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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

FARC - EP: Estamos às portas de outro quatriênio de ofensiva oligárquica contra o povo

por FARC-EP

Com o triunfo ilegítimo do continuísmo, repudiado pela abstenção da cidadania, o país entrou em um processo de radicalização da luta política no qual o povo será protagonista de primeira grandeza.

O descanso da combatente.Toda a maquinaria do Estado, todos os recursos mafiosos do governo, suas manhas delitivas de fraude e corrupção, de chantagem e intimidação, foram postos a serviço da vitória do continuísmo, procurando desesperadamente por essa via um escudo que proteja Uribe da iminente acusação do povo e da justiça, diante de uma gestão criminosa e de lesa-pátria.

O regime de Uribe foi a mais séria tentativa de impor violentamente um projeto político da extrema-direita neoliberal baseado no paramilitarismo. Seu governo passará à história como o mais vergonhoso das últimas décadas, o mais assassino de sua população civil, o mais submisso à política dos EUA e, devido a esta circunstância, o mais compulsivo provocador de instabilidade nas relações com os países vizinhos.

Durante estes oito anos governou a mentira e a falsidade, a manipulação e o engano. Uribe e o continuísmo fizeram acreditar que sua política de segurança era de todos, quando na realidade somente assegurava, através da repressão, os lucros de privilegiados setores investidores, que aumentaram o desemprego e a pobreza. Fizeram acreditar que defender a soberania era entregar a pátria ao governo de Washington e transformar a Colômbia em um país ocupado militarmente por uma potência estrangeira. Arranjaram tudo para pousar de paladinos da luta contra o narcotráfico. Dizem ao país que não existem guerra nem conflito armado, mas não explicam porque há "Plano Patriota" e invasão ianque...

"Segurança democrática" são os falsos positivos e a impunidade. É poder eleger como Presidente o ministro da defesa que mais estimulou estes crimes de lesa-humanidade. É repartir terras à agro-indústria paramilitar porque essa tem sim fortaleza financeira e os pobres trabalhadores rurais não. E é subsidiar ou presentear de maneira segura verbas públicas aos empresários do agronegócio que financiaram as campanhas eleitorais. "Segurança Democrática" são as fossas comuns com mais de 2.000 cadáveres, como a que existe em um canto da base militar de La Macarena, e são mais de quatro milhões de camponeses refugiados pela violência do Estado. É mentir sobre o fim da guerrilha bolivariana das FARC-EP e preocupar-se com a vitalidade de uma organização que combate firmemente pela Nova Colômbia como confirmam suas atividades militares do mês de maio. "Segurança Democrática" é mudar a Constituição para adequá-la a um interesse particular quando for necessário e é ter uma espúria maioria no Congresso e socavar a autoridade do judiciário com o aplauso dos apoios incondicionais. Também é repartir cargos burocráticos, vantagens e contratos, e aproveitar o governo para enriquecer-se sem nenhum questionamento moral...

A abjeta defesa do militarismo oficializada por Uribe e seu chamamento a criar novas leis de impunidade castrense, anunciam o que virá durante o período presidencial de Juan Manuel Santos. Sua cínica queixa e seu lamento farisaico ao superproteger um torturador-assassino, como o coronel Plazas Vegas, os altos comandantes militares e o ex-presidente Belisario Betancourt, responsáveis pelo holocausto do Palácio da Justiça (bombardeado por tanques em 1985 quando a guerrilha do M-19 o invadiu), são patética evidência de seu esforço para oferecer desde já, prevenindo-se contra futuras acusações contra si. E, naturalmente, como forma de engrenar o narcoparamilitarismo na direção do Estado, com garantias legais para fazer desaparecer, torturar e assassinar opositores. O "foro militar" que Uribe reclama é patente de impunidade criminosa como demonstra a história recente da Colômbia.

A veemente defesa presidencial do ex-diretor da DIAN (impostos e aduana) e da "UIAF" (Unidade Administrativa Especial de Informação e Análise Financeira), senhor Mario Aranguren, que delinquiu a favor de Uribe e certamente por ordem sua, evidencia a índole de quem aspira transcender ocultando, não só seu passado criminoso, mas as vergonhosas baixezas de sua prática como governante.

Estamos às portas de outro quatriênio de ofensiva oligárquica contra o povo em todos os sentidos, manchado com suaves e enganosas promessas oficiais em torno de uma vitória militar como têm repetido sem cessar durante 46 anos, sem se preocupar, nem muito menos se comprometera superar, as causas que geram o conflito.

A profunda crise estrutural de que padece a Colômbia não tem solução no continuísmo. A extrema-direita neoliberal, acreditando que ainda pode resolver de cima para baixo, convocou a uma união nacional sem povo, na qual somente reinam as ambições dos mesmos que lucram com o investimento seguro: os grupos financeiros, o setor empresarial, os pecuaristas e latifundiários, os paramilitares, os partidos que, como piranhas, disputam os favores do poder, os grandes meios de comunicação que aplaudem os êxitos em litros de sangue da política guerreirista... Nessa "união" não se vê povo em parte alguma porque a prosperidade daqueles se sustenta na miséria e exploração dos de baixo, dos excluídos.

Este bicentenário do grito de independência deve abrir passagem para a luta do povo por seus direitos, pela pátria, pela soberania, justiça social e paz. A mudança das injustas estruturas é possível com a mobilização e a luta de todo o povo por sua dignidade. Nada se pode esperar dos criminosos montados no poder do Estado. Somente a luta unificada pode nos conduzir a uma Colômbia Nova. Como temos reiterado desde Marquetalia, em 1964: estamos dispostos a encontrar saídas políticas para o conflito, reiterando ao mesmo tempo que nossa decisão de entregar tudo pelas mudanças e pelos interesses populares é irredutível, sem importar as circunstâncias, obstáculos e dificuldades que nos imponham. A justiça social espera vencer na mobilização do povo.
Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP
Montanhas da Colômbia, junho de 2010

O original encontra-se em ANNCOL . A versão em português encontra-se em pcb.org.br

Veja também a mensagem em vídeo:
Parte 1
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Parte 2
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Parte 3
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Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Presidenciais na Colômbia: 56% do eleitorado adoptou a posição das FARC

por James Petras [*]

Chury: Bem, Petras, conta-me os temas em que estás a trabalhar agora...

Santos, o  continuador de Uribe.Petras: Em primeiro lugar, o mais importante que estamos a analisar é o processo eleitoral na Colômbia. Esse é o tema principal que temos tratado porque a própria esquerda semeou muita confusão sobre os resultados do processo eleitoral. Ou melhor, não trataram o resultado eleitoral num contexto mais amplo e é isso que o que devemos discutir. Porque o facto mais destacado é que 56% do eleitorado não votou. Ou seja, 56% consciente ou inconscientemente tomaram a posição das FARC. Não digo que estejam informados pelas FARC nem necessariamente que seja simpatizantes, mas por várias razões compartilham a ideia de que não vale a pena votar nas eleições principalmente porque ambas as opções eram muito desfavoráveis e nada ofereciam ao povo.

Para entender isso creio que devemos voltar uns anos atrás, particularmente aos últimos 10 anos do governo de Uribe e inclusive antes. Este resultado eleitoral tem como contexto o deslocamento de 4,3 milhões de pessoas. Tem o contexto de uma repressão feroz que matou mais de 1.800 sindicalistas, incluindo dirigentes. Mataram centenas de activistas de direitos humanos, advogados e jornalistas. E isso influi muito sobre a atitude das pessoas para com as eleições. Em dois sentidos: sentem-se aterrorizados pelo governo e alguns, neste contexto, pressionados a votar porque os militares estavam presentes em todos os lugares de votação. Os paramilitares e os políticos vinculados ao paramilitarismo, que chega ao próprio governo, influenciavam em todos os lugares de votação.

Mas antes de mais nada devemos entender que quando se organiza uma eleição isso é um processo de debate, de reivindicar e não reivindicar as necessidades do povo. E num contexto de terrorismo prolongado e generalizado não se pode avaliar o que sentem as pessoas, o que um contexto pacífico e democrático pode permitir. Neste contexto temos um país militarizado, 300 mil soldados, mais polícias, mais paramilitares, não é um contexto democrático para eleições.

E além disso o Estado utiliza todos os mecanismos, os meios de comunicação e incomunicação, utilizam tudo o que são as prebendas do Estado circulando nos bairros para conseguir algum voto. E também temos o facto de que o candidato presidencial, o que ganhou, o "Diabo" Santos, é uma pessoa envolvida nos assassinatos, foi o ministro da Defesa que organizou os chamados "falsos positivos", estimulando os militares a matar civis para mostrar que o exército teve grandes êxitos matando subversivos.

Descobrimos em pouco tempo que muitas das vítimas nada tinham a ver com a guerrilha nem com os grupos simpatizantes. Eram simplesmente civis, camponeses principalmente e gente pobre, escolhidos para assassinatos para mostrar que o exército teve grandes êxitos no combate. O senhor Santos é implicado e julgado neste contexto.

Os diários, tanto no Uruguai como no México, dizem que a direita arrasa. Arrasa o que? O voto em Santos foi simplesmente 30,8% do eleitorado. Se consideramos os que não votaram, os 70% que conseguiu, os 70% de 44% não chegam ao que eles dizem, chegam a 30 e poucos por cento.

E é preciso analisar os lugares onde votaram e não votaram. Nos grandes bairros popular o absentismo foi quase de 65%. O mesmo se passou em sectores rurais, algumas províncias tiveram quase 75% de absentismo.

Onde conseguiram uma maioria esmagadora de votantes foi nos bairros influentes, os bairros da classe média acomodada, e na classe média baixa em menor percentagem. Mas nos bairros altos conseguiram uns 70% ou 75%. Então há uma grande diferença entre os sectores populares e as regiões no resultado das votações. Muitos sindicalistas, particularmente nas províncias, não votaram por nenhum dos dois. E o mesmo se passou com alguns grupos de direitos humanos.

Agora, para disfarçar este processo eleitoral ilegítimo, os oficialistas utilizaram dois pretextos. Primeiro disseram que as chuvas reduziram a participação. Se alguém não quiser molhar-se por um candidato isso é um bom indicador do desprestígio que tem o sistema eleitoral.

E segundo, o campeonato mundial, não afecta todas as horas do dia, há tempo para ver as partidas e há tempo para votar. Assim, estas desculpas para justificar a baixíssima participação não têm legitimidade.

Por que os diário estão a dar tanta publicidade, disfarçando o facto de que o pior assassino do governo Uribe ganha as eleições com uns 30,8% do eleitorado. Por que? Creio que indica estarem preparados para apoiar-se numa nova política de acomodação com o imperialismo norte-americano. É um sinal de que no próximo período o senhor Santos, com Obama e a direita na América Latina, estão preparados para uma nova ofensiva. E os meios de comunicação, inclusive os jornais supostamente progressistas, estão dispostos a entrar nesse jogo.

Chury: Petras, passemos a outra das realidades que estamos a analisar e de que tens geralmente informação muito profunda. Parecem haver-se aplacado as repercussões dos delitos de lesa humanidade cometidos por Israel. O sionismo tem tanto poder sobre os meios de comunicação que já está a conseguir a amnésia e o esquecimento no mundo. Como se pode analisar isto?

Petras: Há duas razões. Primeiro, o poder que tem Israel a partir da quinta coluna das organizações sionistas e da grande maioria das organizações judias que são filiadas ao sionismo. Chega a tal ponto a força do sionismo que a partir dos Estados Unidos está a globalizar-se. Uma expressão disso é o forte trabalho que o sionismo norte-americano faz sobre o governo de Kirchner [presidenta da Argentina] e particularmente através do novo chanceler, senhor Héctor Timerman.

Timerman é a ligação entre o sionismo norte-americano e Israel com a política argentina. E a senhora Kichner nomeou Timerman, primeiro como embaixador nos Estados Unidos e agora como chanceler em substituição de Taiana, um funcionário que em certa medida mantinha alguma posição de distância em relação ao sionismo. Agora tem um funcionário a tempo inteiro a trabalhar por Israel e coordenando a política com os sionistas dos Estados Unidos. Aqui o vimos actuar uma forma muito vergonhosa, pior do que qualquer outro embaixador em Washington pelas suas relações promíscuas e íntimas com os sionistas e este problema vai repercutir na América Latina.

Aqui estão a dar repercussão nos meios publicitários ao facto de Israel, sob enorme pressão, estar a permitir entrar comida e medicamentos, pelo menos algumas linhas de alimentos de consumo em Gaza. O que não está a permitir são maquinarias para que os palestinos não só possam consumir como possam produzir, cultivar, exportar, possam abrir fábricas que estão todas fechadas. Há que continuar o boicote os protestos. Este fim-de-semana, na cidade Oakland, perto de San Francisco, Califórnia, que é o quito porto mais importante dos EUA, os portuários organizaram um boicote a um navio de Israel: não deixaram descarregar a mercadoria e isso foi um grande êxito. A companhia requereu um processo judicial para terminar o boicote. O juiz decidiu que Israel era um violador de direitos humanos e que têm razão aqueles que organizaram o boicote.

A consciência do assassinato da flotilha é muito generalizada. Os outros crimes diários que Israel comete, como o de ontem, a morte de um pai de família com três filhos, ou ante ontem outros palestinos na fronteira. As atrocidades de Israel não saem na primeira página e nem na segunda. Se há alguma reportagem é uma pequena notícia nas páginas internas. Aqui, em caso algum temos uma condenação a Israel nos meios de comunicação.

Agora a campanha dos sionistas no New York Times, no Washington Post e no Wall Street Journal, que são quase jornais da embaixada de Israel e cem por cento a favor de qualquer crime, lançaram uma propaganda feroz contra a Turquia. Se se pensar por um momento, há três todo o grupo de Israel aqui nos Estados Unidos actuava a favor da Turquia. De repente a Turquia critica Israel pelos assassinatos dos seus cidadãos e os assassinatos em Gaza, de repente a maquinaria faz uma volta de 180 graus e passa a dizer que a Turquia é um país de terroristas islâmicos, os mortos na flotilha eram islâmicos. E lançaram uma campanha lançando lixo sobre o primeiro-ministro da Turquia. Não têm vergonha nenhuma.

Quando Israel muda a linha eles dão um giro de 180 graus. Os sionistas são piores que os piores momentos do estalinismo. Não têm nada independente na cabeça, são apenas voz de Israel e é uma coisa espantosa. Não importa se é um cirurgião, um prémio Nobel, se é um famoso actor ou director de Holliwood, têm toda esta mentalidade de fidelidade incondicional a qualquer acto de delinquência do Estado de Israel. O servilismo aqui é incrível.

Chury: Houve críticas para com o presidente Correa, do Equador, pelos problemas que estão os movimentos indígenas, particularmente pela lei da água. O que sabe disso?

Petras: Correa é um político com tinturas reformistas pela sua política reivindicacionista, atando algumas concessões a programas sociais, subvenções, mas no âmbito macroeconómico é uma política destrutiva. Convidaram a multinacionais mineiras e explorarem a jazidas e muitas delas estão nos territórios tradicionais dos indígenas.

Agora cometeu dois erros. Primeiro, sem consultar os indígenas assinou estes contratos marginalizando as condições ambientais, as condições de pesca e de água do povo indígena.

Segundo, tomou estas decisões com beligerância para com os opositores e críticos, actuando com uma agressividade que não tolera uma reconsideração. E isso provou a ira dos grupos indígenas.

E terceiro, os grupos indígenas têm muita experiência nestas histórias de exploração, tanto de agrotóxicos e petróleo como de outras minas que no passado contaminaram enormes regiões de cultivos, ar, água e terras dos povos. Então, não falam de forma teórica, tiveram experiências negativas.

E para o Equador, para Correa, é uma política destrutiva. O que ele quer é estimular o crescimento a partir das exportações mineiras para compensar a queda nas exportações industriais e agrícolas. Primeiro porque não mudaram a moeda, continua a utilizar o dólar, o que torna caras as exportações não tradicionais como as manufacturas. E isso também criou uma situação em que Correa mantém um discurso populista, crítico de aspectos da política externa dos EUA, mas por outro lado é muito amistoso para com as multinacionais.

Ultimamente deu meia volta em relação à política norte-americana, abraçando Hillary Clinton e dizendo que estão a caminho de melhoria das relações. Temos que ver até que ponto isso é influenciado pela sua política mineira. Está-se a combinar agora a resolução da contradição entre uma política interna mineira conservadora com uma crítica ao imperialismo. Agora parece que há uma aproximação com o governo de Obama-Clinton juntamente com este projecto de explorar a mineração.
25/Junho/2010

[*] Comentários transmitidos pela CX36 Radio Centenario , em 21/Junho/2010.

O original encontra-se em http://www.lahaine.org/index.php?blog=3&p=46482

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

domingo, 27 de junho de 2010

Quem é terrorista na Colômbia?


por Carlos A. Lozano Guillén [*]

Quadro de Fernando Botero. A senadora Piedad Córdoba (Partido Liberal) questionou em dias passados, em Madri, Espanha, a inconveniência de que a União Européia mantenha na "lista de organizações terroristas" as FARC e o ELN , grupos insurretos colombianos, de natureza política e militar e partes de um conflito de longas décadas no país. Realmente é inconsequente, se a UE aspira a contribuir para a paz na Colômbia e para a saída política do conflito armado, manter essa decisão claramente imposta pelas pressões dos governos colombiano e norte-americano, sócios da guerra contra o nosso povo.
Apesar de que a inclusão nessa lista das guerrilhas colombianas foi em 2002, posteriormente França e Espanha, acompanhadas da Suiça, que não é membro da União Européia e não considera como terroristas as FARC e o ELN, contribuiram como "países amigos" para a libertação de detidos em razão do conflito armado e na busca do intercâmbio (troca) humanitária de prisioneiros de guerra. Com dois de seus emissários, Noé Sáenz e Jean Pierre Gontard, processados e perseguidos com o pretexto de que seus nomes constam os computadores de Raúl Reyes (assassinado no Equador em 2008).
Muito oportuna a alusão de Piedad Córdoba e, além disso, necessária de ser atendida, porque se existe a disposição da União Européia de contribuir no futuro para a paz da Colômbia diante do fracasso da guerra uribista, tem que adotar decisões que facilitem seu papel neste sentido. O contrário é quase que autoexcluir-se de uma gestão humanitária, própria de um coflito de natureza política e social como o colombiano.
Lembro que quando se adotou a decisão em junho de 2002, encontrava-me na Europa, em um giro, quase que solitário, promovendo a idéia da troca de prisioneiros ou intercâmbio humanitário, no início do primeiro governo de Álvaro Uribe Vélez, que não aceitava qualquer compromisso sobre o tema, muito menos para a paz negociada. Diante de funcionários das chancelarias da Espanha, Suécia, Áustria, França, Itália, Bélgica e do Vaticano, deixei claro que essa decisão não contribuia para o futuro papel dos europeus como facilitadores ou mediadores de paz em nosso país. O que seria, na eventualidade de aproximações entre as partes, quase que indispensável, porque a desconfiança recíproca ia ser um fator de perturbação e obstáculo.
Observei que as chancelarias, pelo menos a maioria delas, tinham a mesma percepção. Mas foi o funcionário espanhol, ainda no governo de José Mária Aznar, que me deu a explicação de fundo: "Não podemos eludir a exigência do irmão maior", me disse. Resta dizer que o "irmão maior" era o governo de George W. Bush, sócio da Espanha e da Grã-Bretanha na agressão terrorista ao povo iraquiano. É parte da hipocrisia destes países em temas fundamentais nos quais prima o interesse de classe. Simplesmente isso.

[*] Membro do Burô Político do Partido Comunista Colombiano e editor do jornal "VOZ".
O original encontra-se em "Voz", nº 2542, a tradução em pcb.org.br
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

45º Aniversario das FARC-EP

45º Aniversario das FARC-EP
por Estado Maior Central

As circunstâncias políticas são propícias para o accionar do Movimento armado e do Movimento Bolivariano. Manuel Marulanda Vélez
Neste pensamento de Manuel está retratada a alma das FARC como bandeira ao vento. Há 45 anos surgimos nas alturas de Marquetalia, a montanha da resistência dos povos, buscando a paz para a Colômbia, a justiça e a dignidade. Desde então somos a resposta armada dos despossuídos e dos justos às múltiplas violências do Estado.
A paz é a nossa estratégia e o accionar do Movimento armado empunhando a bandeira da alternativa política é a táctica para chegar a ela. Dizemo-lo também com a palavra de fogo de Bolívar: "a insurreição anuncia-se com o espírito de paz.
Resiste ao despotismo porque este destrói a paz e não empunha as armas senão para obrigar os seus inimigos à paz". Por ela deram a sua vida Manuel Marulanda Vélez, Jacobo Arenas, Efraín Guzmán, Raúl Reyes, Iván Ríos e toda essa invencível legião de comandantes e combatentes aos quais hoje recordamos com veneração. Para todos eles, honra e glória neste aniversário das FARC. "Aquele que assegura a sua honra – dizia o Libertador – dedicando sua vida ao serviço da humanidade, à defesa da justiça e ao extermínio da tirania, adquire uma vida de imortalidade ao deixar o âmbito da matéria que o homem recebe da natureza. Uma morte gloriosa triunfa sobre o temo e prolonga a sublime existência até à mais remota posteridade"
... É o que ocorre com todos eles, que apesar de haverem partido continuam vivos nos fuzis e no projecto político das FARC, com Bolívar a combater pela Nova Colômbia, a Pátria Grande e o Socialismo, ombro a ombro com o povo e seus guerrilheiros. Queremos o país vislumbrado pelo Manifesto das FARC e pela Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia.
Queremos que ele surja de um Grande Acordo Nacional rumo à Paz rubricado por todas as forças dispostas a protagonizar a mudança das estruturas injustas e anacrónicas, sem exclusões. Emanado de um pacto social rodeado de povo que instrumente a articulação de uma alternativa política com vistas à conformação de um novo governo nacional, patriótico democrático, bolivariano, rumo ao socialismo. Sim, rumo ao socialismo, que é justiça e redenção do povos!, a arca de salvação da humanidade frente ao afundamento do sistema capitalista mundial. A dignidade da Colômbia e o resgate do sentimento de pátria reclamam uma nova liderança que privilegie a unidade e o socialismo ao avançar rumo ao futuro.
Um novo grito de independência nos convoca, mostrando-nos o campo de batalha de Ayacucho do século XXI onde flameja a certeza do triunfo da revolução continental, a de Bolívar e dos nossos próceres. É hora de superar a vergonha nacional que representa um governo ilegítimo e ilegal, gerador de morte e pobreza. Um governo que, apoiado pelo de Washington, só actua para perpetuar a guerra e a discórdia enquanto garante a sangue e fogo a segurança investidora às transnacionais que saqueiam os nossos recursos.
Um regime apátrida que, apesar do alto número de tropas norte-americanas que intervêm no conflito interno da Colômbia, permite que o nosso solo sagrado seja espezinhado por mais tropas estrangeiras, as expulsas de Manta, permitindo aos Estados Unidos operarem nesta terra uma base de agressão para o assalto aos povos irmãos do continente. Um governo desavergonhadamente narco-militar, que já não se importa perante as contundentes confissões de capos paramilitares que asseguram, como "Don Berna", haver financiado com dólares da cocaína as campanhas presidenciais de Álvaro Uribe Vélez. Um governo e um presidente que converteram o Palácio de Nariño em escuro antro de conspiração entre mafiosos para desestabilizar os Tribunais, obstruir a justiça e deixar sem efeito a independência dos poderes públicos.
Que extraditou para os Estados Unidos dos cabecilhas paramilitares quando estes começaram a vincular o séquito de Uribe, os generais, os empresários e os ganadeiros à estratégia paramilitar do Estado que sangra a Colômbia. O país não sai do assombro perante o autismo da Promotoria, que prefere enterrar a sua cabeça na areia a fim de não empreender qualquer acção de responsabilidade penal contra as empresas Chiquita Brand – a mesma do massacre das bananeiras em 1928 –, a Drummond, Postobón, Brasilia, Carbones del Caribe..., denunciadas pelo chefe paramilitar Salvatore Mancuso como financiadoras do paramilitarismo.
O mesmo cabecilha revelou que o massacre da Gabarra, no qual foram assassinados 40 camponeses, perversamente atribuído à guerrilha a fim de desprestigiá-la, foi realmente executado pelos paramilitares, pelo exército e pela polícia. A máscara caiu. A Uribe ronda-o insistente o fantasma de Fujimori, condenado no Peru a 25 anos de prisão por crimes de lesa humanidade. Prevê que os covardes assassinatos de civis não combatentes, estimulados pela insânia de mostrar a todo transe resultados com sangue da sua política fascista de segurança, não ficarão na impunidade.
Clamam justiça ao céu o deslocamento forçado de mais de 4 milhões de camponeses, o despojamento das suas terras, as milhares de fossas comuns e a vinculação do presidente a massacres de cidadãos indefesos. O chefe paramilitar que denunciou a responsabilidade directa de Uribe no espantoso massacre de El Aro, Antioquia, acaba de se assassinado para satisfação do tirano do Palácio de Nariño.
Ele sabe que, cedo ou tarde, terá que responder pelos seus crimes. Deve ser revogado o mandato de um presidente que impôs o desonroso recorde de ter mais de 90% da sua bancada parlamentar vinculada ao processo da narco-parapolítica; que mantém como ministros de Estado delinquentes subornados; que utiliza o poder para enriquecer os seus filhos, que converte o serviço diplomático em refúgio de assassinos como o tantas vezes denunciado general Montoya, e que promove referendos inconstitucionais para perpetuar-se no poder como mecanismo de fuga à justiça. Uribe é um verdadeiro bandido que se ampara por trás da faixa presidencial. Quantos problemas internacionais gerou a sua absurda pretensão de transnacionalizar a política fascista de segurança com a qual o governo da Colômbia arroga-se o direito de actuar extraterritorialmente no desenvolvimento da sua visão particular e da sua estratégia contra-insurgente, por cima dos povos e dos seus governantes, pisoteando a soberania das nações e desestabilizando a região, sempre apoiado pelo governo de Washington. Quer incendiar o país indefinidamente com o fogo da guerra e da violação dos direitos humanos, aferrado à quimera do triunfo militar. Com inconsequência nega a existência do conflito político e social, mas coloca a sua ilusão enfermiça no Plano Patriota do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos, crendo inutilmente que a inconformidade social pode ser abatida a tiros e a tecnologia militar de última geração. Incrementar a base de força a mais de 450 mil efectivos por conta da maior ajuda militar dos gringos no hemisfério não o manterá no poder, porque assim o diz a experiência história e o bom senso. "Os povos que combateram pela liberdade exterminaram por fim os seus tiranos". Mas além disso um governo desprestigiado, atado à ilegitimidade e acossado pela crise do capitalismo mundial é um governo condenado ao fracasso. A Colômbia de hoje não quer o guerreirismo ultramontano do governo. Quer soluções para o desemprego e a pobreza crescentes.
Reclama o investimento social, sacrificado no altar da guerra. Pede educação, habitação, saúde, água potável, direitos trabalhistas, terra, estradas, electricidade, telefonia e comunicações, comércio de produtos, renacionalização das empresas que foram privatizadas, castigo da corrupção, soberania do povo, protecção do meio ambiente, democracia verdadeira, liberdade de opinião, libertação de presos políticos, fim à extradição irracional de nacionais que mantém de joelhos a soberania jurídica, informação veraz, relações internacionais de respeito recíproco entre as nações, integração e Pátria Grande, justiça social e paz.
Uribe tem, como o diabo à água benta, o clamor crescente dos que pedem paz, castigo aos crimes de Estado e novo governo. Por isso exige com angústia que o tema da paz seja proscrito do debate eleitoral que se avizinha. É a loucura e o absurdo transfigurados num mandatário que quer encadear o país aos seus ódios e ressentimentos. Ninguém poderá desligar de um projecto de nova sociedade e novo governo a paz a que anelam as maiorias nacionais. Ela é a bandeira que unirá os colombianos contra a tirania, a guerra e a injustiça. Devemos estar todos alerta para impedir a manobra uribista de mudar o actual Registrador Nacional por um dos seus serventuários.
A única esperança do guerreirismo desgrenhado perante o anseio das maiorias é a fraude. E é o que devemos impedir agora, uma vez que este foi amo e senhor das eleições de 2002 e de 2006. A reeleição de Uribe é um asqueroso monumento à fraude e ao roubo erguido pelo ex-director do DAS, Jorge Noguera, e pelo capo narco-paramilitar Jorge 40. Nas 4 milhões de assinaturas recolhidas pelos uribistas em favor do referendo com apoio de dinheiros de DMG estão estampadas as assinaturas de um milhão e meio de mortos. Isso é fraude e roubo. Fraude à opinião pública é também a peregrina fábula da derrota militar da guerrilha, argumento falacioso, parente dos "falsos positivos", utilizado no fundo para justificar os terríveis desaforos do Estado contra a população civil. Como sempre quiseram com Manuel Marulanda Vélez, quiseram matar as FARC com os fuzis do desejo e o ensurdecedor matraquear das rotativas. Nenhuma guerrilha pode ser exterminada com disparos de tinta. Não há era do pós-conflito senão no sonho delirante do guerreirismo sem futuro de um regime em decadência. Das montanhas da resistência, como temos vindo a fazer desde há 45 anos, convocamos os colombianos a mobilizarem-se resolutamente pela paz, a paz que nos negaram os santanderistas e o império washingtoniano quando mataram Bolívar e a Colômbia da unidade dos povos em 1830.
O passado conta na construção da sociedade futura. Ninguém nos pode desligar do destinado assinalado pelo Libertador nas origens da República. A incitação do senador Álvaro Gómez Hurtado em princípios da década de 60 a submeter a sangue e fogo o que considerou "República Independente de Marquetalia" não foi suficiente para entender que os problemas nacionais não se solucionam através da violência do Estado. Há que construir uma Nova Colômbia sobre o sólido cimento da paz concertada. O Grande Acordo Nacional Rumo à Paz deve ter como norte estratégico a formação de um novo governo que garanta ao povo "a maior soma de felicidade possível, a maior soma de garantias sociais e a maior soma de estabilidade política", como exigia o Libertador. Um governo patriótico, democrático, bolivariano, rumo ao socialismo, como assinala da Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia.
Como garantia de paz e de soberania nacional devemos erigir novas Forças Armadas compenetradas da doutrina militar bolivariana que inculca o amor ao povo e o ódio à tirania. Não devemos esquecer que o exército patriota foi o criador da Colômbia e da República nas fulgurantes vitórias de Boyacá e de Carabobo, e que seu comandante Bolíver definiu-o como "defensor da liberdade", acrescentando que "as suas glórias devem confundir-se com as da república, e sua ambição deve ficar satisfeita ao fazer a felicidade do seu país". Assim devem ser as novas Forças Armadas e estamos seguros de que muitos dos actuais oficiais sonham desempenhar esse papel. Solidarizamo-nos com a luta justa das famílias dos soldados regulares que reclamam o direito e não serem obrigados a entrar em combate mortal com a guerrilha. A guerra que o governo nega para não reconhecer o carácter político da insurgência que luta pelo poder, apenas no mês de Março produziu 297 militares mortos e 340 feridos. Conclamamos aos soldadores a que não se deixem utilizar mais como carne de canhão defendendo interesses que não são os seus e sim de uma oligarquia podre e criminosa, insolidária, que muito pouco faz por eles se caem prisioneiros ou ficam mutilados. Estados seguros que os seus familiares também quiseram gritar ao governo, com o professor Moncayo, que os seus filhos não foram paridos para a guerra da oligarquia.
Para alcançar o objectivo da Colômbia Nova é necessário reorganizar o Estado na base da soberania do povo, tal como concebeu o Libertador em Angostura. Aos três ramos do poder público devemos acrescentar os poderes moral e eleitoral, instituindo a revogação do mandato em todas as instâncias de eleição popular. Não mais cópias de leis estrangeiras para resolver os nossos assuntos internos. Não mais sistema penal acusatório. Exigimos um novo governo que castigue exemplarmente a corrupção e feche espaços à impunidade, que proscreva a política neoliberal que causa nossas desgraças económicas e sociais. O país e o governo que sonhamos devem assegurar o controle dos ramos estratégicos, estimular a produção em suas diversas modalidades, fazer respeitar a nossa soberania sobre os recursos naturais. Tornar realidade a educação gratuita em todos os níveis, levar justiça ao campo com uma verdadeira reforma agrária que gere emprego e soberania alimentar e semear a infraestrutura do progresso nacional. Os contratos com as transnacionais que sejam lesivos para a Colômbia devem ser revistos, assim como os pactos militares, os tratados e convénios que manchem a nossa soberania devem ser anulados.
Neste mesmo sentido o país não tem porque pagar a dívida externa naqueles empréstimos viciados de dolo em qualquer das suas fases. Solução não militar nem repressiva ao problema social da narco produção. A nossa política internacional deve reorientar-se rumo à integração solidária dos povos da Nossa América na Pátria Grande bolivariana, e o Socialismo.
A etapa definitiva da luta pela paz começou. O povo colombiano não pode afrouxar até que seja concretizado este direito.
Com Bolívar, com Manuel, com o povo, ao poder!
Manuel vive na luta do povo colombiano. J
urámos vencer e venceremos.
Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP
Montanhas da Colômbia, Maio de 2009
O original encontra-se em http://www.resumenlatinoamericano.org , nº 2012 Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Homenagem a Manuel Marulanda

por James Petras [*]
Pedro Antonio Marín Marín, mais conhecido como Manuel Marulanda Vélez e "Tirofijo", era o líder máximo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Foi, sem dúvida alguma, o maior camponês revolucionário da história do continente americano. Durante sessenta anos organizou movimentos camponeses e comunidades rurais e, quando todas as vias democráticas legais se lhe fecharam de forma brutal, criou o exército guerrilheiro mais poderoso da América Latina e as milícias clandestinas que o sustentavam. Em sua época de maior apogeu, entre 1999 e 2005, as FARC contavam com quase 20 mil combatentes, várias centenas de milhares de camponeses activistas e centenas de unidades de milícias comunais e urbanas. Inclusive hoje, apesar do deslocamento forçado de três milhões de camponeses como resultado das políticas de terra arrasada e os massacres do governo, as FARC têm entre 10 a 15 mil guerrilheiros em suas numerosas frentes, distribuídas por todo o país. O que faz tão importantes as conquistas de Marulanda são suas habilidades organizativas, sua agudeza estratégica e suas intransigentes posições programáticas, baseadas no apoio às exigências populares. Mais que qualquer outro líder guerrilheiro, Marulanda tinha uma compenetração sem par com os pobres das zonas campesinas, os sem-terra, os cultivadores pobres e os refugiados rurais durante três gerações. Após começar, em 1964, com dúzias de camponeses que haviam fugido de povoados devastados por uma ofensiva militar dirigida pelos EUA, Marulanda construiu metodicamente um exército guerrilheiro revolucionário sem contribuições económicas ou materiais estrangeiras. Mais que qualquer outro líder guerrilheiro, Marulanda foi um grande mestre político rural. Os extraordinários dotes organizativos de Marulanda se foram refinando através de sua íntima vinculação com o campesinato. Como havia crescido numa família de camponeses pobres, viveu entre eles cultivando e organizando-os: falava sua mesma linguagem, se ocupava de suas necessidades diárias mais básicas e de suas esperanças de futuro. De maneira conceptual, porém também através da experiência quotidiana, Marulanda realizou uma série de operações políticas e militares estratégicas baseadas em seu brilhante conhecimento do terreno geográfico e humano. Desde 1964 até sua morte, Marulanda derrotou ou escapou de, ao menos, sete importantes ofensivas militares financiadas com mais de sete mil milhões de dólares de ajuda militar americana, que incluía milhares de "boinas verdes", corpos especiais, mercenários, mais de 250 mil militares colombianos e 35 mil paramilitares integrados em esquadrões da morte. Diferentemente de Cuba ou Nicarágua, Marulanda construiu uma base de massa organizada e treinou uma direcção, em grande parte, rural; declarou abertamente seu programa socialista e nunca recebeu apoio político ou material dos denominados "capitalistas progressistas". Ao contrário dos corruptos e ambiciosos gangsters de Batista e Somoza, que saqueavam e se retiravam sob pressão, o exército da Colômbia era um formidável aparelho repressor, altamente treinado e disciplinado, reforçado, ademais, por homicidas esquadrões da morte. Ao contrário de outros famosos guerrilheiros "de posters", Marulanda foi um autêntico desconhecido entre os elegantes editores esquerdistas de Londres, os nostálgicos sessenta-e-oitistas parisienses e os socialistas eruditos de Nova York. Marulanda passou seu tempo exclusivamente na "Colômbia profunda"; preferia conversar e ensinar aos camponeses e inteirar-se de suas queixas a conceder entrevistas a jornalistas ocidentais ávidos de aventura. Ao invés de escrever manifestos grandiloquentes e adoptar poses fotogénicas, preferia a pedagogia popular dos deserdados, estável e pouco romântica, porém sumamente eficaz. Marulanda viajou desde vales e cordilheiras praticamente inacessíveis a selvas a planícies, sempre a organizar, lutar, recrutar e treinar novos líderes. Evitou apresentar-se nos "fóruns de debate do mundo" ou seguir a rota dos turistas esquerdistas internacionais. Nunca visitou uma capital estrangeira e contam que jamais pôs os pés em Bogotá, a capital da nação. Porém, tinha um amplo e profundo conhecimento das exigências dos afro-colombianos da costa; dos indo-colombianos das montanhas e da selva; da fome de terra de milhões de camponeses deslocados; dos nomes e endereços dos latifundiários que brutalizavam e violavam os camponeses e seus familiares. Durante as décadas dos 60, 70 e 80, numerosos movimentos guerrilheiros se levantaram em armas, lutaram com maior ou menor capacidade e logo desapareceram assassinados, derrotados (alguns, inclusive, se converteram em colaboradores) ou se integraram nas partilhas e re-partilhas eleitorais. Pouco numerosos, lutavam em nome de inexistentes "exércitos populares"; a maioria era de intelectuais, mais familiarizados com os discursos europeus que com a micro história, a cultura popular e as lendas dos povos aos quais tratavam de organizar. Foram isolados, cercados e arrasados; deixaram, talvez, uma herança bem divulgada de sacrifício exemplar, porém não mudaram nada sobre o terreno. Pelo contrário, Marulanda encaixou os melhores golpes dos presidentes contra-insurgentes de Washington e Bogotá e os devolveu em 100%. Por cada povoado arrasado, Marulanda recrutava dúzias de camponeses lutadores, enfurecidos e desamparados e treinava-os com suma paciência para que fossem quadros e comandantes. Mais que simples exército guerrilheiro, as FARC chegaram a ser um exército de todo o povo: um terço dos comandantes eram mulheres, mais de setenta por cento eram camponeses, se bem que se associaram intelectuais e profissionais, que foram treinados por quadros do movimento. Marulanda foi um homem venerado por seu estilo de vida excepcionalmente simples: compartilhou a chuva torrencial sob cobertas de plástico. Milhões de camponeses o respeitavam profundamente, porém nunca praticou o culto à personalidade: era demasiado irreverente e modesto, preferia delegar as tarefas importantes a uma direcção colectiva, com muita autonomia regional e flexibilidade táctica. Aceitou um amplo leque de opiniões sobre tácticas, mesmo quando discordava profundamente delas. Em princípios dos 80, muitos quadros e líderes decidiram testar a via eleitoral, firmaram um "acordo de paz" com o presidente colombiano, criaram um partido – a União Patriótica – e fizeram eleger a numerosos presidentes de municipalidades e deputados. Obtiveram mesmo numerosos votos nas eleições presidenciais. Marulanda não se opôs publicamente ao acordo, porém não abandonou as armas nem "baixou desde as montanhas às cidades". Muito mais lúcido que os profissionais e os sindicalistas que se postulavam nas eleições, Marulanda compreendia o carácter extremamente autoritário e brutal da oligarquia e seus políticos. Sabia que os governantes da Colômbia não aceitariam nunca uma reforma agrária justa só porque uns "poucos camponeses analfabetos os derrotarem nas urnas". Em 1987, mais de 5.000 membros da União Patriótica haviam sido assassinados pelos esquadrões da morte da oligarquia, entre eles três candidatos à presidência, uma dúzia de congressistas e mulheres e alcaides e vereadores. Os sobreviventes fugiram para a selva, reincorporaram-se à luta armada ou marcharam para o exílio. Marulanda era um mestre na hora de romper os cercos e evitar as campanhas de aniquilação, sobretudo as que elaboraram os melhores e mais brilhantes estrategistas do centro de contra-insurgência dos Corpos Especiais do US Fort Bragg e da Escola das Américas. Em fins dos 90, as FARC haviam ampliado seu controle a mais da metade do país, bloqueavam auto-estradas e atacavam bases militares situadas a apenas 65 quilómetros da capital. Muito debilitado, o então presidente Pastraña terminou por aceitar negociações sérias de paz, nas quais as FARC exigiram uma zona desmilitarizada e um programa que incluía mudanças estruturais básicas no Estado, na economia e na sociedade. Ao contrário das guerrilhas centro-americanas, que trocaram as armas por cargos eleitorais, antes de depor as suas Marulanda insistiu na redistribuição da terra, no desmantelamento dos esquadrões da morte, na destituição dos generais colombianos implicados nos massacres, numa economia mista baseada em boa medida na nacionalização dos sectores económicos estratégicos e no financiamento em grande escala dos camponeses para o desenvolvimento de colheitas alternativas à coca. Em Washington, o presidente Clinton assistia histérico àquele espectáculo e opôs-se às negociações de paz, em especial ao programa de reformas, assim como aos debates públicos abertos e aos foros de debate organizados pelas FARC na zona desmilitarizada, aos quais assistiam numerosos membros da sociedade civil colombiana. A aceitação, por parte de Marulanda, do debate democrático, da desmilitarização e das mudanças estruturais desmascaram a mentira dos social-democratas ocidentais e latino-americanos e dos universitários de centro-esquerda que o acusaram de "militarista". Washington tratou de repetir o processo de paz centro-americano enganando os chefes das FARC com a promessa de cargos eleitorais e privilégios — desde que vendessem os camponeses e os colombianos pobres. Ao mesmo tempo, Clinton, com o apoio dos dois partidos do Congresso, fez aprovar um projecto de lei de apropriação de dois mil milhões de dólares para financiar o maior e mais sangrento programa de contra-insurgência desde a guerra da Indochina, denominado "Plano Colômbia". O presidente Pastraña deu por terminado, de forma abrupta, o processo de paz e enviou soldados à zona desmilitarizada a fim de que capturassem a direcção das FARC. Porém, quando estes chegaram, Marulanda e seus companheiros já se haviam ido. Desde 2002 até agora, as FARC têm alternado os ataques ofensivos e as retiradas defensivas, em especial desde finais de 2006. Com um financiamento sem precedentes e um apoio tecnológico ultramoderno dos EUA, o novo presidente Álvaro Uribe – sócio de narcotraficantes e organizador de esquadrões da morte – adoptou uma política de terra queimada para enfurecer-se com o campo colombiano. Entre sua eleição em 2002 e sua reeleição em 2006, mais de 15 mil camponeses, sindicalistas, activistas de direitos humanos, jornalistas e outros críticos foram assassinados. Regiões inteiras do campo foram esvaziadas: da mesma maneira que na Operação Fénix americana no Vietname, a terra de cultivo foi contaminada com herbicidas tóxicos. Mais de 250 mil soldados e seus amigos paramilitares dos esquadrões da morte dizimaram amplas zonas do campo colombiano controladas pelas FARC. Helicópteros proporcionados por Washington bombardearam a selva em missões de busca e destruição (que nada tinham a ver com a produção de coca ou com o envio de cocaína para os EUA). Ao destruir toda a oposição popular e as organizações camponesas e ao deslocar milhões de colombianos, Uribe logrou empurrar as FARC para regiões mais remotas. Assim como havia feito no passado, Marulanda assumiu uma estratégia de retirada táctica defensiva, abandonando território para proteger a capacidade de luta dos guerrilheiros no futuro. A contrário de outros movimentos guerrilheiros, as FARC não receberam nenhum apoio material do exterior: Fidel Castro repudiou publicamente a luta armada e buscou laços diplomáticos e comerciais com governos de centro-esquerda, inclusive melhores relações com o brutal Uribe. Depois de 2001, a Casa Branca de Bush rotulou as FARC de "organização terrorista", pressionando Equador e Venezuela para que restringissem os movimentos fronteiriços das FARC em busca de abastecimentos. O "centro-direita" da Colômbia dividiu-se entre os que prestavam um "apoio crítico" à guerra total de Uribe contra as FARC e os que protestavam infrutiferamente contra a repressão. É difícil imaginar que um movimento guerrilheiro possa sobreviver frente a um financiamento tão maciço da contra-insurgência, um 250 mil soldados armados pelo império, milhões de deslocados de suas terras e um presidente psicopata vinculado directamente a uma cadeia de esquadrões da morte com 35 mil membros. No entanto, sereno e resoluto, Marulanda dirigiu a retirada táctica; a ideia de negociar uma capitulação nunca lhe passou pela cabeça, nem a ele nem à direcção das FARC. As FARC não têm fronteira contígua com um país que as apoie, como o Vietname com a China; tampouco goza, como o Vietname, do fornecimento de armas da URSS e do apoio maciço internacional de grupos ocidentais de solidariedade, como os sandinistas. Vivemos numa época em que apoiar os movimentos camponeses de libertação nacional não está "na moda"; em que reconhecer que o génio de líderes camponeses revolucionários que constroem e mantêm a autêntica massa dos exércitos populares é tabu nos pretensiosos, loquazes e impotentes Fóruns Sociais Mundiais, cujo "mundo" exclui regularmente os camponeses militantes e para os quais "social" significa o constante intercâmbio de mensagens electrónicas entre fundações financiadas por ONGs. É neste ambiente tão pouco promissor frente às pírricas vitórias dos presidentes dos EUA e da Colômbia que podemos apreciar o génio político e a integridade pessoal de Manuel Marulanda, o maior camponês revolucionário da América Latina. Sua morte não gerará cartazes ou t-shirts para estudantes universitários de classe média, porém viverá eternamente nos corações e nas mentes de milhões de camponeses da Colômbia. Se recordará dele sempre como "Tirofijo", um ser legendário ao qual mataram uma dúzia de vezes e, apesar disso, regressou aos povos para compartilhar com os camponeses suas vidas simples. Tirofijo foi o único líder que era realmente "um deles", que durante meio século enfrentou o aparato militar e mercenário ianque e nunca foi capturado ou derrotado. Os desafiou a todos em suas mansões, seus palácios presidenciais, suas bases militares, suas câmaras de tortura e suas burguesas salas de redacção. Morreu de morte natural, depois de sessenta anos de luta, nos braços de seus queridos companheiros camponeses.

Tirofijo presente!

[*] Sociólogo, nasceu em Boston em 1937. Publicou mais de 60 livros de economia política e quatro colecções de contos. A versão em castelhano encontra-se em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=67973
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

O presidente Chávez e as FARC: Estado e revolução

por James Petras
Quando o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pediu às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) que abandonassem a luta armada e declarou que "a guerra de guerrilhas passou à história" seguia o rumo adoptado no passado por muitos líderes revolucionários. Se remontarmos ao princípio da década de 1920, Lenine instou o nascente comunismo turco a sacrificar a sua independência revolucionária para apoiar Ataturk. Seu sucessor, Iósif Staline, animou os comunistas chineses a subordinar seu movimento revolucionário ao partido nacionalista liderado por Chiang Kai-shek. Mao Zedong deu prioridade às coligações nas quais o Partido Comunista da Indonésia submetia-se à liderança do dirigente nacionalista, o general Achmed Sukarno. Durante os acordos de paz franco-indochineses de Genebra, em 1954, Ho Chi Minh aceitou a divisão do país e instou os comunistas do Vietname do Sul a que pusessem fim à guerra de guerrilhas e trabalhassem pela unificação do país por meios eleitorais. No novo milénio, Fidel Castro declarou que "a luta armada é uma coisa do passado" e que, nas condições actuais, há outras formas de luta prioritárias. Hugo Chávez pediu muitas vezes à esquerda brasileira que apoiasse o regime social liberal do presidente Lula da Silva, apesar da sua adopção da economia de livre mercado no Fórum Social Mundial de 2002. Também conclamou os movimentos sociais latino-americanos a que apoiassem uma série de regimes pró capitalistas na América Latina, apesar da sua defesa do investimento estrangeiro, dos banqueiros e dos agro exportadores. Estas experiências de governos revolucionários, ditos radicais, que exortam seus colegas ideológicos a colaborar com regimes não revolucionários e a abandonar a luta, geralmente tiveram consequências desastrosas: o Kuomintang de Chiank Kai-shek traiu o Partido Comunista, massacrou a maioria dos seus trabalhadores e empurrou-os para as montanhas do interior. À vista de todos, os comunistas indonésios legais e seus simpatizantes e famílias sofreram de 500 mil a um milhão de mortes quando um golpe da CIA derrubou Sukarno. Os comunistas do Vietname do Sul que pretenderam participar na política eleitoral foram assassinados ou encarcerados e, em última instância, os que sobreviveram viram-se obrigados a voltar à luta guerrilheira clandestina. Os regimes eleitorais reformistas que chegaram ao poder na América Latina resgataram o capitalismo da crise dos anos noventa, desmobilizaram a esquerda e abriram as portas ao ressurgimento da direita dura em quase todo o continente. No caso da Colômbia, aparentemente, a Venezuela do presidente Chávez optou por ignorar a experiência anterior das FARC na sua tentativa de trocar a luta armada pela política eleitoral. Entre 1984 e 1989, milhares de guerrilheiros das FARC abandonaram as armas e aderiram à luta eleitoral. Os candidatos que foram eleitos congressistas, homens e mulheres, foram dizimados pelos esquadrões da morte do exército colombiano, pelos paramilitares e pelos exércitos privados da oligarquia. Assassinaram mais de 5000 líderes e militantes das FARC. Não é realmente surpreendente que Chávez os exorte a aderirem ao processo eleitoral colombiano, o regime mais sangrento e o violador mais feroz dos direitos humanos da história recente? Então, por que os líderes radicais que lideraram lutas armadas, uma vez acomodados nos seus gabinetes, pedem aos seus homólogos revolucionários que abandonem a guerra de guerrilhas e participem em processos eleitorais nos quais têm possibilidade tão duvidosas? Já se deram várias explicações em diferentes momentos para explicar o que surge como uma viragem (U-turn) política. A explicação moral Alguns críticos da viragem explicam a mudança devido a uma "degeneração moral": os líderes convertem-se em autocratas burocráticos e procuram apenas consolidar-se no poder nos seus próprios países. Esta é a posição comum adoptada pela esquerda, a oposição à políticas de Staline no que se refere à política russa em relação à revolução chinesa. Os defensores da viragem na China afirmaram que se tratava do reconhecimento dos "novos tempos" e das "oportunidades objectivas" à escala mundial, e argumentavam que o surgimento da revolução anti-colonial mundial após a Segunda Guerra Mundial criou uma simetria de objectivos entre nacionalistas e comunistas que com o tempo evoluiria rumo a um Estado não capitalista. Essas frágeis alianças conduziram à divisão do regime e a que surgissem regimes de "homens fortes" da extrema direita, o que sugere que este argumento tinha uma duração limitada. Apareceram, e ainda continuam a aparecer, numerosas variações das explicações da política da viragem, mas qualquer explicação histórica estrutural tem de contar com a diferença entre um movimento revolucionário a caminho do poder e uma liderança revolucionária que já o tem. No segundo caso, o Estado revolucionário geralmente tem de lidar com um ambiente hostil, pressões militares e intervenções, boicotes económicos e isolamento diplomático dos Estados imperialistas e seus clientes. Neste contexto, o regime revolucionário radical tem uma série de opções políticas para melhorar o seu posicionamento internacional, que vão desde o apoio declarado aos movimentos de oposição radicais estrangeiros até tentativas de mostrar moderação, conciliação e acomodação dos assuntos imperiais. Há muitos factores que influem na política externa dos regimes revolucionários. É provável que se aplique uma política revolucionária nos seguintes casos: 1) Os movimentos revolucionários estão em expansão e auguram um êxito rápido, ou seja, derrubar clientes pró imperialistas ou em por em andamento um governo progressivamente favorável. 2) O regime revolucionário chegou ao poder, enfrenta uma ameaça militar iminente para a sua consolidação e o resultado será "tudo ou nada". 3) O regime revolucionário enfrenta um sólido bloco de oposição intransigente dirigido por potências imperialistas que não mostram nenhuma vontade de negociar um acordo de convivência nem estão dispostas a assumir nenhum compromisso. Pelo contrário, os regimes revolucionários são mais propensos a renunciar ou minimizar os vínculos com movimentos revolucionários estrangeiros no caso de: 1) Não serem definitivas as possibilidades de manter relações diplomáticas e comerciais, bem como intercâmbios e investimentos, com os regimes capitalistas. 2) Os movimentos radicais estão em declínio e perdem seus apoios ou são eclipsados pelos partidos eleitorais que prometem o reconhecimento e melhores relações. 3) As mudanças sócio económicas dentro do Estado revolucionário evoluem em direcção a uma acomodação com investidores locais ou estrangeiros emergentes cujo futuro crescimento depende da associação com as elites empresariais estrangeiras e uma dissociação da forças anti capitalistas radicais. Na prática, em diferentes tempos e lugares, as duas posições polares combinam-se de acordo com uma série de circunstâncias atenuantes. Exemplo: o regime revolucionário pode buscar uma posição de acomodação com grandes regimes capitalistas economicamente importantes, enquanto continua a apoiar movimentos revolucionários em países capitalistas mais pequenos e menos significativos. Em outros casos, o regime revolucionário pode dissociar-se dos movimentos revolucionários para diversificar seus mercados e intercâmbios e, ao mesmo tempo, continuar a exprimir uma "retórica revolucionária" para consumo interno e para manter as lealdades dos movimentos reformistas do estrangeiro. A política externa, revolucionária ou não, é uma prerrogativa do corpo diplomático, que costuma dispor de muitos profissionais que não têm uma posição revolucionária e são remanescentes de tempos pré revolucionários. Sua forma de entender a política externa é recorrer às ligações e relações anteriores com seus homólogos dos países capitalistas e com as elites empresariais do seu país. Portanto, em geral, estão em constante "estado de negociação", imunes às dinâmicas revolucionárias internas e procuram aumentar ao máximo os laços diplomáticos e reduzir ao mínimo as ligações externas com movimentos revolucionários que comprometem suas relações quotidianas com os seus homólogos estrangeiros. Governo e partidos: A solidariedade e os "interesses de Estado" É possível imaginar uma situação na qual um governo revolucionário execute uma política moderada de acomodação, ao passo que o partido, partidos ou movimentos revolucionários que apoiam o governo exprimem a sua solidariedade com partidos e movimentos revolucionários do estrangeiro. Isto supõe que o Estado e o partido apoiam-se mutuamente mas são independentes quanto à política e à organização. Esta dualidade é possível se o partido decide as suas políticas através dos seus próprios fóruns de deliberação, consultando os seus membros, e não é uma "correia de transmissão" do Estado e do seu poder executivo. Por desgraça, na imensa maioria dos casos, o Estado e o partido tendem a fundir-se, os líderes do partido e dos movimentos sociais de massas tomam posições no governo, os movimentos perdem a sua autonomia e convertem-se em mecanismos para implementar as políticas estatais. Assim, as manobras diplomáticas do Ministério de Negócios Estrangeiros invalidam os princípios de solidariedade revolucionária do partido e dos movimentos, reduzindo-os a uma retórica abstracta intranscendente. Enquanto o Estado pós revolucionário tem a responsabilidade quotidiana de velar pela segurança, o emprego e o abastecimento necessário ao povo e, portanto, encontrar formas de lidar com os regimes existentes para consegui-lo, os partidos e movimentos revolucionários têm como um dos seus principais objectivos o aprofundamento e a extensão das mudanças revolucionárias contidas nos seus programas. Por outras palavras, há uma tensão inevitável entre as "razões de Estado" e o "programa revolucionário" dos movimentos de massas. Com a consolidação dos Estado pós revolucionário, a tendência que predomina na classe governante é estabilizar as relações exteriores. Isto inclui dois processos: limitar o partido revolucionário a um apoio moral aos seus homólogos externos, e sua desvinculação em relação aos movimentos revolucionários estrangeiros. A retórica revolucionária, radical e internacional continuará a ser um ritual nos aniversários de vitórias históricas, heróis revolucionários e denúncias contra os agressores imperialistas imediatos, enquanto se firmam todo tipo de acordos com os regimes capitalistas. Quando os países capitalistas estabelecem acordos diplomáticos, económicos ou políticos com um regime revolucionário, este qualifica os seus novos sócios como "progressistas" que fazem parte de uma nova onda de governo "anti imperialistas" ou "independentes". O mais notável destas novas definições dos sócios capitalistas, económicos ou diplomáticos é que não se baseiam em nenhuma mudança estrutural, de propriedade ou de classe, nem sequer em qualquer tipo de ruptura de relações com os países imperialistas. A mudança da etiqueta política produz-se quase exclusivamente em resultado da política externa do país com o regime revolucionário. Venezuela: o paradoxo das mudanças revolucionárias e a política externa conservadora O governo de Chávez segue uma política praticada pela grande maioria dos líderes revolucionários ou radicais anteriores que enfrentaram potências imperialistas hostis, adoptando políticas sócio económicas radicais para debilitar os aliados internos do império, enquanto busca aliados diplomáticos externos entre regimes capitalistas reformistas e até conservadores. Chávez apoiou o regime neoliberal de Lula no Brasil (e exortou os movimentos sociais a fazerem o mesmo), inclusive quando o ex líder sindical rebaixou drasticamente as pensões dos funcionários públicos, impôs um pacto de estabilidade do FMI e favoreceu os agro exportadores e de minerais ao invés dos trabalhadores rurais sem terra. Chávez também apoiou economicamente o regime de Kirchner na Argentina por meio da compra de títulos do Estado, inclusive quando o referido regime se negou a impugnar as privatizações ilegais da década de 90, mantém as desigualdades económicas do passado e negou-se a reconhecer legalmente a Confederação sindical independente dos trabalhadores argentinos (CTA). Para Chávez, o factor chave era a oposição da Argentina a uma intervenção estado-unidense contra a Venezuela e a recusa a integrar-se no ALCA, promovido pelos EUA. A política externa de Chávez em relação à Colômbia, principal aliado político e militar dos EUA na região, alternou a reconciliação e a recusa conforme as ameaças imediatas à soberania venezuelana. Os pontos de conflito giram em torno de várias intervenções flagrantes da Colômbia na Venezuela: em 2006, o exército colombiano sequestrou no centro de Caracas um cidadão venezuelano de origem colombiana, representante das relações exteriores das FARC. Anteriormente, o exército colombiano detivera 130 membros de forças paramilitares armadas colombianas na Venezuela, a menos de 100 km da capital. Após a detenção a Venezuela suspendeu brevemente as relações económicas, mas renovaram-se pouco após numa reunião amistosa após um encontro diplomático entre o presidente dos esquadrões da morte colombianos, Uribe e Chávez. Depois, em 2008, quando Chávez tentou mediar numa libertação de preços e abrir negociações de paz entre as FARC e o regime de Uribe, este lançou um ataque militar assassino contra o grupo negociador das FARC estabelecido na fronteira do Equador. Frente à ofensa de Uribe e sua violação da soberania equatoriana na perseguição da guerrilha, Chávez viu-se obrigado a denunciar Uribe, mobilizar o exército venezuelano e apresentar a questão perante a Organização dos Estados Americanos. Uribe lançou uma ofensiva diplomática argumentando que um computador da guerrilha, conseguido durante o ataque, continha provas do relacionamento de Chávez com as FARC. Posteriormente, Uribe e Chávez negociaram um acordo temporário na base de um entendimento mínimo, pelo qual Uribe abster-se-á de futuros ataques militares transfronteiriços. Neste contexto de espadas desembainhadas e tensões diplomáticas, Chávez optou por denunciar publicamente as FARC, por uma distância entre o seu governo e a esquerda revolucionária e pedir o seu desarmamento unilateral para ganhar a simpatia diplomática da Colômbia, Europa e Estados Unidos. Claramente, Chávez acreditou que poderia apaziguar Uribe para baixar as ameaças às fronteiras da Venezuela e reduzir as probabilidades de que a Colômbia concedesse aos EUA a utilização do seu território transfronteiriço como base de lançamento para uma invasão. A decisão de Chávez foi profundamente influenciada pelo enfraquecimento político e militar das FARC nos últimos cinco anos, pelo avanço do exército colombiano e pelo cálculo de que a eficácia das FARC como contrapeso a Uribe estava em queda. Neste contexto, Chávez provavelmente considerou mais importante a distensão diplomática com a Colômbia apoiada pelos EUA do que qualquer solidariedade passada ou uma futura recuperação táctica das FARC. Em termos gerais, quando os governos revolucionários percebem ou enfrentam uma situação de enfraquecimento, movimentos revolucionários derrotados no exterior e ameaças crescentes das potências imperialistas e dos seus satélites, é mais provável que construam pontes diplomáticas com regimes centristas ou de direita. Para conseguir o apoio diplomático, a medida mais natural para construir a confiança é sacrificar qualquer identificação com a esquerda radical, incluindo o repúdio público a qualquer iniciativa extra parlamentar. Desde as crises económicas dos anos noventa, Cuba estabeleceu estreitas relações económicas e diplomáticas com todos os Estados da América Latina (inclusive a Colômbia), opôs-se a todos os movimentos de guerrilhas e renunciou a criticar os regimes de centro direita, excepto os que a atacam publicamente como sucedeu com clientes dos EUA como ex presidente Fox do México e seu ex ministro de Negócios Estrangeiros Jorge Castañeda, um reconhecido porta-voz da CIA e do exílio cubano em Miami. Conclusão Os dilemas dos governos revolucionários giram em torno do problema de administrar o Estado, o que implica maximizar as relações económicas e diplomáticas internacionais para desenvolver a economia e defender sua segurança numa ordem mundial imperialista, enquanto vive em concordância com a sua ideologia revolucionária e solidariedade com os movimentos populares no mundo capitalista. Os riscos da solidariedade diminuem quando novos regimes de esquerda chegam ao poder ou ascendem os movimentos populares. Os riscos são maiores quando ressurge e ascende a direita. O dilema é muito agudo, porque o Estado revolucionário e o partido revolucionário estão intimamente ligados e assim se identificam: o partido é dirigido pelo presidente do Estado e há coincidências a todos os níveis entre os oficiais e os membros do governo e do partido, assim como as actividades dos últimos reflectem as prioridades do governo. Nos casos onde não há um espaço independente entre o Estado e o partido, os movimentos diplomáticos necessários para as políticas do dia a dia minam a possibilidade de que o partido (baseado nos seus princípios e deliberações internas) possa actuar independentemente em apoio aos seus homólogos internacionais. Pelo contrário, a existência de um partido revolucionário independente, que apoia o Estado mas tem a sua própria vida interna, poderia resolver o dilema ao dar prioridade à solidariedade de classe na sua "política externa". Ao recusar o papel de correia de transmissão da política externa do governo, o partido revolucionário actuaria em paralelo ao Estado, exercendo a sua oposição ao imperialismo e aos inimigos de classe internos, mas seria independente na hora de escolher alianças estrangeiras e tácticas. Dada a diferente composição da burocracia e dos corpos diplomáticos da política externa e a da base de massas radical do partido revolucionário, esta separação de Estado e movimentos reflectiria as diferenças políticas e de classes inerentes entre um corpo diplomático formado sob regimes reaccionários anteriores e acostumado a modos operativos convencionais e os activistas populares radicalizados, forjados na luta de classes e habituados a trocar ideias em fóruns internacionais com revolucionários do exterior. Os riscos de dependência diplomática de aliados capitalistas pouco fiáveis e as frágeis acomodações temporárias mais arriscadas têm que se equilibrar com os ganhos da solidariedade e o apoio de partidos e movimentos de massa na oposição comprometidos em políticas extra parlamentares.
09/Julho/2008

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