domingo, 6 de abril de 2025

O surgimento do capitalismo... alguns fatos importantes

 O surgimento do capitalismo... alguns fatos importantes



Os cercamentos na Inglaterra 

Os cercamentos na Inglaterra foram um processo histórico fundamental para a transição do feudalismo para o capitalismo. Esse fenômeno ocorreu entre os séculos XV e XIX e consistiu na apropriação de terras comunais e camponesas pela nobreza e pela burguesia emergente, resultando na expropriação de milhares de camponeses. Essa transformação alterou profundamente a estrutura econômica e social da Inglaterra e teve um impacto significativo na consolidação do capitalismo moderno.

Durante o período medieval, a maior parte das terras era de uso comum, permitindo que os camponeses cultivassem e criassem animais para sua subsistência. No entanto, com o aumento da demanda por lã e a expansão do comércio, a nobreza começou a cercar essas terras para utilizá-las na criação de ovelhas, um setor altamente lucrativo na época. Esse processo foi acelerado pela promulgação de leis de cercamento, que legitimaram a apropriação privada das terras comunais.

A expropriação dos camponeses teve diversas consequências sociais e econômicas. Muitos perderam seu sustento e foram forçados a migrar para as cidades em busca de trabalho, alimentando a crescente classe trabalhadora industrial. Isso criou um excedente de mão de obra disponível para as manufaturas emergentes, um dos fatores essenciais para a Revolução Industrial. Além disso, a concentração da terra nas mãos de poucos proprietários consolidou a economia de mercado e aprofundou as desigualdades sociais.

As Leis Contra a Vadiagem e o Controle da Mão de Obra

Além dos cercamentos, outro fator determinante para a consolidação do capitalismo foi a promulgação das leis contra a vadiagem. Com um grande número de camponeses expropriados e sem meios de subsistência, muitos passaram a vagar pelas cidades em busca de trabalho. Para controlar essa população e garantir a disponibilidade de mão de obra para o novo sistema industrial, o Estado inglês implementou leis severas contra a vadiagem. Essas leis criminalizavam aqueles que não possuíam emprego fixo, forçando-os a aceitar qualquer trabalho disponível, muitas vezes sob condições extremamente precárias.

A Lei dos Pobres de 1531 e a Lei da Vadiagem de 1547 são exemplos dessa repressão legal. As punições para os considerados "vadios" eram severas, incluindo espancamentos, servidão forçada e, em casos extremos, a pena de morte. O objetivo era claro: transformar os camponeses expropriados em trabalhadores assalariados disciplinados, prontos para abastecer a nascente economia industrial. Esse processo foi fundamental para consolidar a transição para o capitalismo, pois eliminou formas alternativas de subsistência e reforçou a dependência dos indivíduos em relação ao trabalho assalariado.

A repressão contra os "vadios" não se limitava a meras medidas de controle social; ela se inseria no contexto da acumulação primitiva do capital. Marx destacou que, para que o capitalismo pudesse emergir, era necessário criar um contingente de trabalhadores sem outra opção de sobrevivência além da venda de sua força de trabalho. As leis contra a vadiagem, portanto, desempenharam um papel essencial ao forçar a população expropriada a aceitar condições de trabalho extremamente exploratórias.

A Caça às Bruxas e a Destruição das Estruturas Comunitárias

Outro elemento fundamental no contexto da transição para o capitalismo foi a caça às bruxas, um fenômeno que se intensificou entre os séculos XV e XVII. A perseguição às mulheres acusadas de bruxaria esteve profundamente relacionada à reestruturação econômica e social imposta pelo avanço do capitalismo. Silvia Federici, em sua obra "Calibã e a Bruxa", argumenta que a caça às bruxas teve um papel crucial na destruição de formas comunitárias de vida e na imposição de novas relações de trabalho. Muitas das mulheres perseguidas eram camponesas, curandeiras e parteiras que representavam um obstáculo à lógica capitalista, pois estavam associadas a práticas coletivas de cuidado e economia moral, incompatíveis com a nova ordem mercantil.

O ataque às mulheres também estava ligado ao controle da reprodução e à disciplinarização da força de trabalho. O capitalismo emergente exigia um crescimento populacional para abastecer os centros industriais com trabalhadores, e a caça às bruxas ajudou a impor um modelo patriarcal de família, onde as mulheres eram subordinadas aos homens e encarregadas do trabalho reprodutivo não remunerado. Assim, a caça às bruxas não foi apenas um fenômeno supersticioso, mas sim uma estratégia política e econômica para consolidar o capitalismo.

A caça às bruxas pode ser entendida, dentro da lógica marxista, como parte do processo de acumulação primitiva. Assim como os cercamentos expropriaram os camponeses de suas terras e as leis contra a vadiagem os forçaram a aceitar o trabalho assalariado, a perseguição às mulheres rompeu formas de organização econômica que poderiam oferecer resistência ao modelo emergente. Além disso, ao reprimir as mulheres e reforçar o patriarcado, a caça às bruxas garantiu a criação de um modelo de reprodução da força de trabalho essencial ao funcionamento do capitalismo industrial.

O processo de colonização

Karl Marx analisou esse processo em sua obra "O Capital", referindo-se a ele como a "acumulação primitiva do capital". Para Marx, os cercamentos representaram um momento crucial na formação do capitalismo, pois permitiram a criação de uma classe de trabalhadores assalariados desprovidos de meios de produção próprios, tornando-os dependentes da venda de sua força de trabalho para sobreviver. Assim, a expropriação camponesa, a repressão legal contra os desempregados e a perseguição às mulheres não foram apenas mudanças econômicas, mas também transformações estruturais que possibilitaram o surgimento das relações capitalistas de produção.

A acumulação primitiva não ocorreu apenas na Inglaterra, mas foi um fenômeno global, vinculado à colonização e à exploração de povos indígenas e africanos. O saque de recursos na América, a escravização de milhões de africanos e a destruição de economias comunitárias em várias partes do mundo foram aspectos centrais desse processo, permitindo a concentração de riqueza nas mãos da burguesia europeia e financiando o desenvolvimento do capitalismo industrial.

A exploração colonial nas suas diferentes fases e na diversidade dos seus modelos e métodos constitui uma das componentes mais brutais dessa ação de violência e saque que despojou povos inteiros, em todos os continentes, sem exceção. Tesouros transformados em capital nos seus próprios países ao mesmo ritmo que provocavam o empobrecimento de largas massas de camponeses e colhiam os resultados da exploração desenfreada e em larga escala do trabalho assalariado e de um mercado mundial em expansão que paulatinamente monopolizavam de forma tirânica em seu exclusivo proveito e das suas indústrias e bancos.

Para garantir a acumulação primitiva, o Estado desempenhou um papel ativo na repressão da resistência camponesa e na legitimação da propriedade privada das terras. O uso da violência, tanto legal quanto militar, foi essencial para transformar a antiga economia baseada na terra e na subsistência em uma nova ordem onde o trabalho assalariado e o mercado se tornaram as forças dominantes. Marx enfatiza que esse processo não foi pacífico nem natural, mas sim um período de intensa exploração, coerção e violência institucionalizada.

Conclusão

O impacto dos cercamentos, das leis contra a vadiagem e da caça às bruxas não se restringiu à Inglaterra; seu modelo influenciou a organização do capitalismo em diversas partes do mundo, sendo replicado em processos de colonização e exploração de terras indígenas em várias regiões. Dessa forma, o cercamento das terras, a expropriação dos camponeses, a repressão contra a vadiagem e a perseguição às bruxas foram eventos fundamentais para a consolidação do capitalismo, moldando a economia global e a sociedade moderna. O capitalismo não surgiu de forma espontânea, mas sim através de processos violentos de expropriação, repressão e controle social, que garantiram a formação de um sistema baseado no trabalho assalariado e na acumulação incessante de capital.

A relação entre esses processos e a acumulação primitiva mostra como o capitalismo se originou a partir da destruição de antigas formas de organização social e econômica. A transição para o capitalismo foi marcada por uma violência estrutural que garantiu o estabelecimento da propriedade privada, a formação de uma classe trabalhadora dependente do assalariamento e o controle do Estado sobre a reprodução social. Compreender essa história nos permite reconhecer que o capitalismo não é um sistema natural ou inevitável, mas sim o resultado de séculos de expropriação e coerção.

A Globalização segundo Milton Santos

 A Globalização segundo Milton Santos

Milton Santos, um dos maiores geógrafos brasileiros, analisou a globalização de maneira crítica, trazendo à tona suas contradições e impactos sobre a sociedade, especialmente nos países periféricos. Para ele, a globalização não é um fenômeno homogêneo ou benéfico para todos, mas sim um processo marcado por desigualdades, que favorece o capital em detrimento das populações mais vulneráveis.

Santos identificava três formas de globalização: a globalização como fábula, como perversidade e como possibilidade. A globalização como fábula refere-se à narrativa dominante propagada pelos grandes meios de comunicação e pelos defensores do neoliberalismo, que apresentam a globalização como um processo de modernização universal e de oportunidades iguais para todos. Esse discurso esconde as assimetrias e desigualdades entre os países centrais e periféricos, criando uma ilusão de progresso acessível a todos.

A globalização como perversidade, por sua vez, revela os efeitos nefastos do modelo econômico vigente. Para Milton Santos, o mundo globalizado é dominado por grandes corporações transnacionais e pelo capital financeiro, que impõem uma lógica de acumulação e exclusão. A concentração de riquezas em poucas mãos, a precarização do trabalho e a destruição do meio ambiente são algumas das consequências desse modelo. A imposição de políticas neoliberais aos países em desenvolvimento intensifica a dependência econômica e impede que esses países desenvolvam suas próprias estratégias de crescimento.

Entretanto, Milton Santos não via a globalização apenas de maneira negativa. Ele também defendia a ideia de uma globalização como possibilidade, ou seja, uma alternativa ao modelo imposto pelo capital. Essa visão otimista baseava-se na ideia de que os avanços tecnológicos e a circulação de informações poderiam ser usados para criar um mundo mais justo e solidário. Para isso, seria necessário que a globalização fosse apropriada pelos povos e não apenas pelas elites econômicas. Ele acreditava na importância da participação popular e na construção de um sistema baseado na cooperação e na valorização das identidades locais.

Outro ponto fundamental na visão de Milton Santos é a ideia de que a globalização não se manifesta da mesma forma em todos os lugares. Ele propunha o conceito de "geografia do espaço banal", no qual destacava a influência das estruturas econômicas globais sobre as realidades locais. Dessa forma, a globalização não é apenas um fenômeno econômico, mas também social, cultural e político, impactando de maneira distinta diferentes regiões do mundo.

O pensamento de Milton Santos continua relevante para entender os desafios da globalização contemporânea. A desigualdade entre países e dentro das próprias nações, a precarização do trabalho, a crise ambiental e o avanço do neoliberalismo são problemas que ele já antecipava em suas análises. Sua visão crítica nos ajuda a refletir sobre alternativas para um mundo mais justo e equilibrado, onde a globalização possa servir aos interesses da coletividade e não apenas ao lucro.

Portanto, a globalização, segundo Milton Santos, não é um fenômeno inevitável ou neutro. Ela pode ser reapropriada e transformada, desde que os indivíduos e sociedades tomem consciência de suas dinâmicas e busquem construir novas formas de organização social e econômica que priorizem o bem-estar coletivo.

Vídeo 1 - A Globalização por Milton Santos


Vídeo 2  - Milton Santos - Por uma outra globalização, 2004



sábado, 11 de abril de 2020

A importância do iIsolamento Social para combater a expansão da COVID 19




"Apesar das fragilidades, SUS está preparado para coronavírus", diz sanitarista




 O Sistema Único de Saúde (SUS) passará por um dos maiores desafios desde sua criação: combater a pandemia do novo coronavírus, que já tem mais de 234 casos e outros 2.064 casos suspeitos em todo o Brasil
Um dos pilares contra o avanço do vírus é a Estratégia de Saúde da Família, programa que, desde 1993, por meio do trabalho comunitário na atenção básica já erradicou doenças como o Sarampo e a Poliomelite. 
Para a médica sanitarista e supervisora no Programa Mais Médicos na Grande São Paulo, Maria Célia Medina, apesar do sucateamento e da sobrecarga, o SUS está preparado e é a principal alternativa para milhões de brasileiros que terão que enfrentar o Covid-19. 
"A gente acredita que agora essa pandemia pode ter o benefício dessa estrutura, apesar de que hoje a gente tem um SUS um pouco mais enfraquecido, com um número de profissionais reduzidos, a gente perdeu mais de 18 mil médicos do programa mais médicos”, explica Célia, que endossa o coro do Conselho Nacional de Saúde (CNS) pela revogação do teto dos gastos.
De acordo com estudo do CNS, a emenda já tirou R$ 20 bilhões do SUS, desde sua implantação em 2016 no governo de Michel Temer.
Segundo o Ministério da Saúde, a previsão é que o total de infecções pelo novo coronavírus aumente nas próximas semanas. Cidades como São Paulo e Rio de janeiro já registram a chamada transmissão comunitária, quando a trajetória dos contágios não pode mais ser rastreada. Em São Paulo, já são 152 o número de casos confirmados e 1.177 suspeitos. 
Prevenção para reduzir danos
Com a possibilidade de transmissão comunitária, a estratégia do Ministério da Saúde agora é diminuir os danos que o vírus pode causar à população. Entre as recomendações está o isolamento domiciliar ou hospitalar para pessoas com sintomas da doença além da recomendação para que pacientes com casos leves procurem as Unidades Básicas de Saúde. 
O Ministério da Saúde estima que, sem a adoção das medidas preventivas em todos os estados brasileiros, o número de casos da doença dobre a cada três dias. A nível mundial,  já foram registrados mais de 142 mil casos da doença em pelo menos 118 países, com mais de 5 mil mortes.
“Por tudo que se tem estruturado no país na área da saúde eu acho que a gente vai conseguir lidar com a melhor maneira possível até diante dessas fragilidades. Se a gente não tivesse o SUS, seria muito difícil o Ministério da Saúde elevar, permeabilizar, capitalizar tudo isso no meio da população”, afirma Célia.
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