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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Radiação recorde é detectada em Fukushima

Um grau de radioatividade “fatal para os seres humanos” foi detectado perto do sistema de ventilação entre dois reatores da central nuclear japonesa de Fukushima, segundo a empresa responsável pelo seu funcionamento. Embora a empresa afirme que as leituras não dificultarão seu objetivo de estabilizar os reatores de Fukushima até janeiro, os especialistas questionam que a segurança dos trabalhadores estará em perigo se a Tepco priorizar o cumprimento dos prazos acima dos riscos de radiação.

Mais de quatro meses depois do acidente nuclear ocorrido nessa central em consequência do terremoto e posterior tsunami de 11 de março, foram registados níveis recordes de radioatividade.

A Companhia de Energia Elétrica Tóquio (Tepco) informou que contadores Geiger – aparelhos manuais usados para medir a radiação – registaram, no dia 1º, a leitura mais alta possível na central. A radiação excede os dez sieverts por hora no fundo de uma coluna de ventilação localizada entre dois reatores, informou a companhia. Aela Callan, da rede de televisão Al Jazeera, informou, da cidade de Ibaraki, que a radiação registrada era “fatal para os seres humanos”, mas que se restringia ao local da central atômica. Entretanto, ontem os cientistas fizeram novos testes.

“As autoridades trabalham com a teoria de que a radioatividade procede das explosões iniciais de hidrogênio que vimos na central nos dias posteriores ao terramoto e ao tsunami”, disse Callan. “Agora, parece mais provável que esta área tenha este grau de radioatividade desde o terremoto e o tsunami sem que ninguém tivesse dado conta disso até o momento”, acrescentou.

A Tepco informou ontem que encontrou outro ponto no próprio sistema de ventilação onde a radiação superava os dez sievers por hora, um registo que poderia causar incapacidade ou morte com apenas segundos de exposição. A empresa usou equipamentos para medir a radiação à distância e não conseguiu assegurar o nível exato, porque a leitura máxima alcançada pelo aparelho é de dez sieverts. Embora a empresa afirme que as leituras não dificultarão seu objetivo de estabilizar os reatores de Fukushima até janeiro, os especialistas questionam que a segurança dos trabalhadores estará em perigo se a Tepco priorizar o cumprimento dos prazos acima dos riscos de radiação.

“O vazamento de radiação na central pode ter sido controlado ou reduzido, mas não selado completamente”, afirmou Kenji Sumita, professor da Universidade de Osaka que se especializa em engenharia nuclear. É provável que se continue encontrando mais pontos de alta radiação, acrescentou. “Considerando isto, não deveria haver pressa para as tarefas de recuperação na usina para cumprir prazos e objetivos, já que isso colocaria em perigo os trabalhadores”, disse Sumita. “Passamos a fase imediata da crise e devem ser permitidos alguns atrasos”, ressaltou.

Os trabalhadores da central de Fukushima só podem se expor a 250 milisieverts de radiação por ano. A Tepco, que fornece eletricidade a Tóquio e áreas vizinhas, disse não ter detectado um grave aumento na radiação geral do complexo. “A elevada dose foi descoberta numa área que não serve de obstáculo aos esforços de recuperação da central”, disse ontem Junichi Matsumoto, um porta-voz da companhia.

Embora ainda investigue o caso, a Tepco disse que os pontos de alta radiação podem ter origem nos escombros que ficaram após as ações de emergência realizadas dias após o terremoto e o tsunami de 11 de março.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br

Leia também:

• Limpeza de Fukushima nas costas dos trabalhadores

• 'Fukushima é muito pior do que se imagina', diz cientista

• Energia nuclear divide a Europa após desastre de Fukushima

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Fukushima: radioatividade 5 milhões de vezes superior ao limite

O nível de iodo radioativo nas águas marinhas próximas da central nuclear de Fukushima é cinco milhões de vezes superior ao limite legal, informou nesta terça-feira a concessionária da central, Tepco. Japão fixa limites de radioatividade para pescado e marisco. Esta decisão foi tomada depois da descoberta de níveis de radioatividade anormalmente elevados, nos últimos dias, em pequenas enguias pescadas ao largo da província de Ibaraki, a Sul de Fukushima e a Norte de Tóquio. O Japão já proibiu a venda de vários legumes e leite cru, produzidos nas quatro províncias perto da central de Fukushima 1.

Também segundo a Tepco, uma amostra recolhida segunda-feira revelou que o nível de césio-137 nas águas do mar próximas da central é 1,1 milhões de vezes superior ao limite legal.

Enquanto o iodo-131 tem uma vida média relativamente breve, de oito dias, o período de semi-desintegração do césio-137 é de 30 anos.

Dois dias antes, no sábado, a concentração de I-131 era ainda maior, 7,5 milhões de vezes superior ao limite legal.

Mas a própria Tepco anunciou segunda-feira que iria despejar toneladas de água radioativa no oceano.

Desde segunda-feira já foram despejadas mais de 3400 toneladas de água para o Pacífico de um total de 11.500 toneladas. Esta operação durará cerca de uma semana e pretende libertar tanques de armazenamento para guardar água ainda mais radioativa que tem se acumulado na central nuclear de Fukushima 1, especialmente no edifício do reator 2.

Um responsável do governo japonês pediu esta terça-feira desculpas pelo lançamento de milhares de toneladas de água radioativa para o oceano, uma medida de emergência “para tentar evitar o pior”.

Japão fixa limites de radioatividade para pescado e marisco
Entretanto o governo japonês definiu esta terça-feira limites de radioatividade para o pescado e marisco, para tentar tranquilizar a população, preocupada com os impactos da crise nuclear da central de Fukushima 1 na sua saúde. “Provisoriamente aplicámos os níveis definidos para os legumes” aos peixes e marisco, informou o porta-voz do Governo, Yukio Edano.

O limite para o iodo-131, que pode provocar maior incidência de cancros, foi fixado em 2000 becquerels por quilo. O limite para o césio-137 é de 500 becquerels. Acima destes valores, o peixe é considerado impróprio para consumo.

Esta decisão foi tomada depois da descoberta de níveis de radioatividade anormalmente elevados, nos últimos dias, em pequenas enguias pescadas ao largo da província de Ibaraki, a Sul de Fukushima e a Norte de Tóquio. Segundo a estação de televisão NHK, foi detectado césio em concentrações de 526 becquerels por quilo. Os outros peixes examinados não apresentavam níveis elevados, segundo as autoridades.
O Japão já proibiu a venda de vários legumes e leite cru, produzidos nas quatro províncias perto da central de Fukushima 1, devido aos níveis de radioatividade.

Japão: 11.500 toneladas de água radioativa no mar

A empresa que explora a central nuclear de Fukushima começou a lançar ao mar cerca 11.500 toneladas de água radioativa que se acumulou nas instalações danificadas. A concentração da radioatividade na água é cem vezes superior ao limite legal, o que foi considerado "relativamente baixo" pela Tokyo Eletric Power (Tepco). Diante das dificuldades, o governo japonês reconheceu que poderá demorar meses até que a situação na central nuclear seja controlada.

A Tokyo Electric Power (Tepco), que explora a central nuclear de Fukushima, começou a jogar no mar cerca de 11.500 toneladas de água radioativa que se acumulou nas instalações danificadas.

Um porta-voz da empresa reconheceu que os técnicos não tinham outra escolha, e que a concentração de radioatividade na água é cem vezes superior ao limite legal, o que considera relativamente baixo. A decisão foi tomada para permitir que os engenheiros possam reparar os circuitos de resfriamento dos reatores nucleares.

Por outro lado, os técnicos da Tepco planejam utilizar um polímero em pó para travar a fuga de água radioativa de um dos reatores para o Oceano Pacífico.

No sábado, a Tepco detectou uma fissura de cerca de 20 centímetros na parede de um poço perto de um dos reatores, onde está água com alta radioatividade (excede 10.000 vezes a concentração legal), que está vazando para o oceano.

Os técnicos tentaram cobrir a fissura, no sábado, com betão, mas a presença contínua de água impediu que o material se solidificasse.

Diante das dificuldades, o governo japonês já reconheceu que poderá demorar meses até que a situação na central nuclear seja controlada.

AIEA diz que medidas foram insuficientes
Yukuya Amano, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA) afirmou nesta segunda-feira que a empresa que gere a central de Fukushima, a Tepco, não tomou “as medidas suficientes para evitar o acidente”.

Amano recordou que outra central da Tepco em Kashiwazaki, noroeste do Japão, teve um acidente nuclear em 2007, um incêndio que deu origem à fuga de radioatividade e de água contaminada, depois de um terremoto de 6,8 graus. A central continuou, tal como a de Fukushima, a ter capacidade de suportar um terramoto de até 6,5 graus, muito inferior aos 9 graus medidos em 11 de Março.

Fotos: Água radiotiva da usina de Fukushima é despejada no mar pelo governo

Fonte: Agencia Carta Maior

quinta-feira, 31 de março de 2011

Hiroshima nunca mais! Fukushima nunca mais!


Que o conhecimento deixe de ser a caixa preta protegida pelo sigilo comercial da propriedade privada

Por Carlos Walter Porto-Gonçalves

Durante anos cientistas e ativistas denunciaram os males do DDT, do agente laranja e outros subprodutos da indústria militar na “guerra contra as pragas”, enfim, na “luta pela dominação da natureza”, particularmente no mundo da agricultura e da pecuária.

O argumento de que esses cientistas e ativistas era contra o progresso foi brandido ao paroxismo por um bem sucedido lobby das corporações do complexo industrial-financeiro-midiático-militar, nova forma complexa da burguesia característica de um capitalismo cada vez mais complexo (Casanova, 2005).

Basta acessarmos o site da ABAG - Associação Brasileira de Agribusiness – em particular o link dos parceiros da ABAG e lá temos a composição desse novo bloco de poder que se reproduz no Brasil com especificidades de se juntar às velhas/atuais oligarquias latifundiárias. Pois bem, a vaca ficou louca, o frango e o porco gripados colocando em risco a saúde humana em nome desse complexo de poder que se nutre desse mito da “dominação da natureza”.

Ora, a idéia de dominação da natureza é em si mesma uma profecia que não se pode cumprir na própria medida em que dominar é fazer com que alguém ou qualquer outro ser faça não aquilo que quer ou que seja, mas aquilo que outrem quer que faça. Assim, sejam os povos, etnias, classes, gêneros ou a natureza na medida em que são dominados implica que estejam sendo submetidos não ao que são, mas aquilo que querem que sejam.

No mundo contemporâneo em que a ciência e seu subproduto a tecnologia são instrumentos da busca do aumento da produtividade tendo em vista a acumulação de capital, se produz um deslocamento da “promessa iluminista” de que a razão deveria substituir a religião em nome da emancipação humana. Essa “promessa” foi partilhada também por uma corrente hegemônica no seio do pensamento de esquerda que ignorou uma das mais importantes contribuições de Marx para a análise histórica, qual seja, de que não se pode dissociar nenhum fenômeno do seu contexto, em suma, da totalidade das relações sociais (e de poder).

Assim como disse que “o direito não tem história” posto que são os homens (e mulheres) na conformação de suas relações sociais e de poder que o conformam, o mesmo se dá com o mundo técnico-científico. Marx nos deu uma bela demonstração dessa tese com sua crítica à Malthus e sua “lei geral da população” onde a produção de alimentos aumentaria numa progressão aritmética e o crescimento da população numa progressão geométrica. Assim como não há lei de população que escape às formações sociais que as engendram não há lei histórica do desenvolvimento das forças produtivas fora das relações sociais e de poder.

A ciência e a tecnologia cada vez mais são capturadas pelo mundo dos negócios, pelo mundo do capital, o que Milton Santos chamou “meio técnico-científico-informacional” para caracterizar o espaço geográfico contemporâneo. Como bem salientara o geógrafo brasileiro um objeto técnico difere de um objeto natural por ser um objeto impregnado de intencionalidade, ou seja, busca ser um objeto per+feito no sentido de um objeto previamente feito para controlar os efeitos de suas ações.

Ocorre que o mundo não é passivo e mero objeto dos desejos dos que manejam esses objetos. O aquecimento global, por exemplo, é o efeito não desejado de uma matriz energética que tal como Prometeu quis acorrentar o fogo, mas olvidou das leis da entropia. Pensou que inventar o termostato era suficiente para que o motor devidamente programado numa variação máxima e mínima de temperatura fosse suficiente para não aquecer e, assim, dissipasse energia sob a forma de calor e deixasse de trabalhar. A natureza não tem termostato!

Enfim, o paradigma científico de matriz eurocêntrica está fundado num mito que está a serviço da acumulação de capital que é o contexto em que vem se desenvolvendo cada vez mais. Num mundo onde a riqueza se acredita mensurável quantitativamente (dinheiro) os números não têm limites e assim não haveria limites para intervenção no mundo (natural e social). A idéia de crescimento, subjacente à de desenvolvimento econômico embora sempre atenuado pelos seus defensores, mostra por todo lado seus limites. Esclareça-se, antes que algum gestor bem intencionado tente dizer quais são os limites, que limite é o cerne da política, arte de definir os limites e a democracia é quando todos dele participam.

Sabemos dos esforços, muitos bem intencionados, diga-se de passagem, dos que se dedicam à segurança das plantas das usinas nucleares, das plantas das refinarias e dos poços de petróleo, dos sistemas de navegação aérea todos sistemas de alta complexidade. Uma das características mais relevantes dos sistemas de alta complexidade é sua imprevisibilidade. Assim, caminhamos num paradoxo: quanto mais introduzimos uma nova variável, que bem pode ser uma nova informação sobre um acidente aéreo, num sistema complexo mais ele se aproxima da realidade que, por sua vez, é o mundo na sua imprevisibilidade.

Só uma crença acrítica na capacidade do sistema técnico controlar o mundo pode explicar o fato de um país como o Japão, situado no cinturão de fogo de contato de inúmeras placas tectônicas, tenha nada mais nada menos que 55 reatores nucleares como se isso fosse um detalhe. E olha que a palavra tsunami inventada pelos japoneses antes da era científica e tecnológica, foi simplesmente olvidada talvez porque as águas não pudessem ser tão facilmente controladas pela engenharia. Relembremos que as primeiras notícias dos terremotos e tsunamis que recém atingiram o Japão, veiculadas pelos interessados meios de comunicação procuravam nos tranqüilizar pela tradição arquitetônica dos japoneses de construir edifícios que balançam mais não caem. Até que tivéssemos que assistir ao trágico espetáculo de mortos ou de casas e edifícios completamente destruídos e alguns inteiros boiando nas águas. E, pior, de saber que reatores, como os de Fukushima foram danificados e tantas vidas estarão ameaçadas por décadas.

Basta de “vacas loucas”, de gripe do frango, de gripe suína, de DDT e agente laranja que matam! Basta de uma ciência sem consciência! Que o conhecimento deixe de ser a caixa preta protegida pelo sigilo comercial da propriedade privada! Que se ouçam outras matrizes de conhecimento que se forjaram com a natureza e não contra a ela, como a dos camponeses, dos povos originários e não se desperdicem essas experiências! Que o sofrimento dessas famílias nos ilumine nessa direção! Hiroshima e Fukushima nunca mais!

Carlos Walter Porto-Gonçalves é professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFF. Pesquisador do CNPq e do Clacso. Prêmio Casa de las Américas (Ensaio Hisórico-social) em 2008 e Medalha Chico Mendes em Ciência e Tecnologia 2004. É autor de vários livros e artigos publicados no Brasil e no exterior.

Fonte: Jornal Brasil de Fato

segunda-feira, 28 de março de 2011

Crise nuclear no Japão: O que sabemos

Justificar
por Union of Concerned Scientists

O grande terramoto ao largo da costa Nordeste do Japão provocou uma situação potencialmente catastrófica numa das centrais nucleares do país. A situação ainda está a evoluir, mas abaixo está uma avaliação preliminar com base nos factos tal como os peritos da Union of Concerned Scientistas presentemente os entendem.


O proprietário da Central, Tokyo Electric Power Company ( TEPCO ), informou que às 14h46 locais "turbinas e reactores das unidades 1, 2 e 3 da Central Nuclear de Fukushima Daiichi cessaram de funcionar automaticamente devido ao Terramoto Miyagiken-oki".

Estes reactores são três dos seis que operam na instalação nuclear de Fukushima I. Todos eles são de água fervente (boiling water reactors). A unidade 1 tem uma potência de 460 megawatts e as unidades 2 e 3 têm uma potência de 784 megawatts.

A TEPCO prosseguiu declarando que os encerramentos foram provocados pela perda de energia fora das suas instalações "devido ao mau funcionamento dos dois sistemas de energia externos". Esta perda de energia disparou geradores diesel de emergência, os quais automaticamente começaram a proporcionar energia substituta (backup) aos reactores.

Contudo, às 15h41 locais, os geradores diesel de emergência encerraram "devido ao mau funcionamento, resultando na perda completa de corrente alternada para todas as três unidades", segundo a TEPCO. A falha dos geradores diesel mais provavelmente foi devida à chegada do tsunami, o qual provocou inundação na área. O terramoto estava centrado a 240 quilómetros do Japão e teria levado aproximadamente uma hora para o tsunami alcançar as ilhas japonesas.

Esta falha de energia resultou numa das mais sérias condições que podem afectar uma central nuclear – um "blackout da central" – durante o qual perde-se tanto a energia produzida externamente à central como a corrente alternada (AC) de emergência da própria central. As centrais nucleares geralmente precisam de energia AC para operar os motores, válvulas e instrumentos que controlam os sistemas que fornecem água de arrefecimento ao núcleo radioactivo. Se toda a energia AC for perdida, as opções para arrefecer o núcleo são limitadas.

Os reactores de água fervente em Fukushima são protegidos por um sistema Reactor Core Isolation Cooling (RCIC), o qual pode operar sem energia AC porque é conduzido por vapor e portanto não exige bombas eléctricas. Contudo, ele exige energia em corrente contínua (DC) de baterias para as suas válvulas e controles funcionarem.

Contudo, se a energia das baterias for esgotada antes de a energia AC ser restaurada, o RCIC cessará de fornecer água para o núcleo e o nível de água no núcleo do reactor poderia descer. Se descesse demasiado, o núcleo super-aqueceria e o combustível ficaria danificado. Finalmente, um "colapso" ("meltdown") poderia acontecer: o núcleo poderia tornar-se tão quente que formasse uma massa pastosa que se fundiria através do recipiente de aço do reactor. Isto libertaria uma grande quantidade de radioactividade do recipiente para dentro do edifício de contenção que encerra o recipiente.

A finalidade principal do edifício de contenção é impedir a radioactividade de ser libertada para o ambiente. Um colapso aumentaria a pressão no edifício de contenção. Neste ponto não sabemos se o terramoto danificou o edifício de contenção suficientemente para minar a sua capacidade de conter a pressão e permitir que a radioactividade escape.

Segundo documentos técnicos traduzidos por Aileen Mioko Smith da Green Action no Japão, se o nível do refrigerante caiu para o topo das varetas de combustível (fuel rods) activas no núcleo, o dano no núcleo começaria cerca de 40 minutos mais tarde e o dano no recipiente do reactor ocorreria 90 minutos depois disso.

A preocupação acerca de um acidente grave é tão alta que enquanto a TEPCO tenta restaurar o refrigerante o governo evacuou uma área com raio de 3 km em torno do reactor.

A Bloomberg News informou que a vida da bateria do sistema RCIC é de oito horas. Isto significa que as baterias teriam sido esgotadas antes das 10h00 EST de hoje. Não está claro se esta informação é exacta, uma vez que sugere que várias horas teriam decorrido sem qualquer arrefecimento do núcleo. A Bloomberg também informa que o Japão assegurou seis baterias de substituição e planeou transportá-las para o sítio, possivelmente em helicóptero militar. Não está claro quanto tempo esta operação demoraria.

Também tem havido informações ulteriores de que a Unidade 2 de Fukushima I perdeu o seu refrigerante do núcleo, o que sugere que o seu RCIC cessou de funcionar, mas que a situação "foi estabilizada", embora não seja publicamente conhecido o que é a situação. A TEPCO confirmadamente planeia libertar vapor do reactor para reduzir a pressão, a qual se elevou 50 por cento acima do normal. Este escape libertará alguma radioactividade.

A UCS emitirá actualizações à medida que se tornar disponível mais informação.

Ver também:
  • Nuclear and Industrial Safety Agency , do Japão
  • The Japanese Disaster: Full Coverage
  • Union of Concerned Scientists
  • Citizen`s Nuclear Information Center

    O original, com novas actualizações, encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/2011/ucs110311.html

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • quarta-feira, 16 de março de 2011

    Japão: sismo desencadeia alerta nuclear


    Depois do terramoto, seguido de tsunami, veio a explosão na central nuclear de Fukushima, cujas consequências futuras são ainda desconhecidas (a central situa-se a apenas 300 quilómetros de Tóquio).

    Neste momento, os nossos primeiros pensamentos vão para as japonesas e para os japoneses, que acabam de sofrer o maior sismo desde Kobé, em 1995. E, entre eles, vão para os bombeiros que partiram de avião para a central nuclear. Estes «liquidatários» vão arriscar a vida para salvar o país e, mais ainda, limitar as consequências planetárias da explosão do reactor. A radioactividade dentro da central já atinge, a cada hora que passa, a quantidade anual admissível. Qualquer acidente adicional vai traduzir-se num crescimento dos riscos para os intervenientes.

    É preciso ter uma coragem sem limites para intervir ali conhecendo as consequências. A experiência dos liquidatários de Tchernobil não pode ser esquecida. Aquelas e aqueles que nunca receberam informação sobre essa experiência devem, sem dúvida, ler o livro La Supplication, de Svetlana Alexievitch [1].

    Se há pessoas que merecem, a título colectivo, um prémio Nobel da Paz, são realmente os liquidatários de Tchernobil — e agora os de Fukushima.

    Do lado oposto ao destas mulheres e homens que vão sofrer neste combate, estão os que brincaram com o fogo nuclear. É a eles que devemos dirigir-nos agora para obter informações que nos permitam realmente escolher, democrática e cientificamente.

    Porque o nuclear é uma tecnologia muito particular. Nunca foi confinado e os seus riscos prendem-se com dois tipos de acontecimentos. Em primeiro lugar, o risco ligado ao «acidente»: avaria, explosão e consequências de acontecimentos externos (tsunamis ou perigos terroristas, como o causado pelo avião que, a 11 de Setembro de 2001, devia ter-se despenhado sobre a central de Three Mile Island. A libertação na atmosfera de muitos materiais radioactivos vai provocar, desde logo, cancros e outras doenças — cujo acompanhamento não está, aliás, assegurado. Depois, há o risco das «doses reduzidas», porque as centrais e os outros elos da cadeia nuclear — em particular os transportes, os locais de armazenamento e de extracção de plutónio, como Haia — libertam regularmente elementos radioactivos que estão a seguir presentes nos rios, no mar, nas praias, nas florestas, etc.

    Esta ausência de confinamento, que faz com que uma dispersão de produtos radioactivos afecte todo o planeta, diz respeito aos dois tipos de riscos. Tchernobil, apesar dos esforços dos alfandegários franceses, mostrou a extensão das zonas afectadas pelos acidentes. Mas há outras informações que sugerem que os elementos radioactivos circulam cada vez mais. Por exemplo, enquanto que antes de 1945 não existia plutónio na natureza, agora ele pode ser encontrado nos dentes de leite das crianças britânicas.

    Quando alguns decidem desenvolver o sector nuclear, todo o planeta é, portanto, afectado. Mas estas decisões são tomadas de forma opaca, sem debate público, sem que se disponibilize uma real informação — contraditória e científica — às populações.

    Faltam-nos, em particular, informações essenciais para a tomada de decisões. Todas as tecnologias têm riscos. A questão que se coloca nunca é a da segurança absoluta, mas a da relação entre o risco e os benefícios desejados. Ora, não dispomos de estudos relativos aos seguintes pontos essenciais.

    • Qual é a rentabilidade económica do nuclear, considerando todo o tempo de vida do sector? Com efeito, o nuclear tem um tempo de vida muito superior ao tempo de funcionamento (rentabilidade de um ponto de vista económico imediato, a que demasiadas vezes se dá prioridade). Para medir o custo económico real, convém incluir nos modelos o acompanhamento dos resíduos até que os seus riscos se tornem insignificantes, ou seja, durante séculos. Há também o «desmantelamento» das centrais. A experiência de Brennilis, na Bretanha, mostra-nos que os custos reais (e os problemas técnicos surgidos) são muito superiores aos avaliados [2]. Por fim, deve ser feita a avaliação do custo dos acidentes, que como são assumidos por toda a sociedade nunca são incluídos nos cálculos de rentabilidade efectuados pelos agentes da fileira nuclear. Uma subparte desta questão seria conhecer de forma bem precisa o balanço energético global do sector. Que parte da energia produzida é realmente utilizável, uma vez subtraídas as perdas em linha (centrais evidentemente distanciadas dos locais de consumo), a energia dissipada na construção e depois no tratamento dos resíduos e, por fim, no desmantelamento. Sem falar de todo o tipo de custos em caso de acidente.

    • Qual é o real impacto do nuclear na saúde, tanto em doses reduzidas [3] como, evidentemente, em situação de acidente? Neste quadro, não nos podemos limitar aos mortos imediatos (em Tchernobil foram uns trinta): é preciso contabilizar as consequências posteriores nas populações vizinhas e nos liquidadores. A morbilidade (doenças, mal-estar, problemas crónicos…) merece toda a nossa atenção. Os estudos relacionados com Tchernobil sempre minimizaram este aspecto [4]. E quando o médico bielorrusso Yury Bandazhevsky mostrou as consequências de Tchernobil nas crianças nascidas depois do acidente, o poder preferiu fechá-lo na prisão. As consequências no Japão, que dispõe de um excelente aparelho estatístico e de um acompanhamento médico particularmente eficaz e competente na área do nuclear — uma herança de Hiroxima e Nagasáqui — devem merecer toda a nossa atenção. Os doentes não podem continuar a ser descartados como vítimas de uma síndrome de paranóia atómica.

    • Quais são as implicações do nuclear energético sobre a paz no mundo? É nas chamadas fileiras «civis» que têm origem os produtos utilizados pelas armas nucleares, tanto no caso dos materiais físseis de alta energia usados para a bomba como no caso dos chamados materiais «empobrecidos» usados para as armas penetrantes. A mesma origem «civil» têm os produtos usados nas «bombas sujas», utilizadas por agentes não-estatais. E não são as centrais nucleares pontos de fraqueza que podem ser explorados por atacantes? O exemplo japonês mostra que o acidente não está forçosamente ligado a causas «internas» às próprias centrais.

    • Qual é o impacto social da indústria nuclear? Porque se tornou o emprego precário a norma numa indústria em que a força de trabalho que se compra, para intervir em zona contaminada, é a própria vida dos operários? O excelente romance La Centrale, de Elisabeth Filhol, é uma investigação junto destes precários do nuclear em França [5]… Basta imaginar qual será a situação em países onde a pobreza, e portanto a necessidade de vender o que se tem para alimentar a família, é mais forte. A que modelo de trabalho recorre o sector nuclear? E de que modelo de dessensibilização se cobrem os «assalariados»? Quem lida com trabalhadores do nuclear tem, evidentemente, histórias anedóticas para contar sobre a mistura de medo da radiação e de valentia que muitas vezes leva, em caso de exposição a doses excessivas, a que se acuse os detectores de radioactividade em vez de reconhecer as emissões.

    Os entusiasmos das décadas entre 1930 e 1950, período em que reinou a ideia de uma energia «inesgotável», de alto rendimento e de baixo custo, podem ser compreendidos. Tratava-se de dominar o fogo, uma actividade que os homens adoram… Mas será possível que tudo fique igual depois de Tchernobil? Podemos persistir no mesmo? Porque o argumento da «segurança» reforçada nas centrais refere-se sobretudo a problemas internos, nomeadamente aos meios para enfrentar as más decisões humanas. Mas será possível oferecer garantias suficientes face aos actos externos de alta energia (sismo, tsunami, mas também tempestade, ataque terrorista dirigido, etc.)? É certo que, a partir do momento em que há um alerta sísmico, as centrais japonesas são colocadas em suspensão, mas esta é uma operação longa e que pode correr mal, como temos vindo a constatar nos últimos dias. Haveria uma «segurança» que pudesse ter estado à altura do acontecimento? À altura das consequências sociais e sanitárias do acidente?

    É a este tipo de questões que a comunidade científica, mas também os cidadãos, a quem elas dizem respeito, devem dedicar a sua atenção. Para que a escolha de manter ou abandonar o nuclear se apoie em dados globais e coerentes, e não em pressupostos, sejam eles ideológicos (a mistificação do progresso e do controlo humano dos acontecimentos) ou mais especificamente ligados a interesses económicos. Os poderes públicos podiam dedicar os seus esforços a estas reflexões abertas, em vez de servirem de representantes comerciais internacionais aos transnacionais do sector.

    Acrescentemos um último ponto sobre a informação relativa ao nuclear. Estamos agora perante um estudo de caso. O que nos dizem os jornalistas é fiável? Quais são as suas fontes? Seguir, hora após hora, os fios das informações, das negações, dos desmentidos, das confirmações e dos erros de informação difundidos desde que o sismo ocorreu mostra os limites de uma informação planetária quando estão em jogo questões económicas, mas também políticas, militares e ideológicas.

    É verdade que o papel da comunicação social não é fazer com que as populações entrem em pânico. Muitas vezes o pânico provoca catástrofes ainda maiores. Mas à distância também será assim? Teremos de fazer o luto de uma informação apoiada nos factos em benefício de uma «informação de guerra», isto é, orientada pelas necessidades de segurança dos poderes públicos? Por fim, será que se deve tomar as populações por ignorantes e acreditar que ninguém consegue perceber a preocupação que está por detrás da agitação? E, neste caso, a ausência de transparência não será ainda mais preocupante?

    Os acidentes são momentos muito sensíveis durante os quais é preciso calar e agir (o perigo está ali, é preciso enfrentá-lo) e preparar o amanhã, retirar lições e prever consequências. Infelizmente, uma vez passada a emoção, as questões tendem a ser postas de lado pela rotina, pelos compromissos, pela ausência de reflexão global e, sobretudo, pela imunidade de que gozam os agentes dos sectores que criam os acidentes (e não apenas o nuclear…). No fim de contas, se ainda há pessoas vivas para continuar a informar, é certamente porque o perigo foi «vencido»…

    Ulrich Bek, no livro premonitório La Société du risque (escrito antes de Tchernobil e publicado na semana seguinte, com um prefácio escrito a quente [6]), explicava que depois de o risco se ter concretizado, as sociedades, para continuarem a existir, tinham como principal obsessão simplesmente negá-lo. Até à sua próxima ocorrência?

    Texto de Hervé Le Crosnier

    Foto de Dalaiama Street Art

    quarta-feira 16 de Março de 2011

    Notas
    [1] Ver Dominique Chouchan, «Les survivants de Tchernobyl», Le Monde diplomatique, Abril de 1999.

    [2] Ler «Brennilis: 25 ans de centrale. Il est plus facile de construire une centrale nucléaire que de la démanteler», Le Canard enchaîné, 28 de Julho de 2010; Angélie Baral, «Nucléaire pas cher: la fin du rêve», Urbiz.fr, 25 de Agosto de 2010.

    [3] Ver Jean-François Viel, La Santé publique atomisée. Radioactivité et leucémie, Les leçons de la Hague, La Découverte, 1998.

    [4] Para um balanço actualizado da catástrofe, ler Alison Katz, «Os dossiês enterrados de Tchernobil», Le Monde diplomatique — edição portuguesa, Dezembro de 2010.

    [5] Elisabeth Filhol, La Centrale, POL, Paris, 2010.

    [6] Traduzido em francês em 2001, Flammarion, Paris.
    Retirado de: http://pt.mondediplo.com/spip.php?article797
    Fonte: http://pimentanegra.blogspot.com/2011/03/japao-sismo-desencadeia-alerta-nuclear.html