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sábado, 12 de outubro de 2013

O inconsciente mutilado da mulher negra

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Por Márcia Santos Severino para as Blogueiras Negras
O racismo no Brasil aponta duas representações do negro: uma como exótico-sensual, que atrai e dá prazer e outra como exótico-violento que gera repulsa e dá medo (SANTOS, 2004, p.30).
Essas duas formas de representação também são elementos da ideologia racista e é interessante que as analisemos do ponto de vista da mulher negra. Com efeito, a mulher negra é um ser que possui grande sofrimento ontológico. Carrega consigo os “pesares” de ser negra em uma sociedade racista e mulher em uma sociedade patriarcal além de, na grande maioria das vezes, ser pobre em uma sociedade de classes.
A análise da autora Gislene Aparecida dos Santos nos coloca interessantes elementos de análise acerca dos processos que envolvem a psiquê da mulher negra. A partir das considerações da autora inseriremos um conceito muito usado em psicologia. Trata-se do conceito de arquétipo. Segundo analistas junguianos, um arquétipo pode ser vivenciado de forma tanto positiva quanto negativa.
Quando atuam de modo positivo, os arquétipos estão por trás de toda realização humana criativa no âmbito da cultura. Já a forma negativa pode se traduzir em termos sociais como uma possessão, fanatismo cego, e rigidez ideológica . Isto demonstraria o potencial para uma profunda investigação antropológica baseado na percepção das formas como são vividos cada arquétipo e desdobramentos das nossas ações nas diferentes sociedades e culturas, já que os ciclos vitais das culturas são determinados por formas arquetípicas. Cada cultura poderia estar atualizando determinados arquétipos (MARIE-LOUSIE VON FRANZ apud SANTOS, 2004, p. 36).
O conceito de arquétipo é aqui inserido para a análise de um conto de fadas muito lido pelas crianças e que nos dá pistas de como a psiquê da mulher negra é afetada pela ideologia racista.
No conto “A borralheira”, lido e usado como arquétipo mundialmente por várias crianças, principalmente meninas, três irmãs brigam entre si pelo amor do príncipe encantado. A cinderela ou borralheira é renegada pelas irmãs, pela madrasta e pelo próprio pai que não a defende, mas ao cabo consegue ficar com o príncipe. O nome original da personagem vem do francês Cendrillon e faz alusão a alguém que vive entre as cinzas. Como borralheira executava todas as funções domésticas da casa, obrigada pela madrasta e pelas irmãs, as cinzas do fogão escureciam sua pele e, por esse fato, ela era obrigada a dormir e viver longe do restante da família. O interessante é observarmos a analogia que Gislene Santos faz entre esse conto e a situação, por exemplo, das escravas no período colonial e das empregadas domésticas nos dias atuais.
Os piores lugares das casas costumam ser destinados aos empregados. Quanto mais indignos forem considerados, mais distantes dos olhos dos donos das casas devem estar. Foi assim que, no Brasil colonial, Gilberto Freyre demonstrou que as escravas mais claras poderiam viver dentro da casa-grande, enquanto as mais escuras deveriam habitar as senzalas. A separação do espaço geográfico das casas e dos prédios de acordo com a cor da pele ainda se faz presente nos aposentos de empregadas, nos elevadores de serviço (mesmo que proibidos). No Brasil, sabemos que grande parte dos empregados domésticos e empregadas domésticas é negra. (SANTOS, 2004, pp. 41-42).
Gislene Santos considera que o conto faz uma analogia não só aos aspectos psíquicos, mas também aos aspectos sociais e atenta para o fato de que borralheira foi excluída pelas suas irmãs (as demais mulheres) e por seus pais (a sociedade e a cultura) (SANTOS, 2004). Daí podemos constatar, inclusive, que a busca pelo objeto amoroso branco de que falaremos a seguir também leva as mulheres negras a uma certa rivalidade.
Após se limpar se seus borralhos e se cobrir de ouro e prata, borralheira consegue conquistar e casar com o príncipe branco. Esse fator também é essencial para que entendamos porque o inconsciente da mulher negra é mutilado após um processo de mutilação de seu próprio corpo que será mais bem analisado adiante.
Gislene Santos também cita a autora Neusa Souza para nos apontar a diferença que há entre a borralheira e suas irmãs. Na verdade as irmãs a invejam porque ela possuiria o privilégio de ser mais completa ao se casar com o príncipe branco. Isso evidencia que a escolha do objeto amoroso também é uma forma de realização do Ideal de Ego (SANTOS, 2004).
Um objeto que, por suas características, possa ser o substituto do Ideal irrealizável. Um parceiro branco com quem o negro – através da intimidade da relação afetivo-sexual – possa se identificar e realizar o Ideal de Ego inatingível [...] O parceiro branco é transformado em instrumento tático, numa luta cuja estratégia é cumprir os ditames superegóigos, calcados nos valores hegemônicos da ideologia dominante (SOUZA apud SANTOS, 2004, p. 53).
Por seu lado, o homem negro também busca realizar o seu Ideal de Ego buscando na mulher branca o seu objeto amoroso, no entanto, as complexas relações de gênero que envolvem os relacionamentos inter-raciais (tanto do homem negro com a mulher branca, como da mulher negra com o homem branco) dão conta de que a mulher negra sofre sempre uma dupla rejeição: por parte do homem negro que a rejeita por ela não representar seu Ideal de Ego e sua possibilidade de ascensão social (possibilidades essas que ele pode encontrar na mulher branca), como pelo homem branco que vê nela apenas uma representação exótico-sensual.
A mulher negra ocupa um lugar de destaque no imaginário do homem branco. Ela é, ao mesmo tempo, um objeto de desejo e um ser que está fora de seu campo de expectativas mais duradouras. O exotismo que a cerca e a carga histórica que pesa sob seus ombros limitam suas possibilidades de ação. Ao toparem com um branco, poucas conseguem um relacionamento para além do sexo (FRENETTE apud SANTOS, 2004, p. 57).
As complexas relações de gênero que há nas relações inter-raciais, principalmente no Brasil, e especificamente na relação da mulher negra com o homem branco, assumem um aspecto diferenciado das demais localidades, pois no Brasil desde a época colonial, existe o que Dussel denominou de patriarcalismo paternalista que poderia ser identificado com a figura do senhor de engenho (DUSSEL, …). Sabemos que a relação do senhor de engenho com a escrava negra era construída sobre bases opressivas. Além de muitas vezes fundamentada no estupro, os frutos das relações do senhor de engenho com a escrava não eram, obviamente, assumidos. Muitas vezes os filhos dessas relações se transformavam nos futuros opressores de escravos, visto que, atingindo a idade adulta eles poderiam se tornar capatazes e trabalhar para seu próprio pai.
Dessa maneira, a opressão de gênero sobre a mulher negra assume matizes diferenciados da opressão patriarcal sobre a mulher branca desde a época colonial e encontramos o ranço dessas relações nos dias atuais em nossa sociedade. O senhor de engenho não assumia seus filhos, mas transformava-os em mão-de-obra para dar continuidade à repressão aos negros. O paternalismo como fenômeno político opera de forma bastante parecida, pois, o paternalista é a um só tempo pai de todos e pai de ninguém. Daí o entendimento que podemos conferir ao conceito de Dussel.
Talvez essa seja a pista para entendermos, nos dias atuais, porque a maioria das mães solteiras e das mulheres que sofrem complicações com a prática do aborto clandestino são negras. Um estudo da UFRJ com dados coletados entre 1999 e 2005 revela que entre 565 vítimas de aborto nesse período, 50,6% são mulheres negras e pardas . Segundo dados da II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, realizada em 2007, 60% das famílias sem rendimentos são chefiadas por mulheres negras. Esses dados apontam para um círculo vicioso, dado que os filhos dessas mulheres acabam sendo os futuros jovens que serão vítimas da violência no país. Esses dados mostram um grande entrave para a tomada de consciência negra. Segundo Dussel, a família seria um local privilegiado para a tomada dessa consciência, a exemplo do que parece ocorrer entre as famílias negras nos E.UA.
A afirmação psicológica do afro-americano é, então, essencial. É necessário destruir o “Ideal do Eu” como ideal do branco, do senhor, da cultura dominada por outras raças. É necessário construir um novo “Ideal do Eu”, onde a raça negra seja “vivida” psicologicamente, desde a infância como um valor, uma honra, uma herança histórica. Para isto urge uma árdua tarefa educativa, sobretudo na família, lugar do Eros, da afetividade, da reta liberação da libido não traumática (DUSSEL, …, p. 225).
Foto: Ligiane Braga
Sabemos que essa não é a realidade da maioria das famílias dos jovens negros. Basta ouvir as letras do grupo de rap Facção Central e ver as notícias que apontam para o extermínio da juventude negra no país.
Foto: Ligiane Braga
A busca do objeto amoroso branco, com vistas a atingir o Ideal de Ego branco também pode ser vista como uma reprodução, por parte da mulher negra, da ideologia do “embranquecimento”. 


Assim, busca-se um parceiro branco para que a próxima geração seja “menos negra” e assim por diante. Isso deve ser encarado não como uma simples reprodução do racismo, mas também como uma forma atenuadora do sofrimento. Por saber da complexidade e do sofrimento que é ser negro em uma sociedade racista, a mulher negra busca atenuar esse sofrimento em seus filhos gerando crianças “mais claras” ou “menos negras” como já dito acima.
O que o conto de fadas “A borralheira” também nos denota é que a mutilação é usada pela mulher negra para que ela possa ser aceita no mundo branco (SANTOS, 2004, p. 46). No conto, isso é expresso através das irmãs de borralheira que cortam os dedos e o calcanhar para caber no sapato e, assim, conquistar o príncipe branco. A própria borralheira só é aceita pelo príncipe porque os “artifícios” e a cosmética a livram de seus borralhos.
Com efeito, o conceito de “boa aparência”, no Brasil, significa brancura ou algo que é restrito aos brancos (SANTOS, 2004). As formas de mutilação não só do corpo como também, por corolário, do inconsciente da mulher negra se expressam nessa busca aparência “menos negra”.
Sem a mutilação do corpo, a mulher negra “padeceria” de uma “má aparência crônica”. A cosmética a tornaria mais aceitável ou diminuiria o grau de rejeição de seu corpo negro, de seu cabelo crespo, seu nariz, sua boca [...] Seria possível a uma mulher negra, sem a máscara da cosmética, almejar a menor aceitação na sociedade branca? (SANTOS, 2004, p. 46).
Com esse questionamento terminamos por aqui, porém sem um ponto final, a proposta de reflexão sobre as angústias e aflições que atingem o dia a dia de nós mulheres negras. Esperamos que essa simples reflexão sirva para a tomada de consciência das mulheres acerca da carga social e histórica que nos aflige.
PODER PARA O POVO PRETO.
Referências
[1] Aqui o termo ideologia toma o significado clássico marxista que, grosso modo, significa mascaramento da realidade.
[2] Aqui o conceito de Ideal de Eu pode ser identificado com o conceito de Ideal de Ego havendo simplesmente uma tradução diferenciada do termo em textos diferentes.
DUSSEL, Enrique. Racismo, América Latina negra e teologia da libertação. In: Escravidão Negra e História da Igreja na América Latina e no Caribe. 1 ed. São Paulo: Vozes, 1987.
SANTOS, Gislene A. Mulher negra, homem branco. 1 ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
SOUZA, Neusa S. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 2. Ed. Rio de Janeiro: Graal, 1990.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A IDEOLOGIA RACISTA ENTRA EM CAMPO


Rosenverck E. Santos

Prof. de História - São Luís/MA

* Algumas reflexões sobre o racismo na Copa do Mundo

A copa do mundo de futebol é a celebração entre os povos e continentes. Esse é o discurso oficial. É como a democracia racial no Brasil: - uma celebração entre as raças. Tal discurso afirma: democraticamente as raças no Brasil estariam harmonicamente relacionadas! Na copa do mundo aconteceria o mesmo, os povos estariam harmonicamente relacionados, teriam as mesmas oportunidades futebolísticas de ganhar ou perder e nada que não fosse estritamente esportivo influenciaria nos resultados.
O discurso jurídico racista construído no Brasil não foge a esta regra. Todas as oportunidades igualitárias são dadas a qualquer um, não importando condições de classe, gênero e raça. Dessa forma, todas as determinações que não fossem estritamente ligadas à capacidade intelectual e moral dos indivíduos estariam isentas de responsabilização pelas desigualdades e fracassos sociais.
A realidade concreta, no entanto, é diferente do discurso. Assim como na democracia racial brasileira onde a população negra não está socialmente igual ao segmento branco, pois os anos de escravidão e ideologia racista influenciam determinantemente nos espaços socioeconômicos ocupados por brancos e negros; na copa do mundo os resultados aparentemente esportivos não poderiam estar isentos de séculos de ideologia racista e dominação colonial impostas aos povos africanos. Senão vejamos!
Todos os times africanos que estão participando da Copa do Mundo de futebol carregam consigo – segundo quase toda a imprensa – a pecha de violentos e ingênuos. Percebam que essas afirmações em nada fogem à regra de como o continente e a história africana é percebida pela maior parte do senso comum popular e mesmo por intelectuais racistas. A África e os africanos, segundo esse discurso, não teria e não tem condições de controlar e administrar as suas riquezas e os seus territórios, cabendo aos europeus ou empresas multinacionais o comando e controle do espaço africano. A ingenuidade africana necessitaria – por esse discurso – da capacidade intelectual européia para realizar o progresso e a civilização. As violências tribais africanas seriam o exemplo dessa incapacidade de autonomia. Como se percebe, não por acaso os africanos no futebol são vistos como ingênuos e violentos.
Mas não é segredo pra ninguém que a maioria dos jogadores africanos moram desde crianças no continente europeu, foram educados nas línguas e culturas européias e jogam em grandes times do futebol da Europa. São jogadores milionários que tem acesso a todos os artefatos da cultura e educação européia, bem como de todos os recursos técnicos e táticos dos mais avançados no mundo. Mas, se a maioria foi educada no ideário europeu, jogam em grandes times do futebol e tem todos os recursos técnicos e táticos do futebol, por que são vistos e apontados como violentos e ingênuos. A explicação que parece complexa, na verdade é muito simples: a ideologia racista entra em campo.
Comecemos por definir: o que é racismo? De forma objetiva é a vinculação das capacidades intelectuais e morais à sua condição racial ou cultural. É atribuir inferioridade, anomalias e degenerações à condição de indivíduo pertencente a um grupo social e etinicorracial específico. Não é por acaso, portanto, que apesar dos jogadores africanos viverem e trabalharem na Europa serem taxados de violentos e ingênuos.
O que a maioria da imprensa faz é atribuir uma condição intelectual e moral ao fato de serem africanos. Em essência, o problema não está em fazer faltas e perder o jogo, pois qualquer time é sujeito a isto. A questão está no fato de serem africanos e, portanto, incapazes de terem outra condição intelectual que não seja a ingenuidade e outro comportamento moral que não seja a violência.
Repete-se a máxima de Marx: é a história se repetindo como farsa e tragédia. Como farsa na medida em que retoma o discurso falacioso da inferioridade e ingenuidade africana e trágica no sentido de perpetuar o racismo consciente e inconsciente na memória coletiva do brasileiro.
Mas uma vez é necessário retomar o sentido real da história e por no devido lugar a condição africana. Assim como negamos a democracia racial, o racismo e a escravidão, buscando a nossa construção enquanto seres humanos ativos e transformadores; negamos também a ideologia racista futebolisticamente sofisticada que infantiliza e animaliza os africanos, reafirmando a máxima de Solano Trindade, pois nos navios negreiros que se deslocaram para o Brasil e para o mundo não tinham boçais e animais, mas pelo contrário: resistência e inteligência.
Fonte: Blog do Noleto

sexta-feira, 5 de março de 2010

Para senador, os negros são os culpados pela escravidão no Brasil


Ontem, durante audiência no Supremo Tribunal Federal para discutir o sistema de cotas em universidades públicas, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) usou da palavra para destilar todo o seu profundo conhecimento sobre a história do Brasil. Quem ouviu seu discurso saiu com a impressão de que aprendeu várias coisas novas. Que os africanos eram os principais responsáveis pelo tráfico transatlântico de escravos.

Que escravas negras não foram violentadas pelos patrões brancos, afinal de contas “isso se deu de forma muito mais consensual” e “levou o Brasil a ter hoje essa magnífica configuração social” de hoje. Que no dia seguinte à sua libertação, os escravos “eram cidadão como outro qualquer, com todos os direitos políticos e o mesmo grau de elegibilidade” – mesmo sem nenhuma política de inserção aplicada. Com tudo isso, o nobre senador deu a entender que os negros foram os reais culpados pela escravidão no Brasil. As frases (da qual retirei trechos que estão entre aspas) foram registradas pelos jornalistas Laura Capriglione e Lucas Ferraz, da Folha de S. Paulo.
A posição do senador é compreensível, se considerarmos que o discurso feito não foi um ataque à reserva de vagas para negros e afrodescendentes e sim uma defesa da elite política e econômica que controlou a escravidão no país e que, com algumas mudanças e adaptações, desembocou em setores do seu próprio partido.
Depois me perguntam por que a proposta que confisca terras de quem usou trabalho escravo está engavetada no Congresso Nacional…
Um comentário sobre o direito dos libertados exposto pelo senador: Em meados do século 19, com o fim do tráfico transatlântico de escravos, a propriedade legal sob seres humanos estava com os dias contados. Em questão de anos, centenas de milhares de pessoas estariam livres para ocupar terras virgens – que o país tinha de sobra – e produzir para si próprios em um sistema possivelmente de campesinato. Quem trabalharia para as fazendas? Como garantir mão-de-obra após a abolição?
Vislumbrando que, mantida a estrutura fundiária do país, o final da escravidão poderia representar um colapso dos grandes produtores rurais, o governo brasileiro criou meios para garantir que poucos mantivessem acesso aos meios de produção. A Lei de Terras foi aprovada poucas semanas após a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e criou mecanismos para a regularização fundiária. As terras devolutas passaram para as mãos do Estado, que passaria a vendê-las e não doá-las como era feito até então.
O custo da terra começou a existir, mas não era significativo para os então fazendeiros, que dispunham de recursos para a ampliação de seus domínios. Porém, era o suficiente para deixar ex-escravos e pobres de fora do processo legal. Ou seja, mantinha a força de trabalho à disposição do serviço de quem tinha dinheiro e poder.
Com o trabalho cativo, a terra poderia estar à disposição para livre ocupação. Porém, com o trabalho livre, o acesso à terra precisava ser restringido. A existência de terras livres garante produtores independentes e dificulta a centralização do capital e da produção baseada na exploração do trabalho. Com o fim do tráfico e o livre mercado de trabalho despontando no horizonte, o governo brasileiro foi obrigado a tomar medidas para impedir o acesso à terra, mantendo a mão-de-obra reprimida e alijada de seus meios de produção.
O fim da escravidão não representou a melhoria na qualidade de vida de muitos trabalhadores, uma vez que o desenvolvimento de um número considerável de empreendimentos continuou a se alimentar de formas de exploração semelhantes ao período da escravidão como forma de possibilitar uma margem de lucro maior ao empreendimento ou mesmo lhe dar competitividade para a concorrência no mercado. Desde 1995, mais de 36 mil escravos contemporâneos foram libertados pelo governo de fazendas de gado, soja, cana…
Para além dos efeitos da Lei Áurea, que completa 122 anos em maio, trabalhadores rurais ainda vivem sob a ameaça do cativeiro. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas.
Mas, principalmente, o Brasil não foi capaz de garantir que os libertos fossem tratados com o respeito que seres humanos e cidadãos mereciam, no campo ou na cidade. Herança maldita presente na sociedade. E alimentada por discursos como o de Demóstenes Torres.
PS: Posto o discurso do senador (a partir do minuto 33) a pedido de leitores. O que me lembra que um político é capaz de falar qualquer coisa de uma forma bonita…



Fonte: Blog do Sakamoto