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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Chile: o verdadeiro milagre dos milagres

O escritor chileno Ariel Dorfman contextualiza o desastre na mina San José: a secular exploração dos mineiros, a sabedoria organizativa passada de geração em geração. E pede o milagre de que as coisas mudem em seu país. "O mundo maravilhou-se com a maneira pela qual os trinta e três mineiros confinados debaixo da terra de San José se organizaram em turnos, criaram uma hierarquia de mando e elaboraram um plano de sobrevivência usando os talentos e recursos acumulados ao longo de uma vida de trabalho tenaz. Eu confesso, em troca, não sentir surpresa alguma. É assim que os trabalhadores chilenos sempre resistiram e sobreviveram aos desafios mais formidáveis".

Uma vida inteira. Creio que os trinta e três mineiros sepultados nas profundidades da mina San José,no Chile, prepararam-se durante toda sua vida para enfrentar o desafio de ficar vários meses debaixo da terra. Ou talvez possa me aventurar a dizer que essa é uma batalha que vêm travando desde antes mesmo de nascer.

A epopéia de homens que descem às trevas da montanha, separam minerais em meio à escuridão e sofrem um acidente que os deixa a mercê daquela escuridão é parte do DNA do Chile, uma parte integral da história do meu país. Foi uma das primeiras coisas que aprendi sobre o Chile, quando cheguei a Santiago, em 1954, aos doze anos de idade.

Abram seus livros até encontrar “El Chiflón del Diablo” – nos pediu um professor es espanhol. Um conto de Baldomero Lillo, publicado em 1904.

Era um relato de uma catástrofe semelhante a esta que, muitas décadas mais tarde, no dia 6 de agosto de 2010, afetaria os mineiros de San José. Ali se encontra uma tragédia que iria se repetir interminavelmente, como a terra devora aqueles que se atrevem a mergulhar em suas entranhas, uma exploração da miséria que, como tantos outros contos clássicos escritor por Baldomero Lillo no início do século XX, todo estudante chileno deve estudar. É claro que aqueles trinta e três mineiros não sabiam quando leram “El Chiflón del Diablo” no colégio que algum dia teriam que viver esse terror na realidade de suas vidas e não na literatura. Não podiam adivinhar que, mais de cem anos depois de Baldomero Lillo imaginar essa ficção, as precárias condições da vida mineira, a exploração humana, os riscos para os trabalhadores, seguiriam essencialmente inalterados.

A mineração forjou o Chile
Os conquistadores que fundaram as primeiras cidades cruzaram desertos alarmantes e vales proibidos em busca de ouro. Depois passou a se apreciar o valor de outros minérios: o ferro, que era fundido em altos fornos, o cobre que ainda hoje é o principal produto de exportação do Chile, e o carvão do Sul, sobre o qual Lillo escreveu e que foi crucial para os barcos que aportavam para se reabastecer a caminho de uma Flórida presa à febre do ouro. De fato, muitas das técnicas utilizadas na Califórnia, a partir de 1849, deveram-se a chilenos que nasceram e se criaram em Copiapó, perto de onde hoje se encontra a mina San José. Milhares e milhares deles partiram aos Estados Unidos com a repentina ilusão de enriquecer.

Mas, de todos os minerais, foi o salitre que, acima de todos os outros, criou o Chile da modernidade. Essas extensões de crosta salina no Atacama, o deserto mais seco do mundo, constituíam a base para o melhor fertilizante conhecido pelo homem e, além disso, serviam para fabricar explosivos. Centenas de pequenas cidades se levantaram nas planícies pedregosas do Pampa “salitrero” e milhões de toneladas foram enviadas a uma Europa atada a uma revolução industrial que necessitava desesperadamente aumentar sua produção agrícola. Algumas décadas mais tarde, como ocorre com tanta freqüência na América latina e outros lugares tristes do planeta – pensemos na borracha do Amazonas ou na prata de Potosí -, diminuiu a demanda de salitre e só restaram alguns povoados fantasmas, uma diáspora de casas raquíticas esparramadas pelo deserto, uma legião de vidas em ruínas.

O nitrato deixou algo mais do que desolação detrás de si. O mundo maravilhou-se com a maneira pela qual os trinta e três mineiros confinados debaixo da terra de San José se organizaram em turnos, criaram uma hierarquia de mando e elaboraram um plano de sobrevivência usando os talentos e recursos acumulados ao longo de uma vida de trabalho tenaz. Eu confesso, em troca, não sentir surpresa alguma. É assim que os trabalhadores chilenos sempre resistiram e sobreviveram aos desafios mais formidáveis. É o legado daqueles que extraíram o salitre em uma situação de solidão e pobreza, daqueles que, na época em que Baldomero Lillo escrevia sobre os tormentos dos mineiros, souberam estabelecer os primeiros sindicatos, os primeiros grupos de leitura, os primeiros jornais da classe operária. Essas lições de unidade, força e ordem e, sim, astúcia, foram passadas de pai para filho e neto: o que todo homem precisava saber para superar os desastres que o esperavam em um mundo sem misericórdia.

Por certo, uma sorte piedosa visitou os trinta e três mineiros neste dia de agosto, quando a montanha veio abaixo. Mas não foi a sorte que os manteve com vida. Dentro deles se encontrava o treinamento invisível, o alento de seus ancestrais, que se perpetuaram para murmurar-lhes o que deviam fazer para não morrer uma e outra vez na obscuridade. Houve um milagre em San José, mas por a ênfase tão somente na fortuna benigna é perder de vista o que pode ser talvez o significado mais recôndito do que ocorreu nesse lugar, e que segue ocorrendo, é deixar de lado as perguntas que verdadeiramente importam.

Como é possível que, mais de um século depois de os contos de Baldomero Lillo denunciarem as circunstâncias ferozes em que se trabalhava sob o solo, ainda persistam a mesma insegurança, os mesmos perigos? Quantos novos acidentes como este faltam ocorrer para que se legisle preventivamente e os mineiros possam tocar seu trabalho cotidiano sem arriscar suas vidas de uma forma indecorosa?

Esses trinta e três mineiros são agora heróis nacionais e internacionais, com todo o Chile, e uma boa parte do mundo, acompanhando seu progresso paulatino rumo à luz do dia. Devido a uma dessas coincidências que a história nos oferece de vez em quando, esses homens ficaram presos no preciso momento em que as últimas estatísticas demonstraram, para nossa vergonha, que a pobreza no Chile aumentou drasticamente pela primeira vez desde que Pinochet deixou de ser o ditador do país.
É demasiado sonhar que as tribulações desses homens perturbarão a consciência do Chile, que ajudarão a criar um país onde, dentro de cem anos, os relatos de Baldomero Lillo e a história dos trinta e três mineiros de San José serão coisa do passado, uma relíquia, algo lendário mas já não rotineiro?

Isso sim é que seria um milagre.

(*) Ariel Dorfman é o autor da novela “Americanos: Los Pasos de Murieta” e do livro “Memorias del Desierto”, que explora a vida dos mineiros do norte do Chile.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agencia Carta Maior

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Terremoto no Chile. Uma análise de conjuntura necessária




Escrito por FR-IC Chile
Companheiros (as), a primeira coisa que devemos dizer –mesmo que seja muito repetitivo- é que o terremoto veio simplesmente aguçar a situação de crise econômica pela qual atravessa nosso país, imerso na crise econômica mundial. Hoje a crise econômica está sendo enfrentada na Europa com grandes mobilizações, como as greves da classe operária grega; mas também os mais de seis milhões de desempregados no Estado Espanhol são expressão da crise.
Por outro lado, devemos ser claros, o mercado norte-americano não tem ainda uma clara reativação e a locomotiva chinesa movimenta-se mais lentamente do que o desejo de todos; enquanto muitos investidores continuam especulando com os preços das comoditties, economistas como Stiglitz e Krugman temem que sejam simples bolhas; e que, se estas explodirem, a crise vai piorar…
…e queiramos ou não… neste frágil palco se movimentam todos os países da América Latina, e o Chile não é a exceção.

No Chile…
No Chile, o terremoto evidenciou a situação de pobreza em que vivem milhões de trabalhadores, e que estamos longe de ser um país desenvolvido (brilhante membro da OCDE), e que também estamos imersos na crise, mesmo que muitos a queiram ocultar. Não é por acaso que um general de exército lembrou: “… simplesmente somos um país subdesenvolvido, terceiro-mundista, alguém tem alguma dúvida…?”
Aquela afirmação, a do subdesenvolvimento, percorre toda a coluna vertebral do Estado, e não só o mundo social. Inicia-se no “Governo” e termina nos serviços públicos, um governo completamente ineficiente, e que a única coisa que sabe fazer bem é reprimir. É a tarefa que melhor cumpriu, durante a Concertação [1], e agora com o governo de Piñera [2]; no resto, demonstraram ser completamente inoperantes.

País de papelão…
O Chile, país com submarinos nucleares, com F-16, com tanques Leopard… mas sem telefones via satélite (ou seja, se realmente houvesse guerra, tudo aquilo não serviria para nada); país onde o fornecimento de energia é cortado e ficamos completamente sem comunicação à noite por longas horas; somos claramente um “país de papelão”.

… e das desigualdades
Este é nosso o Chile, o Chile onde os ricos, os que tudo têm não perderam nada; mas no qual os trabalhadores, os que tudo produzem, perderam tudo ou quase tudo e em muitos casos ficaram na rua e sem trabalho. É preciso ser claro, a zona afetada pelo terremoto é a de maior desemprego do país, junto com Araucanía e Maule (suas regiões vizinhas e igualmente atingidas). Aqui o desemprego é maior que 10% da população ativa. Ou seja, ali os problemas serão mantidos e intensificados ainda mais pela catástrofe, portanto é altamente provável que as mobilizações também se mantenham e se agucem, pois as possibilidades de uma melhora imediata são impossíveis sob este sistema econômico e sob este governo de Piñera de “Unidade Nacional”.

A crise nas alturas…
A situação política nacional, também foi remexida pelo sismo, não é a mesma que antes do terremoto. Este provocou uma evidente “crises nas alturas” tanto no dia 27 como no domingo, 28 de fevereiro, quando nos demos conta que neste país: ninguém mandava.
A confusão foi total, e à ineficácia do governo Bachelet somou-se um governo entrante, o de Piñera completamente ausente; com ministros que não estavam no local, sem governadores e Seremis (Secretários Regionais Ministeriais) nomeados e só com alguns intendentes. A ineficiência do governo entrante ficou em evidência quando a zona afetada não recebeu a ajuda que necessitava; e foi ante esta situação que os trabalhadores de Concepción, Talcahuano, Lota, Coronel e outras localidades, organizaram-se para buscar o básico nos supermercados: alimentos (muitos trabalhadores não receberam seu salário de fevereiro – de fato, muitos ainda não o recebem - e o corte da energia provocou a perda dos alimentos refrigerados, além da falta de água potável). A imprensa burguesa, de fato quase não há outra no Chile, demonizou os fatos falando de saques e que todos eram delinquentes, uma falsidade que caía em pedaços, pois na verdade eram trabalhadores na sua grande maioria organizados, buscando as coisas básicas para sobreviver.

A militarização… da região (e também de todo o país?)
Com o passar dos dias, o governo que sai (Bachelet) e o entrante (Piñera) concordaram em militarizar a zona afetada e para isso foi declarado Estado de exceção constitucional, o Estado de Catástrofe; isto permitiu a presença militar em Concepción, Talcahuano e outras cidades próximas e certamente a implementação do toque de recolher. Militares que tiveram só uma missão - resguardar a propriedade privada e os interesses dos empresários.
Ante esta situação, o impressionismo político apoderou-se de alguns setores de esquerda, que começaram a afirmar - equivocadamente em nosso entendimento - que mal Piñera assumisse, iria decretar Estado de Catástrofe em todo o país, e, portanto, com esse pretexto, iria militarizar todo o território, podendo decretar toques de recolher em todas as cidades.
Nós, do FR-IC, dissemos que isso não estava formulado, que no Chile não se abria uma situação reacionária, muito menos contrarrevolucionária, como afirmaram alguns; mas muito pelo contrário a situação da luta de classes se aguçou e a mostra disso foi a reação dos trabalhadores com sua auto-organização; que este aguçamento é pela esquerda, mesmo que sem direção. E que isto ficou demonstrado na proliferação espontânea de organismos comunitários e de classe que se formaram por fora dos sindicatos, como uma clara demonstração de organização e luta, ante a ausência de uma direção política revolucionária e classista; demonstrou-se na criação de inumeráveis “cordões de ajuda”, e nos trabalhos voluntários, que muitos sindicatos estão levando a cabo.
Mas devemos nos perguntar: Piñera gostaria de governar com os militares nas ruas? A resposta é sim. Mas é a mesma resposta que daríamos para a Concertação; o problema é que esta tinha o telhado de vidro, era mais frágil, de uma ou outra forma a Concertação não podia, por seu “prestígio” antiditatorial, aparecer chamando os militares (até que finalmente o fez). Devemos lembrar que a Concertação, cada vez que pôde, mandou milhares de carabineiros às ruas para reprimir. Então voltamos à pergunta, mas de outra forma: e por que Piñera não enviou todos os carabineiros e militares às ruas? Há duas razões que se combinam para que não possa fazê-lo. Uma é o ânimo do conjunto das massas que não o veriam com bons olhos, e diriam - Voltou a Ditadura! - e esta situação não está colocada.
Outra razão importante é que o governo Piñera não tem a quantidade suficiente de militares e carabineiros para fazê-lo; de fato, na VI Região houve outro sismo com características de terremoto, em 11 de março, e de imediato foi declarado Estado de Catástrofe para a região, mas… se abstiveram de estabelecer toque de recolher. Na sexta-feira pudemos constatar que em Rancagua, capital da VI Região, simplesmente não havia um só carabineiro ou militar nas ruas. Entre as 20 h e as 24 h simplesmente não havia Forças Armadas nas ruas.
Então como se militarizou a região de Concepción-Talcahuano?
Transferindo perto de seis mil efetivos militares a uma zona que só contava com 600 e que tem uma população perto de um milhão de habitantes. A burguesia e seus governos de turno sabem que a “modernização das Forças Armadas” significou reduzir suas forças, estão conscientes disso e, portanto, não é tão simples decretar Toques de recolher onde eles quiserem. Ainda assim, devemos estar atentos aos eventos, e às mobilizações; pois não há dúvida de que o governo Piñera tentará reprimir com todas suas forças, e também devemos dizer que suas forças não são muitas e ele sabe disso. Por isto é que tiveram, mais do que nunca, que proclamar o Governo de Unidade Nacional, pois de outra forma os trabalhadores podem passar por cima deles.

…a Unidade Nacional
Desde antes de chegar ao governo, Piñera chamava um governo de Unidade Nacional; pois sabe de sua debilidade, e sabe que precisa do apoio de “todos” para poder governar. O que ficou claro quando nomeou Jaime Ravinet, militante da Democracia Cristã (partido da coligação Concertação pela Democracia), ministro da Defesa. Mas agora o sismo “caiu como uma luva”, pois desde o governo anterior escutavam-se vozes dizendo que: “Todos devemos trabalhar juntos pela reconstrução do país”. Foi eloquente o abraço entre Piñera e Bachelet durante o Teletom [3], onde ambos pareciam emocionados e a ponto de quase chorar.
Esta Unidade Nacional explica porque Piñera deixou muitos ex-funcionários do Governo de Bachelet nos seus postos de Seremis; estes são postos de confiança e de caráter eminentemente políticos.
Desta “Unidade Nacional” não escapou nem o PC, que defendeu o desenvolvimento de uma oposição construtiva e fiscalizadora; nem a direção da CUT (PC-PS), que fez um pacto com o empresariado representado na SOFOFA (Sociedade de Fomento Fabril); nem a FECH, a Federação de Estudantes da Universidade do Chile, dirigida pela juventude do PC, que na sua campanha de coleta de alimentos simplesmente optou por entregá-los ao… governo.
Em vez de realizar uma aliança entre a FECH, a CUT e/ou a CGT para a entrega dos alimentos, todos estes dirigentes preferem chamar a unidade política para a reconstrução, dando um voto de confiança ao governo patronal e assim bloquear o avanço na consciência dos trabalhadores e do povo.
O que a Força Revolucionária-Esquerda Comunista (FR-IC) defende...
Que o caminho a seguir é o que têm feito de forma independente e classista o SITECO com o sindicato Agrosuper; isto é, confiar nas forças dos próprios trabalhadores e organizar-se para levar a ajuda às zonas sinistradas; aí se deve colocar todo o empenho. Por isso propomos:

De imediato:
1. Não à militarização das zonas afetadas. Fora os militares das ruas. Abaixo o Toque de recolher. Fim às restrições das liberdades individuais.
2. Ante a ineficiência do Governo; auto-organização dos trabalhadores.
3. Por uma corrente sindical classista que lidere a ajuda aos afetados. Seguir o exemplo do SITECO. Que os dirigentes honestos e de base da CUT levantem estas bandeiras de luta; ante a nula atuação da burocracia que dirige a CUT, três semanas depois da catástrofe.
4. Plano de emergência já, com soluções dignas, com moradias dignas.
5. Trabalho para todos os desempregados, com um plano de reconstrução de moradias, estradas, hospitais, escolas com amplo financiamento do Estado e sob o controle dos trabalhadores; isto é possível e demonstrado pela imensa quantidade de trabalhadores que de forma voluntária acodem em ajuda aos danificados e se auto-organizam em grupos de trabalho.
6. Como se financia tudo isto? Com um imposto de 50% sobre as grandes empresas; com a estatização dos bancos, que no ano passado tiveram lucros de 640 bilhões de pesos, quando no Teletom foi conseguido perto de 50 bilhões em “ajuda empresarial”; e renacionalizando e estatizando a mineração do cobre e todos os recursos naturais.
7. Perdão já de todas as dívidas hipotecárias! Prisão para os inescrupulosos que construíram moradias que caem e racham. No bairro alto, nenhuma caiu, nenhuma rachou.
8. Desmascarar este governo de Unidade Nacional, que só serve aos patrões.

No médio prazo:
1. Fortalecimento dos organismos sindicais e populares e de todos aqueles que se auto-organizaram ante a catástrofe; unindo laços entre estes. Seguir o exemplo do SITECO e do AGROSUPER da sexta região.
2. Fortalecimento das coordenações sindicais, populares, estudantis ou outras; que já existem, como a Assembléia da mulher.
3. Devemos realizar de conjunto, tanto trabalhadores como organismos populares, uma campanha contra a política econômica neoliberal, denunciando as compras de armamentos; denunciando a falta de construções de moradias de qualidade e de estabelecimentos educacionais e de hospitais, e que, além disso, por décadas foram postergados.
4. Todos os que nos organizamos devemos realizar uma campanha explicativa ante os trabalhadores e o povo do Chile, que nosso país conta com os recursos necessários para sua reconstrução e que devemos deter o “saque” que as transnacionais fazem de nossas riquezas naturais.
5. Todos os que nos organizamos devemos explicar àqueles trabalhadores confundidos pelas imagens de televisão que na atual crise social existem “setores lumpens” que inclusive atacaram os próprios trabalhadores e, embora minoritários, não são mais que a expressão desta “barbárie capitalista”; que são a expressão social de um sistema em decadência que inculcou o individualismo e o consumismo acima dos valores da solidariedade entre a classe trabalhadora.
Por último não podemos deixar de explicar que a única solução aos nossos problemas é o Socialismo e que isto significa: trabalhadores no poder, sem nenhum tipo de burocratas, nem políticos, nem sindicais.
Força Revolucionária- Esquerda Comunista (Chile)
NT:
[1] A coligação de partidos que levou Michele Bachelet ao governo.
[2] O novo governo de Piñeras, vencedor na última eleição presidencial.
[3] Campanha periódica de solidariedade, que se realiza para associações beneficentes, e que esta vez foi em ajuda dos danificados pelo terremoto.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Terremoto no Chile expõe a perversidade da lógica do capital




Escrito por Marcelo Luis B. Santos
Sábado, 27 de fevereiro de 2010, 3 horas e 37 minutos da madrugada, litoral central do Chile. Parou de tremer. Depois de quase 3 minutos agachado ao pé da porta com minha mulher, cremos que o pior passou e estamos bem. Passado o susto inicial, começam as réplicas (novos tremores ao longo dos dias seguintes que correspondem ao acomodamento das placas tectônicas), mais ou menos fortes, segundo a regra, menos fortes que o tremor inicial. Era um terremoto cujo epicentro apontou 8,8 pontos na escala Richter. O epicentro, para nossa sorte, foi a cerca de 500 km da casa onde estava. Dormimos ao ar livre, admirando a lua quase cheia se pondo no mar, uma beleza natural que contrastava com a catástrofe em curso e o medo de que um tsunami escalasse a altura da casa em que estávamos, a dois quarteirões do mar encosta acima.
Catástrofes naturais podem ser lidas como grandes crises, apenas com a graça que são provocadas por forças alheias à ação direta do homem – ou ao menos assim fomos ensinados a percebê-las no ocidente. Aparte do lado trágico que todos acompanham, pessoalmente ou mediado pela televisão e demais meios de comunicação, levando muita gente a empatizar coletivamente com o sofrimento de seus semelhantes, mais ou menos próximos – depende da distância tanto quanto do conceito de próximo –, as catástrofes têm um importante lado revelador, como qualquer crise.
Em situações limítrofes, somos convidados a enfrentar o lado mais transparente das pessoas ao nosso redor, que abarca desde a solidariedade até o vandalismo, da tranqüilidade ao desespero, das formas mais desprendidas de coletividade e organização altruísta para os eventos mais macabros marcados por inaceitável egoísmo. Assim descobrimos facetas encobertas de gente que conhecemos há anos, como colegas de trabalho, amigos, parentes e até mesmo cônjuges. Mas também é a oportunidade de conhecer a reação imediata e desprovida de marketing ou de preparação das grandes corporações e organizações da sociedade, em particular e principalmente o governo de um país.
No entanto, na conjuntura atual, na maior parte das sociedades no Ocidente, os serviços e bens fundamentais para a cidadania – moradia, luz, água, alimentação, telecomunicações, saúde, transporte – não estão nas mãos dos governos, e sim subjugados à perversa lógica das concessionárias privadas. Digo ¨perversa¨ porque, ainda que sob uma (suposta) regulação do governo, as tais concessionárias têm por objeto o lucro, não o bem estar social. Em estado de paz, os dilemas e problemas não ficam tão evidentes, mas, quando há crise - por exemplo, uma crise econômica como a recente –, algumas das contradições desta ¨solução¨ contemporânea à gestão dos bens e serviços públicos rapidamente vêm à tona.
Mas não estou falando aqui de uma crise econômica ou outra com estas proporções menores. Estou falando de uma catástrofe natural: o segundo maior terremoto da história chilena (ao menos da história da história) teve repercussões até mesmo em cidades tão distantes quanto São Paulo e Buenos Aires. Para efeito de comparação, nos respectivos epicentros, o terremoto recente de 8.8 graus supera de longe a intensidade de tremor do também recente terremoto do Haiti, de ¨apenas¨ 7.0 graus.
Do radinho de pilha, já com o sol quente, dois depoimentos marcaram a jornada jornalística após o tremendo movimento sísmico: da presidente em mando e do presidente eleito. Era de se esperar: ambos representam visões de mundo altamente antagônicas, partidos com posições políticas diametralmente opostas. Enquanto Bachelet é símbolo da resistência à ditadura e do projeto socialista chileno, sufocado por Pinochet e sua maldita herança, Piñera é um dos maiores expoentes do seleto grupo conivente com a ditadura e que se aproveitou da liberalização da economia para fazer fortuna – no lugar certo, na hora certa, mas também com os amigos certos e com a disposição política conivente. Para complicar mais ainda a situação, a troca de mando está prevista para 11 de março, apenas 13 dias após a tragédia, o que fazia mais determinante e dramática a coordenação entre ambas as lideranças e respectivas equipes. Daí tanta expectativa.
Sem luz, sem água, sem telefonia celular, mas com o radinho de pilha de meu sogro, pudemos ouvir o pronunciamento inicial de ambos, suficiente para forjar a perspectiva do desenrolar das ações e, em particular, da tônica do governo que vem por aí. Piñera dirigiu-se a um encontro com os governantes para colocar sua equipe à disposição dos mesmos, mas, mais que isso, discursou como ¨representante da iniciativa privada¨, afirmando assertivamente que o papel da iniciativa privada na reconstrução do país era fundamental – tônica que nos dias seguintes se repetiu continuamente.
Já Bachelet, serena, chegou em seu automóvel pessoal ao palácio La Moneda, sem segurança, sem escolta, definitivamente com o sentido de urgência que a situação demandava. No entanto, em seu discurso, revelou a cara do Estado chileno que os ¨socialistas¨ da centro-esquerda chilena não conseguiram – ou não quiseram – mudar nesses 20 anos de governo: pediu, usando a expressão ¨por favor¨, que as concessionárias se esmerassem em restabelecer os serviços básicos, em particular luz, água e telecomunicações. Pediu... faltou rogar.
Aos poucos, foi se revelando que, além disto, também estavam deterioradas vias de acesso, estradas e aeroportos, portos, escolas, hospitais. De favor em favor, a verdade ficou clara: Piñera tinha a mais completa razão quando ressaltava o papel fundamental da iniciativa privada na situação de catástrofe. E mais: ele insistia – e segue insistindo – em usar um fundo de emergência para estado de calamidade nacional que consiste em 2% do orçamento do Estado para cobrir os gastos. Afinal de contas, segundo a lógica da concessão de serviços, o estado é um cliente, portanto, seu papel é pagar, contratar, e não cobrar, quanto menos fazer com as próprias mãos.
O quadro final é que o país se denuncia nas entrelinhas refém hecho y derecho de empresas privadas que, mesmo em estado de catástrofe, permanecem firmes com seus discursos marketeiros, sempre defendendo o valor da marca de sua empresa. E o discurso se repete, independente do campo de atuação: energia, água, celular, telefonia fixa, internet, gás, sistema viário, transporte aéreo, marítimo e terrestre, construção civil, até mesmo sistema penitenciário, entoam em uníssono, enquanto o governo pede reiteradamente empenho, como quem estivesse pedindo algo fora de seu direito ou, mais adequado à lógica capitalista, como quem pede esmola.
Ao cabo de alguns dias, Bachelet decretou oficialmente estado de catástrofe, só que regional, em duas regiões ao sul do país: VII (Maule) e VIII (Bío Bío, onde há maior concentração de mortos até o momento), de forma que não abre o cofre dos 2% por enquanto. Isso significa, na figura jurídica do decreto, que o governador da região (intendente) tem grande autonomia e que, entre outras coisas, os direitos constitucionais podem ser violados em função do critério que ele determinar em prol de resolver a situação de exceção. Entre estes direitos que podem ser violados estão o de se reunir em grupos, o livre trânsito, a liberdade de expressão, mas está, por outro lado, o direito à propriedade privada, permitindo a apropriação, pelas forças legais coordenadas pelo intendente, de víveres, hospitais e outros imóveis, veículos e qualquer outra propriedade privada com o propósito de melhor servir à população. Resta agora torcer para que estas lideranças tenham melhor critério do que demonstraram na primeira noite em que, somente na cidade de Concepción, prenderam 55 pessoas por ¨desrespeitarem o toque de recolher¨ e mataram a um cidadão. Ainda não se sabe a justificativa, se é que há justificativa para tal ação.
A reflexão aqui não serve para o Chile no curto prazo, pois o governante que se assoma já deu o tom em recentes declarações: continuará privatizando o cobre chileno, uma das poucas áreas que ainda tem uma presença relevante do Estado, e obedecerá cabalmente às orientações do FMI e Banco Mundial, além de ser o único presidente latino-americano que não demonstrou entusiasmo com a nova organização dos estados ao sul do Rio Bravo. Pelo contrário, reiterou seu apoio – provavelmente sua subordinação – à OEA, exaltando qualidades fictícias desta organização.
Nosso Brasil, por sorte, não está sujeito, a princípio, a terremotos, furacões, maremotos. Nossas desgraças são sobretudo obra do homem, o que não impede que as chuvas, secas e outras intempéries tropicais derivem em catástrofes que podem eventualmente chegar às proporções do duro golpe que o território chileno sofreu no último sábado, inclusive por omissão em precaver-se destas. Quem sabe a desgraça de outros possa servir de lição e alerta para conscientizar a cidadania e o Estado do papel fundamental que têm determinados serviços que não podem, sob hipótese alguma, seguir a lógica do mercado e do lucro, e sim a do bem estar social. É imperativo que o povo, representado pelos governantes eleitos e não por meia dúzia de empresários, recupere as rédeas de seu Estado, inferindo sobre seu destino e seus recursos, em vez de ficar à mercê daqueles que te tratam de cliente e não de cidadão.
Marcelo Luis B. Santos, jornalista, reside atualmente no Chile.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O "11 de Setembro"



Em 11 de setembro de 1973, a 36 anos, um golpe de Estado realizado pelas classes dominantes chilenas derrubou o governo da Unidade Popular, presidido por Salvador Allende. A ponta de lança do golpe foram as Forças Armadas sob a direção do general Pinochet, que teve o apoio do imperialismo, do governo dos EUA, e foi articulado e financiado pela CIA e pelas transnacionais norte-americanas. E contou também com o apoio dos governos ditatoriais latino-americanos, inclusive o Brasil, associados com o imperialismo norte-americano na "Operação Condor". O aparelho militar-policial do Estado chileno realizou um dos maiores banhos de sangue contra um povo nas últimas décadas na América Latina. Durante o governo da Unidade Popular, eleito em 1970, intensifica-se a luta de classes no Chile, a luta antiimperialista e a mobilização popular pela reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras, como as minas de cobre. Houve uma significativa melhoria nas condições de vida dos trabalhadores, e os interesses econômicos da grande burguesia do país e das empresas imperialistas foram atingidos. Apoiados e incentivados pelo imperialismo norte-americano, as classes dominantes chilenas e as forças políticas reacionárias desencadeiam sabotagens, boicotes (como a conhecida greve dos caminhoneiros financiada pela CIA e transnacionais, como a ITT), gerando desabastecimento de gêneros de primeira necessidade, com intento de amedrontar e colocar a população, principalmente as camadas médias, contra o governo de Allende, com o objetivo de desestabilizá-lo, preparando as condições para o golpe.

Audiovisual: "A Batalha do Chile"

A trilogia “A Batalha do Chile”, do cineasta Patricio Guzmán, é um documento histórico com imagens de época que resgata, por um lado, a experiência do governo de Salvador Allende, a crescente organização e mobilização popular, a participação destacada do proletariado e, por outro, toda a orquestração do golpe de Estado, com a cínica manipulação das camadas médias pelas forças mais conservadoras do Chile e pelo imperialismo. O documentário se constitui de uma apaixonada defesa da Unidade Popular, pois segundo Guzmán “O cineasta não é um observador neutro e desapaixonado da realidade. É um participante ativo.” e “No Chile, demoliu-se tão sistematicamente a imagem do governo Allende nos últimos 30 anos que tenho a impressão de que o filme é a única prova de que aquilo existiu”.