quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Incêndios em favelas e a especulação inflamável
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Fogo não é o maior problema de uma favela
Por Leonardo Sakamoto
Sobre a disputa entre a Prefeitura de São Paulo e os moradores da favela do Moinho, que pegou fogo nesta quinta (22), trouxe uma informação que ajuda entender porque a Paulicéia é desvairada.
terça-feira, 13 de julho de 2010
A contribuição das favelas para uma política urbana
A contribuição das favelas para uma política urbana
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A quinta edição do Fórum Urbano Mundial, realizada no Rio de Janeiro, um dos principais assuntos a ser discutido é a questão das favelas. Um dos debatedores que abordou o tema foi Eduardo Moreno, pesquisador da UN-HABITAT. Ele, que vive no Quênia, concedeu a entrevista a seguir à IHU On-Line, por telefone, onde falou sobre as causas da incidência de favelas no mundo, as novas ideias que surgem nesses espaços urbanos e também sobre a teoria da ‘cidade compacta’.
“O conceito de cidades compactas tem a ver com a utilização do transporte público, que, sem dúvida, é a solução para as grandes cidades. Também tem a ver com uma redução de espaços de realidade motorizada fazendo com que os espaços públicos tenham mais relevância e dêem soluções mais verticais de alta densidade. Tudo isso vai fazer com que a cidade, sendo mais compacta, tenha melhores possibilidades de gerar vantagens econômicas e tecnológicas em termos de economia de aglomeração”, explicou.
Confira a entrevista:
Quais as causas enraizadas na incidência de favelas no mundo, hoje?
Diria que existem muitas causas. Elas podem ter origem macroeconômica, vinculadas a questões estruturais, e que tem a ver com uma distribuição muito desigual da renda, do acesso à educação e com os negócios. Isso tem a ver, também, com uma distribuição muito desigual de decisões políticas e de utilização dos recursos. Recentemente, as Nações Unidas fizeram um estudo que perguntou a um certo número de pessoas em dez cidades da América Latina, dez da África e dez da Ásia quem se beneficia de cada decisão que tenha a ver com questões de reformas e políticas urbanas. A resposta nos três continentes, nas trinta cidades, foram muito similares. Cerca de 65% dos peritos dizem que as reformas e oportunidades de utilização de recursos sempre beneficiam primeiro os ricos, que são todos aqueles que representam oliquarquias históricas das cidades; e, segundo, os burocratas, aqueles que tomam decisões importantes.
Os ricos e as favelas
As favelas existem porque o modelo de desenvolvimento econômico gera muitos benefícios para os mais ricos. Isso também tem a ver com o desenvolvimento tecnológico, com a cultura e a democracia. Mas é um modelo que, ao mesmo tempo, deixa grandes setores marginalizados neste processo. É um processo que tem um ponto de vista de justiça, de ética, de moral e não resolveram ainda uma questão fundamental: como fazer para integrar esses grupos de uma forma que não seja periférica?
É preciso resolver estruturalmente a questão ou seja, é preciso pensar numa maior planificação urbana que não corresponda só aos interesses da cidade, mas também a interesses muito particulares. Faz três anos que visitamos 120 cidades de países em desenvolvimento e perguntamos qual o problema principal das pessoas que vivem nas favelas. Isso porque queriamos encontrar uma maneira de tentar resolver o problema dos favelados. Para isso, nossa intenção era montar programas sérios de longo prazo.
A resposta foi que não temos os meios econômicos, técnicos, e recursos humanos para solucionar essa questão de uma forma séria em 80% dos casos que se apresentaram. Esta combinação de coisas faz com que hoje, no mundo, a cada 100 milhões de habitantes de países em desenvolvimento que moram em cidades, 40% vivem em favelas.
Alguns ambientalistas defendem as cidades compactas. O senhor poderia nos explicar o que é isso?
As cidades compactas têm a ver com um problema que começou nos anos 1950, sobretudo nos países da América do Norte, como os Estados Unidos. É o crescimento das zonas periféricas com programas para diminuir a densidade. Hoje, quando vinculamos o desenvolvimento das cidades com o desenvolvimento econômico, percebemos esses espaços urbanos consomem muita energia e geram muito gás carbônico. São cidades que acrescentam, ao custo do transporte, o custo de solo urbano, o uso da energia, e fazem com que a cidade fique, do ponto de vista social, muito segregada. Nessas zonas residenciais de baixa densidade, opera-se um sistema de divisão do espaço urbano.
O conceito de cidades compactas tem a ver com a utilização do transporte público, que, sem dúvida, é a solução para as grandes cidades. Também tem a ver com uma redução de espaços de realidade motorizada fazendo com que os espaços públicos tenham mais relevância e dêem soluções mais verticais de alta densidade. Tudo isso vai fazer com que a cidade, sendo mais compacta, tenha melhores possibilidades de gerar vantagens econômicas e tecnológicas em termos de economia de aglomeração. Este tipo de cidade são lugares onde se governa melhor e onde existem custos mais reduzidos.
As favelas podem ser consideradas cidades compactas? Ou é possível organizar a cidade de uma outra forma em que as favelas não existam mais?
A minha posição, que acredito ser a posição das Nações Unidas, é de que as favelas não são e não deveriam ser uma condição de desenvolvimento econômico. Normalmente, tentam fazer crer que para o desenvolvimento dos países pobres é preciso manter uma certa percentagem de habitantes morando em favelas como parte do processo econômico do país. Não concordo com essa visão, não só de um ponto de vista ideológico, mas de um ponto de vista político e, sobretudo, baseado em dados e informações de que existem cidades e países que podem crescer economicamente e que não precisam gerar um número tão grande de favelas.
Favelas de esperança
Existem as favelas de esperança e as favelas de desenvolvimento e também as favelas de pouca esperança. Uma favela de esperança é aquela que consegue organizar suas relações econômicas e sociais, mas, sobretudo, a localização desta favela na cidade traz maiores possibilidades de desenvolvimento. Isso vai fazer com que ela, em curto prazo, possa se desenvolver no solo urbano e em relação aos serviços que possui e tamém vai fazer com que existam agentes econômicos e sociais que possam trazer benefícios para estas favelas. Estes espaços só são considerados favelas porque falta um indicador, segundo as Nações Unidas, que pode ser a falta de água ou de saneamento básico ou aquelas em que os habitantes estejam vivendo em espaços muitos reduzidos ou as condições habitacionais não são adequadas do ponto de vista de estrutura da moradia. Porém, essas favelas só têm um desses problemas, ou eventualmente, dois.
Favelas de pouca esperança
Uma favela de pouca esperança é aquela que concentra os quatro indicadores negativos e, além disso, encontra-se em um lugar muito apertado da cidade. Os habitantes que moram nesta favela, por razão da distância, do custo e do tempo, têm o mercado de trabalho muito restringido. O capital social que eles têm, em geral, é muito limitado em termos de oportunidades. Quase não existe geração de empregos, o capital social pode ficar como aspecto negativo, e a favela, ao invés de aparecer como um projeto econômico e social de desenvolvimento, em médio e curto prazo, vai aparecer como uma zona vermelha.
As favelas, sem dúvida, podem gerar aspectos positivos. Existe, para isso, uma série de princípios fundamentais que as autoridades locais, avaliando juntamente com os governos centrais, poderiam fazer com que essa favela pudesse virar um espaço compacto da cidade. Os habitantes das favelas poderiam se beneficiar dos aspectos que o desenvolvimento pode trazer. Temos que lembrar que as cidades são espaços fundamentais de oportunidades, de desenvolvimento, de inovação e criatividade, e, na medida que as cidades estejam abertas para que o máximo número de habitantes, todos podem se beneficiar de todas essas vantagens. As favelas, em um curto prazo, podem fazer parte da cidade compacta.
Que novas ideias urbanas estão surgindo nas favelas?
São muitas. Existem muitas teorias que dizem que o desenvolvimento das favelas tem a ver com o trabalho dos próprios habitantes, com os esforços comunitários e com o desenvolvimento endógeno. Esses três ingredientes, que certamente são positivos, não são suficientes para considerar que uma favela pode ser um espaço de inovação e oportunidade por ela mesma. Tenho impressão de que alguns sociológos e trabalhadores comunitários, com ideologia de esquerda, já quiseram apresentar a ideia de que as favelas progridem somente por um trabalho interno dos próprios habitantes e dos grupos comunitários.
Os estudos que temos feito, e falo de dez anos de estudo em diferentes partes do mundo, mostram que todos esses elementos são positivos. O que é preciso é uma política urbana com vontade de resolver problemas, com uma visão estratégica e uma liderança política, e que articule todas essas inovações sociais com inovações institucionais e programáticas. Não só para integrar as ideias dos favelados, mas para trazer recursos de fora nesta favela, trazer tecnologia. Assim, a favela viraria rapidamente um espaço de desenvolvimento social e econômico da cidade.
Mas em lugar de só focalizar-se na questão dos grupos comunitários, a verdadeira lição paradigmática de desenvolvimento seria a integração de atores sociais e até as prefeituras e os vereadores, e fatalmente diferentes grupos sociais organizados e que moram na cidade.
Qual é a contribuição da favela para a organização da cidade e para uma política mais urbana?
As contribuições são muitas, em várias dimensões. Uma, muito importante, é que, hoje, muitas das cidades do mundo esqueceram de certos princípios sociais e filosóficos fundamentais como solidariedade e identidade, onde o grupo social, a família e o núcleo comunitário têm um papel muito importante na tomada de decisões e também na estruturação social e econômica das cidades. As favelas, portanto, como espaço de alta concentração social e com uma integração muito forte desses elementos, sem dúvida, poderia contribuir para o desenvolvimento geral da cidade.
Em segundo lugar, muitas favelas têm estruturas políticas internas, que, em uma perspectiva de desenvolvimento democrático, poderiam conformar o núcleo para reestruturar politicamente a cidade. A participação cidadã poderia, através dessas organizações de favelados, dar muitas lições importantes para uma visão diferente do que seria a reestruturação política da cidade. Em terceiro lugar, muitas das cidades do mundo não tem estudos neste sentido, apenas algumas informações isoladas. Estudos que foram feitos na Índia, em Bangladesh e na África, mostram que se você fala de Produto Interno Bruto da cidade, o crescimento seria a riqueza que a cidade pode gerar em produção de redes de serviços.
Visão negativa
Existe uma visão muito negativa das favelas no mundo, como espaço de criminalidade, de realização de certas atividades informais, que algumas pessoas vinculam à questão clandestina. Mas, na verdade, a favela é um espaço fundamental para a economia da cidade. Tem a ver com os trabalhos, com uma articulação orgânica muito interessante entre trabalhos formais e informais, e serve como um espaço que pode se expandir ou se contrair, onde a economia pode absorver mão-de-obra desempregada ou empregada em setores de baixa produtividade, que evitam conflitos sociais. As favelas também são espaços de uma perspectiva econômica e social que permite ser uma alternativa de habitação aos habitantes pobres. Não gostaria de pensar quais seriam as respostas de violência social que a falta de espaços e alternativas habitacionais poderiam gerar.
A partir da sua experiência, quais são as principais diferenças e peculiaridades entre as favelas do Brasil e da África?
Eu diria que na África existem dois grandes conglomerados. Um é a África do Norte, onde se encontram países como Egito, Tunísia e Marrocos, e o outro é a África do Sul. As diferenças são fundamentais e muito grandes. Agora, no Fórum Urbano Mundial, irei publicar um livro sobre São Paulo, que se chama Uma cidade com duas histórias. Quando fizemos uma análise das favelas de São Paulo, nos demos conta dos indicadores urbanos na zona de favelados, como serviços básicos, acesso à saúde e à educação. Uma coisa muito surpreendente é que as diferenças são relativamente pequenas comparadas com a zona compacta da cidade, em certos indicadores, como acesso à água e saneamento. Em uma favela de São Paulo, entre 80% e 90% dos favelados tem acesso à água. Em uma favela da África, esse acesso será a 40%. O acesso a saneamento em uma favela de São Paulo ou do Rio de Janeiro pode ser de até 85%. Nas favelas africanas, esse acesso não chega a 45%.
Se considerarmos indicadores sociais mais reveladores, como a mortalidade infantil, e compararmos entre uma favela de São Paulo e o resto da cidade de São Paulo, as diferenças nunca serão de mais de 30%. Nos países africanos essa a diferença pode ser de duas ou três vezes maior. Diria que a diferença não só tem a ver com indicadores, mas com a presença do Estado. Nas favelas brasileiras, de uma forma ou de outra, a presença do Estado é visível em escolas e alguns outros projetos sociais. Em muitas das favelas africanas, a característica principal é a invisibilidade e falta de presença do Estado nestas zonas onde os habitantes quase sempre resolvem os problemas por eles mesmos.
E quais são as principais semelhanças entre as favelas do Brasil e da África?
É difícil generalizar, pois existem casos expeccionais, mas, em termos gerais, as favelas se encontram, fisicamente falando, em zonas suscetíveis a cheias, onde existe a possibilidade de movimentos no solo, que vão trazer problemas para os habitantes. A igualdade está numa certa vulnerabilidade social. Ao encontrarmos uma favela na África ou no Brasil, o comum seria o risco de uma catástrofe natural e a possibilidade de os favelados serem mais vítimas desse problema.
Existe outra característica muito similar: O espaço físico dos ricos e das classes médias representam espaços mínimos nas favelas em termos de densidade, comparados com o resto dos habitantes da cidade. Isto, sem dúvida, aplica-se tanto na África como no Brasil. Existe uma alta concentração e problemas de acessos nas favela e problemas de capacidades de resposta para catástrofes.
Existe também uma certa igualdade entre muitas favelas do Brasil e da África e que fazem parte do programa de desenvolvimento econômico e social da cidade. A integração das favelas, numa perspectiva de longo prazo, quase sempre passa por programas específicos, mas não como no resto da cidade, com programa onde se vê uma articulação clara de orçamentos e de questões públicas para desenvolver, de forma integral, a cidadania. O problema é que muitos desses programas são pontuais e tentam reproduzir um modelo que não traz uma solução integral do problema.
Fonte: http://www.domtotal.com
O verdadeiro choque de civilizações
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Seu recente livro "Planeta Favela" (2006) apresenta uma pesquisa minuciosa (apesar da bibliografia ser quase toda em inglês) sobre a favelização que está ocorrendo aceleradamente por todas as partes. A humanidade sempre se organizou de um jeito que grupos fortes se apropriassem da Terra e de seus recursos, deixando grande parte da população excluída.
Com a introdução do neoliberalismo a partir de 1980 este processo ganhou livre curso: houve uma privatização de quase tudo, uma acumulação de bens e serviços em poucas mãos de tal monta que desestabilizou socialmente os paises periféricos e lançou miilhões e milhões de pessoas na pura informalidade.
Para o sistema eles são "óleo queimado", "zeros econômicos", "massa supérflua" que sequer merece entrar no exército de reserva do capital. Essa exclusão se expressa pela favelização que ocorre no planeta inteiro na proporção de 25 milhões de pessoas por ano. Segundo Davis 78,2% das populações dos paises pobres é de favelados (p.34). Dados da CIA de 2002 dava o espantoso número de 1 bilhão de pessoas desempregadas ou subempregadas favelizadas.
Junto com a favela vem toda a corte de perversidades, como o exército de milhares de crianças exploradas e escravizadas, como em Varanasi (Benares) na Índia na fabricação de tapetes, ou as "fazendas de rins" e outros órgãos comercializados em Madras ou no Cairo e formas inimagináveis de degradação, onde pessoas "vivem literalmente na m..." (p.142).
Ao Império norte-americano não passaram desapercebidas as conseqüências geopolíticas de um "planeta de favelas". Temem "a urbanização da revolta" ou a articulação dos favelados em vista de lutas políticas. Organizaram um aparato MOUT (Military Operations on Urbanized Terrain: operações militares em terreno urbanizado) com o objetivo de se treinarem soldados para lutas em ruas labirínticas, nos esgoto, nas favelas, em qualquer parte do mundo onde os interesses imperiais estejam ameaçados.
Será a luta entre a cidade organizada e amedrontada e a favela enfurecida. Um dos estrategistas diz friamente: "as cidades fracassadas e ferozes do Terceiro Mundo, principalmente seus arredores favelados, serão o campo de batalha que distinguirá o século XXI; a doutrina do Pentágono está sendo reconfigurada nessa linha para sustentar uma guerra mundial de baixa intensidade e de duração ilimitada contra segmentos criminalizados dos pobres urbanos. Esse é o verdadeiro choque de civilizações"(p.205).
Será que os métodos usados recentemente no Rio de Janeiro com a militarização do combate aos traficantes nas favelas, com verdadeiras execuções, já não obedece a esta estratégia, inspirada pelo Império? Estamos entre os paises mais favelizados do mundo, efeito perverso provocado por aqueles que sempre negaram a reforma agrária e a inclusão social das grandes maiorias, pois lhes convinha deixá-las empobrecidas, doentes e analfabetas. Enquanto não se fizerem as mudanças de inclusão necessária, continuará o medo e o risco real de uma guerra sem fim.
Fonte: http://www.domtotal.com
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Quando o Estado compensa sua ausência com força

par -A cidade de São Paulo tem atravessado uma série de mudanças nos últimos 20 anos principalmente. Agora, uma das mudanças, e de caráter negativo, é que aumentou muito o número de favelas e ocupações precárias. As favelas hoje estão espalhadas pela cidade, não é apenas na periferia mais distante. As favelas estão próximas do centro da cidade, os cortiços estão disseminados, e assim por diante. Então compete ao poder público uma política de regularização de áreas, de diversificação de uso para fazer com que essas áreas sejam menos excluídas, porque são ilhas de exclusão no todo social. Todo o desenvolvimento urbano e o mercado imobiliário acabam levando essas populações a se tornarem cada vez mais excluídas, cada vez mais isoladas do ponto de vista dos benefícios que a cidade deve propiciar para os seus habitantes. quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Processo de criminalização da pobreza é vital à manutenção do capitalismo

O processo de criminalização da pobreza, das lutas e das organizações sociais é uma necessidade do capital que tende a se aprofundar para garantir a manutenção do sistema.
Conforme Plínio de Arruda Sampaio, a criminalização dos pobres, dos Estados pobres e também das organizações que defendem os pobres é uma processo antigo, aprofundado após os eventos de 11 de setembro de 2001. “Os ataques aos Estados Unidos deram o pretexto para que George Bush criasse a legislação antiterrorista, seguida depois pelos demais países, que liquidou algo que nós, democratas, custamos a conquistar: o estado democrático de direito. A criminalização da pobreza, portanto, é um movimento mundial, violentíssimo, que constitui hoje a principal forma de luta de classes”, afirma ele.
O intelectual lembra que a tão propalada democracia norte-americana é um mito, que sempre dependeu de um inimigo público para se manter. “Primeiro, esse inimigo era o comunista. Agora, é o terrorista. E o terrorista é um inimigo muito pior, muito mais difícil de se combater, porque não sabemos exatamente quem é ou onde está. Então, terrorista se torna o diferente, o pobre”.
As características brasileiras permitiram que o Brasil seguisse à risca a nova legislação antiterrorista norte-americana, sem nem mesmo precisar mudar sua Constituição para aderir à nova ordem mundial. “A Polícia brasileira já usa todos esses métodos sem precisar de lei para respaldá-la”, acusa Plínio, que avalia que a impunidade verificada no país tem gerado um brutal aumento do número de assassinatos praticados pela Polícia.
Para Plínio de Arruda Sampaio, a criminalização da pobreza tem três objetivos claros. O primeiro é o econômico: obrigar o trabalhador a aceitar o trabalho da forma como interessa ao capital, aceitar a deteriorização dos serviços públicos, e mesmo o desemprego. “Se não aceitar, apanha”. O segundo, é social: “a burguesia está com mais medo dos pobres do que nunca. Sabe que haverá cobrança. O medo da senzala é parte da psicologia da burguesia brasileira que passa de geração em geração”, explica. O último, é político: “é preciso debilitar as organizações para que elas não possam organizar a pressão popular. E o caminho é cortar o dinheiro”.
Para o intelectual, a Constituição só vale para os 60 milhões de brasileiros que encontram-se organizados de alguma forma. “Para 100 milhões de pobres, o que vale mesmo é o cacetete. E os 1 milhão que mandam nem precisam de Constituição: são aqueles que conseguem um habeas corpus em 24 horas”, denuncia. Conforme ele, são esses 60 milhões, entre os quais os sindicalistas, intelectuais e participantes dos movimentos sociais, que são afetados por essa espécie de “fascistização” do Estado brasileiro.
José Vitório Zago discorda de Plínio a respeito de que os 1 milhão de brasileiros que mandam não precisam da Constituição. “Precisam sim e a utilizam muito bem para defender suas propriedades”, afirma ele, lembrando que se a Constituição não pegou no que diz respeito às garantias dos direitos, ela possui um núcleo central muito presente na vida brasileira. “A parte boa da Constituição está sendo destruída, mesmo antes de ser regulamentada. Entretanto, sua parte central, que prevê a defesa da propriedade privada dos meios de produção, essa ficou”.
Para Zago, a criminalização da pobreza é proporcional às lutas empreendidas pelos movimentos. “Somos criminalizados porque lutamos, porque defendemos nossos direitos”. O professor lembrou que, além da pobreza criminalizada, há também a pobreza instrumentalizada pelas ONGs, igrejas e governos. “São 40 milhões de brasileiros vivendo de bolsas e adormecidos para a luta”.
José Vitório Zago resgatou também a máxima positivista que prega que, com ordem, a humanidade caminha sempre para frente. “Não podemos acreditar nisso. A história registra períodos de retrocessos muito grandes, como foi o fascismo e como é esse período que vivemos hoje. Precisamos defender as liberdades individuais democráticas dos ataques do estado burguês, porque até isso está sob ameaça”, diz. Entretanto, Zago não se ilude e afirma que luta imposta aos movimentos é muito complexa. “Para combater esse novo fascismo, não adianta somente confiar na legalidade burguesa. Temos que empreender a luta de classes no seu mais alto nível”.
Zago acrescenta, ainda, que a criminalização da pobreza tende a se aprofundar, tendo em vista que o chamado exército industrial de reserva – o contingente de trabalhadores sem emprego necessários à manutenção do capitalismo – encontra-se tão grande que pode sair do controle do sistema. “No Brasil de dois séculos atrás, havia leis contra a vadiagem. Hoje, se essas leis ainda vigorassem, teria muita gente na porta da prisão (se estas não fossem sucursais do inferno) para poder comer”, compara para demonstrar que a nova etapa do capitalismo exige mudanças profundas.
Brasil - A criminalização da pobreza

O medo sempre foi utilizado durante toda a história nos mais diversos lugares e civilizações como um forte pretexto para que se justificasse, legitimasse e se naturalizasse certos comportamentos, doutrinas, leis, punições violentas, desumanas e cruéis. Um bom exemplo é a Idade Média e o seu período da Santa Inquisição com a caça às bruxas, aos hereges, etc. que, não muito raro, acabavam queimados vivos na fogueira. Porém, quero aqui me utilizar apenas do Brasil como exemplo de uma sociedade que também passou e ainda passa por esse périplo.
No Brasil, os primeiros a serem apontados como pessoas dignas de se sentir medo foram os índios. Estes, além de serem denominados como selvagens, assassinos impiedosos e canibais (vide o filme do "exemplar" católico, Mel Gibson: Apocalipto), ainda foram taxados pelos europeus de preguiçosos, avessos ao trabalho e, por muito tempo, não eram considerados como seres humanos, pois achavam que eles não tinham alma. Ou seja, eram tidos como criaturas perigosíssimas e que impediam a implantação de uma sociedade civilizada e justa, segundo os padrões europeus de civilização e justiça. Resultado: um genocídio "legítimo" e necessário para o bem e o progresso da humanidade.
Após o extermínio de quase todos os índios, surge o negro africano.Os negros, porém, ao contrário dos índios, eram considerados bons para o trabalho desde que os castigos, as torturas, os açoites e os assassinatos cometidos contra eles, pelos seus respectivos donos e senhores, fossem sempre muito bem aplicados no sentido de lhes mostrar quais eram as suas funções e o seu devido lugar numa sociedade escravista. Aliás, sociedade esta que via no trabalho algo totalmente aviltante e desprezível, sendo por isso considerada uma atividade a ser exercida apenas por seres inferiores, ou melhor, por seres mercadorias (os negros) adquiridas como propriedade privada para esse ignominioso fim: o trabalho.
No entanto, como o modo de produção escravista era incompatível com o modo de produção capitalista industrial que já estava consolidado na Europa e, principalmente na Inglaterra, a escravidão sucumbiu para dar lugar ao denominado trabalho assalariado ou livre. Concomitante a esse processo de transformação que ganhou o mundo, surgem também os novos "algozes" da sociedade baseada na produção de mercadorias e no lucro extraído do trabalho excedente: o proletariado ou, simplesmente, a classe trabalhadora. Porém, para exercer o controle sobre estes, tornou-se necessário a dinamização de um aparato mais sofisticado e eficaz para vigiar e punir (como dizia M. Foucault) essas novas ameaças à nova ordem vigente: a polícia. A instituição policial, vigilante e ostensiva 24 hs por dia é uma peculiaridade de um sistema onde a riqueza está materializada na propriedade privada dos meios de produção, na mercadoria e no dinheiro como fim em si mesmo. Sendo assim, é extremamente importante, para um sistema como esse, garantir a segurança total e ininterrupta dos locais onde ficam armazenadas esses tipos de riqueza, para evitar e combater o roubo, o furto, quebra-quebra, etc. Dentro deste novo quadro, os "escolhidos" para serem os mais temidos, indesejáveis, perigosos e que mais oferecem riscos a esse novo modelo de sociedade serão aqueles que não conseguem ou simplesmente se recusam a se submeter a essa nova ordem do trabalho: os desempregados, os mendigos, ociosos, etc.
Nos tempos atuais, o malandro já não existe mais, e o vadio... bem, como identificar e julgar alguém como vadio se 60% dos trabalhadores hoje em dia estão na informalidade, ou seja, não têm carteira assinada (a falta da carteira de trabalho, há alguns anos atrás, já caracterizaria crime de vadiagem)? Isso sem contar que o número de pessoas desempregadas e sem ao menos uma ocupação é simplesmente alarmante. Como, numa situação como esta, encontrar justificativas para continuar a exercer medidas de repressão e coerção sem que o Estado seja acusado de injusto, autoritário ou despótico? A solução, embora pareça complexa, foi muito simples: criminalizar a pobreza, principalmente aqueles que moram nos morros e favelas.
[Publicado pela Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. Enviado pelo Observatório das Violências Policiais, São Paulo]
Resenha: Planeta Favela

Livro resenhado:DAVIS, Mike. Planeta Favela. Tradução de Beatriz Medina. São Paulo, Boitempo, 2006. ISBN: 85-7559-087-1 [imagem: Michael e a paisagem. Favela da Rocinha, Rio de Janeiro. Foto da capa do livro]
Um mundo dominado pelas favelasresenha de Erminia Maricato.
Planeta Favela oferece contribuição ímpar para desvendar a desconhecida e gigantesca escala de favelização e de empobrecimento das cidades do chamado "Terceiro Mundo". Considerando-se que a população das favelas cresce na base de 25 milhões de pessoas a cada ano – conforme lembra Mike Davis ao citar os dados da UN-Habitat – e que as mais altas taxas de urbanização são observadas nos países pobres, que eram, ou ainda são, predominantemente rurais, esse processo diz respeito à maioria da população do planeta. Contribuições como a deste livro tornam cada vez mais difícil ignorar a dimensão do fato e tentar dar a ele tratamento pontual, com enfoque em best practices (boas práticas) como tem tentado o establishment das agências internacionais de desenvolvimento.
Davis revela que, ao contrário de aliviar o problema, essas instituições, especialmente o Fundo Monetário Internacional (FMI), que impôs os Planos de Ajuste Estrutural (PAEs) aos países do "Terceiro Mundo", foram cruciais na explosão da pobreza responsável pelo desemprego de 1 bilhão de pessoas, ou um terço da mão-de-obra dos países do Sul no final dos anos 1990, segundo dados da CIA, citados pelo autor.
Em vez das cidades de ferro e vidro, sonhadas pelos arquitetos, o mundo está, na verdade, sendo dominado pelas favelas. Os números que abundam ao longo da obra não são novos, embora nunca tenham sido apresentados juntos e com tal ênfase. A tendência ao empobrecimento urbano vem sendo alertada por numerosos autores e instituições, muitos dos quais presentes na extensa bibliografia final.
Por que reconhecer que este livro é forte instrumento para derrubar essa barreira e iluminar os problemas urbanos e grande parte de suas causas? O primeiro motivo está na abrangência ampla do diagnóstico. O autor tenta mostrar que há tendências, no processo de urbanização recente, que são universais, apesar de se tratar de diferentes países. Em um estilo direto e, por vezes, chocante, Davis valoriza o conhecimento empírico e é pouco dado a longas abstrações ou desenvolvimento conceitual, o que revela sua origem proletária e de militante de esquerda. Seu trabalho tem finalidade militante, e o estilo contraria a abstração e o distanciamento usuais na maior parte dos trabalhos acadêmicos.
Como já foi mencionado, uma sucessão de dados numéricos e de informações qualitativas flui como uma torrente a tirar o fôlego do leitor. O tema do crescimento e do empobrecimento das cidades do "Terceiro Mundo" é cercado e abordado por meio de inúmeras entradas. A formação de “superurbanizações” e “megacidades” – que podem merecer a alcunha de “leviatã”, como a região que engloba São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas– abre uma longa lista de temas como por exemplo o crescimento de favelas provocado por guerras, expulsões catástrofes, recessão econômica (como no caso da América Latina), alto crescimento econômico e urbano (como nos casos da Índia e da China), segregação, racismo; tragédias decorrentes de desmoronamentos, enchentes, incêndios, terremotos (que vitimam sobretudo os pobres); áreas contaminadas, explosões tóxicas; os males do transporte rodoviarista como a poluição do ar e os acidentes de trânsito, entre outros.
A “crise sanitária” – tratada na seção “Viver na merda” – mereceu uma descrição dramática ilustrada por dados sobre centenas ou milhares de habitantes de favelas que disputam apenas uma latrina em algumas cidades da África ou da Ásia. Aborda-se ainda o impacto da carência de água, ou o altíssimo preço que os pobres pagam por ela.
Davis lembra que, mesmo em circunstâncias trágicas como as mencionadas, a orientação implementada pelo FMI e pelo Banco Mundial foi a da privatização do saneamento. A água, assim como a “defecação humana”, foi transformada em negócio global, inclusive em cidades nas quais a população mal tem recursos sequer para comer.
O “big bang da pobreza” tem suas raízes quando, entre 1974 e 1975, o FMI e o Banco Mundial reorientam as políticas econômicas do Terceiro Mundo, abalado pelos preços do petróleo. A orientação aos países devedores para abandonar suas estratégias de desenvolvimento foram claramente explicitadas no Plano Backer, em 1985. Davis classifica o impacto dessa direção na América Latina como “maior e mais longo do que a Grande Depressão” e, considerando-se a realidade das décadas que ficaram conhecidas como décadas perdidas, ele sem dúvida não está exagerando.
O Brasil, por exemplo, cresceu 7% ao ano de 1940 a 1970. Na década de 1980, cresceu 1,3%, e na década de 1990, 2,1%, segundo o IBGE. Ou seja, o crescimento econômico do país, nas duas últimas décadas do século XX, não conseguiu incorporar nem mesmo os ingressantes da População Economicamente Ativa (PEA) no mercado de trabalho, o que acarretou conseqüências dramáticas para a precarização do trabalho e, conseqüentemente, também para a crise urbana (1).
Quem acompanha a vida de qualquer grande cidade no Brasil é testemunha do crescimento explosivo das periferias abandonadas ou da favelização a partir do início dos anos 1980. Não que o ovo da serpente não estivesse lá antes disso. As favelas do Rio de Janeiro e de Recife surgiram no final do século XIX e começo do século XX, quando uma parte da mão-de-obra escrava libertada ficou sem alternativa de moradia (o restante passou a viver de favor). Décadas se passaram, e nem o trabalho passou à condição absoluta e geral de mercadoria, nem a moradia, como acontecera no capitalismo central.
Entretanto, o aumento do desemprego e da pobreza urbana a partir dos anos 1980 contribuiu para mudar a imagem das cidades no Brasil: de centros de modernização que se destinavam a superar o atraso e a violência localizados no campo, passaram a representar crianças abandonadas, epidemias, enchentes, desmoronamentos, tráfego infernal, poluição do ar, poluição dos rios, favelas e...violência. Há trinta anos, o que não constitui período muito longo, não se temia a violência urbana; as cidades eram relativamente pacíficas. Para quem viveu apenas na cidade formal e evitou perceber o que estava acontecendo, a violência serviu de alerta, como a ponta do gigantesco iceberg. As taxas de homicídio no Brasil, segundo o IBGE, passaram de 17,2 mortos para cada 100 mil habitantes, em 1980, para 35,9 mortos em 1989, e, finalmente, para 48,5 em 1999.
Em algum momento, em meados dos anos 1990, a professora Maria da Conceição Tavares, ao participar de uma banca de doutorado na Unicamp, alimentou a idéia de que, para o capital, na era da globalização, havia gente sobrando, ou melhor, que parte da força de trabalho, em vez de exército industrial de reserva, seria “óleo queimado”. A lembrança desse debate veio a propósito de expressões usadas por Mike Davis que vão nessa linha: “fardo humano”, “humanidade excedente”, “massa permanentemente supérflua”. Até mesmo o acesso a essa terra gratuita, situada em meio adverso, obtida por meio das invasões, deverá acabar. Essa é, segundo Davis, a verdadeira crise do capitalismo, e nada, segundo o autor, parece apontar para a mudança desse quadro. O livro se conclui sem deixar resquício de esperança, sobretudo ao chamar a atenção para a criminalização das favelas, agora no foco dos estrategistas militares norte-americanos.
Essa falta de saída ou a ausência de qualquer proposta tem gerado críticas ao trabalho de Davis. Não é necessário que um texto que contenha denúncias apresente propostas. Como já enfatizamos, o pensamento crítico é indispensável para desmontar a falsa representação da realidade, que serve a determinados interesses. O texto, entretanto, pode alimentar uma atitude contrária àquela que pretende Davis e promover o medo em relação às cidades e às pessoas que moram nela. Essa crítica partiu de Tom Angotti quando se referiu ao artigo que deu origem a este livro (2). Angotti acusa Davis de promover uma visão antiurbanista ou anticidade, classificando-o no time dos TINA (There Is No Alternative; Não Há Alternativas, em português), expressão usada para se criticar uma atitude que é comum entre acadêmicos e ativistas. Ele questiona a falta de atenção para com os movimentos sociais em todo o mundo e a tendência de vê-los como “mero produto da informalidade urbana e do paroquialismo”.
De fato, em sua crítica demolidora, Davis inclui propostas de urbanização de favelas, de microcréditos, de regularização fundiária, de construção por conta própria, entre outras. As críticas são pertinentes, mas deixam de considerar especificidades históricas e geográficas que alimentam muitas lutas sociais.
Davis aponta corretamente o caráter reformista ou, não pouco freqüentemente regressivo, de muitas das propostas apontadas como soluções para os problemas habitacionais. Mas a busca de alternativas ou exemplos de soluções nem sempre leva à cooptação ou à acomodação. Muito freqüentemente, mostrar que esses problemas têm soluções que estariam à mão se houvesse mais justiça social é alimento fundamental para o avanço da luta democrática. Apesar de todos os revezes, o Brasil também apresenta muitos aspectos que alimentam a esperança de mudança.
O movimento pela reforma urbana, que reúne entidades profissionais, acadêmicas, de pesquisa, ONGs, funcionários públicos, além das entidades nacionais que lutam pela moradia, são uma das características positivas da sociedade brasileira na conjuntura atual. Esse movimento social conquistou a aprovação de leis importantes como o Estatuto da Cidade (lei n. 10.257, em 2000), a Lei do Fundo Nacional de Moradia Social (lei n. 11.124, em 2005), conquistou ainda a criação do Ministério das Cidades (ele era uma reivindicação que vinha sendo feita havia mais de dez anos). Com ele, o movimento acabou se fortalecendo, devido à promoção das Conferências Nacionais das Cidades, processo que teve início nos municípios, envolveu todos os estados da federação e culminou em Brasília com a participação de mais de 2500 delegados, dos quais 70% foram eleitos nas Conferências Estaduais e o restante indicados por entidades nacionais. A primeira conferência das cidades, em 2003, abrangeu a participação de mais de 300 mil pessoas para debater princípios, diretrizes e prioridades da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano. A segunda, em 2005, aprofundou as propostas.
Esses avanços são afetados mas sobrevivem à crise partidária eclodida em 2005 que evidenciou ter o Partido dos Trabalhadores lançado mão de expedientes condenáveis que fazem parte da política institucional no Brasil. Entretanto não podemos afirmar que existe uma clara reversão do processo de aprofundamento dos problemas urbanos. Essas conquistas são relativamente recentes e as mudanças são lentas, já que envolvem uma cultura histórica – ou de raízes escravistas – de exclusão social. A esperança está assentada em fatos concretos, mas Davis acerta quando remete a fonte principal das mazelas às forças globais dominadas por interesses financeiros e garantidas militarmente pelos Estados Unidos ou por aquilo que David Harvey denomina de Novo Imperialismo.
Notas
1Ver a respeito J. Mattoso, O Brasil desempregado. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 1999.
2O artigo em questão é: “Planet of Slums” (publicado originalmente em New Left Review, n. 26, mar.-abr. 2004, e incluído, com o título “Planeta de favelas”, em Contragolpes: seleção de artigos da New Left Review, organizada por Emir Sader e publicada pela Boitempo em 2006). A crítica pode ser encontrada em T. Angotti, “New anti-urban theories of metropolitan region: ‘Planet of Slums’ and apocalyptic regionalism” (Kansas City, Conference of the Association of Collegiate School of Planners, 2005).
O presente texto é a Apresentação do livro de Mike Davis
Hermínia Maricato, arquiteta, professora da FAU-USP.
Fonte: http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha163.asp
Tráfico, favelas e violência
Os últimos incidentes referentes à luta entre policiais-militares e o tráfico, ocorridos na cidade do Rio de Janeiro ganharam espaço nas grandes mídias do Brasil e de inúmeros países do chamado Primeiro Mundo. Como se sabe, o Brasil não está em guerra interna ou externa. Por aqui, não há motivo aparente, no atual contexto, para espetáculos de ações diretas, registrados e reproduzidos fartamente pelas mídias. É estranho que um helicóptero tripulado por soldados da PM tenha sido abatido em pleno vôo, com duas mortes e dois feridos. A tragédia não foi maior porque foi possível o pouso forçado da aeronave em chamas, em campo aberto. As imagens de sua completa destruição física parecem cenas da Guerra do Iraque, da Colômbia ou do Afeganistão. Mas, não são. Tudo ocorreu em um outrora pacato bairro da Zona Norte – Vila Isabel. Este é ocupado por parcelas das classes médias da cidade, que são vizinhos de muitas comunidades faveladas e foi um dos berços do samba moderno brasileiro. Jamais isto tinha ocorrido antes. Parece, que existiram tentativas, mas esta foi a primeira vez que se conseguiu concretizar a façanha. Acendeu-se uma lâmpada de alerta. O Rio de Janeiro é uma cidade conflagrada.
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16197&boletim_id=604&componente_id=10148
