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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Pela retomada das terras da União invadidas pela Cutrale

24 de agosto de 2011

Da Página do MST

O MST promove campanha pela retomada das áreas da Cutrale e lança três documentos de abaixo-assinado para ser enviado às autoridades envolvidas no caso por e-mail.
O Movimento luta pela retomada das terras griladas no município de Iaras, na região de Bauru, no interior de São Paulo, desde 1995. Dois anos atrás, foi realizado um protesto na área usurpada pela empresa Cutrale. Na época da ocupação, o clima estava contaminado pela disputa eleitoral, além do poder de uma empresa vinculada à Coca-Cola.
A ocupação do MST foi satanizada por todos os meios de comunicação, que esconderam o principal: a área ocupada pertence à União e a Cutrale é uma empresa que utiliza do antigo procedimento da grilagem para sustentar um império do suco de laranja.
A empresa do ramo do suco de laranja industrial comprou a fazenda de um grileiro e instalou uma plantação de laranjas. Em negociação com o Incra, admitiu que a origem da fazenda é irregular e prometeu repassar uma outra área para o assentamento das famílias. No entanto, rompeu o acordo.
Nesta semana, famílias de trabalhadores Sem Terra voltaram a ocupar a área para denunciar a paralisia da Reforma Agrária e pressionar a Cutrale, o governo federal e o Poder Judiciário para a retomada da área.

O Incra move uma ação na Justiça federal contra a Cutrale e pede a devolução da área. No entanto, a Justiça não é tão célere para determinar a retomada de uma fazenda sob controle de uma grande empresa quanto para dar ordem de despejo a trabalhadores Sem Terra. Por isso, a ação do Incra está engavetada.
Não fosse apenas o uso ilegal das terras, a Cutrale usa em larga escala, sem o devido controle, toda espécie de venenos, pesticidas e agrotóxicos, causando poluição das águas, rios, e especialmente poluindo o lençol freático que abastece o Aqüífero Guarani.
Contamos com o seu apoio! Participe!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

MST ocupa área grilada da Cutrale em Iaras


Da Página do MST

Cerca de 400 integrantes do MST ocupam desde as 6h, desta segunda-feira (22/8), a Fazenda Santo Henrique, de 2,6 mil hectares, no município de Iaras, na região de Bauru.
A ocupação realizada no município de Iaras reivindica a arrecadação da área para fins de Reforma Agrária e denuncia a indevida e criminosa utilização da área pela empresa Cutrale.
A área utilizada pela Cutrale tem origem pública e, de acordo com a lei, deve ser destinada à Reforma Agrária.
O processo tramita na 1ª Vara da Justiça Federal de Ourinhos desde agosto de 2006 . A fazenda faz parte do Grupo Colonial Monção, um conjunto de fazendas comprado pela União em 1909 para projeto de colonização de mais de 100 anos. Juntas, somavam cerca de 40 mil hectares abrangendo terras em Agudos, Lençóis Paulista, Borebi, Iaras e Águas de Santa Bárbara.
Em negociação com o órgão federal, a Cutrale admitiu que a área não é regular e fez o compromisso de repassar uma área para o assentamento das famílias acampadas na região. No entanto, a empresa não cumpriu e o Incra até agora não tomou nenhuma atitude.
A Cutrale, desde a década de 1980, está envolvida em crimes contra o trabalho e a economia brasileira, sempre se utilizando da ausência e da complacência do Estado.
A ação faz parte da Jornada Nacional de Lutas por Reforma Agrária, que acontece a partir de hoje em vários estados onde o MST está organizado e também em Brasília
O Movimento participa do Acampamento Nacional da Via Campesina, com o objetivo de pressionar o governo frente à paralisia no atendimento da pauta dos trabalhadores e das trabalhadoras rurais.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Caso Cutrale: trabalhadores sem-terras são inocentados e processo é arquivado


por Juliana Sada

Em janeiro deste ano, a Justiça decidiu pela libertação dos trabalhadores sem-terra acusados de praticar crimes durante a ocupação de uma fazenda pertencente à empresa Cutrale, produtora de suco de laranja. Além disso, o processo foi arquivado pela 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

De acordo com o desembargador Luis Pantaleão, em seu relatório, não havia indícios que ligassem os acusados aos crimes alegados. Além disso, o desembargador citou problemas no processo. A prisão preventiva foi decretada antes do recebimento da denúncia e ainda com a investigação em curso, para o desembargador não havia indícios de que os acusados trariam algum empecilho ao processo. O encarceramento foi baseado também na suposta “imoralidade” dos trabalhadores, acusação que não sustenta a prisão preventiva.

Já o processo foi trancado por inépcia da denúncia, ou seja, por não possuir os requisitos legais para instauração de um processo.

A ocupação
Em setembro de 2009, cerca de 250 famílias ocuparam uma fazenda pertencente à Cutrale, para denunciar a grilagem de terras pela empresa. De acordo com o MST, a área ocupada pertence à União e a Cutrale estaria se apropriando ilegalmente da terra. A ocupação durou doze dias, entre 28 de setembro e nove de outubro, e terminou por ordem judicial.

O episódio teve intensa repercussão na mídia, sobretudo por conta da derrubada de pés de laranja da fazenda pelos manifestantes, como forma de protesto.

por Juliana Sada

Em janeiro deste ano, a Justiça decidiu pela libertação dos trabalhadores sem-terra acusados de praticar crimes durante a ocupação de uma fazenda pertencente à empresa Cutrale, produtora de suco de laranja. Além disso, o processo foi arquivado pela 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

De acordo com o desembargador Luis Pantaleão, em seu relatório, não havia indícios que ligassem os acusados aos crimes alegados. Além disso, o desembargador citou problemas no processo. A prisão preventiva foi decretada antes do recebimento da denúncia e ainda com a investigação em curso, para o desembargador não havia indícios de que os acusados trariam algum empecilho ao processo. O encarceramento foi baseado também na suposta “imoralidade” dos trabalhadores, acusação que não sustenta a prisão preventiva.

Já o processo foi trancado por inépcia da denúncia, ou seja, por não possuir os requisitos legais para instauração de um processo.

A ocupação

Em setembro de 2009, cerca de 250 famílias ocuparam uma fazenda pertencente à Cutrale, para denunciar a grilagem de terras pela empresa. De acordo com o MST, a área ocupada pertence à União e a Cutrale estaria se apropriando ilegalmente da terra. A ocupação durou doze dias, entre 28 de setembro e nove de outubro, e terminou por ordem judicial.

O episódio teve intensa repercussão na mídia, sobretudo por conta da derrubada de pés de laranja da fazenda pelos manifestantes, como forma de protesto.

Fonte: http://www.rodrigovianna.com.br

Fortuna: Zé Cutrale e os laranjas na mídia

Império dos laranjas
A grilagem do Zé Cutrale e o silêncio cúmplice da mídia prostituída
Cutrale segundo a Goebbels: "Tadinha, tão inocente..." (sic)

Não se sabe bem porquê, mas pode-se imaginar o que move a imprensa nativa no país, ou em qualquer lugar do mundo: patrocínio (ou a recusa de patrocínio).

Porém, ao meter mais adentro a faca do raciocínio acha-se um miolo gaiato, fino, e até profundo que explica, por exemplo, matéria publicada na duvidosa revista (in)Veja, ed. 1802 de mai/2003, na qual explodia na capa "invejável" matéria em que esmiuçava o gérmen da fortuna de Zé Cutrale, abaixo transcrita, na íntegra, para degustação dos amigos navegantes e, quiçá, para que os sabujos da imprensa de esgoto - nela ancorados - recuperem-se de suas amnésias:

"O campeão mundial do suco de laranja"
O brasileiro José Luís Cutrale e sua família detêm 30% do mercado global de suco de laranja, quase a mesma participação da Opep no negócio de petróleo

Apenas em dois momentos específicos da história, no ciclo do açúcar e no do café, o Brasil controlou amplamente o comércio global de um produto agrícola como acontece agora com o mercado mundial de laranja.
De acordo com os números mais recentes, 70% do suco consumido no mundo é plantado ou industrializado por brasileiros. E esse mercado notável tem um rei. É José Luís Cutrale, detentor de uma marca fabulosa. Comandando um negócio que foi fundado por seu avô no começo do século passado e ampliado várias vezes por seu pai, José Luís administra a Sucocítrico Cutrale, empresa responsável pela venda de um de cada três copos de suco de laranja comercializados no exterior. Os dados do setor ignoram o volume da fruta vendida in natura, o chamado suco natural, inexpressivo em termos globais. Analisados os ramos de atividade com alguma expressão na pauta de exportações nacional, em nenhum outro setor da economia se encontram empresários brasileiros operando nesse patamar. Sua marca individual aproxima-se da participação coletiva dos países da Opep no mercado de petróleo, que é de 40%.

Cutrale vende suco concentrado para mais de vinte países, entre os quais os Estados Unidos, todos os da Europa e a China. Seus clientes são grandes companhias do padrão da Parmalat, da Nestlé e da Coca-Cola, dona de uma das marcas de suco de laranja mais populares nos Estados Unidos.
  • O principal segredo do negócio consiste em adquirir fruta a um preço baixo – preço de banana, brincam os fornecedores –, esmagá-la pelo menor custo possível e vender o suco a um valor elevado.
Observado por seus números, o mercado global de laranja pode não parecer tão impressionante. Movimenta "apenas" 9 bilhões de reais por ano, contra mais de 90 bilhões de reais da soja. Acontece que o setor gera uma lucratividade elevada, no momento em torno de 15% do faturamento para os melhores produtores. Para efeito de comparação, o Grupo Pão de Açúcar apresentou um lucro líquido equivalente a 2,5% do faturamento.
Em anos anteriores, a taxa de retorno da Sucocítrico Cutrale já ultrapassou a casa dos 70% - algo impensado em qualquer economia de mercado, com exceção da China. Seria a China a sede da Cutrale?.

A informação foi confirmada a (in)VEJA por três pessoas: um ex-executivo do grupo Cutrale com acesso aos balanços e dois diretores de empresas concorrentes que também se beneficiaram dessa boa fase. O auge da lucratividade ocorreu nos anos 80. Naquele tempo, a Cutrale podia lucrar até 800 milhões de dólares, ou 2,4 bilhões de reais – equivalente ao lucro do Banco Itaú no ano passado.


Cutrale recusa-se a falar sobre a lucratividade da companhia. Há dois anos, a Receita Federal se interessou pela questão e teve dificuldade em analisar as contas do grupo. Fiscais de Brasília e São Paulo procuraram entender como a Cutrale ganha tanto dinheiro. Não localizaram nenhuma irregularidade. Uma autoridade da Receita relatou a VEJA que a estratégia para elevar a lucratividade do grupo passa por contabilizar uma parte dos resultados por intermédio de uma empresa sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Com isso, informa a autoridade da Receita, a Cutrale conseguiria pagar menos imposto no Brasil. Trata-se de um mecanismo legal. Foi o que a Receita descobriu ao escarafunchar as contas da organização da família Cutrale.
Claudio Rossi
CONDOMÍNIO EM FORMA DE CORAÇÃO
Alguns diretores da Cutrale vivem neste condomínio em forma de coração, em um terreno cercado de laranjais em Araraquara, no interior de São Paulo
Avesso a badalações (pudera) e ausente das colunas sociais, José Luís Cutrale é um rosto pouco conhecido fora do mundo dos negócios. A fotografia exibida nesta reportagem foi tirada numa rara aparição. Ela ocorreu no Palácio do Planalto durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, criado pelo presidente Lula e do qual Cutrale faz parte. No meio empresarial, no entanto, o nome de Cutrale é muito comentado. Primeiro pela riqueza que a família amealhou. Alguns empresários o classificam como o homem mais rico do campo brasileiro. Ou talvez o brasileiro mais rico de todos os campos. O banqueiro Pedro Conde, em conversas com empresários amigos, que relataram o que ouviram a VEJA, referiu-se várias vezes a Cutrale como o homem mais rico do Brasil. Disse a um interlocutor certa vez que sua fortuna acumulada equivalia a 5 bilhões de dólares – ou 15 bilhões de reais pelo câmbio do momento.

A credibilidade da estimativa feita por Pedro Conde advém do fato de o banqueiro ser amigo do rei da laranja, além de ter sido dono do BCN, comprado há alguns anos pelo Bradesco, no qual Cutrale concentrava o grosso de suas operações financeiras. Era o maior cliente do banco. Procurado por VEJA para falar sobre suas estimativas, Pedro Conde não deu retorno à reportagem. Outro grande empresário, dono de uma fortuna de 3 bilhões de reais, diz o seguinte a respeito de Cutrale: "Eu sei o que é ser rico e não me ocorre nenhum brasileiro que seja mais rico que ele". Perguntado por VEJA a respeito de sua fortuna e apresentado ao debate que se dá em torno do tema, José Luís Cutrale diz apenas: "Sobre esse assunto eu não falo".

Outra razão pela qual o nome de Cutrale freqüenta rodinhas de empresários é a atuação agressiva da empresa, principalmente em relação aos fornecedores. Os plantadores de laranja no Brasil têm poucas opções para escoar a produção. Há apenas cinco grandes compradores da fruta e Cutrale é o maior deles. Por essa razão, acabam mantendo com o rei da laranja uma relação que mistura temor e dependência. Por um lado, precisam que ele compre a produção. Por outro, assustam-se com alguns métodos adotados por Cutrale para convencê-los a negociar as laranjas por um preço mais baixo. Produtores ouvidos por VEJA afirmam que a família Cutrale costuma fazer enorme pressão para conseguir preços melhores na fruta ou mesmo adquirir fazendas. "Empregados deles nos visitavam e queriam que a gente vendesse nossa propriedade. Do contrário diziam que seríamos prejudicados na safra seguinte", afirmou um produtor que passou pela experiência de negociar com os Cutrale. Outro fazendeiro relata história semelhante, pois também foi procurado para vender sua fazenda de laranja. "Antes de eu ser abordado, minha fazenda foi sobrevoada algumas vezes por um helicóptero da companhia", diz.

Outra reclamação comum feita a VEJA por produtores diz respeito aos termos de alguns contratos de compra de laranja. Há três anos, 200 produtores acionaram em bloco a Cutrale. Acusavam-na na Justiça de descumprir um contrato pelo qual a empresa se comprometia a receber 5 milhões de caixas de laranjas. Segundo os produtores, nos dias em que eles tentaram fazer a entrega, os portões estavam fechados e a laranja começou a estragar. Os produtores quiseram ser ressarcidos pelo prejuízo, mas a Cutrale alegava que não lhes devia nada, já que não havia recebido a fruta. Os produtores receberam uma liminar para entregar o produto. Só depois disso a Cutrale aceitou a encomenda. "É difícil conseguir bons preços tratando com alguém que pode dizer não até sua laranja apodrecer", conta um produtor que por razões óbvias prefere não se identificar.
Divulgação
O JATO INTERCONTINENTAL
Uma vez por mês, o empresário José Luís Cutrale dá um giro por Estados Unidos, Europa e Ásia para monitorar seus negócios. Ele viaja em seu próprio jato, um Falcon avaliado em quase 100 milhões de reais (à esq.). Apenas para efeito ilustrativo, a foto mostra uma opção de decoração sugerida pelo fabricante

Essa linha dura já rendeu à Cutrale discussões legais por formação de cartel. De 1994 para cá, Cutrale já foi alvo de cinco processos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, a autarquia encarregada de preservar a concorrência. Ele não estava sozinho no caso. Foi investigado juntamente com outras grandes indústrias do setor. Jamais sofreu uma punição.

Num desses processos, duas associações de produtores de laranja denunciaram ao Cade que Cutrale e outras indústrias estavam se reunindo para combinar preços, o que prejudicava os plantadores. O desfecho do caso foi amigável. As empresas assinaram um "termo de compromisso de cessação das irregularidades" com os fazendeiros, comprometendo-se a não se reunir para organizar preços.

O Cade decidiu que as empresas de suco de laranja não poderiam se organizar dessa forma. Em vários aspectos, a indústria de suco de laranja lembra as empreiteiras. Além de ser um mercado concentrado nas mãos de poucos gigantes, os dois setores mantêm uma longa história de dependência em relação ao governo.

Nos anos 70 (que saudades sentem os sabujos da revistinha), Brasília criou uma linha de crédito especial para incentivar a exportação de produtos semi-industrializados. A idéia era usar dinheiro público para estimular a venda de manteiga de cacau, café solúvel e suco de laranja em vez de cacau, café e laranja, que são muito mais baratos e dão menos lucro. Acreditava-se que o comércio exterior brasileiro poderia dar um salto se o plano desse certo. O governo financiava a produção e as vendas para o exterior, estabelecia cotas para os exportadores e definia os preços de exportação. A operação era comandada pela Cacex, a carteira de comércio exterior do Banco do Brasil.

O projeto fracassou para o cacau e para o café, mas deu certo para a laranja. Um ex-diretor do Banco do Brasil lembra que José Cutrale chegava a visitar a Cacex pelo menos uma vez por mês nos anos 70. Um dos mais poderosos diretores da Cacex, Carlos Viacava, manteve um relacionamento tão bom com a empresa que acabou contratado pela Cutrale como diretor quando saiu do governo.


Um ex-diretor do Banco do Brasil conta a VEJA que José Cutrale costumava levar a mulher, Amélia, para as reuniões de negócios em Brasília. Com Amélia ao lado, Cutrale conversava com os diretores do bancão oficial como se falasse com gerentes de agência do interior. Choramingava tanto enquanto pedia ajuda oficial que, freqüentemente, ficava com os olhos marejados, segundo relato do ex-diretor. Os pedidos mais comuns: uma cota maior na Cacex e um preço menor para exportar suco de laranja.

Há ainda uma terceira razão pela qual Cutrale desperta curiosidade no meio empresarial. Trata-se de uma certa pitada de excentricidade que a família demonstra na vida particular. Nas outras empresas, os altos executivos moram cada qual em sua casa e se reúnem no horário comercial. Na Cutrale é diferente. A companhia mandou construir um condomínio fechado em forma de coração ao lado de sua sede, no interior de São Paulo. Ali vivem alguns executivos da organização. São dez casas, no total, cercadas por um imenso laranjal. A maior é de José Cutrale, pai de José Luís, atualmente com 77 anos. O imóvel tem 844 metros quadrados e uma piscina coberta de 250 metros quadrados. As outras nove casas são de 500 metros quadrados cada uma. São ocupadas pelos empregados mais estimados por José Cutrale. Quem vive no condomínio não precisa sequer atravessar o portão para ir ao trabalho. De uns anos para cá, José Cutrale passou a morar mais tempo num apartamento na Park Avenue, endereço chique de Nova York.

O primeiro Cutrale a negociar laranja no Brasil foi Giuseppe Cutrale, que deixou os laranjais da família na Sicília no início do século passado para tentar a sorte em São Paulo. Começou comprando frutas no subúrbio do Rio de Janeiro – então a mais importante região produtora de laranja do país – e as revendia no Mercado Municipal de São Paulo. Valendo-se de contatos que mantinha com a comunidade italiana em outros países, passou a exportar fruta para o Canadá, a Alemanha e a Holanda. Foi a fase meramente comercial do grupo, na qual a família alcançou um padrão de vida de classe média e comprou uma casa num bairro operário de São Paulo. O começo da II Guerra Mundial obrigou Giuseppe a suspender as exportações, e os Cutrale pareciam ter chegado ao fim. Em 1955, o caçula dos onze filhos de Giuseppe, José Cutrale, recomeçou do zero o negócio do pai e conduziu a família para o clube dos bilionários. Na década de 60, com o lucro obtido no negócio, adquiriu laranjais e uma primeira fábrica de suco concentrado em parceria com Pedro Conde, do BCN. Fez trinta anos atrás aquilo que os especialistas pregam nas palestras sobre o futuro da agroindústria: agregou valor.

O PATRIARCA DO IMPÉRIO
A família Cutrale negocia laranjas há mais de 100 anos. José Cutrale (acima), hoje com 77 anos, herdou do pai um empreendimento quebrado e em quarenta anos transformou a empresa em um império bilionário
José Cutrale ainda tem poder para interferir nos negócios, mas as operações do dia-a-dia estão a cargo de seu único filho, José Luís. Aos 56 anos, José Luís Cutrale atua no ramo há 42, desde que deixou o colégio, aos 14 anos de idade. "Foi uma das decisões mais acertadas de minha vida", diz. "Na escola, só tinha meninas de nariz empinado", conta. Sua primeira missão empresarial foi, sob a supervisão do pai, tomar conta do caixa da banca de laranja que a família mantinha no Mercado Municipal, em São Paulo. E suas tarefas foram se tornando mais complexas, conforme o grupo crescia. José Luís aprendeu inglês, francês e italiano e, buscando aprimorar-se nos contatos com a clientela, decidiu matricular-se em cursos de oratória. Atualmente, para acompanhar os negócios de perto, ele cumpre um périplo mensal que passa por São Paulo, Flórida, Nova York e Amsterdã.
Freqüentemente, viaja para a Ásia. Para se locomover, ele usa o próprio jato, um Falcon 900, avaliado em 100 milhões de reais. Os dois filhos, José Luís Júnior e José Henrique, já trabalham com o pai. Nenhum deles terminou a faculdade.
Gentil no trato pessoal, José Luís Cutrale recebeu (in)VEJA em três ocasiões, num total de dezesseis horas de conversa. Nas entrevistas, chamou a atenção dos jornalistas a elegância do entrevistado. Usava ternos da grife italiana Ermenegildo Zegna (4.000 reais cada um), camisas francesas Façonnable (600 reais) e sapatos ingleses Church (a partir de 1 500 reais o par).

Também não passaram despercebidos alguns comentários estranhos. No segundo e no terceiro encontros, José Luís contou aos jornalistas da revista que mantinha em seu poder gravações das entrevistas feitas pelos repórteres com amigos seus e concorrentes. E que seu diretor jurídico o havia aconselhado a processar (in)VEJA antes da publicação da matéria. Perguntado sobre a razão do processo, não deu esclarecimentos.


O mercado de laranja é dos mais concentrados do mundo, tanto do ponto de vista geográfico quanto do ponto de vista econômico. Cerca de 90% dos laranjais se situam em apenas dois lugares: o Estado da Flórida, nos Estados Unidos, e o Estado de São Paulo, no Brasil. Essas regiões concentram milhares de plantadores que vendem a produção a apenas quinze empresas que fazem o concentrado para distribuição em escala mundial. Delas, nove são companhias nos Estados Unidos e seis no Brasil. Entre as estrangeiras, atuam no setor a Cargill, uma das maiores empresas de alimentos do planeta, e a gigante francesa Dreyfus.


Entre os competidores nacionais, destaca-se a Votorantim, um dos maiores grupos empresariais do país. Até a década de 80, as fábricas americanas mantinham-se na liderança do mercado de suco, mas uma geada que arrasou os laranjais da Flórida mudou o cenário e o Brasil assumiu a frente. O grande diferencial entre São Paulo e Flórida se dá no preço. O custo de colheita e do transporte por caixa na Flórida é quase quatro vezes mais alto do que em São Paulo. A diferença se deve principalmente ao peso da mão-de-obra no preço final, que no Brasil é muito mais baixo. Os Estados Unidos compensam a desvantagem comparativa com tarifas alfandegárias elevadas.


No fim dos anos 90, Cutrale conseguiu colocar seu pé em solo americano ao comprar da Coca-Cola duas fábricas de suco localizadas na Flórida. Com isso, ocupou uma posição estratégica. Ele produz e lucra no Brasil da mão-de-obra barata e nos Estados Unidos da alíquota alfandegária elevada.


A laranja é a segunda principal fonte de riquezas da Flórida e o sexto produto mais importante da pauta de exportações agrícolas do Brasil. Esse choque de interesses coloca fazendeiros americanos e brasileiros num permanente estado de guerra, que envolve disputas diplomáticas e um pesado jogo de acusações. O deputado republicano pelo Estado da Flórida, Mark Foley, tem como plataforma combater os produtores brasileiros de suco. Ele defende que o governo americano use satélites militares para espionar os laranjais no Brasil. Num artigo recente, Andy LaVigne, diretor da associação dos produtores de suco de laranja da Flórida, escreveu que os brasileiros "só são competitivos porque se beneficiaram de vantagens trazidas de um passado de subsídios e dumping, ausência de proteção ambiental, legislação ineficiente contra trabalho infantil, desvalorizações cambiais freqüentes, oligopólio e manipulação dos preços futuros de concentrado".


A compra da fábrica da Coca-Cola por Cutrale tornou o ambiente ainda mais tenso. Há três anos, um funcionário da Cutrale na Flórida morreu em um acidente elétrico. O sindicato alegou falhas na segurança e organizou uma greve que durou seis semanas. Um ano depois, a demissão de um funcionário com mais de trinta anos de casa gerou nova onda de protestos. No terceiro episódio da disputa entre os empregados e a Cutrale, o sindicato denunciou a dispensa de 140 dos 200 funcionários em represália aos protestos.


Há alguns anos, a empresa tentou comprar uma fazenda para plantar laranja na Flórida. O departamento de meio ambiente do Estado barrou o projeto alegando que na área vive um pássaro raro. O negócio foi desfeito e meses depois a fazenda foi vendida a um rancheiro texano. Cutrale conta que para contornar mais dissabores desse tipo ele tenta manter uma boa relação com poderosos locais, como o governador da Flórida, Jeb Bush, irmão do presidente George W. Bush. Jeb Bush já o visitou no Brasil e escreveu uma carta de boas-vindas para José Luís quando a Cutrale comprou suas fábricas na Flórida. No texto, Jeb Bush agradece a Cutrale por criar empregos em seu Estado. A carta acabou emoldurada e, agora, decora seu escritório.


Manter a proximidade do poder é um traço da família Cutrale. Segundo conta José Luís, ele e seu pai foram recebidos por quase todos os presidentes da República nos últimos trinta anos. José Luís Cutrale recorda-se de uma cena constrangedora que protagonizou em Brasília, quando foi encontrar-se com FHC, então ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco. Depois de tomarem um chá-de-cadeira, Fernando Henrique recebeu ele e seu pai, mas interrompeu a reunião para ir ao Palácio do Planalto e não apareceu mais. "Ele falou que ia voltar, mas sumiu", disse José Luís a (in)VEJA.


Os Cutrale foram apresentados ao poder em 1972, quando a empresa foi escolhida a exportadora do ano. José Luís Cutrale acompanhou o pai na solenidade de premiação. Coube ao presidente Emílio Médici entregar o prêmio, em cerimônia realizada no Palácio da Guanabara, no Rio. "Eu e meu pai estávamos tremendo. Foi a primeira vez que entramos num palácio." Médici convidou os Cutrale para conversar depois da solenidade. No meio da conversa, pediu um cigarro a José Luís. Ele lembra que sentiu um calafrio. Tinha um maço de Minister guardado no bolso da calça, já meio amassado. Entregou um cigarro torto ao presidente da República, "igual a cigarro de bêbado". "O presidente fumou aquele cigarro torto, virado para baixo, e depois pediu outro. Era uma moça" (de delicadeza).


Fotos Claudio Rossi
O REI DO AÇÚCAR

Nome: Rubens Ometto, o maior exportador individual de açúcar de cana do mundo

Empresa: Grupo Cosan

Faturamento: 2,1 bilhões
de reais por ano

Patrimônio do grupo:
3,3 bilhões de reais
Cutrale soube cultivar um bom relacionamento no Palácio do Planalto. Gostava muito de José Sarney, mas admirava mesmo Fernando Collor, cuja campanha financiou. Ainda hoje o considera o político mais preparado para dirigir o país, "se não fossem aqueles problemas". O encantamento por Collor o ajudou a enfrentar a crise mais difícil que a família já atravessou. Em 1990, um tio de José Luís foi seqüestrado e os bandidos pediam 5 milhões de dólares para libertá-lo. O empresário ligou para o banqueiro Pedro Conde e pediu o dinheiro. Conde explicou que o Banco Central proibira os bancos de manter uma quantia expressiva em dólares no caixa. O governo havia decretado o confisco do dinheiro depositado nos bancos. Cutrale telefonou para o presidente Collor e explicou a situação. No dia seguinte, contou José Luís a VEJA, dois carros-fortes pararam em frente da casa de seu pai, em São Paulo, com o dinheiro do resgate. "Era tanto dinheiro que foram necessárias duas malas de viagem Samsonite para acomodar tudo", conta o empresário. Incumbido de negociar com os seqüestradores, Cutrale acabou libertando o tio em troca de 1,2 milhão de dólares.

A grande preocupação profissional da Cutrale é a Citrosuco, fundada pelo empresário alemão Carl Fischer, já falecido. A Citrosuco é quase do tamanho da Cutrale e foi responsável por alguns dos grandes lances no mercado mundial de laranja. Ela foi pioneira na assinatura de contratos com fábricas de concentrado de laranja nos Estados Unidos e também a primeira companhia a operar terminais portuários e navios especiais para o transporte de suco de laranja. Entrou no mercado seis anos antes da Cutrale, tinha capital e empregava os melhores técnicos do mundo. Por vinte anos a Cutrale sempre esteve atrás da Citrosuco. A


virada se deu depois que Carl Fischer morreu, em 1988. Nos últimos anos a Cutrale fez algumas jogadas de grande ousadia. Enquanto o concorrente lutava para abrir mercados no exterior, a Cutrale apostou que poderia ganhar o jogo intensificando a compra de laranjais. Segundo os especialistas, foi uma estratégia correta. O custo da caixa produzida em pomar próprio equivale a um terço do preço de mercado. Cerca de 40% do suco que a Cutrale produz é feito com laranja de seus pomares. A Citrosuco fabrica perto de 25% de suco com fruta dos próprios pomares, o que afeta seu lucro. Há dez anos, a empresa assumiu a liderança do mercado pela primeira vez e teme perdê-la. A diferença é muito pequena.


O REI DA SOJA

Nome: Blairo Maggi, o maior produtor individual do grão no mundo

Empresa: Grupo André Maggi

Faturamento: 1,3 bilhão de reais por ano

Patrimônio do grupo: 4,5 bilhões de reais
Em 2000, a Citrosuco fez uma investida pesada para retomar a liderança. Ricardo Ermírio de Moraes casou-se com uma das herdeiras da Citrosuco e passou a dirigir a empresa. Ele já havia trabalhado no negócio de laranja na Votorantim, empresa de sua família. À frente da Citrosuco, Ricardo moveu uma guerra de preços contra a Cutrale. A base de seu plano era conquistar plantadores de laranja que mantinham contrato com a Cutrale pagando a eles preços melhores pelas caixas colhidas. Frederico Oscar Hotz, presidente de uma cooperativa de produtores de laranja, confirma o abalo no mercado com a entrada de Ricardo Ermírio na Citrosuco. "Pela primeira vez existiu disputa de preço entre os fabricantes de suco", diz Hotz. A ação da Citrosuco durou cerca de dois anos, mas não funcionou. Os custos subiram, a lucratividade caiu e a liderança da Cutrale não foi abalada. O ataque parou depois que a Citrosuco perdeu 1,5 bilhão de reais com o confronto. O valor do prejuízo foi passado a (in)VEJA por analistas de mercado que tiveram acesso aos números. Ricardo foi afastado. Seu sucessor, Norberto Farina, recebeu orientação da família Fischer para fazer as pazes com o concorrente.

O Brasil rural possui uma presença significativa no comércio internacional. É o segundo maior exportador mundial de soja, segundo na produção de carne e o primeiro nas culturas de cana-de-açúcar e café. Considerados em bloco, os produtos de origem agropecuária representam 27% das exportações e vão gerar neste ano um superávit comercial superior a 20 bilhões de dólares. Quando observados em separado, o Brasil também se destaca em diversas culturas. Além do rei da laranja, o rei da soja é um brasileiro. Chama-se Blairo Maggi, é paranaense e se elegeu governador pelo Estado de Mato Grosso no ano passado. Colhendo o equivalente a 1,3 bilhão de reais em soja por ano, com produtividade até 30% superior à média americana, detém o posto de maior plantador individual do grão. É também brasileiro o rei do açúcar, Rubens Ometto, de tradicional família usineira paulista, cujo negócio movimenta mais de 2 bilhões de reais por ano. Seu grupo possui o título de maior produtor individual de açúcar do mundo. São dois entre muitos casos de sucesso que o campo tem produzido (e continua a produzir) no processo de retomada de crescimento econômico registrado dos últimos anos. Se a agricultura continuar a progredir, novos reis certamente surgirão.
Cutrale e o poder


Roberto Castro/AE
• COLLOR
O caso das malas de dinheiro

Luis Humberto
• MÉDICI
O caso do "cigarro de bêbado"

• JEB BUSH
O caso da carta do governador americano
Por Alexandre Secco e Felipe Patury

Fonte:http://tatodemacedo.blogspot.com

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Quem mesmo está gerando prejuízos e destruição para a sociedade brasileira?

As ocupações são a única alternativa deixada pelo Estado e pelas grandes empresas para as famílias desesperadas, pela miséria e pela fome, reivindicarem o cumprimento da função social da terra e divulgarem para a opinião pública estas injustiças. Por Passa Palavra
A situação dos trabalhadores rurais na macro-região de Iaras, estado de São Paulo, onde se localiza a fazenda Capim (dentro do Complexo Monções, de terras da União) [1], é extremamente grave há décadas. Em uma região com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) semelhante ao de países como a Palestina, segundo o PNUD, lá vivem milhares de famílias sem-terra há anos passando dificuldades, incluindo fome e miséria. Conforme nos afirma o professor de Geografia Agrária da USP, Ariovaldo Umbelino, baseando-se no último Censo Agropecuário de 2006: “na região há 200 mil hectares de terras da União que vêm sendo sistematicamente griladas” [2]. Este quadro só torna ainda mais absurda a longa permanência de extensas terras públicas griladas especificamente pela poderosa transnacional Sucrocítrico Cutrale. Terras públicas que há muito tempo deveriam estar voltadas à reforma agrária, mas, ao contrário, permanecem sob o ilegítimo grilo da multibilionária empresa de exportação de laranjas – que controla cerca de 60% do mercado mundial de laranja, sendo a maior empresa do mundo neste ramo que, no Brasil, exporta mais de 90% de sua produção para o mercado estrangeiro.

A ocupação da fazenda grilada Capim, realizada em outubro de 2009, não foi a primeira, nem a segunda, nem a terceira que buscava chamar a atenção para a absurda grilagem de terras públicas feita exatamente pela transnacional Cutrale. As ocupações denunciavam também a parcialidade da Justiça e do Executivo, extremamente lentos para arrecadar terras ou recuperar áreas da União griladas, porém extremamente ágeis na hora de reprimir e criminalizar os trabalhadores rurais sem-terra. Ao invés de se inverter as prioridades, o que temos visto nos últimos dias é um acirramento da repressão e do terror contra aqueles que lutam com muito custo para se manter no campo, viver e produzir com dignidade – ao invés de incharem ainda mais as já super-populosas cidades brasileiras. A resposta do Estado, no entanto, associado à grande imprensa e a serviço do agronegócio, é fortalecer ainda mais um modelo agrícola excludente e insustentável sócio-ecologicamente, agravando, em consequência, ainda mais o cenário de desequilíbrio ambiental e de calamidade social que temos vivido nos últimos tempos, principalmente nas grandes cidades brasileiras.
Ora, todas estas ocupações não são feitas sem um profundo conhecimento da região, de sua estrutura agrícola desigual, do cotidiano local e das necessidades das pessoas que lá vivem. Conforme o quadro abaixo, com dados oficiais do Incra, podemos verificar que esta empresa do agronegócio, mesmo monopolizando o bilionário setor mundial de laranjas e sucos, tem se especializado há anos em grilar médios e grandes latifúndios no estado de São Paulo. E mais do que isso: especula nestas terras de acordo com o interesse de seus donos e acionistas, e apenas produz quando e quanto bem interessa para os cálculos do seu monopólio de mercado.

A Cutrale, junto com a Louis Dreifus e a Citrovita, vem sendo investigada pela Polícia Federal há mais de 5 anos por prática de cartel, o que estaria sendo feito há mais de 10 anos. Um cartel que, sabemos, definiu preços e datas de compra de laranjas dos citrocultores nacionais, arruinando diversos pequenos e médios produtores de laranjas, concentrando o lucro para a empresa e socializando os prejuízos entre os sem-terra, os pequenos e médios produtores e a população pobre em geral. De maneira previsível, a mesma justiça que criminaliza rapidamente o MST atravanca, ou é extremamente morosa, quando se trata de investigar a fundo as acusações que recaem sobre as grandes empresas.
Uma gigante destas definitivamente não precisaria grilar terras, muito menos terras públicas, em detrimento da condição de vida das milhares de famílias pobres e miseráveis sem-terra da região. E por que então grilam??? E por que seguem impunes??? E por que a grande imprensa não denuncia estes terríveis prejuízos para pequenos e médios agricultores, para os ecossistemas das regiões e para a própria União???


Vale a pena citar aqui um pequeno trecho de artigo recente do já referido professor da USP, Ariovaldo Umbelino, sobre a prejudicial atuação de empresas como a Cutrale para o desenvolvimento rural brasileiro:“Hoje são apenas quatro grupos que controlam toda a laranja: Cutrale (mais ou menos 60%); Citrosuco; Louis Dreifus Commodities – LDC (francesa); e Citrovita, da Votorantim.A Cutrale tem esse poder todo porque possui uma empresa associada (joint venture) à Coca-Cola mundial nos EUA, de quem é fornecedora exclusiva em escala mundial. Por isso sua condição de empresa “Ltda.”, pois já é parte (menor) do monopólio mundial da Coca-Cola.Numa reportagem de 2003, a insuspeita revista Veja denunciou a empresa Cutrale de ter subsidiária nas ilhas Cayman, como forma de aumentar seus lucros, ou quem sabe de evasão fiscal… e saiba Deus mais o quê.O resultado de todo esse processo foi que milhares de pequenos e médios agricultores tiveram que abandonar a produção de laranja. Entre 1996 e 2006, foram destruídos, segundo o Censo Agropecuário do IBGE, somente em São Paulo, nada menos do que 280 mil hectares de laranjais. Mas a Globo não fez nenhuma reportagem. Nem o serviço de inteligência da PM de São Paulo se preocupou em filmar porque os pequenos e médios agricultores estavam destruindo seus laranjais!”

Bem… Nós sabemos que os interesses de empresas como a Cutrale e outras afins, controladas por grandes empresários das altas rodas nacionais e internacionais, confluem com os interesses da grande imprensa (que é patrocinada por eles), da grande maioria dos políticos (financiados eleitoralmente por estas empresas), e da maior parte do aparato repressivo do Estado (que trabalha para defender estes interesses, e por eles também são pagos de maneira oficial e extra-oficial) [3].
O espetáculo da criminalização e suas brechas
As imagens desta ocupação e agora destas prisões, espetacularmente veiculadas e forjadas pela grande imprensa (numa “parceria” direta com a polícia) com o intuito de criminalização dos trabalhadores rurais sem-terra e do seu movimento, ao menos não conseguiram esconder de toda sociedade brasileira a absurda existência desta grilagem de terras públicas e destas brutais injustiças decorrentes, exatamente numa região com população extremamente pobre e carente de terras para viver e para produzir. Uma área onde vivia, por exemplo, dentre milhares de histórias semelhantes, a militante do MST, Maria Cícera Neves, que estava há cerca de 9 anos acampada em lona preta e barraco, lutando por um pedaço de chão, quando morreu em agosto de 2009 atropelada por um caminhão enquanto marchava rumo à São Paulo para reivindicar seu direito à terra. Esta história saiu apenas como uma nota de rodapé nestes jornais impressos e telejornais, os mesmos que veiculam incansavelmente que a derrubada de cada pé de laranja daquele imenso e insustentável deserto verde monocultor “era como se o trator passasse por cima de cada um de nós, de toda a sociedade brasileira”, nas palavras deste grande ser humano e grande cidadão brasileiro que é Ronaldo Caiado [4].
Ao não possibilitarem a reforma agrária e não promoverem a democratização do acesso à terra no Brasil, os grandes latifundiários, as grandes empresas grileiras do agronegócio e o próprio Estado, coniventes com tudo isso, não deixam outra alternativa aos milhões de famílias trabalhadoras rurais sem-terra do país, senão a denúncia e a luta pelos seus direitos por meio do recurso legítimo à ocupação de terra e, em alguns casos de necessidade extrema, da legítima desobediência civil. As ocupações são a única alternativa deixada pelo Estado e pelas grandes empresas para as famílias desesperadas, pela miséria e pela fome, reivindicarem seu direito constitucional e o cumprimento da função social da terra, e divulgarem para a opinião pública estas injustiças. Assim como o trabalhador na cidade não tem outra alternativa, diante da exploração, senão parar a produção das empresas em que trabalha ou a circulação de carros e mercadorias pelas ruas (secas ou alagadas) e, assim, chamar atenção da opinião pública para seus gravíssimos problemas. Sim, isso gera prejuízos, sobretudo à imagem e à reputação de políticos e empresários – que outra linguagem não entendem. A história tem demonstrado que as pequenas conquistas dos trabalhadores só têm vez quando estes tipos de pressões legítimas acontecem, e que de outra maneira as “respostas” vêm sempre no sentido de abafar e reprimir – violentamente – tais manifestações.


Porém, após estes últimos episódios, a imagem da Sucocítrico Cutrale nunca mais será a mesma, já que agora boa parte do povo brasileiro sabe que ela se utilizou, e se utiliza, de terras públicas griladas para acumular bilhões de dólares nas mãos de sua família de proprietários (os Cutrale já apareceram no ranking de maiores bilionários do mundo, segundo a revista Forbes, embora cada vez menos queiram visibilidade), enquanto milhares de famílias de trabalhadores sem-terra continuam sequer sem um pedaço de chão para viver e produzir, logo ali, na sua vizinhança.
Por outro lado, exatamente pelo fato das legítimas e pacíficas ocupações escancararem esta inconveniente realidade, fica clara também a sintonia com que os mesmos grandes latifundiários, as grandes empresas transnacionais, a grande imprensa e setores coniventes do Estado (todos que se beneficiam desta festa) procedem a um processo de inversão da realidade, ao propagarem que os “verdadeiros criminosos” são os pequenos trabalhadores rurais sem-terra: forjando imagens, deturpando fatos e manipulando declarações com o intuito de demonizar os sem-terra [5].
Já em plena disputa eleitoral, e tendo emplacado (mais uma!) “CPI do MST”, exatamente para fins eleitorais e de barganha de poder, não tardarão em aparecer novas e as mais variadas denúncias, divulgadas com estardalhaço pela grande mídia. Os trabalhadores rurais sem-terra aparecerão nestes órgãos de imprensa e nas suas páginas (policiais) como aqueles que geram prejuízos para grandes empresas (estas sim,“exemplares”), para os cofres “públicos” e até mesmo para o “meio-ambiente” – como no caso da “terrível” derrubada de pés da monocultura de laranja. Enquanto bilionários banqueiros seguem impunes (como Daniel Dantas, Salvatore Cacciola e tantos outros), recebendo um habeas corpus atrás do outro; enquanto políticos-panetones [6] se mantêm em seus altos cargos; e enquanto o agronegócio avança na destruição da Amazônia e de tantos outros biomas (como o Cerrado e o Pantanal), mesmo diante de tudo isso, as imagens punitivas que vemos espetacularmente nas TVs são as de trabalhadores pobres sendo criminalizados, presos e muitas vezes assassinados por um aparato policial cada vez mais violento, no campo e nas periferias urbanas. Infelizmente nós sabemos que o preço da rebeldia e da resistência contra tantas injustiças é altíssimo, e quem o está sentindo na pele neste momento são justamente os militantes do MST, sobretudo aqueles que tiveram suas prisões – obviamente políticas – consumadas.
O Estado reprime quem resiste à injustiça
Basta ver o estado das casas e barracos dos trabalhadores rurais que foram presos nesta espalhafatosa “Operação Laranja” e compará-lo com as mansões dos proprietários e acionistas da Cutrale para sabermos quem está gerando injustiça e prejuízo ao país, à sociedade, ao nosso meio-ambiente e à democracia. No entanto, ao invés da denúncia dos crimes da Cutrale, da cobrança pela urgente retomada das terras públicas da União, e da distribuição delas para as milhares de famílias rurais pobres que realmente necessitam, a grande imprensa tenta construir a imagem de que os criminosos são os trabalhadores e os seus movimentos sociais, para isso atuando cada vez mais junto à polícia.


O MST em Manari, foto de Leo Caldas
É óbvio que, com o crescimento das desigualdades sociais no campo brasileiro, e a falta de alternativas criadas aos milhões de famílias de trabalhadores rurais sem-terra (senão o êxodo rural e o inchaço ainda maior dos bolsões de miséria nas grandes cidades), devido à insistência num modelo agrícola concentrador e depredador da natureza, obviamente a tAdicionar imagemendência é a pressão da população pobre do campo aumentar ainda mais, cada vez mais. Em contraposição à política de repressão e criminalização dos movimentos sociais, o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), aprovado recentemente pelo Presidente da República, tem entre os seus objetivos estratégicos “a utilização de modelos alternativos de solução de conflitos, de modo a, entre outras ações programáticas, fomentar iniciativas de mediação e conciliação, estimulando a resolução de conflitos por meios autocompositivos, voltados à maior pacificação social e menor judicialização”. Infelizmente, ao invés disso, o que temos visto na prática aqui no estado de São Paulo e em outros estados é o acirramento do caminho da intolerância por parte da Polícia Civil e Militar, da grande mídia e de outros braços ligados ao agronegócio: o aumento da criminalização, da policialização e da repressão dos trabalhadores pobres, intensificando-se assim ainda mais os conflitos
IMPORTANTE:

Enquanto escrevemos esta matéria, no dia 29/01/2010, tomamos conhecimento que mais militantes do MST foram presos, nesta madrugada, numa ação de “prisão preventiva” realizada em Santa Catarina. Entre eles está uma das lideranças locais do MST, Altair Lavratti
A impressão que dá, para muitos de nós, é a de que enquanto não acabarem de devastar todas as nossas terras, florestas e rios; enquanto não desmatarem e poluírem com trilhões de litros de agrotóxicos todas as áreas e biomas possíveis; e enquanto não expulsarem e criminalizarem todos os trabalhadores e trabalhadoras rurais do campo – agravando assim ainda mais todos os inúmeros problemas já vividos nas cidades, incluindo o desequilíbrio sócio-ambiental e a própria criminalização dos pobres e negros da cidade; enfim, enquanto estes senhores não acabarem de destruir o campo brasileiro e fazerem explodir as cidades, eles não se darão por satisfeitos, utilizando-se para isso de todos os recursos possíveis e imagináveis (incluindo “reportagens”, prisões e às vezes até assassinatos) contra aqueles que tentam permanecer e produzir dignamente no campo, criando outro modelo de sociabilidade e de produção agroecológica para o país.
E, de fato, estão conseguindo: o mundo parece estar desabando e desaguando sobre as nossas cabeças, sobretudo da população mais pobre, de ascendência indígena e negra no Brasil. E aos que se levantam e resistem a este verdadeiro “projeto de destruição”, a estes continua a ser destinado o chicote, os grilhões, as celas e as balas.
NOTAs
[1] União é a pessoa jurídica de Direito Público representante do Governo Federal, no âmbito interno, e da República Federativa do Brasil, no âmbito externo.

[2] Grilagem é o método pelo qual grandes fazendeiros falsificaram títulos de cartório para se apropriar das terras públicas. O nome se deve pelo fato de colocar-se títulos falsos em uma gaveta ou baú fechado com um grilo dentro, que ao morrer expele certas substâncias que dão ao papel a aparência de envelhecido. Esse método foi muito comum no interior do estado de São Paulo e data de 1856, data final para que os possuidores de terra registrassem sua posse nos termos da Lei de 1850 (esta lei proibia a ocupação de terras do Estado, a não ser por meio de compra, inviabilizando assim que negros e trabalhadores imigrantes e pobres tivessem a posse da terra, obrigando-os a se submeterem às formas de trabalho impostas pelos grandes fazendeiros).

[3] Em 2006 a Cutrale financiou, via doações que totalizaram R$ 2 milhões, a campanha de 55 candidatos, tais como os parlamentares que votaram pela CPI do MST, Arnaldo Madeira (PSDB/SP) que recebeu R$ 50.000,00, Carlos Henrique Focesi Sampaio, também do PSDB paulista, e Jutahy Magalhães Júnior (PSDB/BA), obtiveram cada um R$ 25.000,00 para suas respectivas campanhas. Nelson Marquezelli (PTB/SP) foi beneficiado com R$ 40.000,00 no mesmo período. A lista dos candidatos que receberam doações da Cutrale pode ser obtida em http://www.mst.org.br/node/8460

[4] Ronaldo Caiado foi um dos fundadores e é ainda hoje um dos maiores símbolos da UDR (União Democrática Ruralista), uma associação de grandes latifundiários, grupos paramilitares de fazendeiros, e representantes do agronegócio. Deputado Federal pelo partido conservador DEM do estado de Goiás, comanda a chamada “Bancada Ruralista” no Congresso Nacional.

[5] Imagens como a aparição de tratores despedaçados, entre outras grandes máquinas, impossíveis de serem quebradas durante uma ocupação de terra, conforme afirma o movimento, conformaram um cenário montado imediatamente depois da saída dos integrantes do MST da Fazenda Capim, em outubro de 2009. No entanto, foram exatamente estas imagens as que mais circularam pela grande imprensa, sem a garantia de espaço para a versão dos sem-terra sobre elas.

[6] Referência ao atual governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, que, tendo sido flagrado por câmeras no momento em que recebia propina [suborno, ou “luvas”] de empresas que coadunavam com o seu governo, alegou que o dinheiro seria destinado à doação de panetones [equivalentes ao bolo-rei português] para a população carente no período do natal.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Grileiro da Cutrale e laranjas da mídia


Preparando o clima para o início das investigações da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do MST, que será um dos principais palanques da oposição demo-tucana em 2010, a TV Globo voltou à carga com as fortes cenas da destruição dos pés de laranja da empresa Cutrale, no interior paulista, em setembro passado. Com base num outro vídeo bastante suspeito da Policia Civil de São Paulo, nove ativistas dos sem-terra foram presos na semana passada, inclusive três dirigentes petistas, acusados de participarem de “furtos, depredações e atos de vandalismo”. O bombardeio midiático é violento. Quando da destruição dos laranjais, até Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro nos governos Sarney e FHC, estranhou a virulência dos ataques. “Não vou defender o MST pela ação, embora esteja claro para mim que ele é uma das únicas organizações a, de fato, defender os pobres no Brasil.
Mas não vou também condená-lo ao fogo do inferno. Não aceito a transformação das laranjeiras em novos cordeiros imolados pela ‘fúria de militantes irracionais’”. Indignado com a cobertura da mídia, ele criticou duramente “o noticiário televisivo que omitiu que a fazenda [da Cutrale] é fruto de grilagem contestada pelo Incra”.
Respostas do MST são ofuscadas
Agora, com a prisão espalhafatosa e arbitrária das lideranças rurais, a mídia hegemônica volta à ofensiva. A crítica é implacável, apesar do próprio MST já ter reconhecido publicamente o equívoco daquela iniciativa.
Numa entrevista à revista CartaCapital, no final do ano passado, João Pedro Stedile, da coordenação nacional do movimento, foi taxativo. “A destruição dos pés de laranja foi um erro. Deu margem para que o serviço de inteligência da PM, articulado com a TV Globo, desmoralizasse o MST”. Para ele, o equívoco decorreu do desespero das famílias de sem-terra acampadas na região, que vivem em condições desumanas e sem qualquer infra-estrutura.Já com relação às imagens de depredação e furtos na fazenda, usadas para justificar a prisão das lideranças, o dirigente do MST rejeitou as acusações da polícia. “Isto é mentira.
As famílias não fizeram nada daquilo. Foi uma armação entre a polícia e a Cutrale. Depois da saída das famílias, chamaram a imprensa. Desafiamos a organizarem uma comissão independente para investigar quem desmontou os tratores e entrou nas casas dos empregados”. Ele lembra que os sem-terra foram retirados à força do local em dois caminhões da Cutrale, sendo filmados e revistados.
Revista Veja arquiva reportagem
Em todo este estranho episódio, a mídia venal revela que tem lado nos conflitos de classe – que defende abertamente os interesses dos barões do agronegócio. Com as cenas exibidas à exaustão para jogar a sociedade contra o MST, as redes “privadas” de televisão e os jornalões oligárquicos demonizam os sem-terra e endeusam a poderosa Cutrale.
Neste esforço, eles deixam, inclusive, de repercutir denúncias antigas contra a empresa. Em maio de 2003, por razões desconhecidas – talvez em mais uma ação mercenária –, a insuspeita revista Veja publicou elucidativa reportagem sobre a Cutrale. Agora, ela simplesmente arquivou a bombástica matéria.Na ocasião, ela revelou que a empresa é uma das mais ricas e poderosas do mundo. “O brasileiro José Luís Cutrale e sua família detêm 30% do mercado global de suco de laranja, quase a mesma participação da Opep no negócio de petróleo”.
A produção mundial de laranjas e de derivados se reduzia a duas regiões do planeta – no interior de São Paulo e na Flórida, nos EUA. “A Cutrale vende suco concentrado para mais de vinte países, entre os quais os Estados Unidos, todos os da Europa e a China.
Seus clientes são grandes companhias do padrão da Parmalat, da Nestlé e da Coca Cola, dona de uma das empresas de suco de laranja mais populares dos Estados Unidos”.“A agressividade gerencial da Cutrale”Segundo a revista, este poderoso império foi erguido de forma suspeita. “O principal segredo do negócio consiste em adquirir a fruta a preço baixo – preço de banana, brincam os fornecedores –, esmagá-lo pelo menor custo possível e vender o suco a um valor elevado”. Em 2001, o governo FHC chegou a investigar a altíssima lucratividade da Cutrale (nos anos 1980, ela teve taxas de retorno na ordem de 70%, um fenômeno raro). “Uma autoridade da Receita Federal relatou a Veja que a estratégica para elevar a lucratividade do grupo passa por contabilizar parte dos resultados por intermédio de uma empresa sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman.
Com isso, informa a autoridade da Receita, a Cutrale conseguiria pagar menos impostos no Brasil”. A revista também criticava a “agressividade gerencial da família Cutrale”, que já virou “lenda no interior paulista. Os plantadores de laranja no Brasil têm poucas opções para escoar a produção. Há apenas cinco grandes compradores da fruta e Cutrale é o maior deles. Por essa razão, acabam mantendo com o rei da laranja uma relação que mistura temor e dependência. Por um lado, eles precisam que ele compre a produção. Por outro, assustam-se com alguns métodos adotados pela Cutrale para convencê-los a negociar as laranjas por um preço mais baixo”. Vários produtores relataram à revista a brutal pressão para baixar preços ou mesmo para adquirir suas fazendas, inclusive com sobrevôos ameaçadores de helicóptero e outros métodos terroristas.Uma coleção de processos na JustiçaUm fato gravíssimo ocultado pela mídia nos dias atuais de ódio ao MST é que Cutrale coleciona processos na Justiça por desrespeito aos direitos trabalhistas, crimes ambientais, pressão contra os lavradores e porte ilegal de armas. Na reportagem de maio de 2003, a revista citava que “essa linha dura já rendeu à Cutrale discussões legais sobre formação de cartel.
De 1994 para cá, ela já foi alvo de cinco processos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), autarquia encarregada de preservar a concorrência... Jamais sofreu uma punição”. A revista Veja e o grosso da mídia hegemônica simplesmente esqueceram estas irregularidades. Para satanizar o MST, a imprensa endeusa a Cutrale. Os sem-terra são os bandidos e o poderoso empresário, um santo. As emissoras “privadas” de televisão e os jornalões sequer explicam aos ingênuos que as terras no interior paulista não pertencem legalmente à empresa. Elas fazem parte do lote chamado Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares pertencentes à União. Ou seja, elas foram griladas – roubadas – pela Cutrale.
Em 2007, a Justiça Federal cedeu a totalidade do imóvel ao Incra. Mas a empresa permanece na área com base em ações judiciais protelatórias. A mídia faz escândalo com a destruição de dois hectares de laranjas em setembro, numa área que seria usada no plantio de alimentos para os acampados, mas não informa que desde que a Cutrale começou a monopolizar o produto, milhares de pequenos e médios agricultores já abandonaram, de 1999 a 2006, cerca de 280 mil hectares de pés de laranja em São Paulo. “Mas a TV Globo e o helicóptero da PM nunca se importaram”, ironiza Stedile. Diante da riquíssima família Cutrale, que tem uma fortuna avaliada em US$ 5 bilhões, os colunistas da mídia são realmente laranjas!
Postado por Miro