quarta-feira, 6 de abril de 2011

O "nosso homem em Tripoli": Oposição líbia inclui terroristas islâmicos

por Michel Chossudovsky

Moussa Koussa, o agente duplo. Há várias facções no interior da oposição líbia: Monárquicos, desertores do regime Kadafi incluindo o ministro da Justiça e mais recentemente o ministro dos Negócios Estrangeiros Moussa Koussa, membros das Forças Armadas Líbia, a Frente Nacional para a Salvação da Líbia (NFSL na sigla em inglês), a Conferência Nacional para a Oposição Líbia (NCLO na sigla em inglês) a qual actua como uma organização superior.

Raramente reconhecido pelos media ocidentais, a Al-Jamaa al-Islamiyyah al-Muqatilah bi Libya, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (Libya Islamic Fighting Group, LIFG) é parte integral da oposição líbia.

O Conselho Interino Líbio (Libyan Interim Council) não constitui uma entidade claramente definida. É baseado na representação de conselhos locais recém criados estabelecidos para "administrar a vida diária nas cidades e aldeias libertadas)". ( The Libyan Interim National Council" The Council's statement )

As forças de oposição são em grande parte constituídas por milícias civis não treinadas, antigos das Forças Armadas Líbias juntamente com paramilitares treinados do Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG).

O LIFG, o qual está alinhado com a Al Qaeda está, segundo relatórios, na linha de frente da insurreição armada.

Tanto o LIFG como entidade como os seus membros individuais são classificados pelo Conselho de Segurança da ONU como terroristas. Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA: "O Grupo de Combate Islâmico da Líbia ameaça a segurança global e a estabilidade através da utilização da violência e da sua aliança ideológica com a Al Qaida e outras organizações terroristas brutais" ( Treasury Designates UK-Based Individuals, Entities Financing Al Qaida -Affiliated Libyan Islamic Fighting Group - US Fed News Service , February 8, 2006)

Os conceitos estão invertidos. Tanto Washington como a NATO, que afirmam estarem a travar "uma Guerra ao Terrorismo" estão a apoiar um "movimento pró democracia" integrado por membros de uma organização terrorista.

Numa ironia cruel, Washington e a Aliança Atlântica estão a actuar em desobediência às suas próprias leis e regulamentos anti-terroristas.

Além disso, o apoio sob a "Responsabilidade de proteger" ("Responsibility to Protect", R2P) forças de oposição integradas por terroristas é implementado de acordo com a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, o qual está a violar flagrantemente a Resolução 1267 do próprio CSONU. Este último identifica o Al-Jama'a al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG) como uma organização terrorista.

Por outras palavras, o Conselho de Segurança da ONU está em flagrante violação não só da Carta das Nações Unidos como das suas próprias resoluções. ( The Al-Qaida and Taliban Sanctions Committee - 1267 ).

A rede Al Qaeda como instrumento de intervenção dos EUA-NATO

Amplamente documentada, a "Jihad islâmica" foi apoiada encobertamente pela CIA desde o desencadeamento da guerra soviético-afegã. (Ver Michel Chossudovsky, America's War on Terrorism, Global Research, Montreal, 2005). A Central Intelligence Agency (CIA) utilizando a Inter-Services Intelligence (ISI) dos militares do Paquistão desempenhou um papel chave no treino dos Mujahideen. Por sua vez, o treino de guerrilha patrocinado pela CIA foi integrado com os ensinamentos do Islão:

"Em Março de 1985, o presidente Reagan assinou a Decisão Directiva de Segurança Nacional 166, ... [a qual] autoriza um avanço na ajuda militar encoberta ao Mujahideen e deixava claro que a guerra secreta afegã tinha um novo objectivo: derrotar as tropas soviéticas no Afeganistão através da acção encoberta e encorajar a sua retirada. A nova assistência encoberta dos EUA começou com um aumento dramático nos fornecimentos de armas – uma ascensão firme para 65 mil toneladas anuais em 1987, ... bem como um "fluxo incessante" de especialistas da CIA e do Pentágono que viajavam para a sede secreta do ISI do Paquistão na estrada principal próxima a Rawalpindi, Paquistão. Ali os especialistas da CIA encontravam-se com oficiais da inteligência paquistanesa a fim de ajudar a planear operações para os rebeldes afegãos". (Steve Coll, Washington Post, July 19, 1992).

Origens históricas do Libya Islamic Fighting Group (LIFG)

O Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG), Al-Jama'a al-Islamiyyah al-Muqatilah bi-Libya foi fundado no Afeganistão pelo mujahideens veteranos líbios da guerra afegã contra os soviéticos.

Desde o início, na primeira metade da década de 1990, o LIFG desempenhou o papel de um "activo de inteligência" por conta da CIA e do serviço secreto de inteligência britânico, MI6. Arrancando em 1995, o LIFG esteve envolvido activamente numa Jihad islâmica contra o regime leigo líbio, incluindo uma tentativa de assassínio de Muamar Kadafi em 1996.

"O antigo operacional do MI5, David Shayler, revelou que enquanto estava a trabalhar sobre a secção da Líbia em meados da década de 1990, pessoal do serviço secreto britânico colaborou com o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG), o qual está conectado da um dos lugares-tenentes de confiança de Osama bin Laden. O LIFG é agora considerado um grupo terrorista no Reino Unido". (Gerald A. Perreira, British Intelligence Worked with Al Qaeda to Kill Qaddafi, http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23957 Global Research, March 25 2011, sublinhado nosso)

Ataque terroristas em estilo guerrilha foram rotineiramente efectuados contra forças de segurança, polícia e pessoal militar do governo líbio:

"Choques violentos entre forças de segurança (de Kadafi) e guerrilhas islâmicas irromperam em Bengazi em Setembro de 1995, deixando dezenas de mortos em ambos os lados. Após semanas de combate intenso, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (LIFG) declarou formalmente a sua existência num comunicado em que chamava o governo de Kadafi de "regime apóstata que blasfemou contra a fé de Deus Poderoso" e declarava que o seu derrube era "o mais premente dever após a fé em Deus". Este e os seguintes comunicados da LIFG foram emitidos por afegãos líbios aos quais fora concedido asilo político na Grã-Bretanha... O envolvimento do governo britânico na campanha do LIFG contra Kadafi permanece assunto de imensa controvérsia. A grande operação seguinte do LIFG, uma tentativa de assassinato de Kadafi em Fevereiro de 1996 que matou vários dos seus guarda-costas, foi dito posteriormente que fora financiada pela inteligência britânica ao custo considerável de US$160 mil, segundo o ex-oficial do MI5 David Shayler. Se bem que as alegações de Shayler não tenham sido confirmadas independentemente, é claro que a Grã-Bretanha permitiu ao LIFG desenvolver uma base de apoio logístico e levantamento de fundos no seu território. De qualquer modo, o financiamento por bin Laden parece ter sido muito mais importante. Segundo um relatório, o LIFG recebeu mais de US$50 mil do mentor terrorista saudita por cada um do seus militantes mortos no campo de batalha ". [2005] (Citado em Peter Dale Scott, Who are the Libyan Freedom Fighters and Their Patrons? Global Research, March 2011, sublinhados nossos).

Há informações contraditórios sobre se o LIFG é parte da Al Qaeda ou está a actuar como uma entidade jihadista independente. Um relatório sugere que em 2007 o LIFG tornou-se "uma subsidiária da Al Qaeda, assumindo posteriormente o nome de Al Qaeda no Maghreb Islâmico (Al Qaeda in the Islamic Maghreb, AQIM). (Ver Webster Tarpley The CIA's Libya Rebels: The Same Terrorists who Killed US, NATO Troops in Iraq , Global Research, March 2011)

Continuidade nas operações de inteligência dos EUA e aliados: Operacionais da Al Qaeda na Jugoslávia

Desde a guerra soviético-afegã, a rede Al Qaeda tem servido como um "activo de inteligência" para a CIA. Como confirmado por um documento de 1997 do Senado dos EUA, operacionais da Al Qaeda foram utilizados pela administração Clinton para canalizar apoio para o Exército Muçulmano Bósnio no princípio da década de 1990. US Senate, Republican Party Committee, Clinton-Approved Iranian Arms Transfers Help Turn Bosnia into Militant Islamic Base, http://rpc.senate.gov/releases/1997/iran.htm , 1998)

O Exército de Libertação do Kosovo (KLA na sigla em inglês), o qual foi apoiado pela NATO, desenvolveu laços extensos com a rede de terror islâmico. ( US Senate, Republican Party Committee, The Clinton Administration Sets Course for NATO Intervention in Kosovo, 1998, http://rpc.senate.gov/releases/1998/kosovo.htm , Ver também Michel Chossudovsky, America's "War on Terrorism" , Global Research, Montreal, 2005)

A Al Qaeda na Jugoslávia serviu como um activo de inteligência no contexto da "guerra humanitária" da NATO. Organizações terroristas foram encobertamente apoiadas e financiadas. A intervenção da NATO chegou para resgatar o Exército de Libertação do Kosovo (KLA) o qual era apoiado por operacionais da Al Qaeda. (US Republican Party Committee documents, op cit)

Isto faz parte do padrão EUA-NATO: Apoiar uma insurreição integrada por terroristas tendo em vista justificar intervenção com argumentos humanitários para "salvar as vidas de civis".

Esta foi a justificação da NATO para intervir na Bósnia e no Kosovo. Que lições extrair para a Líbia?

Antigo chefe da inteligência líbia, Moussa Koussa, deserta para o Reino Unido

O LIFG era apoiado não só pela CIA e pelo serviços de inteligência britânico (MI6) como também por facções dentro da agência de inteligência da Líbia, chefiada pelo antigo responsável de inteligência e ministro dos Negócios Estrangeiros, Moussa Koussa, que desertou para o Reino Unido no fim de Março de 2011.

William Burns. Em Outubro de 2001 o chefe da inteligência líbia Moussa Koussa encontrou-se com o secretário de Estado assistente dos EUA William J. Burns. O encontro Koussa-Burns foi de importância crucial. Estiveram presentes nas reuniões responsáveis superiores da CIA e do MI6 incluindo sir John Scarlett que naquele tempo (Outubro 2001) era o chefe do Joint Intelligence Committee (JIC) do gabinete, subordinado directamente ao primeiro-ministro Tony Blair. O JIC supervisiona em nome do governo britânico o estabelecimento de prioridades para o MI6, MI5 e Defense Intelligence.

John Scarlett. Nosso homem em Tripoli, Moussa Koussa, devia desempenhar o papel de um agente duplo. Em reuniões secretas com sir John Scarlett acordou-se que "um agente britânico podia operar em Tripoli". ( Libya defector Moussa Koussa was an MI6 double agent , Sunday Express, April 3, 2011)

O desenvolvimento do LIFG como um movimento paramilitar jihadista bem como a sua integração nas forças de oposição anti-Kadafi revela um relacionamento directo com o papel central desempenhado pelo agente duplo Moussa Koussa, o qual foi instrumental no estabelecimento de estreitos laços bilaterais com a CIA e o MI6.

A este respeito, a deserção de Moussa Koussa no fim de Março tem toda a aparência de uma operação cuidadosamente encenada. De um modo inabitual, o acordo foi negociado com o governo britânico através da intermediação de um antigo líder do LIFG, organização terrorista relacionada com a Al Qaeda, que agora está a trabalhar com uma fundação de direitos humanos com sede em Londres:

Noman Benotman, amigo do ministro líbio dos Negócios Estrangeiros Moussa Koussa, contou à BBC como ajudou a organizar a sua deserção do regime Kadafi.

O sr. Benotman foi líder do Libyan Islamic Fighting Group mas agora trabalha para o think tank contra-extremista da Quilliam Foundation .

Ele disse acreditar que o sr. Koussa estaria a negociar com o governo britânico e era muito cooperativo quanto a inteligência.

Gordon Corera da BBC acrescentou que o governo britânico estava num dilema sobre como tratar o sr. Koussa devido aos seus antecedentes como chefe da inteligência líbia.

O sr. Benotman contou no BBC Breakfast como ajudou Koussa a desertar e como costumavam ser rivais. ( BBC Breakfast April 1, 2011, sublinhado nosso)

Ironicamente, Benotman foi recrutado como Mujahideen para combater na guerra soviético-afegã. Ele foi um dos fundados do LIFG no Afeganistão. Centrando-se em questões de "contra-extremismo", Benotman é actualmente analista sénior na Quilliam Foundation. Suas responsabilidades actuais incluem estender a mão "para actuais e antigos extremistas e utilizar a Quilliam como uma plataforma a partir da qual partilha seu conhecimento interno da Al-Qaeda e outros grupos jihadistas junto a uma audiência mais vasta".

O programa de contra-terrorismo da CIA

Os laços bilaterais estabelecidos em Outubro de 2001 entre a CIA-MI6 e a inteligência líbia proporcionaram às agências de inteligência ocidentais acesso directo e vigilância dentro da Líbia, através dos seus colegas pró EUA na agência de inteligência dirigida por Moussa Koussa. Este acordo permitiu à inteligência ocidental infiltrar efectivamente a Agência de Inteligência Líbia a qual estava sob o comando de um agente duplo do MI6.

Segundo o Departamento de Estado num relatório de 2008, o governo líbio "continuou a cooperar com os Estados Unidos e a comunidade internacional para combater o terrorismo e o financiamento terrorista". "U.S. officials hope to extend counterterrorism assistance to Libya during FY2010 and FY2011...." (Ver Christopher M. Blanchard Libya: Background and U.S. Relations , US Congress Research Service, July 16, 2010)

Em 2009 a inteligência líbia estabeleceu um programa conjunto de contra-terrorismo através do qual responsáveis da inteligência líbia receberiam treino da CIA em contra-terrorismo. Este programa fazia parte de um acordo negociado por Moussa Koussa com a CIA. Em teoria pretendia-se desmantelar o LIFG com a ajuda da CIA. Ter em consideração a ambiguidade do "contra-terrorismo" da CIA. O lançamento do LIFG no Afeganistão no princípio da década de 1990 fazia parte de um projecto da CIA de criar um exército líbio a partir da sua rede Al Qaeda.

Também em 2009, os líderes aprisionados do Libyan Islamic Fighting Group (LIFG) alegadamente renunciaram à sua luta armada travada contra o regime Kadafi num acordo alcançado com responsáveis da segurança líbia. ( New jihad code threatens al Qaeda , CNN, November 2009)

Qual era o papel do programa de contra-terrorismo EUA-Líbia na perspectiva de Washington?

Oficialmente, era identificar membros do LIFG e desmantelar o LIFG como organização. Na prática, a operação conduzida pelos EUA na Líbia, incluindo treino sob os auspícios da CIA, proporcionava à agência uma cortina de fumo conveniente para efectuar operações de inteligência dentro da Líbia. Por um lado o programa de treino permitiu à CIA infiltrar e adquirir interlocutores confiáveis dentro da inteligência líbia.

Também permitiu à Agência, em conjunto com o serviço secreto de inteligência britânico (MI6), proporcionar realmente apoio encoberto ao LIFG na expectativa da insurreição armada de Março de 2011.

Os media sugerem que o LIFG foi desmantelado (a seguir à implementação do programa de contra-terrorismo patrocinado pela CIA). Não há prova disso. O LIFG permanece na lista de terroristas (actualizada até 24/Março/2011) do Conselho de Segurança das Nações Unidas:

QE.L.11.01. Name: LIBYAN ISLAMIC FIGHTING GROUP

Name (original script):

A.k.a.: LIFG F.k.a.: na Address: na Listed on: 6 Oct. 2001 (amended on 5 Mar. 2009)

Other information: Review pursuant to Security Council resolution 1822 (2008) was concluded on 21 Jun. 2010

United Nations Security Council: Consolidated List established and maintained by the 1267 Committee with respect to Al-Qaida, Usama bin Laden, and the Taliban and other individuals, groups, undertakings and entities associated with them (updated March 24, 2011)

(p. 70, http://www.un.org/sc/committees/1267/pdf/consolidatedlist.pdf , De acordo com as regras do CSONU, organizações terroristas desmanteladas são removidas da lista em conformidade com um procedimento de deslistagem. O LIFG não foi removida da lista)

Armas e apoio encoberto a rebeldes do LIFG

Há indicações de que a CIA e MI6 continuam a proporcionar apoio encoberto ao LIFG, o qual agora constitui a linha de frente da insurreição armada contra o regime Kadafi.

Hakim al-Hasidi, o líder rebelde líbio, disse que jihadistas que combateram contra tropas aliadas no Iraque estão na linha de frente da batalha contra o regime de Muammar Kadafi.

... O sr. al-Hasidi insistiu em que os seus combatentes "são patriotas e bons muçulmanos, não terroristas", mas acrescentou que os "membros da al-Qaeda também são bons muçulmanos e estão a combater contra o invasor". (Libyan rebel commander admits his fighters have al-Qaeda links, Daily Telegraph, March 25, 2011, italics added)

Abdul Hakim Al-Hasadi é o líder do LIFG que recebeu treino militar num campo de guerrilha no Afeganistão. Ele é o chefe de segurança das forças de oposição num dos territórios mantidos pelos rebeldes, com cerca de 1000 homens sob o seu comando. ( Libyan rebels at pains to distance themselves from extremists - The Globe and Mail" , March 12, 2011)

Estão a ser canalizadas armas para o LIFG a partir da Arábia Saudita, a qual historicamente, desde o início da guerra soviético-afegã, apoiou a jihad islâmica. Os sauditas estão agora a abastecer os rebeldes, em ligação com Washington e Bruxelas, com rockets anti-tanque e mísseis terra-ar.

Desinformação dos media: Terroristas islâmicos aderem ao Movimento Pró Democracia "a título pessoal"

O almirante James Stavridis, Comandante Supremo dos Aliados da NATO na Europa, reconheceu tacitamente que a "inteligência americana havia detectado "lampejos" de actividade terrorista entre os grupos rebeldes". "Muito alarmante"... Mas não estamos a tratar de "lampejos". Os combatentes do LIFG constituem o esqueleto da insurreição armada.

Os media ocidentais também exprimiram preocupação, se bem que insistindo em que os jihadistas são "antigos" membros do LIFG que aderiram à luta armada "a título pessoal" e não como membros da organização terrorista. Conforme Benotman numa entrevista à CNN:

... Dúzias de antigos combatentes do LIFG aderiram agora aos esforços rebeldes para derrubar Kadafi, mas asseverou que fizeram-no a título pessoal e não como grupo organizado.

Alguns responsáveis ocidentais em contra-terrorismo preocupam-se em que uma guerra civil prolongada na Líbia possa abrir espaço para a Al Qaeda. Governos e ONGs têm de ser rápidas, afirma Benotman, em ajudar a desenvolver educação, cuidados de saúde e instituições democráticas em áreas mantidas pelos rebeldes. (Paul Cruickshank e Tim Lister, Libyan civil war: An opening for al Qaeda and jihad? CNN , March 23, 2011)

Uma organização terrorista relacionada com a Al Qaeda integra o movimento pró democracia líbio? Desde quando terroristas actuam como indivíduos "a título pessoal"?

Mas o LIFG como entidade e também os seus membros individuais são classificados pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas como terroristas de acordo com a Resolução 1267 do CSON. ( The Al-Qaida and Taliban Sanctions Committee - 1267 )

"Nosso homem em Tripoli"

Antigo chefe da inteligência líbia, Moussa Koussa desempenhou um papel na canalização de apoio encoberto ao LIFG por conta dos seus colegas dos serviços de inteligência ocidentais.

O ex-director da CIA George Tenet, se bem que sem se referir explicitamente ao "Nosso homem em Tripoli", reconheceu na sua autobiografia de 2007 que "o relaxamento de tensões com a Líbia [foi] um dos maiores êxitos do seu mandato, pois levou à cooperação entre as duas agências de espionagem contra a al-Qaeda". (citado em Intelligence Partnership between Qadhafi and the CIA on counter-terrorism , op cit)

Moussa Koussa era o "Nosso homem em Tripoli". As circunstâncias da sua deserção, bem como o historial da sua colaboração com a CIA e o MI6, sugerem que, pelo menos durante os últimos dez anos, ele esteve a servir interesses dos EUA e aliados, incluindo o planeamento da insurreição armada "pró democracia" na Líbia Oriental.

Já não deveria haver dúvida: A aliança militar ocidental está a apoiar uma rebelião integrada por terroristas islâmicos em nome da "guerra ao terrorismo".

Quem são os terroristas? Numa torção amarga, enquanto a jihad islâmica é caracterizada pela administração dos EUA como "uma ameaça à civilização ocidental", estas mesmas organizações islâmicas, incluindo o Libya Islamica Fighting Group (LIFG) constitui um instrumento chave das operações militares e de inteligência dos EUA na Ásia Central, no Médio Oriente e no Norte de África, sem mencionar as repúblicas islâmicas da antiga União Soviética.

03/Abril/2011
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=24096

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Fukushima: radioatividade 5 milhões de vezes superior ao limite

O nível de iodo radioativo nas águas marinhas próximas da central nuclear de Fukushima é cinco milhões de vezes superior ao limite legal, informou nesta terça-feira a concessionária da central, Tepco. Japão fixa limites de radioatividade para pescado e marisco. Esta decisão foi tomada depois da descoberta de níveis de radioatividade anormalmente elevados, nos últimos dias, em pequenas enguias pescadas ao largo da província de Ibaraki, a Sul de Fukushima e a Norte de Tóquio. O Japão já proibiu a venda de vários legumes e leite cru, produzidos nas quatro províncias perto da central de Fukushima 1.

Também segundo a Tepco, uma amostra recolhida segunda-feira revelou que o nível de césio-137 nas águas do mar próximas da central é 1,1 milhões de vezes superior ao limite legal.

Enquanto o iodo-131 tem uma vida média relativamente breve, de oito dias, o período de semi-desintegração do césio-137 é de 30 anos.

Dois dias antes, no sábado, a concentração de I-131 era ainda maior, 7,5 milhões de vezes superior ao limite legal.

Mas a própria Tepco anunciou segunda-feira que iria despejar toneladas de água radioativa no oceano.

Desde segunda-feira já foram despejadas mais de 3400 toneladas de água para o Pacífico de um total de 11.500 toneladas. Esta operação durará cerca de uma semana e pretende libertar tanques de armazenamento para guardar água ainda mais radioativa que tem se acumulado na central nuclear de Fukushima 1, especialmente no edifício do reator 2.

Um responsável do governo japonês pediu esta terça-feira desculpas pelo lançamento de milhares de toneladas de água radioativa para o oceano, uma medida de emergência “para tentar evitar o pior”.

Japão fixa limites de radioatividade para pescado e marisco
Entretanto o governo japonês definiu esta terça-feira limites de radioatividade para o pescado e marisco, para tentar tranquilizar a população, preocupada com os impactos da crise nuclear da central de Fukushima 1 na sua saúde. “Provisoriamente aplicámos os níveis definidos para os legumes” aos peixes e marisco, informou o porta-voz do Governo, Yukio Edano.

O limite para o iodo-131, que pode provocar maior incidência de cancros, foi fixado em 2000 becquerels por quilo. O limite para o césio-137 é de 500 becquerels. Acima destes valores, o peixe é considerado impróprio para consumo.

Esta decisão foi tomada depois da descoberta de níveis de radioatividade anormalmente elevados, nos últimos dias, em pequenas enguias pescadas ao largo da província de Ibaraki, a Sul de Fukushima e a Norte de Tóquio. Segundo a estação de televisão NHK, foi detectado césio em concentrações de 526 becquerels por quilo. Os outros peixes examinados não apresentavam níveis elevados, segundo as autoridades.
O Japão já proibiu a venda de vários legumes e leite cru, produzidos nas quatro províncias perto da central de Fukushima 1, devido aos níveis de radioatividade.

Japão: 11.500 toneladas de água radioativa no mar

A empresa que explora a central nuclear de Fukushima começou a lançar ao mar cerca 11.500 toneladas de água radioativa que se acumulou nas instalações danificadas. A concentração da radioatividade na água é cem vezes superior ao limite legal, o que foi considerado "relativamente baixo" pela Tokyo Eletric Power (Tepco). Diante das dificuldades, o governo japonês reconheceu que poderá demorar meses até que a situação na central nuclear seja controlada.

A Tokyo Electric Power (Tepco), que explora a central nuclear de Fukushima, começou a jogar no mar cerca de 11.500 toneladas de água radioativa que se acumulou nas instalações danificadas.

Um porta-voz da empresa reconheceu que os técnicos não tinham outra escolha, e que a concentração de radioatividade na água é cem vezes superior ao limite legal, o que considera relativamente baixo. A decisão foi tomada para permitir que os engenheiros possam reparar os circuitos de resfriamento dos reatores nucleares.

Por outro lado, os técnicos da Tepco planejam utilizar um polímero em pó para travar a fuga de água radioativa de um dos reatores para o Oceano Pacífico.

No sábado, a Tepco detectou uma fissura de cerca de 20 centímetros na parede de um poço perto de um dos reatores, onde está água com alta radioatividade (excede 10.000 vezes a concentração legal), que está vazando para o oceano.

Os técnicos tentaram cobrir a fissura, no sábado, com betão, mas a presença contínua de água impediu que o material se solidificasse.

Diante das dificuldades, o governo japonês já reconheceu que poderá demorar meses até que a situação na central nuclear seja controlada.

AIEA diz que medidas foram insuficientes
Yukuya Amano, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA) afirmou nesta segunda-feira que a empresa que gere a central de Fukushima, a Tepco, não tomou “as medidas suficientes para evitar o acidente”.

Amano recordou que outra central da Tepco em Kashiwazaki, noroeste do Japão, teve um acidente nuclear em 2007, um incêndio que deu origem à fuga de radioatividade e de água contaminada, depois de um terremoto de 6,8 graus. A central continuou, tal como a de Fukushima, a ter capacidade de suportar um terramoto de até 6,5 graus, muito inferior aos 9 graus medidos em 11 de Março.

Fotos: Água radiotiva da usina de Fukushima é despejada no mar pelo governo

Fonte: Agencia Carta Maior

OS DIREITOS HUMANOS NOS EUA: Libertem Bradley Manning.

OS DIREITOS HUMANOS NOS EUA Libertem Bradley Manning.
O soldado Bradley Manning — acusado de transmitir documentos à WikiLeaks — foi declarado "inimigo" dos Estados Unidos.
As altas patentes americanas consideram um crime denunciar os crimes da sua tropa e ele será submetido a julgamento em tribunal militar.
Desde Agosto de 2010 está encerrado numa cela de 3 x 2 metros, sem luz natural, durante 23 horas por dia.
Até agora podia estar vestido na sua cela, mas o regime foi agravado e doravante tem permanecer nu.
O fascismo estado-unidense tem desses requintes.
Fonte: Resistir .com

terça-feira, 5 de abril de 2011

Walmart: um monstro próximo de você!

Mulheres trabalhadoras contra Walmart que ganhou uma estranha vida própria

A defesa da Walmart frente uma ação coletiva que acusava a empresa de práticas discriminatórias contra suas mulheres trabalhadoras lança nova luz sobre a biologia das megaempresas privadas. A companhia argumenta que com “sete divisões, 41 regiões, 3.400 estabelecimentos comerciais e mais de um milhão de empregados”, as experiências dos empregados individuais são demasiado distintas para permitir juridicamente uma ação coletiva. O artigo é de Barbara Ehrenreich.

O que é a Walmart, em um sentido estritamente taxonômico? Considerando somente suas dimensões, seria fácil tomá-la por uma nação: em 2001, suas receitas anuais eram iguais ou maiores a de 22 países. Se reuníssemos todos seus empregados – 1,4 milhões só nos Estados Unidos – diríamos que é uma grande cidade. Mas também é possível ver a Walmart e outras empresas de alcance planetário, não como conjuntos agregados de pessoas, mas como formas independentes de vida, como espécies de superorganismos.

Essa parece ser a conclusão da decisão de Citizens United v Federal Election Commission, onde a Corte Suprema dos Estados Unidos, incorrendo em delirante antropomorfismo, resolveu que as grandes corporações empresariais são realmente pessoas e que, por essa razão, gozam de liberdade de expressão e do direito de fazer contribuições financeiras ilimitadas para campanhas eleitorais. Vocês dirão que a noção de personalidade já se degradou a ponto de resultar irreconhecível pelos ativistas “pró-vida” que a estenderam a células individuais como os zigotos. Mas a Corte deve ter pensado que seria discriminatório atender a razões de tamanho: se uma célula microscópica pode ser uma pessoa, por que não um brontossauro, um tsunami ou uma empresa transnacional?

Mas a defesa da Walmart frente uma ação coletiva que acusava a empresa de práticas discriminatórias contra suas mulheres trabalhadoras – Dukes x Walmart – lança nova luz sobre a biologia das megaempresas privadas. A companhia argumenta que com “sete divisões, 41 regiões, 3.400 estabelecimentos comerciais e mais de um milhão de empregados”, as experiências dos empregados individuais são demasiado distintas para permitir juridicamente uma demanda “coletiva”. A Walmart, em outras palavras, é demasiado grande, demasiado multifacetada e demasiado diversa para ser juridicamente demandada.

Assim, a Walmart é realmente uma pessoa, uma pessoa sem sistema nervoso central, ou ao menos sem controle central das distintas partes de seu corpo. Existem pessoas assim, admito, mas não há dúvida que, quando a Suprema Corte declarou que as corporações empresariais eram pessoas, não se referia a “pessoas com enfermidades neuromusculares degenerativas agudas”.

Para quem nunca visitou um estabelecimento da Walmart, direi que a empresa não é um conglomerado de boutiques governadas por divas egoístas. Todos os detalhes, desde as políticas de pessoal até a equipe de ferramentas de cada planta, estão determinados pelo quartel general da empresa em Bentonville. Um exemplo: em 2000, trabalhei durante três semanas no departamento de roupa feminina de um Walmart (isso me permite agora ser parte da ação coletiva contra a empresa por discriminação de gênero, ainda que a possibilidade de uma indenização com uma cifra de vários dígitos, creio, não tenha influído em meu juízo sobre o assunto). No curso do meu trabalho, tive a oportunidade de fazer várias sugestões ao meu supervisor. Por exemplo: que as calças de tamanho extragrande não fossem exibidas junto ao chão, porque as mulheres que usam esse tamanho não poderiam pegá-las sem precisar de ajudar para voltar a se levantar. Boa ideia, me disse, mas cabe a Betonville decidir onde se colocam as calças ou qualquer outro produto.

Muitas coisas mudaram desde que eu trabalhei na Walmart. A companhia lutou para melhorar sua tradicional imagem de empresa exploradora. Empenhou-se em dizer que promoverá mais as mulheres. Mas uma coisa que certamente não fez foi reestruturar-se como um coletivo anarquista. Betonville segue imperando absolutamente tanto sobre os direitos dos estabelecimentos como sobre os “associados”, o termo eufemístico empregado por Walmart para referir-se aos seus sempre mal retribuídos trabalhadores.

De modo que, se Walmart é uma forma viva, é de uma espécie inclassificável. Come, devorando cidade após cidade, às vezes mudando de nome: Walmex no México, Asda no Reino Unido. No entanto, na defesa apresentada na ação Dukes vs. Walmart, a empresa alega não ter ideia do que está fazendo. Isso poderia ser uma metáfora do capitalismo, ou um indício de que está em curso uma invasão alienígena exitosa. A única coisa certa é que, se a Corte Suprema decidir a favor da Walmart, experimentaremos uma proliferação dessas criaturas: “pessoas” monstruosamente superdimensionadas que insistem em sua incapacidade para controlar suas ações.

(*) Barbara Ehrenreich é presidente da “United Professionals” e autora, recentemente, de “This Land is Their Land: Reports From a Divided Nation”.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agencia Carta Maior

Veja também esse Documentário - " The Corporation" que lança uma luz sobre as cooporações transnacionais.



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Por Que o Capital Financia Luciana Genro e o MES?


Mário Maestri

Desde que os trabalhadores ingressaram na arena política e social, pondo a questão de sua representação, a degeneração de suas lideranças e organizações tornou-se acontecimento recorrente, que assumiu enormes dimensões nos momentos em que as classes exploradas recuaram diante da ofensiva dos exploradores. Karl Marx abordou esse fenômeno nas páginas luminares de O 18 Brumário de Luís Bonaparte, ao dissecar as razões da degeneração que definiu de “cretinismo parlamentar”.


A primeira grande defecção de lideranças socialistas deu-se no início da II Guerra, quando as principais lideranças operárias europeias aprovaram os créditos militares, levando a que os trabalhadores fossem arrastados ao holocausto imperialista, sem oposição efetiva. A submissão ao militarismo burguês fora salto de qualidade em ruptura anterior, ocorrida na esteira da expansão do capitalismo e das concessões da representação sindical e parlamentar, conquistadas pelos trabalhadores.

Os principais paladinos dos oprimidos europeus acomodaram-se gostosamente às benesses das posições ocupadas nos sindicatos, parlamento, administração, universidades, aparelho dos partidos. Passaram a lutar para aprofundar a integração ao Estado que ainda juravam querer destruir. Já não se dispunham a arriscar a posição a que haviam sido elevados na imprescindível e implacável luta ao capital.

A Essência e a Consciência

No exercício do mandato objetivo e subjetivo outorgado pelo mundo do trabalho, direções operárias passaram a expressar as necessidades de segmentos médios e da aristocracia operária que se aninhavam igualmente à sombra do prestígio e força que os oprimidos adquiriam em duras e longas batalhas. Não mais representavam os setores que, segundo Marx e Engels, “nada tinham a perder, e tudo a ganhar” com a revolução. Queriam, podiam e progrediam no capitalismo, que passaram a defender, sob os olhares complacentes dos exploradores, que lhes apoiaram na estrada da traição que embocavam.

A teoria leninista do partido construiu-se na luta contra a expropriação do mandato delegado pelos trabalhadores por lideranças seduzidas pelo colaboracionismo. Para garantir direção aos oprimidos à altura das suas necessidades, os bolcheviques propuseram que os partidos operários se construíssem, política e organicamente, a partir de trabalhadores de vanguarda nucleados.

Para impedir a infiltração, mesmo inconsciente, do partido da revolução pelo cretinismo parlamentar e o colaboracionismo, afastavam dos órgãos máximos da direção seus dirigentes, enquanto ocupassem postos parlamentares, e não aceitavam militantes que vivessem da exploração do trabalho – industrialistas; latifundiários; comerciantes; banqueiros, etc. Aplicavam o princípio que, no geral, a existência material determina a consciência política e ideológica.

Em 1923, León Trotsky denunciou no opúsculo Curso Novo a burocratização do partido bolchevique, que levaria, décadas mais tarde, ao fim da URSS. Nessa obra premonitória, assinalava que aquele partido perdia sua consistência, por encontrarem-se os trabalhadores ligados à produção em minoria, dominando entre os militantes os membros do aparato administrativo, militar, diplomático, etc., comumente ex-trabalhadores desligados da produção.

No Brasil e no Rio Grande do Sul

Nos anos 1980, a polêmica no PT entre “partido de massa” e “partido de quadros” foi vencida pelos que se opunham à nucleação dos militantes, defendendo organização fluída, controlada e dirigida por parlamentares, administradores, profissionais, etc. Os resultados são conhecidos: hoje, antigos sindicalistas classistas e militantes revolucionários dedicam-se de corpo e alma às necessidades do capital, que os remunera regiamente em bens materiais e imateriais. Nessa safra de trânsfugas engordados pelos bons serviços ao Estado, encontram-se ex-trotskistas lambertistas, mandelistas, morenistas; maoístas, guevaristas, autonomistas, etc., todos arrependidos dos pecados da juventude.

Quando da fundação do PSOL, repetiu-se ritualmente a disputa entre “partido de quadros” e “de massas”, vencendo fulminantemente a desnecessidade da nucleação. Sem o impulso classista das lutas de fins dos anos 1970 conhecido pelo PT, o PSOL construiu-se no geral em torno das tendências de deputados ex-petistas e de frágeis segmentos organizados e não organizados dedicados a verdadeiro trabalho de Sísifo, para dar àquela organização impulsão classista, socialista e marxista.

No Rio Grande do Sul, o operariado industrial e urbano encontrou sempre enorme dificuldade para organizar-se autonomamente, levando a que o movimento social tivesse como eixo sobretudo a luta dos camponeses sem terra, dos bancários e do professorado da rede pública estadual. Nos últimos anos, regrediu fortemente a mobilização dos sem terra, em favor de outras regiões, e a dos bancários, golpeados pela racionalização do setor. Sob a depressão do mundo do trabalho na sociedade sulina, o PSOL regional nasceu e cresceu sobretudo nas classes médias, sob a hegemonia da ex-deputada Luciana Genro e de sua tendência, o MÊS, de fortes tendências colaboracionistas.

Ficando e Saindo do PT

Luciana Genro elegeu-se como deputada estadual, pelo PT, em 1995, com 24 anos, alavancada pelo prestígio eleitoral de seu pai, Tarso Genro, então prefeito da capital. Integrava então pequena tendência estudantil que rompera com a Convergência Socialista [depois PSTU], que se negara a abandonar o PT. Nos anos seguintes, construiu-se como liderança da juventude, estudantes e professores da rede pública radicalizados.

Com a formação do PSOL, consolidou a hegemonia de seu grupo no Sul e estendeu a influência a outros estados, já com prática eleitoreira, uma das razões que levou ao afastamento das principais direções combativas do professorado que confluíram no MES. A crescente socialdemocratização do MES levou-o a priorizar o denuncismo da corrupção, fenômeno agora endêmico no Rio Grande, marginalizando a organização e propaganda classista e socialista. Viveu ativamente a proposta dos fóruns mundiais, de transformar a sociedade no interior do capitalismo. Apoiou acriticamente o nacional-populismo da Venezuela, Bolívia, Equador.

O MÊS defende agora que as revoluções do norte da África não ultrapassem as reivindicações democrático-burguesas. “Sendo revoluções democráticas, aqueles que levantam a bandeira do socialismo estão absolutamente descontextualizados. Hoje não há a possibilidade de criar uma alternativa de massas sob esta bandeira.” [psol50.org.br] O importante escore eleitoral de Luciana Genro, para deputada federal, em 2002 e 2006, e à prefeitura de Porto Alegre, em 2008, facilitaram a arregimentação de vocações parlamentarias e administrativas, algumas realizadas, outras à espera de realização.

De Braços Dados com o Capital

Em outubro de 2008, candidata à prefeitura da capital, Luciana Genro foi de chapéu na mão receber cem mil reais da GERDAU, o principal grupo transnacional rio-grandense, ferindo os próprios estatutos do PSOL. Roberto Robaina, presidente do PSOL sulino, dirigente máximo do MES, companheiro desde sempre de Luciana, afirmou nada ver de mais na iniciativa e estar pronto para outras contribuições semelhantes. A militância socialista e de esquerda do PSOL pataleou, bufou e o coreto seguiu adiante.

Nas passadas eleições, o MES contava com votação estrondosa e reeleger Luciana Genro ao Congresso, Roberto Robaina à assembleia e, talvez, mais um ou dois deputados. Durante o período anterior e na campanha, Luciana, Robaina, Pedro Ruas e o MES centraram obsessivamente a agitação política na denúncia da corrupção do governo Yeda Cruzius, que dera muito pano pra manga, nesse relativo.

Ao igual que nos anos anteriores, a campanha de Luciana comportou infindáveis referências, fotos, afagos e declarações positivas a Tarso Genro, ex-ministro da Educação e, a seguir, da Justiça, candidato a governador. A deputada pousou sentada no colo do papai, para constrangimento da militância psolista. Propondo tratar-se de relação entre pai e filha, apareceu na propaganda televisiva de Tarso Genro ao governo!

A Ver Navios!

Nas últimas eleições, o resultado eleitoral do MES no Sul foi pífio. O escore eleitoral de Luciana Genro despencou, perdendo 56 mil votos, em relação à eleição anterior, não se elegendo para a Câmara. Robaina, que se dava por eleito, sequer morreu na praia. Foram muitas, as razões apontadas do desastre. A fragilidade do programa do PSOL sulino, centrado na denúncia da ex-governadora, esvaziou-se com a sua rejeição eleitoral, que a relegou a uma humilhante terceira colocação.

A orientação política de Luciana, nos últimos anos e na campanha, afastou-a do eleitorado mais combativo. Ela também perdeu contato com o eleitorado mais jovem e menos politizado que, ajudado pelo refluxo social, votou na candidata progressista que parecia expressar a juventude, segundo os padrões mais alienados: ou seja, a candidata mais simpática, mais jovem, mais bonita. Já quarentona e com filho da idade de seu ex-eleitorado, Luciana viu-se substituída por Manuela D’Ávila, do PC do B, de 30 anos, rosto bonito e cabeça vazia, cuja campanha estava centrada na palavra de ordem: “E aí, beleza?” Manuela obteve o mais alto escore eleitoral na eleição – quase 500 mil votos!

Para o militante social, o parlamento é posição transitória e eventual. Luciana ressentiu-se fortemente da perda de mandado mantido havia dezesseis anos. A situação de cidadã comum comprometia toda uma futura trajetória, em direção à prefeitura da capital e, quem sabe, ao governo do estado. A derrota agravava-se com lei anti-nepotismo que proíbe candidatura de parentes até segundo grau de governantes. Por quatro – e, caso Tarso Genro se reeleja, oito – anos, encontrava-se proibida de concorrer a cargo legislativo, em partido sem administração de prefeituras e governos.

Filha não é Parente!

Apenas derrotada, Luciana saiu em campanha, buscando apoios, até mesmo entre políticos direitistas, para reivindicar o direito de candidatar-se, em 2010, a vereadora da capital para, certamente, em 2012, tentar retorno à câmara. Tratava-se de convencer a Justiça Eleitoral de sua excepcionalidade, pois não é do partido de seu pai e diz não depender politicamente dele. Qualquer coisa como “filha” não é “parente”, na esteira da campanha brizolista dos anos 1960, de que “cunhado” não era parente – como realmente não é!

Mas retomar à campanha, após dois anos longe dos holofotes e recursos permitidos pelo parlamento, concorrendo contra dois vereadores de sua tendência, requer indubitavelmente recursos ingentes, impossíveis de obter em tendência de muitos capa-preta e pouquíssimos soldados e peões. Sob o signo da Gerdau, Luciana saiu em busca do dinheiro onde está, esquecendo que toda a mulher de César não deve apenas ser honesta, como deve parecer honesta! E vice versa.

Sob o guarda-chuva de cursinho pré-vestibular para cem alunos carentes, “Projeto Emancipa”, arrancou financiamento quase milionário de grandes empresas privadas. Piorando tudo, sediou inicialmente sua empresa em duas salas do mais tradicional colégio público estatal sulino, o Júlio de Castilhos, agora sob a autoridade paterna pai. Um prato feito para a revista Veja, que lhe dedicou página inteira, na edição de 9 de março, espinafrando a ela, ao seu pai, ao PSOL e a esquerda revolucionária e classista, que nada tem que ver com esse operação estranha.

O Capital e a Revolucionária

O curso é gratuito para os alunos, mas quem paga a coordenação de Luciana, os professores, o aluguel, etc. são cinco grandes empresas capitalistas, entre elas, a PANVEL [rede de farmácias], o ZAFFARI [rede de supermercados], a Icatu Seguros. Em resposta à revista Veja, Lucina jura que os, segundo parece, quinhentos mil reais recebidos, a fundo perdido, não se devem ao “prestigio” do governador, seu pai, mas ao seu “próprio prestigio”!

Luciana não esclarece por que representante de partido que se define anticapitalista e pró-socialista possui suficiente prestígio junto ao grande capital para arrancar-lhe, segundo parece, quinhentos mil reais, ou seja, cinco mil reais por cada aluno! Mensalidade superior à de muito curso de pós-graduação estrito senso! Dinheiro que apoiará, no melhor dos casos, indiretamente, a campanha de Luciana, em 2012. No Sul, a Justiça Eleitoral proibiu os tradicionais albergues gratuitos que deputados sulinos mantinham para professores e alunos do interior, por constituir aliciamento disfarçado de voto.

A operação pode não ser ilegal – sobretudo se Luciana não concorrer a cargo em 2012. Trataria-se apenas de mais uma das doações, apoios e facilitação de negócios, de grandes empresas, para familiares de políticos poderosos que querem agradar. Como a que celebrizou o Lulinha Júnior. Isso porque não há dúvida de que, se Yeda ou Fogaça tivesse vencido, Luciana não obteria as graças da secretaria da Educação, para o aluguel das salas, e o financiamento das grandes empresas, com destaque para a Icatu Seguros, que opera através do Banrisul, banco público estadual.

Privatizando a Educação

Mesmo legal, a operação é certamente imoral, do ponto de vista dos princípios defendidos pelo mundo do trabalho, pelo PSOL e, até algum tempo, pela ex-deputada e pelo MES. Financiando políticos, o capital compra-lhes a simpatia, a condescendência, e os favores, já que “é dando que se recebe”. Por que esse processo não funcionaria também no caso de Luciana Genro?

A ex-deputada rompe, igualmente, com o princípio da luta pela escola livre, gratuita e pública, impulsionando a suplência das carências públicas com a benevolência do capital, sempre interessada. Fere gravemente a proposta do não envolvimento do Estado, através de seus funcionários e bens, em iniciativas privadas. Ou seja, contribui para a privatização do Estado.

Sobretudo, Luciana Genro dá enorme tiro no seu próprio pé. Nenhum juiz eleitoral vai acreditar que não é favorecida, mesmo materialmente, pela posição de seu pai como governador, com ou sem o conhecimento do mesmo. Tarso Genro se afastou há muito das posições classistas e socialistas, mas jamais rompeu com o respeito republicano estrito aos bens públicos. Salvo engano, até agora, ele não se pronunciou sobre a operação empresarial de sua filha, à sombra do Estado.

Mário Maestri, 62, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net

Fonte: http://www.diarioliberdade.org

domingo, 3 de abril de 2011

A Primavera Árabe e o papel da juventude


Escrito por Marcelo Torres

Revolução. Essa palavra que parecia haver sumido do vocabulário, depois de muitos anos em que seu uso se restringiu aos pequenos círculos de esquerda, tomou a mídia de massas em todo o mundo a partir do processo revolucionário no Egito. Trata-se de apenas uma de inúmeras expressões que anunciam novos tempos. É a realidade saldando debates que tomaram conta dos meios universitários, jogando na lata de lixo da história intelectuais pretensamente visionários que, com rios de tinta e vozes pomposas, prognosticaram o “fim da história”, o “fim da luta de classes”, o “fim da classe operária” ou a “vitória final” do capitalismo com a restauração capitalista nos ex-estados operários. Abram caminho para o movimento de massa, para a luta de classes e para a juventude que anunciam o fim da etapa que ficou conhecida como neoliberalismo, em que a juventude, os trabalhadores e o povo pobre sofreram ataques de magnitude histórica, não somente às suas condições materiais de vida, mas à sua subjetividade e anseios de transformar as condições de vida.

Vivemos a aurora de novos tempos, catalizados por uma crise econômica que estourou a quase três anos, que teve como resposta da burguesia e seus Estados com resgates bilionários aos capitalistas – socialização das perdas, privatização dos lucros – e que já vinha, particularmente na Europa, apresentando uma resistência de massas aos “planos de ajuste”, ou seja, aos ataques aos trabalhadores, ao povo pobre e a juventude. Os meios de comunicação também não puderam ocultar as manifestações de massa e greves gerais na Grécia e França. Ali, assim como na Inglaterra e outros países, a juventude colocava sua marca. Não faltaram greves estudantis, piquetes, enfrentamentos contra a polícia, luta contra os ataques à educação e manifestações em aliança com os trabalhadores para barrar os ataques. Não é por menos que voltaram aos jornais, no “Outubro Francês”, comparações com 1968. O mesmo “fantasma” que agora atinge o coração do sistema capitalista mundial, no estado de Wisconsin (e agora se estende a Indiana e Ohio), nos EUA, onde o funcionalismo público, junto aos estudantes, vem lutando contra os ataques aos seus direitos e sua liberdade de organização sindical e protagonizaram as maiores mobilizações desde 68. Na cidade de Oaxaca, no México, os professores, que em 2006 protagonizaram a histórica “Comuna de Oaxaca” estão impulsionando mobilizações intensas e mostram que o “ar fresco” da luta de classes também vai chegando à América Latina. Poderíamos continuar citando países, como Portugal, Croácia e outros, onde a luta de classes e a juventude entram na cena política.

Foi neste marco internacional que floresceu a “primavera árabe”, que representa um salto político, ainda que não está claro o resultado que terá o processo que está plenamente em curso, numa situação convulsiva, onde o movimento de massas terá que seguir se enfrentando não somente as burguesias locais mas o imperialismo, que tentam conter o impulso revolucionário das massas e canalizá-lo para as vias institucionais, com desvios eleitorais ou alimentando ilusões de que é possível conciliar os interesses da juventude precarizada, dos trabalhadores e do povo pobre com os setores burgueses dos mesmos regimes que estão caindo, concedendo uma ou outra reforma parcial, para que de conjunto seus objetivos, e do imperialismo, na região e no mundo não sejam afetados.

O presente e o futuro do Brasil

Os corações e mentes de milhares de jovens brasileiros que estão se mobilizando contra o aumento das passagens do transporte público em São Paulo e outras cidades do país, que estão entrando nas universidades e buscando conhecer o movimento estudantil e a esquerda, que estão seguindo os processos da luta de classes internacional e se estimulam a ser parte dessa juventude que levanta a cabeça internacionalmente, são um pequeno anúncio no Brasil de que este futuro que está sendo construído nas ruas, universidades, escolas e fábricas de todo o mundo, também será construído aqui, e que a juventude brasileira também começa a assumir a tarefa de enfrentar-se com a decadência do sistema capitalista e suas mazelas. Trata-se de um verdadeiro alento numa situação nacional marcada pela passividade, construída nos últimos anos de lulismo, onde o que se propaga por todos os lados é que o Brasil está rumando para ser uma potência, o “país do futuro”, como se estivéssemos numa bolha inabalável frente aos desequilíbrios e impactos da economia e da luta de classes internacional. Nada mais falso.

Olhemos primeiro para o presente. Depois de alguns anos de crescimento recorde, o Brasil continua sendo um país onde as pessoas morrem anualmente nas enchentes que escancaram o problema crônico da habitação, onde a polícia é das mais assassinas do mundo e agora ocupa militarmente as favelas junto ao exército que Lula treinou na ocupação militar do Haiti, onde milhares de mulheres morrem por aborto clandestino, onde os torturadores da ditadura seguem impunes, onde as pessoas não heterossexuais não tem nenhum direito e são atacados por grupos fascistas, onde os índices de trabalho precário é dos maiores do mundo, onde a universidade pública é profundamente elitista e racista e deixa pra fora dela a enorme maioria da juventude, e um longo etc. Podemos dizer que “nunca antes na história deste país”, ficou tão claro que o crescimento econômico não é para melhorar as condições de trabalho e de vida da maioria da população, mas sim para criar no Brasil mais alguns bilionários para entrarem no ranking da Revista Forbes. Mais do que um “país de todos”, trata-se do país dos monopólios, dos políticos corruptos e da submissão ao imperialismo, como mostra a viagem que Obama fará ao Brasil pra tentar se legitimar (com direito a discurso na Cinelândia e tudo mais) justamente quando em poucos lugares do mundo ele poderia ir sem enfrentar protestos.

Mas o futuro que nos espera é melhor? É o que todos dizem, mas vejamos se o crescimento “nunca antes visto na história deste país” é capaz de sustentar-se frente à crise econômica internacional que segue persistente apesar de todas as medidas tomadas para salvar os capitalistas. As principais bases de sustentação do crescimento foram o boom de exportação de commodities para a China e a transformação do Brasil num paraíso para o capital especulativo que migrou dos países centrais em crise para se multiplicar num dos países com os juros mais altos do mundo, elementos que motorizaram o crédito e a ampliação do consumo da população. Ou seja, nosso crescimento econômico, como não poderia deixar de ser, é profundamente vinculado e dependente da economia internacional e do imperialismo e, portanto, tendem à decadência apesar de que em ritmos distintos do resto do mundo. Os anúncios de cortes no orçamento do governo Dilma é só uma das expressões de que o governo sabe bem disso. Se o “Brasil do presente” não é capaz de convencer estes ideólogos (alguns sabem que estão errados, mas vendem suas idéias por interesses materiais) que o Brasil não pode ser o “país do futuro” nas mãos dos monopólios e dos políticos burgueses, o Brasil do futuro (verdadeiro e não fictício) vai saldar estes debates. Aqui também veremos rios de tinta e vozes pomposas mostrarem sua fragilidade frente à realidade.

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Fonte: http://www.ler-qi.org

Comuna de Paris: 140 anos



Por Gilson Dantas


Albamonte caracteriza a época da Comuna de Paris – e o próprio tempo histórico de Marx e Engels – como a época onde “as premissas materiais, objetivas, para a revolução proletária ainda são imaturas” e que tratava-se de um momento histórico de “transição, caracterizado pelo ´não mais’ da revolução burguesa e o ‘ainda não´ da revolução proletária”.

Analisando a época dos acontecimentos históricos da Comuna, E. Albamonte, situa com precisa concisão o seu momento histórico, no qual “anarquistas e marxistas disputam a direção do movimento operário nos seus primórdios, sendo que os primeiros refletem os setores mais artesanais do proletariado, sob influência liberal e os marxistas representam suas alas mais avançadas.

Sob a direção dos anarquistas proudhonianos e os blanquistas, em 1871, os operários de Paris se levantam. A França encontrava-se em guerra com a Prússia, estando Paris sob o assédio do exército inimigo. Depois de quatro meses, o governo francês busca um armistício que é desafiado pela Guarda Nacional dos trabalhadores e povo de Paris. O governo então ordena a evacuação imediata da cidade. As forças leais e os funcionários fogem para Versalhes, a vinte quilômetros de Paris, onde tradicionalmente residiam os reis e, neste momento, o imperador Luis Bonaparte, sobrinho de Napoleão.

Em Versalhes se organiza a reação que negocia com os alemães; mas os operários de Paris negam-se a participar dessas negociações e, quando o exército tenta apoderar-se dos canhões que o povo tinha comprado para a defesa da cidade, protagonizam uma insurreição e organizam o que se chamou a Comuna de Paris.

Organizam-se por bairros, permitem que todos votem (exceto os que tinham fugido e que eram agentes da burguesia); organizam milícias populares e se dispõem à defesa de Paris. Marx diz que ali o proletariado tinha encontrado a forma de exercer sua ditadura de classe ”.

A experiência da Comuna foi um elo muito importante na história das lutas do movimento operário e, ao mesmo tempo, uma rica fonte de ensinamentos para o partido bolchevique e para a vitória da Revolução Russa.

O momento em que são comemorados os 140 anos da Comuna de Paris é, portanto, especial para se retomar o debate sobre elementos e lições da Comuna de Paris. Neste caso, lições necessariamente atualizadas e mediadas pela experiência da Revolução Russa, dos bolcheviques, dos sovietes e da tradição revolucionária do século XX.

É de conhecimento mais ou menos geral que a insurreição operária de 1871 (Comuna de Paris) não apenas foi a primeira tentativa de intervenção independente da classe trabalhadora como também de instauração de um governo e um Estado de transição que marcava ou dava indicações do potencial programático e de emancipação desta classe revolucionária.

Além disso, marcava sua resolução e audácia de ir até o fim uma vez desencadeada sua luta.

Entre os decretos imediatamente aprovados pela Comuna se encontram abolição do trabalho noturno, da guilhotina, controle operário de toda empresa abandonada pelo capitalista, substituição do exército convencional pelo povo em armas (Guarda Nacional), separação da Igreja do Estado, proclamação de igualdade para as mulheres e que os delegados (deputados) da Comuna recebessem salário igual ao de um trabalhador além de terem seu mandato revogável a qualquer momento.

Cento e quarenta anos depois estas e outras questões do programa da classe trabalhadora são atualíssimas e continuam dependendo da hegemonia proletária sobre a sociedade para serem implantadas, atualizadas e aprofundadas.

As obras de Marx e Engels sobre a Comuna de Paris são marcos histórico-teóricos da análise daquela insurreição operária.

Lenine, como se sabe, irá examinar profundamente e atualizar para a era da revolução proletária, estes textos de Marx e Engels – debruçando-se também sobre a Comuna – para elaborar seu memorável O Estado e a revolução onde discute as formas que toma o Estado em seu processo de extinção, de tomada do poder pelo proletariado para iniciar sua abolição.

Trotski, que polemizou com o reformista Kautski em defesa de uma concepção marxista da Comuna, no seu balanço de 90 anos do Manifesto Comunista também irá continuar a reflexão, argumentando que a Comuna de Paris demonstrou que para arrebatar o poder à burguesia o proletariado necessita estar à cabeça do partido revolucionário temperado, preparado para a tomada do poder.

Cento e quarenta anos depois da Comuna e 94 anos após a Revolução Russa, em um século marcado pela experiência da degeneração burocrática das revoluções e a restauração conservadora dos últimos trinta anos, o proletariado mundial se depara com seu mais grave desafio estratégico: retomar o fio do combate heróico dos communards e dos bolcheviques e levantar partidos revolucionários de classe que, aliados às massas pobres, se conformem como a resposta para a nova primavera dos povos que pode estar em seus passos iniciais nesta etapa.

As mobilizações das massas árabes, francesas, gregas, portuguesas e de outros países, clamam pela unidade das fileiras operárias, encabeçando todos os explorados em torno do partido revolucionário para por fim, à força, à agonia de um sistema que jamais cairá por si só.

E cuja sociedade de transição deve se apoiar na ditadura democrática dos trabalhadores, a exemplo dos communards e, sobretudo do proletariado bolchevique de 1917. Só assim superaremos as derrotas do século passado e a amarga tentativa de tentar edificar sociedades de transição sem o proletariado no poder.

1- Este excerto faz parte da primeira conferencia sobre Lenine e a história do partido bolchevique, publicada no jornal La Verdad Obrera, Buenos Aires, 18/5/2006.
Fonte: http://www.ler-qi.org/spip.php?article2849

Semana para relembrar NOSSOS MORTOS!

Semana para relembrar NOSSOS MORTOS!

Na semana em que um dos representantes da burguesia nacional faleceu, com ampla repercussão na mídia oficial, esqueceram deliberadamente de divulgar que no dia 31 de março de 1964 aconteceu o Golpe Militar, que levou a morte diversos lutadores e lutadoras, estudantes, camponeses, sindicalistas, jornalistas, políticos, religiosos , homens e mulheres que deram suas vidas por uma sociedade justa, que infelizmente não viram e não estamos vendo ser efetivada!

Para que a memória nunca nos falhe, relembremos nossos ainda sempre camaradas.

Abelardo Rausch Alcântara
Abílio Clemente Filho
Aderval Alves Coqueiro
Adriano Fonseca Filho
Afonso Henrique Martins Saldanha
Albertino José de Oliveira
Alberto Aleixo
Alceri Maria Gomes da Silva
Aldo de Sá Brito Souza Neto
Alex de Paula Xavier Pereira
Alexander José Ibsen Voeroes
Alexandre Vannucchi Leme
Alfeu de Alcântara Monteiro
Almir Custódio de Lima
Aluísio Palhano Pedreira Ferreira
Amaro Luíz de Carvalho
Ana Maria Nacinovic Corrêa
Ana Rosa Kucinski Silva
Anatália de Souza Melo Alves
André Grabois
Ângelo Arroyo
Ângelo Cardoso da Silva
Ângelo Pezzuti da Silva
Antogildo Pacoal Vianna
Antônio Alfredo de Lima
Antônio Benetazzo
Antônio Carlos Bicalho Lana
Antônio Carlos Monteiro Teixeira
Antônio Carlos Nogueira Cabral
Antônio Carlos Silveira Alves
Antônio de Pádua Costa
Antônio dos Três Reis Oliveira
Antônio Ferreira Pinto (Alfaiate)
Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
Antônio Henrique Pereira Neto (Padre Henrique)
Antônio Joaquim Machado
Antonio Marcos Pinto de Oliveira
Antônio Raymundo Lucena
Antônio Sérgio de Mattos
Antônio Teodoro de Castro
Ari da Rocha Miranda
Ari de Oliveira Mendes Cunha
Arildo Valadão
Armando Teixeira Frutuoso
Arnaldo Cardoso Rocha
Arno Preis
Ary Abreu Lima da Rosa
Augusto Soares da Cunha
Áurea Eliza Pereira Valadão
Aurora Maria Nascimento Furtado
Avelmar Moreira de Barros
Aylton Adalberto Mortati
Benedito Gonçalves
Benedito Pereira Serra
Bergson Gurjão Farias
Bernardino Saraiva
Boanerges de Souza Massa
Caiuby Alves de Castro
Carlos Alberto Soares de Freitas
Carlos Eduardo Pires Fleury
Carlos Lamarca
Carlos Marighella
Carlos Nicolau Danielli
Carlos Roberto Zanirato
Carlos Schirmer
Carmem Jacomini
Cassimiro Luiz de Freitas
Catarina Abi-Eçab
Célio Augusto Guedes
Celso Gilberto de Oliveira
Chael Charles Schreier
Cilon da Cunha Brun
Ciro Flávio Salasar Oliveira
Cloves Dias Amorim
Custódio Saraiva Neto
Daniel José de Carvalho
Daniel Ribeiro Callado
David Capistrano da Costa
David de Souza Meira
Dênis Casemiro
Dermeval da Silva Pereira
Devanir José de Carvalho
Dilermano Melo Nascimento
Dimas Antônio Casemiro
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Divino Ferreira de Souza
Divo Fernandes de Oliveira
Djalma Carvalho Maranhão
Dorival Ferreira
Durvalino de Souza
Edgard Aquino Duarte
Edmur Péricles Camargo
Edson Luis de Lima Souto
Edson Neves Quaresma
Edu Barreto Leite
Eduardo Antônio da Fonseca
Eduardo Collen Leite (Bacuri)
Eduardo Collier Filho
Eiraldo Palha Freire
Elmo Corrêa
Elson Costa
Elvaristo Alves da Silva
Emanuel Bezerra dos Santos
Enrique Ernesto Ruggia
Epaminondas Gomes de Oliveira
Eremias Delizoicov
Eudaldo Gomes da Silva
Evaldo Luiz Ferreira de Souza
Ezequias Bezerra da Rocha
Félix Escobar Sobrinho
Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira
Fernando Augusto Valente da Fonseca
Fernando Borges de Paula Ferreira
Fernando da Silva Lembo
Flávio Carvalho Molina
Francisco das Chagas Pereira
Francisco Emanoel Penteado
Francisco José de Oliveira
Francisco Manoel Chaves
Francisco Seiko Okama
Francisco Tenório Júnior
Frederico Eduardo Mayr
Gastone Lúcia Carvalho Beltrão
Gelson Reicher
Geraldo Magela Torres Fernandes da Costa
Gerosina Silva Pereira
Gerson Theodoro de Oliveira
Getúlio de Oliveira Cabral
Gilberto Olímpio Maria
Gildo Macedo Lacerda
Grenaldo de Jesus da Silva
Guido Leão
Guilherme Gomes Lund
Hamilton Fernando da Cunha
Helber José Gomes Goulart
Hélcio Pereira Fortes
Helenira Rezende de Souza Nazareth
Heleny Telles Ferreira Guariba
Hélio Luiz Navarro de Magalhães
Henrique Cintra Ferreira de Ornellas
Higino João Pio
Hiran de Lima Pereira
Hiroaki Torigoe
Honestino Monteiro Guimarães
Iara Iavelberg
Idalísio Soares Aranha Filho
Ieda Santos Delgado
Íris Amaral
Ishiro Nagami
Ísis Dias de Oliveira
Ismael Silva de Jesus
Israel Tavares Roque
Issami Nakamura Okano
Itair José Veloso
Iuri Xavier Pereira
Ivan Mota Dias
Ivan Rocha Aguiar
Jaime Petit da Silva
James Allen da Luz
Jana Moroni Barroso
Jane Vanini
Jarbas Pereira Marques
Jayme Amorim Miranda
Jeová Assis Gomes
João Alfredo Dias
João Antônio Abi-Eçab
João Barcellos Martins
João Batista Franco Drummond
João Batista Rita
João Bosco Penido Burnier (Padre)
João Carlos Cavalcanti Reis
João Carlos Haas Sobrinho
João Domingues da Silva
João Gualberto Calatroni
João Leonardo da Silva Rocha
João Lucas Alves
João Massena Melo
João Mendes Araújo
João Roberto Borges de Souza
Joaquim Alencar de Seixas
Joaquim Câmara Ferreira
Joaquim Pires Cerveira
Joaquinzão
Joel José de Carvalho
Joel Vasconcelos Santos
Joelson Crispim
Jonas José Albuquerque Barros
Jorge Alberto Basso
Jorge Aprígio de Paula
Jorge Leal Gonçalves Pereira
Jorge Oscar Adur (Padre)
José Bartolomeu Rodrigues de Souza
José Campos Barreto
José Carlos Novaes da Mata Machado
José de Oliveira
José de Souza
José Ferreira de Almeida
José Gomes Teixeira
José Guimarães
José Huberto Bronca
José Idésio Brianezi
José Inocêncio Pereira
José Júlio de Araújo
José Lavechia
José Lima Piauhy Dourado
José Manoel da Silva
José Maria Ferreira Araújo
José Maurílio Patrício
José Maximino de Andrade Netto
José Mendes de Sá Roriz
José Milton Barbosa
José Montenegro de Lima
José Porfírio de Souza
José Raimundo da Costa
José Roberto Arantes de Almeida
José Roberto Spiegner
José Roman
José Sabino
José Silton Pinheiro
José Soares dos Santos
José Toledo de Oliveira
José Wilson Lessa Sabag
Juarez Guimarães de Brito
Juarez Rodrigues Coelho
Kleber Lemos da Silva
Labib Elias Abduch
Lauriberto José Reyes
Líbero Giancarlo Castiglia
Lígia Maria Salgado Nóbrega
Lincoln Bicalho Roque
Lincoln Cordeiro Oest
Lourdes Maria Wanderley Pontes
Lourenço Camelo de Mesquita
Lourival de Moura Paulino
Lúcia Maria de Souza
Lucimar Brandão
Lúcio Petit da Silva
Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides
Luís Almeida Araújo
Luís Antônio Santa Bárbara
Luís Inácio Maranhão Filho
Luis Paulo da Cruz Nunes
Luiz Affonso Miranda da Costa Rodrigues
Luiz Carlos Almeida
Luiz Eduardo da Rocha Merlino
Luiz Eurico Tejera Lisbôa
Luiz Fogaça Balboni
Luiz Gonzaga dos Santos
Luíz Guilhardini
Luiz Hirata
Luiz José da Cunha
Luiz Renato do Lago Faria
Luiz Renato Pires de Almeida
Luiz Renê Silveira e Silva
Luiz Vieira
Luíza Augusta Garlippe
Lyda Monteiro da Silva
Manoel Aleixo da Silva
Manoel Fiel Filho
Manoel José Mendes Nunes de Abreu
Manoel Lisboa de Moura
Manoel Raimundo Soares
Manoel Rodrigues Ferreira
Manuel Alves de Oliveira
Manuel José Nurchis
Márcio Beck Machado
Marco Antônio Brás de Carvalho
Marco Antônio da Silva Lima
Marco Antônio Dias Batista
Marcos José de Lima
Marcos Nonato Fonseca
Margarida Maria Alves
Maria Ângela Ribeiro
Maria Augusta Thomaz
Maria Auxiliadora Lara Barcelos
Maria Célia Corrêa
Maria Lúcia Petit da Silva
Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo
Maria Regina Marcondes Pinto
Mariano Joaquim da Silva
Marilena Villas Boas
Mário Alves de Souza Vieira
Mário de Souza Prata
Maurício Grabois
Maurício Guilherme da Silveira
Merival Araújo
Miguel Pereira dos Santos
Milton Soares de Castro
Míriam Lopes Verbena
Neide Alves dos Santos
Nelson de Souza Kohl
Nelson José de Almeida
Nelson Lima Piauhy Dourado
Nestor Veras
Newton Eduardo de Oliveira
Nilda Carvalho Cunha
Nilton Rosa da Silva (Bonito)
Norberto Armando Habeger
Norberto Nehring
Odijas Carvalho de Souza
Olavo Hansen
Onofre Pinto
Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior
Orlando Momente
Ornalino Cândido da Silva
Orocílio Martins Gonçalves
Osvaldo Orlando da Costa
Otávio Soares da Cunha
Otoniel Campo Barreto
Pauline Reichstul
Paulo César Botelho Massa
Paulo Costa Ribeiro Bastos
Paulo de Tarso Celestino da Silva
Paulo Mendes Rodrigues
Paulo Roberto Pereira Marques
Paulo Stuart Wright
Pedro Alexandrino de Oliveira Filho
Pedro Carretel
Pedro Domiense de Oliveira
Pedro Inácio de Araújo
Pedro Jerônimo de Souza
Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar
Péricles Gusmão Régis
Raimundo Eduardo da Silva
Raimundo Ferreira Lima
Raimundo Gonçalves Figueiredo
Raimundo Nonato Paz
Ramires Maranhão do Vale
Ranúsia Alves Rodrigues
Raul Amaro Nin Ferreira
Reinaldo Silveira Pimenta
Roberto Cieto
Roberto Macarini
Roberto Rascardo Rodrigues
Rodolfo de Carvalho Troiano
Ronaldo Mouth Queiroz
Rosalindo Souza
Rubens Beirodt Paiva
Rui Osvaldo Aguiar Pftzenreuter
Ruy Carlos Vieira Berbert
Ruy Frazão Soares
Santo Dias da Silva
Sebastião Gomes da Silva
Sérgio Correia
Sérgio Landulfo Furtado
Severino Elias de Melo
Severino Viana Colon
Sidney Fix Marques dos Santos
Silvano Soares dos Santos
Soledad Barret Viedma
Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones
Stuart Edgar Angel Jones
Suely Yumiko Kanayama
Telma Regina Cordeiro Corrêa
Therezinha Viana de Assis
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto
Tito de Alencar Lima (Frei Tito)
Tobias Pereira Júnior
Túlio Roberto Cardoso Quintiliano
Uirassu de Assis Batista
Umberto Albuquerque Câmara Neto
Valdir Sales Saboya
Vandick Reidner Pereira Coqueiro
Victor Carlos Ramos
Virgílio Gomes da Silva
Vítor Luíz Papandreu
Vitorino Alves Moitinho
Vladimir Herzog
Walkíria Afonso Costa
Walter de Souza Ribeiro
Walter Kenneth Nelson Fleury
Walter Ribeiro Novaes
Wânio José de Mattos
Wilson Silva
Wilson Souza Pinheiro
Wilton Ferreira
Yoshitane Fujimori
Zuleika Angel Jones

Todos os nossos lutadores e lutadoras! Presente!

Saudações,

Givanildo Manoel e Leon Cunha, militantes pelos direitos humanos.

Um pouco dessa história...

"Isso não é um porco e será enterrado como gente"
Arno Preis, filho do Sul do Estado, abandonou o seminário para entrar na luta armada, que acreditava ser o caminho para a revolução
Luis Fernando Assunção

Policiais chegaram ao coveiro Milton Gomes com um corpo embrulhado em uma lona de plástico preta. Gomes era o responsável pelos sepultamentos no cemitério da pequena Paraíso do Norte, interior de Goiás. "Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco", disseram os policiais ao coveiro, que retrucou: "isto não é um porco. É um homem. Alguém um dia virá procurar por ele". O coveiro tomou então um cuidado: junto ao local da cova, ergueu uma pequena pirâmide de concreto, sobre a qual fincou uma cruz de madeira. Dez dias depois, um aparato policial cercou o cemitério, enquanto alguns policiais retiravam um braço do corpo enterrado. O "porco" era o advogado Arno Preis, catarinense de Forquilhinha, integrante do Movimento de Libertação Popular (Molipo). Só foi enterrado como "gente" em 15 de outubro de 1993, depois de seus restos mortais serem encontrados a partir da cruz de madeira idealizada pelo coveiro Gomes.
Arno Preis nasceu em Forquilhinha em 8 de julho de 1934. Filho de descendentes de alemães, teve uma educação rígida. Estudou durante boa parte da infância e adolescência em seminários católicos. Desistiu da batina meses antes da ordenação. Além de ter facilidade nos estudos, aprendia rapidamente a falar outros idiomas. Ainda na faculdade em São Paulo - para onde se transferiu depois de sair do seminário - dominava fluentemente as línguas inglesa, grega, italiana, espanhola, francesa, romena, alemã, russa, latina e até a japonesa. Traduziu três livros do japonês para o português: Kamikaze, Cruz Vermelha e Iwo Jima.
Arno era o oitavo filho de Edmundo e Paulina Preis e desde os sete anos estava no seminário, primeiro no Franciscano de Luzerna e depois no Seminário de Agudo, em São Paulo. Antes de ser ordenado, decidiu seguir outro caminho e matriculou-se no curso de direito da Universidade de São Paulo, na faculdade de São Francisco. Profundo conhecedor da cultura popular brasileira, Arno dominava a capacidade de dialogar para solucionar impasses. Seu sonho: prestar concurso para o Itamaraty e ser diplomata. Também dominava instrumentos musicais, em especial a flauta.
Foi em São Paulo que Arno conheceu os movimentos populares contrários ao regime militar pós-64. Inicialmente pertencente à Ação Libertadora Nacional (ALN), viajou até Cuba para treinamento em guerrilha e, voltando ao Brasil, integrou o Molipo. "Não fosse o fechamento de todos os canais de comunicação entre a nação e o Estado, o Brasil não teria amargado a perda de muitos de seus mais dignos e generosos filhos", diz o amigo advogado Ivo Sooma, o primeiro a chegar até o local do sepultamento do corpo, no interior de Goiás.
A versão da morte de Arno ainda é contraditória. Oficialmente ele teria sido morto após troca de tiros com policiais em Paraíso do Norte. Depoimentos colhidos a partir da década de 80 pela Comissão Externa de Desaparecidos Políticos da Câmara dos Deputados comprovaram que os policiais teriam se precipitado ao ver Arno com uma pasta debaixo do braço. No momento do crime ele carregava uma maleta com dinheiro que seria utilizada para as operação do Molipo na região. A pasta de dinheiro foi encontrada vazia perto do local onde Arno foi morto. Até hoje a família luta pelo reconhecimento da culpabilidade do Estado e pelo direito à indenização a mortos políticos.

Nome
Arno Preis

Nascimento
1934, em Forquilhinha, Santa Catarina

Profissão
Advogado

Militância
Movimento de Libertação Popular (Molipo)

Morto em fevereiro de 72. Enterrado em Forquilhinha.

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Família foi
perseguida por abrigar "terrorista"

Forquilhinha - De tempos em tempos dona Elza Preis Backes visita o cemitério da cidade. Faz questão de manter limpa a capelinha da família, onde se encontra com destaque a foto do irmão Arno. Mas nem sempre foi assim. Por longos anos a família Preis foi discriminada na região. O pai Edmundo e a mãe Paulina se calaram. Recusaram-se a falar do filho com medo de perseguições e represálias dos policiais. Chegaram a ser intimidados por conta das visitas clandestinas de Arno aos familiares. "Eram tempos difíceis", reconhece dona Elza.
Descendentes de alemães, Arno e os 12 irmãos tiveram uma educação rígida. O único divertimento eram as festas ao som de sanfona que o pai costumava organizar de tempos em tempos. Arno sempre se destacou. "Era muito inteligente e se movimentava muito. Não parava quieto", relembra a irmã. A mãe morreu aos 94 anos e por muito tempo nutriu a esperança de ver o filho de volta para casa, são e salvo. Na época da morte de Arno, os jornais destacavam que "mais um terrorista" morria nas mãos da polícia. "Foi muito doído tudo. Sabíamos que o Arno era decente", diz ela. "Nossa família sofreu com isso. Quando algum militante sumia, havia certeza de que seria morto", conta João Preis, 67 anos, irmão de Arno e ex-deputado estadual pelo Paraná.
"Isso marcou nossa família para a vida inteira. Todos nós sofremos com tudo", garante Preis. Forquilhinha ficou conhecida por ser a terra natal da família Arns, em especial o ex-cardeal dom Paulo Evaristo Arns. Ele foi um dos religiosos que mais deu guarida aos perseguidos políticos e isso a cidade nunca esqueceu. No começo dos anos 80, Arns organizou uma missa e um churrasco para os moradores locais. Na missa, muitas famílias compareceram, mas o churrasco pouca gente teve a coragem de prestigiar.
O irmão João e o amigo Ivo Sooma foram incansáveis na busca pelo corpo de Arno. Mas a procura era dificultada pela repressão da época. "Todas as vezes que ia para São Paulo, por causa da semelhança com meu irmão, tinha dificuldades. O rosto dele estava em cartazes de procurado por toda a parte. Ele foi caçado como um animal", recorda. "Meu irmão estava certo. O que ele previa está acontecendo. As dificuldades por que passa o País são heranças daquele regime", finaliza Preis. (LFA)

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A mesma versão,
o mesmo tipo de morte

A morte do militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) Hamilton Fernando da Cunha parece ser uma repetição de todas as outras durante o regime militar. De acordo com relatórios oficiais da época, agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) faziam uma "vistoria" de rotina na Gráfica Urupês, em São Paulo, quando Hamilton teria reagido. Ainda segundo esses relatórios, Hamilton estaria sendo procurado "por atentados a bomba, roubo de armas e assaltos a bancos". No "tiroteio" na frente da gráfica, Hamilton teria sido ferido mortalmente por um dos companheiros. Essa é a versão oficial, levantada pelo grupo de familiares de desaparecidos junto aos arquivos do Dops.
A versão dos familiares é outra. Os policiais teriam chegado à gráfica já com a intenção de prender Hamilton. Segundo sua irmã Nilsa, em requerimento encaminhado para a Comissão Especial da Lei 9.140 - que reconheceu a responsabilidade do Estado em mortes ocorridas durante o regime militar -, ao receber voz de prisão Hamilton teria levantado os braços para o alto, assustado, perguntando o que estava acontecendo. Em seguida, teria recebido uma rajada de metralhadora.
Depois da morte, Nilsa foi impedida de tomar as providências para o enterro. Só seis dias depois ela foi chamada para reconhecimento do corpo. O caixão, lacrado, foi levado ao cemitério por quatro policiais. A perseguição policial a Nilsa continuou. Seu apartamento em São Paulo foi vasculhado e ela submetida a diversos interrogatórios e ameaças. Passou dois anos com o prédio onde morava vigiado pelos policiais. Em parecer da Comissão Especial em 18 de março de 1996, o nome de Hamilton foi incluído na relação dos crimes políticos e sua família indenizada. A única irmã, Nilsa, reside hoje em São Paulo.
Hamilton nasceu em Florianópolis, em 1941. Foi cedo com a família para São Paulo onde passou, já na adolescência, a participar dos movimentos operários. Pouco antes de morrer, atuava no grupo Centro Popular de Arte, que se reunia na sede do Partido Socialista Brasileiro, em São Paulo. Funcionário da Gráfica Urupês, auxiliava na promoção de espetáculos em favelas, portas de fábricas, vilas operárias, praças públicas e auditórios de faculdades. Negro e forte, Hamilton também era atuante militante da VPR, e participou de diversas ações do grupo em São Paulo junto com Yoshitame Fujimori, Carlos Marighela e Diógenes José Carvalho de Oliveira. (LFA)

Nome
Hamilton Fernando Cunha

Nascimento
1941, em Florianópolis/Santa Catarina

Profissão
Gráfico

Militância
Vanguarda Popular Revolucionária(VPR)

Morto em fevereiro de 1969 por policiais do Dops.

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Outra vítima
inocente da cadeira do dragão

"Segundo de meus três filhos, Frederico foi educado com muito amor dentro dos preceitos que recebi de meu pai. Desde cedo aprendeu que os homens são iguais e têm o seu valor próprio independente de seu trabalho. Era namorador, queria ser arquiteto. Frederico não foi o filho que eu perdi, mas o filho que todos nós perdemos. O que se passou conosco foi uma afronta à dignidade humana. Frederico, julgado e absolvido, inocência reafirmada no Superior Tribunal Militar em 1974, já não era mais vivo. Baleado, foi preso e torturado até morrer, três dias depois".

(Depoimento da mãe de Frederico, Gertrud Mayr)

Mesmo absolvido em inquérito policial, Frederico Eduardo Mayr foi preso e torturado até a morte em 1972
Luis Fernando Assunção

A cadeira do dragão contabilizava mais uma vítima. O jovem sobre o assento agonizava com o buraco de tiro na barriga, recebido horas antes. A equipe "C" estava a postos. Oberdan, Carioca, Mangabeira e Caio, todos policiais civis paulistanos formados na arte da tortura pela cartilha do hoje general da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra, insistiam em protagonizar o sofrimento com choques elétricos e batidas com uma madeira dura nas debilitadas pernas do rapaz. A cadeira era um instrumento de tortura pesado, com zinco em sua base. Na parte posterior havia terminais de choque, aplicados em todas as partes do corpo. Tinha também uma travessa de madeira que empurrava as pernas para trás. A cada espasmo do choque, as pernas batiam na travessa, causando ferimentos. Frederico Eduardo Mayr, 24 anos, pedia clemência a seus sarcásticos algozes. Em vão. Torturado por mais 72 horas ininterruptas, não resistiu e morreu.
Frederico Eduardo Mayr era o do meio de uma família com três filhos. Alegre, comunicativo, tinha inclinação para as artes, principalmente as plásticas. Seus quadros continham cores vivas, mostrando o cotidiano de sua vida. Seu sonho era ser arquiteto. Filho de descendentes alemães e suíços, nasceu em Timbó em 1948 e enfrentou desde cedo uma educação rígida do pai. "Nada do que os filhos faziam era bom", recorda a mãe, Gertrud.
A mãe sempre se preocupou com a educação dos filhos. Sempre que podia, levava as crianças a exposição de artes, concertos musicais e museus. Isso ficou mais freqüente quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, onde o patriarca, Carlos Henrique, médico, iria clinicar. Frederico não tinha intimidade com a música; preferiu a pintura. Ao contrário de sua mãe, que sempre dedilhava canções clássicas no piano recostado na sala de estar da residência da família. Como não tinha muito dinheiro para comprar material, Frederico improvisava. Construía suas próprias telas, o que dava ainda mais originalidade a seu trabalho.
Convivendo com a agitação cultural do Rio de Janeiro da década de 60, Frederico aos poucos construiu um círculo de amizades onde pôde debater política e sociedade sem constrangimentos. O grupo se reunia de tempos em tempos para discutir a situação do País, ações que pudessem ser feitas para melhorar as condições sociais da maioria da população. Daí para a militância foi um passo. Depois de 1968, integrou-se ao Movimento de Libertação Popular (Molipo) e passou a efetuar ações coordenadas com o grupo. Passou a viver na clandestinidade.
Na versão oficial, teria sido preso em 23 de fevereiro de 1972, na avenida Paulista, quando fazia contatos com companheiros estabelecidos em São Paulo. O inquérito policial militar aponta para um tiroteio entre Frederico e policiais, quando ele foi ferido na barriga. Um documento encontrado posteriormente pela família no Dops dá detalhes do inacreditável tiroteio, em um texto recheado de contradições. Diz o documento "que os guerrilheiros, a bordo de um Fusca, começaram a atirar contra os policiais sem serem provocados". No combate que teria acontecido, só Frederico foi baleado e os demais ocupantes do veículo não foram mais citados, nem como presos, nem como foragidos. Frederico foi enterrado como indigente no cemitério de Perus e seus restos mortais só foram identificados oficialmente em 1992.

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"A arte amenizou minha dor"

Blumenau - Demorou longos anos para que Gertrud Mayr convivesse com mais naturalidade com a perda trágica do filho Frederico. O ópio para a dor veio das artes. Foi só depois que começou a pincelar telas que ela conseguiu alento para continuar vivendo. "A arte amenizou minha dor da perda", reconhece Gertrud, enquanto passeia com as mãos pelas obras que faz questão de mostrar num ateliê improvisado na casa de idosos onde vive, em Blumenau. "Agora consigo falar sobre isso e entendo que o sacrifício dele está servindo. Um pouco, mas está servindo".
Gertrud lembra da perseguição que a família teve de suportar enquanto Frederico não era detido. "É quase como morrer aos poucos", relembra, ao contar a revista de policiais na casa da família no Rio de Janeiro. "Um deles chegou a pegar o menino, o Luiz Roberto (outro filho) para interrogar", diz. Outro alívio para dona Gertrud foi encontrar os restos mortais do filho, na vala de Perus, em São Paulo. Foi um peso retirado dos ombros. "Se não tivesse recebido a identidade do meu filho não estaria assim, vivendo. Estaria um caco, talvez até em cadeira de rodas", acredita. No pequeno apartamento do lar onde vive, guarda fotos e quadros pintados por Frederico.
Os irmãos Carlos Henrique, médico, 56 anos, e Luiz Roberto, arquiteto, 46, continuam sofrendo com a morte de Frederico. "À medida que o tempo vai passando fica ainda mais difícil lidar com tudo isso", reconhece Luiz Roberto. "Essas pessoas foram à luta, atrás de seus ideais. É um exemplo que fica", diz ele. Quando passou a viver na clandestinidade, Frederico perdeu um pouco do contato com a família. Ele foi julgado por participação em assalto a banco e condenado à revelia. O pai se recusou a pagar advogado, deixando o caso para a defensoria pública. "Quando Frederico pediu ajuda ao pai, ele não levou a sério", recorda Gertrud. Foi a partir da condenação que ele passou a viver na clandestinidade, depois de trancar a matrícula na faculdade de arquitetura. (LFA)

Nome
Frederico Eduardo Mayr

Nascimento
1948, em Timbó/SC

Profissão
Estudante

Militância
Movimento de Libertação Popular (Molipo)

Morto em 1972. Corpo localizado na vala de Perus e identificado em 1992. Enterrado no jazigo da família, no Rio de Janeiro.

Fonte: http://www1.an.com.br/2003/jul/04/0ger.htm