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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Que saudade da São Paulo da garoa!

Os prejuízos causados pelas chuvas em São Paulo vêm sendo tratados pelos meios de comunicação como uma mera fatalidade, fruto de uma excepcionalidade da natureza. Em artigo escrito em 1995, o professor Ladislau Dowbor já alertava que não era mais possível dizer, a cada ano, que se tratava das maiores chuvas da história, de um fenômeno excepcional. "Na realidade, a enchente tornou-se uma companheira permanente da cidade por uma simples razão de formas de urbanização", escreveu Dowbor.

POR Ladislau Dowbor
Artigo publicado originalmente em 23 de março de 1995 no jornal O Estado de São Paulo.
Não é mais possível dizer, a cada ano, que se trata das maiores chuvas da história, de fenômeno “excepcional”. Na realidade, a enchente tornou-se uma companheira permanente da cidade por uma simples razão de formas de urbanização.São Paulo representa hoje uma mancha urbana da ordem de 1.500 quilômetros quadrados, cerca de 30 por 60 quilômetros. Isso significa que, com 100 milímetros de chuva, buscam saída 150 milhões de toneladas de água. A principal forma de escoamento consiste na simples infiltração da água no solo, aproveitando a sua permeabilidade, particularmente nas várzeas, que atuam como grandes esponjas. Acontece que, com a crescente camada de asfalto e cimento, cerca de dois terços da cidade estão impermeabilizados. Por outro lado, a ausência de cobertura vegetal e a concentração de construções aumentam a temperatura em até 10 graus em certas regiões da Cidade, favorecendo chuvas torrenciais e liquidando os bons tempos da garoa.
As empresas de loteamento destroem regularmente a cobertura vegetal, reduzindo também a filtração da água para dentro do solo. E as empreiteiras e especuladores imobiliários liquidam as várzeas.Em outros termos, construímos na Cidade um gigantesco tobogã de água e nos espantamos que mesmo chuvas médias provoquem enchentes.O fenônemo é, por sua vez, agravado pelas formas como é enfrentado. Cada bairro sujeito a enchentes batalha a canalização do seu córrego e, de bairro em bairro, provocamos a chegada mais rápida da água às partes baixas da Cidade.
Só que nas partes baixas o efeito é cada vez mais dramático, pois uma massa cada vez maior de água chega mais rapidamente.
O tobogã aumentou.
A primeira conclusão é, portanto, bastante simples: em vez de políticas em fatias, ou clientelísticas, precisamos é de um plano. E em vez de simples canalizações que aceleram o fluxo da água, precisamos proteger as várzeas, recuperar a permeabilidade do solo e melhorar a retenção de água nas areas intermediárias. Os exemplos são inúmeros. Na Suíca, para cada 100 metros quadrados construídos é preciso reservar determinada superfície verde e permeável. A cidade de Londrina está transformando suas bacias em parques, gramando as beiras de córregos, plantando árvores e multiplicando espaços de lazer. Outras cidades estão rearborizando loteamentos e encostas das bacias, para reter a água e reduzir o assoreamento.
No nosso caso, não resolvemos o problema dos córregos, entulhados e assoerados, e aumentamos o problema do Tietê. Na realidade, a equação em que, em permanência, trabalham de um lado os caminhões e as dragas, e de outro, chegam regularmente a terra carregada pelos córregos e os detritos dos paulistano é o sonho de qualquer empresa de desassoreamento.
É um fluxo de centenas de milhões de dólares.
O problema no seu conjunto é parecido com o dos carros em São Paulo. Como não há mais espaço para escoamento, abrem-se mais avenidas, o que leva a mais carros. Constatando-se que as avenidas não bastam, fazem-se elevados e túneis, que permitem que os carros chegem muito mais rapidamente a outros gargalos mais intensos. O problema do trânsito, evidentemente, exige que paremos um pouco para pensar e trabalhemos mais a concepção do metrô e outras formas de transporte coletivo, porque abrir mais espaço para carros apenas desloca o problema, não o resolve.No nosso drama da água, agora que o sol parece começar a enxugar as nossas lamentações, ao menos até o ano que vem, seria igualmente melhor trabalharmos a compreensão estrutural do problema, resgatarmos a prática do planejamento. E, sobretudo, precisamos parar de pensar que a urbanização seja uma questão de obras, de asfalto e concreto.
Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Varsóvia, professor titular da PUC-SP.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Novamente chove forte em São Paulo: onde estão nossos gestores públicos?

Procura-se!
Depois do forte temporal que ocorreu em São Paulo nessa terça-feira (08.09.2009), esses dois homens não foram mais encontrados. Será que foram levados pelas águas?


Será que nossa competente imprensa poderá encontra-los?




Minha proposta é que vocês procurem por Na hora da enchente -- aliás, dos "pontos de alagamento" --, São Paulo não tem governador. Nem prefeito.
Tem "pontos de alagamento" e "excesso de veículos".
É tudo obra divina. Ou culpa da população, que joga lixo na rua.
Ainda que isso também seja o caso, acho estranho que não haja qualquer cobrança. Enquanto isso, toma propaganda da lei anti-fumo em rede nacional de TV. Repito: os dois, eventualmente, vão aparecer.
Vão aparecer "em ação". Para jogar a culpa em Deus.
Ou nos moradores da cidade, esses "vândalos".

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Na época em que Luiza Erundina era prefeita, as enchentes sempre tinham dono. Tempos depois, esses desastres passaram a ter até mesmo causa: Marta Suplicy.Nesses dois tensos períodos, ao se formar a primeira poça de água na cidade, o Estadão e a Folha já se alvoroçavam, enviando seus repórteres furiosos às portas da Prefeitura.Nas duas gestões, ao lado das fotos de carros naufragados e moradores lavados pelo pranto, os diários estampavam-se imagens das prefeitas.
Nos telejornais, gente como Boris Casoy bradava: “isto é uma vergonha”. Ana Maria Braga, com sua cara de torta de palmito, solidarizava-se com as famílias das casas inundadas. Em tom pungente, reclamava do descaso da autoridade municipal.
Ou seja, todas as tragédias se convertiam imediatamente em incômodo patrimônio petista. Nos portais da Internet, senhoras indignadas reclamavam do terninhos bem cortados de Marta Suplicy e de seus penteados de estilo, alçados à categoria de precipitadores de temporais.Em 2004, por exemplo, Marta foi visitar as vítimas das enchentes no Vale do Aricanduva, na Zona Leste.
Naquele dia, havia ali uma claque oposicionista bem armada, insuflando os moradores.Uma mulher que perdera seus móveis insultou a prefeita. Um vereador oposicionista da região adestrou uma turba de desocupados para chutar e esmurrar os carros da comitiva.No dia seguinte, completou-se o rito condenatório, como fotos do quiprocó em todos os grandes jornais paulistanos.Até o informe do PSTU na Internet aproveitou-se do episódio. Na época, copiaram os textos dos Frias e Mesquitas: “é um verdadeiro absurdo querer culpar as forças da natureza pelas tragédias causadas pelas enchentes, como fez a prefeita Marta Suplicy”.
Neste 8 de Setembro, São Paulo foi novamente lavada por chuva forte. Bueiros se empanturraram de detritos, rios transbordaram, o trânsito se transformou num inferno, barrancos cederam e gente simples morreu.
Esta tragédia, no entanto, não têm dono. Como não teve aquela do buraco do metrô que engoliu uma dezena de cidadãos.Os indignados nas gestões petistas nem se lembraram de questionar o dono de jornais José Serra e o “padrinho maroto dos ambulantes da Mooca e da Lapa”, Gilberto Kassab.No caso do governo do Estado, ninguém perguntou sobre a obra paga-empreiteira que retalhou ainda mais a Marginal do Tietê.
Nem houve imprensaleiro que se indignasse com as valas abertas nos canteiros desmatados, logo convertidas em enormes piscinas de lodo.Quanto a Kassab, nenhum profissional de gravador e bloquinho foi questioná-lo sobre o acordo que firmou com as coletoras de lixo.Por conta de sua política de limpeza urbana, os Jardins e os bairros nobres agora recebem tratamento VIP.
Muitas áreas de favelas e de novos loteamentos da periferia, ao contrário, passaram a ser atendidas apenas quando possível.As câmeras das TVs exibiram, durante toda a terça-feira, uma série de flancos da cidade em que as bocas-de-lobo soluçavam tapadas por sacos plásticos.
Isso nas costas da Penha, no Rio Pequeno, no Parque Novo Mundo e em mais uma dúzia de bairros.Detalhe: não era simplesmente “lixo”.
Eram sacos, sacos de lixo.A imprensa de José Serra e seus funcionários dos telejornais culparam São Pedro e os “moradores porcos” pelos entupimentos e pelas enchentes que paralisaram a maior cidade do país.Agora, cabe a singela pergunta: por que alguém que pretende sujar e emporcalhar a cidade se preocuparia em reunir o lixo em sacos de plástico?Por que uma mãe de família, por mais humilde que seja, sabotaria o ambiente de seus próprios filhos?
Cadê o repórter?
Por que não foi perguntar aos chefes? Hem?!