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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Quando banqueiros se tornam ladrões, a economia desmorona

Manifestação na Islândia contra os banksters.por Devinder Sharma [*]

O primeiro-ministro sueco, Fredrik Reinfeldt, classifica a crise económica da eurozona como "grave" e foi citado a dizer: "Na realidade, estamos a falar acerca de uma das maiores operações de salvamento que o mundo já viu". Ele respondia a uma pergunta da Rádio Sueca depois de ser conhecido que a Espanha pode ser o 4º membro dos 17 países da eurozona a pedir ajuda externa. A expectativa é de que a Espanha pediria US$100 mil milhões ao FMI para salvar os seus bancos a cambalearem sob empréstimos imobiliários tóxicos. Para entender melhor, vi o trabalho de Paul Krugman, o qual pensa que não foram aprendidas quaisquer lições (The EurpTARP Cometh -- http://nyti.ms/KrjgeN ).
Descobri uma carta interessante entre os comentários no blog de Krugman. Alguém escreveu, e tendo a concordar, "a Espanha obtém agora US$100 milhões para bombear para dentro de bancos que não emprestarão, não criarão empregos, nem mesmo investirão qualquer quantia em qualquer parte da economia espanhola". Bem, sendo isto verdade, não entendo porque o governo espanhol, ou os patrões do FMI, não é capaz de travar o pretendido salvamento de bancos da Espanha. Como foi escrito por outro blogueiro: "Uma taxa de desemprego de aproximadamente 25% combinada com crescimento negativo do PIB deveriam ser tratados como uma emergência económica. Todo o centro da atenção deveria ser na correcção do desemprego e promoção do crescimento económico, não no salvamento de bancos". ( http://www.disequilibria.com/blog/?p=21
Salvar banco em incumprimento tornou-se a solução padrão para a crise económica. Aconteceu em 2008, quando cerca de US$20 milhões de milhões foram bombeados para dentro da economia global. Grande parte dele foi posto ao serviço das dívidas dos bancos e todos nós lemos relatórios perturbadores de como milhões de dólares foram dados como bónus para os banqueiros que cometem erros – pessoas que deveriam estar na cadeia foram premiados com belos pacotes financeiros. Isto não impulsionou a economia americana, a qual mais uma vez está nos espasmos de uma crise não prevista. A economia americana está num ventilador artificial – utilizando a "quantitative easing" para sobreviver antes que ela possa impor a países em desenvolvimento que se abram a bens e serviços estado-unidenses e também pressionar países como a Índia a permitirem investimento directo estrangeiro no comércio a retalho e nos seguros.
O que acontecerá se permitirmos aos bancos espanhóis entrarem em colapso? Será que a Espanha se tornará um mendigo? Ou será que o povo espanhol fugirá para outros países? Não penso que nada disto aconteceria. O pacote do salvamento, ao invés, deveria ser utilizado para criar mais empregos. E isso por sua vez promoveria a economia. A mesma receita é válida para outras economias grandes. A Índia, por exemplo, deveria centrar-se mais em criar empregos e alimentar os 320 milhões de pessoas que vão para a cama com fome. A China, que também está em meio a uma recessão, agora a tornar-se mais óbvia, deveria mudar o foco para a criação de mais procura interna e criar mais oportunidades de emprego tornando a agricultura proveitosa. A atracção de população rural para as áreas urbanas e o impulso para a industrialização rápida (e muitas vezes ambientalmente destrutiva) já arruinou o panorama nacional e transformou o país numa grande fábrica exportadora. Isto é insustentável no longo prazo e, uma vez explodidas as bolhas, será tudo uma tristeza.
Sempre pensei que copiar fosse prerrogativa apenas daqueles que infringem direitos de propriedade. Mas agora percebo que governos por todo o mundo têm estado alegremente a copiar o modelo económico de crescimento dos EUA/UE. Não é admirar que todo país esteja afundado. O mundo teria estado economicamente mais seguro, talvez, se os EUA tivessem utilizado a sua força pondo em aplicações disposições como a Super 301 para impedir outros governos de copiarem seu terrivelmente enviesado modelo económico, o qual agora levou o mundo à beira de um precipício. Não é demasiado tarde. Mas como reconhecem muitos outros, o mundo não extraiu quaisquer lições. Eles continuam a permitir aos bancos que roubem o tesouro nacional. Como disse outro comentador: "Os banqueiros tornaram-se os maiores ladrões da história do mundo... a economia global nunca será recuperada enquanto for sangrada até à morte para resgatar balanços de fantasia de instituições e indivíduos cujas pirâmides de papel compram governos e fazem com que o roubo equivalha à produção económica".
[*] Economista, indiano.


O original encontra-se em http://devinder-sharma.blogspot.in/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Reino de Espanha, da brutalidade econômica à brutalidade repressiva

210212_violentosLa Jornada - [Tradução do Diário Liberdade] 
 Desde o fim de semana passado, em Valência, a Polícia Nacional do Estado espanhol está reprimindo com violência inusitada os estudantes que protestam contra os cortes aos orçamentos educativos empreendidos pelo governo direitista que encabeça Mariano Rajoi, quem tenciona dessa maneira satisfazer as exigências da União Europeia e dos organismos financeiros internacionais antes que cobrir as necessidades sociais e garantir direitos fundamentais.

Em suas tentativas por desalojar os revoltados "pais de família, professores, alunos e parlamentares" das ruas e de vários centros de ensino, as forças da ordem lesionaron a dezenas de pessoas, prenderam sem justificativa estudantes menores de idade, bateram em jornalistas e desataram perseguições judiciais com base em cargos que, segundo demonstraram em vários casos gravações de video, são inventados.
O que mostram os videos, em troca, é que com frequência os elementos da força de choque espancaram pessoas que não cometeram mais falta que se encontrarem nos lugares em que se desenvolveram as cargas policiais. Uma expressão que ilustra a atitude encarniçada da polícia contra os manifestantes é a que utilizou o chefe policial Antonio Moreno, quem se referiu aos manifestantes como "o inimigo". Para maior exasperação cidadã, esse servidor público descreveu a atuação da polícia como uma resposta comedida e mesurada a supostos ataques físicos dos mobilizados em defesa da educação.
Com certeza, a brutalidade policial, que várias vozes na mídia espanhola comparam com as cargas dos "grises" ("cinzentos"), como se era conhecida popularmente a força de choque da ditadura franquista, em referência à cor das suas fardas, tem aumentado exponencialmente o descontentamento inicial, e agora os manifestantes não só exigem que se deponha a determinação de cortar o orçamento educativo, como também demandam, ademais, a demissão da delegada do governo espanhol na Comunidade Valenciana, Paula Sánchez de León.
É preciso não perder de vista que a brutalidade policial desatada pelo regime de Rajoi é só o mais recente episódio de uma saga de violência não necessariamente física do governo contra a população. Efetivamente, a classe política de Madri decidiu transladar os custos da crise na que se encontra sumido o país e a população em geral, a qual deve enfrentar o aumento do desemprego, a redução de seu nível de vida e a perda ou a redução de serviços educativos, de saúde, morada e outros.
Se o governo do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) claudicou da sua plataforma política, que prometia a promoção e a defesa do estado de bem-estar, sua sucessão na Moncloa, a cargo do Partido Popular de Rajoi e de José María Aznar, faz frente ao mal-estar popular decorrente mediante a força bruta policial e deixa entrever, desde o início, as tendências autoritárias que justificam que se descreva essa organização política como pós-franquista, não só porque foi fundada principalmente por ex servidores públicos da ditadura, como o recentemente falecido Manuel Fraga, mas também por uma herança ideológica inocultável.
Em definitivo, o Reino de Espanha foi colocado por seus governantes anteriores e atuais ante a possibilidade de uma escalada de explosões sociais, vagas repressivas e desesperança como a que tem lugar na Grécia. Se o cenário helénico chega a repetir-se em terras do Estado espanhol, Rajoi e sua equipe não poderão argumentar que ignoravam a perspetiva.
Fonte: http://www.diarioliberdade.org

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Arrocho do governo inglês lançará meio milhão de crianças na pobreza

Segundo o estudo conjunto de dois institutos britânicos, o Family and Parenting Institute e o Fiscal Studies Institute, a redução de benefícios sociais e o aumento de impostos, entre outras medidas, lançará cerca de meio milhão de crianças e adolescentes na pobreza absoluta. A Organização de Cooperação e Desenvolvimento (OCDE) tem outra maneira de apresentar essa situação: “o Reino Unido é a sociedade mais desigual das nações ricas”.

Londres - O drástico plano de ajuste da coalizão conservadora-liberal democrata tem um resultado claro e quantificável. Segundo o estudo conjunto de dois respeitados institutos britânicos, o Family and Parenting Institute (FPI) e o Fiscal Studies Institute (FSI), a redução de benefícios sociais e o aumento do IVA (Imposto sobre Valor Agregado, taxa aplicada na União Europeia que incide sobre a despesa ou o consumo), entre outras medidas, lançará meio milhão de crianças e adolescentes na pobreza absoluta. A Organização de Cooperação e Desenvolvimento (OCDE) tem outra maneira de apresentar essa situação: “o Reino Unido é a sociedade mais desigual das nações ricas”.

O estudo do FPI e do IFS assinala que a receita média das famílias britânicas com crianças, que diminuiu 4,2% em 2010-2011, seguirá caindo. Em 2015, último ano de governo da coalizão, esse tipo de famílias experimentará um corte em suas receitas de aproximadamente dois mil dólares anuais.

O impacto é particularmente marcante para famílias com três ou mais crianças, meninos de menos de cinco anos e para os que recebem ajuda para pagar aluguéis privados. “Os cortes vão impactar muito mais às famílias com filhos que os aposentados e o resto dos trabalhadores”, assinalou Katherie Rake, do FPI.

Os cortes aprovados pela coalizão em outubro de 2010 e aprofundados desde então para “lidar com o déficit fiscal” e “dar tranquilidade e previsibilidade aos mercados financeiros” incluem um congelamento salarial para os empregados estatais e o fechamento massivo de serviços sociais, entre eles os clubes juvenis, cuja ausência se fez sentir nos distúrbios que assolaram a Inglaterra em agosto passado.

O impacto é especialmente devastador para as famílias mais pobres. A Lei de Pobreza Infantil de 2010 define a pobreza absoluta como uma renda 60% abaixo da média nacional. Com base nesta medida, o FPI e o FSI calculam que meio milhão de crianças ficarão abaixo desta linha: cerca de 300 mil menores de cinco anos.

Em um comunicado, o governo reconheceu as dificuldades que muitas famílias estão vivendo, mas assinalou que estão sendo tomadas medidas relativas a esse tema. “Há medidas para ajudar a estas famílias como o congelamento dos impostos para o aluguel estatal ou a introdução do imposto universal”, assinala o comunicado. Segundo o FPI, a maioria destas medidas é apenas um remendo que beneficia alguns setores ou que só serão implementadas em 2018 como o imposto universal.

Pior ainda, como o resto dos ajustes na União Europeia (UE), o britânico comete o pior dos pecados: infligir um sofrimento em vão. Longe de diminuir, o déficit está crescendo. Ao final de 2011, a dívida total britânica se incrementou quase um bilhão de libras ou 62,8% do Produto Interno Bruto. “Como resultado de sua política, o governo teve que endividar-se 158 bilhões de libras a mais do que o calculado”, assinala Rachel Reeves, porta-voz de temas fiscais da oposição trabalhista.

Um informe do Center for Economic and Business Research (CEBR) assinala que o Reino Unido entrará em recessão este ano e que haverá 3 milhões de desempregados em 2013. Como na famosa frase de Shakespeare, o draconiano ajuste britânico parece um “conto contado por um idiota”: a exigência da austeridade está condenando não só o Reino Unido, mas também os países da eurozona a um escasso crescimento econômico e a um maior déficit fiscal. “Os países impõem a austeridade exigida pelos mercados financeiros que, por sua, logo castigam os países e os criticam porque a economia não cresce como resultado da austeridade”, disse Jenni Russell, comentarista do conservador vespertino Evening Standard.

Nos últimos quatro anos, o nível de vida dos britânicos caiu cerca de 28%, a pior diminuição desde o pós-guerra. Como era de se esperar isso não está acontecendo de maneira igualitária. Segundo a OCDE, o Reino Unido tem o nível de desigualdade mais alto entre os países considerados ricos que fazem parte da organização. Os 10% com mais renda ganham hoje 12 vezes mais que os 10% com menos renda: em 1985, essa proporção era de oito para um. A diferença se torna ainda mais abismal quando se olha para os milionários. O 1% com mais renda, que tinha 7,1% da torta em 1970, passou a ter 14,3% em 2005.

Esta crescente desigualdade se dá em todo os países da OCDE, ainda que não na alarmante proporção verificada no Reino Unido. No mundo em desenvolvimento tampouco há muito para celebrar. Segundo o mesmo informe, no Brasil e no resto dos países do BRIC (China, Rússia e Índia) a desigualdade é de 50 para 1. O secretário geral da organização, Angel Gurría, reconheceu que as coisas melhoraram com os programas sociais do presidente Lula, mas indicou que, apesar disso, “a desigualdade segue sendo cinco vezes mais alta que nos países desenvolvidos”.

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Agência Carta Maior

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O capitalismo que era sólido está se desmanchando no ar: Desemprego atinge mais de um milhão de jovens na Inglaterra

A crise econômica está golpeando com força os jovens. No Reino Unido, o desemprego juvenil superou a barreira do milhão de pessoas e ninguém parece ter esperança de que as coisas melhorem neste 2012. Uns porque nunca tiveram expectativa de outra coisa, outros porque as portas abertas estão fechando e não há maneira de abri-las: este ano a matrícula universitária custará uns 16 mil dólares e a ajuda estudantil  secundária desapareceu. 

Por Marcelo Justo - Correspondente da Carta Maior em Londres

“Eu tive 20 anos e não permitirei que digam que é a idade mais linda da vida”. A famosa frase de Paul Nizan tem mais peso do que nunca na Europa atual e não por razões existenciais.

A crise econômica está golpeando com particular força os jovens. No Reino Unido, o desemprego juvenil superou a barreira psicológica do milhão de pessoas e ninguém parece ter esperança de que as coisas melhorem neste 2012. Uns porque nunca tiveram expectativa de outra coisa, outros porque as portas abertas estão fechando e não há maneira de abri-las: este ano a matrícula universitária custará uns 16 mil dólares e a ajuda estudantil secundária desapareceu. Neste cenário, não surpreende que os estudantes estejam engrossando as filas da prostituição para financiar uma carreira que melhore, sem oferecer garantias, sua perspectiva de trabalho.

Em uma tentativa de capturar e transmitir a gravidade da crise, a ONG Barbados, que defende os direitos dos menores, chamou os jovens de “futuros pobres”. Em alguns casos, o futuro não é mais que a continuação do passado: levam a pobreza inscrita desde o nascimento. Nos bairros londrinos de Tottenham, Lewisham, Hackney, nos bolsões pobres das grandes cidades, em Manchester e Liverpool, Birmingham e Newcastle, há muito que se abandonou toda esperança. Durante a onda de saques que sacudiram o Reino Unido em agosto, cerca de 80% dos saqueadores presos tinha menos de 25 anos.

Em sua mensagem de ano novo, anunciada neste domingo, a máxima autoridade da Igreja Anglicana, o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, exortou os britânicos a não demonizar os jovens. Pediu aos britânicos que abandonem a hostilidade para com os jovens. “É uma tragédia que existam saques quando podemos ver o que se pode conseguir com esses jovens quando essa energia é canalizada positivamente em um contexto de segurança e amor”, assinalou o Arcebispo. Mas como advertiu David Lammy, deputado trabalhista por Tottenham, o bairro onde iniciaram os incidentes, não há uma consciência social ou política sobre a gravidade e urgência do tema. “Precisamos de políticos de todos os partidos que atendam estes problemas ou os saques podem voltar a acontecer”, vaticina Lammy.

E não há sinais de que o governo esteja escutando. A primeira reação aos distúrbios foi desclassificá-los como mero vandalismo juvenil de gangues descontroladas. O primeiro ministro David Cameron suavizou um pouco suas próprias palavras falando da desintegração moral da sociedade e prometendo uma investigação dos fatos, mas a política socioeconômica do governo não variou um centímetro.

Em seu comparecimento ante o Parlamento, em outubro, o ministro de Finanças, George Osborne, reafirmou o plano de austeridade do governo que contempla uma redução de 140 bilhões de dólares no orçamento do período 2011-2015. Os programas juvenis, dizimados pelos cortes, não receberam nenhuma nova fonte de financiamento. O bairro de Tottenham é um claro exemplo do abismo social que existe em um dos países mais ricos do planeta.

É a zona com maior desemprego de Londres e uma das 10 mais pobres do Reino Unido: os clubes da juventude desapareceram logo depois de o orçamento municipal ter sofrido um corte de 75%.

Economia sem rumo

A aposta da coalizão conservadora-liberal democrata é que o setor privado compensará o draconiano encolhimento do Estado. Até aqui, essa aposta não deu resultado. Entre julho e setembro de 2011, cerca de 67 mil pessoas perderam seu emprego estatal: o setor privado só criou 5 mil novos postos. Segundo o prestigiado Chartered Institute of Personnel and Development, essa situação piorará este ano com a demissão de cerca de 120 mil servidores públicos. Charlotte Foster, uma menina de 21 anos que terminou o ano passado a universidade, resumiu ao Daily Telegraph sua falta de expectativas. “No melhor dos casos passarei de um emprego temporal a outro. Com tantas demissões vai ser muito difícil. Há gente com 10 anos de experiência no mercado buscando trabalho”, declarou ao jornal.

Se a estratégia da coalizão para o conjunto da sociedade faz água, para os jovens ela naufragou em meio ao nada. Uma das medidas de austeridade da coalizão que mais os afetaram foi a triplicação do valor das matrículas universitárias, que entra em vigor este ano, e a eliminação da ajuda a estudantes secundário. As massivas manifestações entre outubro de 2010 e março do ano passado tiraram os jovens da situação de letargia política das últimas duas décadas, mas não conseguiram evitar a reforma da lei da educação.

Com custos subindo às nuvens e sem acesso a empregos temporários, muitos estudantes estão recorrendo a variadas formas de prostituição. “Com todos os cortes que ocorreram, muitas estudantes se prostituem para escapar da pobreza. Com esse tipo de trabalho, é possível, em uma noite, cobrir mais ou menos os gastos da semana”, assinala Sarah Walker, de um grupo de defesa dos trabalhadores do sexo, o English Colective of Prostitutes (ECPL).

Um estudo da Universidade de Leeds, no norte da Inglaterra, revelou que cerca de 25% das “strippers” e “lap-dancers” da capital eram estudantes. Outra investigação da Universidade de Londres mostrou que 16% das universitárias estavam dispostas a se prostituir para pagar seus estudos e cerca de 11% contemplava a possibilidade de trabalhar em agências de acompanhantes. “A maioria são estudantes que acabam de iniciar a universidade ou estudantes adultos que querem um título. O governo sabe que o trabalho sexual é uma maneira de escapar dessa situação, mas isso não parece importar muito”, assinala Walker.

Em meio ao desalento, a União de Estudantes se comprometeu a continuar com os protestos para mudar a política universitária da coalizão. Em novembro, quase um ano depois de o parlamento aprovar a triplicação do valor das matrículas, milhares de estudantes se manifestaram por uma mudança de política. A maioria não estava diretamente afetada pela medida que só entrará em vigor para a camada que ingressa na universidade em setembro deste ano. 2012 promete ser um ano movimentado.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

domingo, 27 de novembro de 2011

Revolução na Islândia à Margem Esquerda da Europa

Protestos da Revolução Islandesa

 A Islândia nos mostra (apesar da nossa mídia esconder) que existe uma maneira muito viável e bem melhor que o resto da Europa para combater a crise econômica.

Fazendo a Revolução!
Em 2008, todos os bancos na ilha nórdica europeia quebraram abrindo um rombo enorme no setor financeiro do país, o Governo em vez de combater a crise com mais neoliberalismo, teve a "insensatez" de nacionalizar os principais bancos. Que loucura!
Mas chega 2009 e o FMI não gostou desse negócio de nacionalização de bancos e pressiona a Islândia a pegar US$ 2 milhões emprestados, a população não gostou nada e foi às ruas, organizando um grande protesto em frente ao Parlamento Islandês. Consegue-se derrubar o Primeiro-Ministro conservador, o primeiro governo derrubado em decurso da crise, em março uma coalizão de esquerda ganha as eleições e assume o governo. Em maio foi feito um referendo sobre o pagamento da dívida adquirida com o FMI e outros países nórdicos, vitória arrasadoras do NÃO pagamento com 93%. Mais uma loucura! Mais essa não vai ficar impune, o FMI bloqueia todas as contas internacionais da Islândia.
Mediante a todo esse conflito econômico o novo Governo Islandês inicio uma investigação para responsabilizar os culpados pela crise, iniciando assim várias detenções de banqueiros e executivos e consegue-se um mandato de prisão ao um ex-presidente (do partido conservador).
Hoje a Islândia é um país em reestruturação, é uma pequena ilha, sim é bem pequena, mas já vimos outra ilha bem pequena no Caribe nos dando lições de como podemos viver sobre outro paradigma. A União Europeia tentou cooptá-la, mas seu povo rejeitou a adesão ao bloco em outro referendo. Mais uma loucura democrática!
Bandeira da Islândia ao lado da de Che, nos protestos do Parlamento.
O economista e Prêmio Nobel Paul Krugman deu a sua opinião, na sua coluna no NYT, sobre o acontecido:
"Enquanto os demais resgataram os banqueiros e fizeram o povo pagar o preço, a Islândia deixou que os bancos quebrassem e expandiu sua rede de proteção social. Enquanto os demais ficaram obcecados em tentar aplacar os investidores internacionais, a Islândia impôs controles aos movimentos de capital (...). A recuperação econômica da Islândia demonstra as vantagens de estar fora da zona do Euro."
Essas notícias não vemos nos noticiários. Parece que outra Revolução está a caminho no Egito e essa não tem a ver com a crise econômica, mas sim com a crise na estrutura social. Parece também que tanto na Islândia como no Egito o povo conseguiu adquirir algo fundamental, a CONSCIÊNCIA.
Fonte: http://inversocontraditorio.blogspot.com

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Os banqueiros aceleram a marcha para o saqueio da Grécia – e os sociais-democratas votam pelo suicídio nacional

por Michael Hudson [*]

Escalonamento das dívidas impagáveis da Grécia. A luta pelo futuro da Europa joga-se em Atenas e restantes cidades gregas, na sua resistência às exigências da finança, que são a versão do século XXI de um verdadeiro ataque militar. A ameaça de um absoluto domínio da banca não é certamente o tipo de política económica liquidatária que possibilite heróicos feitos de armas. As políticas financeiras destrutivas assemelham-se mais a um exercício da banalidade do mal – neste caso, os pressupostos pro-credores do Banco Central Europeu (BCE), União Europeia (UE) e FMI (incitado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos).



Como sublinhou Vladimir Putin há uns anos atrás, as reformas neoliberais postas nas mãos de Boris Yeltsin pelos Harvard Boys nos anos 90 causaram na Rússia uma descida da natalidade, da esperança média de vida, e uma vaga de emigração – a maior queda do crescimento populacional desde a II Guerra Mundial. A fuga de capitais é outra das consequências da austeridade financeira. A "solução" proposta pelo BCE para o problema da dívida grega assevera-se autodestrutiva. Procura apenas ganhar tempo para que o BCE se aproprie de mais dívida do governo grego, deixando a factura para todos os contribuintes europeus. Foi evitar esta transferência das perdas dos bancos para os contribuintes que Angela Merkel insistiu para que os accionistas privados absorvessem algumas das perdas resultantes dos seus maus investimentos.

Os banqueiros estão a tentar obter receitas extraordinárias utilizando o mecanismo da dívida como forma de realizar aquilo que era antes levado a cabo pela guerra. Exigem a privatização do património público (a crédito, com benefícios fiscais para os juros, de modo a que aflua mais dinheiro para os cofres dos banqueiros). Esta transferência de terra, de serviços e de participações públicas, enquanto saque financeiro e tributo às economias credoras faz com que os efeitos da austeridade financeira se assemelhem nos seus efeitos aos de uma verdadeira guerra.

Sócrates disse que a ignorância é certamente a raiz de todo o mal, uma vez que ninguém é deliberadamente maldoso. No entanto, a "cura" económica que consiste em levar os devedores à miséria e forçá-los a liquidar o seu património público, tornou-se uma ciência socialmente aceite e ensinada nas melhores escolas de gestão. Seria legítimo pensar que, após cinquenta anos de programas de austeridade e privatizações liquidatárias para pagar dívidas, o mundo tivesse aprendido o suficiente no que toca a causas e efeitos.

O sector bancário escolhe deliberadamente a ignorância. As "boas práticas geralmente aceites" são apoiadas por Prémios Nobel da Economia de forma a fornecerem uma capa de negabilidade plausível quando os mercados são "inesperadamente" esvaziados e os novos investimentos abrandam como resultado de economias financeiramente exangues, enquanto a riqueza num estilo medieval é sugada para o topo da pirâmide económica.

O meu amigo David Kelley gosta de citar o gracejo de Molly Ivin: "É difícil convencer as pessoas de que as estás a matar para o seu próprio bem". A União Europeia tentou fazê-lo na Islândia, sem êxito. Tal como os islandeses, os manifestantes gregos já tiveram a sua dose da estudada ignorância neoliberal, segundo a qual a austeridade, o desemprego e a contracção dos mercados seriam o caminho para a prosperidade e não para o agravamento e aprofundamento da pobreza. Por isso, devemos perguntar-nos o que leva os bancos centrais a promoverem gestores de vistas curtas, que seguem as ordens e a lógica de um sistema que impõe o desperdício e sofrimentos desnecessários – e tudo isto para persistir na obsessão segundo a qual os bancos não devem perder dinheiro?

É forçoso concluir que os novos planificadores centrais europeus (não era a isto que Hayek chamava " Caminho da Servidão "?) agem como guerreiros de classe ao exigir que todas as perdas sejam sofridas pelas economias impondo uma deflação da dívida permitindo assim aos credores arrebatar os mais diversos activos. Como se isto não tornasse o problema pior. Esta linha dura do BCE é apoiada pelo secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, para que as instituições americanas não percam as suas apostas nas jogadas com derivativos que subscreveram.

Trata-se de uma repetição da actuação de Geithner para impedir a mitigação da dívida irlandesa. O resultado é que entrámos no território do absurdo quando o BCE e o Tesouro insistem numa "renegociação voluntária" com base no facto de que alguns bancos podem ter feito investimentos fraudulentos do tipo dos da AIG ao oferecerem seguros de incumprimento ou apostas que os teriam feito perder tanto dinheiro que um novo resgate seria necessário. É como se as apostas financeiras fossem economicamente necessárias e não algo digno de Las Vegas.

Porque é que isto deveria interessar aos gregos? É um problema intra-europeu de regulação da banca. No entanto para contornar o verdadeiro problema, o BCE ordena à Grécia que venda as suas redes de águas e esgotos, portos, ilhas e outras infraestruturas.

É uma viragem rumo ao teatro financeiro do absurdo. Claro que alguns interesses especiais lucram sempre com o absurdo sistémico, por muito banal que pareça. Os mercados financeiros apostam já na possibilidade de a Grécia acabar por não poder pagar. É apenas uma questão de tempo. Os bancos estão a usar esta oportunidade para lucrar ao máximo e transferir as perdas para o BCE, UE, e FMI – instituições públicas que têm mais poder de alavancagem financeira que os credores privados. Assim os banqueiros tornam-se os patrocinadores do absurdo – e da teoria económica lixo (junk economics) recitada irrefletidamente por aqueles que impõem e apologistas da banalidade do mal. Pouco importa que se chamem Trichet, Geithner ou Papandreu. Estes são apenas parte integrante do polvo vampírico das exigências dos credores.



As multidões gregas que se manifestam diante do parlamento na praça Syntagma estão a procurar reproduzir o seu equivalente da "Primavera Árabe". Mas que poderão fazer, para além da violência, enquanto a polícia e os militares continuarem a alinhar com o governo que por sua vez esta do lado dos credores estrangeiros?

A táctica mais eficiente é a de exigir um referendo nacional perguntando da aceitação dos termos da austeridade impostos pelo BCE, assim como do aumento dos impostos, cortes na despesa pública, das privatizações. Foi desta forma que o Presidente da Islândia impediu que um governo social-democrata comprometesse a economia do seu país com os pagamentos ruinosos (e legalmente desnecessários) exigidos pelo Partido Trabalhista de Gordon Brown e pelos holandeses para o resgate do Icesave e do Kaupthing.

A única base legal para a exigência do pagamento por parte da UE do resgate dos bancos franceses e alemães – assim como a exigência do secretário do Tesouro americano Tim Geithner, para que as dívidas sejam sagradas, e não as vidas dos cidadãos – é a aceitação e consentimento públicos de tais políticas. De outra forma a imposição da dívida pode ser tratada como um simples acto de guerra financeira.

As economias nacionais têm o direito de se defenderem contra tal agressão. Os líderes dos manifestantes podem insistir em que na ausência de um referendo, seja eleita uma lista comprometida com a anulação da dívida. O direito internacional proíbe as nações de tratarem os seus nacionais de forma diferente dos estrangeiros, assim todas as dívidas de categorias específicas teriam de ser anuladas para que se possa pôr a zero (to create a Clean State) as contas públicas. A reforma monetária imposta pelos Aliados à Alemanha em 1947 que pôs as contas publicas a zero, foi um dos casos de maior êxito de uma política desse tipo libertando a economia alemã da dívida [incluindo as indemnizações devidas à Grécia pelas destruições causadas pela II Guerra Mundial] e tornou-se a base do milagre económico nacional.

Esta não é a primeira vez que tal hipótese se apresenta à Grécia. No final do século III a.c., os reis espartanos Ágis e Cleómenes exigiram o cancelamento da dívida, assim como o fez Nabis depois deles. Plutarco conta-nos a história, explicando também o defeito trágico desta medida. Os proprietários ausentes que haviam pedido dinheiro emprestado para comprar bens imobiliários apoiaram o cancelamento da dívida, obtendo assim inesperadamente enormes ganhos.

Isto seria ainda mais verdade hoje do que no passado, pois actualmente a maior parte da dívida são precisamente hipotecas imobiliárias. Imagine-se o que o cancelamento da dívida faria pelos Donald Trumps deste mundo – tendo adquirido as suas propriedades a crédito, com o mínimo de investimento próprio, subitamente não deveriam nada à banca! O objectivo da reforma financeira deveria ser libertar a economia da sobrecarga financeira que é tecnologicamente desnecessária. Para evitar dar almoços grátis aos proprietários ausentes, o cancelamento da dívida teria de ser secundado por um imposto sobre as rendas dos bens imobiliários. O sector público receberia assim o valor das rendas da terra como base fiscal.

Este foi o objectivo fundamental dos economistas do mercado livre do século XIX: tributar a terra e a natureza – e os monopólios naturais – em vez de tributar o trabalho e os meios de produção do capital. O objectivo era fazer reverter para o público aquilo que a natureza e as infraestruturas públicas criavam. Há um século atrás acreditava-se que os monopólios, hoje cobiçados pelo sector privado, deviam ser operados pelo sector público; ou ainda que, no caso destes serem operados pelo sector público, os seus preços deveriam ser regulados de modo a estarem de acordo com o custo real de produção. No caso da terra, das minas e dos monopólios que já se encontravam na mão de privados, as receitas das rendas seriam inteiramente tributadas. Isto incluiria o privilégio financeiro de que os bancos desfrutam na criação do crédito.

A maneira de reduzir os custos de produção é a redução dos "maus" impostos que se aumentam o preço de produção, sobretudo os impostos sobre o trabalho e o capital, as vendas e os impostos de valor acrescentado. Em contrapartida, a tributação da rendas recolhe os "almoços grátis" da economia, deixando menos para ser entregue aos bancos para que estes capitalizem a dívida dos empréstimos mais elevados. Transferir a carga fiscal grega do trabalho para a propriedade reduziria o preço do trabalho, e reduziria também o preço dos bens imobiliários que está a ser inflacionado pelo crédito bancário.

Uma alteração da taxa sobre os bens imóveis foi a principal reforma proposta nos séculos XVIII e XIX, dos Fisiocratas a Adam Smith passando por John Stuart Mill e pelos reformadores da época progressista americana (American Progressive Era). A ideia era libertar os mercados das rendas hereditárias da aristocracia que remontavam às conquistas medievais Vikings. Isto libertaria as economias do feudalismo, alinhando os preços com os custos de produção socialmente necessários. Na ausência da renacionalização da terra e da infraestrutura, tributar plenamente a sua renda económica (pagamentos de acesso a sítios cujo valor é criado pela natureza ou pelo investimento público) recuperaria para as autoridades gregas aquilo que os credores estão a tentar agarrar à força.

Esta ameaça clássica dos reformadores do séc. XIX pode ser a resposta dos gregos ao Banco Central Europeu. Eles podem relembrar ao resto do mundo que se trata, afinal de contas, do ideal do mercado livre tal como foi expresso por Adam Smith e John Stuart Mill em Inglaterra, o mesmo que esteve na base da despesa pública, das agência reguladoras e da política fiscal estado-unidense na época da sua ascensão.

Quão estranho (e triste) é que o governo do Partido Socialista grego, cujo líder está à frente da II Internacional, tenha rejeitado este programa reformista centenário. Não se trata de comunismo. Nem sequer de algo intrinsecamente revolucionário, ou pelo menos não na altura em que foi formulado. Trata-se de um socialismo de tipo reformista, que é o ponto culminante de dois séculos de pensamento político-económico clássico.

Mas este é o tipo de mercados livres contra os quais luta o Banco Central Europeu, apoiado pelas exortações estridentes dos Estados Unidos na pessoa do seu secretário do Tesouro Geithner. O presidente Obama não intervém, deixando aos burocratas da Wall Street a tarefa de definir as políticas económicas nacionais. É isto perverso? Ou apenas passivo e indiferente? E faz alguma diferença no que toca ao resultado final?

Para falar de forma sucinta, podemos dizer que os objectivos da agressão financeira estrangeira são os mesmos que os de uma conquista militar: a terra e o domínio público. Mas as nações têm o direito de tributar os lucros das rendas das suas terras, bem para além do simples retorno do capital investido. Ao contrário do que está implicado na "desvalorização interna" (cortes nos salários) exigida pela UE, como forma de diminuir o custo do trabalho na Grécia, tornando-o assim mais competitivo, a diminuição do nível de vida não deve ser o caminho a seguir, uma vez que isso reduz a produtividade do trabalho, ao mesmo tempo que corrói o mercado interno, levando a uma espiral descendente de contracção económica.

A necessidade de um referendo popular

Todo o governo tem o direito e, na verdade, a obrigação política de proteger a prosperidade e assegurar a subsistência da sua população de forma a que esta possa viver no seu país e que não seja obrigada a imigrar ou posta numa posição de completa dependência financeira face aos investidores. No âmago da democracia económica encontra-se o princípio segundo o qual nenhuma nação soberana pode ser forçada a abrir mão do seu património público ou dos impostos que sobre ele recebe, e por conseguinte da sua prosperidade económica e subsistência futura, em favor de estrangeiros ou de qualquer classe financeira doméstica. Foi por este motivo que a Islândia votou "Não" no referendo da dívida. A sua economia encontra-se agora em recuperação.



A Irlanda votou "Sim" e enfrenta já uma nova Diáspora que compete com os grandes movimentos migratórios pelos quais, em meados do séc. XIX, os irlandeses procuraram escapar à miséria e à fome. Se a Grécia não se impuser, será uma vitória para a agressão financeira e fiscal e para o seu objectivo de impor a escravatura pela dívida.

A finança tornou-se o tipo de guerra preferido do séc. XXI. O seu objectivo é a apropriação, pelas suas próprias elites, da terra e das infraestruturas públicas. A realização financeira deste fim, através da imposição da escravatura pela dívida às populações subjugadas, evita o sacrifício de vidas por parte do agressor – mas é possível apenas enquanto os países devedores carregarem voluntariamente o seu fardo. Se não houver um referendo, a economia nacional não pode ser responsabilizada pelo pagamento da dívida, nem mesmo aos seus principais credores: o FMI e o BCE. Bens que foram privatizados graças à pressão exercida pela banca internacional podem ser renacionalizados e tal como as nações que são alvo de ataques militares podem processar aqueles que as atacam, assim também a Grécia pode processá-las pela devastação causada pela austeridade – pela perda de emprego, produtividade e população, bem como pela fuga de capital.

A economia grega não acabará com o dinheiro de qualquer "salvamento" do BCE. Os bancos obterão o dinheiro. Eles gostariam de dar meia volta e emprestá-lo novamente aos compradores da terra, monopólios e outras propriedades que a Grécia está a ser obrigada a privatizar. As taxas cobradas aos seus utilizadores (sem dúvida cobrando encargos no processo, para cobrir os juros e pagarem-se os aumentos de salário habituais nos bens privatizados) serão pagas a título de juro. Não se assemelha tudo isto a um tributo militar?

Margaret Thatcher costumava dizer "Não há alternativa". Mas claro que há. A Grécia pode simplesmente optar por não participar nesta dádiva de bens e privilégios económicos aos credores.

O que é que os colegas de Papandreu na Internacional Socialistas têm a dizer sobre os acontecimentos que se desenrolam na Grécia? Creio que é evidente que a antiga Internacional Socialista está morta, uma vez que Papandreu é o seu líder. Aquilo que é hoje em dia tido como socialismo opõe-se diametralmente às reformas promovidas sob a mesma designação há um século, na época imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial. Os partidos sociais-democratas e trabalhistas europeus actuais estiveram na linha da frente das privatizações e da financiarização das suas economias sob condições que bloquearam o aumento do nível de vida. O resultado será provavelmente um realinhamento político internacional.

A austeridade económica não consegue, em última análise, assegurar as exigências dos credores

Quinta-feira à tarde o Dow Jones, que já estivera a cair 230 pontos, reagiu subitamente e fechou a perder "apenas" 60 pontos, tudo por causa dos rumores segundo os quais a Grécia tinha dado o seu aval ao plano de austeridade do FMI. Mas o que é a "Grécia"? É apenas o governo? Certamente, não se tratava ainda da totalidade do parlamento. Haverá um voto parlamentar contrário ao interesse público, aceitando a austeridade e as privatizações?

Só um referendo pode comprometer o governo grego com o pagamento de novas dívidas resultantes da austeridade. Só um referendo pode impedir a renacionalização dos bens que foram privatizados. Tal transferência não é legítima sob as concepções comumente aceites de democracia política e económica. De qualquer forma um imposto sobre o rendimento pode recuperar para a economia grega aquilo de que os seus agressores financeiros estão a tentar desapropriar.

A História é rica em exemplos instrutivos. As oligarquias locais da região convidaram Roma a atacar Esparta, e esta derrubou os reis e o seu sucessor Nabis. Em seguida, Roma instalou-se à cabeça de um império oligárquico, usando a violência para assassinar reformadores democráticos internos como os irmãos Graco, mergulhando a República num século de guerra civil. Os interesses dos credores acabaram por dominar inteiramente, e o seu egoísmo mergulhou o Império Romano do Ocidente numa idade das trevas económica e social.

Resta-nos esperar que o resultado seja melhor desta vez. Irá certamente haver luta, num campo fiscal e financeiro mais do que num campo abertamente militar. Tal luta só poderá, em última análise, ser ganha pela compreensão das dinâmicas corrosivas da "mágica combinação dos interesses" e da necessidade social de subordinar os interesses dos credores aos da economia real. Mas para que tal compreensão possa ter lugar, é preciso que a teoria económica seja subtraída da banalidade da sua corrente pós-clássica e neoliberal. [*] Antigo economista da Wall Street. Professor e Investigador na Universidade de Missouri, Kansas City (UMKC), autor de vários livros entre os quais, Super Imperialism: the Economic Strategy of American Empire (Pluto Press, 2002) e Trade, Development and Foreing Debt: A History of Theories of Polarization v. Convergence in the World Economy. Pode ser contactado através do endereço mh@michael-hudson.com

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/hudson06242011.html
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 9 de julho de 2011

Não é só o euro, mas a democracia que está em jogo

A Grécia ilustra o perigo de permitir que as agências de classificação de risco, apesar de seu péssimo histórico, dominem o terreno político. Há questões de fundo que devem ser enfrentadas a respeito de como o governo democrático da Europa pode ser minado pelo papel enormemente aumentado das instituições financeiras e das agências de classificação de riscos, que hoje se apropriaram de certas partes do terreno político da Europa. Deter a marginalização da tradição democrática na Europa envolve uma urgência que é difícil de exagerar.

A Europa liderou o mundo no que diz respeito à prática da democracia. É, portanto, preocupante que os perigos para a governabilidade democrática de hoje, que entram pela porta traseira das prioridades financeiras, não recebam a atenção que merecem. Há questões de fundo que devem ser enfrentadas a respeito de como o governo democrático da Europa pode ser minado pelo papel enormemente aumentado das instituições financeiras e das agências de classificação de riscos, que hoje se apropriaram de certas partes do terreno político da Europa.

É preciso separar duas questões diferenciadas. A primeira se refere ao lugar das prioridades democráticas, incluindo o que Walter Bagehot e John Stuart Mill consideravam a necessidade do “governo por meio da discussão”. Suponhamos que aceitemos que os poderosos chefes das finanças possuem uma compreensão realista do que é preciso fazer. Com isso se fortaleceria o argumento favorável a prestar atenção em suas vozes em um diálogo democrático. Mas isso não é o mesmo que deixar às instituições financeiras internacionais e às agências de classificação de risco o poder universal de mandar sobre governos eleitos democraticamente. Em segundo lugar, é difícil ver que os sacrifícios que os comandantes financeiros vêm exigindo dos países em situação precária vão garantir a viabilidade destes países e a continuidade do euro dentro de um modelo sem reformar o setor financeiro e um conjunto de membros sem mudanças dentro do clube do euro.

O diagnóstico dos problemas econômicos por parte das agências de qualificação não é a voz da verdade como pretendem. Vale a pena lembrar que o histórico dessas agências nas instituições de certificação financeira e de negócios antes da crise econômica de 2008 era tal que o Congresso dos EUA debateu seriamente se deviam ser processadas. Dado que grande parte da Europa encontra-se agora empenhada em conseguir uma rápida redução do déficit público mediante a redução drástica do gasto público, é fundamental examinar com realismo que possíveis repercussões poderiam ter essas medidas políticas, tanto no caso da população quanto no da geração de receitas públicas por meio do crescimento econômico.

A alta moral de “sacrifício” tem um efeito embriagante. Esta é a filosofia do corpete “correto”. “Se a senhora se sente muito cômoda com ele, então certamente precisa de um tamanho menor”. No entanto, se as exigências de adequação financeira se vinculam de maneira demasiadamente mecânica aos cortes imediatos, o resultado pode ser o de matar a galinha dos ovos de ouro do crescimento econômico. Essa preocupação se aplica a uma série de países, desde a Inglaterra até a Grécia. A comunidade da estratégia do “sangue, suor e lágrimas” de redução do déficit outorga uma aparente plausibilidade ao que está sendo imposto aos países mais precários como Grécia ou Portugal. Também faz com que seja mais difícil ter uma voz política unida na Europa que possa fazer frente ao pânico gerado nos mercados financeiros.

Além de uma visão mais política, há necessidade de um pensamento econômico mais claro. A tendência a ignorar a importância do crescimento econômico na geração de receitas públicas deveria ser um assunto importante de análise. A sólida conexão entre crescimento econômico e receitas públicas é uma coisa observada em muitos países, como Índia, China, Estados Unidos e Brasil. Também aqui se tiram lições da história. A grande dívida pública de muitos países ao término da Segunda Guerra Mundial provocou uma enorme ansiedade, mas o gravame diminuiu rapidamente graças a um rápido crescimento econômico. Do mesmo modo, o enorme déficit que o presidente Clinton enfrentou quando assumiu seu cargo em 1992 se dissipou durante sua presidência, em grande medida graças à ajuda de um rápido crescimento econômico.

O temor de uma ameaça à democracia não se aplica, com certeza, a Inglaterra, já que estas medidas políticas foram escolhidas por um governo investido pelo poder das eleições democráticas. Apesar de que o desenvolvimento de uma estratégia não revelada no momento das eleições possa ser razão para uma reflexão, este é o tipo de liberdade que um sistema democrático permite aos que saem vencedores nas eleições. Mas com isso não se elimina a necessidade de uma maior discussão pública, mesmo na Inglaterra. Também existe a necessidade de reconhecer de que modo as políticas restritivas resultantes da eleição na Inglaterra parecem dar verossimilhança às medidas ainda mais drásticas impostas a Grécia.

Como os países do euro se meteram nesta enrascada? A rara singularidade de ir na direção de uma moeda única sem uma maior integração política e econômica sem dúvida contribuiu para isso, ainda mais considerando as transgressões financeiras que sem dúvida cometeram no passado países como Grécia ou Portugal (inclusive depois da importante advertência de Mario Monti de que uma cultura de “excessiva deferência” na União Europeia permitiu que essas transgressões ocorressem sem controle). É preciso reconhecer imensamente o governo grego – e Yorgos Papandreu, o primeiro ministro, em particular -0 que está fazendo o que pode apesar da resistência política, mas a vontade aflita de Atenas de cumprir certos termos não elimina a necessidade de os europeus estudarem a razoabilidade desses termos – e os tempos – que estão sendo impostos a Grécia.

Não é nenhum consolo para mim lembrar que me opus firmemente ao euro, apesar de estar fortemente a favor da unidade europeia. Minha preocupação com o euro guardava em parte relação com o fato de que cada país renunciara à liberdade de sua política monetária e dos ajustes na taxa de câmbio, que ajudaram enormemente a países em dificuldade no passado e evitou a necessidade de uma desestabilização massiva de vidas humanas nos frenéticos esforços por estabilizar os mercados financeiros.

Essa liberdade monetária poderia ser permitida mesmo com uma integração política e fiscal (como tem os estados nos EUA), mas a pressa em inaugurar uma casa que estava em construção acabou resultando numa receita desastrosa. Obrigou-se a incorporar à maravilhosa ideia de uma Europa democrática unida um precário programa de incoerente fusão financeira. Reordenar a zona euro suporia muitos problemas, mas as questões difíceis devem ser discutidas de maneira inteligente, ao invés de permitir uma Europa à deriva em meios aos ventos financeiros, alimentada por um pensamento de mentalidade estreita com um terrível histórico.

O processo tem que começar com certa restrição imediata do poder sem oposição das agências classificadoras de emitir mandatos unilaterais. Estas agências são difíceis de disciplinar mesmo com seu péssimo histórico, mas a voz bem refletida dos governos legítimos pode supor uma grande diferença para a confiança financeira enquanto se elaboram soluções, sobretudo se as instituições financeiras internacionais prestarem seu apoio. Deter a marginalização da tradição democrática na Europa envolve uma urgência que é difícil de exagerar. A democracia europeia é importante para a Europa...e para o mundo.

(*) Professor na Universidade de Harvard, prêmio Nobel de Economia em 1998.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agencia Carta Maior

terça-feira, 5 de julho de 2011

15 milhões de pessoas correm risco de fome na Europa

Um regulamento aprovado pela Comissão Europeia corta 80% da ajuda alimentar para os pobres. A Federação Europeia dos Bancos Alimentares apela ao Conselho Europeu. Apelo foi apoiado por Conselho Internacional Geral de São Vicente de Paulo, Comunidade de Santo Egídio e Caritas Italiana. De acordo com as estatísticas europeias, 43 milhões de pessoas estão em risco de pobreza alimentar, ou seja não podem pagar uma refeição adequada a cada dois dias.

A Comissão Europeia aprovou no dia 10 de junho o Regulamento 562/2011, que reduz o programa europeu de ajuda alimentar de 500 milhões de euros para 113 milhões, um corte de 77,4%. A Federação Europeia dos Bancos Alimentares (FEBA) lançou um apelo ao Conselho Europeu de ministros da Agricultura a que chegue a um acordo sobre novas formas de financiamento.

Segundo a FEBA, em 2010 a sua rede “cobriu 40% dos alimentos fornecidos pelo Programa Europeu. Os 240 bancos alimentares distribuíram 360 mil toneladas de alimentos para associações caritativas e serviços sociais em 21 países europeus. Por sua vez, as organizações de caridade distribuíram alimentos para pessoas indigentes, tais como pacotes ou refeições. 51% desses suprimentos vieram do Programa Europeu, a outra parte de doações de empresas e colectas locais. Se nada for feito, esta decisão levará a uma grave crise”.

A FEBA lembra em comunicado que, de acordo com as estatísticas europeias, 43 milhões de pessoas estão em risco de pobreza alimentar, ou seja não podem pagar uma refeição adequada a cada dois dias.

A FEBA salientando que “o alimento é a base da vida e é um direito humano fundamental”, refere que “a aplicação desta decisão poderá reforçara percepção de uma Europa tecnocrática que não se preocupa com o destino das pessoas”.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Centro de Atenas transformado em praça de guerra


Confrontos duraram horas. Foto EPA/ORESTIS PANAGIOTU

Confrontos com a polícia duraram horas, num dia de greve total em que só o metro de Atenas funcionou para transportar os manifestantes. Papandreu usa argumento de patriotismo para tentar evitar defecções na sua bancada.
O centro de Atenas foi transformado numa praça de guerra, com confrontos que duraram horas entre manifestantes e polícia, no primeiro dia da greve geral de 48 horas em protesto contra as novas medidas de austeridade que o governo quer fazer aprovar no Parlamento estas quarta e quinta-feiras.
Jovens atiraram pedras e paus contra a polícia de choque no centro de Atenas, que ripostou com saraivadas de gás lacrimogéneo e granadas de efeito moral. A polícia disse que 18 pessoas foram detidas, sendo cinco delas mais tarde presas, enquanto 21 polícias foram feridos.

Greve total

A greve paralisou todos os serviços públicos e os transportes. De médicos a condutores de ambulâncias, dos trabalhadores dos casinos e até mesmo actores de teatro aderiram à paralisação. No sector da energia, a greve provocou apagões em diversos pontos do país.
Centenas de voos foram cancelados ou reprogramados devido à greve dos controladores de tráfego aéreo. As greves dos trabalhadores dos transportes públicos tornaram o trânsito caótico e deixaram os turistas abandonados no porto de Pireu. Os trabalhadores do metro de Atenas, porém, que começaram o dia em greve, voltaram ao trabalho para transportar os trabalhadores que quiseram participar das manifestações.

Maioria em risco

O Partido da Nova Democracia, de direita, opõe-se ao novo pacote do governo socialista do primeiro-ministro Papandreu, criticando os aumentos de impostos. O Pasok, porém, dispõe de maioria absoluta: 155 deputados em 300, o que garantiria uma maioria confortável. Mas há quatro deputados socialistas que se rebelaram, deixando a maioria do Pasok por um fio.
A Comissão Europeia e os governos alemão e francês têm feito chantagem sobre Atenas, exigindo a unanimidade do apoio (governo e oposição) às novas medidas de austeridade, para pagar a última tranche do empréstimo negociado há um ano. Mas, com a recusa da Nova Democracia, o máximo que pode acontecer é uma aprovação por pequena margem. Mas o resultado é de tal forma incerto que já levou Papandreu a invocar o último e desesperado argumento: o patriotismo.
As novas medidas incluem aumentos de impostos e taxas e criação de novos impostos, cortes de subsídios sociais, privatizações de praticamente todas as estatais e despedimentos de funcionários públicos.
O comissário dos assuntos económicos, Olli Rehn, reforçou o tom ameaçador, afirmando que "não existe plano B" para a situação grega.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A crise européia e o “moinho satânico” do capitalismo global

A crise européia é não apenas uma crise da economia e da política nos países europeus, mas também – e principalmente - uma crise ideológica que decorre não apenas da falência política dos partidos socialistas em resistir à lógica dos mercados financeiros, mas também da incapacidade das pessoas comuns e dos movimentos sociais de jovens e adultos, homens e mulheres explorados e numa situação de deriva pessoal por conta dos desmonte do Estado social e espoliação de direitos pelo capital financeiro, em perceberem a natureza essencial da ofensiva do capital nas condições do capitalismo global.

A crise financeira de 2008 expõe com candência inédita, por um lado, a profunda crise do capitalismo global e, por outro, a débâcle político-ideológico da esquerda socialista européia intimada a aplicar, em revezamento com a direita ideológica, os programas de ajustes ortodoxos do FMI na Grécia, Espanha e Portugal, países europeus que constituem os “elos mais fracos” da União Européia avassalada pelos mercados financeiros.
Aos poucos, o capital financeiro corrói o Estado social europeu, uma das mais proeminentes construções civilizatórias do capitalismo em sua fase de ascensão histórica. Com a crise estrutural do capital, a partir de meados da década de 1970, e a débâcle da URSS e o término da ameaça comunista no Continente Europeu, no começo da década de 1990, o “capitalismo social” e seu Welfare State, tão festejado pela social-democracia européia, torna-se um anacronismo histórico para o capital. Na verdade, a União Européia nasce, sob o signo paradoxal da ameaça global aos direitos da cidadania laboral. É o que percebemos nos últimos 10 anos, quando se ampliou a mancha cinzenta do desemprego de longa duração e a precariedade laboral, principalmente nos “elos mais fracos” do projeto social europeu. Com certeza, a situação do trabalho e dos direitos da cidadania laboral na Grécia, Espanha e Portugal deve piorar com a crise da dívida soberana nestes países e o programa de austeridade do FMI.
Vivemos o paradoxo glorioso do capital como contradição viva: nunca o capitalismo mundial esteve tão a vontade para aumentar a extração de mais-valia dos trabalhadores assalariados nos países capitalistas centrais, articulando, por um lado, aceleração de inovações tecnológicas e organizacionais sob o espírito do toyotismo; e por outro lado, a proliferação na produção, consumo e política, de sofisticados dispositivos de “captura” da subjetividade do homem que trabalha, capazes de exacerbar à exaustão, o poder da ideologia, com reflexos na capacidade de percepção e consciência de classe de milhões e milhões de homens e mulheres imersos na condição de proletariedade.
Deste modo, a crise européia é não apenas uma crise da economia e da política nos países europeus, mas também – e principalmente - uma crise ideológica que decorre não apenas da falência política dos partidos socialistas em resistir à lógica dos mercados financeiros, mas também da incapacidade das pessoas comuns e dos movimentos sociais de jovens e adultos, homens e mulheres explorados e numa situação de deriva pessoal por conta dos desmonte do Estado social e espoliação de direitos pelo capital financeiro, em perceberem a natureza essencial da ofensiva do capital nas condições do capitalismo global.

Ora, uma parcela considerável de intelectuais e publicistas europeus têm uma parcela de responsabilidade pela “cegueira ideológica” que crassa hoje na União Européia. Eles renunciaram há tempos, a uma visão critica do mundo, adotando como único horizonte possível, o capitalismo e a Democracia – inclusive aqueles que se dizem socialistas. Durante décadas, educaram a sociedade e a si mesmos, na crença de que a democracia e os direitos sociais seriam compatíveis com a ordem burguesa. O pavor do comunismo soviético e a rendição à máquina ideológica do pós-modernismo os levaram a renunciar a uma visão radical do mundo. Por exemplo, na academia européia – que tanto influencia o Brasil – mesmo em plena crise financeira, com aumento da desigualdade social e desmonte do Welfare State, abandonaram-se os conceitos de Trabalho, Capitalismo, Classes Sociais e Exploração. Na melhor das hipóteses, discutem desigualdades sociais e cidadania...
Há tempos o léxico de critica radical do capitalismo deixou de ser utilizado pela nata da renomada intelectualidade européia, a maior parte dela, socialista, satisfeita com os conceitos perenes de Cidadania, Direitos, Sociedade Contemporânea, Democracia, Gênero, Etnia, etc – isto é, conceitos e categoriais tão inócuas quanto estéreis para apreender a natureza essencial da ordem burguesa em processo e elaborar com rigor a crítica do capitalismo atual. Na verdade, para os pesquisadores da “classe média” intelectualizada européia, muitos deles socialistas “cor-de-rosa”, a esterilização da linguagem crítica permite-lhes pleno acesso aos fundos públicos (e privados) de pesquisa institucional.
É claro que esta “cegueira ideológica” que assola o Velho Continente decorre de um complexo processo histórico de derrota do movimento operário nas últimas décadas, nos seus vários flancos – político, ideológico e social: o esclerosamento dos partidos comunistas, ainda sob a “herança maldita” do stalinismo; a “direitização” orgânica dos partidos socialistas e sociais-democratas, que renunciaram efetivamente ao socialismo como projeto social e adotaram a idéia obtusa de “capitalismo social”; o débâcle da União Soviética e a crise do socialismo real, com a intensa campanha ideológica que celebrou a vitória do capitalismo liberal e do ideal de Democracia. A própria União Européia nasce sob o signo da celebração da globalização e suas promessas de desenvolvimento e cidadania. Last, but not least, a vigência da indústria cultural e das redes sociais de informação e comunicação que contribuíram – apesar de suas positividades no plano da mobilização social – para a intensificação da manipulação no consumo e na política visando reduzir o horizonte cognitivo de jovens e adultos, homens e mulheres à lógica do establishment, e, portanto, à lógica neoliberal do mercado, empregabilidade e competitividade.
Na medida em que se ampliou o mundo das mercadorias, exacerbou-se o fetichismo social, contribuindo, deste modo, para o “derretimento” de referenciais cognitivos que permitissem apreender o nome da “coisa” que se constituía efetivamente nas últimas décadas: o capitalismo financeiro com seu “moinho satânico” capaz de negar as promessas civilizatórias construídas na fase de ascensão histórica do capital.
Não deixa de ser sintomático que jovens de classe média indignados com a “falsa democracia” e o aumento da precariedade laboral em países como Portugal e Espanha, tenham levantado bandeiras inócuas, vazias de sentido, no plano conceitual, para expressar sua aguda insatisfação com a ordem burguesa. Por exemplo, no dia 5 de junho de 2011, dia de importante eleição parlamentar em Portugal, a faixa na manifestação de jovens acampados diante da célebre catedral de Santa Cruz em Coimbra (Portugal), onde está enterrado o Rei Afonso Henriques, fundador de Portugal, dizia: “Não somos contra o Sistema. O Sistema é que é Contra Nós”. Neste dia, a Direita (PSD-CDS) derrotou o Partido Socialista e elegeu a maioria absoluta do Parlamento, numa eleição com quase 50% de abstenção e votos brancos. Enfim, órfãos da palavra radical, os jovens indignados não conseguem construir, no plano do imaginário político, uma resposta científica e radical, à avassaladora condição de proletariedade que os condena a uma vida vazia de sentido.
Na verdade, o que se coloca como tarefa essencial para a esquerda radical européia - e talvez no mundo em geral - é ir além do mero jogo eleitoral e resgatar a capacidade de formar sujeitos históricos coletivos e individuais capazes da “negação da negação” por meio da democratização radical da sociedade. Esta não é a primeira - e muito menos será a última - crise financeira do capitalismo europeu. Portanto, torna-se urgente construir uma “hegemonia cultural” capaz de impor obstáculos à “captura” da subjetividade de homens e mulheres pelo capital. Para que isso ocorra torna-se necessário que partidos, sindicatos e movimentos sociais comprometidos com o ideal socialista, inovem, isto é, invistam, mais do que nunca, em estratégias criativas e originais de formação da classe e redes de subjetivação de classe, capazes de elaborar – no plano do imaginário social – novos elementos de utopia social ou utopia socialista. Não é fácil. É um processo contra-hegemônico longo que envolve redes sociais, partidos, sindicatos e movimentos sociais. Antes de mais nada, é preciso resgatar (e re-significar) os velhos conceitos e categorias adequadas à critica do capital no século XXI. Enfim, lutar contra a cegueira ideológica e afirmar a lucidez crítica, entendendo a nova dinâmica do capitalismo global com suas crises financeiras.
Ora, cada crise financeira que se manifesta na temporalidade histórica do capitalismo global desde meados da década de 1970 cumpre uma função heurística: expor com intensidade candente a nova dinâmica instável e incerta do capitalismo histórico imerso em candentes contradições orgânicas.
Na verdade, nos últimos trinta anos (1980-2010), apesar da expansão e intensificação da exploração da força de trabalho e o crescimento inédito do capital acumulado, graças à crescente extração de mais-valia relativa, a produção de valor continua irremediavelmente aquém das necessidades de acumulação do sistema produtor de mercadorias. É o que explica a financeirização da riqueza capitalista e a busca voraz dos “lucros fictícios” que conduzem a formação persistente de “bolhas especulativas” e recorrentes crises financeiras.
Apesar do crescimento exacerbado do capital acumulado, surgem cada vez mais, menos possibilidades de investimento produtivo de valor que conduza a uma rentabilidade adequada às necessidades do capital em sua etapa planetária. Talvez a voracidade das políticas de privatização e a expansão da lógica mercantil na vida social sejam estratégias cruciais de abertura de novos campos de produção e realização do valor num cenário de crise estrutural de valorização do capital.
Ora, esta é a dimensão paradoxal da crise estrutural de valorização. Mesmo com a intensificação da precarização do trabalho em escala global nas últimas décadas, com o crescimento absoluto da taxa de exploração da força de trabalho, a massa exacerbada de capital-dinheiro acumulada pelo sistema de capital concentrado, não encontra um nível de valorização – produção e realização - adequado ao patamar histórico de desenvolvimento do capitalismo tardio.
Deste modo, podemos caracterizar a crise estrutural do capitalismo como sendo (1) crise de formação (produção/realização) de valor, onde a crise capitalista aparece, cada vez mais, como sendo crise de abundância exacerbada de riqueza abstrata. Entretanto, além de ser crise de formação (produção/realização) de valor, ela é (2) crise de (de)formação do sujeito histórico de classe. A crise de (de)formação do sujeito de classe é uma determinação tendencial do processo de precarização estrutural do trabalho que, nesse caso, aparece como precarização do homem que trabalha.
Ora, a precarização do trabalho não se resume a mera precarização social do trabalho ou precarização dos direitos sociais e direitos do trabalho de homens e mulheres proletários, mas implica também a precarização-do-homem-que-trabalha como ser humano-genérico. A manipulação – ou “captura” da subjetividade do trabalho pelo capital – assume proporções inéditas, inclusive na corrosão político-organizativa dos intelectuais orgânicos da classe do proletariado. Com a disseminação intensa e ampliada de formas derivadas de valor na sociedade burguesa hipertardia, agudiza-se o fetichismo da mercadoria e as múltiplas formas de fetichismo social, que tendem a impregnar as relações humano-sociais, colocando obstáculos efetivos à formação da consciência de classe necessária e, portanto, à formação da classe social do proletariado.
Deste modo, o capitalismo global como capitalismo manipulatório nas condições da vigência plena do fetichismo da mercadoria, expõe uma contradição crucial entre, por um lado, a universalização da condição de proletariedade e, por outro lado, a obstaculização efetiva – social, política e ideológica - da consciência de classe de homens e mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho.
Imerso em candentes contradições sociais, diante de uma dinâmica de acumulação de riqueza abstrata tão volátil, quanto incerta e insustentável, o capitalismo global explicita cada vez mais a sua incapacidade em realizar as promessas de bem-estar social e emprego decente para bilhões de homens e mulheres assalariados. Pelo contrário, diante da crise, o capital, em sua forma financeira e com sua personificação tecnoburocrática global (o FMI), como o deus Moloch, exige hoje sacrifícios perpétuos e irresgatáveis das gerações futuras.
Entretanto, ao invés de prenunciar a catástrofe final do capitalismo mundial, a crise estrutural do capital prenuncia, pelo contrário, uma nova dinâmica sócio-reprodutiva do sistema produtor de mercadorias baseado na produção critica de valor.
Apesar da crise estrutural, o sistema se expande, imerso em contradições candentes, conduzido hoje pelos pólos mais ativos e dinâmicos de acumulação de valor: os ditos “países emergentes”, como a China, Índia e Brasil, meras “fronteiras de expansão” da produção de valor à deriva. Enquanto o centro dinâmico capitalista – União Européia, EUA e Japão - “apodrece” com sua tara financeirizada (como atesta a crise financeira de 2008 que atingiu de modo voraz os EUA, Japão e União Européia), a periferia industrializada “emergente” alimenta a última esperança (ou ilusão) da acumulação de riqueza abstrata sob as condições de uma valorização problemática do capital em escala mundial (eis o segredo do milagre chinês).
Portanto, crise estrutural do capital não significa estagnação e colapso da economia capitalista mundial, mas sim, incapacidade do sistema produtor de mercadorias realizar suas promessas civilizatórias. Tornou-se lugar comum identificar crise com estagnação, mas, sob a ótica do capital, “crise” significa tão-somente riscos e oportunidades históricas para reestruturações sistêmicas visando a expansão alucinada da forma-valor. Ao mesmo tempo, “crise” significa riscos e oportunidades históricas para a formação da consciência de classe e, portanto, para a emergência da classe social de homens e mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho e estão imersos na condição de proletariedade. Como diria Marx,
Hic Rhodus, hic salta!
(*) Giovanni Alves é professor da UNESP, pesquisador do CNPq, atualmente fazendo pós-doutorado na Universidade de Coimbra/Portugal e autor do livro “Trabalho e Subjetividade – O “espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório” (Editora Boitempo, 2011). Site: http://www.giovannialves.org /e-mail: giovanni.alves@uol.com.br

O cárcere da dívida em um capitalismo dominado por rentistas improdutivos

Os dois maiores exemplos históricos sobre o modo de lidar com dívidas insustentáveis ocorreram após as duas guerras mundiais: um foi extremamente negativo; o outro, positivo. Hoje, os credores voltaram a ser hegemônicos. Os bancos querem dinheiro barato para si mesmos e termos draconianos para os demais. Uma União Europeia afligida por banqueiros está castigando a Grécia ao invés de buscar um caminho para que o país possa voltar a crescer. Nos EUA, nega-se qualquer alívio aos proprietários de casas com água no pescoço. Mas, às vezes, simplesmente, as dívidas não podem ser pagas.

A história econômica está cheia de pileques de euforia financeira seguidos por dolorosas ressacas matinais. Quando as nações despertam enfermas por causa de dívidas contraídas em guerras financeiras, episódios frustrados de especulação ou projetos faraônicos que se revelaram inúteis, têm duas opções. Ou bem prevalece a classe dos credores às custas de todos os demais, ou bem os Estados encontram a maneira de reduzir a carga da dívida, de maneira que a capacidade produtiva da economia consiga se recuperar.
Os credores – a classe rentista, no jargão clássico – são normalmente os ricos e os poderosos. Os devedores, quase por definição, dispõem de poucos recursos e de escasso poder. A “questão monetária” nos EUA do século XIX – a questão sobre se o crédito deveria ser caro ou barato – foi também uma batalha entre o crescimento e a austeridade.
A classe credora vê as coisas assim: qualquer coisa que não passe pela plena reintegração do que é devido leva inexoravelmente ao colapso da civilização econômica. O certo, no entanto, é que, frequentemente, as dívidas não são plenamente satisfeitas. No século XX, os especuladores perderam fortunas por causa de dezenas de nações que deixaram de pagar suas dívidas. No século XIX, muitos estados federados e muitos municípios norte-americanos quebraram. Os perdedores de guerras e de revoluções raramente pagam suas dívidas (os velhos bônus czaristas carecem de valor, salvo nos leilões de antiguidades). O Plano Brady, do final dos anos 80 do século passado, pagou 70 centavos por dólar aos portadores de títulos dos devedores quebrados do Terceiro Mundo a fim de que o crescimento econômico pudesse retomar seu curso.
Às vezes, simplesmente, as dívidas não podem ser pagas. Por isso era ruinosa a ideia da prisão por dívida (salvo como dissuasão). A questão real é como reestruturar a dívida quando é impossível pagá-la. Não se trata somente de uma luta entre quem tem e quem não tem, mas entre os direitos do passado e o potencial do futuro.
A dívida pode ser reduzida ou mesmo anulada de maneiras construtivas. Ou pode levar ao caos. A inflação, por exemplo, é uma forma de erodir a dívida, uma forma arriscada. Pode haver uma quebra calamitosamente súbita (Lehman Brothers), ou uma reestruturação cuidadosa e benéfica (General Motors).
A bancarrota fornece de modo engenhoso um alívio ordenado da dívida passada, de modo que a empresa produtiva não precisa necessariamente ser destruída. Um juiz valora os ativos, os passivos e a viabilidade de um negócio insolvente. Se é considerado viável, não se permite que os credores vendam a maquinaria, mas paga-se a eles vários centavos por dólar, e a empresa termina sendo recuperada para usos construtivos.
O mundo dos negócios nos EUA valora o sistema de bancarrota conforme seus próprios objetivos, ainda que os investidores sofram com ele, de vez em quando, mais de uma derrota. Mas essa mesma elite empresarial vê com receio que outros – proprietários de casas, pequenas nações ou o sistema econômico inteiro – busquem alívio ao castigo econômico representado por uma dívida perversa. Não por acaso, um dos mais sagazes críticos do modo pelo qual o colapso financeiro terminou por privilegiar os credores às custas de todos os demais é também um dos maiores especialistas em processos de falência e bancarrota: a professora Elisabeth Warren.
Os dois maiores exemplos históricos sobre o modo de lidar com dívidas insustentáveis ocorreram após as duas guerras mundiais: um foi extremamente negativo; o outro, muito positivo. Na Conferência de Versailles, realizada em 1919, prevaleceu a mentalidade credora e a recuperação europeia do pós-guerra foi abortada. Inglaterra e França imaginaram que podiam sangrar a derrotada Alemanha a fim de pagar suas próprias dívidas de guerras, imensas (contraídas, sobretudo, com os EUA). A Inglaterra praticou também uma política de rigor monetário para manter o valor de sua própria moeda em níveis de pré-guerra, a fim de proteger a sua própria classe credora. Essa política destruiu a economia alemã e manteve o desemprego britânico com taxas de 10% durante duas décadas. O grande crítico da loucura britânica foi John Maynard Keynes, então conselheiro do Tesouro britânico. O livro publicado por Keynes em 1919, “As consequências econômicas da paz”, alertou profeticamente que a política de espremer a Alemanha até o último centavo causaria a depressão e uma segunda guerra mundial.
Após a II Guerra Mundial, a história ofereceu a Keynes a oportunidade para fazer as coisas corretamente. Seu sistema de Bretton Woods colocou a ênfase na recuperação interna, tanto das potências perdedoras como das vencedoras, e criou um sistema monetário global no qual se negava aos especuladores financeiros privados toda capacidade para forçar as nações a empreender cursos deflacionários. Nossa própria Reserva Federal (EUA) combinava então políticas monetárias suaves com uma regulação estrita, de modo que as baixas taxas de juros pudessem financiar a colossal dívida bélica sem levar a uma especulação destrutiva. Dinheiro barato e investimento expansivo preveniram a recaída dos EUA na depressão.
Hoje, essa lógica expansiva foi posta de avesso e os credores voltaram a ser hegemônicos de novos. Os bancos querem dinheiro barato para si mesmos e termos draconianos para os demais. Uma União Europeia afligida por banqueiros está castigando a Grécia ao invés de buscar um caminho para que o país possa voltar a crescer. Nos EUA, nega-se qualquer alívio aos proprietários de casas com água no pescoço, porque os contratos de dívida são sagrados, ainda que essa política prolongue a agonia. Por toda parte se propagandeia a austeridade orçamentária como via para o crescimento, apesar de que, ao invés disso, todas as evidências indicam que essa política nega à economia seu potencial produtivo.
E se fala sobre essas questões como se fossem ou tecnicamente inacessíveis ou simplesmente indiscutíveis. Nem uma coisa, nem outra. Necessitamos democratizar, mais uma vez, a questão do dinheiro.
(*) Robert Kuttner é um economista norte-americano, co-fundador e atual editor da revista The American Prospect, criada em 1990. Durante 20 anos, foi colunista da Business Week e é um dos cinco fundadores do Economic Policy Institute, um think tank de esquerda.
Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agencia Carta Maior

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Milhares de manifestantes defendem greve geral na Espanha

Respondendo à convocatória do movimento 15M, mais de 150 mil manifestantes ocuparam neste domingo a Praça de Netuno, em Madri, para expressar a sua oposição aos planos de austeridade defendidos pelo FMI e pelo Banco Central europeu e aos sistemas político e financeiro, apontados como principais culpados da crise econômico-financeira. Em Barcelona, outras 270 mil pessoas saíram às ruas. Valência também registrou protestos com milhares de manifestantes. Na França, 100 pessoas foram detidas em Paris quando protestavam em frente da Catedral de Notre Dame.

Segundo o jornal espanhol Público, o movimento 15M ganhou este domingo a forma de um enorme 19J (19 de Junho), juntando mais de 150 mil pessoas na Praça de Netuno, em Madrid, às portas do Congresso dos Deputados, guardado por um forte cordão policial. Ali, os organizadores leram um manifesto no qual incentivam os cidadãos a participar numa Greve Geral.

Os manifestantes partiram logo pela manhã de seis zonas distintas da capital, juntando-se ao início da tarde na praça Netuno, junto ao Congresso dos Deputados.

Sustentando cartazes e faixas com palavras de ordem como “caminhemos contra a crise e o capital”, “escutem a ira do povo” ou “não sejas violento”, os manifestantes – gente de todas as idades e de vários estratos sociais, jovens, reformados, famílias com crianças – gritavam slogans já identificados com o Movimento 15M, como “chamam-lhe democracia, mas não o é” ou “não, não nos representam”.

"Contra o desemprego. Organiza-te e luta. Vamos marchar juntos contra o desemprego", lia-se num grande cartaz que liderava o caminho da "coluna sudoeste", que partiu de manhã de Leganes, uma comunidade-dormitório a cerca de quinze quilômetros a sul de Madrid. "Nós não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros", estava escrito com letras vermelhas num outro cartaz.

Ao microfone, um manifestante gritava: "Vamos preparar uma greve geral. Nós vamos parar o país". "Os bancos e os governos que provocaram esta situação devem estar cientes de que não estamos de acordo com as medidas e os cortes nos orçamentos. Temos a intenção de ser ouvidos e vamos conseguir", afirma o movimento 15M.

No final da tarde, teve lugar um piquenique “anti-fadiga” e uma orquestra interpretou a Nona Sinfonia de Beethoven - ver vídeo. Às 20h, foi realizada uma assembleia popular na Porta do Sol.

Já em Barcelona, às 17h encontravam-se milhares de pessoas concentradas na Praça da Catalunha que iniciaram depois uma manifestação até à Praça do Palau. O jornal Público espanhol cita os números avançados pelos organizadores do protesto nesta cidade: 270 mil manifestantes. O único incidente registado relaciona-se com um momento mais tenso durante o qual uns jovens identificaram uns polícias à paisana infiltrados na manifestação.

Na cidade de Valência, a manifestação começou no final da tarde e juntou vários milhares de pessoas. A marcha que se caracterizou também pelo caráter festivo, embora aguerrido nas palavras de ordem anti-crise, seguiu até à Rua Colón e terminou em frente à delegação do Governo regional.

100 pessoas detidas em Paris
A polícia francesa prendeu uma centena de "indignados" quando estes tentavam manifestar-se em frente da Catedral de Notre Dame, em Paris, França, no âmbito da convocatória internacional "Democracia verdadeira já!". Mais tarde, os manifestantes sentaram-se em frente ao monumento para continuar o protesto, que começou ao meio-dia. O Comando da Polícia da capital francesa anunciou que os detidos seriam libertados assim que verificada a sua identidade.

Na sua conta oficial no Twitter @acampadaparis, os indignados de Paris denunciam a repressão policial com fotografias.

Fonte: Agencia Carta Maior