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sábado, 1 de fevereiro de 2020

Por que temos que tomar banho?


Saiba que a responsável por essa exigência é a sua pele.Chegou a hora de saber por que você, que faz de tudo para se manter limpinho, é obrigado a tomar todos os dias aquela boa chuveirada. A responsável por essa exigência, anote, não é a sua mãe, é a sua pele, a barreira natural à entrada de microrganismo no corpo.

Há na pele as células que formam a epiderme (a camada mais externa da pele, essa que tocamos), que é como um tecido mesmo, como o de nossas roupas. Sobre as células da epiderme há uma camada de queratina, uma proteína que não deixa passar água para o lado de dentro. Além disto, ainda temos os poros – os pequeninos orifícios por onde sai o suor – e as glândulas sebáceas, que acompanham os pêlos que recobrem toda a superfície do corpo, exceto a palma da mão e a sola dos pés. 

Todos os dias nossa pele é renovada, mandando embora algumas células mortas misturadas com queratina e formando um tecido novinho em folha.

Uma coisa que nem todo mundo sabe é que sobre a nossa pele e mucosas – mucosa é a pele fininha e úmida, como a da boca e a do interior do nariz – existem bactérias chamadas comensais, isto é, bactérias que convivem conosco sem necessariamente causarem doença. Elas têm uma função importante: não permitir que outros microorganismos mais perigosos à saúde se estabeleçam na pele e mucosas. Se as comensais não estiverem presentes em número adequado, o equilíbrio entre a proteção e agressão é rompido e podemos adoecer.

Se deixarmos que os resíduos naturais da pele se acumulem (suor, sebo, células mortas), as bactérias comensais podem se multiplicar de forma descontrolada e danificar a pele, além de abrir espaço para outras bactérias mais nocivas. Desta forma, abrem-se feridas na nossa pele, permitindo a entrada de microorganismos indesejados em nosso corpo.

Logo, tomar banho não é só para ficar cheiroso. Mas se você estiver cheirando mal significa que muitas bactérias e restos de pele se acumularam. A saída é procurar o chuveiro mais próximo.

Quando tomamos banho, removemos os resíduos naturais acumulados e o equilíbrio entre as comensais e a pele é mantido. Mas, cuidado! O banho em excesso pode matar as bactérias comensais, e isso não é nada bom. Lembre-se que as comensais são importantes na defesa contra outros microorganismos, mas elas mesmas podem causar doenças quando em número excessivo. Basta um pouco de sabonete comum e água para limparmos a pele e mantermos as bactérias que nos protegem no número certo. E aí, está precisando de uma chuveirada?!

Mãos à água!

Elas entram em contato com muitas coisas e podem levar microorganismos nocivos para a boca, os olhos e outras partes do corpo. Por isso, as mãos pedem atenção especial. Devem ser lavadas antes das refeições, depois de ir ao banheiro e sempre que tiverem contato com sujeira. A pele da palma das mãos é diferente do restante do corpo, e pode ser lavada mais vezes.

Fonte: Revista Ciencia Hoje das Crianças 176 – janeiro/fevereiro 2007 - Disponível em http://http://cienciahoje.uol.com.br/66585 (acesso 12/10/2009)


Pangolim, mamífero em extinção, pode ser possível hospedeiro intermediário do coronavírus, dizem cientistas chineses



Pangolim, mamífero em extinção, pode ser possível hospedeiro intermediário do coronavírus, dizem cientistas chineses - Afirmação é de pesquisadores da Universidade de Agricultura do Sul da China.

O pangolim, um pequeno mamífero conhecido por suas escamas e ameaçado de extinção, pode ter tido um papel intermediário na transmissão ao homem do novo coronavírus, que já matou mais de 600 pessoas na China, de acordo com as agências de notícias Reuters e France Presse.
A afirmação é de pesquisadores da Universidade de Agricultura do Sul da China. Eles identificaram o pangolim como um possível "hospedeiro intermediário" que facilitou a transmissão do vírus, informou a universidade em um comunicado, sem dar mais detalhes.
"Esta última descoberta será de grande importância para a prevenção e o controle da origem [do vírus]", informou a Universidade Agrícola do Sul da China, que liderou a pesquisa, em comunicado em seu site.
Dirk Pfeiffer, professor de veterinária da Universidade da Cidade de Hong Kong, alertou que o estudo ainda está longe de provar que os pangolins transmitiram o vírus, segundo relato à Reuters.
"Você só pode tirar conclusões mais definitivas se comparar a prevalência [do coronavírus] entre espécies diferentes com base em amostras representativas, o que essas quase certamente não são", afirmou Dirk Pfeiffer.
Mesmo assim, Pfeiffer afirma que ainda é necessário estabelecer um vínculo com os seres humanos através dos mercados de alimentos de Wuhan, considerado o ponto inicial da transmissão do vírus.
Embora protegido pelas leis internacionais, o pangolim é um dos mamíferos mais traficados da Ásia. Sua carne é considerada uma iguaria em países como a China e o Vietnã e suas escamas são usadas na medicina tradicional, de acordo com a organização não-governamental World Wildlife Fund (WWF).
Em 2016, a Convenção Internacional sobre o Comércio de Espécies Selvagens Ameaçadas de Extinção introduziu o pangolim em uma lista que proíbe sua comercialização. De acordo com as ONGs, porém, apesar desta medida, o tráfico ilegal dessa espécie continua aumentando.


Do morcego ao pangolim

Pesquisas anteriores já traçaram que os genomas do 2019-nCOV e os que circulam no morcego são 96% idênticos.
O vírus do morcego não é, porém, capaz de se fixar em humanos receptores e, sem dúvida, precisa passar por outra espécie para se adaptar ao homem, o que é chamado de "hospedeiro intermediário".
Uma das possibilidades investigadas pelos cientistas é a de que os morcegos são o reservatório do vírus, que se espalhou de morcegos para humanos através do tráfego ilegal de pangolins.

Pesquisa

Os cientistas estudaram 1 mil amostras de animais selvagens. Com isso, determinaram que os genomas das sequências de vírus estudadas no pangolim eram 99% idênticos aos dos pacientes infectados pelo coronavírus em Wuhan.
Dada a natureza do novo coronavírus, os especialistas suspeitam de que havia um mamífero que agia como um "hospedeiro intermediário". Por algum tempo, pensaram na cobra, mas essa hipótese foi descartada.
Na epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), entre 2002 e 2003 na China, também causada por um coronavírus, o hospedeiro era o civet, um pequeno mamífero de carne muito apreciada na China.
Para conter a epidemia, o governo chinês anunciou, no final de janeiro, uma proibição temporária do comércio de animais silvestres. Criação, transporte e venda de todas as espécies selvagens também estão proibidos por tempo indeterminado.
Todos os anos, 100.000 pangolins são comercializados ilegalmente na Ásia e na África, sendo uma espécie mais cobiçada por traficantes de animais selvagens do que elefante, ou rinoceronte, segundo a ONG WildAid.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Peixe pode ter sido hospedeiro do novo coronavírus, diz pesquisa


Estudo indiano encontrou vestígios da espécie 'Myripristis murdjan' em seu DNA, o que indica que ele pode ter sido o hospedeiro da doença


“DNA do peixe Myripristis murdjan está presente no código genético do novo coronavírus Foto: Reprodução


RIO — Um estudo indiano encontrou vestígios de DNA do peixe da espécie Myripristis murdjan no código genético do novo coronavírus. Isso significa que ele pode ter sido o hospedeiro anterior à contaminação humana.
O trabalho lembra que esse novo vírus está associado a um surto de doença respiratória febril na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China, com uma associação epidemiológica ao mercado atacadista de frutos do mar de Huanan, que vende animais silvestres vivos.
Coronavírus:  O que se sabe até agora?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou nesta quinta-feira emergência de saúde pública de interesse internacional por conta da epidemia do coronavírus, que já deixou 213 mortos na China e mais de 9 mil infectados. É a sexta vez que a entidade aciona o dispositivo desde a criação do mecanismo, em 2005.
estudo é conduzido por Arunachalam Ramaiah, da Universidade da Califórnia e do instituto indiano Tata for Genetics and Society, e por Vaithilingaraja Arumugaswami, também da Universidade da Califórnia.
O objetivo do estudo é, segundo os autores, encontrar "determinantes imunológicos de seu proteoma", o que seria "crucial para a contenção de surtos e os esforços preventivos".
"A identificação das espécies animais de origem para esse surto facilitaria as autoridades globais de saúde pública a inspecionar a rota comercial e o movimento de animais selvagens e domésticos em Wuhan e tomar medidas de controle para limitar a propagação desta doença", afirma o documento, publicado no portal Biorxiv.
A pesquisa afirma que os coronavírus são comumente encontrados em espécies de animais como morcegos, camelos e seres humanos.
Ocasionalmente, os vírus em animais podem adquirir mutações genéticas por erros durante a replicação do genoma ou mecanismo de recombinação, o que pode expandir ainda mais seu contágio em seres humanos.
Os primeiros coronavírus em humanos, segundo o estudo indiano, foram descobertos em meados da década de 1960. Um total de seis tipos de CoV humanos foi identificado como responsável por causar doenças respiratórias humanas.
"Normalmente, esses CoVs causam infecção assintomática ou doença respiratória aguda grave, incluindo febre, tosse e falta de ar. No entanto, outros sintomas, como gastroenterite e doenças neurológicas de gravidade variável, também foram relatados".

Morcego

Outro estudo, publicado na terça-feira na revista "Science China Life Sciences", patrocinado pela Academia Chinesa de Ciências de Pequim, analisou a relação entre a nova cepa e outros vírus.
A pesquisa aponta que o coronavírus que surgiu na cidade de Wuhan está estreitamente relacionado a uma cepa existente em morcegos.
Essa teoria levanta a possibilidade de o vírus ter se originado em morcegos e ter sido transmitido aos humanos por cobras.
"Os resultados derivados de nossa análise de sequência sugerem pela primeira vez que a cobra é o reservatório de animais silvestres mais provável", escreveram os cientistas.
O estudo sugere ainda que o 2019-nCoV pode ter sido resultado de uma combinação de vírus de morcegos e cobras, o que acontece quando animais vivos são mantidos juntos em locais fechados.

Coronavirus e 'sopa de morcego"? Teoria de conspiração e fake news se espalham com avanço de surto


Coronavirus e 'sopa de morcego"? Teoria de conspiração e fake news se espalham com avanço de surto


“Passageiro mostra ilustração do coronavírus em seu celular no aeroporto de Guangzhou, na província chinesa de Guangdong”

O número de casos confirmados subiu para 7.711 e lugares como Hong Kong anunciaram planos de proibir viagens para a China continental na tentativa de conter o avanço do vírus.
Mas não é só a doença que se espalha pela China e por outros países — a desinformação também cresce em ritmo alarmante e teorias de conspiração se espalham pelas redes. Você deve ter visto, por exemplo, os já famosos vídeos virais sobre sopas de morcego.
Desde a divulgação dos primeiros casos, a origem do coronavírus é alvo de debate na internet. Isso ganhou força com uma série de vídeos que supostamente mostrariam chineses comendo morcegos em meio a eclosão do vírus na cidade de Wuhan.
Um dos vídeos mostra uma mulher chinesa sorridente mostrando um morcego cozido para a câmara e dizendo que ele "tem gosto de frango". O vídeo causou revolta e alguns internautas começaram a culpar os hábitos alimentares dos chineses pela expansão da doença.
Mas o vídeo não foi filmado em Wuhan, nem na China. Originalmente filmado em 2016, ele mostra a blogueira e apresentadora Mengyum Wang durante uma viagem a Palau, um arquipélago no oceano Pacífico.

Morcegos
O vídeo voltou à tona nas redes sociais depois que casos de coronavírus emergiram em Wuhan no fim do ano passado.
Em meio à reação negativa nas redes, Wang pediu desculpas, dizendo que ela estava "apenas tentando apresentar a vida das pessoas locais" a sua audiência e não sabia que morcegos poderiam ser vetores de vírus.
O vídeo dela foi tirado do ar desde a controvérsia.


“Wang pediu desculpas, dizendo que ela estava "apenas tentando apresentar a vida das pessoas locais" a sua audiência”
Acredita-se que o novo coronavírus tenha surgido a partir do comércio ilegal de animais selvagens em um mercado de frutos do mar em Wuhan.
Apesar de os morcegos terem sido citados em pesquisa chinesa recente como possível origem do vídeo, a sopa de morcego não é particularmente comum no país e as investigações sobre a origem real da doença continuam.

'Epidemia planejada'


Com o anúncio do primeiro caso de coronavírus nos EUA, na semana passada, começaram a circular pelo Twitter e pelo Facebook documentos de registros e patentes que à primeira vista sugeririam que especialistas sabiam da existência do vírus há anos.
Um dos primeiros a ecoarem essas suspeitas foi o youtuber Jordan Sather, um conhecido adepto de teorias de conspiração.
Em em uma longa sequência de tuítes compartilhada milhares de vezes, ele compartilhou um link para um registro de 2015 feito pelo Instituto Pirbright, em Surrey, na Inglaterra, que fala sobre o desenvolvimento de uma versão enfraquecida do coronavírus para uso potencial em vacinas para prevenir ou tratar doenças respiratórias.
O mesmo link também circulou amplamente em grupos antivacinas no Facebook.
Sather usou o fato de que a Fundação Bill & Melinda Gates é doadora tanto do Instituto Pirbright quanto de órgãos ligados ao desenvolvimento de vacinas para sugerir que a eclosão atual do vírus estaria teria sido deliberadamente fabricada para atrair recursos para a criação de uma vacina.
"Quanto dinheiro a Fundação Gates deu para programas de vacinação ao longo dos anos? O surto da doença foi planejado? A imprensa está sendo usada para espalhar medo sobre isso?", tuitou Sather.
Mas a patente do Pilbright não é para o novo coronavírus. O documento é um registro sobre a bronquite infecciosa das galinhas (BIG), uma linhagem que faz parte da grande família do coronavírus e que afeta aves.
Sobre a especulação em torno da Fundação Bill & Melinda, a porta-voz da Pirbright, Teresa Maughan, disse ao site Buzzfeed News que o estudo do instituto sobre o vírus da bronquite infecciosa não foi financiado pela fundação.

Conspirações de 'armas biológicas'



“Artigos falsos sobre origem da doença  foram compartilhados por centenas de perfis, atingindo milhões de pessoas”.
Outra afirmação sem embasamento que viralizou sugere que o vírus seria parte de um "programa secreto de armas biológicas" da China e teria sido espalhado pelo Instituto de Virologia de Wuhan.
Muitos perfis citam dois artigos amplamente compartilhados do jornal Washington Times que citam uma frase de um ex-oficial da inteligência israelense sobre o tema.
No entanto, nenhum dos dois artigos apresenta provas para a alegação e a fonte israelense diz nos textos que "até o momento, não há evidência ou indicação" que sugira que o instituto tenha espalhado o vírus.
Os dois artigos foram compartilhados por centenas de perfis, atingindo milhões de pessoas. A BBC News pediu comentários ao Washington Times, mas não obteve resposta.
O jornal britânico Daily Star publicou uma notícia similar na semana passada, afirmando que o vírus pode ter surgido em um laboratório secreto.
No entanto, a reportagem foi alterada e o jornal adicionou que não havia provas para a sugestão.
Pesquisas oficiais indicam que o vírus teria emergido do comércio ilegal de animais selvagens no mercado Huanan, que vende frutos do mar em Wuhan.

'Equipe de espionagem'
Outra teoria associou incorretamente o vírus à suspensão de uma pesquisadora do Laboratório Nacional de Microbiologia do Canadá.
A virologista Xiangguo Qiu, seu marido e alguns de seus estudantes chineses teriam sido afastados do laboratório no ano passado após desobedecerem regras, de acordo a TV pública canadense CBC. Na época, a polícia informou à rede que "não houve ameaças à saúde pública".
Outra teoria aponta que a virologista Qiu visitou duas vezes por ano, durante dois anos, o Laboratório Nacional de Biosegurança de Wuhan, da Academia Chinesa de Ciências.
Um texto com mais de 12 mil retuítes e 13 mil curtidas — dizia, sem provas, que Giu e seu marido seriam uma "equipe de espiões" que teria enviado "agentes patogênicos" para Wuhan, e que o marido seria "especialista em coronavírus".
Nenhuma das três afirmações do tuíte pode ser encontrada nas reportagens transmitidas pela CBC. Os termos coronavírus e espiões nem aparecem nas matérias.
A CBC informou que as alegações não têm fundamento.

Vídeo da 'enfermeira de Wuhan'


Versões distintas do vídeo de uma "denunciante", supostamente registrado por um "médico ou enfermeira" na província de Ubei, acumularam milhões de visualizações em várias redes sociais e apareceram em diversos blogs.
A versão mais popular foi divulgada no YouTube por um usuário coreano e trazia legendas em inglês e coreano — o vídeo já foi tirado do ar.
De acordo com as legendas em inglês, a mulher seria uma enfermeira no hospital de Wuhan. No entanto, ela não diz em nenhum momento ser enfermeira ou médica no vídeo. Isso parece ser apenas um chute feito pelos que compartilharam as imagens.
A mulher, que não se identifica, está vestindo roupa de proteção em um local desconhecido. No entanto, seu traje e a máscara não são os mesmos usados ​​pela equipe médica em Hubei.
Devido a um bloqueio imposto pelas autoridades, é difícil verificar vídeos da província. Mas a mulher faz uma série de afirmações infundadas sobre o vírus, o que torna improvável que ela seja enfermeira ou paramédica.
Ela diz, por exemplo, que o número real de pessoas infectadas na China é de 90 mil. Mas, segundo dados oficiais, houve pouco mais de 7.700 infecções confirmadas até a publicação desta reportagem.
Ela também afirma que o vírus tem uma "segunda mutação", que poderia infectar até 14 pessoas. A Organização Mundial da Saúde tinha estimado, preliminarmente, que o número de infecções que um indivíduo portador do vírus poderia causar é de 1,4 a 2,5. Mas autoridades chinesas relataram nesta quinta o caso de um paciente "supercontagiante" que teria infectado ao menos 14 pessoas.
Seja como for, segundo Muyi Xiao, nativo de Wuhan e editor de imagens da revista online ChinaFile, a "enfermeira de Wuhan" não parece "alguém com formação profissional médica".
Embora a localização exata do vídeo seja desconhecida, é provável que a mulher seja um residente de Hubei compartilhando sua opinião pessoal sobre o surto.
"Acho que há [uma] possibilidade de que ela ache que está dizendo a verdade. Porque ninguém sabe a verdade", disse à BBC Badiucao, um ativista político chinês atualmente baseado na Austrália.
"A falta de transparência deixou as pessoas à mercê de palpites e pânico", disse.
*Com reportagem da BBC Monitoring e da BBC UGC Newsgathering
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51311226

Com medo de coronavírus, população escancara xenofobia e racismo



O surto de coronavírus já matou cerca de 100 pessoas e já atingiu mais de 15 países. No entanto, a ameaça não está comprovada no Brasil. Mesmo assim, uma combinação de falta de informação com preconceitos enraizados em nossa sociedade faz com que parte da população veja a comunidade chinesa presente no País como uma ameaça.
Segundo especialistas ouvidos pelo Yahoo, esse medo não faz o menor sentido e só mostra que o problema das fake news e do racismo precisam ser controlados com mais entusiasmo do que a própria doença.
De acordo com o professor Cláudio Falcão, diretor do Sistema de Ensino PH, “o verdadeiro vírus é o preconceito”. “Talvez seja mais fácil de combater a doença do que o racismo. Para esse problema, não existe uma vacina ou um remédio que ajude a curar isso a curto prazo. A humanidade luta contra o preconceito racial há muitos anos”, afirma.
Falcão afirma que, depois da segunda guerra mundial, as pessoas passaram a prestar mais atenção em questões que diziam respeito aos direitos humanos. Porém, ele constata que, em situações em que o medo aparece de forma latente, a humanidade passa a utilizar argumentos racistas para segregar pessoas.
Um exemplo histórico desse tipo de comportamento foi quando, nos anos 80, as pessoas diziam que o vírus da Aids estava diretamente ligado às pessoas homossexuais. Com o tempo, foi comprovado que a doença atingia as pessoas heterossexuais também. No entanto, algumas pessoas continuam usando isso como argumento para atitudes homofóbicas até hoje.
De acordo com o professor Sebastian Fuentes, do Anglo Vestibulares, o problema vai muito além de uma doença específica. “A questão é que as pessoas já tinham preconceitos contra os homossexuais, mas isso não se justificava por absolutamente nada”, diz.
“Então, algumas pessoas enxergaram nisso uma maneira de justificar o preconceito dizendo que a Aids poderia ser contagiosa e que, por isso, não se podia nem encostar em um gay. Mas sabemos que isso é irreal”, afirma.
Falcão concorda com Fuentes e acrescenta que a homofobia, o machismo e o racismo sempre vão enxergar o outro como uma ameaça. Portanto, de acordo com o raciocínio dessas pessoas, o mal só pode vir de alguém que é diferente. “Se eu já não tolero o outro, a doença vem como uma desculpa para o meu preconceito”, explica.
Fuentes também lembra da crise de ebola como um outro episódio que gerou pânico entre a população e fez com que casos de racismo fossem escancarados. “Assim que ele chegou no Brasil, as pessoas viam nas notícias que ele era trazido pelos africanos. O problema de você colocar uma localização na origem dessa doença é que você atrai uma xenofobia”, explica.
“Muitas pessoas pensam que africano é a mesma coisa que negro e que qualquer negro pode estar contaminado com ebola. Muitas pessoas pensam que o branco não pode pegar a doença. Eu me lembro de ouvir falar que ebola era uma coisa de negro, de ex-escravo… eram coisas bem pesadas, mas que estavam no dia a dia”, afirma.
Agora, com o coronavírus, algumas pessoas estão usando a doença como uma desculpa para jogar todo tipo de preconceito contra asiáticos, em especial, contra a comunidade chinesa.
“Eu vi uma reportagem que dizia ‘veja quais são as doenças originárias da China’. Uma pessoa vê uma reportagem como essa e ela começa a achar que a China é um lugar que tem muitas doenças. É um problema de comunicação. Aliado a isso, temos as  fake news que são passadas pelo WhatsApp. Isso gera pânico nas pessoas”, diz.
“Também vi um jornal francês que publicou uma reportagem chamando o coronavírus de ‘perigo amarelo’, o que é completamente xenofóbico. Também falaram que o vírus estava em uma sopa de morcego, o que já foi provado que estava errado. E, com essas matérias, apareciam fotos de chineses comendo essa sopa”, afirma.
Isso, segundo ele, traz uma impressão de que essas pessoas são “selvagens”. No entanto, o professor lembra que no Brasil, por exemplo, comemos coração de galinha e tripa, o que também pode ser visto por outros países como algo fora do comum.
Segundo Falcão, é preciso que a população se preocupe mais com as causas desse tipo de doença como o desmatamento, o consumo de carne e a urbanização desenfreada de áreas que pertenciam aos animais. “A globalização favorece o contato com esse vírus. Porém, por outro lado, ela faz com que exista uma maior estratégia de combate e controle a ele”, diz.
Fonte: Por Giorgia Cavicchioli -  https://br.noticias.yahoo.com/coronavirus-xenofobia-racismo-201706957.html?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004&fbclid=IwAR2Ni1xoMdU14BHBBohNghldWIHy6E-YKbhx-CtD-nFsHwj7ZOlimreZDxU