quinta-feira, 30 de julho de 2009

RESISTÊNCIA: MEMÓRIA, REFLEXÃO, PERSPECTIVAS

A entrevista a seguir está publicada no blog Naufragos da Utopia
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/07/resistencia-memoria-reflexao.html
Essa entrevista foi retiradas da comunidade do Orkt - Ditadura Militar "Projeto entrevista" http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=119803&tid=5352047507417407175
FERNANDO CLARO - Qual sua opinião, hoje, sobre as reais condições de quem escolheu seu caminho e o regime que se pretendia derrubar. Ou seja, a correlação de forças, como você a vê atualmente?
Celso Lungaretti - A correlação de forças não nos parecia tão desfavorável assim no primeiro semestre de 1969, logo após a assinatura do AI-5. Chegamos a surpreender a ditadura, que não esperava ações tão eficientes de nossa parte.No entanto, nós também subestimamos a capacidade de reaglutinação do inimigo: com a criação da Oban para combater a luta armada em SP (depois expandida para todo o Brasil, com a disseminação dos DOI-Codi's), o aprendizado de técnicas de tortura com instrutores estadunidenses, a generalização das práticas hediondas (que atingiram um patamar de máxima bestialidade), etc., eles conseguiram tomar a dianteira da guerra, DO PONTO DE VISTA MILITAR, no 2º semestre.O golpe de misericórdia foi a injeção maciça de recursos externos para criar uma euforia econômica em 1970. Em 1969, a própria classe média discordava dos militares, embora estivesse amedrontada demais para nos apoiar francamente. Em 1970, com investimentos na Bolsa de Valores e fusquinha na garagem, passou a aplaudir o regime. Então, em desvantagem nas duas frentes (militar e política), nossa derrota era só questão de tempo.Mas, sempre digo nas minhas palestras que, se um milhar de resistentes não tivesse ousado confrontar aquele terrorismo de estado dantesco, seríamos um povo muito desprezível. Não ganhamos a guerra, mas salvamos a honra dos brasileiros, exatamente como a Resistência Francesa, sem cuja existência a França seria identificada com Pétain e a República de Vichy.
CARLOS - Você via na época as ações como atos de resistência ou como parte de um projeto revolucionário de tomada de poder?
Celso Lungaretti - Francamente! Não éramos doidos varridos. Sabíamos muito bem que a luta seria dificílima e que nenhum grupo, partido ou organização tinha condições de derrotar a ditadura sozinho.Então, já que precisaríamos lutar em frente e os outros grupos não tinham exatamente os mesmos pontos-de-vista, o que supúnhamos era a constituição de um tipo de parlamento no "day after", para que as disputas políticas se processassem civilizadamente.Acreditávamos que, no final da linha, prevaleceria a posição mais coerente. Mas, tínhamos clareza de que o processo revolucionário brasileiro seria bem diferente do cubano, p. ex., com um único grupo dirigente chegando ao poder.No nosso caso, seria um saco de gatos chegando ao poder. E o exemplo da Revolução Francesa, claro, nos assustava. Não queríamos lutas políticas resolvidas à bala ou com guilhotinas. Pretendíamos aproveitar as lições da História para não incorrermos nos erros do passado.

LUCIANO - Pode-se dizer que existe um movimento da extrema direita na internet preocupada em distorcer a história do período do regime militar?
Celso Lungaretti - Os sites fascistas difundem aquilo que os militares concluíram a partir dos seus Inquéritos Policiais-Militares, todos eles conduzidos com a prática generalizada e exacerbada da tortura. É claro que os IPM's não têm valor legal nenhum nem servem como referência histórica.Várias vezes já comentei que, em cada ação armada da esquerda, os IPM's relacionavam muito mais participantes do que os que realmente estiveram envolvidos na operação. Por que? Porque obtiveram essas informações de caras que estavam pendurados no pau-de-arara tomando choques. Então, o torturado só se preocupava em evitar a prisão dos companheiros, não estava nem aí para enquadramentos legais.Se o torturador perguntava "Fulano estava no sequestro?", o torturado, percebendo que era nisso que o fdp acreditava, dizia que sim. Não se desperdiçava energia para resistir nesse aspecto. O que importava mesmo era preservar as informações que levassem a quedas e desbaratamento de nossa estrutura.Então, os tais IPM's não passam de um samba-do-crioulo-doido. E esse pessoal de extrema direita, QUE CONSERVOU TUDO ISSO CONSIGO EM VEZ DE ENTREGAR PARA OS ARQUIVISTAS, deve até acreditar que está dizendo a verdade, nas acusações que lança contra cada um de nós.Mas, é um rosário de fantasias. Já disseram até que eu fui jurado num tribunal revolucionário. Nem sequer conheço o militante que dizem ter sido julgado, nunca julguei ninguém na vida e não soube de nenhum tribunal convocado pela VPR durante minha militância.
FERNANDO CLARO - Será que não havia uma glamourização em decorrência do êxito da Revolução Cubana?
Celso Lungaretti - Nossa inspiração maior eram os tupamaros uruguaios, que conseguiam golpear a ditadura de lá e chegaram a montar uma estrutura tão eficaz que parecia imune ao desbaratamento.Nós também tentávamos manter e fazer crescer a luta nas cidades. Pretendíamos derrubar a ditadura a partir da conjugação das lutas urbanas e rurais no país inteiro.A coluna guerrilheira só teria função propagandística, no início. Cabia-lhe fustigar o inimigo e escapar, PROVANDO QUE OS MILITARES PODIAM SER DERROTADOS. Estávamos plenamente cientes de que, se tentássemos formar um exército no campo, ele seria esmagado pelo inimigo. A coluna deveria apenas sobreviver e servir como exemplo, não crescer.Esta concepção, aliás, foi desenvolvida pelo Lamarca, conhecedor do poder de fogo do Exército. Já tínhamos deixado bem pra trás o foquismo dos cubanos.De certa forma, a fuga mirabolante do Lamarca do Vale do Ribeira até lhe pareceu dar razão. Mas, ele deve ter percebido que a desigualdade de forças era tão acentuada que o passe de mágica dificilmente se repetiria. Aquela proeza foi fantástica... e única.
MARIA CAROLINA- Gostaria de saber sobre o financiamento da ditadura. Quem financiava a OBAN e os outros órgãos repressivos?
Celso Lungaretti - A Oban nasceu clandestina. Foi criada por oficiais das Forças Armadas, com o apoio financeiro de empresários fascistas. Esses caras eram tão podres que alguns deles iam até praticar torturar por mero sadismo. Como estavam pagando, tinham direito. Foi por saber dessas histórias todas que o delegado Sérgio Fleury, quando tentou chantageá-los, acabou morto, numa das versões mais difíceis de engolir que já ouvi na vida: era dono de barco e teria caído ao no mar, afogando-se. Acredite quem quiser.É claro que, para os defensores dos direitos humanos no exterior, foi um prato cheio poderem trombetear que o Governo brasileiro mantinha um centro clandestino de tortura... com maior poder do que o Deops, a quem teoricamente deveria caber o papel de reprimir a luta armada.Depois, houve a morte do Chael Charles Schreier, no RJ, que escandalizou o mundo. O Chael era de ascendência judaica e os judeus têm enorme repugnância por mortes dos seus em situações que lembrem as práticas nazistas.O Chael morreu no quartel da PE da Vila Militar, no pau-de-arara. E os altos comandantes militares concluíram que a prática de cada Arma perseguir os militantes da luta armada por sua própria conta (de olho nas recompensas dos empresários fascistas e em tudo aquilo que apreendiam conosco e depois dividiam entre si) facilitava o descontrole. No caso do RJ, p. ex., a PE da Tijuca e a da Vila Militar não colaboravam entre si, mas competiam pelas presas.Então, resolveram botar ordem na casa: decidiram, de um lado, legalizar a Oban, transformando-a em DOI-Codi/SP, de forma que passou a receber recursos do governo (o que não impediu os empresários de continuarem dando propinas "por fora").Do outro, unir as três Armas nesses DOI-Codi's, de forma que nenhuma unidade saísse à caça por conta própria.E, no caso do RJ, determinaram que só participaria do DOI-Codi a equipe da PE da Tijuca. A da Vila Militar foi excluída do esquema, até como punição por ter deixado o Chael morrer.
FERNANDO CLARO - Não temos a sociedade com que sonhamos. Como você vê que seja travada a luta na atualidade e em que peca o governo Lula?
Celso Lungaretti - O maior pecado do Governo Lula, sem dúvida, foi o de ter adotado uma política econômica neoliberal, para gaudio dos banqueiros e dos grandes empresários.Mas, não vejo muita saída na política oficial, tanto que nem tenho criticado muito o Lula. Presumo que qualquer outro acabaria agindo da mesma maneira, já que o poder real é o econômico, sobrando pouquíssima margem de manobra para um presidente da República fazer verdadeiras mudanças.Em suma: o fundamental é intocável e o presidente só tem autonomia para decidir o secundário.É hora de apostarmos na organização autônoma e não-autoritária dos cidadãos, contra o capitalismo e contra o Estado.
CAMILA - Qual o seu sonho de um país?
Celso Lungaretti - O meu sonho é, basicamente, o sonho original de Marx: a humanidade liberta dos grilhões da necessidade, sem fronteiras, estados nem forças repressivas, com as pessoas colaborando para o bem comum ao invés de focadas no progresso pessoal.Depois, a repressão brutal dos exércitos estrangeiros à Comuna de Paris fez Marx retroceder um pouco, admitindo a necessidade do Estado enquanto o socialismo não se disseminasse por todo o planeta.Só que não deu certo. As revoluções em países isolados, ou foram sufocadas, ou se desvirtuaram. Então, eu defendo a retomada do projeto de 1848: a revolução internacional e consensual (ou seja, com o aval da maioria dos trabalhadores), ao invés de revoluções nacionais e do vanguardismo.O alerta que Trotsky lançou há um século permanece válido: "Primeiramente, o partido substituirá a classe operária. Depois. o Comitê Central substituirá o partido. Finalmente, um ditador substituirá o Comitê Central".Então, a tese leninista de que é necessária uma vanguarda para "explicar" a revolução ao povo atrasado resultou nefasta. Os trabalhadores têm de voltar a ser o sujeito da revolução, jamais seu objeto (ou seja, os beneficiários últimos das ações desenvolvidas em seu nome).
CAMILA - Qual o seu sonho de governo?
Celso Lungaretti - A abolição de governos como entes separados e colocados acima da sociedade, com suas funções sendo assumidas e incorporadas à rotina diária do conjunto dos cidadãos. Em suma, uma atualização do modelo da democracia grega, em que as decisões eram tomadas pelos cidadãos reunidos em praça pública.Aliás, vale lembrar que ser presidente, governador ou parlamentar não constituía profissão no início da própria democracia burguesa. Era uma honra e uma prestação de serviços à comunidade, não uma forma de ganhar dinheiro.Hoje, a política oficial atrai principalmente os indivíduos que têm mentalidade criminosa mas são covardes demais para correrem os riscos inerentes ao banditismo. A escória da escória.
CAMILA - Você se identifica mais com o anarquismo e a falta de governo?
Celso Lungaretti - Hoje sou, sim, anarquista. Mas, eu não diria "falta de governo". O governo se tornaria desnecessário, à medida que os cidadãos gerissem a si próprios, organizando-se para prover o necessário a cada um deles, de forma que pudessem todos desenvolver-se plenamente como seres humanos.
CAMILA - Se fosse dado a você o poder de reorganizar a sociedade, os meios de produção, imprensa, enfim, tudo, como seria a sociedade dos seus sonhos?
Celso Lungaretti - Se o aparato produtivo fosse todo direcionado para a produção do socialmente útil, cada cidadão desfrutaria de tudo de que realmente necessita, trabalhando apenas uma fração do que trabalha agora. E lhe sobraria tempo para viver.Isto implica a extinção de tudo que é parasitário e inútil, como instituições financeiras, propaganda, forças repressivas, etc. Quando a humanidade sair de sua pré-história, não precisará de nada disso.Se alguém quiser depois desperdiçar seu tempo livre criando/trocando/buscando artigos de luxo, será seu direito. Mas, talvez as pessoas aprendam que gratificante mesmo é o convivío fraterno com os iguais.Num filme de Godard, uma frase maravilhosa foi atribuída a Lênin, mas nunca consegui confirmar se é verdadeira ou criada pelo próprio cineasta: a de que a ética seria a estética do futuro.Aliás, uma pequena amostra do que seja viver numa coletividade em que cada um se preocupava com o outro e tentava seriamente contribuir para a felicidade alheia, eu tive vivendo em comunidade alternativa, em 1971/2.Quando você tem laços profundos com as pessoas de sua convivência, não precisa de geringonças tecnológicas nem de objetos que firmam status. Tínhamos poucos bens, mas não sentíamos falta de nada.
CAMILA - Qual era a sociedade dos seus sonhos na adolescência e quando você militou nos movimentos de esquerda?
Celso Lungaretti - Exatamente aquela a que me referi acima, a visão do Marx pré-Comuna de Paris. Uma sociedade em que cada um contribuísse no limite de suas possibilidades para que fossem atendidas as necessidades materiais de todos. O reino da liberdade, para além da necessidade - ou seja, com o homem livre de grilhões materiais, podendo gastar o melhor de suas energias para atividades criativas e prazerosas, não para essa competição obsessiva do capitalismo, essa corrida de ratos em que todos acabam, de uma forma ou de outra, derrotados. Era este o ponto de chegada de nossos esforços, o que nos animava a correr os riscos e suportar as dores daquela luta desigual que travamos.
CAMILA - Mudou em relação a hoje? No que a sua vida lhe modificou?
Celso Lungaretti - O sonho é o mesmo, só que eu era um jovem ingênuo, hoje sou um homem sofrido. Mas, continuo considerando que se justificam todos os esforços que eu possa fazer para legar um mundo bem melhor para minhas filhas e netos. O capitalismo atual é um pesadelo, conspurca tudo que há de belo, justo, digno e idealista nos seres humanos. Estimula e faz aflorar o que as pessoas têm de pior.
CAMILA - Quais os seus conselhos aos jovens de hoje que você gostaria de ter recebido, quando também era jovem, dos mais velhos e experientes?
Talvez eu não estivesse disposto a ouvir esses conselhos. Talvez os jovens de hoje não queiram meus conselhos.Mas, há duas lições aprendidas na minha caminhada, que eu tento passar às novas gerações: mais do que nunca, é necessário mudar o mundo, para que a vida valha realmente a pena ser vivida; mas, a empolgação nunca deve anular a reflexão, pois essas cruzadas envolvem riscos imensos.Como dizia uma velha canção tropicalista: "É preciso estar atento e forte", pois tudo é não só "divino-maravilhoso", como também "perigoso".
WALTER - O você acha das idéias de Darcy Ribeiro, quando falava que tudo teria de partir da educação?
Celso Lungaretti - A verdadeira educação ajudaria muito. Mas, não essa que está aí agora.A educação deveria ter o objetivo de formar cidadãos, no sentido maior do termo. Pessoas capazes de refletir sobre o mundo em que vivem e de nele atuarem conscientemente. Quem tem esse conhecimento mais amplo, domina facilmente as ferramentas da profissão que escolher.No entanto, a educação foi aviltada e desvirtuada, passando a priorizar as ferramentas, as profissões; o secundário, enfim. Capacita um indivíduo para trabalhar num ramo qualquer e mais nada.É por isso que hoje não formamos uma verdadeira elite, capaz de impor um rumo à sociedade e de evitar esse verdadeiro waterloo moral que as nossas instituições exibem. Já não temos dirigentes com visão de conjunto, apenas pessoas treinadas a pensar uma parte da parte.Quanto à resistência à ditadura, o quadro então era bem diferente. Tínhamos, sim, uma juventude intelectualizada, brilhante e criativa. Mas, os militares tinham a força bruta, em doses descomunais. E, infelizmente, a vida real é bem diferente dos episódios bíblicos. Quase sempre é Golias quem vence Davi.Ah, uma curiosidade: há um Colégio de São Paulo que atua exatamente na linha que eu proponho, priorizando a formação do cidadão, do líder e do dirigente da sociedade, não do mero profissional. E não tem nada de esquerdista. Pelo contrário, é rotariano. Trata-se do Colégio Rio Branco, no bairro de Higienópolis.
CAMILA - Por que uma forma de vida mais simples e mais prazeirosa, considerando o homem como ser social, são engolidas por outra que vai contra a essência do ser humano? Não é uma involução da sociedade?
Celso Lungaretti - Sua pergunta é ótima... mas requer uma resposta que não cabe nos limites deste papo. Se você quiser enfrentar o desafio, eu lhe recomendaria livros como A Ideologia da Sociedade Industrial e Eros e Civilização, de Herbert Marcuse; e Morte Contra Vida, de Norman O. Brown.
De uma forma extremamente simplificada, eu colocaria que a desigualdade e o espírito de competição levaram os homens a realizarem os esforços necessários para o desenvolvimento das forças produtivas. O privilégio, o ter mais do que os outros, era a cenoura que se colocava na frente dos asnos para fazê-los andar para a frente.Até onde isso fazia sentido? Até que o homem, em sua escalada para o progresso, atravessasse a barreira da necessidade. Ou seja, até que desenvolvesse a tal ponto a capacidade produtiva, que se tornasse capaz de produzir o suficiente para suprir as necessidades básicas de todos os homens do planeta.Chegado esse ponto, a desigualdade não teria mais papel, tornando-se inútil e odiosa. Havendo riquezas suficientes, estavam criadas as premissas para um mundo solidário e justo.No entanto, o capitalismo organizou-se para impedir que a produção se direcionasse para o socialmente útil, que as riquezas fossem divididas equitativamente, que os homens trocassem a competição pela cooperação, que a jornada de trabalho fosse reduzida e os cidadãos tivessem mais tempo para desenvolverem-se como seres humanos.Isto vem desde o século passado: queimas de produtos para evitar a queda de preços, desenvolvimento de burocracias e atividades parasitárias, belicismo (a produção de armamentos e munição é uma forma de mobilizar trabalho sem trazer contribuição nenhuma às pessoas).Se se utilizassem os esforços para produzir o que é necessário e distribui-lo equitativamente, todos viveríamos infinitamente melhor. Mas, os esforços foram desviados para outras finalidades e o básico continuo faltando para boa parte da humanidade.Assim, como nem todos têm tudo de que necessitam, continua havendo o estímulo para alguns tentarem ter mais do que os outros; e continua havendo uma fatia da produção voltada para a ostentação e o luxo, o suntuoso e o desnecessário.E a indústria cultural, cada vez mais articulada para a manipulação científica das consciências, cumpre exatamente o papel de incutir nos seus públicos a noção de que esse mundo degradado é o único possível, e de que quem propõe alternativas não tem senso de realidade.
Este artigo foi retirado de:

http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/07/resistencia-memoria-reflexao.html

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Gripe Suína - O apocalipse, a pandemídia


Por Gabriel Perissé
Do Observetório da Imprensa (28/7/2009)

Algo semelhante aconteceu por ocasião do surto/susto da febre amarela, sobre o qual escrevi um artigo neste
Observatório da Imprensa. Um ano e meio se passou e nos encontramos novamente envolvidos em clima apocalíptico, apavorados agora com tosses e espirros, embalados por notícias e informações que podem confundir e apavorar mais do que esclarecer.
Virou motivo de piada a explicação que o governador José Serra deu sobre a origem e transmissão da iminente "tragédia", no
YouTube. Mas não fizeram melhor papel outras instâncias. Há dois meses, vários meios de comunicação divulgaram que "pandemia de gripe suína poderia infectar 2 bilhões", em que o uso do futuro do pretérito ("poderia"), indicando que tudo depende de certas condições, não consegue (nem conseguiria...) aplacar-nos o medo de estar entre esses 2 bilhões de infelizes!
No dia 19 de julho, outra chamada alarmista – "Gripe pode afetar até 67 milhões no Brasil em até oito semanas" –, na Folha de S.Paulo e na
Folha Online, o que provocou a reação do ombudsman da Folha no domingo seguinte, criticando a irresponsabilidade dessa reportagem assinada por Hélio Schwartsman.
Mortes no trânsito e por automedicação
Já no dia 25 de julho, a própria Folha lembrou que "gripe comum mata 17 por dia em São Paulo", baseando-se em dados segundo os quais, só na cidade de São Paulo, morreram 6.324 pessoas ao longo de 2008 em decorrência de males provocados pela gripe nossa de cada ano. Na revista Época desta semana (nº 584), o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, explica (seria seu papel fazê-lo com mais contundência e mais rapidez) que esta gripe não é pior do que a sazonal.
Pandemias outras são esquecidas. Forçando o sentido da palavra, mas em sintonia com a sua origem etimológica, toda a desgraça que atinge o "povo inteiro" é pandêmica.
Só o trânsito no Brasil matou cerca de 7 mil pessoas em 2007 e, graças à Lei Seca, um pouco menos em 2008: algo em torno de 5 mil e quinhentas pessoas. Fazendo as contas, podemos admitir que a cada mês morrem muito mais brasileiros em acidentes automobilísticos do que morreram até agora com a famosa gripe suína.
A Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Abifarma) divulgou recentemente que, no Brasil, 50 pessoas morrem por dia por complicações causadas pela automedicação!
Outras pandemias: a das drogas, a do ensino deficiente, e a do pânico induzido pela mídia...
Texto Original publicado em:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=548FDS001

Eles (EUA) de olho no pré-sal

Pré-sal desperta interesse de americanos

Do Jornal Valor Econômico (29.07.2009)
Por Ricardo Balthazar, de Washington

Empresas americanas que fornecem equipamentos e serviços para a indústria do petróleo estão se preparando para participar da exploração da camada pré-sal no Brasil mesmo se as mudanças que forem feitas na legislação brasileira inibirem a entrada de grupos estrangeiros nos novos blocos.
Essas empresas acreditam que a experiência que acumularam no setor oferece vantagens para o Brasil e decidiram lançar uma ofensiva para convencer as autoridades brasileiras disso, assegurando um volume significativo de recursos do governo americano para apoiar sua iniciativa.
"Nossas empresas têm grande experiência técnica nessa área e podem oferecer vantagens que competidores de outros países não têm", disse em entrevista ao Valor Fred Hochberg, presidente do Export-Import Bank dos Estados Unidos, a agência oficial de fomento às exportações de produtos americanos.
Em maio, o Ex-Im Bank assinou com a Petrobras um acordo em que se compromete a financiar US$ 2,2 bilhões em compras de bens e serviços de empresas americanas pela estatal brasileira. Nenhum negócio foi fechado até agora, mas a linha de crédito continua aberta no guichê da agência.
Hochberg chega hoje ao Brasil para uma visita de três dias, em que fará contato com empresas e funcionários do governo. Sua agenda prevê encontros com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, e executivos da Petrobras e da Vale. Ele assumiu a presidência do Ex-Im Bank há apenas dois meses.
O governo brasileiro está preparando várias mudanças na legislação que regula a exploração de petróleo no país e planeja adotar um novo modelo para os campos do pré-sal. Uma das propostas em discussão prevê a participação obrigatória da Petrobras como operadora de todos os novos blocos, o que daria à estatal maior controle sobre os investimentos que serão realizados e a contratação de fornecedores.
O projeto do governo deverá ser apresentado ao Congresso em agosto. Um dos seus objetivos é evitar que a exploração das gigantescas reservas de petróleo encontradas do pré-sal gere desequilíbrios na balança comercial do país e prejuízos para a indústria nacional, que teme ser passada para trás por fornecedores estrangeiros se não tiver ajuda.
"Independentemente do que o governo fizer para administrar suas reservas e a entrada de grupos internacionais no setor, o Brasil vai precisar de plataformas e equipamentos que não tem para explorar esses recursos", afirmou o chefe de operações do Ex-Im Bank, John McAdams. "Haverá muitas oportunidades para empresas americanas."
De acordo com o relatório anual da Petrobras, 78% das compras efetuadas pela empresa no ano passado foram feitas no Brasil. O plano de investimentos da companhia estabelece como meta para os próximos anos um índice de conteúdo nacional equivalente a 64% do valor total dos seus projetos.
O Ex-Im Bank ajuda a financiar uma fatia muito pequena do comércio americano, mas sua importância para muitas empresas cresceu com a crise internacional e a contração dos mercados de crédito. A agência viabilizou cerca de US$ 20 bilhões em vendas de produtos americanos no ano passado, quando as exportações dos EUA alcançaram US$ 1,3 trilhão.
O Ex-Im Bank tem atualmente uma carteira de US$ 2,3 bilhões em empréstimos e garantias concedidas ao Brasil. A agência ajudou a financiar nos últimos anos vendas de aviões da Boeing para a Gol e a TAM, helicópteros para a Líder Táxi Aéreo e equipamentos para a Vale e a Petrobras. A importância da agência para o Brasil foi maior na década de 90, quando o acesso do país a outras fontes de financiamento externo era mais restrito.
Hochberg diz ter interesse em financiar a venda de equipamentos para usinas hidrelétricas e outros projetos de interesse do governo e pretende discutir o assunto com Lobão. Mas sua prioridade agora é pôr em uso a linha de crédito aberta para a Petrobras. "Estamos ansiosos para ver essa linha aproveitada rapidamente, para que possamos pensar em outros projetos", disse.O maior cliente da agência americana atualmente é o México, onde sua exposição se aproxima de US$ 8 bilhões. A maior parte desse dinheiro financiou vendas de equipamentos e serviços para a Pemex, a companhia estatal que detém o monopólio da exploração de petróleo do México.
Fonte: Jornal Valor Econômico.

Gripe Suina - Contar os mortos, disseminar o pânico



Observatório da Imprensa em 28/7/2009
Por Luiz Antonio Magalhães

Sim, há uma nova gripe circulando no país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, como de resto em praticamente todo o mundo. É fato. Algumas pessoas vão morrer da moléstia, como de resto morre gente vítima das outras gripes existentes. Também é fato. O que tem sido visto na grande imprensa brasileira nos últimos dias, porém, é praticamente um crime contra o bom senso e a inteligência do distinto público.

A cobertura da chamada gripe suína (o nome correto é Influenza A H1N1) se tornou uma verdadeira aberração, provoca pânico na população e certamente vai se mostrar exagerada em menos de dois ou três meses, quando os números da tal "terrível pandemia" começarem a murchar.
Como a mídia não tem autocrítica, porém, logo surgirá outro assunto para a irresponsabilidade dos responsáveis pelas manchetes e escaladas dos telejornais.
Não é preciso ser gênio para perceber que a cobertura dos últimos dias e semanas, focada na contagem do número de mortos que a maléfica gripe já provocou no país, não tem nenhuma outra utilidade senão a de disseminar o pânico. O ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, em sua coluna dominical (26/7) reproduzida ao final deste texto, classificou a cobertura da Folha – e em especial uma reportagem publicada no domingo anterior (19/7), intitulada "Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses" – como "um dos mais graves erros jornalísticos cometidos por este jornal desde que assumi o cargo, em abril de 2008".
Carlos Eduardo se limitou a escrever sobre a Folha, mas as suas observações valem para praticamente todos os grandes jornais e telejornais.
Todos os dias o público vai sendo informado do número de mortos em decorrência da nova gripe, porém sem qualquer referência estatística ou base comparativa que permita a compreensão do fenômeno em curso.
O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, já explicou, inclusive no programa televisivo deste Observatório, que a taxa de letalidade da gripe suína é a mesma da gripe comum – cerca de 0,6% dos infectados acabam morrendo. (Para ser preciso, usando os dados da OMS divulgados na segunda-feira, 27/7, são 87 mil infectados nas Américas para 707 mortes. A taxa de letalidade fica em 0,8%, mas deve ser muito mais baixa porque os países pararam de fazer testes para descobrir os infectados, que devem superar em muito os 87 mil).
Do ponto de vista da imprensa, porém, este é um dado que não deve ser de maneira alguma alardeado – afinal, notícia ruim é o que vende jornal e aumenta audiência na televisão. As estatísticas também mostram que morre muito mais gente de diarréia e verminose por semana no Brasil do que, desde o início do ano (quase oito meses!) de gripe suína. Aliás, só no inverno passado (junho/julho) foram 4,5 mil mortos da gripe "normal" contra os tais 45 da gripe suína neste ano.
Recordar é viver
O pior de tudo é que a mídia insiste em não aprender com os erros passados. Ao contrário, gosta de repetir os mesmos equívocos, mesmo que eles possam vir a cobrar seu preço em perda de credibilidade. A cobertura da nova doença, por exemplo, faz lembrar um pouco a do tal do Ebola, o vírus que dizimaria meia África e deixaria um rastro de desgraça pelo mundo afora. Na época (edição de 9 de agosto de 2000), a revista Veja publicou reportagem cujos títulos e lides eram os seguintes:
Truque assassino
Descoberto mecanismo de infecção do vírus Ebola, que mata nove entre dez contaminados
O Ebola é um pesadelo. Capaz de liquidar suas vítimas em poucos dias, é o mais violento de todos os vírus. De cada dez pessoas contaminadas, nove morrem. Isso ocorre porque o microrganismo ataca veias e artérias de todo o corpo, provocando hemorragia generalizada. Certos órgãos, como o fígado e os rins, simplesmente se desfazem e o sangue jorra em tal profusão que sai pelos olhos e poros. Na semana passada, cientistas americanos anunciaram o primeiro passo para combater esse assassino cruel: a descoberta da proteína usada pelo Ebola para destruir as células, causando o rompimento dos vasos sanguíneos. Entender o mecanismo de infecção torna possível o desenvolvimento de recursos para controlá-lo. "Remédios exigem maior prazo de pesquisa, mas uma vacina pode ser desenvolvida com rapidez", disse a VEJA Gary Nabel, coordenador da pesquisa no Instituto Nacional de Saúde, responsável pelos estudos com o vírus, nos Estados Unidos.
Bem, a África continua por lá e os africanos também. Mundo afora, parece que não foi muita gente que morreu contaminada pelo "pesadelo" da Veja, que mataria nove de cada dez contaminados. É evidente que a taxa de letalidade não poderia ser tão alta, é óbvio que a "reportagem" era uma aula de sensacionalismo barato.
Sensacionalismo ou motivação política
A reportagem da Folha, cuja irresponsabilidade foi apontada pelo ombudsman do jornal, é apenas um exemplo entre tantos outros que poderiam ser colhidos ao acaso em todos os grandes veículos de comunicação do país. Resta então analisar por que a mídia brasileira realiza uma cobertura tão equivocada da gripe suína. Vamos lá:
Qualquer estudante de primeiro ano de jornalismo ou qualquer jovem esperto, sem diploma, que entrar em uma redação percebe, em questão de minutos, o verdadeiro fascínio que as más notícias exercem sobre os jornalistas. Notícia ruim, tragédia das realmente pesadas, vende muito mais do que fatos positivos. A menos, é claro, que a boa notícia seja algum novo milagre de Fátima, a cura definitiva do câncer ou vitória da seleção em Copa do Mundo. O fato é que jornalistas gostam de notícias ruins porque elas vendem, portanto os ajudam a levar para casa o leitinho das crianças (em alguns casos, o "leitinho" é para os adultos mesmo). Enfim, a vida é dura e nada como uma boa manchete trágica para chamar atenção do público.
Por outro lado, já circula na internet, em blogs pró e contra o atual governo, a versão de que a cobertura da imprensa no caso da gripe suína visa desestabilizar o até aqui muito bem avaliado trabalho do ministro Temporão e, por tabela, tirar mais uns pontinhos da altíssima popularidade do presidente Lula. Sim, é a clássica teoria conspiratória: a mídia contra o governo, usando as armas disponíveis, mesmo que elas signifiquem botar no papel ou na telinha da televisão algo que pouco tem a ver com a realidade. Para os partidários desta teoria, o caso da gripe seria ainda mais estratégico, pois o candidato preferido da oposição ao cargo de Lula, o governador paulista José Serra (PSDB), foi ministro da Saúde, e a "desconstrução" da competência do atual ministro cairia como uma luva para a candidatura tucano-demista em 2010. Quem advoga esta tese lembra as "crises artificiais" criadas pela mídia, como a aérea, que no entanto pouco ou nada afetaram a popularidade do governo Lula.
É claro que ainda é cedo para dar um veredicto final sobre a cobertura da imprensa da gripe suína, mas já é possível sustentar a hipótese de a fome (de audiência e vendas) estar colada à vontade de comer (prejudicar um governo em relação ao qual a grande imprensa sempre foi francamente hostil). Os fatos, porém, acabam se impondo e são sempre mais fortes do que as versões construídas pela mídia, como prova o caso do "sequestro da caderneta de poupança", tão ventilado nas folhas e que se mostrou frágil como um castelo de cartas. Portanto, nada como um dia após o outro para que um quadro mais preciso das reais motivações da mídia nesta cobertura acabe aparecendo. O distinto público, para desalento de certos mancheteiros, é mais esperto do que se imagina...
***
No limite da irresponsabilidade
Carlos Eduardo Lins da Silva # reproduzido da Folha de S. Paulo, 26/7/2009
"A reportagem e principalmente a chamada de capa sobre a gripe A (H1N1) no domingo passado constituem um dos mais graves erros jornalísticos cometidos por este jornal desde que assumi o cargo, em abril de 2008.
O título da chamada, na parte superior da página, dizia: ‘Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses’. A afirmação é taxativa e o número, impressionante.Nas vésperas, os hospitais estavam sobrecarregados, com esperas de oito horas para atendimento.
Mesmo os menos paranóicos devem ter achado que suas chances de contrair a enfermidade são enormes. Quem estivesse febril e com tosse ao abrir o jornal pode ter procurado assistência médica.
O texto da chamada dizia que um modelo matemático do Ministério da Saúde `estima que de 35 milhões a 67 milhões de brasileiros podem [em vez de devem, como no título] ser afetados pela gripe suína em oito semanas (...). O número de hospitalizações iria de 205 mil a 4,4 milhões´.
É quase impossível ler isso e não se alarmar. Está mais do que implícito que o modelo matemático citado decorre de estudos feitos a partir dos casos já constatados de gripe A (H1N1) no Brasil.
Mas não. Quem foi à página C5 (e não C4 para onde erradamente a chamada remetia) descobriu que o tal modelo matemático, publicado em abril de 2006, foi baseado em dados de pandemias anteriores e visavam formular cenários para a gripe aviária (H5N1).Ali, o texto dizia que `por ser um esquema genérico e não um estudo específico para o atual vírus, são necessários alguns cuidados ao extrapolá-lo para o presente surto´.
Ora, se era preciso cautela, por que o jornal foi tão imprudente? Ou, como pergunta o leitor Martim Silveira: `já que não tem base em nada nas circunstâncias atuais, qual a relevância de publicar algo que evidentemente só pode causar pânico numa população que já está abarrotando os postos de saúde por causa da gripe, quando os casos mal passam do milhar?´
Muitos leitores se manifestaram ao ombudsman. José Rubens Elias classificou a chamada de `leviana e irresponsável´. José Roberto Teixeira Leite disse que `se o objetivo do jornal era espalhar pânico, conseguiu o intento´. Para José Clauver de Aguiar Júnior, `trata-se claramente de sensacionalismo´.
O pior é que a Redação não admite o erro. Em resposta à carta do Ministério da Saúde, que tentava restabelecer os fatos, respondeu com firulas formalistas como se o missivista e os leitores não soubessem ver o óbvio. Em resposta ao ombudsman, disse que considera a chamada e a reportagem `adequadas´ e que `informar a genealogia do estudo na chamada teria sido interessante, mas não era absolutamente essencial´."
Texto Original em :
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=548FDS002

Podridão no Senado Federal

Por Luiz Bicalho
A crise econômica ajuda a aprofundar ainda mais a crise das instituições burguesas. Começam a se revelar fissuras no seio da burguesia que já não pode mais negar a sujeira no Congresso Nacional, mas busca passar que existe uma ‘parte ética’.
O Senado brasileiro é composto por 81 senadores, hoje distribuídos segundo os seguintes partidos:


Casa do Povo ou Casa da Burguesia?
Teoricamente, o Governo Lula, eleito pelo povo trabalhador, contaria então mais de 65% dos votos no Senado Federal. Esta conta, porém, é ilusória.
Em termos gerais, só existem dois partidos de base operária no Senado: o PT e o PCdoB - contando os dois juntos com 13 senadores.
Além destes, podemos contar uma série de partidos nacionalistas e pequeno-burgueses (PDT, PSB, PSOL), que contam com 8 senadores ao todo. Somando os partidos de base operária aos partidos nacionalistas e pequeno-burgueses, chegamos a um total de 21 senadores.
A grande e média burguesia contam então com o restante dos senadores (PMDB, DEM, PSDB, PP, PR, PRB, PTB) totalizando 60 senadores. Ou seja, em termos de classe, a classe operária é sub-representada neste órgão, ainda mais que dos senadores todos, hoje, somente 1 tem origem ligada à luta operária (Paulo Paim, PT-RS). Os demais senadores do PT são médicos (2), professor universitário (4), Servidor público (2), professor do ensino médio (2), engenheiro chefe (1). Como se vê, a maior parte da base organizada do PT que são os operários industriais, contam somente com um representante direto.
Este órgão então, que representa e bem a grande burguesia, no momento em que a crise atinge o país - crise econômica com amplas repercussões sociais e políticas - este órgão formado pelos políticos “mais experientes” do país, contando com dois ex-presidentes (Sarney e Collor), começa a exalar um odor putrefato como há algum tempo não se via.Lembremos: quando se falam das patifarias, toda a imprensa anota que elas começaram muito tempo antes. Então, o que levou a que somente agora tudo isso viesse a lume? Por que não conseguiram fazer, como de outras vezes, um grande “acordo de cavalheiros” que encobertasse tudo, redistribuindo benesses, favores e cargos entre os diferentes envolvidos para que todos calassem a boca?Formalmente, a crise tem origem na disputa da presidência do Senado, onde se enfrentaram o Senador Tião Viana (PT) e o Senador José Sarney (PMDB), dividindo um setor “ético” contra o setor ligado ao Senador Renan Calheiros (PMDB) que no ano passado esteve ameaçado de ser cassado e só sobreviveu devido ao apoio do governo à manutenção de seu mandato.
Renan, seguramente o homem mais poderoso do Senado, que já foi presidente da instituição e levou ao máximo o procedimento de distribuição de benesses e nomeações, é o Senador mais articulado e, na luta contra a sua cassação, obteve uma ampla ascendência sobre os outros senadores. Ele articulou a candidatura de José Sarney, este senhor que sempre consegue um alto posto com as sobras dos outros. Virou presidente por ser vice na chapa de Tancredo Neves quando do fim da ditadura militar. Virou presidente do Senado para que não aparecesse de modo tão evidente a figura do “grande eleitor” que era Renan Calheiros.
O PT, que muitas vezes dobrou-se e redobrou-se para manter a “base aliada” unificada, traindo cada vez mais a classe, em diferentes votações contrárias ao interesse dos trabalhadores (Reforma da Previdência, MP da “regularização” das terras, etc.), encheu-se de brios e resolveu mostrar ao que veio, tendo lançado um candidato para “renovar” o Senado antes de Sarney e mantendo este candidato contra a candidatura de “consenso” que Sarney pretendia representar.Na votação, Sarney obteve 49 votos e Tião Viana 32.
Se olharmos o quadro com atenção, lembramos que a classe operária junto com a pequena burguesia tem 21 senadores, sendo esta a base principal que votou em Viana. De última hora, por divergências com Renan, o PSDB aliou-se a Tião e lhe garantiu mais 11 votos. Sim, a partida estava decidida e, a partir daí, nada deveria se mexer.
Mas, em tempos de crise, pequenos movimentos podem levar a grandes conseqüências. Nós estamos vendo isso no Irã e, embora a batalha “titânica” do Senado possa ser comparada a uma briga de botequim (para não dizer uma briga num bordel) frente ao tamanho da Revolução Iraniana, a situação guarda uma certa semelhança: lá uma eleição fraudada, como sempre fraudaram as eleições por lá, levou a um movimento de massas impressionante (ler artigo de Alan Woods: A Revolução Iraniana: O que significa e para onde vai?).
Aqui, Renan, não se contentando em apenas ganhar as eleições, ao invés de se comportar como sempre se comportaram os vencedores destas “batalhas titânicas” no senado - tentando agraciar ao máximo os vencidos e recompô-los dentro das benesses e cargos - resolve que não quer ficar sozinho com a pecha de “anti-etico”. E resolve atacar o Senador Tião Viana, depois das eleições, deixando “vazar” para a imprensa que a filha de Tião usara o telefone de uso exclusivo do Senado em uma viagem de férias para o México, gerando uma conta de mais de 14 mil reais. Tião, irritado, paga a conta e resolve dar o troco. Assim começaram as “batalhas titânicas” do Senado - esse local sagrado da alta sapiência política, onde o que mais se troca são cargos e benesses e pouco se trata do interesse público e da nação.
As denúncias começaram a se suceder, de nomeações de filhos de senadores, de viagens internacionais com dinheiro do Senado, de pagamento de viagens para parentes (até o “tão ético” Suplicy entrou nessa, pagando as viagens de sua namorada com a cota do Senado) e chegaram até o esquema que organizava tudo isso.
Um bode expiatório Aqui, queremos fazer a defesa do Sr. Agaciel Maia, um injustiçado.
Há 14 anos na Diretoria Geral do Senado, posto que ocupou com diversos presidentes de diferentes partidos:
José Sarney (PMDB) de 1995 a 1997;
Antonio Carlos Magalhães (PFL - hoje DEM) de 1997 a 2001;
Jader Barbalho (PMDB) de 2001 a 2003;
José Sarney (PMDB) de 2003 a 2005;
Renan Calheiros (PMDB) de 2005 a 2007;
Tião Viana (PT) por dois meses de 2007 (após renúncia de Renan, assumiu pois era o vice);
Garibaldi Alves (PMDB) de 2007 a 2009;
José Sarney (PMDB) eleito novamente em 2009.
Como podemos ver, o Senado consegue quase sempre eleger parlamentares do PMDB, exceção feita ao breve período em que ACM foi presidente (em dois mandatos).
E todos os presidentes mantiveram Agaciel na Diretoria Geral. Reconheça-se que o Senador Tião Viana (PT) teve pouco tempo para mudar qualquer coisa, pois assumiu sendo vice de Renan Calheiros em 11/10/2007 e foi substituído em 12/12/2007 por Garibaldi Alves, sendo o seu mandato interino enquanto não se realizava nova eleição.
Hoje, na situação atual, todos apontam Agaciel como o responsável, inclusive os que mais se apresentam como lideres dos éticos, Cristovam Buarque (PDT), Artur Virgilio (PMDB) e Mercadante (PT).
Mas, se ele cometeu todos os crimes possíveis, como ninguém notou nada e como todos os presidentes de Senado o mantiveram por 14 anos?
Apontar o dedo para Agaciel e seus auxiliares e esquecer quem os nomeou é uma tentativa canhestra de, uma vez que toda a sujeira subiu do porão para o teto da casa, querer fingir que tudo está bem e que os “coitadinhos” dos senadores nada tiveram a ver com isso.E a sujeira aumenta a cada dia. Nomeação de parentes, o que todo mundo já desconfiava e volta e meia isso é assunto de alguma nova denúncia. Nada de novo por aí. Agora, que dois senadores tenham funcionários morando no exterior – um lotado no gabinete da Senadora Seris (PT) e mora em Nova York, outra na liderança do PTB, Isabela Murad, é parente de Sarney e mora em Barcelona (Espanha).
Realmente, a coisa foi um pouquinho além do “normal”.Depois, todos os contratos de terceirização feitos pelo senado, foram feitos sem o uso de pregão eletrônico, embora seja lei o uso deste. Uma comissão designada para estudar tais contratos recomendou a anulação de todos os contratos!E todos estes processos, nomeações, contratações, passagens, diárias indevidas pagas a senadores, tudo isso foi feito através de atos secretos que uma comissão contabilizou em 663 atos secretos! Isto quando a Constituição Federal declara a necessidade da publicidade dos atos para serem válidos. A mesa do Senado reuniu-se e decidiu que somente um ato (o que concedia auxílio médico vitalício para Agaciel e seus dependentes) seria anulado, mantidos todos os outros 662! E, engraçado, se nos primeiros dias vários senadores vieram pedir a nulidade dos atos, como corretamente está mantendo um procurador da república designado para o caso, isto agora desapareceu do discurso até dos “éticos”, sendo substituído pelo pedido de afastamento de Agaciel. Ou seja, já temos o nosso bode expiatório, para que mexer com aquilo que nos ajudou durante 14 anos? Essa é a lógica que todos seguem e continuam seguindo.Agora veio à tona que o senado mantinha duas contas à parte da contabilidade pública – esta que funciona com base numa conta única do tesouro nacional. Quais os pagamentos que foram feitos por estas contas? Como o dinheiro foi parar lá? Quem foi o Senador que autorizou a abertura de tais contas e a transferência de dinheiro para elas? Quem era o senador que autorizava os pagamentos que saíam de tais contas? São perguntas legítimas, mas ganhará um doce quem apostar que provavelmente estas perguntas não serão respondidas e que, muito rapidamente, também este crime será imputado ao “poderoso chefão” Agaciel ou a qualquer outro bode expiatório que apareça pelo caminho. Mais ainda, que toda a investigação contará com a prestigiosa ajuda do TCU (Tribunal de Contas da União), cujos Ministros são nomeados pelos... senadores! Os mesmos senadores que eles deveriam investigar. Alguém espera algo destes “auditores”?
A podridão existe e funciona há muito tempo. O problema é que em tempos de crise uma pequena faísca pode desencadear um incêndio de enormes proporções. Principalmente quando as brigas se sucedem e até mesmo as CPIs que são montadas (como a CPI da Petrobrás, ver outro artigo meu: Reforma Política e CPI da Petrobrás) servem para disputar cargos e verbas eleitorais e outras não tanto eleitorais. Uma pequena frase de que “eu sou a parte ética” leva a uma pequena denúncia sobre uso de telefone pela filha do senador e, a partir daí, toda a podridão é escancarada. Toda? Não sejamos tão otimistas.
O cheiro ruim e a lama podre já se derramam demais. Mas muito mais pode subir, à medida em que as brigas pelo botim que escasseia (numa crise escasseiam verbas, até para estes fiéis serviçais da burguesia) se tornam cada vez mais desesperadas.
A Esquerda Marxista tem uma posição simples: O senado é uma instituição burguesa e como tal sempre foi um apêndice anti-democrático do Estado burguês, que em nome de manter a igualdade dos estados, serve para construir um órgão muito mais afastado da população que os demais.
O mandato de 8 anos para cada senador é algo que não existe em mais nenhum lugar. Assim, para termos um país verdadeiramente democrático, extinguir o Senado seria um pequeno passo.É claro que, em nossa opinião, isso não anistia nenhum dos crimes e roubos ali cometidos e, principalmente os mandantes, deveriam ser processados e presos. Além disso, é evidente que a existência da Câmara somente não eliminará toda a podridão que lá também existe e que os deputados estão tentando manter escondida, surfando em cima dela. O exemplo mais recente é o “parecer jurídico” que anistia os deputados que pagaram passagens para familiares, amigos e amantes.Sim, em tempos de crise, os mares de lama que constituem a administração burguesa sobem e ameaçam passar por cima de todos.
É possível limpar este mar de lama? Evidente que só é possível com uma revolução socialista, com a classe trabalhadora tomando o poder e expulsando de seus “altos cargos” esta escumalha que reúne senadores, altos funcionários, altos juízes, etc.A experiência da Comuna de Paris, onde todos os seus integrantes e funcionários ganhavam o mesmo salário de um operário especializado ou ainda a experiência dos primeiros anos dos Sovietes da URSS mostram que é possível.
O trabalho da Esquerda Marxista é ajudar os operários a fazerem a experiência, a entenderem quais são as classes representadas por estes senhores e que nada podemos esperar das administrações burguesas.
O Texto Original encontra-se em:

segunda-feira, 27 de julho de 2009

"Futebolistas e Padres" tentando explicar democracia.

Vejo na mídia "Futebolistas e Padres" tentando explicar democracia. Os estúpidos querem associar democracia direta com autoritarismo - Bobbio neles...

Por Luciano Agra
Democracia Direta versus Democracia Representativa: Uma Divisão Incompatível com Algumas Reinvenções.
O que é a democracia representativa? A democracia direta é realmente possível? Muitas perguntas, muitas respostas. Na democracia direta o povo exercita o poder democrático de forma direta sem representante, ele que elabora as leis, administra e julga. O povo exerce todos os poderes ao mesmo tempo. Na democracia indireta ou também chamada de democracia representativa, o povo elege seus representantes, que passam a responder em nome dele para administrar e conduzir o Estado na efetivação dos direitos. A consolidação da democracia representativa, porém, não impediu o retomo à democracia direta. Embora sob formas secundárias. Ao contrário, o ideal da democracia direta como a única verdadeira democracia jamais desapareceu, tendo sido mantido em vida por grupos políticos radicais que sempre tenderam a condenar democracia representativa não como uma inevitável adaptação do princípio da soberania popular às necessidades dos grandes Estados, mas como um condenável ou errôneo desvio da idéia originária do governo do povo, pelo povo e através do povo. Bobbio também apresenta uma sistemática a respeito dos quais seriam as principais formas de democracia: a democracia direta e a democracia representativa. Por democracia direta entende-se como a participação de todos os cidadãos em todas as decisões governamentais. Já um Estado representativo é um Estado no qual as deliberações políticas são tomadas por representantes eleitos. Entretanto, assim como afirma Bobbio, democracia direta e representativa podem se integrar reciprocamente, conformando a democracia íntegra e que, entre estes dois tipos de democracia, há um continuum de formas intermediárias. No Brasil, análises sobre iniciativas de governos locais apontam para a concretização de novos formatos que aliam democracia direta e representativa. Palavras-Chave: Norberto Bobbio - Democracia - Historiografia política.
Este estudo procura discutir, intertextualizar, compartilhar, contextualizar a relevância da democracia direta que se realiza em ato sob o aspecto do sufrágio universal, bem como, restritamente, pelos segmentos organizados da sociedade civil. É preciso destacar ainda que a democracia representativa ou liberal enfatiza a liberdade. Considera-se relevante às diferenças individuais e as singularidades, que, no entanto, é pluralista. É conduzida pelos representantes mandatários da coletividade, que devem prestar contas de suas ações. Exige-se transparência e visibilidade, qualidades imprescindíveis para a constituição do regime democrático. Aliás, "uma das razões da superioridade da democracia diante dos estados absolutos, funda-se sobre a convicção de que o governo democrático poderia finalmente dar vida à transparência do poder, ao 'poder sem máscara'". Nos Estados constitucionais como o brasileiro, o caráter público deve ser a regra, e o segredo, a exceção. A constituição brasileira prevê no seu Artigo 37, que a administração pública, obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade etc. Portanto, o que é de interesse público deve ser do conhecimento coletivo. Isto significa dizer que:
Parto de uma constatação sobre a qual podemos estar todos de acordo: a exigência, tão freqüente nos últimos anos, de maior democracia exprime-se como exigência de que a democracia representativa seja ladeada ou mesmo substituída pela democracia direta Tal exigência não é nova: já a havia feito, como se sabe, o pai da democracia moderna, Jean-Jacques Rousseau, quando afirmou que " a sabedoria não pode ser representada" e, portanto, "o povo inglês acredita ser livre mas se engana redondamente; só o é durante a eleição dos membros do parlamento; uma vez eleitos estes, ele volta a ser escravo, não é mais nada".(BOBBIO, 2000, p. 53)
É neste fragmento acima em seu texto "Democracia representativa e democracia direta", que Norberto Bobbio discute as relações entre democracia representativa e democracia direta e afirma que tal exigência já havia sido feita por Jean-Jacques Rousseau, quando salientou que a soberania não pode ser representada e, por esse motivo, o povo inglês acredita ser livre, mas só o é durante a eleição dos membros do parlamento. Após a eleição, o povo voltava a ser escravo, como argumentava Rousseau, acrescentando que uma verdadeira democracia jamais existiu, nem existirá, pois demanda muitas condições difíceis de serem reunidas. Faz necessário afirmar, que a primeira delas seria um estado muito pequeno, onde fosse fácil reunir o povo e onde cada cidadão pudesse facilmente conhecer todos os demais, e em segundo lugar, uma grande simplicidade de costumes, de tal modo que evitasse a multiplicação dos problemas e as discussões mais difíceis. Seria necessária, também, uma igualdade de condições e fortunas, ainda segundo Rousseau, para quem, se existisse um povo de deuses, seria governado democraticamente. Mas um governo assim perfeito não é feito para os homens.
Desta maneira, pode-se entender que este consenso vem buscando freqüentemente a maior democracia representativa, ou seja, complementada ou até mesmo substituída pela democracia direta. É interessante notar que a democracia direta se entende literalmente a participação de todos os cidadãos nas decisões coletivas, mas a proposta é insensata, pois estaríamos diante de um cidadão total, que é a outra face do ameaçador estado total, onde tudo se reduz aos interesses da polis. Por isso, a teoria crítica deve denunciar soluções meramente verbais, transformando-as em propostas factíveis. Como se vê, é certo que esse raciocínio, começa-se por diferenciar "democracia representativa" de "estado parlamentar", uma vez que a primeira significa que as decisões coletivas são tomadas por pessoas eleitas, e não diretamente, que tanto pode ser por um parlamento, pelo presidente ou conselhos regionais. Dentro desta perspectiva Norberto Bobbio argumenta o seguinte:
Do mesmo modo que nem todo Estado representativo é um Estado parlamentar, o Estado parlamentar pode muito bem não ser uma democracia representativa. Se por democracia entendemos, como devemos, um regime no qual todos os cidadãos adultos têm direitos políticos [...], devemos considerar que historicamente os parlamentos vieram antes da extensão do sufrágio e que, portanto, por muito tempo existiram Estados parlamentares que eram representativos mas não democráticos.(BOBBIO, 2000, p. 57)
O autor salienta neste fragmento que nem toda democracia é representativa e nem todo estado representativo é democrático, bem como nem toda crítica à democracia representativa leva diretamente à democracia direta. Aliás, ele argumenta que nas democracias representativas, os representantes se caracterizam pela irrevogabilidade do mandato e pelo fato de que o mesmo não é responsável diretamente perante os eleitores, pois é representante de toda a sociedade e não de grupos. A citação dessas características é importante porque a crítica à democracia representativa geralmente recai sobre elas, ou seja, crítica à proibição do mandato imperativo e crítica à representação dos interesses gerais. Vale lembrar que em todo caso, as críticas ao sistema representativo clássico não transformam a democracia representativa em democracia direta. É importante, entretanto, que exista democracia direta propriamente dita, onde o indivíduo participa ele mesmo das deliberações, é necessário a inexistência de intermediários. Ressalte-se, ainda, que entre a democracia representativa pura e a democracia direta pura não existe um salto qualitativo, além do que, entre os extremos, há inúmeras possibilidades, de forma que não uma escolha excludente entre as duas propostas, mas sim a possibilidade de integração recíproca. Até porque ninguém imagina a possibilidade de se governar um estado com contínuo apelo ao povo, salvo se cada cidadão puder transmitir seu voto sem sair de casa, apenas apertando um botão. No que diz respeito, o que parece acontecer é que o processo de democratização está expandindo para outras esferas das relações humanas e seus papéis específicos, o que leva à conclusão que a democracia deve ser vista por um novo ângulo, considerando-se a ocupação de espaços até agora dominados por organizações hierárquicas e burocráticas.
Dessa maneira, vê-se que uma coisa é a democratização do Estado, outra é a democratização da sociedade e, portanto, para se apontar o índice de desenvolvimento democrático deve-se buscar não o número de pessoas com direito a votar, mas o número de instâncias onde se pode exercer esse direito. Aliás, enquanto a empresa e administração pública não forem tocadas pelo processo de democratização, a transformação democrática da sociedade não estará completa. Por outro lado, é preciso também lembrar que sociedade pluralista e sociedade democrática são coisas distintas, apesar de que um estado moderno só pode ser uma democracia pluralista. Nesse sentido, a teoria democrática se contrasta com o poder autocrático, enquanto a teoria pluralista se o contrasta com o poder monocrático, ou seja, no estado moderno o abuso de poder é combatido em dois fronts. No contexto, a falha da democracia representativa consiste na formação de oligarquias, o que somente pode ser corrigido pela existência de uma pluralidade de oligarquias, o que faz com que o poder não seja apenas distribuído como também controlado, demonstrando-se a importância da liberdade no dissenso.
Em suma, a liberdade em discordar precisa de uma sociedade pluralista, o que permite maior distribuição de poder e, assim, viabiliza a democratização da sociedade civil, o que, em última análise, alarga a democracia política, mas afinal quais foram as alternativas à democracia representativa?
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BOBBIO, Norberto. "Democracia representativa e democracia direta". In.: O futuro da democracia. Tradução de Marco Aurélio Nogueira, São Paulo: Paz e Terra, 2000. p. 53 – 76.
Publicação original em: http://www.webartigos.com/articles/20489/1/democracia-direta-versus-democracia-representativa-uma-divisao-incompativel-com-algumas-reinvencoes/pagina1.html

Honduras e as classes sociais

Uma bela análise...
por Jorge Majfud
[*]
De Caracas, Lima, Tegucigalpa criticam-me dizendo que falar de classes sociais para analisar o golpe em Honduras é um cliché fora de moda. Sim, é um cliché fora de morda. E uma realidade actual, também. A pós-modernidade empreendeu uma longa campanha cultural e ideológica no último terço do século XX para revogar conceitos binários e dicotómicos como opressor/oprimido, rico/pobre, branco/negro, homem/mulher, etc. Ao eliminar o primeiro par desaparecia de forma automática qualquer ideia de imperialismo, de colonialismo e de machismo. Assim, toda realidade era uma ilha que pouco tinha a ver com o resto, diferente do que afirmavam os antiquados estruturalistas. O pobre não tinha nada a ver nem a reclamar do rico nem vice-versa; uma colónia não era o resultado da existência do colonizador nem a "mulher feminina" era o resultado do homem masculino. O mesmo quanto aos países, as culturas, as histórias. Ilhas, átomos, universos independentes, sociedades autistas. Livres como um pássaro (que está condenado a voar e a emigrar). Também neste sentido, o pós-modernismo foi anti-humanista. Mas as classes sociais ainda existem. Existiram desde há alguns milénios e a sua lógica funcionou com muita clareza até nas sociedades de gorilas e chimpanzés. Para os conservadores, esta observação seria um argumento a favor das classes sociais. "Assim é desde que o mundo é mundo", é o lema reaccionário. Para os humanistas progressistas é um argumento contra, já que muito de nós defendem a teoria da Evolução. Como problematizámos em muitos outros ensaios, o progressivo incremento das liberdades individuais desde o fim da Idade Média não foi em detrimento da igualdade e sim a seu favor. E vice-versa. Na América Latina a classe dominante costumava ser um pequeno grupo de brancos, educados, actores principais na política, no governo e nos negócios. A maioria da população estava resignada a seguir os passos da sua classe social. Se algum mudava de classe, esta excepção era publicitada mas abolia a regra. Com sorte, o sistema de classes sociais é muito menos rígido que o de castas na Índia. Hoje em dia é menos forte e nisso consiste o desenvolvimento. Mas existe, sobretudo em países como Honduras onde quase todos os meios importantes de informação e de formação de opinião pertencem a umas poucas famílias, a reduzidos e quase impenetráveis círculos de influência. E esses meios praticaram desde sempre uma campanha a favor de um anacrónico sistema de classes sociais. Seu mais recente papel foi no golpe de Estado. Não porque Zelaya fosse um exemplo de político democrático e sim porque pôs em risco o controle político da sua própria classe. A esse monopólio chamaram, estrategicamente, liberdade de imprensa, liberdade de expressão. Com sorte, um camponês hondurenho é livre para gritar na praça da aldeia para ser ouvido por cem pessoas. Não é suficiente? Então, segundo esta ideologia hegemónica, o inculto é um maldito revoltoso que quer eliminar a liberdade de expressão, romper a ordem democrática e sequestrar as crianças para doutriná-las. Até bem dentro do século XX os índios na América Latina recebiam terríveis sovas por desobedecerem aos seus patrões. Mas agradeciam. O sistema de "índios pongo" obrigava-os moralmente a trabalhar gratuitamente. Os índios levavam os rebanhos de uma estância à outra sem a tentação de roubar de vez em quando uma ovelha. Razão pela qual em países como a Bolívia e o Peru o desenvolvimento ferroviário foi raquítico, em comparação com outros países da região. Como prémio, o discurso dominante descrevia-os como corruptos, atrasados e imorais. Porque eram pobres e seus prazeres eram tão baratos quanto a aguardente. Quando um exército patriótico e faminto passava pela sua miserável choça, violava impunemente a sua mulher e roubava as suas poucas ovelhas. Quanto menos auto-estima, melhor. Também os escravos africanos açoitavam outros escravos de escala inferior para sustentar o sistema de privilégios. Os açoitados agradeciam porque as sovas, como exorcismo moral, ajudavam-nos a não ser "maus negros" que esqueciam a sua condição natural de animais inferiores. Quer dizer que a opressão de um grupo por outro (uma classe sobre outra, uma raça sobre outra, um género, um sexo sobre outro, um grupo financeiro sobre outro, etc) só é possível por essa colonização moral, por essa moral do oprimido. E para isso havia que possuir a maioria dos meios de imprensa "mais prestigiosos e influentes". A estrutura social de Honduras hoje é quase a mesma de há décadas. Não é difícil identificar a sua classe dominante, com certa educação, a mínima necessária para ser a dos senhores neo-feudais da "república". São reconhecidos pelos seus nomes, pelos seus métodos, por sua propriedades ostentosas, por seus velhos e conhecidos discursos que – como na época de Franco na Espanha, de Pinochet no Chile, de Bush e tantos outros nos Estados Unidos – apelam ao patriotismo, à tradição, à religião e à liberdade para justificar o seu poder político, ideológico e financeiro. Por outro lado, Honduras, um dos países mais pobres do continente, é composto por uma vasta e maioritária classe de camponeses, operários e pequenos comerciantes que nunca acedeu a uma educação secundária e menos ainda a uma universidade. Não para que sejamos todos doutores e sim para que qualquer operário seja um produtor capacitado, intelectualmente criativo e com gozo de tempo livre para construir-se como ser humano. Se tudo isto não é opressão de classe, chame-se como se quiser. Mas esta realidade continuará a estar aí ainda que seja maquilhada e seja travestida. Claro, todos devemos tornar-nos responsáveis pelo nosso destino. Em grande medida somo. Não merece o mesmo alguém que se senta à espera de que caia um fruto sobre a sua boca e aquele outro que trabalha todo o dia para que o milagre se produza. Mas ninguém tem uma liberdade absoluta e uns são mais livres (socialmente) que outros. Olhemos em nosso redor e perguntemo-nos se todos somos igualmente livres. O poder existe. Existe o poder muscular, o poder económico, o poder político, etc. Quando um grupo qualquer impõe seus interesses sobre outros quando pode obter mais benefícios imediatos do que recorrendo à colaboração, a isso chamo ter o poder. Esse poder possui, além de força muscular, uma voz sedutora, quando não intimidatória, fácil de produzir ecos em todos os rincões. As mentiras do poder não são eternas, mas podem sobreviver gerações ou o necessário para confirmar que a justiça que tarda não chega. Nossa visão humanista entende que a longo prazo a colaboração é mais benéfica para o desenvolvimento e o progresso (perdão pela má palavra) de todos. Mas os conservadores não estão interessados em esperar tanto. Eles vêem tudo como um arquipélago de ilhas rodeadas de muralhas, uma das quais é a eleita de Deus, sob a pax romana, a paz dos cemitérios ou combatendo-se umas às outras ao mesmo tempo que acusam os progressistas de alimentar o ódio de classes. Se não se falar disso, isso não existe. É o antigo recurso de arrancar os olhos a um pássaro enjaulado para que cante mais e melhor.
Julho/2009
[*] Ensaista, uruguaio, professor da Lincoln University.
Este ensaio encontra-se em
http://resistir.info/ .

sábado, 25 de julho de 2009

Os chacais de guarda

Por Emir Sader
O que seria dos interesses das elites dominantes, se não contassem com escribas, pagos pelas empresas de mídia privada, para tentar fazer passar esses interesses com se fossem os interesses do país? Para isso eles contam com equipes de “cães de guarda”, que defendem, com unhas e dentes, os interesses das elites dominantes, especialmente concentrados na mídia.Tentam, por exemplo, identificar a liberdade com a liberdade do capital, condenando qualquer forma de limitação à sua livre circulação. Tentar identificar liberdade com a existência da grande propriedade privada, opondo-se a qualquer definição de critérios sociais para a propriedade, especialmente a monopólica e a propriedade não produtiva no campo, opondo-se a qualquer tipo de ação de socialização da propriedade. Porque essas próprias empresas são monopolistas. O filósofo francês Paul Nizan escreveu um livro, em 1932, a que deu o nome de “Cães de guarda” para se referir aos intelectuais que prestam serviço de promover legitimidade e dar razões de sobrevivência ao poder das elites dominantes. “Eles adorariam ser Zola, mas para acusar as vítimas...”, escreve Serge Halimi, no prefácio da edição mais recente do livro, mencionando como esses guardiães da ordem estabelecida adoram estar de acordo com seus patrões, acusando os pobres, os marginalizados, as vítimas do sistema, como se fossem verdugos. “Quanto à sua obra, ela se autodestrói um quarto de segundo depois do tiro de morteiro midiático...”, acrescenta Halimi.Na introdução do livro de Halimi, “Os novos cães de guarda” – publicado no Brasil pela Jorge Zahar -, Pierre Bourdieu recorda como trabalhos de denuncia desse tipo contribui a “arruinar um dos suportes invisíveis da prática jornalística, a amnésia...” E se pergunta: “por que, de fato, os jornalistas não deveriam responder por suas palavras, dado que eles exercem um tal poder sobre o mundo social e sobre o próprio mundo do poder?”Mas, entrando já diretamente nos chacais de guarda daqui – para não ofender aos cães -, se tiverem paciência, olhem alguns dos livros que decretaram o fim do governo Lula em 2005. Uma jornalista que insiste em fazer comentários sem voltar sobre o que disse ontem, sustentava seu livro oportunista para ganhar dinheiro e agradar seus patrões com a crise de 2005, apoiada por outro colunista que come nas mesmas mãos, que reiterava essa morte do governo na contracapa do livro. Como não tem compromisso algum com o que escrevem, que só se justifica pelos serviços prestados a seus empregadores, fontes e outros representantes das elites dominantes, seguem em frente como se não tivessem dito nada ontem, como seguirão amanhã fingindo que não disseram nada hoje. Não são mais do que ventríloquos dessas elites.Indo mais longe: a imprensa que convocou os militares a dar golpe militar, apoiou a derrubada do governo legalmente constituído de Jango e sustentou o golpe militar, inclusive reproduzindo as versões mentirosas que escondiam os seqüestros, as torturas e os fuzilamentos dos opositores, segue de acordo com as posições que tiveram. Um dos jornais, que emprestou seus carros, para que os órgãos repressivos da ditadura atuassem disfarçados de jornalistas, nem sequer tentou se defender das gravíssimas acusações, que faz com que a empresa, os jornais que publicam e os membros dos comitês editoriais, tenham as mãos sujas de sangue pelos seqüestros, torturas e execuções da ditadura. Ao não fazerem autocrítica, automaticamente aceitam ter cometido esses crimes de lesa democracia e jornalismo minimamente objetivo.Essa mesma mídia vive acusando o povo de “não ter memória”. Talvez seja essa a razão pela qual elegem e reelegem os lideres políticos execrados diariamente pela mídia, porque hoje não obedecem a seus desígnios. Mas são eles os primeiros a cultuarem a falta de memória, a amnésia, de todos, ao esquecer o que disseram ontem. Estiveram a favor da ditadura, com que moral acusam governos e partidos de não ser democráticos?O que dizem os empregados de uma empresa que praticamente nasceu durante a ditadura, foi o órgão oficial da ditadura? Que legitimidade acreditam que podem ter órgãos dessa empresa?Um dos colunistas de um dos jornais da imprensa de propriedade de uma das poucas famílias que dominam de forma monopolista o ramo, se orgulha de nunca ter ido aos Forúns Sociais Mundiais, por ter ido a todos os Foruns de Davos – onde manifestamente ele se sente no seu mundo. Seria bom ele ouvir agora os arautos da globalização – incluído seu prócer FHC – para saber o que pensam da crise atual, provocada por suas políticas. Teria que se deslocar não a Davos, mas algumas prisões, onde alguns deles foram encarcerados, depois de reveladas suas trapaças – alias, nenhuma delas revelada pela imprensa, conivente e complacente com o ricaços de Davos.Um outro jornalista disse, em outro momento da sua carreira, em conferência pública, que quando um jornalista senta para escrever uma matéria, pensa, em primeiro lugar, no dono da empresa; em segundo, nas fontes do que vai publicar; em terceiro na enorme quantidade de desempregados do lado de fora da empresa. A esse filtro haveria que acrescentar as agências de publicidade e os grandes grupos econômicos que financiam os órgãos de imprensa e acabam pagando os seus salários.Foi se criando uma verdadeira casta de jornalistas, empregados dos maiores meios de imprensa no Brasil, promíscuos com o poder, que renunciam a qualquer ataque aos interesses do poder que dominou o país durante séculos: capital financeiro, grandes monopólios, latifundiários, as próprias grandes empresas monopólicas da mídia, o imperialismo norteamericano, o FMI, o Banco Mundial, a OMC, a direita política – Tucanos, DEM, FHC, Serra, Tasso Jereissatti, Jarbas Vasconcellos.Preferem, para conveniência de seus empregos e dos interesses dos seus patrões, atacar o que incomoda à direita – sindicatos, o MST, o pensamento critico, as universidades publicas, os partidos de esquerda.Além dos casos mencionados, há os pobres diabos que querem adquirir certo verniz “intelectual” – não agüentam a inveja do pensamento crítico – e citam autores, viajam pelo mundo em eventos sem nenhuma importância, escrevem em jornais e falam em rádios e TVs, sem nenhum prestigio, colunas que ninguém leva a sério ou mesmo lê. Um deles foi chefe de gabinete de um dos ditadores, depois foi demitido, fotografado na cama para a Playboy, tentando mostrar méritos que não conseguiu na política e que circulava nos governos anteriores com toda promiscuidade pelos ministérios e Palácio do Planalto – de que esse tipo de gente sentem uma falta danada.A ideologia do “’quarto poder” se tornou antiquada, porque o monopólio da mídia privada detém muito mais poder do que isso, termina dando direção ideológica e política aos fracos partidos opositores. Claro que o que realmente não são é “contra-poder”, porque na verdade fazem parte intrínseca dos poderes constituídos, como força conservadora.Como a noticia se transformou definitivamente em uma mercadoria na mão dessa casta, perdeu toda credibilidade. Conhece-se o caso de colunistas econômicos que fingem estar preocupados com a situação de um setor do empresariado, ao vendem reunião e assessoria com eles, em troca de defender mais explicitamente seus interesses. Se devem às suas fontes, a tal ponto que a editoria econômica passou a ser a mais comprometida com os interesses criados, de forma similar a como certa cobertura policial se deve às fontes nas delegacias e nas policias, sem as quais ficam sem seus “furos”. “Quem paga, comanda”, recorda Halimi. E a mídia, como sabemos é financiada não pelos leitores com as compras na banca e as assinaturas, mas pelas agencias de publicidade. E vejam quem são os grandes anunciantes, com os quais a mídia tem o rabo preso – bancos, telefonias, fabricas de automóveis, etc. Não pelas organizações populares, sindicatos, centros culturais, nada disso. Quem paga, comanda. Já vieram jornais, rádiosm televisões, colunistas, fazem campanha de denuncia – com um pouquinho da sanha que tem contra o governo e a esquerda – contra os bancos, suas falcatruas, contra as grandes corporações mutlinacionais, contra a lavagem de dinheiro nos paraísos fiscais? Nâo, porque seria tiro no pé, atentado contra os que financiam a essa mídia.Perguntado sobre como a elite controla a mídia, Chomsky respondeu: “Como ela controla a General Motors? A questão nem se coloca. A elite não tem que controlar a General Motors. Ela lhe pertence. Albert Camus disse que a mídia francesa se tornou “a vergonha do país.” E a nossa? O Brasil e seu povo têm orgulho ou vergonha dessa mídia que anda por ai?A lei apresentada pelo governo argentino para regulamentar o audiovisual – umas das razões da brutal ofensiva da imprensa de lá contra seu governo – determina que as empresas da mídia tem que declarar publicamente suas fontes de financiamento – quem as financia, com que quantidades de dinheiro. Poderiam aproveitar e declarar publicamente quanto ganham os magnatas dessa casta midiática, enquanto a massa dos jornalistas ganha uma miséria, é terceirizado e passível a qualquer momento de serem mandado embora, se não cumprem à risca as orientações que os chacais lhes impõem.Um jornalista norteamericano citado por Halimi, disse: “Sobre as questões econômicas (impostos, ajuda social, política comercial, luta contra o déficit, atitude em relação aos sindicatos), a opinião dos jornalistas de renome tornou-se muito mais conservadora à medida que suas rendas foram aumentando”.Quem discorda dos consensos que tentam impor nos seus desagradabilíssimos e redundantes programas de entrevistas ou suas colunas de merchandising , como se sabe, é chamado de “populista”, de “demagogo”, de “aventureiro”. Que são, como também se sabe, os governantes que fazem políticas sociais e têm alto nível de apoio da população. Por isso chamam sempre os mesmos, seus amigos, operadores das bolsas de valores, empresários que passam a lhes dever favores, para dizer as mesmas baboseiras que a realidade não se cansa de desmentir.“Mídias cada vez mais concentradas, jornalistas cada vez mais dóceis, uma informação cada vez mais medíocre” –conclui Halimi. E cita um político de direita francês, Claude Allègre, sobre as possibilidades do meio midiático se reformar: “Eu vou lhes dar uma resposta estritamente marxista, eu que jamais fui marxista: porque não há interesse... Por que vocês queriam que os beneficiários dessa situação sintam necessidade de mudá-la?” E, para concluir, conforme se aproxima a Conferencia Nacional de Comunicação, declaração do também conservador jornalista Frances Jacques Julliard: “Uma das reformas mais urgentes neste país, seria aquela que pudesse dar às mídias um mínimo de seriedade e de dignidade. Sobretudo de dignidade!”
O texto original está postado em:
http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=335

quinta-feira, 23 de julho de 2009

È impressionante a “insolência” da elite conservadora (direita) latinoamericana.

È impressionante a “insolência” da elite conservadora latinoamericana.
Apesar das atrocidades que os “Golpes de Estado” provocaram em suas sociedades, (Tortura, morte, pobreza, exclusão, criminalidade, desigualdades...), ainda aperecem “mentes” alienadas, ou oportunistas, ou fascistas, ou com medo de perder suas regalias (usurpadas historicamente das populações pobres), para defender tais ações.Os dois discursos (abaixo) são exemplo disso, praticamente não diferem em nada. Até a conotação "popular" das manifestações são idênticas.
Se ambos não tivessem distantes no tempo e no espaço diríamos que são frutos de uma mesma sociedade, de uma mesma nação. Mas sabemos que o primeiro é patrimônio da elite brasileira que justificou o golpe militar de 1964. Já o segundo pertence aos pelegos da elite hondurenha (na atualidade 2009).
Percebemos que, apesar dos estágios de regressão à barbárie impostos por esses golpes - mundialmente reconhecidos - “a direita” continuam acreditando em suas máximas coléricas: Nesse sentido eles defendem que:
- Somente uma pequena parcela da sociedade (a elite) será permitido usurpar o que sobrou dos recursos naturais do planeta Terra. Pois esse é o premio pelos “esforços” de sua “casta”. (exploração dos trabalhadores) - O desenvolvimento se dará pela obediência às leis violentamente impostas;- O povo pobre deve ser mantido nas “senzalas”, nas favelas, nas cadeias ou nos cemitérios (sob as “grades” da justiça, da polícia, da escola etc.);- Aqueles que se sublevarem contra a opressão racista, machista, homofônica, xenófoba, étnica ou de classe (se não for para apóia-la politicamente) será “arrastados em praça pública”(com direito a exposição de suas víceras, servindo como castigo ou aviso aos demais “párias”). - veja os últimos acontecimentos com os sem-terra no Brasil, Bolívia, Colombia, Iraque e agora em Honduras. - Qualquer iniciativa coletivas relativa à democracia direta ou participativa, em detrimento a representativa, serão vistas como afronta da “democracia” burguesa, portanto um caminho para o comunismo ou para uma república sindicalista.- Os conservadores (direita) “malharão os políticos corruptos”, como auxílio da grande mídia, mas não os corruptores (na maioria das vezes eles próprios) - Essa “casta, mesmo sendo adeptas à uma espécie de “liberdade de expressão” – tentarão extirpar (moralmente ou fisicamente) aqueles que proferirem suas ideologias contrária à doutrina neoliberal, capitalista ou contra o patriarcalismo aburguesado, ainda mais se o discurso for proferido no seio dos territórios dominados. Diante disso “não se deixe cooptar, não se deixe esmagar, lutar sempre”

Discurso 1 - “ Diante do quadro político e ameaçador das instituições democráticas brasileiras, irmã Ana Lurdes, na sua inspiração relilgiosa e iluminada por Deus, concebeu a sábia celebração de uma marcha, segundo ela "um ato de fé num momento de trevas". Assim nasceu a denominada Marcha da Família com Deus pela Liberdade."A marcha foi uma reação à baderna que estava tomando conta do país. Não podiamos deixar as coisas continuarem do jeito que estavam, sob o risco de os comunistas tomarem o poder", conforme declaração de Maria Paula Caetano da Silva, fundadora da União Cívica Feminina. Projetava-se a República Sindical Socialista do Brasil, fato bastante conotativo com o que se passa no país hoje, sob os ensaios tirânicos do seu presidente,Luiz Inácio da Silva. Em 31 de março de l964, iniciou-se a sucessão de fatos que livraria o país do comunismo e que contribuiu para ruir as pretensões soviéticas na América Latina .Em decorrência da Marcha da Família com Deus pela Liberdade e para desmistificar a zombaria da esquerda e a sua ação subterrânea inconformada com a vitória da contra-revolução que garantiu a vitória da democracia no Brasil, é saudável avivar o coração e a alma dos brasileiros para se conscientizarem das ameaças da hora presente, com o sempre atual decálogo dos anos sessenta”.( http://blogdaunr.blogspot.com/2008/03/marcha-da-famlia-com-deus-pela.html)
Discurso 2 - “Milhares de simpatizantes do governo do presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, marcharam nesta quarta-feira pelas ruas de Tegucigalpa em apoio à democracia e para expressar sua rejeição ao retorno do líder deposto Manuel Zelaya e à "intromissão" do governante venezuelano, Hugo Chávez.A chamada marcha "Pelo Patriotismo e a Coragem" foi convocada pela organização opositora a Zelaya União Cívica Democrática (UCD). O protesto foi realizado um dia depois que o governo de Micheletti deu um prazo de 72 horas para que a delegação diplomática da Venezuela em Tegucigalpa abandone o país”. (http://noticias.terra.com.br/mundo/golpehonduras)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O circo (i)mundo de horrores


Por José Arbex Jr.
Enquanto isso, um único banqueiro espertalhão dá um golpe de 50 bilhões de dólares em Nova York; restaurantes em São Paulo cobram milhares de reais por uma garrafa de vinho; as diárias dos hotéis em Dubai, novo paraíso dos “ricos e famosos” superam os 20 mil dólares; um jovem jogador de futebol que, até anteontem, brincava como os amigos nas praias de Santos paga agora, só de multa, a soma de um milhão de dólares, valor considerado normal no circuito bilionário do futebol europeu. Ah, sim, e os astros de Hollywood ganham 20 milhões de dólares para participar da dose cotidiana da indústria da hipnose que torna a vida suportável. E nunca se gastou tanto em armas, drogas e entretenimento – das megaproduções cinematográficas às copas e olimpíadas mundiais.
(Por vezes, o delírio dos atores de Hollywood atinge tal proporção que eles passam a assumir na “vida real” o papel que lhes é reservado na tela. Logo após o ataque dos Estados Unidos ao Iraque, em 2003, o brutalhão Bruce Willys, especializado em interpretar herói de filmes de guerra, chegou a oferecer uma recompensa de um milhão de dólares a quem fornecesse pistas sobre o paradeiro de Sadam Hussein. Pobre idiota!)
A opulência do mundo espetacular é a contrapartida necessária à miséria do mundo “normal”, das pessoas comuns e anônimas que jamais alcançarão seus quinze minutos de fama. É necessário circo, muito circo, mesmo quando não há pão. É o circo que embrutece, hipnotiza, atiça o desejo, mobiliza a libido, prepara o animal para a guerra, naturaliza o absurdo. É normal que a herdeira Paris Hilton gaste milhões em festas, viagens e orgias na companhia de amigas como Britney Spears, tanto quanto é desejável participar desse mundo frenético de brilhos e festas. É razoável que modelos ganhem milhões para exibir o corpo em passarelas. E, por que não, é justo que um piloto ganhe fábulas para cometer a proeza de andar cada vez mais rapidamente para chegar ao mesmo lugar de onde saiu. Resta ao comum dos mortais consumir as fofocas divulgadas por programas e revistas especializadas, projetando em seus ídolos os desejos que não pode realizar aqui fora, no monótono e ridículo mundinho real.
No mundo do circo, o palco colorido e devidamente iluminado – não importa se é o estúdio televisivo ou a página impecavelmente diagramada de um jornal -, com tudo arrumado e colocado em seus devidos lugares, eliminado o caos e a desordem do mundo real, é possível ao apresentador, ao artista, à personalidade, ao especialista proclamar aproximadamente qualquer absurdo, que tudo passa no ritmo frenético do vídeo clipe: das “armas cirúrgicas que não matam seres humanos” ao “vale tudo por dinheiro”, dos “terroristas palestinos”cujo crime é lutar em defesa de sua própria terra ao “tapinha que não dói”, das festas suntuosas às favelas miseráveis tudo é mostrado em sequências planas, “naturais”, como se a vida fosse isso mesmo: um amontoado sucessivo de cenas sujo sentido é dado pelos ícones midiáticos que tudo explicam e nos acalmam.
Os ícones do novo mundo circense midiático ocupam os lugares que antigamente eram propriedade dos deuses do Olimpo. São eles que explicam o mundo, iluminam o que merece aparecer, jogam à obscuridade o dejeto, o lixo, o resto. A cantora Madonna tinha consciência disso quando, ao declarar publicamente o seu desejo pelo então relativamente desconhecido ator espanhol Antônio Banderas, afirmou que, apenas com essa declaração, havia dado a ele um presente que valia milhões de dólares. De fato, ungido pelo olhar da multimilionária máquina Madonna, Banderas foi rapidamente “capturado” pelo Olimpo Hollywood e hoje faz parte da engrenagem. Atrás do sonho, um garoto de 14 anos sai clandestinamente de seu país, na África, passa três dias sem comer nem beber nos porões de um navio animado pelo sonho de chegar ao Brasil e virar estrela de futebol.
Barack Obama é o mais novo pop star. Seu sorriso, a ginga de seu corpo e a sua história de vida enchem de confiança os miseráveis dos Estados Unidos, dos vários continentes e até alguns palestinos em Gaza. Mas há um limite para tudo isso. As engrenagens da barbárie continuam em ação, e o mundo se encaminha para um esgotamento. O circo pode adiar a explosão, mas não resolve a crise. É impossível saber quando se dará o ponto de basta, isto é, o momento em que o processo de desagregação da humanidade atingirá o seu ponto de ruptura. Mas ele acontecerá, inevitavelmente. Não é infinita a quantidade de horror que a humanidade pode suportar.
José Arbex Jr.
O texto original está postado em:
http://www.clubemundo.com.br/revistapangea/show_news.asp?n=362&ed=7