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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Da Alienação à Emancipação


Alienação, fenómeno transversal e intrínseco a todas as sociedades humanas constituídas sob uma relação de poderes, destronador da essência humana, desvirtuando-a pelos caminhos tortuosos da ignorância. Pode a alienação ser voluntária ou forçada, ou ambas simultaneamente? É plausível a admissão de uma auto-alienação? A nossa perspetiva leva-nos a abdicar de uma posição idealista, assente num carácter individualista e reducionista, procurando uma resposta assente sob uma análise sistémica e societária, gerada por uma correlação de forças.
A dialéctica heraclitiana e hegeliana, materializada em Marx, contêm em si os alicerces explicativos de tal fenómeno. No século XVI, Étienne La Boétie, autor menosprezado por diversas comunidades científicas, surge como um dos primeiros estudiosos do comportamento das massas, em que a servidão voluntarista dos súbditos determina o comportamento arbitrário dos tiranos. Para o autor, todas as civilizações humanas consubstanciadas por relações de poder evidenciam a submissão e a passividade das massas.
Marx, nunca esquecendo as influências transatas, identificaria múltiplas formas de alienação, essencialmente a interação que o operário estabelece na estrutura de produção das sociedades capitalistas. Toda esta perspetivação e identificação do presente fenómeno apetrecha-nos de um manancial de ferramentas, no sentido de lidarmos com este cancro social e das vísceras que compõem o totalitarismo racionalista, fundamentado por uma lógica que tem vindo a dar mostras de irromper no espectro sócio-político, como é identificável no vocabulário de Zamiatine.
A realidade distópica que brota deste liberalismo que visa preencher a nossas vidas e as nossas sociedades, abraça a alienação como a sua grande arma. Desde a massificação dos costumes, passando pela formatação ideológica ou padronização dos hábitos, culminando numa arregimentação das massas humanas constitui a oferta política da reação dos nossos dias. Apregoam por uma transparência democrática, mas na realidade esta Democracia de classe, burguesa, nada mais é do que uma cartelização da vida partidária que brota num controlo estatal e toda a vida pública.
A comunicação social, controlada pelas forças do poder vigente, é uma máquina de processamento da alienação, afastando a essência do pluralismo, de que eles se vangloriam como sendo os arautos. Passividade, o homem passivo é aquele que garante o aprazimento dos interesses plutocratas e partidocratas (entenda-se a forças que constitui a cartelização partidária, Partido Cartel), sendo que essa passividade é cultivada pelas sementes do hábito, como defendia o francês La Boétie, na constituição da servidão pelas massas acríticas.
O grande ponto de viragem consiste na reabilitação das nossas capacidades: Serão os nossos órgãos de informação veículos de debate, pluralismo, reflexão e garantes de uma igualdade de acesso de todos os cidadãos a esses devidos meios de comunicação? As nossas Universidades, detêm nos dias de hoje, uma função de cultivação da fruição intelectual, reflexão e aprendizagem ou por sua vez, perfazem-se no sistema mercantil, apresentando-se como estruturas organizadas para sustarem interesses classistas?
Perante submissões ilegítimas, devemos afastar-nos do covil perpetrado pelas forças usurpadoras, tal como a raposa recusa aceder ao convite envenenado do leão para entrar no seu covil. A palavra de ordem, a emancipação das sociedades humanas perante esta tremenda "desnaturalização do homem", deve passar por uma Sociedade Civil fortalecida, incremento da Democracia Local, Democracia de Proximidade, valorização das comunidades locais e da sua participação nos afazeres da coisa pública, enfim, utilizar a arma do inimigo contra ele mesmo, o hábito. O instinto social e organizacional do ser humano é um princípio ordenador, já cultivado, baste reerguê-lo e completá-lo na sua plenitude, desfazendo este individualismo grosseiro, selvagem e ignóbil que pretendem impingir-nos.
Tiago Ramalho
Fonte: http://acomuna.net

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Chomsky e as estratégias de manipulação

Por Altamiro Borges

O lingüista estadunidense Noam Chomsky, que se define politicamente como “companheiro de viagem” da tradição anarquista, é considerado um dos maiores intelectuais da atualidade. Entre outros estudos, ele elaborou excelentes livros e textos sobre o papel dos meios de comunicação no sistema capitalista.
É dele a clássica frase de que “a propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete significa para o estado totalitário”. No didático artigo abaixo, Chomsky lista as “10 estratégias de manipulação” das elites.
Vale a penar ler e reler:
1- A estratégica da distração.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.
2- Crias problemas, depois oferecer soluções.
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
3- A estratégia da degradação.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, é suficiente aplicar progressivamente, em “degradado”, sobre uma duração de 10 anos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas têm sido impostas durante os anos de 1980 a 1990. Desemprego em massa, precariedade, flexibilidade, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haviam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de forma brusca.
4- A estratégica do deferido.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública no momento para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, por que o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, por que o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5- Dirigir-se ao público como crianças de baixa idade.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por que? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, uma resposta ou reação também desprovida de um sentido critico como a de uma pessoa de 12 anos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.
6- Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…
7- Manter o público na ignorância e na mediocridade.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada as classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre o possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.
8- Promover ao público a ser complacente na mediocridade.
Promover ao público a achar "cool" pelo fato de ser estúpido, vulgar e inculto…
9- Reforçar a revolta pela culpabilidade.
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E sem ação, não há revolução!
10- Conhecer melhor os indivíduos do que eles mesmos se conhecem.
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente.
O sistema tem conseguido conhecer melhor o individuo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

sábado, 5 de setembro de 2009

Releitura do Mito da Caverna

Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas a frente, não podendo girar a cabaça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.A luz que ali entra provém de uma imensa a alta fogueira externa. Entre ele e os prisioneiros – no exterior, portanto – há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.
Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela os prisioneiros enxergam na parede no fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginavam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda a sua vida, não vira senão sombra de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.
Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade.
O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras das estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do sol? A luz da verdade. O que é o mundo exterior? O mundo das idéias verdadeiras ou da verdadeira realidade. Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros?A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A Filosofia. Por que os prisioneiros zombam, espancam e matam o filósofo (Platão está se referindo à condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense)? Porque imaginam que o mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro.




















Reflexão:
Estamos dentro ou fora da caverna?
Será a grande impresa a sombra da realidade?
A mídia independente saiu da caverna ou conseguiu acessar uma câmara maior com os mesmos mecanismos anteriores?
Será que alguns que se julgam libertos não estão nessa outra dimensão?
Como acessar o mundo real e ao mesmo tempo retirar todos que estão aprisionados na caverna sem imposições?