domingo, 3 de março de 2013

Leon Trotsky - A Natureza de Classe da URSS


Leon Trotsky (1933)

A ruptura com a Internacional Comunista e a orientação de formar uma nova internacional colocaram novamente o problema do caráter de classe da URSS. Será que o desastre da Internacional Comunista não significa também, ao mesmo tempo, o do estado que surgiu da Revolução de Outubro? Certamente, ambas as instâncias têm a ver com a mesma organização dominante: o aparato stalinista. Este aplicou os mesmos métodos dentro da URSS e no terreno internacional. Nós, os marxistas, nunca fomos partidários do duplo sistema de contabilidade dos brandleristas1, segundo o qual a política dos stalinistas é impecável na URSS e catastrófica fora de suas fronteiras. Estamos convencidos de que é igualmente catastrófica em ambos os terrenos. Se é assim, não se deve reconhecer, então, que o colapso da Internacional Comunista é simultâneo à liquidação da ditadura proletária na URSS?


À primeira vista, esse raciocínio parece irrefutável. Mas é errôneo. Embora os métodos da burocracia stalinista sejam homogêneos em todos os terrenos, os resultados objetivos desses métodos dependem das condições externas ou, para usar a linguagem da mecânica, da resistência do material. A Internacional Comunista era um instrumento para a destruição do sistema capitalista e o estabelecimento da ditadura do proletariado. O governo soviético é um instrumento para a preservação das conquistas já obtidas. Os partidos comunistas do Ocidente não herdaram nenhum capital. Sua força (na realidade, sua debilidade) reside única e exclusivamente neles mesmos. Nove décimos da força do aparato stalinista não residem nele mesmo, e sim nas mudanças provocadas pela revolução triunfante. Esta consideração, em si, não resolve a questão, mas é de grande importância metodológica. Ela nos demonstra como e por que o aparato estalinista pôde perder totalmente o sentido como fator revolucionário internacional e, contudo, manter parte de seu significado progressivo como guardião das conquistas sociais da revolução proletária. Esta posição dual podemos acrescentar — constitui em si mesma uma manifestação da desigualdade do desenvolvimento histórico.


A política correta de um Estado operário não se reduz apenas à construção econômica nacional. Se a revolução não se expande em nível internacional, seguindo a espiral proletária, dentro dos limites nacionais começará inevitavelmente a contrair-se seguindo a espiral burocrática. Se a ditadura do proletariado não se estender em nível europeu e mundial, começará a marchar rumo à derrota. Tudo isto é completamente indiscutível numa perspectiva histórica ampla. Mas as coisas se definem em períodos históricos concretos. É possível dizer que a política da burocracia stalinista já levou à liquidação do Estado operário? Este é o problema agora.


Contra a afirmação de que o Estado operário já está praticamente liquidado ergue-se, em primeiro lugar, a importante posição metodológica do marxismo. A ditadura do proletariado se impôs através de uma transformação política e de uma guerra civil que durou três anos. Tanto a teoria da sociedade de classes como a experiência histórica atestam a impossibilidade da vitória do proletariado através de métodos pacíficos, ou seja, sem grandiosas batalhas de classe, travadas de armas nas mãos. Nesse caso, como se pode conceber uma contra-revolução burguesa imperceptível, "gradual"? Pelo menos até agora, tanto as contra-revoluções feudais como as burguesas nunca se deram "organicamente"; exigiram, inevitavelmente, a intervenção armada. Em última instância, as teorias reformistas — na medida em que o reformismo possa chegar à teoria — foram sempre baseadas na incapacidade de compreender que os antagonismos de classe são profundos e irreconciliáveis; daí a perspectiva de uma transformação pacífica do capitalismo em socialismo. A tese marxista relativa ao caráter catastrófico da transferência do poder das mãos de uma classe às de outra irão se aplica somente às épocas revolucionárias, nas quais a história avança varrendo loucamente tudo, mas também às épocas contra-revolucionárias, nas quais a sociedade retrocede. Quem afirma que o governo soviético foi mudando gradualmente de proletário para burguês limita-se, por assim dizer, a projetar de trás para diante o filme do reformismo.


Nossos adversários podem negar o caráter metodológico geral dessa proposição e declarar que, por mais importante que seja, revela-se contudo excessivamente abstrata para resolver o problema. A verdade é sempre concreta. A tese da irreconciliabilidade das contradições de classe pode orientar-nos em nossa análise, mas não substituir os seus resultados. É preciso investigar profundamente o conteúdo material do próprio processo histórico.


Respondemos que é certo que um argumento metodológico não esgota o problema. Mas, de qualquer forma, transfere o ônus da prova para a outra parte. Os críticos que se consideram marxistas têm que demonstrar de que maneira a burguesia, que perdeu o poder após uma luta de três anos, conseguiu reconquistá-lo sem travar uma única batalha. Contudo, visto que nossos oponentes nem sequer procuram dar algum tipo de expressão teórica à sua caracterização do estado soviético, tentaremos aqui realizar este trabalho por eles.


O argumento mais difuso, popular e, à primeira vista, irrefutável acerca do caráter não-proletário do atual estado soviético é o que se refere ao estrangulamento das liberdades das organizações proletárias e à onipotência da burocracia. É realmente possível identificar a ditadura de um aparato, que conduziu à ditadura de uma só pessoa, com a ditadura do proletariado como classe? Não é evidente que a ditadura do proletariado exclui a ditadura sobre o proletariado?


Esse raciocínio atraente não está construído sobre uma análise materialista do processo, tal como se desenvolve na realidade, e sim, sobre esquemas puramente idealistas, sobre normas kantianas. Alguns nobres "amigos" da revolução formaram uma idéia muito brilhante da ditadura do proletariado e ficam completamente transtornados com o fato de que a ditadura real, com a sua herança da barbárie de classe, com as suas contradições internas, com os erros e crimes da direção, não se parece em nada à bela imagem que fizeram. Destruídas as suas mais formosas ilusões, dão as costas à União Soviética.


Onde, em que livros é possível encontrar a receita perfeita para uma ditadura proletária? A ditadura de uma classe não significa, absolutamente, que toda a massa dessa classe participe sempre da administração do Estado. Observamos isso, para começar, no caso das classes proprietárias. A nobreza governava através da monarquia, perante a qual o nobre punha-se de joelhos. A ditadura da burguesia só apresentou formas democráticas relativamente desenvolvidas nas condições do ascenso capitalista, quando a classe dominante não tinha nada a temer. Diante dos nossos próprios olhos, na Alemanha, a democracia foi suplantada pela autocracia de Hitler, que esmigalhou todos os partidos burgueses tradicionais. Hoje a burguesia alemã não governa diretamente, está politicamente submetida a Hitler e suas quadrilhas. No entanto, a ditadura da burguesia permanece intacta, já que se mantiveram e fortaleceram todas as condições de sua hegemonia social. Ao expropriar politicamente a burguesia, Hitler a salvou, embora provisoriamente, da expropriação econômica. O fato de que a burguesia tenha se visto obrigada a recorrer ao regime fascista demonstra que sua hegemonia estava em perigo, mas não que havia desaparecido.


Antecipando-se a nossos próximos argumentos, nossos adversários se apressarão a replicar: mesmo que a burguesia, como minoria exploradora, possa manter sua hegemonia também através de uma ditadura fascista, o proletariado não pode construir a sociedade socialista sem administrar seu próprio governo, atraindo massas populares cada vez mais amplas para cumprir diretamente esta tarefa. Em seu caráter geral este argumento é indiscutível, mas, neste caso específico, significa apenas que a atual ditadura soviética é uma ditadura doente. As terríveis dificuldades da construção socialista num país isolado e atrasado, unidas à falsa política da direção — que, em última instância, também reflete a pressão do atraso e do isolamento —, levaram a burocracia a expropriar politicamente o proletariado para proteger suas conquistas sociais com seus próprios métodos. As relações econômicas da sociedade determinam sua anatomia. Enquanto as formas de propriedade criadas pela Revolução de Outubro não forem liquidadas, o proletariado continuará sendo a classe dominante.


Os discursos sobre "a ditadura da burocracia sobre o proletariado", sem uma análise muito mais profunda, ou seja, sem uma explicação clara das raízes sociais e dos limites de classe da dominação burocrática, se diluem em meras frases democráticas, dessas que são tão populares entre os mencheviques. Não há dúvida de que a imensa maioria dos operários soviéticos está descontente com a burocracia e de que um setor considerável, certamente não o pior, a odeia. Contudo, não se deve somente à repressão o fato de que esta insatisfação não assuma formas massivas violentas; os operários temem aplanar o caminho para o inimigo de classe se derrubarem a burocracia. As relações entre a burocracia e a classe operária são muito mais complexas do que supõem os "democratas" superficiais. Os operários soviéticos já teriam acertado as contas com o despotismo do aparato se fossem outras as perspectivas que se abrem diante deles; se o horizonte ocidental, em vez do tom pardo do fascismo, se incendiasse com o vermelho da revolução. Enquanto isto não ocorre, o proletariado, rangendo os dentes, sustenta ("agüenta") a burocracia e, neste sentido, a reconhece como porta-voz da ditadura do proletariado. Numa conversa pessoal, nenhum operário soviético economizará xingamentos para qualificar a burocracia. Mas nenhum admitirá que a contra-revolução já aconteceu. O proletariado é a espinha dorsal do estado soviético. Mas, dado que a função de governar está concentrada nas mãos de uma burocracia irresponsável, temos diante de nós um estado obviamente doente. É possível curá-lo? As tentativas de curá-lo não significarão um estéril desperdício de tempo precioso? A questão está mal colocada. Não se trata de recorrer a todo tipo de medidas artificiais, independentes do movimento revolucionário mundial, e sim de travar uma luta sob as bandeiras do marxismo. A crítica implacável à burocracia stalinista, a educação dos quadros da nova internacional para reconstituir a capacidade de luta da vanguarda proletária mundial: esta é a essência da "cura". Ela coincide com o rumo fundamental do processo histórico.


Durante estes últimos anos, nossos adversários, muito corretamente, nos disseram muitas vezes que estávamos "perdendo tempo", tentando curar a Internacional Comunista. Nunca prometemos a ninguém curar a Internacional. Somente nos negamos a dar o doente por morto ou agonizante, até que chegasse o momento da prova decisiva. De qualquer maneira, não perdemos um só dia "curando-a". Formamos quadros revolucionários e, não menos importante, preparamos as posições teóricas e programáticas fundamentais da nova internacional.


Os senhores sociólogos "kantianos" (pedimos desculpas à imagem de Kant) amiúde chegam à conclusão de que uma "real" ditadura do proletariado, ou seja, conforme as suas normas ideais, só existiu nos dias da Comuna de Paris, ou no primeiro período da Revolução de Outubro, até a paz de Brest-Litovsk, ou, no máximo, até a NEP. Isto, certamente, é ir longe demais! Se Marx e Engels consideraram "ditadura do proletariado" a Comuna de Paris, foi somente pelas possibilidades que ela apontava. Mas, em si mesma, a Comuna não era ainda a ditadura do proletariado. Depois de tomar o poder, mal soube utilizá-lo; em vez de tomar a ofensiva, esperou; permaneceu isolada no âmbito de Paris; não ousou tocar nos bancos estatais; não conseguiu alterar as relações de propriedade porque não tomou o poder à escala nacional. A isto deve-se somar a unilateralidade blanquista e os preconceitos proudhonistas, que impediram que até os dirigentes do movimento assumissem plenamente a Comuna como ditadura do proletariado.


Igualmente infeliz é a referência à primeira época da Revolução de Outubro. Não só até a paz de Brest-Litovsk senão até o outono de 1918, o conteúdo social da revolução limitava-se a uma reforma agrária pequeno-burguesa e ao controle operário da produção. Isto significa que, na prática, a revolução não havia superado os limites da sociedade burguesa. Durante esta primeira etapa, os sovietes de soldados governavam ombro a ombro com os sovietes operários, e freqüentemente os deixaram de lado. Somente no outono de 1918 a primeira onda de soldados e camponeses retrocedeu um pouco aos limites naturais e os operários tomaram a dianteira, com a nacionalização dos meios de produção. Só a partir desse momento é que se pode falar da instauração de uma verdadeira ditadura do proletariado; e mesmo assim, com muitas reservas. Naqueles primeiros anos, a ditadura ficou limitada aos limites geográficos do velho principado de Moscou e se viu obrigada a travar uma guerra de três anos em todo o raio de Moscou até a periferia. Ou seja, até 1921, precisamente até a NEP, o que houve foi uma luta para implantar a ditadura do proletariado em escala nacional. E se, como pensam os filisteus pseudo-marxistas, a ditadura desapareceu com o começo da NEP, então se pode dizer que nunca existiu. Para estes cavalheiros, a ditadura do proletariado é simplesmente um conceito imponderável, uma norma ideal irrealizável neste mundo de pecado. Não é de se estranhar que os "teóricos" deste modelo, na medida em que não esclarecem minimamente a própria palavra ditadura, pretendam ocultar a contradição irreconciliável entre esta e a democracia burguesa.


Da perspectiva de laboratório e não de um ponto de vista político, é muito característica a seita parisiense dos "democratas comunistas" (Souvarine e Cia.). O seu próprio nome indica uma ruptura com o marxismo. Na Crítica ao Programa de Gotha, Marx rechaçava o nome de social-democracia por colocar a luta socialista revolucionária sob o controle formal da democracia. É evidente que não há diferença de princípios entre ser "democrata comunista" e ser "democrata socialista", ou seja, social-democrata. Não existe uma divisão precisa e bem delimitada entre o socialismo e o comunismo. A transgressão começa quando o socialismo e o comunismo, como movimento ou como estado, não se subordinam ao verdadeiro curso nem às condições materiais do processo histórico, e sim à abstração supra-social e supra-histórica da "democracia", que é na realidade uma arma defensiva da burguesia contra a ditadura proletária. Se na época do Programa de Gotha (1875) ainda se podia ver na palavra social-democracia apenas uma denominação incorreta e anti-científica para um partido sadiamente proletário, toda a história posterior da democracia burguesa e da "social" democracia faz, da reivindicação de "comunismo (?) democrático" uma direta traição de classe2.


Um adversário do tipo de Urbahns dirá que é certo que ainda não se restaurou o regime burguês, mas que também já não existe um estado operário; o atual regime soviético estaria regido por um governo supra ou interclassista, bonapartista. Em outra época já ajustamos as contas com esta teoria. Historicamente, o bonapartismo foi e continua sendo o governo da burguesia durante os períodos de crise da sociedade burguesa. É possível e necessário distinguir entre o bonapartismo "progressivo", que consolida as conquistas puramente capitalistas da revolução burguesa, e o da decadência da sociedade capitalista, o convulsivo bonapartismo de nossa época (Von Papen, Schleicher, Dollfuss, Colijn — o candidato ao bonapartismo holandês — etc.). O bonapartismo implica sempre na oscilação política entre as classes, mas em todas as suas reencarnações históricas conservou uma só e única base social: a propriedade burguesa. Nada mais absurdo do que tirar a conclusão de que o estado bonapartista não é classista, julgando por sua oscilação entre as classes ou pela posição "supraclassista" da camarilha que o governa. Que aberração! O bonapartismo não passa de uma das variedades de hegemonia capitalista.


Se Urbahns pretende estender o conceito de bonapartismo, incluindo também o atual regime soviético, estamos dispostos a aceitar essa interpretação ampliada, mas com uma condição: que se defina, com a necessária clareza, o conteúdo social do "bonapartismo" soviético. É absolutamente correto que o autogoverno da burocracia soviética foi construído com base na oscilação entre as diferentes forças de classe, tanto internas como internacionais. Na medida em que a oscilação burocrática entre as classes culminou no regime plebiscitário e pessoal de Stalin, pode-se falar de bonapartismo soviético. Mas enquanto o bonapartismo dos dois Bonapartes e de seus lamentáveis seguidores atuais se desenvolveu e se desenvolve sobre um regime burguês, o bonapartismo da burocracia soviética ergue-se sobre a base de um regime soviético. As inovações terminológicas e as analogias históricas podem ser, de alguma maneira, úteis para a análise, mas não podem mudar o caráter social do estado soviético.


"CAPITALISMO DE ESTADO"


A propósito, Urbahns criou recentemente uma nova teoria: parece que a estrutura econômica soviética é uma variedade do "capitalismo de estado". Há um certo "progresso" no fato de Urbahns ter baixado de seus exercícios terminológicos na esfera da superestrutura política, para os fundamentos econômicos. Mas não se saiu bem na caminhada.


Segundo Urbahns, a mais nova forma de autodefesa do regime burguês é o capitalismo de estado: basta dar uma olhada no estado corporativo "planificado" da Itália, da Alemanha e dos Estados Unidos. Acostumado aos gestos grandiloqüentes, inclui também a URSS. Falaremos adiante deste problema. Urbahns observa um fenômeno muito importante dos estados capitalistas de nossa época. Para o capitalismo monopolista, há muito tempo se tornaram apertados os limites da propriedade privada dos meios de produção e do Estado nacional. Contudo, paralisada pelas suas próprias organizações, a classe operária foi incapaz de atuar a tempo para liberar as forças produtivas da sociedade de seus grilhões capitalistas. Desse fato surgem as prolongadas convulsões econômicas e políticas. As forças produtivas entram em choque com as barreiras da propriedade privada e das fronteiras nacionais. Os governos burgueses se vêem obrigados a recorrer ao bastião policial para esmagar o motim de suas próprias forças produtivas. Isso é o que significa a chamada economia planificada. Na medida em que o estado tenta frear e disciplinar a anarquia capitalista, pode-se falar, condicionalmente, de "capitalismo de estado".


Mas temos que recordar que originalmente os marxistas entendiam por capitalismo de estado unicamente as empresas econômicas independentes que eram de propriedade do estado. Quando os reformistas sonhavam em superar o capitalismo através da municipalização ou nacionalização de um número cada vez maior de empresas industriais e de transporte, os marxistas replicavam, para refutá-los: isso não é socialismo e sim capitalismo de estado. Mas posteriormente este conceito adquiriu um sentido mais amplo e começou a ser aplicado a todos os tipos de intervenção estatal na economia; os franceses utilizam, neste sentido, a palavra étatisme (estatismo).


Mas Urbahns, além de expor as transformações do capitalismo de Estado, as interpreta a seu modo. Pelo que é possível entender do que diz, declara que o regime do "capitalismo de Estado’’ constitui uma etapa progressiva e necessária do desenvolvimento da sociedade, no mesmo sentido em que os trustes são progressivos em comparação à dispersão das empresas. Um erro tão fundamental na caracterização da planificação capitalista é suficiente para liquidar qualquer acerto.


Durante o ascenso capitalista, que terminou com a guerra, era possível — sob certas condições políticas — considerar como manifestações progressivas as diversas formas de estatização, ou seja, considerar que o capitalismo de estado impulsiona a sociedade para a frente e facilita a futura tarefa econômica da ditadura proletária. Mas a atual "economia planificada" deve ser considerada uma etapa completamente reacionária; o capitalismo de Estado pretende afastá-la da divisão mundial do trabalho, adaptar as forças produtivas ao leito de Procusto do estado nacional, restringir artificialmente a produção de alguns setores e criar, de maneira igualmente artificial, outros setores, através de enormes investimentos improdutivos. A política econômica do estado atual — que começa com impostos ao estilo da velha China e chega às ocasionais proibições de utilizar maquinaria na "economia planificada" de Hitler — consegue uma regulagem instável, às custas da deterioração da economia nacional, de provocar o caos nas relações mundiais e de perturbar totalmente o sistema monetário, que será muito necessário para a planificação socialista. O atual capitalismo de estado não prepara nem aplana a tarefa futura do estado socialista, mas, pelo contrário, lhe cria colossais dificuldades adicionais. O proletariado deixou passar muitas oportunidades de tomar o poder. Com isso criou as condições políticas para a barbárie fascista e as condições econômicas para a obra destrutiva do "capitalismo de estado". Depois da conquista do poder, o proletariado terá que pagar, no plano da economia, os seus erros políticos.


Contudo, o que mais nos interessa, dentro dos limites desta análise, é a tentativa de Urbahns de incluir a economia da URSS no "capitalismo de Estado". E para isso toma como referência — custa acreditar! — Lenin. Só há uma explicação possível para esta referência: como eterno inventor, criador de uma teoria nova por mês, Urbahns não tem tempo de ler os livros que cita. É certo que Lenin aplicou o termo "capitalismo de Estado", mas não à economia soviética de conjunto, somente a um determinado setor dela: às concessões ao capital estrangeiro, às companhias industriais e comerciais mistas e, em parte, às cooperativas camponesas, fundamentalmente dos kulaks (camponeses ricos), sob controle estatal. Indubitavelmente todos estes são elementos de capitalismo; mas como estão controlados pelo estado, e inclusive, por sua participação direta, funcionam como companhias mistas, condicionalmente ou, segundo sua própria expressão, "entre aspas" Lenin chamou "capitalismo de Estado" a estas formas econômicas. O condicionamento deste termo provém de que se trata de um estado proletário, não de um estado burguês; com as aspas queria acentuar esta importante diferença. Contudo, na medida em que o estado proletário aceitava o capital privado e lhe permitia, com certas restrições, explorar os trabalhadores, abrigava sob uma de suas alas determinadas relações burguesas. Neste sentido estritamente limitado é que se pode falar de "capitalismo de Estado".


Lenin criou essa expressão no momento da transição à NEP, quando supunha que as concessões e as "companhias mistas", ou seja, as empresas baseadas na conjunção de capital estatal e privado, ocupariam na economia soviética uma posição paralela a dos trustes e corporações puramente estatais. Contrapondo-os às empresas capitalistas de estado — concessões etc. —, Lenin definia os trustes e sindicatos soviéticos como "empresas de tipo socialista conseqüente". Previa o desenvolvimento ulterior da economia soviética, particularmente da indústria, como uma concorrência entre as empresas capitalistas de estado e as puramente estatais.


Acreditamos que agora tenha ficado claro dentro de que limites Lenin utilizou essa expressão que fez Urbahns cair em tentação, Para destacar mais a catástrofe teórica desse dirigente do "Lenin (!) bund", recordemos que, contrariamente às expectativas originais de Lenin, nem as concessões nem as companhias mistas desempenharam um papel relevante no desenvolvimento da economia soviética. De modo geral, já não resta nada dessas empresas "capitalistas de Estado". Por outro lado, os trustes soviéticos, cujo destino parecia tão incerto no início da NEP, tiveram um desenvolvimento gigantesco após a morte de Lenin. Portanto, para utilizar a terminologia de Lenin conscientemente e com alguma compreensão do assunto, é preciso dizer que o desenvolvimento econômico soviético superou totalmente a etapa do "capitalismo de Estado’’ e seguiu o caminho das empresas "de tipo socialista conseqüente’’.


Devemos também esclarecer qualquer possível mal-entendido no sentido contrário. Lenin escolheu seus termos com precisão. Não considerou os trustes como empresas socialistas, como as chamam agora os stalinistas, e sim empresas "de tipo socialista". Na pena de Lenin, esta útil distinção terminológica implicava que os trustes só terão o direito de ser chamados de socialistas — não por seu tipo, não por sua tendência, e sim por seu conteúdo genuíno — quando se revolucionar a economia rural, quando se destruir a contradição entre a cidade e a aldeia, quando os homens aprenderem a satisfazer plenamente suas necessidades; em outras palavras, somente na medida em que, sobre as bases da indústria nacionalizada e da economia rural coletivizada, surgir uma verdadeira sociedade socialista. Lenin julgava que a conquista desse objetivo exigia o trabalho sucessivo de duas ou três gerações, sobretudo realizado em indissolúvel conexão com a revolução internacional.


Resumindo: devemos entender por capitalismo de estado, no sentido estrito do termo, a administração, pelo estado burguês, por conta própria, de empresas industriais ou outras, ou a intervenção reguladora do Estado burguês no funcionamento das empresas capitalistas privadas. Lenin entendia por capitalismo de Estado "entre aspas" o controle do estado proletário sobre as empresas e relações capitalistas privadas. Nenhuma dessas definições se aplica, sob nenhum ponto de vista, à atual economia soviética. Continua sendo um profundo mistério qual o conteúdo econômico concreto que o próprio Urbahns atribui à sua caracterização do "capitalismo de Estado" soviético. Para falar francamente, sua mais nova teoria está inteiramente construída sobre uma citação mal lida.


Existe ainda outra teoria referente ao "caráter não-proletário’’ do estado soviético, muito mais engenhosa, muito mais cautelosa, mas nem por isso mais seria. O social-democrata francês Lucien Laurat, colega de Blum e mestre de Souvarine, escreveu um folheto defendendo a posição de que o estado soviético, que não é nem proletário nem burguês, representa um tipo absolutamente novo de organização de classe, porque a burocracia domina não só política, mas também economicamente o proletariado, porque devora a mais-valia que antes ia parar nas mãos da burguesia. Laurat escora suas revelações nas contundentes fórmulas d’O Capital, e dessa maneira outorga um ar de profundidade à sua "sociologia" superficial e puramente descritiva. Evidentemente esse compilador não sabe que toda a sua teoria foi formulada há trinta anos, com muito mais fogo e esplendor, pelo revolucionário russo-polonês Majaiski, superior a seu divulgador francês porque não esperou a Revolução de Outubro, nem a burocracia stalinista para definir a "ditadura do proletariado" como um trampolim para que uma burocracia exploradora alcance os postos de comando. Mas não foi sequer Majaiski quem inventou essa teoria; ele não fez mais que "aprofundar" sociológica e economicamente os preconceitos anarquistas contra o socialismo de estado. Além disso, Majaiski também utilizou as formulações de Marx, mas de maneira muito mais coerente que Laurat; segundo ele, o autor d’O Capital, com previdente malícia, ocultou em suas fórmulas sobre a reprodução (volume II) a parte da mais-valia que seria devorada pela intelectualidade socialista (burocracia).


Em nossa época, Miasnikov defendeu uma "teoria" similar, embora sem denunciar Marx como explorador; proclamou que na União soviética, a ditadura do proletariado havia sido suplantada pela hegemonia de uma nova classe, a burocracia social. Provavelmente, Laurat tomou sua teoria, direta ou indiretamente, de Miasnikov, embora revestindo-a com um pedantesco ar "ilustrado". Para completar, é necessário acrescentar que Laurat assimilou todos os erros (e somente os erros) de Rosa Luxemburgo, inclusive aqueles aos quais ela mesma havia renunciado.


Mas examinemos mais de perto a própria "teoria". Para um marxista, o termo classe tem um significado especialmente importante e também cientificamente rigoroso. Uma classe não se define apenas por sua participação na distribuição da renda nacional, e sim por seu papel independente na estrutura econômica geral e por suas raízes independentes nos fundamentos econômicos da sociedade. Cada classe (a nobreza feudal, o campesinato, a pequena-burguesia, a burguesia capitalista e o proletariado) exerce suas próprias formas específicas de propriedade. A burocracia carece dessas características sociais. Não ocupa uma posição independente no processo de produção e distribuição. Não tem raízes de propriedade independentes. Suas funções se relacionam basicamente com a técnica política do domínio de classe. A existência de uma burocracia, em suas diversas formas e com diferenças em seu peso específico, caracteriza todo regime de classes. Seu poder é de caráter reflexo. A burocracia está indissoluvelmente ligada a uma classe econômica dominante, alimenta-se das raízes sociais desta, se sustenta e cai junto com ela.


EXPLORAÇÃO DE CLASSE E PARASITISMO SOCIAL


Laurat dirá que "não tem objeções" a que a burocracia receba pagamento pelo seu trabalho, na medida em que cumpra com as funções políticas, econômicas e culturais necessárias; o problema reside em sua apropriação incontrolada de uma parte absolutamente desproporcional da renda nacional; precisamente neste sentido aparece como a "classe exploradora". Esse argumento, baseado em fatos indiscutíveis, não muda, contudo, a fisionomia social da burocracia.


Sempre e em todo regime a burocracia devora uma porção considerável de mais-valia. Seria interessante, por exemplo, calcular que porção da renda nacional devoram, na Itália ou na Alemanha, os gafanhotos fascistas. Mas este fato, que em si não carece de importância, é totalmente insuficiente para transformar a burocracia fascista numa classe dominante independente. São os mercenários da burguesia. É verdade que estes mercenários montam na garupa de seu patrão, às vezes lhe arrancam da boca os bocados mais suculentos e ainda por cima lhe cospem na cara. Digam o que disserem, são mercenários sumamente incômodos! Mesmo assim, não passam de mercenários. A burguesia os tolera porque precisa deles para que ela e seu regime não sejam levados para o inferno.


Mutatis mutandis, o que foi dito acima vale também para a burocracia stalinista. Devora, desperdiça e rouba uma porção considerável da renda nacional. Sua administração custa muito caro ao proletariado. Ocupa na sociedade soviética uma posição extremamente privilegiada, não só porque goza de prerrogativas políticas e administrativas, mas também de enormes vantagens materiais. Contudo, os maiores apartamentos, os bifes mais suculentos e os Rolls-Royce não bastam para transformar a burocracia numa classe dominante independente.


Certamente, numa sociedade socialista seria absolutamente impossível a desigualdade, e mais ainda uma desigualdade tão óbvia. Mas, apesar das mentiras oficiais e semi-oficiais, o atual regime soviético não é socialista e sim transitório. Ainda arrasta a monstruosa herança do capitalismo, particularmente a desigualdade social, não somente entre a burocracia e o proletariado como também dentro da própria burocracia e dentro do proletariado. Nesta etapa, a desigualdade continua sendo, dentro de certos limites, o instrumento burguês do progresso socialista; os salários diferenciados, os bônus etc., são utilizados como estímulos para a produção.


Ainda que explique a desigualdade, o caráter transitório do atual sistema de nenhum modo justifica esses monstruosos e evidentes privilégios que se arrogaram os incontroláveis dirigentes da burocracia. A Oposição de Esquerda não esperou as revelações de Urbahns, Laurat, Souvarine, Simone Weil3 etc., para anunciar que a burocracia, em todas as suas manifestações, está esmagando as raízes morais da sociedade soviética, gerando uma aguda e lícita insatisfação entre as massas e preparando o terreno para grandes perigos. Contudo, por si mesmos, os privilégios da burocracia não mudam as bases da sociedade soviética, porque ela não retira seus privilégios de relações de propriedade especiais que lhes sejam peculiares como "classe", mas sim das relações de propriedade criadas pela Revolução de Outubro, fundamentalmente adequadas à ditadura do proletariado.


Para falar claramente, na medida em que a burocracia rouba o povo (e o fazem, de diferentes maneiras, todas as burocracias), não estaremos diante da exploração de classe, no sentido científico do termo, e sim do parasitismo social, mas em escala muito ampla. Na Idade Média, o clero constituía uma classe ou estamento, já que seu domínio dependia de um determinado sistema de propriedade da terra e trabalho forçado. A Igreja atual não constitui uma classe exploradora mas uma corporação parasitária. Seria realmente uma estupidez falar do clero norte-americano como de uma classe dominante específica; contudo é indubitável que nos Estados Unidos os sacerdotes de diferentes cores e denominações devoram uma grande porção de mais-valia. Por seus traços de parasitismo, a burocracia, tal como o clero, se assemelha ao lumpen-proletariado que, como se sabe, tampouco representa uma "classe" independente.


O problema estará formulado com mais amplitude se não o encararmos estática mas, sim, dinamicamente. Na medida em que se apropria improdutivamente de uma tremenda porção da renda nacional, a burocracia soviética, por suas próprias funções, tem interesse no avanço econômico e cultural do país; quanto maior a renda nacional, maiores serão seus privilégios. Ao mesmo tempo, sobre os fundamentos sociais do estado soviético, o progresso econômico e cultural das massas trabalhadoras tende necessariamente a solapar as próprias bases da dominação burocrática. Obviamente, à luz desta afortunada variante histórica, a burocracia passa a ser apenas o instrumento — um instrumento ruim e caro — do estado socialista.


Mas, poderão argumentar, ao apropriar-se de uma porção cada vez maior da renda nacional e perturbar as proporções básicas da economia, a burocracia atrasa o desenvolvimento econômico e cultural do país. Absolutamente correto! A continuidade do crescimento desenfreado do burocratismo deve levar inevitavelmente ao estancamento do crescimento econômico e cultural, a uma terrível crise social e à deterioração de toda a sociedade. Mas isso implicaria não só a liquidação da ditadura do proletariado, como também o fim da dominação burocrática. O estado operário não seria substituído por relações "social-burocráticas", mas sim capitalistas.


Confiamos que, ao colocar a questão desta perspectiva, poderemos resolver, de uma vez por todas, a controvérsia sobre o caráter de classe da URSS. Tanto se tomarmos a variante de êxito futuro do regime soviético ou, pelo contrário, a de sua liquidação, em ambos os casos a burocracia não se revela uma classe independente, e sim uma excrescência do proletariado. Um tumor pode aumentar tremendamente de tamanho e até estrangular o organismo vivo, mas não pode transformar-se num organismo independente.


Por fim, cabe acrescentar, para maior clareza, que se hoje o partido marxista estivesse no poder na URSS, iria renovar todo o regime político, iria deixar de lado a burocracia, expurgá-la e colocá-la sob controle das massas, iria transformar as práticas administrativas e inaugurar uma série de reformas fundamentais na administração da economia; mas de nenhuma maneira teria que se propor a uma mudança nas relações de propriedade, ou seja, a uma nova revolução social.


A burocracia não é uma classe dominante. Mas o ulterior desenvolvimento do regime burocrático pode levar não organicamente, por degeneração, mas através da contra-revolução ao surgimento de uma nova classe dominante. Chamamos de centrista o aparato stalinista precisamente porque desempenha um duplo papel: hoje, quando já não existe uma direção marxista, e nenhuma perspectiva imediata de que surja, defende com seus próprios métodos a ditadura proletária; mas estes métodos facilitam a futura vitória do inimigo. Quem não entende este duplo papel desempenhado pelo estalinismo na URSS, não entende nada da questão.


Na sociedade socialista não haverá partido nem estado. Mas na etapa de transição, a superestrutura política desempenha um papel decisivo. Uma ditadura do proletariado desenvolvida e estável pressupõe que o partido funcione como vanguarda, cumprindo as funções de direção, que o proletariado esteja unificado nos sindicatos, que os trabalhadores estejam indissoluvelmente ligados ao estado através do sistema de sovietes e finalmente que, através da Internacional, o estado operário crie uma unidade combatente com o proletariado mundial. Por enquanto, a burocracia estrangulou o partido, os sindicatos, os sovietes e a Internacional Comunista. Nem é preciso explicar aqui que à social-democracia internacional, tão manchada por crimes e traições — e à qual, diga-se de passagem, pertence o senhor Laurat4 —, cabe uma gigantesca parte da culpa pela degeneração do regime proletário.


Mas seja qual for a repartição real da responsabilidade histórica, o resultado continua sendo o mesmo: o estrangulamento do partido, dos sovietes e dos sindicatos acarreta a atomização política do proletariado. Os antagonismos sociais, em vez de serem superados politicamente, são suprimidos administrativamente. Na medida em que desaparecem os recursos políticos para resolvê-los normalmente, ficam reprimidos. O primeiro choque social, externo ou interno, pode lançar à guerra civil a atomizada sociedade soviética. Os operários, perdido o controle do estado e da economia, podem fazer das greves de massa uma arma defensiva. Isto romperia a disciplina da ditadura. Perante o ataque dos trabalhadores e a pressão das dificuldades econômicas, os trustes se veriam obrigados a abandonar a planificação e entrar em concorrência entre si. A dissolução do regime repercutiria no campo com um eco violento e caótico e, inevitavelmente, recairia sobre o exército. O Estado socialista desapareceria, dando lugar ao regime capitalista ou, mais precisamente, ao caos capitalista.


Certamente, a imprensa stalinista reproduzirá esta análise preventiva como se fosse uma profecia contra-revolucionária, ou até um "desejo" explícito dos trotskistas. No que diz respeito a esses escritores de aluguel do aparato, faz muito tempo que não temos outro sentimento que o de um silencioso desprezo. Em nossa opinião, a situação é perigosa, mas não totalmente desesperadora. De qualquer forma, seria um ato de profunda covardia e de traição direta dar por perdida, antes de travá-la, a maior das batalhas revolucionárias.


Se é verdade que a burocracia concentrou em suas mãos todo o poder e todas as vias de acesso ao poder — e assim é —, surge uma pergunta muito importante: como encarar a reorganização do estado soviético? É possível alcançar este objetivo com métodos pacíficos?


Antes de mais nada, temos que estabelecer como axioma imutável que o único que pode alcançar este objetivo é um partido revolucionário. A tarefa histórica fundamental é criar na URSS o partido revolucionário, com os elementos sadios do velho partido e com a juventude. Veremos adiante sob quais condições é possível conseguir isso. Suponhamos, contudo, que esse partido já existe. Através de que meios poderia tomar o poder? Já em 1927, Stalin disse, dirigindo-se à Oposição: "Só se pode eliminar a atual burocracia através da guerra civil’’. Esse desafio bonapartista não tinha como destinatário a Oposição de Esquerda, mas o próprio partido. Após concentrar em suas mãos todas as alavancas do poder, a burocracia proclamou abertamente que não permitiria que o proletariado voltasse a levantar a cabeça. O curso posterior dos acontecimentos tornou ainda mais contundente este desafio. Após as experiências dos últimos anos, seria infantil supor que se possa eliminar a burocracia stalinista através de um congresso do partido ou dos sovietes. Na realidade, o último congresso do Partido Bolchevique, o décimo-segundo, teve lugar a princípios de 1923. Todos os seguintes foram farsas burocráticas. E hoje até estes foram descartados. Não restam caminhos "constitucionais" normais para remover a camarilha dominante. Só pela força se poderá obrigar a burocracia a deixar o poder nas mãos da vanguarda proletária.


Imediatamente uivarão em coro os escritores de aluguel: os "trotskistas", como Kautsky, pregam a insurreição armada contra a ditadura do proletariado. Não vamos perder tempo com eles. O problema da tomada do poder se colocará praticamente ao novo partido quando este houver consolidado ao seu redor a maioria da classe operária. No processo dessa mudança radical na relação de forças, a burocracia se isolará e dividirá cada vez mais. Como sabemos, as raízes sociais da burocracia estão implantadas no proletariado, se não em seu apoio ativo, pelo menos na sua "tolerância". Quando o proletariado entrar em ação, o aparato stalinista ficará suspenso no ar. Se tentar resistir, terá que aplicar medidas, não de guerra civil, mas de caráter policial. De qualquer maneira, não se tratará de insurreição armada contra a ditadura do proletariado, mas da remoção de uma maligna excrescência.


A verdadeira guerra civil não se daria entre a burocracia stalinista e o proletariado insurgente, mas entre o proletariado e as forças ativas da contra-revolução. Nem há que falar que a burocracia possa desempenhar um papel independente no choque aberto entre os dois lados. Seus extremos se alinhariam em lados opostos da barricada. É claro que o desenvolvimento do processo será determinado pelo resultado da luta. O triunfo do lado revolucionário só é concebível sob a direção de um partido proletário, que seria naturalmente elevado ao poder pela vitória sobre a contra-revolução.


O que é mais provável, o perigo de liquidação do poder soviético esgotado pelo burocratismo ou a consolidação do proletariado em tomo de um novo partido capaz de salvar a herança de Outubro? Não existe resposta a priori para essa pergunta: a luta decidirá. Uma grande prova histórica talvez uma guerra determinará a relação de forças. Mas é evidente que não se poderá continuar a manter o poder soviético só com o apoio das forças internas, se continuar o retrocesso do movimento proletário mundial e a extensão da dominação fascista. A condição fundamental para reformar totalmente o poder soviético é a expansão vitoriosa da revolução mundial.


No Ocidente, o movimento revolucionário pode ressurgir, mesmo que não haja partido, mas não poderá tomar o poder sem essa direção. Em toda a época da revolução social, ou seja, durante décadas, o partido mundial foi o instrumento básico do progresso histórico. Urbahns, ao proclamar que as "velhas formas" estão superadas e que é necessário algo "novo" — o que precisamente? —, não faz mais do que demonstrar a sua confusão.., de forma não menos velha. O trabalho sindical, nas condições do capitalismo "planificado", e a luta contra o fascismo e a guerra iminente originarão, indubitavelmente, novos métodos e novos tipos de organização de luta. Só que, em vez de entregar-se, como os brandleristas, a fantasias sobre os sindicatos ilegais, há que estudar atentamente o curso real da luta, partindo das iniciativas dos próprios trabalhadores para estendê-las e generalizá-las. Mas para realizar esta tarefa é necessário, em primeiro lugar, um partido, ou seja, uma organização politicamente homogênea da vanguarda proletária. A posição de Urbahns é subjetiva; desiludiu-se do partido após ter levado ao desastre o seu próprio "partido".


Uns tantos novidadeiros proclamam que "faz muito tempo" diziam que são necessários novos partidos; agora, finalmente, os "trotskistas" chegaram à mesma conclusão; com o tempo, também compreenderão que a União Soviética não é um estado operário. Esta gente, em vez de estudar o processo histórico real, dedica-se a "descobrimentos" astronômicos. Já em 1921, a seita de Gorter e o "Partido Comunista Operário" da Alemanha decidiram que a Internacional Comunista estava condenada. Desde então, não escassearam prognósticos desse tipo (Loriot, Korsch, Souvarine etc.). Contudo, nada resultou destes "diagnósticos", porque refletiam apenas a desilusão subjetiva de determinados círculos e personalidades, e não as exigências objetivas do processo histórico. É precisamente por esta razão que estes novidadeiros vociferantes continuam à margem do processo5.


O curso dos acontecimentos não segue um caminho predeterminado. Com a sua capitulação perante o fascismo, a Internacional Comunista ficou desacreditada perante as massas, não perante determinados indivíduos. Mas, mesmo depois do colapso da Internacional, continua existindo o Estado soviético, embora sua autoridade tenha diminuído bastante. Há que tomar os fatos como são realmente, e não teimar e morder os lábios como Simone Weil; não devemos ofender-nos com a história nem virar-lhe as costas.


Os novos partidos e a nova internacional, antes de mais nada, devem construir-se sobre bases sérias, principistas, que estejam à altura das necessidades da nossa época. Não alimentamos ilusões a respeito das deficiências e erros da bagagem teórica dos bolcheviques leninistas. Contudo, seu trabalho de dez anos criou as condições teóricas e estratégicas básicas para a construção da nova internacional.


Ombro a ombro com nossos aliados, impulsionaremos estas condições e as concretizaremos em base à crítica desenvolvida no processo real da luta.


A QUARTA INTERNACIONAL E A URSS


Na URSS, o núcleo do novo partido na realidade o partido bolchevique ressurgido sob novas condições — será o grupo dos bolcheviques leninistas. Até a imprensa oficial soviética testemunha que nossos adeptos realizam seu trabalho valentemente e não sem êxito. Mas não cabe alimentar ilusões: o partido do internacionalismo revolucionário só poderá livrar os operários da influência corruptora da burocracia nacional se a vanguarda proletária internacional aparecer novamente, como força combatente na arena mundial.


Desde o início da guerra imperialista, e mais ainda desde a Revolução de Outubro, o Partido Bolchevique foi a direção da luta revolucionária mundial. Hoje perdeu totalmente essa posição. Não nos referimos apenas à caricatura oficial do partido. As condições sumamente difíceis em que trabalham os bolcheviques leninistas russos excluem a possibilidade de que venham a ter um papel dirigente a escala internacional. Mais ainda, na URSS o grupo da Oposição de Esquerda só poderá transformar-se em um novo partido como conseqüência do êxito na formação e no crescimento da nova internacional. O centro de gravidade revolucionário deslocou-se definitivamente para o Ocidente, onde são imensamente maiores as possibilidades imediatas de construir partidos.


Sob a influência das trágicas experiências dos últimos anos, no proletariado de todos os países existem muitos elementos revolucionários que esperam um chamado claro e um estandarte sem mácula. É certo que as convulsões da Internacional Comunista jogaram, por toda parte, novos setores operários para a social democracia. Mas precisamente esse afluxo de massas alarmadas constitui o perigo mortal para o reformismo, que está sendo ultrapassado, desintegrando-se em frações e dando à luz, por toda parte, alas revolucionárias. Estas são as condições políticas imediatas que favorecem a nova internacional. Já foi assentada a pedra fundamental, a declaração de princípios das quatro organizações.


É indispensável, para obter êxitos maiores, fazer uma caracterização correta da situação mundial, incluindo o caráter de classe da União Soviética. Neste sentido, a nova internacional será posta à prova desde os primeiros dias de sua existência. Antes de estar em condições de reformar o estado soviético, deverá assumir a sua defesa.


Toda tendência política que, desesperançada, diz adeus à União Soviética, sob o pretexto de seu caráter "não-proletário", corre o risco de transformar-se em instrumento passivo do imperialismo. Evidentemente, nossa perspectiva não exclui a trágica possibilidade de que o primeiro estado operário, debilitado por sua burocracia, venha a cair sob os golpes mancomunados de seus inimigos internos e externos. Mas, se isto ocorrer, a pior das variantes possíveis, adquirirá enorme importância para o curso posterior da luta revolucionária, perguntar quem seriam os culpados da catástrofe. Sobre os internacionalistas revolucionários não deve cair nem sombra de culpa. Na hora do perigo mortal, terão que resistir até a última das trincheiras.


É quase certo que hoje a ruptura do equilibrio burocrático na URSS serviria às forças contra-revolucionárias. Contudo, se existisse uma internacional genuinamente revolucionária, a crise inevitável do regime estalinista abriria a possibilidade de um ressurgimento. Esta é nossa orientação básica.


A cada dia que passa, a política externa do Kremlin assesta novos golpes ao proletariado mundial. Distanciados das massas, os funcionários diplomáticos dirigidos por Stalin pisoteiam os mais elementares sentimentos revolucionários dos trabalhadores de todos os países, em detrimento, fundamentalmente, da própria União Soviética. Mas isto não é nada de novo. A política externa da burocracia é um complemento de sua política interna. Nós combatemos ambas. Mas travamos nossa luta da perspectiva da defesa do Estado operário.


Os funcionários da decadente Internacional Comunista continuam, nos vários países, jurando lealdade à União Soviética. Seria uma estupidez imperdoável construir qualquer coisa sobre esses juramentos. Para a maioria dessas pessoas, a proclamada "defesa" da URSS não é uma convicção e sim uma profissão. Não lutam pela ditadura do proletariado; seguem as pegadas da burocracia stalinista (ver, por exemplo, l’Humanité). No momento da crise, a "barbussizada" Internacional Comunista será incapaz de oferecer à União Soviética um apoio maior do que a oposição que ofereceu a Hitler. Com os internacionalistas revolucionários, é diferente. Vilmente perseguidos, há uma década, pela burocracia, chamam infatigavelmente os trabalhadores a defender a União Soviética.


No dia em que a nova internacional demonstrar aos operários russos, nos fatos e não só em palavras, que só ela se coloca na defesa do estado operário, a situação dos bolcheviques leninistas dentro da URSS mudará em vinte e quatro horas. A nova internacional chamará a burocracia stalinista a fazer frente-única contra o inimigo comum. E se nossa internacional representar uma força, a burocracia não poderá evitar a frente-única no momento do perigo. Que restará então das mentiras e calúnias de tantos anos?


Mesmo no caso de guerra a frente-única com a burocracia stalinista não será uma "santa aliança" ao estilo dos partidos burgueses e social-democratas, que durante a contenda imperialista suspenderam a crítica recíproca para melhor enganar o povo. Não; mesmo nessas circunstâncias manteremos nossa intransigência crítica frente ao centrismo burocrático, que não poderá ocultar sua incapacidade para dirigir uma verdadeira guerra revolucionária.


Tanto o problema da revolução mundial como o da União Soviética podem ser sintetizados em uma única e breve expressão: a Quarta Internacional.



Notas

(O fim da URSS, a divisão da LIT e o legado de Moreno)

1- Peronismo: movimento nacionalista burguês argentino, produto de um surto de crescimento econômico dos capitalistas nativos, devido à queda das relações comerciais com a Inglaterra durante a II Guerra. Seu dirigente, o Cel. Juán Domingos Perón, Ministro do Trabalho em 1943 começa a ganhar força, impulsionado por um golpe militar e por uma política populista que o leva a controlar a principal central sindical do país, a CGT. Fundou o Partido Justicialista, governou o país entre 46 e 55, e novamente entre 73-74. Menem é do PJ e o peronismo dirige o as principais organizações de massa argentinas até hoje.



Notas

(A Natureza de Classe da URSS)

1- Nota de Leon Trotsky: Os Sagazes brandleristas norte-americanos (o grupo de Lovestone) complicam a questão: para eles, a política econômica do stalinismo é impecável, mas o regime político da URSS é ruim, já que não há democracia. Não passa pela cabeça desses teóricos perguntar-se por que Stalin liquida a democracia, se sua política econômica é correta e tem êxito? Será por temer que a democracia proletária permita ao partido e a classe operária expressar muito mais ativa e violentamente o seu entusiasmo pela política econômica?

2- (N.L.T): Quem se interessar – se houver alguém – que se informe por sua conta própria sobre a "plataforma" dos "democratas (!) comunistas". Do ponto de vista dos fundamentos do marxismo, é difícil conceber documento mais repleto de charlatanice.

3- (N.L.T): Desolada com as "infrutíferas" experiências da ditadura do proletariado, Simone Weil encontrou alívio numa nova vocação: a defesa de sua personalidade contra a sociedade. A desgastada fórmula do liberalismo, revitalizada por uma barata exaltação anarquista! Dá o que pensar: Simone Weil refere-se, altaneira, às nossas "ilusões". Ela e os que são como ela precisam de anos de tenaz perseverança para conseguirem se libertar dos demais reacionários preconceitos da baixa classe média. Muito adequadamente, suas novas posições encontram abrigo numa publicação que leva o nome, evidentemente irônico, "La Révolution Prolétarienne". Essa publicação de Louzon é ideal para os nostálgicos da revolução e os rendeiros da política, que vivem dos dividendos de seu capital de recordações, e para os filósofos pretensiosos que talvez venham a aderir à revolução... depois que esta tiver sido realizada.

4- (N.L.T): Esse profeta acusa os bolcheviques leninistas russos de falta de audácia revolucionária. Confundindo, bem ao estilo austro-marxista, a revolução com a contra-revolução e o retorno à democracia burguesa com a preservação da ditadura proletária, Laurat dá lições a Rokovski sobre a luta revolucionária. Esse mesmo senhor considera Lenin um "teórico medíocre". Não é de admirar! Lenin, que formulou da maneira mais simples as mais complexas conclusões teóricas, não pode superar esse pretensioso filisteu que nos despeja, com ares cabalísticos, suas pobres e tediosas generalizações. Uma boa inscrição para seu cartão de visitas: "Lucien Laurat: por vocação, teórico e estrategista de reserva da revolução proletária... na Rússia; por profissão, assistente de Léon Blum". É uma inscrição meio longa, mas correta. Dizem que esse teórico conta com partidários entre a juventude. Pobre juventude!

5- (N.L.T): Isto não se aplica às organizações que romperam com a social-democracia há relativamente pouco tempo, ou que tiveram uma evolução particular (como o Partido Socialista Revolucionário da Holanda), e que naturalmente se recusaram a unir sua sorte à da Internacional Comunista em sua época de decadência. As melhores dessas organizações estão adotando as bandeiras da nova internacional. Outras a seguirão. 
Fonte: http://www.midiaindependente.org/

O Que Foi a Revolução de Outubro Leon Trotsky 27 de Novembro de 1932


Conferencia pronunciada: a 27 de Novembro de 1932, no estádio de Copenhague, Dinamarca.
Fonte da presente transcrição:  "Que fue la revolución russa?", Editorial Indo-América, Buenos Aires, 1953.
Tradução de: Moniz Bandeira. Transcrição para a web: XXX para o Marxist Internet Archive HTML por:  José Braz para o Marxist Internet Archive.

Queridos ouvintes:
Permiti-me, em primeiro lugar, expressar-vos meu sincero pesar por não poder falar em língua dinamarquesa, ante um auditório de Copenhague. Não sabemos se os ouvintes perderão algo por isto. No que concerne ao conferencista, a ignorância do idioma dinamarquês impede-o de estar em contato direto com a vida e a literatura escandinavas. O que supõe um grande inconveniente! O idioma alemão, ao qual recorro para tais misteres, é poderoso e rico; mas, a "minha língua alemã" é bastante limitada. Ademais, quando se trata de questões complicadas, não é possível explicar com a mesma liberdade que se tem quando se fala a própria língua. Portanto, peço, antecipadamente, desculpas ao auditório.
Estive pela primeira vez em Copenhague para participar do Congresso Socialista Internacional e guardei sempre grata recordação de vossa cidade. Mas, já vai um quarto de século. No Ore-Sund e no fiords,  a água renovou-se muitas vezes. E não somente a água. A Guerra rompeu a coluna vertebral do velho continente europeu. Os rios e os mares da Europa arrastaram muito sangue. A humanidade, tornou-se em particular a sua parte européia, atravessou duas provas. Tornou-se mais sombria. Mais brutal. Todas as formas de luta tomaram aspectos ainda mais duros. O mundo entrou numa época de grandes mudanças. Suas exteriorizações extremas são a guerra e a revolução.
Antes de abordar o tema de minha conferencia - a Revolução - julgo um dever expressar meus agradecimentos aos organizadores deste ato, à Associação de Copenhague de Estudantes Social-Democratas.  Faço-o na qualidade de adversário político. É verdade que a minha conferencia trata de questões histórico-científicas. É, porém, impossível falar de uma revolução, como a que criou a República dos Sovietes, sem tomar uma posição política. Na qualidade de conferencista minha bandeira continua a mesma: a mesma bandeira sob a qual participei da Revolução Outubro.
Até a guerra, o Partido Bolchevique pertenceu à socialdemocracia internacional. A 4 de agosto de 1914, o voto da Social-Democracia alemã em favor dos créditos de guerra, acabou de uma vez para sempre com esta unidade e abriu a era da luta incessante e intransigente do bolchevismo contra a Segunda Internacional. Significa isto, portanto, que os organizadores desta reunião cometeram um erro ao convidar-me como conferencista? Em todo o caso, o auditório somente poderá julgar depois de pronunciada a palestra. Justificando a aceitação de tão amável convite para fazer uma conferência sobre a revolução russa, permitir-me-ei recordar que, durante os 35 anos de minha vida política, o tema da revolução russa sempre foi o eixo prático e teórico de minhas preocupações e de meus atos. Creio, portanto, que isto me dá algum direito de esperar poder ajudar não somente a meus companheiros de idéias, como também a meus adversários - pelo menos de partido - a compreender muitos aspectos da revolução que até hoje escapam aos seus olhos. Numa palavra: o objetivo de minha conferência é ajudar a compreender. E não me proponho a propagar nem a clamar pela revolução. Só quero explicá-la.
Não sei se no Olimpo escandinavo havia também uma deusa da rebelião. Duvido. De qualquer modo, não solicitaremos hoje os seus favores. Poremos nossa conferência sob o signo de Snotra a velha deusa do conhecimento. Não obstante o seu caráter dramático, como acontecimento vital, trataremos de estudar a revolução com a impassibilidade do anatomista. Se o conferencista, por causa disto, se tornar mais seco, os ouvintes, espero, saberão justificá-lo.
Para começar, fixemos alguns princípios sociológicos elementares que são sem dúvida familiares a todos vocês e que devemos, porém, recorda-los ao tomar contato com um fenômeno tão complexo como a revolução.
A sociedade humana é o resultado histórico da luta pela existência e da segurança na preservação das gerações. O caráter da economia determina o caráter da sociedade. Os meios de produção determinam o caráter da economia.
A cada grande época, no desenvolvimento das forças de produção, corresponde um regime social definido. Até agora, cada regime social assegurou enormes vantagens à classe dominante.
É evidente que os regimes sociais não são eternos. Nascem e, historicamente, transformam-se em obstáculos ao progresso ulterior. "Tudo que nasce é digno de perecer".
Nunca, porém, uma classe dominante abdicou, voluntária e pacificamente, ao poder. Nas questões de vida e morte os argumentos fundados na razão nunca substituíram os argumentos da força. É triste dizê-lo. Mas é assim. Não fomos nos que fizemos este mundo. Só podemos tomá-lo tal como é.
A revolução significa mudança do regime social. Ela transmite o poder das mão de uma classe, que se esgotou, as mão de outra classe em ascensão. A insurreição constitui o momento mais crítico e mais agudo na luta de duas classes pelo poder. A sublevação não pode conduzir a vitória real da revolução e a implantação de novo regime senão quando se apoia sobre uma classe progressista, capaz de agrupar em torno de si a imensa maioria do povo.  Diferentemente dos processos da natureza, a revolução realiza-se por intermédio dos homens. Mas, na revolução também os homens atuam sob a influência de condições sociais que eles próprios não elegem livremente, senão que herdam do passado e lhes assinala imperiosamente o caminho. Precisamente por tal motivo, e só por isto, a revolução tem as suas próprias leis. A consciência humana, contudo, não se limita  a refletir passivamente as condições objetivas. Sobre estas ela pode reagir ativamente. E, em certos momentos, a reação adquire um caráter de massa, tenso, apaixonado. Derrubam-se então barreiras do direito e do poder. A intervenção ativa das massas nos acontecimentos constitui o elemento indispensável da revolução. E, sem dúvida, a demonstração, de uma rebelião, sem elevar-se a altura de uma revolução. A sublevação das massas deve conduzir a derrubada do poder  de uma classe e ao estabelecimento da dominação de outra. Somente assim teremos uma revolução consumada. A sublevação das massas não é um empreendimento isolado que se pode provocar por capricho. Representa um elemento objetivamente condicionado ao desenvolvimento da revolução, que por sua vez é um processo condicionado ao desenvolvimento da sociedade. Isto não quer dizer, entretanto, que, uma vez existentes as condições objetivas da sublevação, se deva esperar passivamente, com boca aberta. Nos acontecimentos humanos também há como disse Shakespeare, fluxos e refluxos, que, tomados na crescente, conduzem ao êxito: "There is a tid in the affairs of men which taken at the flood, leads on to fortune". Para varrer o regime que sobrevive, a classe avançada deve compreender que soou a hora e propor-se à tarefa da conquista do poder. Aqui se abre o campo da ação revolucionária consciente, onde a previsão e o cálculo se unem à vontade e à bravura. Dito de outra forma: aqui se abre o campo a ação do partido.
O partido revolucionário condensa o mais seleto da classe avançada. Sem um partido capaz de orientar-se nas circunstâncias, de apreciar a marcha e o ritmo dos acontecimentos e de conquistar a tempo a  confiança das massas, a vitória da revolução proletária é impossível. Tal é a relação dos fatores objetivos e dos fatores subjetivos da revolução e da insurreição. Como bem sabeis, nas discussões, os adversários - em particular na teologia - têm o costume de desacreditar freqüentemente a verdade científica elevando-a ao absurdo. Isto se chama, ainda em lógica, reductio ad absurdum. Nós vamos tratar a seguir da via oposta, isto é, tomaremos como , isto é, tomaremos como ponto de partida um absurdo a fim de nos aproximar-mos com maior segurança da verdade. Realmente não temos direito de lamentar-mos por falta de absurdos. Tomemos um dos mais recentes e mais grossos. O escritor italiano Malaparte, algo assim como um teórico fascista - também existe este produto - publicou há pouco tempo um livro sobre a técnica do golpe de estado. O autor consagra um número não desprezível de páginas de sua "investigação" à insurreição de outubro. Ao contrário da "estratégia" de Lênin, que permanece unida às relações sociais e políticas da Rússia de 1917, "a tática de Trotski não está - segundo os termos de Malaparte - ligada por nada às condições gerais do País". Tal é a idéia principal da obra. Malaparte obriga a Lênin e a Trotski, nas páginas de seu livro, a entabular diálogos, nos quais os interlocutores dão prova de tão pouca profundidade de espírito como a natureza pôs à disposição de Malaparte. Às objeções de Lênin sobre as premissas sociais e políticas da insurreição, Malaparte atribui a Trotski, literalmente, a seguinte resposta: "Vossa estratégia exige demasiadas condições favoráveis e a insurreição não tem necessidade de nada. Basta-se por si mesma". Basta-se por si  mesma". Entendeis bem? "A insurreição não tem necessidade de nada". Tal é, precisamente, queridos ouvintes o absurdo que deve servir para aproximar-nos da verdade. O autor repete com muita persistência que, em outubro, não foi a estratégia de Lênin e sim a tática de Trotski o que triunfou. Esta tática, conforme suas palavras, ameaça, ainda agora, a tranqüilidade dos Estados europeus. "A estratégia de Lênin - cito textualmente - não constitui nenhum perigo imediato para os governos da Europa. A tática de Trotski constitui um perigo atual e, portanto, permanente". Mais concretamente: "Colocai Poincaré no lugar de Kerenski e o golpe de Estado Bolchevique, de 1917, triunfaria da mesma forma". É difícil crer que semelhante livro seja traduzido a diversos idiomas e acolhido seriamente. Em vão tentaríamos saber porque a estratégia de Lênin, dependendo das condições históricas, é necessária, se a "tática de Trotski permite resolver o mesmo problema em todas as situações. E porque as revoluções são tão raras, se para seu sucesso basta um par de receitas técnicas?
O diálogo entre Lênin e Trotski apresentado pelo escritor fascista é, no espirito como na forma, uma invenção inepta do princípio ao fim. Muitas invenções desse quilate circulam pelo mundo. Por exemplo, acaba de aparecer em Madrid, com meu nome, um livro: Vida de Lênin, pelo qual sou tão responsável como pelas receitas técnicas de Malaparte. O semanário Estampa publicou deste pretenso livro de Trotski sobre Lênin capítulos inteiros, que contêm ultrajes abomináveis à memória do homem que eu estimava e que estimo incomparavelmente mais que qualquer outro, entre os meus contemporâneos. Abandonemos, entretanto, os falsários à sua sorte. O velho Wilhelm Liebknecht, o pai do combatente e herói imortal, Karl Liebknecht, costumava dizer: "O revolucionário deve prevenir-se com uma pele grossa. O doutor Stockmann, mais expressivo ainda, recomendava a todos os que se dispõem a enfrentar a opinião pública a não vestir calças novas. Sigamos estes bons conselhos e passemos à ordem do dia.
Quais as perguntas  que a Revolução de Outubro sugere a todo o homem? Primeira: por que obteve êxito esta revolução? Ou, mais concretamente, por que a revolução proletária triunfou num dos países mais atrasados da Europa? Segunda questão: que trouxe a Revolução de Outubro? E por último: concretizou-se o que dela se esperava?
Pode-se responder à primeira pergunta - sobre as causas - de modo mais ou menos completo. Tentei faze-lo o mais explicitamente possível na minha História da Revolução Russa. Aqui, não posso fazer outra coisa senão formular as conclusões mais importantes. O fato de Ter o proletariado chegado ao poder, pela primeira vez, num país tão atrasado, como a Rússia, só à primeira vista pode parecer misterioso. Na realidade, resulta de uma lógica rigorosa. Podia-se prever. E previu-se. Mais ainda: diante dessa perspectiva, os revolucionários marxistas elaboraram a sua estratégia muito antes dos acontecimentos decisivos. A primeira explicação e a mais geral: a Rússia é um país atrasado. Mas, também, a Rússia não é mais que uma parte da economia mundial, um elemento do sistema capitalista mundial. E Lênin resolveu o enigma da revolução russa com a seguinte fórmula lapidar: a cadeia rompeu-se pelo elo mais fraco. Uma situação clara: a grande guerra, produto das contradições do imperialismo mundial, arrastou em seu torvelinho países que se achavam em diferentes etapas de desenvolvimento e impôs a todos as mesmas exigências.; Resulta, pois, que os encargos da guerra se tornariam mais insuportáveis, particularmente, para os países mais atrasados. A Rússia foi o primeiro que se viu obrigado a ceder terreno. Mas, para sair da guerra, o povo precisava abater as classes dominantes. Assim foi como a cadeia se quebrou. A guerra não é uma catástrofe, determinada por fatores alheios, como um terremoto. Para com o velho Clausevitz, é a continuação da política por outros meios. Durante a guerra, as tendências principais do sistema imperialista de tempos de "paz" apenas se exteriorizaram de modo mais agudo. Quanto mais elevadas sejam as forças gerais de produção; quanto mais tensa seja a concorrência mundial; quanto mais acirrem os antagonismos; quanto mais desenfreada seja a corrida armamentista, tanto mais penosa se torna a situação para os participantes mais fracos. Precisamente esta é a  causa pela qual os países mais atrasados ocupam o primeiro lugar na série dos desmoronamentos. A cadeia do capitalismo tende sempre a partir-se pelos elos mais fracos. Se por causa de certas circustâncias extraordinárias ou extraordinariamente desfavoráveis - por exemplo, uma intervenção militar vitoriosa do exterior, devido a falta irreparáveis do próprio governo soviético -, se restabelecesse o capitalismo sobre o imenso território soviético, sua insuficiência histórica aprontaria, rapidamente, sua nova queda, vítima das mesmas contradições que provocaram, em 1917, a explosão. Nenhuma receita tática poderia dar vida a Revolução de Outubro se a Rússia não a levasse nas suas próprias entranhas. O partido revolucionário não pode desempenhar outro papel senão o de parteiro que se vê obrigado a recorrer à operação cesariana. Poderiam objetar-me: suas considerações gerais podem explicar, suficientemente, por que razão a velha Rússia (este país onde o capitalismo atrasado, junto a uma classe camponesa miserável, estava coroado por uma nobreza parasitária e arrematando, por uma monarquia putrefata) teria que naufragar. Mas, na imagem da cadeia e do elo mais fraco falta ainda a chave do enigma: como, num país atrasado podia triunfar a revolução socialista? Porque a história conhece muitos exemplos de decadência de países e de culturas, que, após a derrocada simultânea das velhas classes, não puderam achar nenhuma forma progressista para ressurgir. A derrocada da velha Rússia deveria, ao que tudo indica, transformar o país numa colônia capitalista e não numa República socialista. Esta objeção é viciosa. Eu diria: desprovida de proporção interna. De um lado, decorre de uma concepção exagerada quanto ao atraso da Rússia. De outro, de uma falsa concepção teórica no que diz respeito ao fenômeno do atraso geral.
Os seres vivos - naturalmente, entre eles, o homem - atravessam, com relação à idade, estágios de desenvolvimento semelhantes. Numa criança normal de cinco anos, encontra-se certa correspondência entre peso, o tamanho e os órgãos internos. Mas, isto não sucede com a consciência humana. Em oposição à anatomia e à fisiologia, a psicologia, tanto a do indivíduo como a da coletividade, distingue-se por uma extraordinária capacidade de assimilação, flexibilidade e elasticidade: nisto mesmo reside também a vantagem aristocrática do homem sobre seu parente zoológico mais próximo da espécie dos monos. A consciência, susceptível de assimilar, confere - como condição necessária ao progresso histórico - aos "organismos chamados sociais, ao contrário dos organismos reais, isto é, biológicos, uma extraordinária variabilidade de estrutura interna. No desenvolvimento das nações e dos Estados, dos capitalistas em particular, não existe nem similitude nem uniformidade. Diferentes graus de cultura, até os pólos opostos, aproximam-se e combinam-se, com muita freqüência, na vida de um país. Não esqueçamos, queridos ouvintes, que o atraso histórico é uma noção relativa. Se existem países atrasados e avançados, há também uma ação recíproca entre eles. Há a opressão dos países avançados sobre os retardatários, bem como a necessidade para os países atrasados de alcançar aqueles mais adiantados, adquirir-lhes a técnica, a ciência, etc. Assim surgiu um tipo combinado de desenvolvimento: os caracteres mais atrasados absorvem a última palavra da técnica e do pensamento mundiais. Enfim, os países historicamente atrasados são por vezes obrigados a ultrapassar os demais. A consciência coletiva vê a possibilidade de lograr, em certas condições, sobre a arena social, o resultado que, em psicologia individual, se chama "a compensação". Pode-se afirmar, neste sentido, que a Revolução de Outubro foi para os povos da Rússia um meio heróico de superar sua própria inferioridade econômica e cultural.
Passemos sobre estas generalizações histórico-políticas, que, talvez, sejam um tanto abstratas, para focalizar a mesma questão de modo concreto, isto é, através de fatos econômicos vivos. O atraso da Rússia do século XX expressa-se, mais claramente, da seguinte maneira: a indústria ocupa, num país, um lugar mínimo, em comparação com o campo. Isto significa, no conjunto, uma baixa produtividade do trabalho nacional. Basta dizer que, às vésperas da guerra, quando a Rússia tzarista alcançara o cume de sua prosperidade, a renda nacional era de oito a dez vezes inferior à dos Estados Unidos. Isto expressa, numericamente, a "amplitude" do atraso, se é que podemos servir-nos da palavra amplitude no que se refere a atraso. Ao mesmo tempo, a lei do desenvolvimento combinado manifesta-se a cada passo, no domínio econômico, tanto nos fenômenos simples como nos complexos. Quase sem rotas nacionais, a Rússia viu-se obrigada a construir vias férreas. Sem haver passado pelo artesanato e pela manufatura européias, a Rússia saltou diretamente para a produção mecanizada. Saltar as etapas intermediárias, tal é o caminho dos países atrasados. Enquanto a economia camponesa permanecia, freqüentemente, ao nível do século XVII, a indústria da Rússia, se não em capacidade, pelo menos no seu tipo, achava-se no mesmo nível dos países avançados e; por vezes, sobrepunha-o em muitos aspectos.
Assinale-se que as empresas gigantes, com mais de mil operários, ocupavam, nos Estados Unidos, menos de 18% da totalidade dos operários industriais, enquanto na Rússia a proporção era de 41%. Este fato não confirma a concepção trivial do atraso econômico da Rússia. Mas, por outro lado também não nega o atraso geral. As duas concepções completam-se dialeticamente. A estrutura de classe do país também apresentava o esmo caráter contraditório. O capital financeiro da Europa industrializava a economia russa num ritmo acelerado. A burguesia industrial logo adquiria o caráter do grande capitalismo, inimigo do povo. Além do mais, os acionistas estrangeiros viviam fora do país, enquanto, por outro lado, os operários eram autenticamente russos. Uma burguesia russa numericamente débil, que não possuía nenhuma raiz nacional, defrontava-se desta forma com um proletariado relativamente forte e com rijas e profundas raízes no povo. Par o caráter revolucionário do proletariado contribuiu o fato de que a Rússia, precisamente como país atrasado e forçado a abrigar os adversários, não chegou a elaborar um conservadorismo social e político próprio. Como a nação mais conservadora da Europa e ainda do mundo inteiro, o mais velho país capitalista, a Inglaterra, dá-me razão. Poderia considerar-se a Rússia como um país desprovido de conservadorismo. O proletariado russo, jovem, resoluto, não constituía, contudo, mais que uma pequena minoria da nação. As reservas de sua potência revolucionária encontrava-se fora de seu próprio seio: no campesinato, que vivia numa semi-servidão, e nas nacionalidades oprimidas.
A questão agrária formava a base da revolução. A antiga servidão, que mantinha a autocracia, resultava duplamente insuportável nas condições da nova exploração capitalista. A comunidade agrária compunha-se de 140 milhões de deciatinas. Para 30m mil grandes proprietários latifundiários, possuidores cada um de mais ou menos em média de 2.000 deciatinas, corresponderia um total de 70 milhões de deciatinas, isto é, cerca de 10 milhões de famílias camponesas, ou seja, 50 milhões de seres.  Esta estatística da terra constituía um programa acabado da insurreição camponesa. Um nobre, Borbokin, escrevia em 1917 a Rodzianko, Presidente da Última Duma do Estado: "Eu sou um proprietário, latifundiário e não me ocorre pensar nem por um momento que tenha de perder minha terra, muito menos para um fim inacreditável: para fazer uma experiência socialista". Mas as revoluções sempre têm como objetivo a mesma tarefa: realizar o que não entra na cabeça das classes dominantes.
No outono de 1917, quase todo o país era um vasto campo de levantes camponeses. De 621 distritos da velha Rússia, 482, isto é, 77% estavam conflagrados pelo movimento. A luz do incêndio iluminava a sublevação nas cidades. Porém - podereis objetar - a guerra camponesa contra os latifundiários é um dos elementos clássicos da revolução burguesa e não da revolução proletária. Eu respondo: completamente justo. Assim aconteceu no passado. Mas, agora, a impotência do capitalismo para viver num país atrasado revela-se no fato de que a sublevação camponesa não empurrou para a frente a burguesia, na Rússia, senão, pelo contrário, colocou-a no campo da reação. Ao Campesinato, para não fracassar, não lhe restava outro caminho senão a aliança com o proletariado industrial. Esta ligação revolucionária com as classes oprimidas Lênin previu, genialmente, e preparou, há muito tempo, Se a burguesia pudesse resolver, francamente, a questão agrária, com toda a segurança, o proletariado não poderia conquistar o poder em 1917. Chegando demasiadamente tarde, mergulhada precocemente na decrepitude, a burguesia russa, egoísta e covarde, não teve a ousadia de levantar a mão contra a propriedade feudal. E assim deixou o poder ao proletariado e, ao mesmo tempo, o direito de dispor da sorte da sociedade burguesa. Para que o  Estado Soviético fosse realidade, era sobretudo necessária a ação combinada destes fatores de natureza histórica distinta: a guerra camponesa, isto é, um movimento que é característico da aurora do movimento burguês, e a sublevação proletária, que anuncia o crepúsculo do capitalismo. Aí reside o caráter combinado da revolução russa. Bastava que o urso camponês se levantasse sobre as patas traseiras para mostrar o terrível de sua fúria. Mas urso camponês carecia de capacidade para dar à sua revolta uma expressão consciente: tem sempre a necessidade de um guia. Pela primeira vez na história do movimento social o campesinato sublevado encontrou um dirigente leal; o proletariado. Quatro milhões de operários da indústria e dos transportes lideraram cem milhões de camponeses. Tal foi a relação natural e inevitável entro o proletariado e a classe camponesa na revolução.
A segunda reserva revolucionária do proletariado era constituída pelas nacionalidades oprimidas, integradas , ainda assim, por camponeses na sua maioria. O caráter extensivo do desenvolvimento do Estado que se eparramava do centro de Moscou até a periferia, vai intimamente lidado ao atraso histórico do país. Ao Leste, submetia as populações mais atrasadas ainda, para melhor afogar, com seu apoio, as nacionalidades mais desenvolvidas do Oeste. Aos setenta milhões de grão-russos, que formam a massa principal da população, somam-se, assim, noventa milhões de "alógenos". Formou-se assim o Império, em cuja composição a nação dominante possuía cerca de 43% da população, integrando-se os restantes 57% de uma mescla de nacionalidade, de culturas e de regimes distintos. A opressão nacional era, na Rússia, incomparavelmente mais brutal que nos Estados vizinhos, sobrepujando, para dizer a verdade, não os que estavam do outro lado da fronteira ocidental, como, também, da oriental. Tal estado de coisas emprestava ao problema nacional enorme força explosiva. A burguesia liberal russa não queria, nem na questão nacional, nem na questão agrária, ir além de certas reformas para atenuar o regime de opressão e violência. Os governos "democratas" de Miliukov e Kerenski, que exprimiam os interesses da burguesia e da burocracia grã-russa, dedicaram-se, no curso dos oito meses de sua existência, a ensinar-lhes a seguinte lição: não obtereis o que procurais até que não o arranqueis pela força. Há muito tempo, Lênin já considerava a inevitabilidade do movimento nacional centrífugo. O Partido Bolchevique lutou, durante anos, pelo direito de autodeterminação das nacionalidades, isto é, pelo direito a completa separação estatal. Foi precisamente por causa desta exata posição na questão nacional que o proletariado russo pode ganhar, pouco a pouco, a confiança das populações oprimidas. O movimento de libertação nacional e o movimento camponês voltaram-se, forçosamente, contra a democracia oficial, fortaleceram o proletariado e lançaram-se na correnteza da insurreição de outubro.
Levanta-se assim, gradativamente, o véu do inigma da insurreição proletária num país historicamente atrasado. Muito tempo antes dos acontecimentos, os revolucionários marxistas previram a marcha da revolução e a função histórica do jovem proletariado russo. Permitam-me aqui reproduzir um extrato de minha própria obra sobre a revolução de 1905:
"Num país economicamente atrasado, o proletariado pode chegar ao poder antes que um país adiantado... A revolução russa cria (...) condições, mediante as quais o poder pode passar (com a vitória da revolução deve passar) ao proletariado antes que a política do liberalismo burguês tenha possibilidade de soltar seu gênio estadista... O destino dos interesses revolucionários mais elementares dos camponeses (...) está fortemente ligado ao destino de toda a revolução, ao destino do proletariado. Uma vez chegado ao poder, o proletariado aparecerá aos camponeses como libertador de sua classe. O proletariado entra no governo como representante revolucionário da nação, como condutor reconhecido do povo na luta contra o absolutismo e a barbárie da servidão... O regime proletário deverá desde o princípio pronunciar-se sobre a questão agrária, que está ligada `sorte do avanço popular da Rússia".
Deixai-me evocar esta citação como testemunha de que a teoria da Revolução de Outubro, apresentada hoje por mim, não é uma improvisação rápida, contraída a posteriori, sob a pressão dos acontecimento. Não. Pelo contrário. Foi formulada sob a forma de prognóstico político muito antes da Revolução de Outubro. Convireis que a teoria em geral não tem mais valor senão na medida em que ajuda a prever o curso do desenvolvimento e influencia os seus objetivos. Nisto mesmo consiste, falando em termos gerais, a importância inestimável do marxismo como arma de orientação social e histórica. Lamento que os estreitos limites desta exposição me impeçam de estender o texto citado de maneira mais ampla e, por isso, terei que me conformar com um curto resumo de tudo o que escrevi em 1905.
Em relação com as suas tarefas imediatas, a revolução é uma revolução burguesa. Sem embargo, a burguesia russa é anti-revolucionária. Por conseguinte a vitoria da revolução só é possível como vitória do proletariado. O proletariado vitorioso não se deterá no programa da democracia burguesa e passará imediatamente ao programa do socialismo. A revolução russa será a primeira etapa da revolução socialista mundial.
Tal era a teoria da revolução permanente,  elaborada por mim em 1905 e, mais tarde, exposta a crítica mais acerba sob o apelido de "trotkismo". Isto não é mais que uma parte desta teoria. A outra parte, agora particularmente atual, expressa:
As atuais forças de produção há muito extravasaram as barreiras nacionais. A sociedade socialista é irrealizável nos limites nacionais. Por mais importantes que sejam os êxitos econômicos de um Estado operário isolado, o programa do "socialismo num só país", é um utopia pequena-burguesa. Só uma federação européia e, e depois, mundial de republicas socialistas pode abrir o caminho a uma sociedade socialista harmônica.
Hoje, depois da prova dos acontecimentos, tenho menos razão do que nunca para ratificar esta teoria.
Depois de tudo que disse, merece que se leve em conta os escritor fascista Malaparte? Este que me atribui uma tática independente da estratégia e resultante de certas técnicas, aplicáveis em todo momento? Tais receitas fornecidas pelo infeliz teórico do golpe de Estado permite distingui-lo facilmente do prático vitorioso do golpe de Estado. E ninguém correrá o risco de confundir Malaparte com Bonaparte.
Sem a insurreição armada de 25 de outubro de 1917 (7 de novembro, segundo o calendário atual), o Estado Soviético não existiria. Mas a insurreição não nasceu do céu. Para triunfo da revolução de outubro era necessária uma série de premissas históricas:
1. A podridão das velhas classes dominantes, da nobreza, da monarquia, da burocracia.
2. A debilidade política da burguesia, que não tinha nenhuma raiz nas massas populares.
3. O caráter revolucionário da questão agrária.
4. O caráter revolucionário do problema das nacionalidades oprimidas.
5. O peso social do proletariado.
 A estas premissas orgânicas é preciso juntar condições de conjunturas de excepcional importância:
6. A revolução de 1905 foi uma grande lição ou, segundo Lênin, "um ensaio geral" da revolução de 1917. Os sovietes, como forma de organização insubstituível de frente única proletária, na revolução, apareceram pela primeira vez, 1905.
7. A guerra imperialista aguçou todas as contradições, arrancou as massas atrasadas do seu estado de imobilidade, preparando-as para o caráter grandioso da catástrofe.
Mas todas estas condições, suficientes par irrompesse a revolução eram, porém, insuficientes para assegurar vitória do proletariado.
Faltava uma oitava condição: o Partido Bolchevique.
Se enumero esta condição em último lugar da série é só porque assim corresponde à seqüência lógica e não porque atribua ao partido o lugar de menor importância. Não. Muito longe tal pensamento. A burguesia liberal pode tomar o poder, e fê-lo muitas vezes, como resultado de lutas nas quais não havia participado: para isto possui instrumentos magnificamente desenvolvidos. As massas trabalhadoras encontram-se numa outra situação. Acostumaram-se a dar e não tomar. Trabalham pacientemente, esperam, perdem a paciência, sublevam-se, combatem, morrem, dão a vitória a outros, são traídas, caem no desalento, submetem-se, voltam a trabalhar. Assim é a história das massas populares sob todos os regimes. Para tomar com segurança e firmeza o poder o proletariado tem necessidade de um partido superior a todos os demais na clareza do pensamento e na decisão revolucionária. O partido dos bolcheviques assim designado com freqüência, e com razão, como partido mais revolucionário da história da humanidade, era condensação viva da nova história da Rússia, de tudo o que nela havia de dinâmico. Havia muito tempo que se considerava o desaparecimento da monarquia como a condição indispensável para o desenvolvimento da economia e da cultura. Faltavam as forças para levar adiante esta tarefa. À burguesia horrorizava a idéia da revolução. Os intelectuais tentaram conduzir o campesinato sobre os ombros. Incapaz de generalizar suas próprias penas e objetivos, o mujik não deu uma resposta ao apelo dos intelectuais. A intelligentsia  armou-se de dinamite. Toda uma geração se consumiu nesta luta. A 1º de março de 1887, Alexandre Ulianov levou a cabo o último dos grandes atentados terroristas. A tentativa contra Alexandre III fracassou. Ulianov e os demais participantes foram enforcados. O intento de substituir a classe revolucionária por uma preparação química naufragou. A inteligência mais heróica não é nada sem as massas. Sob a impressão imediata destes fatos e de suas conclusões, cresceu e formou-se o mais jovem dos irmão Ulianov, Vladimir, o futuro Lênin. A figura mais grandiosa da história russa. Desde o princípio, em sua juventude, colocou-se sob o terreno do marxismo e voltou seu olhar para o proletariado. Sem perder um instante de vista a aldeia, orientou-se para o campesinato, através dos operários. Herdando de seus precursores revolucionários a resolução, a capacidade de sacrifício, a disposição de chegar até o fim, Lênin converteu-se, nos anos da juventude, no educador da nova geração dos intelectuais e dos operários avançados. Nas greves e nas lutas de rua, nas prisões e no exílio, os operários adquiririam a tempera necessária. A lanterna do marxismo ser-lhe-á necessária para iluminar na escuridão da autocracia seu caminho histórico.

II

Em 1883, nasceu na emigração o primeiro grupo marxista. Em 1898, numa Assembléia clandestina, proclamou-se  a criação do Partido Operarão Social-Democrata Russo. Naquela época, todos nos chamávamos social-democratas. Em 1903, teve lugar a cisão entre bolcheviques mencheviques. Em 1912, a fraçao bolchevique transformou-se, definitivamente em partido autonomo. Este partido ensinou a reconhecer a mecânica das classes sociais nas lutas, nos acontecimentos, grandiosos, durante 12 anos ( de 1905 a 1917 ). Educou quadros, militantes aptos, tanto para a iniciativa como para a obediência. A disciplina da ação revolucionaria  apoiava-se sobre a unidade da doutrina, as tradições de lutas comuns e a confiança numa direção provada. Tal era o partido em 1917. Enquanto que "a opinião publica" oficial e as toneladas de papel de imprensa não lhe concediam importância, o partido bolchevique orientava-se segundo o curso do momento de massas. A formidável alavanca, que esse partido manejava, firmemente, introduzia-se  nas fabricas e nos regimentos e as massas camponesas dirigiam cada vez mais e com mais insistência suas atenções para ele. Se  entende por nação  não as camadas privilegiadas e sim a maioria do povo, isto é, os operarias e os camponeses, há de se reconhecer que  o bolchevismo se transformou, no decorrer de 19l7, no único partido verdadeiramente nacional.]
Em setembro de 1917, Lenin obrigado a viver na clandestinidade deu o sinal: "A crise esta madura, aproxima-se a hora da insurreição". Estava certo. As classes dominantes caíram impotentes diante dos problemas da guerra, do campo e da libertação nacional. A burguesia perdeu definitivamente a cabeça. Os partidos democratas, os mencheviques e os socialistas-revolucionários dissiparam o ultimo resto da confiança das massas, sustentando a guerra imperialista por sua política de compromissos e de concessões aos proprietários burgueses e feudais. O exercito, abalado na sua consciência, negava-se a lutar pelos objetivos do imperialismo, que lhe eram estranhos. Sem atender as exortações "democráticas", os camponeses expulsaram os latifundiários de seus Domínios. A periferia nacional do império, oprimida, lançou-se contra a burocracia de Petrogrado. Nos  mais importantes  conselhos de operários e soldados os bolcheviques dominava. Operários e soldados exigiam fatos. O abscesso estava madura. Só faltava um corte de bisturi.
A insurreição só se tornou possível nessas  condições sociais e políticas. E assim aconteceu inelutavelmente. Não se pode brincar com a insurreição. Desgraçado do cirurgião que utiliza o bisturi com negligencia. A insurreição é uma arte: temas suas leis e as suas proprias regras.
O partido realizou a insurreição de outubro com um calculo firo  e uma resolução ardente. Graças a isto pode triunfar quase sem vitimas. Por meio dos sovietes vitoriosos, os  bolcheviques puseram-se ``a testa do pais, que abarca uma Sexta parte da superfície da terra. Suponho que a maioria dos meus ouvintes de hoje ainda não se ocupavam com a política em 1917. Tanto melhor. A jovem geração tem diante de si muitas coisas interessantes, mas não fáceis. Por outro lado, os representantes da velha geração, nesta sala, recordarão muito bem como se recebeu a tomada do poder pelos bolcheviques: como um equivoco, uma curiosidade, um escândalo, ou mais, uma pesadelo, que se desvaneceria ``a primeira claridade da alvorada. Os  bolcheviques mantiveram-se vinte e quatro hora, uma semana, um mês, um ano. Era preciso ampliar cada vez mais o prazo. Os amos do mundo armavam-se contra o primeiro Estado proletário: desencadeamento da guerra civil, novas e novas intervervenções, bloqueio. Assim passou um ano. Passou outro. E a historia já tem que contar quinze anos de existência do poder soviético. Sim, diria algum adversário: a aventura de outubro mostrou-se muito mais solido do que nos pensávamos. Quica não fosse de todo uma "aventura". E, não obstante, a questão conserva toda a sua força: que se ganhou a este preço tão elevado? Pode-se dizer que se realizaram as belezas anunciadas pelos bolcheviques antes da insurreição? Antes de responder ao suposto adversário, observemos que esta pergunta não e nova. Ao contrário, remonta aos primeiros passos da Revolução de Outubro, depois do nascimento da Republica dos Sovietes.
O jornalista francês Claude Anet, que estava em Petrogrado, durante a revolução, escrevia, a 27 de outubro de 1917: "Os maximalistas - assim então os franceses chamavam os bolcheviques - tomaram o poder e amanheceu o grande dia. Enfim, digo-me, vou ver como se realiza o ``Éden Socialista, que nos prometem ha tantos anos... Admirável aventura! Posição privilegiada!" etc. Que autentico ódio se ocultava por traz dessas saudações irônicas! No dia seguinte a ocupação do Palácio do Inverno, o jornalista francês julgava-se com  o direito de exigir um cartão de entrada no Paraíso. Quinze anos transcorreram desde a insurreição. Com uma falta de cerimônia ainda maior, os adversários manifestavam sua alegria maligna ao comprovar que, ainda hoje, o pais dos sovietes, se assemelha muito pouco ao reino do bem-estar geral. Por que, pois, a revolução? Por que as vitimas?
Queridos ouvintes: creio que conheço tanto as contradições, as dificuldade, as faltas e as insuficiências do regime soviético, como o que melhor as conhece. Pessoalmente, jamais trate de dissimula-las, nem por palavras nem por escrito. Sempre acreditei - e sigo acreditando -  que a política revolucionária - ao contrário da política conservador - não pode basear-se no engodo. "Exprimir o que é  - tal  deve ser o princípio essencial do Estado operário. Não obstante, é necessário Ter perspectiva, tanto na critica como  na atividade criadora. O subjetivismo é um péssimo conselheiro, sobretudo quando se trata de grandes questões. Os prazos devem estar em consonância com a magnanimidade das tarefas e não com os caprichos individuais. Quinze anos! Que significam para uma vida? Durante esses tempo, morreram muitos e de nossa geração e outros viram encanerr seus cabelos, e os mesmos quinze anos não representam mais que um período insignificante na vida de um povo. Um segundo no relógio da História!
O capitalismo precisou de séculos para afirmar-se na luta contra a Idade Media, para elevar a ciência e a técnica, para construir vias férreas, para estender fios elétricos. E depois? Depois lançou a humanidade no inferno das guerras e das crises. E ao socialismo, seus adversários, isto é, os partidários do capitalismo, n~~ao lhe concedem mais que quinze anos para instaurar sobre a terra  o paraíso com todo o conforto moderno. N~~ao. Nos não assumimos tal obrigação. N~~ao estabelecemos tais prazos. Deve-se medir os processos das grandes transformações com uma escala adequada. E n~~ao seis se a sociedade  socialista se assemelharia ao paraíso bíblico. Duvido muito. Mas, na União Soviética, ainda não existe o socialismo. Um estado de transição, coalhado de contradições, carregando pesada herança do passado, sofrendo a pressão inimiga dos Estados capitalistas - isto é o que ali predomina. A Revolução de Outubro proclamou o princípio da nova sociedade. A República dos Sovietes apenas mostrou a primeira etapa de sua realização. A primeira lâmpada de Edson foi muito imperfeita. Por traz das faltas e dos erros da primeira edificação socialista que se deve vislumbrar o futuro.]
E as calamidades que se abatem sobre os seres vivos? Os resultados da revolução justificam as vitimas que ela causou? Pergunta estéril e profundamente retórica! Como se o processo da história resultasse de um balanço contábil. Com tanto mais razão, ante as dificuldades e as penas da existência humana, poder-se-ia perguntar: para isto é que vale a pena viver? Heine escreveu a este propósito? "e o tonto espera contestação..." As meditações melancólicas não impediram  o homem de fecundar e nascer. Ainda nesta época, de um crise mundial sem precedentes, os suicídios constituem, felizmente, uma porcentagem muito baixa. Pois, os povos não tem o costume de buscar no suicídio um refúgio. Aliviam-se das cargas insuportáveis pela revolução. Por outro lado quem se indigna por causa das vitimas da revolução socialista? Quase sempre serão os mesmos que prepararam e glorificam as vitimas da guerra imperialista ou, pelo menos, os que se acomodaram facilmente ao conflito. Também nos poderíamos perguntar: Justifica-se a guerra? Que nos deu? Que nos ensinou?
Em seus onze volumes de difamação contra a grande revolução francesa, o historiador Hipolito Taine descreve, não sem sórdida alegria, os sofrimentos do povo francês, nos anos da ditadura jacobina e nos que a ela  se seguiram. Foram, sobretudo, penosos para as camada inferiores das cidades, os plebeus que, como sans-culottes deram a revolução o melhor de sua alma. Eles ou suas mulheres passavam noites frias nas filas para voltar no dia seguinte com as mãos vazias ao lar gelado. No decimo ano da revolução Paris era mais pobre que antes da insurreição. Dados cuidadosamente escolhidos e artificiosamente completados e servem a Taine para fundamentar seu veredictum destruidor contra revolução. "Olhai os plebeus, Queriam ser ditadores e caíram na miséria!" É difícil imaginar a um moralista mais hipócrita. Em primeiro lugar, se a revolução  lançou o pais na miséria, a culpa recairia antes de tudo sobre as classes dirigentes, que empurravam o povo a revolução. Em segundo lugar, a grande revolução francesa não se esgotou nas filas da fome, diante das padarias. Toda a França moderna e, sob certo aspectos, toda a civilização moderna emergiram do banho da revolução francesa.
No curso da guerra civil dos Estados Unidos, morreram 500 mil homens. Justificaram-se essas vitimas? Do ponto de vista do dono de escravos americano e das classes dominantes da Gra-Bretanha, não. Do ponto de vista do negro e do operário  britânico, completamente. E do ponto de vista do desenvolvimento da humanidade, no seu conjunto, não nos oferece a menor duvida. Da guerra civil do ano 60 saíram os Estados Unidos atuais, com a sua iniciativa pratica e veloz a técnica racionalizada, o auge econômico. Sobre esses conquistas do americanismo, a humanidade edificara a nova sociedade.
A revolução de Outubro penetrou mais profundamente que todas as precedentes no âmago da sociedade, nas relações de propriedade. Assim e que precisara prazos tanto mais amplos para que se manifestem as forças criadoras em todos os domínios da vida. Mas, a orientação geral é clara desde já: a República do Sovietes não tem por que abaixar a cabeça nem empregar a linguagem da desculpa diante dos seus acusadores capitalistas. Para apreciar o novo regime do ponto de vista do desenvolvimento humano, há que se focalizar, acima de tudo, esta questão: de que maneira se exterioriza o progresso social d como se pode medi-lo? O critério mais objetivo, mais profundo e mais indiscutível é: o progresso pode medir-se pelo crescimento da produtividade do trabalho social. A estimativa da Revolução de Outubro, sob este ângulo, experiência já deu. Pela primeira vez na história o princípio de organização socialista demonstrou sua capacidade, fornecendo resultados de produção jamais obtidos num curto período. Em cifras globais, a curva do desenvolvimento industrial da Rússia expressa-se desta forma: ponhamos para o ano de 1913, o último ano da anteguerra, o número 100. O ano 1920, fim da guerra civil, é o ponto mais baixo da indústria: 25 somente, isto é, um quarto da produção de antes da guerra. 1929, aproximadamente 200. 1932, 300, ou seja o triplo do que havia nas vésperas da guerra. O quadro aparecerá ainda mais claro à luz do índices internacionais. De 1925 a 1932, a produção industrial da Alemanha diminuiu aproximadamente vez e meia. Na América, aproximadamente, alcançou o dobro. Na União Soviética, subiu a mais do quádruplo. As cifras não podem ser mais eloqüentes.
De maneira nenhuma penso negar ou dissimular os dados sombrios da economia soviética. Os resultados dos índices industriais estão extraordinariamente influenciados pelo desenvolvimento desfavorável da economia agrária, quer dizer, do domínio onde ainda não entraram os métodos socialistas, mas foi arrastado ao mesmo tempo a via da coletivização, sem preparação suficiente, mais burocrática do que técnica e econômica. Esta é uma grande questão que não obstante, ultrapassa os limites da minha conferencia.
As cifras apresentadas requerem ainda uma reserva essencial: os êxitos indiscutíveis e brilhantes da industrialização soviética exigem uma verificação econômica ulterior do ponto de vista da harmonia recíproca dos diferentes elementos da economia, de seu equilíbrio dinâmico e, por conseguinte, de sua capacidade de rendimento. Aqui são inevitáveis grandes dificuldades e também retrocessos. O socialismo não surge em sua forma acabada do Plano Qüinqüenal como Minerva da cabeça de Júpiter ou Vênus da espuma do mar. Estamos diante de décadas de trabalho obstinado, de faltas, de correções e de reconstrução. Por outro lado não esqueçamos que a edificação socialista não pode alcançar o seu coroamento senão sobre o plano internacional. O balanço econômico mais desfavorável dos resultados obtidos até o presente não poderia revelar outra coisa que a inexatidão dos cálculos preliminares, as faltas do plano e os erros da direção. Mas, em nenhum caso, contradizer o fato estabelecido empiricamente, a possibilidade de elevar o trabalho coletivo a uma altura jamais conhecida, com a ajuda dos métodos socialistas. Esta conquista de uma importância histórica mundial ninguém nos poderá arrebatar.
Depois do que disse, quase não vale a pena perder tempo para contestar as lamentações, segundo as quais a Revolução de Outubro conduziu a Rússia ao ocaso da cultura. Tal é a voz das classes dominantes e dos salões inquietos. A "Cultura" aristocrático-burguesa, derrubada pela revolução proletária, não era mais que um complemento da barbárie. Tanto que foi inacessível ao povo russo que pouco aportou ao tesouro da humanidade. Mas, também, no que concerne a esta cultura tão chorada pela emigração branca, é precisar a questão: em que sentido foi destruída? Num só sentido: o monopólio de uma pequena minoria sobre os bens da cultura desapareceu. No que era realmente cultural permanece intacto. Os "hunos" bolcheviques não pisotearam nem as conquistas do pensamento nem as obras de arte. Pelo contrário, restauraram, cuidadosamente, os monumentos da criação humana e deram-lhes ordem exemplar. A cultura da monarquia,  da nobreza e da burguesia, converteu-se presentemente, na cultura dos museus históricos. O povo visita com fervor esses museus, mas neles não vive. Aprende, constrói. O fato de que a Revolução de Outubro ensinou ao povo russo, aos numerosos povos da Rússia tzarista, a ler e a escrever tem incomparavelmente mais importância do que toda a cultura em conserva da Rússia de outrora. A revolução russa criou a base de uma nova cultura, destinada não aos eleitos mas a todos. As massas do mundo inteiro sentem-no: daí a sua simpatia pela União Soviética tão ardente como era antes o seu ódio contra a Rússia tzarista.
Queridos ouvintes: vós sabeis que a linguagem humana representa um instrumento insubstituível, não somente porque designa as coisas e os fatos mas também porque os estima. Descartando o acidental, o episódico, o artificial, absorve o real, o característico, Notai com que sensibilidade as línguas das nações civilizadas distinguiram duas épocas no desenvolvimento da Rússia. A cultura aristocrática trouxe ao mundo barbarismos tais como tzar, cossaco, progrom, nagaia. Conheceis estas palavras e sabeis seu significado. Outubro aportou a todas as línguas do mundo palavras tais como bolchevique, sovietes, colcós, gosplan, piatlitka. Aqui a lingüística prática emite seu julgamento histórico.
A sua significação mais profunda - e que mais dificilmente se submeteu a uma nova prova imediata - revolução consiste em que toda revolução forma a tempera o caráter do povo. A imagem do povo russo como um povo lento, passivo, melancólico, místico, está há muito difundida, e isto não se deve a casualidade. Tem suas raízes no passado. Mas ainda não se levaram suficientemente, em consideração, no Ocidente, as modificações profundas que a Revolução de Outubro introduziu no caráter do povo russo. E podia esperar-se outra coisa? Todo homem que tem uma experiência da vida pode despertar em sua memória a imagem de um adolescente qualquer, dele conhecido, que - impressionável, lírico, sentimental, enfim - se transforma, mais tarde, de um só golpe, sob a ação de forte choque moral, num homem forte, bem temperado até o ponto de ficar completamente desconhecido. No desenvolvimento de toda uma nação, a revolução realiza transformações análogas. A insurreição de fevereiro contra a autocracia, a luta contra a nobreza, contra a guerra imperialista pela paz, pela terra, pela igualdade nacional, a insurreição de outubro, a derrubada da burguesia e dos partidos com tendências a sustentá-la, três anos de guerra civil sobre uma frente de 8.000 quilômetros, os anos de bloqueio, de miséria, de fome, de epidemias, os anos de tensa edificação econômica, as novas dificuldades e privações, tudo isto integra uma rude escola, porém boa. Um pesado martelo fará do vidro pó. Mas, em troca forja o aço. O martelo da revolução forja o aço do caráter do povo.
"Quem haveria de crer?" Já se devia crer. Pouco depois da insurreição, um dos generais tzaristas, Zaleski, se escandaliza de que "um porteiro ou um guarda se convertesse de pronto num presidente de tribunal; um enfermeiro, em diretor de hospital; um barbeiro, em personalidade importante; um sargento, em comandante supremo; um diarista em prefeito; um carpinteiro, em diretor de empresa".
"Quem haveria de crer?" Já se devia crer. Embora não se acreditasse, os sargentos já derrotavam os generais; o prefeito, antes diarista, rompia a resistência da velha burocracia; o carpinteiro, agora diretor, reconstruía a indústria. "Quem haveria de crer?" Que tratem agora de crer...
Para explicar a paciência que as massas populares da União Soviética demonstraram nos anos da revolução muitos observadores estrangeiros recorrem, já por hábito, a passividade do caráter russo. Grosseiro anacronismo! As massas revolucionárias suportam as privações pacientemente mas não passivamente. Elas constróem com suas próprias mãos um futuro melhor. E querem criá-lo a qualquer preço. Que o inimigo de classe trate somente de impor a essas massas pacientes sua vontade, de fora. Não, mas vale que não tente!
Para terminar, tratemos de fixar o lugar da Revolução de Outubro não somente na história da Rússia como também na história do mundo. Durante o ano de 1917, no intervalo de oito meses, duas curvas históricas convergem. A revolução de fevereiro -  este eco tardio das grandes lutas que se travaram nos séculos passados sobre o território dos Países Baixos, Inglaterra, França, quase toda a Europa continental - une-se a série de revoluções burguesas. A Revolução de Outubro proclama e abre a era da dominação do proletariado. É o capitalismo mundial que sofre sobre o território da Rússia a primeira grande derrota. A cadeia partiu-se pelo elo mais fraco. Mas foi a cadeia e não somente o elo que se quebrou.
O capitalismo como sistema mundial apenas sobrevive, historicamente, Terminou de cumprir sua missão: a elevação do nível de poder e da riqueza humana. A humanidade não pode estancar no degrau alcançado. Só um poderoso impulso das forças de produção e uma organização justa, planificada, em outras palavras, socialista de produção e de distribuição, pode assegurar aos homens - a todos os homens - o nível de vida digno de conferir-lhes, ao mesmo tempo, o sentimento inefável de liberdade em frente da sua própria economia. De liberdade em duas ordens de relações: primeiramente o homem não se verá obrigado a consagrar sua vida inteira ao trabalho físico; em segundo lugar, já não dependerá das leis do mercado, isto é, da forças cegas e obscuras que operam fora de sua vontade. O homem edificará, livremente, sua economia, quer dizer, ajustada a um plano, o compasso na mão. Trata-se agora de radiografar a anatomia da sociedade, de descobrir todos os seus segredos e submeter todas as suas funções a razão e a vontade do homem coletivo. Neste sentido, o socialismo gera uma nova etapa no crescimento histórico da humanidade. A nosso antepassado, armado pela primeira vez com um machado de pedra, toda a natureza se lhe apresenta como a conjuração de um poder misterioso e hostil. Mais tarde, as ciências naturais, em estreita colaboração com a tecnologia prática, iluminaram a natureza, até suas mais profundas entranhas. Por meio da energia elétrica, o físico elabora seu juízo sobre núcleo atômico. Não está longe a hora em que - como no jogo - a ciência resolverá a quimera da alquimia, transformando o esterco em ouro e o ouro em esterco. Lá, onde os demônios e as fúrias da natureza se desatavam, reina agora cada vez com mais a energia e a vontade do homem.
Mas, enquanto lutava furiosamente com a natureza, o homem criou as cegas relações com os demais, assim como as abelhas e as formigas. Com atraso e por demais indeciso, deparou com os problemas da sociedade humana. Começou pela religião para depois passar a política. A Reforma trouxe o primeiro êxito do individualismo e do nacionalismo burguês, no domínio onde imperava uma tradição morta. O pensamento crítico passou da igreja ao Estado. Nascida na luta contra o absolutismo e as condições medievais, a doutrina da soberania popular e dos direitos do homem e do cidadão ampliou-se e fortaleceu-se. Assim se formou o sistema do parlamentarismo. O pensamento crítico penetrou no domínio da administração do Estado. O racionalismo político da democracia significou a mais alta conquista da burguesia revolucionária.
Entre a natureza e Estado interpôs-se a economia. A técnica libertou o homem da tirania dos velhos elementos: a terra, a água, o fogo, o ar, para submetê-los em seguida a sua própria tirania. A atual crise mundial comprova de maneira particularmente trágica como este dominador altivo e audaz da natureza permanece escravo dos poderes cegos de sua própria economia. A tarefa histórica de nossa época consiste em substituir  o jogo anárquico do mercado por um plano nacional, e disciplinar as forças de produção, em obrigá-las a operar em harmonia, servindo docilmente as necessidades do homem. Somente sobre esta base social, o homem poderá repousar suas costas fatigadas. Não os eleitos, mas todos e todas, tornando-se cidadãos com plenos poderes do domínio do pensamento. Sem embargo, ainda não é esta a meta do caminho. Não. Isto não é mais que o princípio. O homem considera-se o coroamento da criação. Tem para isto, sim, certos direitos. Mas quem se atreve a afirmar que o homem atual seja o último representante, mais elevado da espécie homo sapiens ? Ninguém. Fisicamente como espiritualmente, está muito longe da perfeição este aborto biológico, do pensamento enfermo e que não criou nenhum novo equilíbrio orgânico.
A verdade é que a humanidade produziu mais uma vez gigantes do pensamento e da ação que superam os seus contemporâneos como picos numa cadeia de montanhas. O gênero humano tem perfeito direito de orgulhar-se dos seus Aristóteles, Shakespeare, Darwin, Beethoven, Goethe, Marx, Edison, Lênin. Mas estes homens são tão raros? Antes de tudo porque saíram, quase sem exceção, das classes médias e elevadas. Salvo raras exceções, os gênios perdem-se afogados nas entranhas oprimidas do povo, antes de Ter possibilidade de brotar. Mas, também, porque o processo de geração de desenvolvimento e de educação do homem permanece, em sua essência, como obra da sorte, não elaborado pela teoria, nem pela prática, não submetido a consciência e a vontade.
A antropologia, a biologia, a fisiologia, a psicologia reuniram verdadeiras montanhas de materiais para erigir ante o homem, em toda sua amplitude, as tarefas de seu próprio aperfeiçoamento corporal e espiritual e de seu desenvolvimento ulterior. Pela mão genial de Sigmund Freud, a psicanálise levantou a tampa do poço que, poeticamente, se chama a "alma" do homem. E que revelou? Nosso pensamento consciente não constitui mais que uma pequena parte do trabalho das obscuras forças psíquicas. Sábios descem aos fundos dos oceanos e fotografam a fauna misteriosa das águas. Para que o pensamento humano desça as profundezas de seu próprio oceano psíquico, deve iluminar as forças motrizes, misteriosas, da alma e submetê-las a razão e a vontade. Quando acabar as forças anárquicas de sua própria sociedade, o homem integrar-se-á nos laboratórios, nas retortas do químico. Pela primeira vez, a humanidade considerar-se-á a si mesma como matéria-prima e, no melhor dos caso, como semi-fabricação física e psíquica. O socialismo significará um salto do reino da necessidade ao reino da liberdade, no sentido de que o  homem de hoje, esmagado sob o peso de contradições e sem harmonia, abrirá o caminho a uma nova espécie mais feliz.

Fonte: http://www.marxists.org/portugues/trotsky/1932/11/27.htm