quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Matemáticos revelam rede capitalista que domina o mundo

Visão crítica: Revelada a rede capitalista que domina o mundo
Este gráfico mostra as interconexões entre o grupo de 1.318 empresas transnacionais que formam o núcleo da economia mundial. O tamanho de cada ponto representa o tamanho da receita de cada uma.[Imagem: Vitali et al.]
Além das ideologias
Conforme os protestos contra o capitalismo se espalham pelo mundo, os manifestantes vão ganhando novos argumentos.
Uma análise das relações entre 43.000 empresas transnacionais concluiu que um pequeno número delas - sobretudo bancos - tem um poder desproporcionalmente elevado sobre a economia global.
A conclusão é de três pesquisadores da área de sistemas complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, na Suíça
Este é o primeiro estudo que vai além das ideologias e identifica empiricamente essa rede de poder global.
"A realidade é complexa demais, nós temos que ir além dos dogmas, sejam eles das teorias da conspiração ou do livre mercado," afirmou James Glattfelder, um dos autores do trabalho. "Nossa análise é baseada na realidade."
Rede de controle econômico mundial
A análise usa a mesma matemática empregada há décadas para criar modelos dos sistemas naturais e para a construção de simuladores dos mais diversos tipos. Agora ela foi usada para estudar dados corporativos disponíveis mundialmente.
O resultado é um mapa que traça a rede de controle entre as grandes empresas transnacionais em nível global.
Estudos anteriores já haviam identificado que algumas poucas empresas controlam grandes porções da economia, mas esses estudos incluíam um número limitado de empresas e não levavam em conta os controles indiretos de propriedade, não podendo, portanto, ser usados para dizer como a rede de controle econômico poderia afetar a economia mundial - tornando-a mais ou menos instável, por exemplo.
O novo estudo pode falar sobre isso com a autoridade de quem analisou uma base de dados com 37 milhões de empresas e investidores.
A análise identificou 43.060 grandes empresas transnacionais e traçou as conexõesde controle acionário entre elas, construindo um modelo de poder econômico em escala mundial.
Poder econômico mundial
Refinando ainda mais os dados, o modelo final revelou um núcleo central de 1.318 grandes empresas com laços com duas ou mais outras empresas - na média, cada uma delas tem 20 conexões com outras empresas.
Mais do que isso, embora este núcleo central de poder econômico concentre apenas 20% das receitas globais de venda, as 1.318 empresas em conjunto detêm a maioria das ações das principais empresas do mundo - as chamadas blue chipsnos mercados de ações.
Em outras palavras, elas detêm um controle sobre a economia real que atinge 60% de todas as vendas realizadas no mundo todo.
E isso não é tudo.
Super-entidade econômica
Quando os cientistas desfizeram o emaranhado dessa rede de propriedades cruzadas, eles identificaram uma "super-entidade" de 147 empresas intimamente inter-relacionadas que controla 40% da riqueza total daquele primeiro núcleo central de 1.318 empresas.
"Na verdade, menos de 1% das companhias controla 40% da rede inteira," diz Glattfelder.
E a maioria delas são bancos.
Os pesquisadores afirmam em seu estudo que a concentração de poder em si não é boa e nem ruim, mas essa interconexão pode ser.
Como o mundo viu durante a crise de 2008, essas redes são muito instáveis: basta que um dos nós tenha um problema sério para que o problema se propague automaticamente por toda a rede, levando consigo a economia mundial como um todo.
Eles ponderam, contudo, que essa super-entidade pode não ser o resultado de uma conspiração - 147 empresas seria um número grande demais para sustentar um conluio qualquer.
A questão real, colocam eles, é saber se esse núcleo global de poder econômico pode exercer um poder político centralizado intencionalmente.
Eles suspeitam que as empresas podem até competir entre si no mercado, mas agem em conjunto no interesse comum - e um dos maiores interesses seria resistir a mudanças na própria rede.
As 50 primeiras das 147 empresas transnacionais super conectadas
  1. Barclays plc
  2. Capital Group Companies Inc
  3. FMR Corporation
  4. AXA
  5. State Street Corporation
  6. JP Morgan Chase & Co
  7. Legal & General Group plc
  8. Vanguard Group Inc
  9. UBS AG
  10. Merrill Lynch & Co Inc
  11. Wellington Management Co LLP
  12. Deutsche Bank AG
  13. Franklin Resources Inc
  14. Credit Suisse Group
  15. Walton Enterprises LLC
  16. Bank of New York Mellon Corp
  17. Natixis
  18. Goldman Sachs Group Inc
  19. T Rowe Price Group Inc
  20. Legg Mason Inc
  21. Morgan Stanley
  22. Mitsubishi UFJ Financial Group Inc
  23. Northern Trust Corporation
  24. Société Générale
  25. Bank of America Corporation
  26. Lloyds TSB Group plc
  27. Invesco plc
  28. Allianz SE 29. TIAA
  29. Old Mutual Public Limited Company
  30. Aviva plc
  31. Schroders plc
  32. Dodge & Cox
  33. Lehman Brothers Holdings Inc*
  34. Sun Life Financial Inc
  35. Standard Life plc
  36. CNCE
  37. Nomura Holdings Inc
  38. The Depository Trust Company
  39. Massachusetts Mutual Life Insurance
  40. ING Groep NV
  41. Brandes Investment Partners LP
  42. Unicredito Italiano SPA
  43. Deposit Insurance Corporation of Japan
  44. Vereniging Aegon
  45. BNP Paribas
  46. Affiliated Managers Group Inc
  47. Resona Holdings Inc
  48. Capital Group International Inc
  49. China Petrochemical Group Company
Bibliografia:

The network of global corporate control
Stefania Vitali, James B. Glattfelder, Stefano Battiston
arXiv
19 Sep 2011
http://arxiv.org/abs/1107.5728

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Leandro Narloch - O "guia correto" do Idiota Burguês Neoliberal do Brasil

Leandro Narloch - O "guia correto" do Idiota Burguês Neoliberal do Brasil

Leandro Narloch - O "guia correto" do Idiota Burguês Neoliberal do Brasil
 
por Cláudio R. Duarte
 
A Direita liberal -- protofascista desde as suas mais profundas raízes -- vem renascendo com vigor no mundo todo nas últimas décadas, principalmente após a derrocada do socialismo de caserna no Leste e do triunfo da ideologia neoliberal.
Como é de se esperar em tempos sombrios e regressivos como estes, o livro do jornalista Leandro Narloch - Guia politicamente incorreto da história do Brasil (1) - tem todos os ingredientes para se tornar, como já se tornou, um best-seller desse pensamento. Com a força de outros intelectuais da direita orgânica (Reinaldo de Azevedo, Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Pondé), ele vem gerando muitos discípulos, encorajando-os a mostrar a sua face incivil, apolítica, individualista, competitiva.
Nada de novo no front se contarmos o liberalismo como a forma mais natural e mais pura da consciência coisificada e da política  realista-pragmática do sujeito burguês moderno, aprisionado ao caráter fetichista das relações sociais mercantilizadas. O que é novo no neoliberalismo, talvez, é a sua fé cretina na selvageria do mercado como a única alternativa de vida possível.  
O neoliberalismo é assim o pensamento e a prática que afirmam secamente a concorrência capitalista, reduplicando de modo cínico a ideologia materializada pelas relações sociais do sistema produtor de mercadorias. Aos trocadores de mercadorias, como mostrou Marx, o valor é uma propriedade natural das coisas, assim como o mercado é um sistema que serve aos homens de maneira totalmente justa, conforme o que cada um exige  e tem a oferecer ao mercado. O neoliberal radicaliza a fé nessa justiça mercantil, praticamente excluindo o bom mocismo, a aura de civilidade, o social ou politicamente correto.
Em outras palavras, para o neoliberal não pode haver injustiça no mercado, o injusto é sempre um justo resultado das ações de cada um: o resultado do empenho diferencial e naturalmente desigual de cada competidor no mercado. Eis o que o converte em um neodarwinista social radical (ou potencialmente radical). A injustiça social aparece apenas quando o Estado ou a política intervém no mercado ou este é regulamentado por normas universais ou por algum tipo de relação social totalizante exterior ao mercado, que passa a impedir os negócios particulares e o impulso empreendedor e possessivo supostamente natural dos homens. A injustiça é o que interfere no livre-arbítrio - ou antes, no capricho dos proprietários -- ou no capricho dos jornalistas que podem também rearticular e remendar os fatos históricos para contar, como fofocas da vida privada, as suas próprias versões caprichosas de processos históricos. A verdade do processo não conta, o que conta é a versão apimentada ou polêmica de mercado, já sem o pau chutado da barraca da objetividade. Tudo seria uma questão de ponto de vista relativo.
No livro de Narloch, os homens são e serão o que sempre foram na sociedade burguesa: acumuladores de dinheiro e poder, se bem que sempre com alguns laivos de um tênue espírito de cidadania ou nacionalismo -- tudo isso sem muita angústia ou drama, afinal, o que pode haver de incorreto em tudo isso? O que haveria de errado com os bons colonizadores portugueses ou com os valentes bandeirantes paulistas, que ajudaram a formar a grande terra brasilis, a civilizar os índios (estes sim, derrubadores de floresta), ou ainda com a Inglaterra, a maior interessada no fim do tráfico negreiro por motivos humanitários!? O que pode haver de errado com a "ditabranda" de 64, segundo a versão da Folha (ou de Marco Antônio Villa, o historiador predileto da Revista Veja), um regime forte que recrudesceu somente a partir da luta armada, e que teria feito crescer  repartir a renda nacional na época do milagre brasileiro?!  Assim, nada há de errado, conclui o livro: "Viva o Brasil capitalista" (p. 336).
Seu pressuposto cego é que as relações sociais fundamentais só podem existir de fato como relações entre as coisas no mercado, como relações de compra e venda entre proprietários, isto é, por meio da troca entre pessoas privadas, entre mônadas funcionais que dispendem e fazem circular trabalho humano homogêneo, igual, abstrato. Assim, para o jornalista, o tráfico negreiro era nada mais que uma espécie de barbárie civilizada, uma troca no fundo justa entre potentados europeus e reinos africanos, que preservavam interesses particulares iguais -- como se a gênese do processo de acumulação capitalista tivesse realmente mais a ver com a sede de luxo dos reis africanos do que com o sistema capitalista de plantations, ou seja, como se a África fosse um parceiro comercial não subordinado à Europa, ao berço do Capital. 
O livro funciona assim como guia cego de mistificação para leitores há muito cegados da revista Veja. Eles estão como sempre sedentos pela justiça da troca de equivalentes em trabalho. À consciência fetichista segue-se o discurso apologético de que tudo se deu no final das contas de maneira racional e progressista desde a colonização -- a não ser por distúrbios da lógica da equivalência, como no caso do Acre, p.ex., que paga muito menos impostos do que recebe em troca da Federação. Ou dos guerrilheiros insurrectos contra a Ditadura, que apenas sangram os cofres públicos, sendo os verdadeiros heróis os militares, que defenderam a nação contra o espectro do comunismo, tido como sinônimo puro e simples de mais uma Ditadura estalinista ou maoísta (claro que distorcendo o processo real em curso, meramente reformista, legitimando assim a contrarrevolução preventiva e silenciando todo a ação imperialista estadunidense no caso). Narloch, como os liberais desde Adam Smith, recalca e esquece, assim, que o que se ergue a partir de suas honoráveis relações coisificadas só pode ser um processo social autonomizado, alheio ao controle de todos -- essa a verdadeira ditadura totalitária, que ganha a vida própria de um deus-fetiche da acumulação -- reforçado politicamente pelo golpe de 1964 -- um processo objetivo que os neoliberais simplesmente adoram e transfiguram fantasiosamente como a "mão invisível"... não da escravidão e do infortúnio coletivos, mas da busca da justiça e da democracia...
Para o neoliberalismo, tudo isso tem seu ponto de partida nos atos livres do indivíduo como proprietário burguês. Eis então um modo relativamente simples de equacionar os processos sociais opacos e hipercomplexos: as estruturas são redutíveis a ações individuais, a atos voluntários, a interesses particulares - ou, na versão de Narloch, a feitos individuais bem-sucedidos ou malogrados (a guerra do Paraguai como culpa de um tirano, p. ex., ou as bandeiras como empreendimentos heroicos de gente chã e pedestre -- dois massacres históricos aliás praticamente "inexistentes", segundo sua visão alternativa dos fatos etc.). Como dizia Margareth Thatcher, a sociedade é uma ficção, o que existe são indivíduos isolados e seus comportamentos singulares - que podem ser interpretados ao bel-prazer do historiador.
Da mesma maneira, o fracasso é sempre individual, ou seja, ele é culpa dos próprios indivíduos que não deram duro o bastante para afirmar a sua liberdade -- nunca é o resultado de um mecanismo social cego, alienado, monstruoso, que corre por trás das costas dos envolvidos e que no capitalismo gera necessariamente banhos de sangue. O pensamento fetichista simplesmente afirma a naturalidade desse estado de coisas coisificado e fetichizado, a eternidade do curso do mundo leibziniano, como o melhor dos mundos possíveis. O que se afirma é, como viu Chico de Oliveira, uma "subjetividade antipública" e uma ideologia da "impossibilidade do dissenso"(2) -- aqui, sob as vestes esfarrapadas do jovem rebelde que aparentemente destrói o consenso, pois que apenas o faz destruindo a universalidade e a objetividade da história e da luta pelos direitos sociais.
A hegemonia cultural da esquerda, segundo Roberto Schwarz operante em determinado momento dos anos 60, foi há muito abalada (3). Com livros como os de Narloch a direita vai consolidando o seu "sonho de apartheid total" (4).
________
Notas:
(1) NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do Brasil. 2.ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Leya, 2011.
(2) OLIVEIRA, Francisco de. Os direitos do antivalor. (A economia política da hegemonia imperfeita). Petrópolis: Vozes, 1998, pp. 220-1.  
(3) Cf. SCHWARZ, Roberto. "Cultura e política - 1964-1969" (n:__. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
(4) OLIVEIRA, op. cit., p. 203.
Fonte: http://militante-imaginario.blogspot.com.br 

sábado, 3 de agosto de 2013

A fortuna do 1% mais rico do mundo cresceu 60% em 20 anos



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As 300 maiores fortunas do planeta aumentam sua renda em 60% nos últimos 20 anos e acumulam mais riqueza que os mais de 3 bilhões de pobres que existem no mundo e representam 99% da população. Assim afirma o professor Jason Hickel, da escola de Economia de Londres, assessor do movimento The Rules, que luta contra a desigualdade.


"Citamos estes números porque nos oferece uma comparação clara e impressionante: as 200 pessoas mais ricas possuem aproximadamente US$ 2,7 trilhões e isso é muito mais que o que possui as 3,5 bilhões de pessoas, que possuem um total de US$ 2,2 trilhõe", explica o economista Jason Hickel, citando um estudo recente da ONG Oxfam, que salienta que o 1% dos mais ricos aumentou seus ingressos em 60% nos últimos 20 anos com a radicalização das políticas imperialistas.
No vídeo A desigualdade da riqueza mundial, o movimento The Rules expõe como cresce esta desigualdade social com o passar do tempo em diferentes países. Assim, durante o período colonial, a brecha entre os países ricos e pobres aumentou de 3:1 a 35:1. Desde então, a brecha cresceu até um nível de 80:1.
De acordo com o economista, o crescimento da brecha se deve em parte às políticas econômicas neoliberais que instituições internacionais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) impuseram aos países em desenvolvimento durante as últimas décadas.
"Essas políticas estão desenhadas para liberar os mercados à força, abrindo-os a fim de dar as multinacionais um acesso sem precedentes à terra barata, recursos e mão de obra. Mas a um preço muito alto: que os países pobres percam por volta de US$ 500 milhões por ano de seu PIB", explica o professor citando o economista Robert Pollin, da Universidade de Massachusetts.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Esquerda x Direita - A explosão do ódio

Neonazista


Neonazista em manifestação na Alemanha

Antropóloga detecta aumento de sites neonazistas brasileiros. E o índice de arquivos baixados com estas características cresce a uma taxa média de 6% ao ano
por Márcio Sampaio de Castro
Durante a última grande manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), para comemorar a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, integrantes de partidos políticos e movimentos sociais foram atacados por jovens trajando toucas ninjas, roupas pretas e coturnos. Enquanto agrediam seus alvos, a multidão ao redor aplaudia e gritava “fora partidos, fora partidos”. Para a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa há mais de 10 anos a atuação dos movimentos neonazistas no Brasil e já foi diversas vezes ameaçada de morte por seus integrantes, não resta a menor dúvida sobre quem eram esses jovens violentos e quais eram suas motivações.
A partir da análise de blogs, sites e fóruns de relacionamento, muitos deles com domínio no exterior, a pesquisadora documentou, ao longo de sete anos, que mais de 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada, foram baixados por um número equivalente de computadores com endereços eletrônicos localizados no Brasil no mesmo período. De 2009 para cá, o índice de arquivos baixados com estas características tem crescido a uma taxa média de 6% ao ano e até postagens de crianças já foram detectadas por ela.
Para Adriana, um misto de despolitização da sociedade no período pós-ditadura e a transformação da política em escândalo por boa parte da mídia são o ovo da serpente para a expansão de manifestações crescentes de caráter nazifascista na sociedade brasileira. A omissão sistemática das autoridades às agressões perpetradas contra homossexuais, negros, judeus, nordestinos, moradores de rua e imigrantes bolivianos nas ruas de grandes centros urbanos completa o ciclo de terror, que silenciosamente avança junto a um número nada desprezível de jovens brasileiros.
Carta Capital: Nas manifestações populares das últimas semanas em São Paulo, um momento que chamou a atenção foi quando jovens, aparentemente ligados a esses movimentos, atacaram militantes partidários e militantes do movimento negro, destruindo suas bandeiras. Enquanto isso ocorria, a multidão à sua volta gritava “fora partido, fora partido”. Como explicar esses dois fenômenos simultâneos?
Adriana Dias: Desde a ditadura militar nós avançamos por um processo de despolitização espantoso em todas as camadas sociais. Os cursos de sociologia e filosofia foram retirados do currículo escolar. Em segundo lugar, há no Brasil uma proliferação da teologia da prosperidade. Na Alemanha, ela foi fundamental para a ascensão do nazismo. A ideia aqui é que não são as ações do governo que auxiliam nessa prosperidade. Por exemplo, o indivíduo consegue comprar uma casa pelo programa Minha Casa, Minha Vida e vai a um culto religioso e acredita que conseguiu por sua própria conta. Esse afastamento gradual do Brasil de um estado laico torna tudo mais difícil. Tanto na Igreja Católica, em sua linha carismática, quanto em certas igrejas protestantes. Por fim, a política de escândalos, patrocinada pela mídia, criou uma personalização da política como um eterno escândalo. Eu chamo isso de um carnaval às avessas. Se no carnaval o povo vai pras ruas para expor sua alegria, nessas manifestações as pessoas têm ido às ruas para expor suas insatisfações, fazendo reivindicações que não são mensuráveis e de um fundo conservador muito forte.
CC: Quais as alternativas para isso?
AD: A alternativa é a volta para o diálogo com os movimentos sociais. Nas elites políticas, em um sentido mais geral, há um movimento totalitário, dentro do que analisa Hannah Arendt. Particularmente na direita brasileira. Em São Paulo, por exemplo, muitas práticas do Estado são totalitárias. Veja a atuação da polícia. Já em um campo mais específico, entram esses movimentos neonazistas e suas ações, como essa verificada nas manifestações.
CC: Como esses jovens neonazistas são cooptados?
AD: Há um proselitismo muito forte no Brasil. Os grandes líderes têm entre 35 e 50 anos e normalmente são pequenos empresários e profissionais liberais. Estes não vão para as ruas. Em um segundo grupo, temos os mais jovens, que vão para as ruas e não se importam por que sabem que, se forem presos, serão soltos. E temos também as mulheres neonazistas, que são vistas somente como reprodutoras, dentro de um ideal paternalista e machista. Os grandes líderes atuam dentro de universidades, por exemplo, distribuindo material de divulgação do movimento e, principalmente, nas redes sociais.
CC: Como surgiu a ideia de pesquisar o movimento neonazista no Brasil?
Adriana Dias: A partir de uma disciplina que cursei na Unicamp, em 2002, na graduação, onde se discutia a negação do holocausto, tive a ideia de fazer um trabalho para conhecer um pouco os grupos neonazistas brasileiros. Como sou programadora, criei uma aranha de busca e percebi que estava entrando em um mundo muito grande. No início, eram apenas 7500 sites, em 2009 já eram mais de 20 mil. Existem também os blogs, que cresceram 450% nesse período, e as redes sociais.
CC: Quais as características desses sites?
AD: São compostos por páginas profundas, com diretórios dentro de diretórios. Nos diretórios mais profundos encontramos incentivos ao genocídio e assassinatos. Muitos deles são de origem norte-americana. Fazem apologia ao número 88, já que o H é a oitava letra do alfabeto e duplicado faz referência ao Heil Hitler. Uma frase muito comum de ser encontrada é o “nós devemos assegurar um futuro para as crianças brancas”, o slogan de 14 palavras inspirado em uma passagem do Mein Kampf, livro escrito por Hitler. Da combinação desses dois números, temos o 14/88, que é uma saudação. Muitos membros nos fóruns de internet se utilizam desses números como nicknames associados a nomes nórdicos. Coisas como Odin88 ou Thor 14/88.
CC: Por que esta forte influência dos sites norte-americanos?
AD: Eu fiz a minha pesquisa em inglês, espanhol e português. Os grandes pensadores do movimento estão nos EUA e um dos principais deles foi o David Lane, que morreu na prisão em 2007. O movimento surge muito forte lá por que a questão racial é muito dura entre eles. Esse lado mais duro permite a expansão desses pensamentos, ao lado do conceito de liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, esses sites são legais. É um discurso público e consequentemente é mais fácil de reproduzi-lo. Só que para mim, a liberdade de expressão se interrompe quando chega à dignidade humana. Representar outro ser humano como animal ou como um demônio está muito além da liberdade de expressão.
CC: A ligação com movimentos estrangeiros tem crescido?
AD: Já houve casos de grupos brasileiros serem rejeitados por serem sul-americanos, mas nos últimos tempos esta visão tem mudado e o ideário da raça branca tem aproximado esses grupos ao redor do mundo.
CC: O jornalista espanhol Antonio Salas, autor de O Diário de Um Skinhead, se infiltrou em grupos neonazistas. A senhora chegou perto de ter alguma experiência deste tipo?
AD: Antonio Salas produziu um trabalho heroico, se fazendo passar por um neonazista para conhecer estes grupos a fundo. Atualmente, ele tem que se manter oculto, pois é ameaçado de morte em 16 países. Eu pesquiso os sites e fóruns. Conheço perto de 500 desses fóruns e muitos funcionam como páginas de relacionamentos, mas os mais representativos chegam a um número de 12. Eles se dividem por temáticas, como o Fórum Verde, sobre ecologia, o Solar General, sobre religiosidade e o Movimento Cristão Identitário, que é protestante radical de direita e que tem a plataforma de criar um estado branco dentro dos EUA.
CC: Em sua pesquisa, o que mais chamou a atenção?
AD: A quantidade de ódio, a idolatria ao ódio. A ideia de achar que ele estrutura a personalidade. Eu, que tenho uma formação humanista, posso dizer que fiquei chocada com isso. Outro aspecto é a crença na noção de sangue que ultrapassaria a substancialidade. Ou seja, o sangue não seria material, estaria na alma. Isto explica por que entre eles a nação, tal qual nós a concebemos, não existe. O que existe é a nação racial. Por isto, é preciso destruir os movimentos populares, que estão associados a outra concepção de nação. Por fim, me chamou a atenção a facilidade para encontrar inimigos. Eu, como antropóloga, não acredito em raças, somente na raça humana, mas para eles, o casamento chamado de inter-racial, por exemplo, é considerado um genocídio.
CC: E no Brasil?
AD: No Brasil, existe o discurso separatista, que traz elementos complicadores.
CC: Como assim?
AD: Cada um quer uma coisa. Veja o caso do (Ricardo) Barollo, que mandou matar o (Bernardo) Dayrell, em 2009, no Paraná. Eles estavam lutando pela liderança do movimento no país, mas o que cada grupo defende a seu modo é a separação de São Paulo ou dos estados do sul do restante do Brasil. Nessas explosões de ódio, que mencionei há pouco, é exigido que eles ataquem os inimigos. Aliás, um dos critérios para aceitar um novo membro é que ele cometa uma violência contra um inimigo. Os grupos neonazistas têm matado e agredido gays em São Paulo, na região da rua Augusta, e ninguém fala nada. A polícia não faz nada. Já conversei com policiais que não consideram crime um indivíduo portar uma suástica bordada na blusa.
CC: Somente os gays?
AD: Não. Atacam bolivianos, negros, gays, nordestinos, judeus e depois relatam nos fóruns. Eles são organizados. Possuem inclusive estratégias de defesa. Muitos, quando são pegos, alegam loucura. São estratégias previamente montadas e as autoridades, por sua vez, não dão importância.
CC: Isto seria em função da cultura brasileira de deixar as coisas acontecerem para depois tomar uma atitude?
AD: Não, não acho. Acontece que no Brasil as minorias não têm importância e é por isso que ninguém faz nada.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Valério Arcary: Esquerda apanha e se junta. Mas, qual é mesmo o objetivo



Duas estratégias: unir a esquerda para avançar as mobilizações ou para proteger o governo Dilma?


Valério Arcary*, no Correio da Cidadania, em 01.07.2013


Todos juntos nessa luta pela unidade popular, Mas, se estamos todos juntos, contra quem vamos lutar?


Versos cantados por delegados da esquerda socialista no Congresso da UNE, em resposta à moção que defendia a estratégia de unidade de toda a oposição à ditadura militar, sob a liderança da burguesia liberal que se expressava através do MDB de Tancredo e Montoro, contra a unidade operário-estudantil.
O ataque dos fascistas contra a esquerda produziu uma reação extraordinária durante a última semana. A defesa do direito da esquerda de ir às ruas levantando suas bandeiras vermelhas uniu muitos milhares de jovens nos últimos dias, por todo o país, em uma mobilização unitária, entusiasmada e lúcida.

A unidade da esquerda nas ruas foi emocionante
As fotos da assembléia-monstro no Largo São Francisco, no Rio de Janeiro, para preparar o dia 27 e a ida ao Maracanã no dia da final da Copa das Confederações, emocionaram a esquerda, profundamente, em todo o Brasil. Processos semelhantes se repetiram, em formas variadas, mas com o mesmo conteúdo, em Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza, Belém, e Recife, entre muitas outras cidades menores. Surgiu do enfrentamento do dia 20 de junho com os fascistas um poderoso sentimento fraterno de que precisamos nos unir para vencer. Isso foi magnífico.
Estamos diante da urgência da política. Os dias agora valem por meses, as semanas por anos. Tudo se acelerou. O debate aberto na esquerda pelas mobilizações das últimas três semanas coloca na ordem do dia um dilema: a esquerda precisa se unir para poder ajudar o movimento da juventude a avançar na direção de novas vitórias, sob pena de perder uma oportunidade histórica de transformação do Brasil. Uma janela de oportunidade que não se abre com facilidade. A divisão da esquerda repercutirá de forma dramática sobre as possibilidades da luta em curso, porque está aberta uma disputa sobre o destino do combate de milhões. Esses milhões estão em luta porque têm pressa.


Um debate de estratégia é incontornável
Não obstante, isso não deve nos inibir de dizer que, infelizmente, existem dois grandes campos políticos na esquerda, hoje no Brasil, que remetem a um dilema de estratégia, e que vai se expressar em polêmicas táticas de todo o tipo. Estes campos têm diferenças irreconciliáveis.
Sendo assim, é melhor debater as estratégias. Porque é mais educativo. As questões mais de fundo, que remetem ao tema da atitude diante do poder, são inescapáveis. As diferenças não são artificiais, não são produto de exageros sectários. Não são pequenas escaramuças, miudices, picuinhas. Estes campos são maiores que os partidos de esquerda. Porque são muitas dezenas de milhares de ativistas que se interrogam sobre qual deve ser o caminho a seguir. A imensa maioria não tem militância partidária. Compreende a gravidade da situação. Tem boas razões para estar preocupada.

Dois campos em disputa
Em um campo estão aqueles que compreendem que a mobilização pelas reivindicações deve avançar, tendo a prioridade de unificação com os trabalhadores, ou seja, a preparação de um dia de greve geral para 11 de julho. Este campo afirma que, para lutar contra os empresários do transporte urbano, os banqueiros, os fazendeiros do agrobusiness, a FIESP, não é possível dar trégua a nenhum governo.
A nenhum significa isso mesmo, a nenhum, nem a Dilma. Depois de dez anos, ficou claro que os governos liderados pelo PT, em aliança com partidos burgueses, estão mais comprometidos com a preservação do pagamento da dívida pública do que com os transportes públicos, a educação e saúde públicas. Sem romper com o pagamento da dívida pública, de onde viriam as verbas para os investimentos necessários à implantação, por exemplo, do passe livre?
Os que nos colocamos nesta posição queremos ajudar a juventude nas ruas a continuar ocupando as avenidas com as reivindicações que ela mesma foi forjando pela sua experiência prática: conquista do passe livre, desmilitarização das PMs, mais verbas para educação e saúde, punição dos corruptos. E queremos agregar as reivindicações que respondem às necessidades do proletariado: o aumento dos salários e a redução da jornada de trabalho, por exemplo, ou a anulação da reforma da previdência e a suspensão dos leilões de privatização do petróleo do pré-sal, e tantas outras.
Os termos do dilema, que é sempre uma escolha difícil, são, portanto, terríveis, mas claros: Dilma está disposta a romper com o PMDB? Porque atrás do PMDB estão as empreiteiras com contratos milionários para a construção das grandes obras e estádios, por exemplo. E a esquerda que apoia o governo, ainda que criticamente, como as várias tendências internas do PT, o PC do B, a Consulta Popular ou o MST, se Dilma não atender às reivindicações, e não romper com o PMDB e os outros partidos burgueses, estão dispostas a romper com Dilma?
Em outro campo estão aqueles que consideram que é preciso unir a esquerda para defender o governo Dilma, porque o maior perigo seria a desestabilização do governo liderado pelo PT, ou até do regime democrático. Estão, podemos admitir, comprometidos em fazer exigências ao governo Dilma. Exigências para que Dilma abra negociações com as reivindicações das massas em luta. Exigências para que o PT no governo não capitule diante do PMDB de Michel Temer e Sérgio Cabral. Ou exigências para que o PT fora do governo não capitule aos ministros do PT que aconselham moderação a Dilma. Em resumo, estão engajados em pressionar o governo Dilma, mas não estão dispostos a romper com ele. E reafirmam que não era possível antes de junho, e continua não sendo possível, mesmo depois de milhões nas ruas, construir uma esquerda à esquerda do governo Dilma.

É preciso lutar, é possível vencer
Qual estratégia é o melhor caminho para vitórias populares? Qual estratégia irá prevalecer? Qual dos dois campos tem uma melhor apreciação do que está em disputa, e a melhor orientação para transformar o Brasil? Seria estupendo, realmente, fantástico, se as mobilizações de jovens e trabalhadores fossem o bastante para exercer uma pressão de classe suficiente para impor uma frente única de toda a esquerda. Essa é a vontade dos ativistas, é a vontade de todos os que sabemos contra quem lutamos. Porque para vencer o mais elementar é preciso saber contra quem lutamos. Saber quem são os amigos e quem são os inimigos.
Infelizmente, nunca é assim. A pressão das lutas não é o bastante. Outras pressões políticas que, em uma interpretação de classe, respondem a pressões das classes inimigas dos trabalhadores se abatem, também, sobre a esquerda. Diante de grandes acontecimentos, ensina a experiência histórica, algumas correntes de esquerda, que mantinham posições muito distantes umas das outras, se aproximam. E outras, que estavam próximas, se afastam. Em outra etapa da vida política brasileira se apresentou, dramaticamente, o mesmo dilema para a esquerda. Com quem nos unirmos, para lutar contra quem? Ou, enunciando de outra maneira, independência ou colaboração de classes?

A polêmica do final dos anos setenta e início dos oitenta
Em 1978/79, quando uma nova situação se abriu no Brasil, colocou-se um problema de estratégia política chave. Qual deveria ser a orientação para acelerar a derrota da ditadura militar? Estava ficando cada dia mais claro, depois das greves metalúrgicas do ABC, das greves de professores, de bancários e outros setores da classe trabalhadora, que era possível construir nas ruas uma mobilização de massas para derrotar a ditadura.
A classe dominante estava, crescentemente, dividida, entre uma maioria que aceitava a abertura lenta e gradual, ou seja, uma transição para um regime democrático-eleitoral negociada com os militares, e aqueles que resistiam, porque temiam, em função do medo das classes populares, a ampliação das liberdades democráticas. As classes médias tinham rompido, majoritariamente, com o regime. A classe trabalhadora começava a se mexer e a ganhar confiança em sua capacidade de luta.
A esquerda que vinha se fortalecendo nas lutas estudantis e na reorganização do movimento dos trabalhadores se dividiu em dois campos. De um lado, principalmente, o PCB, o PC do B e o MR-8 defendendo a unidade das oposições. O que significava que o monopólio da liderança política na luta contra a ditadura ficava nas mãos do PMDB.
Ninguém deveria disputar com Ulysses e Tancredo a condição de porta voz das oposições. Acontece que a liderança do PMDB temia mobilizar as massas contra a ditadura e aceitava o calendário eleitoral imposto por Geisel e Figueiredo. O PMDB não estava disposto a mobilizações de massas, porque sabia que o perigo era a entrada em cena dos trabalhadores, com sua força social de choque, seus métodos e suas greves. E o PMDB era um partido com apoio, essencial e primeiramente, empresarial.
No outro campo, estava a esquerda que se uniu em torno do projeto que nasceu das greves operárias e das manifestações estudantis, levando à fundação do PT em 1980, e da CUT, em 1983. Este campo se posicionava contra uma transição negociada e lutava pela derrubada da ditadura. Lutava pela perspectiva de um deslocamento da ditadura pelas lutas, não em conchavos no Congresso Nacional.
O PMDB era o partido da oposição institucional, o PT era o partido da independência dos trabalhadores, que não aceitava que a maioria proletária continuasse a ser massa de manobra entre diferentes alas da classe dominante. Os moderados de esquerda argumentavam exatamente como agora: não é possível ultrapassar Ulysses e o PMDB pela esquerda. A luta provou que eles estavam errados. Foi porque o PT chamou às ruas e começou a campanha das Diretas Já! no Pacaembu que o PMDB, ainda que dividido, se mexeu. O drama atual é que a maioria daqueles que foram os radicais em 1980/83 agora são os moderados. De incendiários, viraram bombeiros.
O dilema de estratégia que se coloca agora, trinta e cinco anos depois, no entanto, é o mesmo. O papel da esquerda deve ser o de ajudar a juventude e os trabalhadores a construir um campo independente? Ou ela deve se resignar a ser um vagãozinho atrelado ao trem que é dirigido por uma ala da classe dominante contra outra ala? Só podemos escolher entre o governo Dilma ou um governo da direita? Ou esta onda de lutas pode ajudar a nova geração a retirar conclusões políticas e ir além? Não é possível pensar em um poderoso campo de oposição de esquerda, que permita ir além do reformismo quase sem reformas dos dez anos dos governos Lula e Dilma? Qual o caminho para avançar na direção da revolução brasileira?

*Valerio Arcary é professor do IF/SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) e doutor em História pela USP
Fonte:http://www.viomundo.com.br

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Explosão jovem cheira mais primavera que pólvora e gasolina

por Artur Scavone, especial para o Viomundo

Vamos aos fatos: não há no país uma força política que represente o descontentamento enorme contra corrupção, desmando, precariedade dos serviços sociais, tarifas etc. Não surgiu um outro PT, tal como foi no seu início, no lugar do PT, em grande medida institucionalizado e cooptado ideológica e materialmente pelo poder.
Esse vácuo de representação vai acumulando forças que não têm por onde se expressar. Os meios de comunicação (o PIG, em particular) não se cansam de falar de roubalheira, políticos desonestos, etc. Fazem questão de desmoralizar a política porque querem apresentar o Aécio como sério e honesto. Ainda que o problema exista, o caminho não é a desmoralização, mas a participação, todos sabemos.
A juventude, que tem mais capacidade operacional para se manifestar, que sofre com tarifas, caos urbano, busca saídas em várias formas de protesto. Alguns vão para os partidos de pouca expressão institucional e mais radicalizados, outros para grupos ecológicos ou para outras formas de organização.
Essa mesma juventude vê pela mídia a vitalidade das manifestações pelo mundo. Nós víamos maio de 68 na França, Che Guevara na Bolívia, Ho Chi Min no Vietnã. Isso contamina e vitamina, como já nos contaminou e nos vitaminou.
Um estopim detona a explosão: o Movimento Passe Livre (MPL), que tem história, já se fez presente nas reuniões do Fórum Social Mundial e se diz apartidário, chama as manifestações. A repressão violenta é gasolina pura.
Os partidos de esquerda com posições políticas doutrinárias – e daí sectárias – articulam sua participação já visualizando a insurreição das massas à frente. São eles que buscam a radicalização: tomar os palácios – no RJ, em SP, em BH e em POA. O PT fica atônito. O PSOL tenta se inserir no movimento. O movimento sente-se em sintonia com a primavera árabe. Ou das revoltas na Síria.
O MPL – por uma posição ideológica – se recusa dar direção ao m
ovimento. Ontem, no Largo da Batata, eles se recusaram usar carro de som, “porque cada um sabe o que faz e políticos querem se apropriar do movimento”.
O que acontece? Quem tem capacidade de mobilização e de dar direção conduz parte da manifestação. Se o MPL é despolitizado, a direção dada a esta outra parte da manifestação caminha para outro tipo de despolitização: o distanciamento do movimento real em razão da radicalização sectarizada.
A essa altura do campeonato os articuladores do PIG, Jorge Bornhausen, Merval Pereira e outros, estão com as barbas de molho, preocupados porque a manifestação, que deveria pedir a prisão dos condenados do mensalão, ser contra a Dilma, contra Haddad, foi contra os símbolos maiores do poder, as casas legislativas. Ou seja, o tiro do PIG está saindo pela culatra.
É óbvio, afinal, que ninguém está com as barbas de molho mais que o PT. O discurso da Bolsa Família, do Fim da Miséria, da Copa, do desenvolvimento, está se esgotando.
Essa explosão jovem tem mais cheiro de primavera que de pólvora (das balas de borracha) e gasolina (dos coquetéis molotov). É preciso que a juventude mostre a cara e sonhe mais alto. Aliás, mostre a cara, e não tenha que cobri-la para quebrar e detonar, porque esse é o caminho, nas atuais circunstâncias, da despolitização.
 Artur Scavone é jornalista e estudante de filosofia na USP.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O capitalismo não pode gerar liberdade para todos, igualdade nem para poucos e fraternidade de jeito nenhum

*Por Habanero
José Paulo Netto é um dos maiores intelectuais marxistas do país. Isso, as pessoas minimamente bem informadas sobre este campo, já sabem. Pensador decisivo da formulação teórica no campo do Serviço Social, o alcance de seu trabalho e de sua influência já extrapolou as fronteiras daquela área. Zé Paulo, como gostamos de chamá-lo, tem sido ao longo das últimas décadas um dos pontos de referência da esquerda que quer pensar e tem acolhido com extraordinária generosidade o amplo leque de matizes e subcolorações que ela comporta. Em suas muito concorridas aulas de pós-graduação – trata-se de um professor emérito em franca atividade – encontram-se olhares atentos de bons representantes de uma diversidade de siglas políticas e de movimentos da busca da mudança do mundo. A energia que empresta às suas convicções teóricas, adensada por sua erudição, ganha especial sentido para os que testemunham a humanidade calorosa com que trata os jovens em início de caminhada.
Esta entrevista tem também o sentido de homenagear outro grande mestre, professor, pensador e figura humana marcante para tantas e tantos de nós: o professor Carlos Nelson Coutinho, com quem Zé Paulo conviveu por frutíferas décadas. O entrevistado começou falando do amigo e o citando encerrou. A Carlos Nelson a revista Habanero dedica esta entrevista.

A atualidade do pensamento vinculado à superação do capitalismo, o significado dos processos sociais e políticos atuais, o lugar dos movimentos de “minorias” e do movimento ambientalista e sua relação com a luta de classes, o papel da militância partidária no mundo de hoje e, por todos, a possibilidade de um futuro humano emancipado, são alguns dos temas tratados com extraordinárias lucidez, atualidade e coerência por nosso entrevistado. Seu conhecido rigor teórico, exige advertir que a eventual brevidade com que alguns assuntos são tratados decorre das limitações temporais e técnicas e não do desconhecimento de que são apenas parte do debate. Mas seus entrevistadores – editores desta revista, que contaram com a valiosa colaboração do amigo Victor Neves – se perguntam: quantos poderiam ter dito tanto em tão pouco tempo?

Fonte:http://www.revistahabanero.org/

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A face racista da miscigenação brasileira

210513 miscigenacaoBrasil - Blogueiras Negras - [Jarid Arraes] A questão da miscigenação racial no Brasil costuma ser muito simplificada e romantizada.

Não é raro ouvirmos que o Brasil é um país mestiço e plural e que, consequentemente, todos os seus habitantes tiveram sua etnia inevitavelmente misturada em algum ponto de sua ancestralidade. Mas sob o axioma de um país miscigenado se esconde uma realidade violenta e racista: a generalização da branquitude em um país predominantemente negro.
Se todos os brasileiros são miscigenados e possuem sangue negro e indígena em suas veias, por que tantas pessoas resistem em reconhecer a própria ascendência? Acontece que a identificação social da pessoa negra no Brasil acontece diretamente devido ao tom da pele. O entendimento das pessoas a respeito da negritude é muitas vezes distorcido: mesmo que a família direta ou os pais de um indivíduo sejam negros, o que pesa para que essa pessoa seja reconhecida como negra é a cor da sua pele. Mesmo o tom escuro não é garantia de que alguém será visto como negro; basta lembrar de quantas vezes são adotados eufemismos como "moreno" para se referir a pessoas com a cor da pele escura, como se a palavra pudesse de algum modo reduzir a carga negativa que o termo "negro" parece ter.
Embora a sociedade nem sempre valide a negritude alheia, as pessoas costumam reconhecer essa mesma negritude em traços e características físicas, que são constantemente transformados em justificativas para o racismo e a violência. O nariz largo, os lábios grossos ou o cabelo crespo, popularmente conhecido como "cabelo ruim", são alvos de degradação e repúdio. É interessante lembrar que a África é um vasto continente com uma grande variedade de etnias, das quais não são todas que se encaixam no molde conhecido de "traços negros". Ainda assim, são essas as características interpretadas como negras e que acabam por fermentar o racismo em suas mais diversas formas.
Mesmo com tantas histórias de violência racista, muitas pessoas ainda se sentem inseguras quando questionadas sobre sua negritude. Na última semana, foi aberto um formulário de pesquisa voltado para pessoas miscigenadas e as respostas obtidas foram bastante similares entre si. Algumas pessoas dizem que não se sentem no direito de se afirmar como negras devido ao tom não tão escuro da sua pele. Muitas delas são descendentes diretas de negros, ou contam com parentes próximos negros, mas a afirmação racial simplesmente não acontece. Por um lado, essa é uma demonstração de respeito às pessoas negras de pele inquestionavelmente escura, que sofrem o racismo diário impassível de debates ou especulações – o racismo contra a pele escura e contra a aparência. Por outro lado, uma discussão séria e sensível se faz necessária: por que tanta gente afrodescendente não reconhece a própria negritude e não consegue afirmá-la de forma política e subjetiva?
Para os brasileiros, é melhor ser branco sempre que for possível. Se a pele não é escura o suficiente, ou se um dos pais é loiro de olhos azuis, então a pessoa é considerada branca, em uma tentativa incansável de clarear os descendentes, a família e a nação. Da mistura de raças, nasce o branco por consideração e, com isso, morrem a cultura, a religião e a identidade afrodescendente. A negritude e a cultura africana, com seus símbolos e tradições, se tornam cada vez mais algo do passado, de uma ancestralidade que é, na maioria esmagadora das vezes, totalmente desconhecida.
Mas os tópicos para debate não param por aí, pois não é o reconhecimento da identidade negra que fará uma pessoa ser negra. Mesmo que os seus pais ou os seus avós sejam negros, uma pessoa de pele branca e cabelo claro dificilmente sofre o racismo destinado às pessoas negras. É uma questão de bom senso: não há empatia em tomar uma afirmação política contra uma discriminação da qual você não é vítima. Resgatar suas raízes familiares, conhecê-las, celebrá-las e promovê-las é algo desejável e inspirador, mas é importante tomar cuidado para não banalizar a afirmação política negra e a sua luta. Há pessoas brancas, essas sem nenhum vínculo familiar negro, que são repletas de má fé e dizem que também são negras por causa da miscigenação brasileira. Mas esse argumento é uma farsa: em nosso país, negro é quem é reconhecido pelos outros como negro e, consequentemente, sofre racismo e discriminação social.
O racismo é um problema enraizado desde a formação do Brasil. Há séculos nosso país vem lutando para destruir as heranças culturais africanas e impedir a afirmação política negra de autorreconhecimento racial. Fazemos parte de um país que não tanto tempo atrás tinha abertamente uma política de branqueamento racial, incentivando a entrada de imigrantes brancos para clarear a cor do Brasil. A cultura brasileira deseja apagar o negro da sua história, sob a máscara pretenciosa da miscigenação. Mas a miscigenação também pode ser uma arma de luta e empoderamento: basta nos compreendermos como afrodescendentes, sem perdermos de vista o racismo que sofremos. Quando a face racista da sociedade se revela, não há quase-brancos, quase-negros ou morenos, mas sim pessoas nas quais a negritude foi reconhecida.
Por fim, esse texto sozinho jamais seria capaz de abordar todas as nuances e complexidade do tema. É preciso desbravar a miscigenação brasileira e promover a conscientização sobre o assunto. Que essa seja somente a nossa largada para a reflexão e a realização de novos debates e projetos.
Fonte: http://www.diarioliberdade.org

sábado, 18 de maio de 2013

Execução sumária na ditadura vem a público oficialmente

Em depoimento que terminou às altas horas desta quinta-feira, o ex-agente da repressão Valdemar Martins de Oliveira falou durante a audiência pública realizada da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo. Ex-paraquedista, Valdemar disse a Rodrigo Vianna, em reportagem exclusiva veiculada nessa quarta-feira 15 pelo Jornal da Record, que abandonou o Exército brasileiro por discordar de torturas e assassinatos cometidos pelos militares contra militantes políticos que se opunham à ditadura. Valdemar foi testemunha do assassinato do casal Catarina Abi-Eçab e João Antônio dos Santos Abi-Eçab, em 1968, no Rio de Janeiro. Os dois militavam no movimento estudantil e eram suspeitos de ter participado da execução do capitão do Exército norte-americano Charles Rodney Chandler, em 12 de outubro de 1968, feita pela ALN e pela VPR.
O ex-soldado Valdemar Martins de Oliveira fala à Comissão da Verdade de SP sobre a morte do casal Catarina Helena Abi-Eçab e João Antônio Santos Abi-Eçab, em novembro de 1968
O ex-soldado Valdemar Martins de Oliveira fala à Comissão da Verdade de SP sobre a morte do casal Catarina Helena Abi-Eçab e João Antônio Santos Abi-Eçab, em novembro de 1968
Durante muito tempo prevaleceu a versão policial que atribuiu a morte do casal à explosão do veículo em que viajavam, em consequência da detonação de explosivos que transportavam, no km 69 da BR-116, próximo a Vassouras (RJ). A versão divulgada na imprensa foi a de que ambos foram vítimas de um acidente de automóvel: “[…] chocaram-se contra a traseira de um caminhão que transportava pessoas em sua caçamba”. No veículo em que estavam, teria sido encontrada uma mala com armamentos e munição.
No boletim de ocorrência, que registrou o suposto acidente, consta:
Foi dado ciência à Polícia às 20h de 08/11/68. Três policiais se dirigiram ao local constatando que na altura do km 69 da BR116, o VW 349884-SP dirigido por seu proprietário João Antônio dos Santos Abi-Eçab, tendo como passageira sua esposa Catarina Helena Xavier Pereira (nome de solteira), havia colidido com a traseira do caminhão de marca De Soto, placa 431152-RJ, dirigido por Geraldo Dias da Silva, que não foi encontrado. O casal de ocupantes do VW faleceu no local. Após os exames de praxe, os cadáveres foram encaminhados ao necrotério local.
O laudo da exumação, elaborado pelos legistas Carlos Delmonte e Isaac Jaime Saieg, em 23 de julho de 2000, concluiu que a morte foi conseqüência de “traumatismo crânio-encefálico” causado por “ação vulnerante de projétil de arma de fogo”. Sua morte ocorreu em decorrência de um tiro que a atingiu pelas costas. Além disso, os legistas não encontraram sinais de autópsia feita anteriormente. A causa mortis apresentada em 9 de novembro de 1968, pelos médicos Pedro Saullo e Almir Fagundes de Souza, do IML de Vassouras, foi “fratura de crânio, com afundamento (acidente)”.
A reportagem feita pelo jornalista Caco Barcellos, veiculada no Jornal Nacional (TV Globo) em abril de 2001, desmentiu a versão policial de acidente e demonstrou que João Antonio e Catarina foram executados. Na entrevista ao repórter Rodrigo Vianna, Valdemar deu detalhes:
– O capitão Pereira deu um tiro na nuca de cada um deles.
Na véspera, em depoimento à Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, na Assembleia Legislativa, Valdemar revelou o nome do “capitão Pereira”:
– O coronel Freddie Perdigão deu um tiro na nuca de um e outro tiro na nuca do outro.
Em depoimento à Comissão Nacional Verdade, o ex-militar já havia revelado o nome de Freddie Perdigão. Como lá a audiência foi fechada, a informação não veio a público.
Dr. Nagib
Segundo o Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, o nome de Freddie Perdigão, conhecido como o Dr. Nagibnos porões da ditadura, aparece em duas listas do Projeto Brasil Nunca Mais, como Major atuando no DOI/CODI do Rio de Janeiro, em 1970. Em documento de 2008, o Tortura Nunca Mais/RJ, relata:
“Na primeira destas listas, a de “Elementos Envolvidos Diretamente em Torturas”, à página 39 do Tomo II, volume 3 “Os Funcionários”, seu nome é denunciado por Tânia Chao que, em dezembro de 1970 era professora, tendo 25 anos. Seu depoimento encontra-se à pág 769 do Tomo V, volume 3, “As Torturas” do Projeto BNM, transcrito abaixo:
( ) … que a declarante anteriormente a assinatura de suas declarações foi agredida de diversas maneiras sofrendo, inclusive, choques elétricos pelo corpo sendo que esses fatos foram presenciados pelo Encarregado do IPM; que a declarante foi agredida, inclusive, pelas pessoas de nome Plínio e Nagib, e, também, por Timóteo Ferreira por palmatória; que a declarante na prisão não tem obtido tratamento médico necessário uma vez que sofre de artrite rematoide e de úlcera; que em sua prisão não tem o mínimo conforto necessário no que se refere a higiene uma vez que não há banheiro na cela …( )
Estas declarações de Tânia Chao encontram-se no Processo N.º 81/70 da 1ª Auditoria da Militar, da 1ª RM/CJM, com Apelação no STM de n.º 39.519 consta de dois volumes e dois apensos ( informações contidas à pág 209, Tomo II, Volume 1 “A Pesquisa BNM” do Projeto Brasil Nunca Mais).
Este processo, trata de réus acusados de pertencerem a ALA, no Rio de Janeiro, em 1970, tendo conseguido do dono de uma gráfica autorização para imprimirem identidades falsas, o que efetivamente fizeram. Alguns réus fundaram um curso para obter fundos para a Ala, onde era impresso em mimeógrafo o jornal Unidade Operária
Na segunda lista, a de “Membros dos órgãos da Repressão”, à página 233 do Tomo II, Volume 3 “Os Funcionários”, o nome de Nagib é denunciado também em abril de 1971 e aparece no mesmo Processo citado acima.
O Coronel Freddie Perdigão foi denunciado pelo estudante Sérgio Ubiratan Manes em depoimento ao Tribunal Superior Militar (STM), em 1969, segundo reportagem do jornal O Globo de 04/07/99, como um dos torturadores que o espancaram na Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita.
Nessa mesma reportagem, o General Newton Cruz revela que o Capitão Perdigão o avisou daOperação Riocentro e esteve no local do atentado com o grupo de militares que colocaram a bomba no estacionamento do Riocentro, durante um show em homenagem ao Dia do Trabalhador, em 30/04/81, onde morreu o sargento Guilherme do Rosário e ferindo o capitão Wilson Machado, ambos agentes do DOI/CODI.
Segundo o jornalista Elio Gaspari, publicado na sua coluna, no jornal O Globo, no dia 24/10/99 “…O grupo terrorista a que Perdigão estivera ligado em 1968 voltou a agir em 1976.
Seqüestraram, espancaram, pintaram de vermelho e deixaram nu numa estrada o bispo de Nova Iguaçu, Dom Adriano Hipólito…”
Conceição Lemes é jornalista e escreve para o sítio Viomundo.