata-se da casa de uma pintora muito conhecida na vizinhança. Na volta de uma escada oito polícias, como gatos na escuridão, cercam a casa. A casa está pintada de rosa e tem um grafitti contra o golpe na fachada. Os polícias golpeavam a porta com paus. Partem os vidros da janela. Um dos polícias, com uma bomba lacrimogénea na mão, calcula o ângulo para lançá-la dentro da casa. O veículo identificado como Polícia Nacional aguarda-os na parte debaixo das escadas. O polícia que conduz dá o alerta de que um grupo de jornalistas estão a gravá-los. O chefe da operação (subcomissário García) tapa-nos a lente de uma das câmaras. Outros tapam-se o nome costurado nos seus coletes. Há vizinhos que abrem as suas portas e janelas confiados na presença da imprensa internacional e gritam-lhes, denunciam-nos. Os polícias tratam de retirar-se. O polícia identificado como García justifica-se argumentando que vive nessa vizinhança e que não suportava que a sua vizinha houvesse pintado na fachada: "GOLPISTAS: EL MUNDO LOS CONDENA", "VIVA MEL". Foi esse o argumento do funcionário para desencadear o terror contra uma mulher humilde. Membros de organizações de Direitos Humanos e da Frente de Advogados contra o Golpe fazem-se presente e os polícias fogem acossados pela denúncia. A mulher que, temerosa, por fim abriu a porta, também saiu do bairro. Foi dormir num lugar seguro, perante a ameaça de que voltassem à sua procura mais tarde.
Um jovem a aparentar 20 anos caminha por uma rua escura em plena noite. Tem o rosto banhado em sangue e uma ferida na fronte de uns 5 centímetros. Anda descalço. Explica-nos: estava na porta da sua casa quando uma camioneta da polícia apareceu na sua rua e sem meias palavras saíram e golpearam-no entre outros. Atiraram-no para cima da camioneta e arrancaram com ele. Enquanto davam voltas e o pateavam, revistaram-lhe os bolsos despojando-o de um telemóvel e do seu relógio. Continuava jogado no piso da camioneta enquanto escutava os polícias a discutirem sobre quem ficava com o relógio e quem com o celular. Deixaram-no estendido longe da sua casa. O jovem não quis fazer a denúncia. Não queria mais problemas com a polícia, estava aterrorizado. Só pedia que o levássemos à sua casa.
Outro jovem é detido na esquina do seu bairro. Antes de subi-lo para a camioneta, quatro polícias lhe dão uma sova. A seguir esvaziam uma lata de tinta em spray na sua cara. O jovem respira com dificuldade. Conta-nos no hospital, enquanto lhe limpam a tina dos olhos inflamados pelos golpes, que um dos polícias lhe dizia enquanto o golpeava: "Não é da resistência? Poi resiste!"
Numa ponte há um posto de controle. Detêm-nos e entabulamos conversação com os polícias qualquer assunto para poder seguir. Um veículo que passa por ali percebe o posto de controle e retrocede lentamente. Um dos polícias que nos mandou parar olha o carro a retroceder e convida-nos, divertido, a ver o que vai acontecer, mas obrigando-nos a manter as câmaras desligadas. Sob a ponte, pela rua que seguiu o carro que tentar evitar o posto de controle, há um grupo de polícias a caçar os que tentam evadir-se. Detêm-no. Na parte de cima da ponte não se vê mas ouve-se... ouve-se a porta que se abre... ouve-se a raiva e os insultos dos polícias, os golpes contra o carro... ouvem-se outros golpes e os gritos do condutor. Não ouvimos mais. O carro seguiu dali a pouco.
Ouvem-se disparo numa avenida paralela a um bairro popular. Uma camioneta cheia de polícias é a que dispara na noite, às cegas, contra as casas do bairro. Vão devagar. Nada os ameaça. Disparam repetidamente. Nem sequer apontam. Só semeiam o terror na sua passagem.
Num comissariado à meia-noite, os membros de organizações de direitos humanos, advogados e imprensa internacional perguntam pelos detidos, que acabámos de ver que desceram de uma pick-up patrulha (eram cerca de 10). Sarcasticamente, o oficial diz-nos que ali não têm ninguém preso. Mas os presos gritam que são da resistência. Gritam os seus nomes. O oficial continua a negar o que é evidente. A insistência dos advogados e dos defensores dos direitos humanos consegue que soltem a metade dos detidos e que um médico venha a essa hora constatar o estado físico do resto. Todos golpeados, sangrando. Pela manhã os advogados da resistência conseguiram que os soltassem.
Em outro comissariado, atrás de um portão negro, escutam-se as vozes de pelo menos uma vintena de pessoas a recitarem os seus nomes. Do lado de fora umas quantas mães e esposas tentam estabelecer contacto com o seu familiar, tentam reconhecer-lhes a voz. Os uniformizados riem diante da cena. Aproximam-se e golpeiam contra o portão... ...e contra os familiares.
Em outro bairro, nas alturas de Tegucigalpa, cerca de 40 uniformizados, entre policias e militares, avançam apontando fuzis de guerra às casas. Quando se pergunta quem é o comandante dessa operação todos os uniformizados assinalam-nos um militar. Este diz que é uma operação de rotina, porque "o governo não vai continuar a permitir desordens" e que "o que se passe a essa hora não é da sua responsabilidade porque há toque de recolher". As credenciais de imprensa internacional e de organizações humanitárias dificilmente conseguem abrir-nos passagem e continuar. Os uniformizados afastam-se. As luzes das casas no bairro se vão acendendo à medida que o esquadrão do terror se afasta. Ninguém sai, mas ouvem-se gritos: "Assassinos", "Urge Mel", "Viva a Resistência".
Estes são apenas alguns casos dos que pudemos ver numa noite. Todos os dias ocorre o mesmo. Não se sabe quantos detidos há a cada noite. Não se sabe quantos corpos são rompidos, maltratados, humilhados nas noites de Honduras. Não se sabe quantas mulheres são violadas. Não se sabe os nomes, as idades, não se conhecem os testemunhos... porque os toques de recolher são para isso. Para que a matilha de assassinos que sustentam esta ditadura semeie o terror sem que transpira aos media e para que as vítimas se imobilizem e não denunciem.
Nas noites de Honduras não brilham as estrelas. Só as luzes das patrulhas e o sangue dos que caem nas mãos da matilha uniformizada. Botas e mais botas nas ruas, nas costas, nos rostos dos hondurenhos. E apesar do terror que a cada noite semeia a ditadura, não há medo. A resistência continua.
Quando sai o sol, há marchas, tomadas de ruas, mobilizações pacíficas mas desafiantes e contundentes. Os que curam as suas feridas talvez não os vejamos durante alguns dias nos protestos, mas a notícia corre e a indignação pelo que se está a passar hoje em Honduras faz com que muitos mais se incorporem. Noventa dias de resistência. Corpos contra balas. Os organismos direitos humanos referem-se a mais de 600 detidos, dos que se tem conhecimento. Mas muitos são detidos e torturados na noite e não denunciam por medo. Honduras precisa que o mundo reaja mais rapidamente perante a terrível violação dos direitos humanos que se está a verificar. A diplomacia não basta. É urgente que o mundo actue, aqui em Honduras e agora.
PS: As organizações de direitos humanos e advogados solidários fazem um trabalho incansável para atender as vítimas, para acompanhar as denúncias, para efectuar registos. Mas não têm recursos. Não contam com o mínimo. Não têm como encher o reservatório de gasolina para se deslocarem aos lugares, não têm saldo nos telefones para efectuar as chamadas necessárias. E ainda assim fazem magia para defender os direitos dos seus compatriotas. Levam 90 dias fazendo magia e é muito o que conseguem. A sede da COFADEH está a toda hora cheia de gente que vai denunciar os atropelos vividos, e cheia também de gente que vai apoiar o seu trabalho. Muitos e muitas dirigentes destas organizações de direitos humanos foram perseguidos, encarcerados para tentar calá-los. Apesar das dificuldades continuam a ser o único lugar aonde acudir para buscar refúgio diante da repressão. É urgente a solidariedade povo a povo, que os organismos de direitos humanos de outros países, que os comités de solidariedade de outros países se ponham em contacto com eles e os apoiem, divulguem as suas denúncias, enviem apoio a essas organizações que em Honduras lutam contra o Terror da Ditadura.
No vídeo abaixo o fechamento de uma emisora de rádio não alinhada aos golpistas.

Em editorial, Folha decide apoiar os golpistas de Honduras


Na imprensa, os editoriais servem como declaração de tomada de posições. Revela como aquele veículo de comunicação irá se posicionar editorialmente em relação a determinado assunto. O editorial é o espaço esclarecedor que mostra com todas as letras o que os textos da cobertura jornalística mantém nas entrelinhas.
Nesse sentido, é esclarecedor o editorial desta terça-feira (29) da Folha de S. Paulo sobre a situação de Honduras.Ao invés de condenar os golpistas, como está fazendo toda a comunidade internacional, a Folha prefere criticar o governo brasileiro por dar abrigo ao presidente Manuel Zelaya. E pior: chega a elogiar os golpistas, dizendo que o "regime chefiado por Roberto Micheletti em Honduras ocupa categoria bem mais tênue de ilegitimidade democrática". A frase é praticamente uma releitura internacionalizada do termo "ditabranda" que tanto constrangimento causou ao jornal. (
leia aqui)
E mais: o editorial ainda afirma que o "governo interino (...) respeitou a linha sucessória constitucional, assegurou o poder em mãos civis e manteve o calendário das eleições presidenciais, marcadas para 29 de novembro".Ignorando as mais elementares noções de política externa, o jornal também "estranha" que o governo brasileiro não negocie com o "presidente" Micheletti, o que seria uma forma de reconhecer o governo golpista.
No editorial, não há palavra de condenação ao estado de sítio declarado pelo governo golpista, nem sobre os ataques à imprensa, ou sobre as ameaças à sede diplomática brasileira e as sucessivas violações aos direitos humanos perpetradas pelos gorilas hondurenhos.Após um editorial tão esclarecedor, não causará surpresa se a cobertura jornalística dos veículos de comunicação do grupo Folha começar a pender para o apoio aberto aos golpistas que assaltaram o poder em Honduras.Da redação,Cláudio Gonzalez
Veja abaixo a íntegra do editorial da Folha:
Um passo atrás
"Brasil se intromete mais do que deve em Honduras e toma atitude estranha de negar-se ao diálogo com governo de fatoO ENVOLVIMENTO do Brasil na crise hondurenha foi além do razoável, e provavelmente o Itamaraty já perdeu a capacidade de mediar o impasse. É preciso dar um passo atrás e recuperar a equidistância em relação seja à intransigência de um governo ilegítimo, seja a uma plataforma, dita bolivariana, descompromissada com a democracia.O Brasil perdeu o mando sobre sua embaixada em Tegucigalpa. A casa está ocupada por cerca de 60 militantes, que acompanham o presidente deposto, Manuel Zelaya. Devido à omissão do governo brasileiro, Zelaya e seu séquito transformaram uma representação diplomática estrangeira numa tribuna e num escritório político privilegiados.O salvo-conduto para o proselitismo chegou ao ápice no sábado. De dentro da embaixada brasileira, Zelaya conclamou a população do país à revolta. Se o Brasil considera o presidente deposto seu "hóspede", deve impor-lhe a regra fundamental da hospitalidade diplomática: calar-se sobre temas políticos internos. Do contrário, caracteriza-se intromissão de um país estrangeiro em assuntos domésticos hondurenhos.A propósito, terá o Itamaraty controle sobre todos os cidadãos alojados em sua representação? Sabe, de cada um, a nacionalidade e o motivo de estar ali? O abrigo deveria restringir-se a Zelaya e seus familiares próximos; todos os demais precisam ser retirados da embaixada. Não cabe ao Brasil hospedar a guarda pretoriana do presidente deposto.Outra posição cada vez mais estranha do Brasil é a recusa absoluta de negociar com o governo interino de Roberto Micheletti. Tal intransigência contraria a tradição diplomática do Itamaraty, não contribui para a dissolução do impasse e cai como uma luva para o objetivo do chavismo -interessado em prolongar a desestabilização política em Honduras.O presidente Lula negocia com a ditadura cubana e a favor dela interveio na Assembleia Geral da ONU. Em Nova York, afagou o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que acabava de reiterar a negação do Holocausto e ser flagrado em nova trapaça nuclear. Logo depois, na Venezuela, Lula se reuniu com golpistas africanos e ditadores homicidas do continente, como Robert Mugabe (Zimbábue) e Muammar Gaddafi (Líbia) -o líder sanguinário do Sudão não pôde comparecer porque poderia ser preso numa conexão aérea.O regime chefiado por Roberto Micheletti em Honduras ocupa categoria bem mais tênue de ilegitimidade democrática. Violou a Constituição ao expulsar do país um presidente eleito, quando a ordem da Corte Suprema era de prender Zelaya, por afronta a essa mesma Carta. O governo interino, contudo, respeitou a linha sucessória constitucional, assegurou o poder em mãos civis e manteve o calendário das eleições presidenciais, marcadas para 29 de novembro.O Brasil precisa recobrar a lucidez diplomática -e, com ela, a sua capacidade de mediação. Ajudar a dissolver o impasse é a melhor contribuição que o Itamaraty tem a oferecer no caso de Honduras".

Veemência de Lula forçou a ação da ONU

Poucas horas depois de seu veemente discurso (leia AQUI) na Assembléia Geral da ONU, o presidente Lula (foto AFP acima) já poderia fazer ontem um balanço surpreendentemente favorável do episódio do “abrigo” dado pela embaixada do Brasil em Tegucigalpa ao presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya – expulso há três meses do palácio presidencial e do país pelo golpe que instalou Roberto Micheletti no poder.
A volta a Honduras do presidente legítimo criou um fato novo. O governo Obama – devido à diplomacia sinuosa conduzida pela secretária de Estado Hillary Clinton, antes ambígua e apoiada em personagens duvidosos herdados do governo Bush, como Hugo Llorens e Thomas Shannon – parecia disposto a fazer corpo mole até ser consumido todo o restante do mandato de Zelaya (leia AQUI, AQUI e AQUI) numa tática destinada a favorecer os objetivos golpistas.
O regime do golpe não conseguiu ser reconhecido por qualquer país, mas sabotou e fez fracassar a mediação do presidente costarriquenho Oscar Árias – uma idéia infeliz de Washington, marginalizando a OEA. Agora, ao contrário, o Brasil revigorou o processo, forçou compromisso do governo Obama com a democracia e mobilizou a OEA e em especial a ONU, que afinal tomou suas primeiras medidas concretas (o debate no Conselho de Segurança é previsto para amanhã).
O secretário geral Ban Ki-moon (foto ao lado) suspendeu temporariamente a assistência técnica atualmente dada pela ONU ao Supremo Tribunal Eleitoral de Honduras, por não acreditar que haja condições neste momento de se fazer eleições com um mínimo de credibilidade e capazes de devolver a paz e a estabilidade ao país. O regime do golpe tentava impingir a votação com os adversários acuados e a imprensa sob controle.

O fato novo que mudou tudo
O secretário geral citou a preocupação da ONU com as denúncias de violações dos direitos humanos (o regime também reprime a mídia contrária ao golpe, como acusou o grupo Repórteres Sem Fronteiras). Ao mesmo tempo, conclamou os golpistas a respeitarem os tratados e convenções internacionais ratificados por Honduras, inclusive – e principalmente – a inviolabilidade da missão diplomática do Brasil.
Convencido de que o fim da crise hondurenha exige acordo consensual, Ban Ki-moon apoiou as tentativas regionais de mediação e conclamou todos os atores políticos a redobrarem esforços nessa direção. Uniu-se ainda à OEA e aos líderes regionais e fez apelo em favor de um acordo, conclamando à busca ao diálogo – para o qual a ONU está pronta a colaborar (leia a cobertura da Reuters no New York Times
AQUI).
Nada disso aconteceria sem a cobrança enfática de Lula, ante o cerco dramático à embaixada brasileira, ao abrir a Assembléia Geral. Mas no Brasil isso é pretexto para a nova campanha da mídia golpista – para variar, contra o país mais do que contra o presidente. Às explícações claras e lúcidas do ministro do Exterior Celso Amorim sobre a chegada de Zelaya à embaixada de Tegucigalpa, ela prefere imaginar seus próprios complôs fantasiosos.

O que o ministro relatou na entrevista – em Nova York, duas horas e meia após a chegada de Zelaya à embaixada – a jornalistas brasileiros e estrangeiros desmente a versão intrigante da mídia golpista, que apóia o golpe de Honduras como em 1964 apoiava o do Brasil e, depois, os 20 anos de ditadura. Na visão distorcida dela, o governo Lula foi parte de uma trama da Venezuela de Hugo Chávez com Zelaya.

O alarme falso e a verdade
A embaixada soube da presença de Zelaya em Honduras, segundo Amorim, meia hora antes da chegada dele ao prédio. A primeira dama Xiomara Castro – que não deixara o país com o marido, preferindo manter-se ativa nos protestos de rua e na articulação contra os golpistas – pediu para ser recebida pelo encarregado de negócios do Brasil, ministro Francisco Catunda Resende, a quem informou que Zelaya estava nas cercanias e viria procurá-lo.
Antes tinha circulado a informação de que o presidente deposto estava em Honduras, mas na representação da ONU em Tegucigalpa – o que provocara ação repressiva contra manifestantes em frente ao prédio. Comprovada a falsidade de tal informação, o chefe do regime golpista, Roberto Micheletti, apareceu triunfante na TV para garantir que Zelaya, ao contrário, “continua desfrutar de sua suíte num hotel na Nicarágua”.
O ministro Catunda Resende, após ouvir Xiomara, comunicou a situação a seus superiores no Itamaraty e foi autorizado a receber Zelaya – informação passada depois a Amorim e ao presidente Lula. Nenhum contato foi feito com o governo golpista de Honduras porque o Brasil só reconhece como presidente o próprio Zelaya, eleito pelo voto nos termos da Constituição e derrubado pelo golpe militar.
Amorim explicitou ainda que Zelaya (foto ao lado), segundo a informação transmitida por ele próprio à embaixada, chegara “por meios próprios e pacíficos”. E não está ali na condição de asilado, já que o Brasil, como a comunidade internacional, a ONU, a OEA e demais governos, inclusive o dos EUA, continua a reconhecê-lo como presidente constitucional. Assim, é hóspede no prédio como “abrigado” – ou “refugiado”, palavra usada por Lula ao discursar na ONU.
Que governo cometeria a temeridade de negar “abrigo” – ou “refúgio” – em sua embaixada ao presidente que reconhece como constitucional e legítimo? Afinal, se o fizesse haveria o risco até de provocar sua captura – ou assassinato – pelo regime instalado no golpe de 28 de junho. Pelo relato de Amorim ficou claro que o Brasil se vira diante de um fato consumado, enquanto os golpistas passavam a exigir a entrega de Zelaya – para ser preso.
A irresponsabilidade sem limite
O quadro exposto por Amorim na primeira entrevista sobre o caso em Nova York (clique no YouTube ao fim deste post para ouví-lo) não deixava margem a dúvida. Mas a mídia golpista, habituada a fabricar estratégia para a oposição demo-tucana de virgílios, agripinos, maias & freires, anunciou nas horas seguintes outra de suas desastradas e pândegas investigações parlamentares – do tipo mensalão, dossiê fajuto, apagão aéreo, marolinha, Sarney, Petrobrás, etc.
Nada resultou de nenhuma, já que elas tinham em comum seu caráter destrutivo. Sistematicamente contra o Brasil e os brasileiros, só buscam prejudicar os interesses do país e comprometer sua imagem no mundo. Como o esforço (que ainda persiste) contra a Petrobrás no momento mesmo em que essa empresa, orgulho nacionl, faz sua maior e mais consagradora descoberta.

Comparem o relato de Amorim com as manchetes irresponsáveis de O Globo na terça-feira (“Brasil abre embaixada para Zelaya tentar retomar o poder em Honduras”) e na quarta (“Ação do Brasil acirra crise e tensão cresce em Honduras”). A “Folha”, ao menos, limitou as manchetes ao factual: terça, “Zelaya volta e se refugia na embaixada brasileira”; quarta, “Honduras sitia a Embaixada do Brasil”. De certa forma é também o caso do Estado de S.Paulo hoje, ao sugerir o que parece fazer sentido: Zelaya, por sugestão de Chávez, teria percebido ser a embaixada brasileira a que melhor serviria a seus propósitos (leia o texto na íntegra AQUI).
A obsessão golpista do império Globo gera jornalismo de esgoto. No jornal, TV e penduricalhos. Não há limite para a leviandade. Bom exemplo é a gravação de áudio ridículo no qual uma brasileira, Eliza Resende Vieira, vocifera contra Zelaya – e contra o Brasil, por defender a democracia e a vida dele, o que cria embaraços para gente como ela. Parecia comercial, repetido à exaustão pelos irmãos Marinho em diferentes programas, veículos e horários.


Vídeo youtube


Texto original publicado em: http://argemiroferreira.wordpress.com/2009/09/24/veemencia-de-lula-forcou-a-acao-da-onu

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O golpe não foi contra Zelaya, foi contra o povo

Postado por Jurandir Paulo
A jovem hondurenha Wendy Elizabeth Ávila foi assassinada neste final de semana. Asmática, morreu em conseqüência de gases tóxicos jogados contra a embaixada brasileira. Não foi o gás lacrimogêneo, mas uma combinação de outras químicas que levou vários populares a vomitarem sangue, inclusive dentro da embaixada. Soldados foram vistos usando máscaras. Contraditoriamente, Honduras é um dos 188 países que assinaram a convenção mundial de proibição de armas químicas. Em 28 e setembro de 2005, ratificou a proibição. Não é estranho estar agora descumprindo uma norma internacional se não obedece nem a Constituição do seu país.
A Constituição de Honduras é clara em garantir o direito de participação do povo:

ARTICULO 2.- La soberanía corresponde al pueblo del cual emanan todos los poderes del Estado que se ejercen por representación.La suplantación de la soberanía popular y la usurpación de los poderes constituidos se tipifican como delitos de traición a la Patria. La responsabilidad en estos casos es imprescriptible y podrá ser deducida de oficio o a petición de cualquier ciudadano.E determina punição a quem a desrespeitar:
ARTICULO 45.- Se declara punible todo acto por el cual se prohíba o limite la participación del ciudadano en la vida política del país.O artigo 3 é claríssimo em proibir um golpe de estado como o que foi praticado.

ARTICULO 3.- Nadie debe obediencia a un gobierno usurpador ni a quienes asuman funciones o empleos públicos por la fuerza de las armas o usando medios o procedimientos que quebranten o desconozcan lo que esta Constitución y las leyes establecen. Los actos verificados por tales autoridades son nulos. el pueblo tiene derecho a recurrir a la insurrección en defensa del orden constitucional.
Os solidários golpistas enrustidos daqui, alguns sem subterfúgios, gritam que o problema é Zelaya.
Sua culpa? Ser chavista. Não, meus caros, vamos parar de mentiras. Zelaya não é e nunca foi o problema. O grande problema, como sempre em nossa história, é que o povo hondurenho acreditava em sua Constituição. Imaginava poder expressar nas urnas sua vontade de mudanças. Queria em novembro, quando eleito um novo presidente (não poderia ser Zelaya, aprendam a ler e a entender, fascistinhas), dizer que desejava uma Constituinte.
O que fizeram as oligarquias e seus gorilas? Seqüestraram o presidente, forjaram uma carta de renúncia, assinaram agora um AI-5, cassando direitos dos cidadãos, fechando a mídia que ainda resistia (Alõ, SIP! Alõ ANJ, e agora?) e vem nossos especialistas, como o tucano Francisco Weffort, perguntar em recente artigo no Globo se “teria sido mesmo um golpe?”. Vamos parar de asneiras. Não há jurista aqui ou acolá que vá nos engabelar. Onde está o direito de defesa, seriamente garantido na Constituição hondurenha? Diz ele:
ARTICULO 82.- El derecho de defensa es inviolable.Los habitantes de la República tienen libre acceso a los tribunales para ejercitar sus acciones en la forma que señalan las leyes.
Chega! É um golpe clássico. Como tantos outros na história da América Latina. Não foi contra Zelaya, originado na mesma classe dos golpistas, mas contra o povo hondurenho, que acreditava, como a estudante de direito Wendy Elizabeth Ávila, que podia confiar na democracia de seu país. Não podem. Ela é uma fraude. Só funciona se o time dos donos do campo e da bola estiver ganhando. Era certo que perderia à frente. Este é o motivo verdadeiro do golpe. Que fique a lição para todos nós.

EUA criticam Zelaya por retorno "irresponsável" a Honduras


Por: Deborah Charles
Washington - Os Estados Unidos criticaram o presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, por seu retorno "irresponsável e tolo" do exílio antes que fosse fechado um acordo para a crise política do país da América Central.
Em uma reunião de emergência da Organização dos Estados Americanos (OEA) para discutir o impasse hondurenho, Lewis Anselem, embaixador dos EUA na OEA, também criticou o governo de facto de Honduras por sua ação "deplorável" ao barrar a entrada de uma missão da OEA e declarar estado de sítio no domingo.
Anselem também criticou Zelaya por alimentar a violência ao voltar a Honduras na semana passada e se abrigar na Embaixada do Brasil, de onde tem instado seus apoiadores para que tomem as ruas.
"O retorno de Zelaya sem um acordo é irresponsável e tolo (...) Ele deveria parar e desistir de fazer acusações enfurecidas e de agir como se estive estrelando em um filme antigo", disse Anselem.
Anselem exortou o governo de facto a conduzir a segurança com "moderação e cautela" e pediu que Zelaya "exerça liderança" e inste seus partidários a manifestar seus pontos de vista de forma pacífica.
Ele disse que os EUA pediram em diversas ocasiões para que Zelaya não voltasse a Honduras antes de um acordo político por causa da possibilidade de agitação.
"Tendo escolhido, sem ajuda externa, voltar sobre seus termos, o presidente Zelaya e aqueles que facilitaram a sua volta guardam responsabilidade particular pelas ações de seus apoiadores", afirmou a autoridade norte-americana.
Anselem afirmou que o governo dos EUA continuará a pedir que os dois lados cheguem a um acordo seguindo os termos de San José, propostos pelo presidente costarriquenho Oscar Arias, que defende a volta ao poder de Zelaya com o mandato terminando em janeiro.
Enquanto o presidente dos EUA, Barack Obama, condenou o golpe que derrubou Zelaya e cortou parte da assistência a Honduras, conservadores o criticam por ajudar um aliado do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
Zelaya foi deposto em um golpe militar em 28 de junho. O governo de facto tem resistido à pressão internacional para a volta do presidente de esquerda e no domingo deu ao Brasil um ultimato de 10 dias para decidir o que fazer com Zelaya, ameaçando fechar a embaixada.
Fonte: Reuters

Honduras sob censura


Forças militares hondurenhas entraram nesta segunda-feira nas instalações da Rádio Globo e da emissora de televisão Canal 36, na capital Tegucigalpa, e obrigaram as duas empresas a encerrarem suas transmissões.BBC BrasilTanto a Rádio Globo quanto o Canal 36 são identificados como favoráveis ao presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, que está abrigado há uma semana na embaixada brasileira em Tegucigalpa.
De acordo com um funcionário da Rádio Globo ouvido pela emissora de televisão Telesur, militares entraram na sede da emissora por volta de 5h da manhã desta segunda-feira, horário local (8h, horário de Brasília).O fechamento das duas emissoras acontece um dia depois de o governo interino do país ter decretado um estado de sítio de 45 dias que suspendeu algumas garantias constitucionais.Também nesta segunda-feira acontece uma reunião extraordinária da Organização dos Estados Americanos para discutir suas “futuras ações” após uma delegação da organização ter sido impedida de entrar em Honduras pelo governo interino do país no último domingo.

Clic na imagem e acesse

Fonte:http://nogueirajr.blogspot.com/2009/09/radio-globo-empastelada-rumo-ditadura.html

Quantas mortes Obama precisará em Honduras?

Por Atilio Borón
Ontem o Comité pela Defesa dos Direitos Humanos de Honduras (CODEH) tornou público um relatório em que responsabiliza o presidente de facto desse país e líder dos golpistas, Roberto Micheletti, pelas mais de 101 mortes extra-legais e sumárias perpetradas desde 28 de Junho até à data. A CODEH foi criada em 11 de Maio de 1981 por um grupo de cidadãos hondurenhos preocupados com as graves violações aos direitos humanos que se estavam a verificar no país quando o governo de Ronald Reagan decidiu que Honduras seria a plataforma de operações a partir da qual a Casa Branca lançaria a sua ofensiva contra a Revolução Sandinista, que acabava de triunfar na Nicarágua, e a Frente Farabundo Martí, que em El Salvador estava progressivamente a reverter em seu favor a luta contra o exército salvadorenho e seus "assessores" estado-unidenses. Como se recorda, Reagan determinou que à frente desse operação ficasse John Negroponte, um homem carente de escrúpulos morais e que não vacilou em organizar esquadrões da morte e envolver-se no tráfico de armas e drogas da Operação Irão-Contras dirigida pelo coronel Oliver North. A árdua luta da CODEH e a sua intransigente defesa dos direitos humanos fez que em Novembro de 1994 o governo de Honduras lhe concedesse um estatuto jurídico legal.
Esta instituição, que conta com numerosos homens e mulheres que pagaram com a vida a sua devoção à causa dos direitos humanos, acusa os golpistas hondurenhos de produzir um novo holocausto. Este massacre silencioso, do que apenas uns pouco casos ficaram registados nos meios de comunicação devido à censura quase total à imprensa e ao sistemático bloqueio de toda informação relativa a esses factos, teve lugar, segundo a CODEH, no âmbito dos sucessivos "toques de recolher" decretados pelos usurpadores. As suas vítimas incluem menores e mulheres. Estes assassinatos tiveram lugar principalmente durante as horas em que a polícia e as forças armadas exerciam um controle absoluto das ruas e praças de Honduras. Para além de qualquer polémica sobre o número exacto de pessoas que morreram neste triste episódio, o certo é que pela mão de Micheletti e dos seus cúmplices e mentores a violência e a morte assenhoraram-se desse país.
E é certo também esta brutal escalada prossegue seu curso com a cumplicidade total do presidente Barack Obama, cuja defesa dos direitos humanos, da legalidade, democracia, liberdade e outros valores consagrados pela luta dos povos demonstrou ser, como prevíamos, uma retórica destinada a enganar os incautos e nada mais. Há poucos dias o presidente Hugo Chávez perguntava perante a Assembleia Geral da ONU qual era o verdadeiro Obama: se aquele que dizia frases bonitas ou o que aceitava o golpe de estado em Honduras (ao qual teimosamente recusa-se a chamá-lo pelo seu nome), mantinha o bloqueio a Cuba e a injusta e ilegal prisão "dos 5", e semeava bases militares por toda a América Latina em nome da liberdade. Lamentavelmente, a resposta salta à vista e dispensa maiores argumentações. A idêntica conclusão chegava há poucos dias Mark Weisbrot, distinto académico estado-unidense e presidente do Just Foreign Policy quando se perguntava quanta repressão Hillary Clinton apoiará em Honduras. Na sua nota, reproduzida em Rebelión ( http://www.rebelion.org/noticia.php?id=92062 ) Weisbrot assegura que "a 11 de Agosto, 16 membros do Congresso dos EUA enviaram uma carta ao presidente Obama instando-o a 'denunciar publicamente a utilização da violência e a repressão de manifestantes pacíficos, o assassinato de pacíficos organizadores políticos e todas as formas de censura e intimidação contra os meios de comunicação'. Ainda estão à espera de uma resposta".
Os gorilas hondurenhos não deixaram direito algum por violar: assassinatos, torturas, sequestros, repressão a manifestantes pacíficos e indefesos, desprezo pelo quadro jurídico nacional e a legalidade internacional, ataque à embaixada do Brasil, censura da imprensa; enfim, a lista seria interminável. Fica de pé a pergunta: Quantas mortes mais precisará a Casa Branca para abandonar a sua inqualificável cumplicidade com um regime que regride a nossa região ao pior do século passado? Quantas precisará Obama para perceber que cada uma delas é também um golpe mais na sua já minguada credibilidade? Os Estados Unidos são o único país com peso significativo na arena internacional que ainda mantém o seu embaixador em Tegucigalpa: O que espera para retirá-lo? Ou será que Honduras está a prefigurar o futuro terrível da América Latina e do Caribe, Obama não sendo outra coisa senão o sorridente e simpático relações públicas, mas que nem por isso deixa de ser uma peça mais na engrenagem infernal do "pentagonismo", como o denominou Juan Bosch.

Para concluir: não é que agora os anti-imperialistas peçam a Washington que intervenha, como refinadamente argumentou nos últimos dias. Já está a intervir, e muito.
E está a fazê-lo para perpetuar um regime violatório dos direitos humanos, não para promovê-los. O silêncio de Obama perante tantos crimes nada tem a ver com a abstinência ou o não-intervencionismo. Calar é também uma forma – dissimulada, muitas vezes manhosa e covarde – de intervir. Aquilo que se lhe perde é que, de uma vez por todas, os Estados Unidos deixe de fazê-lo e abstenha-se de apoiar os golpistas. Do resto se encarregará o povo hondurenho, que tem dado mostras da sua capacidade e valentia para sacar Micheletti de cima sem necessidade de ajuda alguma da Casa Branca.

Caiu definitivamente a máscara dos golpistas: Governo golpista declara ditadura em Honduras

Os golpistas de Honduras acabam de anunciar em cadeia nacional o início da aplicação do decreto que na prática estava em Estado de Sítio no país.
* Estão proibidas todas as reuniões públicas. A Polícia e o Exército estão autorizados a impedir que elas aconteçam.
* Nenhum meio de comunicação pode criticar os golpistas. A empresa nacional de comunicação (CONATEL) e as forças armadas estão autorizadas a fechar os veículos que não acatem as determinações.
* Qualquer pessoa pode ser detida por simples suspeita e encaminhada aos presídios.
* As instituições públicas ocupadas pela resistência vão ser desocupadas à força.
* Os golpistas fizeram um chamado à resistência para que não realize novas manifestações.
Fonte: http://honduraselogoali.blogspot.com/2009/09/decreto-do-estado-de-sitio-ja-esta-em.html

O homem no centro da crise hondurenha: quem é Manuel Zelaya?

Por Larissa Ramina (*)
Filho de poderoso fazendeiro, Manuel Zelaya foi eleito em 2005 pelo Partido Nacional Hondurenho, de direita, com um programa também de centro-direita, num cenário em que poucas famílias da elite controlavam a economia local, e onde a esquerda havia sido escanteada do poder. Apesar disso, Zelaya promoveu reformas econômicas e sociais consideradas de esquerda, custando-lhe a perda do apoio da elite. O artigo é de Larissa Ramina.

Em 28 de junho, Manuel Zelaya fora expulso de seu país, que deixara vestindo pijamas. Destituído por um golpe de Estado, amplamente condenado pela comunidade internacional, refugiou-se na vizinha Nicarágua. Após 3 meses de tentativas frustradas, atravessou clandestinamente as fronteiras hondurenhas e abrigou-se na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, no dia 21 de setembro. Seu retorno ocorre em um momento crucial, na véspera da reunião da Assembléia Geral da ONU, que deverá reunir em Nova Iorque chefes de Estado de todo o planeta.O governo golpista de Roberto Micheletti apressou-se em adotar medidas militares, dispersando violentamente os cerca de 4000 partidários de Zelaya reunidos no local. Um toque de recolher foi imposto na capital, e os aeroportos, escolas e comércio foram fechados. Água, luz e telefone da Embaixada foram cortados.
A OEA adotou resolução pedindo a recondução do líder deposto ao poder e o respeito de sua integridade física. O governo brasileiro solicitou a intervenção do Conselho de Segurança da ONU para garantir a segurança da Embaixada.Mas afinal, quem é Manuel Zelaya, o homem no centro da crise hondurenha? Candidato conservador às eleições de 2006, Zelaya transformou-se após o golpe em herói popular, sendo tratado pela oposição como esquerdista e comunista. Todavia, o homem de chapéu estilo “cowboy”, camisa desabotoada, botas texanas e bigode marcante não é facilmente descrito.Filho de poderoso fazendeiro, fora eleito em 2005 pelo Partido Nacional Hondurenho, de direita, com um programa também de centro-direita, num cenário em que poucas famílias da elite controlavam a economia local, e onde a esquerda havia sido escanteada do poder.
Apesar disso, Zelaya promoveu reformas econômicas e sociais consideradas de esquerda, custando-lhe a perda do apoio da elite.Diante de uma urgência financeira para concretizar reformas sociais no país em que 70% da população vive abaixo da linha da miséria, Zelaya buscou ajuda no setor privado, que firmemente lhe virou as costas. O Banco Mundial, por sua vez, ofereceu-lhe uma ajuda irrisória de U$ 10 milhões. O empréstimo relevante, de U$ 132 milhões, veio de Hugo Chávez.A aliança com a Venezuela, sacramentada na adesão à Alternativa Bolivariana para as Américas, marcou a espetacular virada de Zelaya à esquerda, ilustrada pelo aumento de 65% do salário mínimo hondurenho, que passou de U$189 para U$ 289.
Esse fato marcou o rompimento definitivo com o conservadorismo local. Não obstante, Zelaya foi o primeiro chefe de Estado hondurenho a visitar Cuba desde 1959, onde se desculpou publicamente com Fidel Castro pelo fato de seu país ter servido de base norte-americana para a luta contra a guerrilha; aproximou-se de Daniel Ortega na Nicarágua e protestou contra a ingerência dos EUA na Venezuela e na Bolívia. Para coroar sua posição, declarou na Assembléia Geral da ONU que o capitalismo estaria “devorando os seres humanos”.
Em seguida, isolado pelo patronato e por seu próprio partido, e já começando a inquietar os EUA, Manuel Zelaya insistiu no que chamou de “revolução pacífica” para a instauração de uma “democracia participativa”, convocando um referendo para consultar acerca da possibilidade de modificar a Constituição e permitir a reeleição do chefe de Estado. Essa empreitada, já iniciada por outros chefes de Estado na América Latina, entre os quais Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e também o conservador Álvaro Uribe, foi considerada ilegal pela Corte suprema hondurenha, apoiada por alguns membros do Congresso, por parte do Exército e pelos meios empresariais.
Zelaya foi preso pelos militares na manhã do referendo, no dia 28 de junho de 2009. No Brasil, encontrou o apoio que lhe permitiu retornar a seu país. Porque o Brasil e não Venezuela? A resposta é estratégica, e o Presidente brasileiro tem reputação na Europa e nos EUA muito melhor do que o Presidente venezuelano.O golpe de Estado dirigiu-se a um Presidente que fora eleito por um partido de direita, e que no decorrer do mandato deu uma guinada à esquerda. Micheletti anunciou que Zelaya seria preso e julgado por traição, caso entrasse em Honduras.
O homem no centro da crise fora considerado, portanto, um traidor: um traidor da elite hondurenha.
Larissa Ramina, Doutora em Direito Internacional pela USP e Professora da UniBrasil.

Governo golpista de Honduras baixa AI5 e só tem apoio na mídia brasileira e na extrema-direita americana


Nenhum país do mundo reconheceu o governo de Roberto Micheletti.
Nem Andorra, nem as ilhas Maurício, nem São Tomé e Príncipe.
O governo golpista só tem apoio na mídia brasileira, na Fox News e no Washington Times, ambos a serviço da extrema-direita dos Estados Unidos.
O governo golpista expulsa representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA) e ameaça romper relações diplomáticas com a Argentina, o México, a Venezuela e a Espanha.
O governo golpista de Honduras manda cobrir pichações de apoio a Manuel Zelaya.
Um governo que não resiste a mensagens de protesto escritas em uma parede tem sérios problemas de sustentabilidade.
Vai ver que eles andam vendo a Globo, lendo a Veja ou acompanhando os acontecimentos através de alguns jornalistas brasileiros. Nesse caso, devem estar certos de que contam com grande apoio internacional... no Brasil.
Texto Original Publicado em: http://www.viomundo.com.br/opiniao/governo-golpista-de-honduras-baixa-ai5-e-so-tem-apoio-na-midia-brasileira-e-na-extremadireita-americana/

Imprensa brasileira: De facto ou interina?


Assistindo às "papagaidas" da revista eletrônica semanal da TV Globo, que de "fantastico" não tem nada, em um dado momento me daparei com a seguinte chamada de matéria: "governo interino de Honduras não autoriza representantes da OEA a entrar no país". A versão que foi difulgada todos nós já conhecemos, mas o que mais chama atenção é a nova definição para os Golpistas de Honduras - Governo interino - é dessa forma que, provavelmente, os golpistas de Honduras serão tratados pela grande imprensa brasileira.
Imediatamente lembrei-me de um artigo de Gilson Caroni, publicado em Carta Maior, que touxe algumas contribuições para o entendimento dessa discussão. Vamos ao artigo.


Por Gilson Caroni Filho
Empenhada em afirmar que o governo brasileiro teria agido de maneira irresponsável ao conceder abrigo ao presidente deposto, a mídia corporativa repete um velho procedimento. Tenta armar uma subversão monstruosa: a autoria e a responsabilidade do golpe são transferidas aos que a ele se opõem.
Desde 28 de junho, quando o presidente Manuel Zelaya foi deposto por um golpe militar liderado por Roberto Micheletti, a grande imprensa brasileira, através de seus articulistas mais conhecidos e dedicados editorialistas, voltou a apresentar, como é comum a aparelhos privados de hegemonia, seu vasto arsenal de produção e redefinição de significados. Desta vez, a novidade foi o deslocamento semântico do real sentido do que vem a ser golpe de Estado. Em Honduras, segundo a narrativa jornalística, não há golpistas, mas "governo interino" ou "de facto", pouco importando que a ação militar tenha sido condenada pela União Européia e governos latino-americanos representados pela Organização dos Estados Americanos (OEA)
Como já tive oportunidade de destacar em outra oportunidade "há algo profundo no jogo das palavras". Ainda mais quando, quem as maneja, tem, por dever de ofício, que relatar o que cobre com precisão e clareza. Fica evidente que razão cínica e ética ambíguas são irmãs siamesas. E no jornalismo brasileiro, mudam as gerações, mas as tragédias continuam e o imaginário dos aquários insiste em se engalfinhar contra as evidências factuais.
Agora, empenhada em afirmar que o governo brasileiro teria agido de maneira irresponsável ao conceder abrigo ao presidente deposto, a mídia corporativa repete um velho procedimento. Tenta armar, na produção noticiosa, uma subversão monstruosa: a autoria e a responsabilidade do golpe são transferidas aos que a ele se opõem, de modo que os golpistas, posando de impolutos democratas, ainda encontrem razões e argumentos para desmoralizar, reprimir e, se possível, eliminar seus oponentes. Para a empreitada foram convocados até diplomatas aposentados, saudosos de uma subalternidade quase colonial.
Uma característica saliente do discurso editorial, e de forma alguma sem importância, é o tom mordaz de quem que se propõe a dizer "verdades" a leitores e/ou telespectadores não apenas iludidos, mas idealizados como obtusos. O trecho abaixo, extraído da revista Veja ( edição 2132, de 30/09/2009) é exemplar. Trata-se da reportagem “O pesadelo é nosso", assinada pelos jornalistas Otávio Cabral e Duda Teixeira.
"Com as eleições marcadas para o próximo dia 29 de novembro, o governo interino que derrubou Zelaya se preparava para reconduzir o país à normalidade democrática. O candidato ligado a Manuel Zelaya aparecia até bem colocado nas pesquisas de intenção de voto. Seria uma saída rápida e democrática para um golpe, coisa inédita na América Latina. Seria. Agora o desfecho da crise é imprevisível. O mais lógico seria deixar o retornado sob os cuidados dos amigos brasileiros até depois das eleições, que, se legítimas, convenceriam a comunidade internacional das intenções democráticas dos golpistas"
Não procurem lógica no texto. Muito menos o uso político do mito da objetividade jornalística. O panfletarismo é prepotente e assumidamente faccioso para se preocupar com detalhes. Falar em “intenções democráticas dos golpistas" não expressa dificuldade de ordem racional, mas uma formidável comédia de erros e imposturas orquestradas por setores decisivos de uma direita inconformada com uma política externa exitosa.
Não se trata apenas da insistência da grande mídia brasileira em “manter um viés anti-Lula, fazendo uma cobertura parcial e tendenciosa sobre os acontecimentos que envolvem o fato", como afirmou o deputado José Genoíno. A operação em curso vai bem além desse propósito. O que ela busca ocultar são os resultados da reunião do G-20, em Pittsburgh, com a abertura para a reorganização das instituições financeiras internacionais e maiores direitos para os países emergentes. O êxito diplomático deve ser substituído por uma "trapalhada ideológica que não faz jus à tradição pragmática do Itamaraty”.
É exatamente isso o que confessa o articulista Clóvis Rossi, em sua coluna de sexta-feira, 25 de setembro, na Folha de S. Paulo.
"Escrevendo textos no lobby do Hotel Sheraton, em que Luiz Inácio Lula da Silva está hospedado em Pittsburgh, sou agradavelmente interrompido por Gilberto Scofield, o competente correspondente de "O Globo" em Washington: Cara, Honduras conseguiu eclipsar completamente o G20 nos jornais brasileiros. Só recebo cobranças sobre Honduras".
Essa desenvoltura de militantes eufóricos só reforça o que se sabe da grande imprensa. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas os modelos-teimosos- permanecem como farsa de um jornalismo que não se sabe ao certo se é “de facto" ou interino. Os acontecimentos de Tegucigalpa são contagiantes
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil
Texto original publicado em: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4442&boletim_id=595&componente_id=10031

sábado, 26 de setembro de 2009

O Brasil e a crise política em Honduras

O Brasil vive um momento de respeitabilidade internacional sem precedentes e que tem contribuído para sedimentar novos consensos junto a organismos internacionais. Diante da imprevisibilidade com que atuam os golpistas em Honduras, a gestão da crise dependerá fundamentalmente da perícia diplomática brasileira e do cuidado técnico em não contribuir para o aprofundamento da violência militar. O artigo é de Carol Proner.

Por Carol Proner (*)
A atual crise vivida por Honduras constitui um caso importante a ser estudado pelo direito internacional do nosso país. Primeiro porque se trata de um conflito que repercute mundialmente e que implica de modo amplo a América Latina e particular o Brasil. Também porque a análise requer a ponderação de diversos aspectos que incluem a legalidade do governo hondurenho e a aplicação de medidas e normas por uma autoridade que não é reconhecida internacionalmente como legítima e, ao mesmo tempo, um amplo espectro geopolítico que vem determinando as ações adotadas por outros países.
O Brasil atualmente está no centro da crise por haver recebido José Manuel Zelaya Rosales em sua Embaixada na condição de convidado por ser o presidente legítimo de Honduras. Zelaya não foi recebido na condição de asilado político, mas de Presidente legítimo. Essa condição de autoridade constitucional já havia sido confirmada por outros 192 países nas Nações Unidas que, por unanimidade, votaram uma resolução de repúdio ao Golpe de Estado exigindo a restauração imediata e incondicional do Presidente Zelaya. No âmbito interamericano a decisão unânime foi no sentido da suspensão de Honduras da Organização dos Estados Americanos com base na ruptura da ordem democrática e no fracasso de iniciativas diplomáticas (Carta Democrática Interamericana).
Outros Estados também adotaram medidas concretas como forma de pressionar o governo golpista a restabelecer a legitimidade. A Comissão Européia anunciou o congelamento de um fundo de ajuda orçamentária ao governo de Honduras e, após haver chamado para consultas todos os embaixadores de seus países-membros com representatividade no país, ratificou a suspensão das negociações de um acordo comercial com os países da América Central até que o presidente deposto retorne ao poder. França, Espanha e Itália tomaram medidas de repúdio ao golpe e o embaixador da Alemanha deixou o país.
A Espanha comunicou a expulsão do embaixador hondurenho em Madri depois de sua destituição pelo presidente Zelaya e destacando ser um ato de coerência com o compromisso da comunidade internacional de manter a interlocução oficial com o governo constitucional de Honduras.
O Departamento de Estado norte-americano, embora pressionado por setores ultraconservadores, anunciou a suspensão da concessão de vistos não emergenciais a cidadãos hondurenhos e planejam cortar mais US$ 25 milhões em assistência caso Zelaya não seja restituído à Presidência.
O caso de Honduras já seria interessante pelo ineditismo de canalizar o amplo repúdio da comunidade internacional a golpes militares e a interrupções bruscas e ditatoriais da normalidade democrática. Mas outros elementos o fazem especialmente chamativo, como o posicionamento do Departamento de Estado norte-americano até o momento e a expectativa pelos gestos futuros, a mudança de postura da OEA que também responde a uma renovação trazida pelo governo de Obama e a coordenação latino-americana em torno de causas comuns.
O Brasil vive um momento de respeitabilidade internacional sem precedentes e que tem contribuído para sedimentar novos consensos junto a organismos internacionais, mas diante da imprevisibilidade com que atuam os golpistas, a gestão da crise dependerá fundamentalmente da perícia diplomática brasileira e do cuidado técnico em não contribuir para o aprofundamento da violência militar. Não há razões para suspeitar que o Itamaraty seja incapaz de enfrentar o ineditismo desse desafio, apesar da resposta covarde dos golpistas e dos saudosistas de regimes militares. Estes não apenas em Honduras.
(*) Carol Proner é doutora em Direito, Professora de Direito Internacional da UniBrasil e Pesquisadora da l'École des hautes études en sciences sociales em Paris, Professora do Programa de Direitos Humanos e Desenvolvimento da Universidade Pablo de Olavide, Sevilha. carolproner@uol.com.br.
Por e-mail (Carta do Berro)

O BRASIL NUM MATO SEM CACHORRO

Por Celso Lungaretti
"A rede da legalidade de Leonel Brizola foi fundamental para frustrar golpe semelhante ao hondurenho".
Manuel Zelaya foi deposto por um golpe desfechado pelas Forças Armadas hondurenhas, com apoio da Corte Suprema e da maioria do Congresso.A nenhum comentarista parece ter ocorrido que o paralelo histórico mais apropriado é a tentativa de usurpação do poder do vice-presidente João Goulart em agosto/1961.Com a renúncia do presidente Jânio Quadros, os ministros militares e as forças reacionárias no Congresso Nacional pretenderam suprimir o direito do primeiro na linha sucessória, Goulart. Preferiam que o poder ficasse com o segundo substituto legal: o presidente da Câmara dos Deputados, Pascoal Ranieri Mazzilli.
A virada de mesa foi frustrada pela decidida reação do governador gaúcho Leonel Brizola, que entrincherou-se no Palácio Piratini e passou a exortar o povo à resistência através da rádio (a chamada rede da legalidade); pela rejeição de sargentos e cabos das Forças Armadas ao golpe a que havia aderido a maioria dos oficiais; e pela tomada de posição ao lado da democracia do III Exército, baseado no RS, criando a ameaça de uma guerra civil.Golpes brancos como esses dois são mais difíceis de combater do que os nitidamente totalitários, como a quartelada brasileira de 1964 e o pinochetazzo de 1973.
Quando um Castello Branco ou Pinochet assume o poder, há a certeza de que o país será submetido ao arbítrio por tempo indeterminado.Quando quem assume é um Mazzili ou Micheletti, prometendo entregar a presidência a quem sair vitorioso num próximo pleito, há tendência à acomodação: por que mover céus e terras se a democracia foi apenas arranhada, mas não extinta?
Os golpistas brasileiros de 1961 sucumbiram à reação interna. É provável que, dependendo apenas da OEA e da ONU, ficasse tudo como estava, com Mazzili completando o mandato de Jânio Quadros.Em Honduras a reação interna foi insuficiente para reconduzir Zelaya ao poder.
E os organismos internacionais emitiram as resoluções condenatórias de praxe, mas ficaram nisso. Seu repúdio ao golpe não implica a tomada de medidas realmente eficazes para frustrar seu real objetivo: o afastamento do presidente legítimo durante o processo eleitoral.Ao regressar clandestinamente a Honduras e colocar-se sob a proteção da embaixada brasileira, Zelaya apostou que sua presença na pátria desencadearia a sonhada reação popular, ou os organismos internacionais tomariam vergonha na cara, ou ambos.Negativo. Povo desarmado pouco pode fazer contra as Forças Armadas.
E a recém-finda reunião do Conselho de Segurança da ONU deu um claro recado aos golpistas hondurenhos: se vocês não invadirem a embaixada brasileira, nada de mais grave lhes acontecerá.Assim, o Brasil ficou num mato sem cachorro. É o chamado óbvio ululante que conhecia as intenções de Zelaya e compartilhou sua aposta. Só ingênuos engolirão os protestos de inocência angelical.Ao conceder-lhe abrigo por tempo indeterminado, sem obedecer as regras do asilo político nem impor limites à sua atuação dentro da embaixada, colocou-se numa situação vulnerável. Formalmente, o governo ilegítimo não deixa de ter alguma razão ao pedir que o Brasil explicite qual o status de Zelaya. As regras do jogo diplomático são essas.
A resposta de Lula foi um irritado "vocês são golpistas e não têm direito de me cobrar nada". Rugiu como leão.Mas, se os golpistas não cometerem a asneira de invadir a embaixada, legitimando uma intervenção militar contra eles, o impasse permanecerá.E o Brasil terá de decidir entre conformar-se com um desfecho pífio ou agir como os grandes países sempre agiram: impondo sua vontade aos países menores.
Ou seja, a escolha será entre sair como banana ou sair como imperialista. Dar um rugido mais forte ainda ou miar.E o pior é que o golpismo poderá ter feito seu reingresso furtivo na cena política latino-americana, por conta da inépcia de quem poderia/deveria mantê-lo onde merecidamente estava: na lata de lixo da História.