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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Filme La Commune – A Comuna de Paris foi televisionada

251113 lacomuneFrança - A Verdade - [Glauber Ataide] Um filme ao mesmo tempo vibrante e reflexivo: assim podemos definir La Commune, do diretor inglês Peter Watkins. A obra retrata a Comuna de Paris pelo lado de dentro, vista em meio à classe trabalhadora, que, por poucas semanas em 1871, "tomou o céu de assalto".


Com duração de 5 horas e 45 minutos e todo em preto e branco, La Commune pretende ser uma cobertura popular e documental da Comuna de Paris, mostrando o seu dia a dia por meio de uma TV fictícia criada peloscommunards. Ao mesmo tempo em que faz a dramatização da cobertura dos eventos, o filme também os contextualiza, exibindo informações históricas em formato de documentário – um gênero chamado docudrama, em inglês. Também trata do papel da mídia de massas, tanto no passado quanto no presente.
Logo nos primeiros dias da Comuna, ao perceberem que a mídia burguesa mentia, omitia e distorcia os fatos, os communards viram a necessidade de ter seu próprio veículo de comunicação. Assim, criaram a TV Comuna, que com seus dois repórteres acompanhará toda a revolução em seus aspectos mais particulares.
Um filme militante
O calor transmitido pela obra é contagiante. O povo se reúne e debate a organização da nova sociedade a todo o momento. As novas cooperativas de trabalhadores reativando oficinas abandonadas, a nova organização das mulheres, a nova administração e a nova educação desvinculada da Igreja, enfim, não há um só minuto de silêncio no decorrer do filme, com exceção das cenas que mostram como o canal de televisão da burguesia noticiava esses mesmos fatos.
Mas a característica mais marcante da obra é que, por diversos momentos, perde-se a barreira que separa o que é ficção e o que é realidade, o que é passado e o que é presente: durante o filme, os próprios atores são questionados sobre determinadas cenas da Comuna que estão representando. É assim, por exemplo, quando durante a defesa em uma barricada contra o avanço do exército de Versalhes, o repórter da TV Comuna se aproxima para entrevistar uma trabalhadora que ali lutava. No entanto, ele ultrapassa a linha do ficcional e entrevista não a personagem, mas a própria atriz, que lhe responde sob a emoção da cena que continua em andamento com os outros atores.
La Commune é também um filme para reflexão. A obra registra debates políticos entre os atores, ainda trajando seus figurinos dentro do cenário, sem que se avise antes ao telespectador que foi interrompido o fluxo dos eventos e que entramos em uma discussão sobre o mundo atual. Somente no decorrer do diálogo é que se percebe que ocorreu tal transição.
Meses antes das filmagens, cada ator estudou sobre a Comuna de Paris e sobre o que considerou necessário para compreender o tema. Suas opiniões registradas nos debates, portanto, resultaram do confronto entre suas leituras, a recriação dos eventos da Comuna e os debates com outros atores. E foi o resultado de todas essas experiências o que levou uma atriz a revelar durante um debate: “Quando eu ouvi falar desse filme eu reli Valles, Louise Michel, Lissagaray. Eu terminei os três livros e pensei: eu entendi Lênin!”. Para ela, foi somente pela experiência de recriação da Comuna de Paris que foi possível perceber a necessidade de uma organização centralizada como proposta por Lênin para dirigir a revolução – o Partido Comunista –, o que, em sua opinião, faltou na Comuna. Quando outro ator discorda de sua posição devido à repressão ao levante de Kronstadt (um levante que colocava em perigo o novo poder soviético), ela ainda replica: “Sim, mas eles [os bolcheviques] venceram a revolução”.
Por ser um filme engajado, militante, não se poderia esperar, obviamente, que fosse facilmente financiado. E a própria obra denuncia isto, quando, após um debate entre os atores, escreve: “A participação do elenco na produção deste filme é exatamente o que a mídia global teme, e uma das principais razões dos canais de televisão, aos quais foram solicitados recursos para este filme, terem se recusado a financiá-lo. O que a mídia teme, mais especificamente, é ver o homem no pequeno retângulo [televisão] ser substituído por uma multidão de pessoas, pelo público”.
Apesar de lançado no ano 2000, as dificuldades de financiamento e distribuição impediram sua ampla divulgação, somando-se o fato de que suas únicas legendas originais são em inglês (com áudio em francês). No entanto, graças à livre colaboração na internet, já é possível encontrar legendas não oficiais também em português. La Commune é um filme obrigatório.
Glauber Ataide, Belo Horizonte

domingo, 24 de julho de 2011

OS 140 ANOS DA COMUNA DE PARIS



Por Celso Lungaretti.
Escritor, Jornalista, ex-preso político.


OS 71 DIAS QUE ABALARAM O MUNDO: VIVE LA COMMUNE!

A primeira experiência de tomada de poder pelos trabalhadores na era capitalista, a heróica Comuna de Paris, ocorreu em 1971, de 18 de março a 28 de maio. Está, portanto, completando 140 anos.
Várias atividades marcarão a efeméride. Vocês encontram a programação completa e muitas outras informações no blogue Amigos da Comuna.
Para relembrar este episódio histórico de extrema relevância para quem luta por uma sociedade livre, justa e solidária, nada melhor do que os textos de Marx e Engels, lançados logo após a sangrenta repressão desencadeada contra os communards. Fiz uma síntese:
"Na alvorada de 18 de março de 1871, Paris foi despertada por este grito de trovão: "VIVE LA COMMUNE!".
Os proletários da capital -- dizia o Comité Central no seu manifesto de 18 de março -- em meio às fraquezas e das traições das classes governantes, compreenderam que chegara para eles a hora de salvar a situação, assumindo a direção dos assuntos públicos. O proletariado compreendeu que era seu dever imperioso e seu direito absoluto tomar nas suas mãos o seu próprio destino e assegurar o triunfo, apoderando-se do poder.
Mas a classe operária não se pode contentar com tomar o aparelho de Estado tal como ele é e o pôr a funcionar por sua própria conta.

O poder centralizado do Estado, com os seus órgãos presentes por toda a parte: exército permanente, polícia, burocracia, clero e magistratura, órgãos moldados segundo um plano de divisão sistemática e hierárquica do trabalho, data da época da monarquia absoluta, em que servia à sociedade burguesa nascente, como arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo.
Face à ameaça de sublevação do proletariado, a classe proprietária unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como o instrumento de uma guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua cruzada permanente contra as massas dos trabalhadores, foi forçada não só a investir o executivo de poderes de repressão cada vez maiores, mas também a retirar pouco a pouco à sua própria fortaleza parlamentar, a Assembleia Nacional, todos os meios de defesa contra o executivo.
O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era todavia, ele próprio, o maior escândalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o foco de todas as corrupções.

O primeiro decreto da Comuna foi, pois, a supressão do exército permanente e a sua substituição pelo povo em armas.
A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. Eram responsáveis e revogáveis a todo o momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna deveria ser não um organismo parlamentar, mas um corpo ativo, ao mesmo tempo executivo e legislativo.

Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os outros ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários.

Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objetivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o poder dos padres; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos.
Todos os estabelecimentos de ensino foram abertos ao povo gratuitamente e, ao mesmo tempo, desembaraçados de toda a ingerência da Igreja e do Estado. Assim, não só a instrução se tornava acessível a todos, como a própria ciência era libertada dos grilhões com que os preconceitos de classe e o poder governamental a tinham acorrentado.

Os funcionários da justiça foram despojados dessa fingida independência que não servira senão para dissimular a sua vil submissão a todos os governos sucessivos, aos quais, um após outro, haviam prestado juramento de fidelidade, para em seguida os violar. Assim como o resto dos funcionários públicos, os magistrados e os juizes deveriam ser eleitos, responsáveis e revogáveis.
Após uma luta heróica de cinco dias, os operários foram esmagados. Fez-se então, entre os prisioneiros sem defesa, um massacre como se não tinha visto desde os dias das guerras civis que prepararam a queda da República romana.
Pela primeira vez, a burguesia mostrava a que louca crueldade vingativa podia chegar quando o proletariado ousa afrontá-la, como classe à parte, com os seus próprios interesses e as suas próprias reivindicações."
Fonte: http://observatoriodeopinioes.blogspot.com

Os “indignados” e a Comuna de Paris



Por Atilio A. Borón

Talvez por uma dessas surpresas da história, o grande levante popular que hoje move a Espanha (e começa a reverberar no resto da Europa) coincide com o 140º aniversário da Comuna de Paris, feito heroico no qual a demanda fundamental era também a democracia. Mas, uma democracia concebida como governo do povo, pelo povo e para o povo, e não como um regime a serviço do patronato e, no qual, a vontade e os interesses populares estão inexoravelmente subordinados ao imperativo da ganância.

Precisamente por isso, as demandas dos “indignados” têm ressonâncias que evocam imediatamente aquelas que, com armas nas mãos, os parisienses saíram defendendo nas heroicas jornadas de 1871 e que culminaram com a constituição do primeiro governo da classe trabalhadora, se bem que restringido à cidade de Paris. Um governo que durou um pouco mais de dois meses e que logo foi esmagado pelo exército francês com aberta cumplicidade e cooperação das tropas de Bismarck que, pouco antes, haviam provocado uma humilhante derrota aos herdeiros dos exércitos napoleônicos.

A brutalidade contra os parisienses que tiveram a ousadia de querer tomar o céu de assalto e fundar uma democracia verdadeira foi terrível: calcula-se que mais de trinta mil communards (integrantes da Comuna de Paris) foram mutilados por armas, em execuções sumárias sem julgamento prévio. A Comuna foi afogada em um rio de sangue e, para expiar seus "crimes", a Assembleia Nacional decidiu levantar, na colina mais alta de Paris, em Montmartre, a Basílica de Sacré-Coeur, construída com fundos doados por uma subscrição popular em toda a França que, para a honra dos parisienses, apenas uma pequena parte das receitas veio da cidade martirizada pela reação. Paris foi derrotada, mas as parisienses e os parisienses não se ajoelharam.

A Comuna não acreditava na institucionalidade burguesa, pois sabia que o quadro complexo de leis, regulamentos e agências governamentais só se precocupava em consolidar a riqueza e os privilégios das classes dominantes e manter o povo submisso; ela exigia uma democracia direta e participativa, e a revogação do parlamentarismo, essa viciosa deformação da política convertida em charlatanismo e como espaço para todos os tipos de compromissos e negociações completamente alheios ao bem-estar da maioria; demandava a criação de uma nova ordem política, executiva e legislativa, baseada no sufrágio universal (homens e mulheres em igualdade, como aconteceria mais tarde, no capitalismo democrático, em que o "universal" que se referem exclusivamente aos homens) e com representantes facilmente revogáveis e diretamente responsáveis perante seus mandantes. Os communards queriam uma verdadeira democracia, não-fictícia, em que tanto os representantes do povo como os da burocracia estatal não gozariam de todos os privilégios e teriam remuneração equivalente ao salário médio do trabalhador. Entre outras medidas, tais como a separação entre Igreja e Estado e a universalização da educação laica, gratuita e obrigatória para homens e mulheres.

Basta olhar os documentos dos “indignados” de hoje para comprovar a assombrosa atualidade das demandas dos communards. A política do capitalismo mudou pouco, mas muito pouco, esta realidade. Os jovens e não tão jovens que tomam cerca de 150 praças da Espanha não são “apolíticos” ou “antipolíticos” como uma certa imprensa nos quer fazer crer. São pessoas profundamente politizadas que levam a sério a promessa da democracia e que, por isso, se rebelam contra a falsa democracia, surgida das entranhas do franquismo e consagrado no tão aplaudido Pacto de la Moncloa, exibido como um ato de exemplar engenharia política democrática ante os povos latino-americanos. Uma democracia que os acampados denunciam como um engano, um simulacro que, por baixo de suas roupas enfeitadas, oculta a persistência de uma cruel ditadura que descarrega o peso da crise desencadeada pelos capitalistas sobre os ombros dos trabalhadores.

O que a “exemplar” democracia de La Moncloa propõe para enfrentar o despotismo do mercado, inimigo irreconciliável de qualquer projeto democrático é: facilitar as demissões dos trabalhadores, reduzir seus salários, cortar direitos trabalhistas, congelar pensões e aumentar a idade para aposentadoria, diminuir o emprego público, cortar orçamentos em saúde e educação, privatizar empresas e programas governamentais e, coroando toda esta fraude, reduzir ainda mais o imposto sobre grandes fortunas e à empresas para que, com o dinheiro excedente, invistam em novos empreendimentos.

Uma vez mais a famosa e mil vezes refutada “teoria do derrame”, que supõe que o povo é idiota e que não se dá conta que, se os ricos têm mais dinheiro, se faz necessário um milagre para que não sucumbam ante a tentação do cassino financeiro global para investir na criação de empresas geradoras de novas fontes de trabalho. A experiência indica que a tentação é demasiada grande.

A resposta da falsa democracia espanhola – na realidade, uma sórdida plutocracia que os jovens querem destruir e substituir por uma democracia digna deste nome – ante a crise provocada pela insaciável voracidade da burguesia, é aprofundar o capitalismo, aplicando as receitas do FMI até que a sociedade sangre e, afundando em desespero e miséria, aceite uma "solução neofascista" para recompor a ordem perdida.

Não há mudança possível dentro da armadilha espanhola pseudodemocrática, porque seu famoso bipartidarismo tem demonstrado não ser outra coisa do que duas faces de apenas um partido: o do capital. Porém, agora, a conspiração entre o PSOE e o PP encontrou um obstáculo inesperado: encorajados pelos ventos do norte da África que cruzam o Mediterrâneo, os jovens, vítimas principais, porém não exclusivas deste saqueio, “tem dito basta! E começado a andar”, como uma vez expressou o Comandante Ernesto Guevara em seu célebre discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, no ano de 1964.

Nada voltará a ser como antes na Espanha. O desprestígio de sua classe política parece ter ultrapassado o ponto e a crise de legitimidade de sua pseudodemocracia chega a profundidades insondáveis; se os egípcios e os tunisianos puderam se livrar dos grupos governantes corruptos, por que os “indignados” também não poderiam se libertar?

As obscenas incoerências éticas do verdadeiro regente da economia espanhola, o FMI, só podem agora irritar e mobilizar camadas cada vez mais amplas de cidadãs e cidadãos: enquanto estes sofrem todo o tipo de cortes de cortes de renda e de direitos trabalhistas, os bandidos do FMI decidem premiar Dominique Strauss Kahn com uma indenização de 250 mil dólares, porque renunciou imediatamente ao cargo por ter abusado sexualmente de uma trabalhadora africana em um hotel de Nova York!

Além disso, desfrutará de uma aposentaria estimável que é negada a milhões de espanhóis e europeus em Portugal, na Grécia, Irlanda, Islândia... E são essas pessoas que dizem saber como sair da pior crise econômica da história! Sem ter lido os clássicos do marxismo, a vida ensinou aos “indignados” que não há democracia possível no capitalismo, que, como dizia Rosa Luxemburgo, sem socialismo não se fará democracia e que o capitalismo é antagônico à democracia.

A história tem dado seu veredicto final: mais capitalismo, menos democracia, desde o Norte opulento e industrializado até o Sul. A vida lhes ensinou também que, quando juntam suas vontades, se organizam e se educam no debate de ideias para superar a estupidez das massas programadas pela indústria cultural do capitalismo, sua força é capaz de paralisar a partidocracia e colocar em crise a pseudodemocracia com a qual se enganavam. Se persistem em sua luta poderiam também derrotar a prepotência do capital e, eventualmente, iniciar uma nova etapa na história não apenas na Espanha como na Europa. Os povos do mundo inteiro têm, hoje, seus olhos postos nas ruas e praças da Espanha, onde está se dando um debate decisivo.

FONTE: REVISTA CAROS AMIGOS / *Atilio Borón é cientista social argentino / Tradução: Paula Salati

sábado, 23 de julho de 2011

HISTÓRICO JURÍDICO DO MOVIMENTO COMUNISTA: Decretos da Comuna de Paris

Amigas e amigos,

A Comuna de Paris, foi a primeira experiência de tomada de poder pelo trabalhadores. Foi estudando a referida experiência que Karl Marx desenvolveu o socilalismo científico, base estrutural de todo e qualquer comunista.

Abaixo, reproduzo alguns decretos da Comuna de Paris, para o conhecimento de nossos leitores. Foram extraídos da Introdução do livro Escritos sobre a Comuna de Paris (São Paulo: Xamã, 2002) com seleção e tradução de Osvaldo Coggiola (professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo e militante no Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior – Sindicato Nacional, ANDES-SN)*.

Boa Leitura,

Adriano Espíndola Cavalheiro

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Decretos da Comuna de Paris de 1871

Artigo I. As velhas autoridades de tutela, criadas para oprimir o povo de Paris, são abolidas, tais como: comando da polícia, governo civil, câmaras e conselho municipal. E as suas múltiplas ramificações: comissariados, esquadras, juízes de paz, tribunais etc. são igualmente dissolvidas.

Artigo II. A comuna proclama que dois princípios governarão os assuntos municipais: a gestão popular de todos os meios de vida coletiva; a gratuidade de tudo o que é necessário e de todos os serviços públicos.

Artigo III. O poder será exercido pelos conselhos de bairro eleitos. São eleitores e elegíveis para estes conselhos de bairro todas as pessoas que nele habitem e que tenham mais de 16 anos de idade.

Artigo IV. Sobre o problema da habitação, tomam-se as seguintes medidas: expropriação geral dos solos e sua colocação à disposição comum; requisição das residências secundárias e dos apartamentos ocupados parcialmente; são proibidas as profissões de promotores, agentes de imóveis e outros exploradores da miséria geral; os serviços populares de habitação trabalharão com a finalidade de restituir verdadeiramente à população parisiense o caráter trabalhador e popular.

Artigo V. Sobre os transportes, tomam-se as seguintes medidas: os ônibus, os trens suburbanos e outros meios de transporte público são gratuitos e de livre utilização; o uso de veículos particulares é proibido em toda a zona parisiense, com exceção dos veículos de bombeiros, ambulâncias e de serviço à domicílio; a Comuna põe à disposição dos habitantes de Paris um milhão de bicicletas cuja utilização é livre, mas não poderão sair da zona parisiense e de seus arredores.

Artigo VI. Sobre os serviços sociais, tomam-se as seguintes medidas: todos os serviços ficam sob controle das juntas populares de bairro e serão geridos em condições paritárias pelos habitantes de bairro e os trabalhadores destes serviços; as visitas médicas, consultas e assistência médica e medicamentos serão gratuitos.

Artigo VII. A Comuna proclama a anistia geral e a abolição da pena de morte e declara que a sua ação se baseia nos seguintes princípios: dissolução da polícia municipal, dita polícia parisiense; dissolução dos tribunais e tribunais superiores; transformação do Palácio da Justiça, situado no centro da cidade, num vasto recinto de atração e de divertimento para crianças de todas as idades; em cada bairro de Paris é criada uma milícia popular composta por todos os cidadãos, homens e mulheres, de idade superior a 15 anos e inferior a 60 anos, que habitem o bairro; são abolidos todos os casos de delitos de opinião, de imprensa e as diversas formas de censura: política, moral, religiosa etc; Paris e proclamada terra de asilo e aberta a todos os revolucionários estrangeiros, expulsos [de suas terras] pelas suas idéias e ações.

Artigo VIII. Sobre o urbanismo de Paris e arredores, consideravelmente simplificado pelas medidas precedentes, tomam-se as seguintes decisões: proibição de todas as operações de destruição de Paris: vias rápidas, parques subterrâneos etc; criação de serviços populares encarregados de embelezar a cidade, fazendo e mantendo canteiros de flores em todos os locais onde a estupidez levou à solidão, à desolação e ao inabitável; o uso doméstico (não industrial nem comercial) da água, da eletricidade e do telefone é assegurado gratuitamente em cada domicílio; os contadores são suprimidos e os empregados são colocados em atividades mais úteis.

Artigo IX. Sobre a produção, a Comuna proclama que: todas as empresas privadas (fábricas, grandes armazéns) são expropriadas e os seus bens entregues à coletividade; os trabalhadores que exercem tarefas predominantemente intelectuais (direção, gestão, planificação, investigação etc.) periodicamente serão obrigados a desempenhar tarefas manuais; todas as unidades de produção são administradas pelos trabalhadores em geral e diretamente pelos trabalhadores da empresa, em relação à organização do trabalho e distribuição de tarefas; fica abolida a organização hierárquica da produção; as diferentes categorias de trabalhadores devem desaparecer e desenvolver-se a rotatividade dos cargos de trabalho; a nova organização da produção tenderá a assegurar a gratuidade máxima de tudo o que é necessário e diminuir o tempo de trabalho. Devem-se combater os gastadores e parasitas. Desde já são suprimidas as funções de contramestre, cronometrista e supervisor.

Artigo X. Os trabalhadores com mais de 55 anos que desejem reduzir ou suspender sua atividade profissional têm direito a receber integralmente os seus meios de existência. Este limite de idade será menor em relação a trabalhos particularmente custosos.

Artigo XI. É abolida a escola “velha”. As crianças devem sentir-se como em sua casa, aberta para a cidade e para a vida. A sua única função é a de torná-las felizes e criadoras. As crianças decidem a sua arquitetura, o seu horário de trabalho e o que desejam aprender. O professor antigo deixa de existir: ninguém fica com o monopólio da educação, pois ela já não é concebida como transmissão do saber livresco, mas como transmissão das capacidades profissionais de cada um.

Artigo XII. A submissão das crianças e da mulher à autoridade do pai, que prepara a submissão de cada um à autoridade do chefe, é declarada morta. O casal constitui-se livremente com o único fim de buscar o prazer comum. A Comuna proclama a liberdade de nascimento: o direito de informação sexual desde a infância, o direito do aborto, o direito à anticoncepção. As crianças deixam de ser propriedades de seus pais. Passam a viver em conjunto na sua casa (a Escola) e dirigem sua própria vida.

Artigo XIII. A Comuna decreta: todos os bens de consumo, cuja produção em massa possa ser realizada imediatamente, são distribuídos gratuitamente; são postos à disposição de todos nos mercados da Comuna.

* Extraído da Introdução do livro Escritos sobre a Comuna de Paris (São Paulo: Xamã, 2002) com seleção e tradução de Osvaldo Coggiola (professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo e militante no Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior – Sindicato Nacional, ANDES-SN). Além de discutir os textos selecionados (Karl Marx, Mikhail Bakunin, Friederich Engels, Prosper-Olivier Lissagaray, Vladimir Ilich Lenin, Karl Kautski, Leon Trotski, Julius Martov e Daniel Guerín), nesta Introdução, o professor pauta a Comuna de Paris de 1871 nos seus aspectos históricos e teóricos – sobretudo, a partir d’A Guerra Civil em França, texto de caráter teórico, jornalístico e histórico fundamental que Karl Marx publica no mesmo ano.

Fonte: http://defesadotrabalhador.blogspot.com