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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Vazamentos & silêncios: blogosfera coloca a grande mídia na roda



Violado sigilo fiscal de FHC! Em 2000…


Por sugestão de um comentarista, foi possível lembrar que há dez anos atrás, vazaram da Receita Federal os dados do Imposto de Renda de Fernando Henrique Cardoso, Sílvio Santos, Gugu Liberato e dados cadastrais de “apenas” 17 milhões de brasileiros.
Isso foi em abril de 2000. O presidente (o presidente “é o responsável pela bandidagem”, disse há dias o Estadão sobre o caso da atual quebra de sigilo) era um certo senhor chamado Fernando Henrique Cardoso, atualmente em viagem ao exterior e que se apresenta apenas nos seus artigos de jornal, onde pede ao Ministério Público que casse a candidatura de Dilma Rousseff.
Os dados eram vendidos em disquete, pela quantia de R$ 6 mil e a desfaçatez era tanta que chegavam a anunciar em classificados de jornal.
Não me recordo de o assunto ter ido parar nas manchetes de todos os jornais. Não me lembro de uma indignação da grande mídia, dos colunistas advertindo que a democracia estava ameaçada. Não registro a revolta de Serra e de outros “graúdos” da política com o vazamento.
Era um caso de polícia e como caso de polícia foi tratado.

Mas as matérias da Época e a da Folha de 2000 estão aí, recordadas e disponíveis para os “lasserras” de ocasião olharem e se cobrirem de vergonha.
Tolice minha: como hão de se cobrir com o que não têm?
Fonte: http://grupobeatrice.blogspot.com/2010/09/blogosfera-coloca-grande-midia-na-roda.html

Amaury Ribeiro Jr.: Os porões da privataria

Os porões da privataria

livro de Amaury Ribeiro Jr.

Introdução (reproduzido do Conversa Afiada, do Paulo Henrique Amorim)

Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou nas mais importantes redações do País, tornando-se um especialista na investigação de crimes de lavagem do dinheiro, vai descrever os porões da privatização da era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o processo de venda das empresas estatais. Ou se aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar, além disso, como ter parentes ou amigos no alto tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três de seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Todos eles, afirma, têm o que explicar ao Brasil.

Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu primo Gregório Marin Preciado, casado com a prima do ex-governador Vicência Talan Marin. Além de primos, os dois foram sócios. O “Espanhol”, como Marin é conhecido, precisa explicar onde obteve US$3,2 milhões para depositar em contas de uma empresa vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do Banco do Brasil durante as privatizações dos anos de 1990. E continuará relatando como funcionam as empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador, Verônica Serra, e por seu genro, Alexandre Bourgeois. Como os dois tiram vantagem das suas operações, como seu dinheiro ingressa no Brasil…

Atrás da máxima “siga o dinheiro!”, Ribeiro Jr perseguiu o caminho de ida e volta dos valores movimentados por políticos e empresários entre o Brasil e os paraísos fiscais do Caribe, mais especificamente as Ilhas Virgens Britânicas, descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 e por muitos brasileiros espertos depois disso. Nestas ilhas, uma empresa equivale a uma caixa postal, as contas bancárias ocultam o nome do titular e a população de pessoas jurídicas é maior do que a de pessoas de carne e osso. Não é por acaso que todo dinheiro de origem suspeita busca refúgio nos paraísos fiscais, onde também são purificados os recursos do narcotráfico, do contrabando, do tráfico de mulheres, do terrorismo e da corrupção.

A trajetória do empresário Gregório Marin Preciado, ex-sócio, doador de campanha e primo do candidato do PSDB à Presidência da República, mescla uma atuação no Brasil e no exterior. Ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), então o banco público paulista, nomeado quando Serra era secretário de Planejamento do governo estadual, Preciado obteve uma redução de sua dívida no Banco do Brasil de R$448 milhões(1) para irrisórios R$4,1 milhões. Na época, Ricardo Sérgio de Oliveira era diretor da área internacional do BB e o todo-poderoso articulador das privatizações sob FHC. (Ricardo Sérgio é aquele do “estamos no limite da irresponsabilidade. Se der m…”, o momento Péricles de Atenas do Governo do Farol – PHA)

Ricardo Sérgio também ajudaria o primo de Serra, representante da Iberdrola, da Espanha, a montar o consórcio Guaraniana. Sob influência do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, mesmo sendo Preciado devedor milionário e relapso do BB, o banco também se juntaria ao Guaraniana para disputar e ganhar o leilão de três estatais do setor elétrico (2).

O que é mais inexplicável, segundo o autor, é que o primo de Serra, imerso em dívidas, tenha depositado US$3,2 milhões no exterior por meio da chamada conta Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova Iorque. É o que revelam documentos inéditos obtidos dos registros da própria Beacon Hill em poder de Ribeiro Jr. E mais importante ainda é que a bolada tenha beneficiado a Franton Interprises. Coincidentemente, a mesma empresa que recebeu depósitos do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, Ricardo Sérgio de Oliveira, de seu sócio Ronaldo de Souza e da empresa de ambos, a Consultatun. A Franton, segundo Ribeiro, pertence a Ricardo Sérgio.

A documentação da Beacon Hill levantada pelo repórter investigativo radiografa uma notável movimentação bancária nos Estados Unidos realizada pelo primo supostamente arruinado do ex-governador. Os comprovantes detalham que a dinheirama depositada pelo parente do candidato tucano à Presidência na Franton oscila de US$17 mil (3 de outubro de 2001) até US$375 mil (10 de outubro de 2002). Os lançamentos presentes na base de dados da Beacon Hill se referem a três anos. E indicam que Preciado lidou com enormes somas em dois anos eleitorais – 1998 e 2002 – e em outro pré-eleitoral – 2001. Seu período mais prolífico foi 2002, quando o primo disputou a Presidência contra Lula. A soma depositada bateu em US$1,5 milhão.

O maior depósito do endividado primo de Serra na Beacon Hill, porém, ocorreu em 25 de setembro de 2001. Foi quando destinou à offshore Rigler o montante de US$404 mil. A Rigler, aberta no Uruguai, outro paraíso fiscal, pertenceria ao doleiro carioca Dario Messer, figurinha fácil desse universo de transações subterrâneas. Na operação Sexta-Feira 13, da Polícia Federal, desfechada no ano passado, o Ministério Público Federal apontou Messer como um dos autores do ilusionismo financeiro que movimentou, por intermédio de contas no exterior, US$20 milhões derivados de fraudes praticadas por três empresários em licitações do Ministério da Saúde.

O esquema Beacon Hill enredou vários famosos, dentre eles o banqueiro Daniel Dantas. Investigada no Brasil e nos Estados Unidos, a Beacon Hill foi condenada pela justiça norte-americana, em 2004, por operar contra a lei.

Percorrendo os caminhos e descaminhos dos milhões extraídos do País para passear nos paraísos fiscais, Ribeiro Jr. constatou a prodigalidade com que o círculo mais íntimo dos cardeais tucanos abre empresas nestes édens financeiros sob as palmeiras e o sol do Caribe. Foi assim com Verônica Serra. Sócia do pai na ACP Análise da Conjuntura, firma que funcionava em São Paulo em imóvel de Gregório Preciado, Verônica começou instalando, na Flórida, a empresa Decidir.com.br, em sociedade com Verônica Dantas, irmã e sócia do banqueiro Daniel Dantas, que arrematou várias empresas nos leilões de privatização realizados na era FHC.

Financiada pelo Banco Opportunity, de Dantas, a empresa possui capital de US$5 milhões. Logo se transfere com o nome Decidir International Limited para o escritório do Ctco Building, em Road Town, ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. A Decidir do Caribe consegue trazer todo o ervanário para o Brasil ao comprar R$10 milhões em ações da Decidir do Brasil.com.br, que funciona no escritório da própria Verônica Serra, vice-presidente da empresa. Como se percebe, todas as empresas têm o mesmo nome. É o que Ribeiro Jr. apelida de “empresas-camaleão”. No jogo de gato e rato com quem estiver interessado em saber, de fato, o que as empresas representam e praticam é preciso apagar as pegadas. É uma das dissimulações mais corriqueiras detectada na investigação.

Não é outro o estratagema seguido pelo marido de Verônica, o empresário Alexandre Bourgeois. O genro de Serra abre a Iconexa Inc no mesmo escritório do Ctco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas, que interna dinheiro no Brasil ao investir R$7,5 milhões em ações da Superbird.com.br que depois muda de nome para Iconexa S.A. Cria também a Vex capital no Ctco Building, enquanto Verônica passa a movimentar a Oltec Management no mesmo paraíso fiscal. “São empresas-ônibus”, na expressão de Ribeiro Jr., ou seja, levam dinheiro de um lado para o outro.

De modo geral, as offshores cumprem o papel de justificar perante ao Banco Central e à Receita Federal a entrada de capital estrangeiro por meio da aquisição de cotas de outras empresas, geralmente de capital fechado, abertas no País. Muitas vezes, as offshores compram ações de empresas brasileiras em operações casadas na Bolsa de Valores. São frequentemente operações simuladas tendo como finalidade única internar dinheiro nas quais os procuradores dessas offshores acabam comprando ações de suas próprias empresas… Em outras ocasiões, a entrada de capital acontecia pelos sucessivos aumentos de capital da empresa brasileira pela sócia cotista no Caribe, maneira de obter do BC a autorização de aporte do capital no Brasil. Um emprego alternativo das offshores é usá-las para adquirir imóveis no País.

Depois de manusear centenas de documentos, Ribeiro Jr. observa que Ricardo Sérgio, o pivô das privatizações – que articulou os consórcios usando o dinheiro do BB e do fundo de previdência dos funcionários do banco, a Previ, “no limite da irresponsabilidade”, conforme foi gravado no famoso “Grampo do BNDES” –, foi o pioneiro nas aventuras caribenhas entre o alto tucanato. Abriu a trilha rumo às offshores e às contas sigilosas da América Central ainda nos anos de 1980. Fundou a offshore Andover, que depositaria dinheiro na Westchester, em São Paulo, que também lhe pertenceria…

Ribeiro Jr. promete outras revelações. Uma delas diz respeito a um dos maiores empresários brasileiros, suspeito de pagar propina durante o leilão das estatais, o que sempre desmentiu. Agora, porém, existe evidência, também obtida na conta Beacon Hill, do pagamento da US$410 mil por parte da empresa offshore Infinity Trading, pertencente ao empresário, à Franton Interprises, ligada a Ricardo Sérgio.

(1) A dívida de Preciado com o Banco do Brasil foi estimada em US$140 milhões, segundo declarou o próprio devedor. Esta quantia foi convertida em reais tendo-se como base a cotação cambial do período de aproximadamente R$3,2 por um dólar.

(2) As empresas arrematadas foram a Coelba, da Bahia, a Cosern, do Rio Grande do Norte, e a Celpe, de Pernambuco.

Fonte: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/os-poroes-da-privataria.html

Guerra de dossiês

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Acredite, se quiser. Está tudo aqui, nos arquivos digitais daquilo que, um dia, foi uma revista.


E as bruxarias andam soltas

Numa guerra suja, a "base aliada" se
engalfinha com grampos e dossiês

Felipe Patury e Marcelo Carneiro


Ninguém esperava que fosse tão cedo, faltando ainda sete meses para o pleito presidencial, mas a guerra suja das campanhas eleitorais já deu o ar de sua graça. Na semana passada, no rastro da devassa policial no escritório da Lunus, empresa da governadora Roseana Sarney e de seu marido, Jorge Murad, Brasília foi tomada por aquela parafernália que traz à superfície o que há de mais subterrâneo: espionagem, grampos telefônicos e dossiês. No Congresso, o PFL protocolou uma denúncia contra o deputado tucano Márcio Fortes, do Rio de Janeiro. Acusam-no de contratar arapongas para espionar a governadora do Maranhão. O PFL também fez barulho com a notícia de que, sob o comando de José Serra, o Ministério da Saúde pagou uma bolada a uma empresa para detectar grampos telefônicos em suas dependências. Suspeita-se que, na verdade, a empresa poderia estar fazendo espionagem para Serra. Por fim, o PFL ameaça juntar-se ao PT para criar a CPI da arapongagem, com o objetivo de azucrinar o governo, investigando todos os casos de escuta clandestina ocorridos na gestão de Fernando Henrique.


Sérgio Lima/Folha Imagem

O deputado Márcio Fortes, acusado de arapongagem: denúncia no Congresso


Os pefelistas têm sido acusados de levantar a voz contra uma investigação legítima e legal, que começou em abril de 1997, bem antes da campanha presidencial. Afinal, não foi um tucano, nem um araponga, quem colocou 1,3 milhão de reais no escritório da Lunus. As versões mentirosas sobre o dinheiro também não foram criadas por adversários (veja reportagem). Não foram obra de tucano ou araponga as suspeitas que ligam Jorge Murad às fraudes contra a velha Sudam. Há que se reconhecer, no entanto, que a arapongagem sempre esteve solta, como prova o célebre caso do grampo no BNDES, até hoje não esclarecido, cujo suspeito número 1 ainda é Temílson Antônio Barreto de Rezende, o Telmo, um ex-araponga oficial. Para desencanto de quem esperava que essas práticas estivessem sepultadas, elas continuam em pleno vigor. E, por incrível que pareça, os bruxos da espionagem aparecem quase sempre voando nos céus do que até pouco tempo atrás se chamava de "base aliada do governo" – ou seja, tucanos e pefelistas.

O governador Anthony Garotinho conta que, em 18 de fevereiro, recebeu uma pessoa no Palácio das Laranjeiras, a residência oficial do governador do Rio. Garotinho se recusa a revelar a identidade do interlocutor, limitando-se a dizer que era "um político fluminense", mas relata o conteúdo da conversa. Seu visitante ofereceu-lhe um cardápio de denúncias contra a governadora do Maranhão. Era um calhamaço, com mais de 10 centímetros de altura e uma capa transparente sobre uma folha branca, em que se lia "Dossiê Roseana Sarney". Garotinho manuseou o material por uma hora e meia. Estava dividido em três partes. Uma falava da vida pessoal da governadora. Outra contava supostos casos de irregularidades no governo do Maranhão. A última versava sobre a família Sarney. "Aquilo foi coisa de profissionais", afirma o governador. "Existem detalhes como o valor de uma conta de restaurante que ela pagou, com quem estava e o cartão de crédito que usou", completa.


Ed Ferreira/AE

Bornhausen, presidente do PFL: batendo na tecla das investigações espúrias


Garotinho diz que não foi possível precisar o período em que o dossiê foi produzido porque constavam fotos e documentos antigos e atuais. No dossiê, lembra o governador, havia ainda transcrições de grampos telefônicos. Isso levou à suspeita no PFL de que a devassa da Polícia Federal no escritório da Lunus só foi realizada no dia 1º de março porque um grampo telefônico teria permitido aos policiais saber que, naquele dia, haveria mais de 1 milhão de reais em dinheiro vivo nos cofres da empresa, razão pela qual o diretor da PF, Agílio Monteiro, foi convidado a prestar explicações no Congresso nesta semana. Garotinho diz que não se importou em ficar com o material ou tirar cópia, mas quis saber qual era o interesse de seu interlocutor na divulgação do material. O "político fluminense" teria dito: "O mesmo seu, abalar a candidatura da Roseana". Garotinho, então, quis saber a mando de quem o "político fluminense" lhe oferecia o dossiê. "Do Márcio Fortes", ouviu. Encerrada a conversa, Garotinho ligou para José Sarney e contou o que vira. Sarney disse que já sabia de tudo. E que aquilo era obra "desse Márcio Fortes".

De fato, Sarney já sabia da história. Há dois meses, o ex-presidente procurou Fernando Henrique Cardoso no Palácio da Alvorada. Reclamou de duas coisas. Disse que arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) estavam vasculhando a vida de sua filha. E que espiões contratados pelo deputado Márcio Fortes estavam fazendo o mesmo. Márcio Fortes não é um tucano qualquer. É secretário-geral do PSDB e membro do coração da campanha de Serra. A Sarney, Fernando Henrique esclareceu que jamais dera essa ordem para o general Alberto Cardoso, chefe da Abin, mas ficou de apurar o assunto. E ainda pediu ao general que ligasse para Sarney. Ocorreu o seguinte diálogo:

– Não existe nada disso, senador – garantiu o general ao telefone, referindo-se a sua turma da Abin.

– O Márcio Fortes – insistiu Sarney – contratou gente ligada à comunidade de informações no Rio. Estão fazendo dossiês contra Roseana.

– Ah, isso pode ser... Vou investigar – respondeu o general Cardoso.

O ex-presidente José Sarney nunca apresentou nomes, datas ou qualquer outro dado para reforçar suas acusações. O governador Garotinho recusa-se a dar o nome do interlocutor que levou o dossiê para ele examinar. O deputado Márcio Fortes nega qualquer envolvimento com o assunto. "Não conheço nem nunca tive qualquer contato com as pessoas apontadas como autoras de grampos", afirma Fortes. Mesmo com essas brechas todas, os ânimos se acirraram ainda mais na semana passada, quando se descobriu a história de uma empresa contratada pelo Ministério da Saúde para combater grampos telefônicos. Ela se chama Fence Consultoria Empresarial e pertence a um coronel da reserva, Enio Fontenelle. Até o ano passado, sua empresa tinha um contrato de 28.000 reais fixos por mês com o Ministério da Saúde para fazer varredura em linhas telefônicas e leitura eletromagnética de ambientes. Sua função era proteger o ministro José Serra e sua equipe de eventuais grampos. O contrato foi renegociado no fim do ano passado, com dispensa de licitação e em bases realmente extraordinárias, que deram novo alento à saúde financeira da empresa de Fontenelle. Com o novo contrato, a Fence pode ganhar até 150.000 reais por mês.

Fotos Moreira Mariz, Felipe Araujo/Folha Imagem, Sebastião Moreira/AE, Joedson Alves/AE

1. O deputado Moroni Torgan: aviso a Tasso sobre grampo telefônico
2. O governador Tasso Jereissati: sem acreditar que o tucano Márcio Fortes se envolveu em bruxarias
3. Paulinho, da Força Sindical: também avisou a Tasso sobre dossiês
4. O ex-presidente José Sarney: outro que alertou Tasso sobre arapongagens

A Fence tem sido procurada por vários órgãos públicos. Atualmente, mantém negócios com seis deles, num sinal de que seus serviços são muito populares na capital federal. Entre eles há órgãos que, antes do rompimento com o governo, eram comandados pelo PFL, como o Ministério do Esporte eTurismo e a Caixa Econômica Federal. A Fence também é a preferida dos tribunais. Hoje, tem contrato com o Supremo Tribunal Federal e com o Superior Tribunal de Justiça. A diferença gritante está nos preços. No fim do ano passado, renovou seu contrato com o Ministério da Saúde e abocanhou uma bolada de 1,8 milhão de reais. Dá 150.000 reais por mês. Nenhum outro contrato com órgão público é assim tão elevado. O maior deles foi com o Superior Tribunal de Justiça, mas não chegava a 16.000 reais por mês – ou quase um décimo do valor do contrato com o Ministério da Saúde.

O coronel Fontenelle justifica o aumento de sua carga de trabalho com os embates que o Ministério da Saúde teve nos casos de quebra de patentes de remédios para a Aids, do lançamento dos genéricos e da luta contra o cigarro. Como nada disso aconteceu neste ano, o coronel admite: "O volume de trabalho cresce de acordo com os riscos. Ser candidato a presidente da República é, sem dúvida, motivo de riscos maiores". Para ganhar os 150.000 reais expressos no contrato, a Fence tem de realizar até 600 incursões em busca de grampos no Ministério. Se no mesmo mês checar a linha do ministro 600 vezes, leva os 150.000. De 1º de janeiro até 28 de fevereiro, Fontenelle já faturou no Ministério da Saúde 211.000 reais. Isso significa que realizou nada menos que 840 varreduras em apenas 59 dias. Feita a conta, chega-se a catorze varreduras por dia.


Dida Sampaio/AE

O ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira: até agora, é o alvo principal dos pefelistas


O jogo sujo é arma conhecida nas campanhas eleitorais, mas costuma aparecer perto da reta final, e não com tanta antecedência. Na semana passada, não havia um ou dois dossiês circulando em certas rodas de políticos e empresários, mas vários – e sempre na tal "base aliada". Há quinze dias, o governador do Ceará, o tucano Tasso Jereissati, recebeu um telefonema de Sarney, alertando-o para a existência de um dossiê sobre seu governo. Dias depois, Jereissati recebeu outra ligação. Um emissário do deputado Moroni Torgan, do PFL, seu desafeto na política local, confirmou ao governador que havia um dossiê a seu respeito. Nessa versão, as acusações tratavam de operações bancárias consideradas estranhas feitas pelo Banco do Nordeste, cujo presidente foi indicado por Jereissati. Torgan nega ter falado em dossiê e diz ter feito um alerta sobre a existência de supostos grampos para investigar o governador do Ceará.

Em outubro do ano passado, o governador já recebera um telefonema do presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho. Ele contou que ouvira relato sobre um dossiê a respeito de operações descritas como irregulares das empresas da família da mulher de Jereissati, o grupo Edson Queiroz, o maior do Estado. Na última semana, Paulinho confirmou a VEJA que obteve a informação e deu ciência dela a Tasso Jereissati. Em pelo menos um dos três telefonemas, Jereissati foi comunicado de que a mão por trás do dossiê – olha ele aí de novo – era a de Márcio Fortes. "Os dossiês não passam de afirmações levianas organizadas por desocupados", afirma o governador. A respeito de Márcio Fortes, Jereissati declara: "Não posso acreditar, em hipótese alguma, que o secretário-geral do PSDB, impulsionador da campanha a presidente do nosso candidato, que é o Serra, possa estar fazendo qualquer coisa contra mim".

Quando se fala da existência de um dossiê, as pessoas podem ser levadas a acreditar que se trata de um compêndio encadernado e volumoso. Isso não é uma regra. Alguns dossiês podem até ser volumosos, mas entre os papéis em circulação nos últimos dias há até "dossiês" de uma folha só. Numa dessas folhas soltas há o relato de que um governador do PFL teria gasto 150.000 dólares numa viagem de dez dias a Paris. A viagem de fato existiu, mas o governador nega que tenha gasto tal quantia – e VEJA optou por não identificá-lo porque não há prova do esbanjamento. Outra característica ligada aos dossiês diz respeito à sua consistência. Por maior que seja o documento, em geral não apresenta prova alguma de irregularidade. Não se está falando de um aprofundado estudo a respeito de um personagem com o objetivo de listar a ocorrência de fraudes comprovadas associadas ao seu nome. Seu único propósito é difamar e levantar uma nuvem de suspeitas sobre o político em torno de quem se escreve. A idéia é sugerir que o alvo das investigações não passa de um vigarista, quando, na verdade, a vigarice confirmada é a do autor do dossiê.


Selmy Yassuda

Telmo, o ex-araponga oficial, suspeito no caso do grampo do BNDES


Esse tipo de dossiê costuma aparecer em períodos de eleição, mas muitos deles foram produzidos com bastante antecedência e ressurgem em fase de campanha. Boa parte dos papelórios surge como contribuição a um candidato, feita por um empresário amigo ou aliado político. É o caso de um dossiê que versa sobre alguns assessores e amigos de José Serra, principalmente o economista Andrea Calabi, ex-presidente do BNDES. Foi preparado por encomenda de um dos maiores bancos de investimentos do Brasil e realizado por uma empresa americana. O "documento", confeccionado no início de 2000, reapareceu agora, nas mãos de um político do PFL. Os dossiês têm em comum o fato de revelar episódios incríveis, denúncias monumentais, cobranças de propinas astronômicas. A grande maioria, no entanto, trabalha com fatos impossíveis de ser comprovados. Existe um dossiê, oferecido a um grande empresário brasileiro, que transcreve telefonemas trocados entre um ex-ministro do governo Fernando Henrique e um deputado federal. No telefonema, o ex-ministro oferece dinheiro ao deputado em troca da aprovação de um projeto de interesse do governo federal. A transcrição do diálogo impressiona, mas não há fita para comprovar sua veracidade.

Na semana passada, VEJA encomendou ao Instituto Vox Populi uma pesquisa para verificar a impressão dos eleitores sobre a campanha após os fatos dos últimos dias. Foram entrevistados 500 eleitores, por telefone, entre a quarta e a quinta-feira, em quinze capitais. Os resultados mostram que o eleitorado está descontente com os candidatos. Para 75% das pessoas ouvidas, os políticos estão dispostos a fazer qualquer coisa para ganhar o próximo pleito. Para 78% dos eleitores, as campanhas são financiadas com o dinheiro do caixa dois das empresas, e 95% declaram que o interesse dos empresários que financiam políticos é obter influência no governo e exigir vantagens em troca de favores. O Brasil está mal-humorado com o comportamento de seus políticos. E a guerra dos dossiês só contribui para piorar esse mau humor.
Fonte: Revista Veja via Cloaca News