
quinta-feira, 5 de julho de 2018
O que é o Terremoto?

quarta-feira, 6 de abril de 2011
Fukushima: radioatividade 5 milhões de vezes superior ao limite

O nível de iodo radioativo nas águas marinhas próximas da central nuclear de Fukushima é cinco milhões de vezes superior ao limite legal, informou nesta terça-feira a concessionária da central, Tepco. Japão fixa limites de radioatividade para pescado e marisco. Esta decisão foi tomada depois da descoberta de níveis de radioatividade anormalmente elevados, nos últimos dias, em pequenas enguias pescadas ao largo da província de Ibaraki, a Sul de Fukushima e a Norte de Tóquio. O Japão já proibiu a venda de vários legumes e leite cru, produzidos nas quatro províncias perto da central de Fukushima 1.
Esquerda.net
Também segundo a Tepco, uma amostra recolhida segunda-feira revelou que o nível de césio-137 nas águas do mar próximas da central é 1,1 milhões de vezes superior ao limite legal.
Enquanto o iodo-131 tem uma vida média relativamente breve, de oito dias, o período de semi-desintegração do césio-137 é de 30 anos.
Dois dias antes, no sábado, a concentração de I-131 era ainda maior, 7,5 milhões de vezes superior ao limite legal.
Mas a própria Tepco anunciou segunda-feira que iria despejar toneladas de água radioativa no oceano.
Desde segunda-feira já foram despejadas mais de 3400 toneladas de água para o Pacífico de um total de 11.500 toneladas. Esta operação durará cerca de uma semana e pretende libertar tanques de armazenamento para guardar água ainda mais radioativa que tem se acumulado na central nuclear de Fukushima 1, especialmente no edifício do reator 2.
Um responsável do governo japonês pediu esta terça-feira desculpas pelo lançamento de milhares de toneladas de água radioativa para o oceano, uma medida de emergência “para tentar evitar o pior”.
Japão fixa limites de radioatividade para pescado e marisco
Entretanto o governo japonês definiu esta terça-feira limites de radioatividade para o pescado e marisco, para tentar tranquilizar a população, preocupada com os impactos da crise nuclear da central de Fukushima 1 na sua saúde. “Provisoriamente aplicámos os níveis definidos para os legumes” aos peixes e marisco, informou o porta-voz do Governo, Yukio Edano.
O limite para o iodo-131, que pode provocar maior incidência de cancros, foi fixado em 2000 becquerels por quilo. O limite para o césio-137 é de 500 becquerels. Acima destes valores, o peixe é considerado impróprio para consumo.
Esta decisão foi tomada depois da descoberta de níveis de radioatividade anormalmente elevados, nos últimos dias, em pequenas enguias pescadas ao largo da província de Ibaraki, a Sul de Fukushima e a Norte de Tóquio. Segundo a estação de televisão NHK, foi detectado césio em concentrações de 526 becquerels por quilo. Os outros peixes examinados não apresentavam níveis elevados, segundo as autoridades.
O Japão já proibiu a venda de vários legumes e leite cru, produzidos nas quatro províncias perto da central de Fukushima 1, devido aos níveis de radioatividade.
Japão: 11.500 toneladas de água radioativa no mar

A empresa que explora a central nuclear de Fukushima começou a lançar ao mar cerca 11.500 toneladas de água radioativa que se acumulou nas instalações danificadas. A concentração da radioatividade na água é cem vezes superior ao limite legal, o que foi considerado "relativamente baixo" pela Tokyo Eletric Power (Tepco). Diante das dificuldades, o governo japonês reconheceu que poderá demorar meses até que a situação na central nuclear seja controlada.
Esquerda.net
A Tokyo Electric Power (Tepco), que explora a central nuclear de Fukushima, começou a jogar no mar cerca de 11.500 toneladas de água radioativa que se acumulou nas instalações danificadas.
Um porta-voz da empresa reconheceu que os técnicos não tinham outra escolha, e que a concentração de radioatividade na água é cem vezes superior ao limite legal, o que considera relativamente baixo. A decisão foi tomada para permitir que os engenheiros possam reparar os circuitos de resfriamento dos reatores nucleares.
Por outro lado, os técnicos da Tepco planejam utilizar um polímero em pó para travar a fuga de água radioativa de um dos reatores para o Oceano Pacífico.
No sábado, a Tepco detectou uma fissura de cerca de 20 centímetros na parede de um poço perto de um dos reatores, onde está água com alta radioatividade (excede 10.000 vezes a concentração legal), que está vazando para o oceano.
Os técnicos tentaram cobrir a fissura, no sábado, com betão, mas a presença contínua de água impediu que o material se solidificasse.
Diante das dificuldades, o governo japonês já reconheceu que poderá demorar meses até que a situação na central nuclear seja controlada.
AIEA diz que medidas foram insuficientes
Yukuya Amano, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA) afirmou nesta segunda-feira que a empresa que gere a central de Fukushima, a Tepco, não tomou “as medidas suficientes para evitar o acidente”.
Amano recordou que outra central da Tepco em Kashiwazaki, noroeste do Japão, teve um acidente nuclear em 2007, um incêndio que deu origem à fuga de radioatividade e de água contaminada, depois de um terremoto de 6,8 graus. A central continuou, tal como a de Fukushima, a ter capacidade de suportar um terramoto de até 6,5 graus, muito inferior aos 9 graus medidos em 11 de Março.
Fonte: Agencia Carta Maior
quinta-feira, 31 de março de 2011
Hiroshima nunca mais! Fukushima nunca mais!
Por Carlos Walter Porto-Gonçalves
Durante anos cientistas e ativistas denunciaram os males do DDT, do agente laranja e outros subprodutos da indústria militar na “guerra contra as pragas”, enfim, na “luta pela dominação da natureza”, particularmente no mundo da agricultura e da pecuária.
O argumento de que esses cientistas e ativistas era contra o progresso foi brandido ao paroxismo por um bem sucedido lobby das corporações do complexo industrial-financeiro-midiático-militar, nova forma complexa da burguesia característica de um capitalismo cada vez mais complexo (Casanova, 2005).
Basta acessarmos o site da ABAG - Associação Brasileira de Agribusiness – em particular o link dos parceiros da ABAG e lá temos a composição desse novo bloco de poder que se reproduz no Brasil com especificidades de se juntar às velhas/atuais oligarquias latifundiárias. Pois bem, a vaca ficou louca, o frango e o porco gripados colocando em risco a saúde humana em nome desse complexo de poder que se nutre desse mito da “dominação da natureza”.
Ora, a idéia de dominação da natureza é em si mesma uma profecia que não se pode cumprir na própria medida em que dominar é fazer com que alguém ou qualquer outro ser faça não aquilo que quer ou que seja, mas aquilo que outrem quer que faça. Assim, sejam os povos, etnias, classes, gêneros ou a natureza na medida em que são dominados implica que estejam sendo submetidos não ao que são, mas aquilo que querem que sejam.
No mundo contemporâneo em que a ciência e seu subproduto a tecnologia são instrumentos da busca do aumento da produtividade tendo em vista a acumulação de capital, se produz um deslocamento da “promessa iluminista” de que a razão deveria substituir a religião em nome da emancipação humana. Essa “promessa” foi partilhada também por uma corrente hegemônica no seio do pensamento de esquerda que ignorou uma das mais importantes contribuições de Marx para a análise histórica, qual seja, de que não se pode dissociar nenhum fenômeno do seu contexto, em suma, da totalidade das relações sociais (e de poder).
Assim como disse que “o direito não tem história” posto que são os homens (e mulheres) na conformação de suas relações sociais e de poder que o conformam, o mesmo se dá com o mundo técnico-científico. Marx nos deu uma bela demonstração dessa tese com sua crítica à Malthus e sua “lei geral da população” onde a produção de alimentos aumentaria numa progressão aritmética e o crescimento da população numa progressão geométrica. Assim como não há lei de população que escape às formações sociais que as engendram não há lei histórica do desenvolvimento das forças produtivas fora das relações sociais e de poder.
A ciência e a tecnologia cada vez mais são capturadas pelo mundo dos negócios, pelo mundo do capital, o que Milton Santos chamou “meio técnico-científico-informacional” para caracterizar o espaço geográfico contemporâneo. Como bem salientara o geógrafo brasileiro um objeto técnico difere de um objeto natural por ser um objeto impregnado de intencionalidade, ou seja, busca ser um objeto per+feito no sentido de um objeto previamente feito para controlar os efeitos de suas ações.
Ocorre que o mundo não é passivo e mero objeto dos desejos dos que manejam esses objetos. O aquecimento global, por exemplo, é o efeito não desejado de uma matriz energética que tal como Prometeu quis acorrentar o fogo, mas olvidou das leis da entropia. Pensou que inventar o termostato era suficiente para que o motor devidamente programado numa variação máxima e mínima de temperatura fosse suficiente para não aquecer e, assim, dissipasse energia sob a forma de calor e deixasse de trabalhar. A natureza não tem termostato!
Enfim, o paradigma científico de matriz eurocêntrica está fundado num mito que está a serviço da acumulação de capital que é o contexto em que vem se desenvolvendo cada vez mais. Num mundo onde a riqueza se acredita mensurável quantitativamente (dinheiro) os números não têm limites e assim não haveria limites para intervenção no mundo (natural e social). A idéia de crescimento, subjacente à de desenvolvimento econômico embora sempre atenuado pelos seus defensores, mostra por todo lado seus limites. Esclareça-se, antes que algum gestor bem intencionado tente dizer quais são os limites, que limite é o cerne da política, arte de definir os limites e a democracia é quando todos dele participam.
Sabemos dos esforços, muitos bem intencionados, diga-se de passagem, dos que se dedicam à segurança das plantas das usinas nucleares, das plantas das refinarias e dos poços de petróleo, dos sistemas de navegação aérea todos sistemas de alta complexidade. Uma das características mais relevantes dos sistemas de alta complexidade é sua imprevisibilidade. Assim, caminhamos num paradoxo: quanto mais introduzimos uma nova variável, que bem pode ser uma nova informação sobre um acidente aéreo, num sistema complexo mais ele se aproxima da realidade que, por sua vez, é o mundo na sua imprevisibilidade.
Só uma crença acrítica na capacidade do sistema técnico controlar o mundo pode explicar o fato de um país como o Japão, situado no cinturão de fogo de contato de inúmeras placas tectônicas, tenha nada mais nada menos que 55 reatores nucleares como se isso fosse um detalhe. E olha que a palavra tsunami inventada pelos japoneses antes da era científica e tecnológica, foi simplesmente olvidada talvez porque as águas não pudessem ser tão facilmente controladas pela engenharia. Relembremos que as primeiras notícias dos terremotos e tsunamis que recém atingiram o Japão, veiculadas pelos interessados meios de comunicação procuravam nos tranqüilizar pela tradição arquitetônica dos japoneses de construir edifícios que balançam mais não caem. Até que tivéssemos que assistir ao trágico espetáculo de mortos ou de casas e edifícios completamente destruídos e alguns inteiros boiando nas águas. E, pior, de saber que reatores, como os de Fukushima foram danificados e tantas vidas estarão ameaçadas por décadas.
Basta de “vacas loucas”, de gripe do frango, de gripe suína, de DDT e agente laranja que matam! Basta de uma ciência sem consciência! Que o conhecimento deixe de ser a caixa preta protegida pelo sigilo comercial da propriedade privada! Que se ouçam outras matrizes de conhecimento que se forjaram com a natureza e não contra a ela, como a dos camponeses, dos povos originários e não se desperdicem essas experiências! Que o sofrimento dessas famílias nos ilumine nessa direção! Hiroshima e Fukushima nunca mais!
Carlos Walter Porto-Gonçalves é professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFF. Pesquisador do CNPq e do Clacso. Prêmio Casa de las Américas (Ensaio Hisórico-social) em 2008 e Medalha Chico Mendes em Ciência e Tecnologia 2004. É autor de vários livros e artigos publicados no Brasil e no exterior.
Fonte: Jornal Brasil de Fato
quarta-feira, 16 de março de 2011
Japão: sismo desencadeia alerta nuclear

Neste momento, os nossos primeiros pensamentos vão para as japonesas e para os japoneses, que acabam de sofrer o maior sismo desde Kobé, em 1995. E, entre eles, vão para os bombeiros que partiram de avião para a central nuclear. Estes «liquidatários» vão arriscar a vida para salvar o país e, mais ainda, limitar as consequências planetárias da explosão do reactor. A radioactividade dentro da central já atinge, a cada hora que passa, a quantidade anual admissível. Qualquer acidente adicional vai traduzir-se num crescimento dos riscos para os intervenientes.
É preciso ter uma coragem sem limites para intervir ali conhecendo as consequências. A experiência dos liquidatários de Tchernobil não pode ser esquecida. Aquelas e aqueles que nunca receberam informação sobre essa experiência devem, sem dúvida, ler o livro La Supplication, de Svetlana Alexievitch [1].
Se há pessoas que merecem, a título colectivo, um prémio Nobel da Paz, são realmente os liquidatários de Tchernobil — e agora os de Fukushima.
Do lado oposto ao destas mulheres e homens que vão sofrer neste combate, estão os que brincaram com o fogo nuclear. É a eles que devemos dirigir-nos agora para obter informações que nos permitam realmente escolher, democrática e cientificamente.
Porque o nuclear é uma tecnologia muito particular. Nunca foi confinado e os seus riscos prendem-se com dois tipos de acontecimentos. Em primeiro lugar, o risco ligado ao «acidente»: avaria, explosão e consequências de acontecimentos externos (tsunamis ou perigos terroristas, como o causado pelo avião que, a 11 de Setembro de 2001, devia ter-se despenhado sobre a central de Three Mile Island. A libertação na atmosfera de muitos materiais radioactivos vai provocar, desde logo, cancros e outras doenças — cujo acompanhamento não está, aliás, assegurado. Depois, há o risco das «doses reduzidas», porque as centrais e os outros elos da cadeia nuclear — em particular os transportes, os locais de armazenamento e de extracção de plutónio, como Haia — libertam regularmente elementos radioactivos que estão a seguir presentes nos rios, no mar, nas praias, nas florestas, etc.
Esta ausência de confinamento, que faz com que uma dispersão de produtos radioactivos afecte todo o planeta, diz respeito aos dois tipos de riscos. Tchernobil, apesar dos esforços dos alfandegários franceses, mostrou a extensão das zonas afectadas pelos acidentes. Mas há outras informações que sugerem que os elementos radioactivos circulam cada vez mais. Por exemplo, enquanto que antes de 1945 não existia plutónio na natureza, agora ele pode ser encontrado nos dentes de leite das crianças britânicas.
Quando alguns decidem desenvolver o sector nuclear, todo o planeta é, portanto, afectado. Mas estas decisões são tomadas de forma opaca, sem debate público, sem que se disponibilize uma real informação — contraditória e científica — às populações.
Faltam-nos, em particular, informações essenciais para a tomada de decisões. Todas as tecnologias têm riscos. A questão que se coloca nunca é a da segurança absoluta, mas a da relação entre o risco e os benefícios desejados. Ora, não dispomos de estudos relativos aos seguintes pontos essenciais.
• Qual é a rentabilidade económica do nuclear, considerando todo o tempo de vida do sector? Com efeito, o nuclear tem um tempo de vida muito superior ao tempo de funcionamento (rentabilidade de um ponto de vista económico imediato, a que demasiadas vezes se dá prioridade). Para medir o custo económico real, convém incluir nos modelos o acompanhamento dos resíduos até que os seus riscos se tornem insignificantes, ou seja, durante séculos. Há também o «desmantelamento» das centrais. A experiência de Brennilis, na Bretanha, mostra-nos que os custos reais (e os problemas técnicos surgidos) são muito superiores aos avaliados [2]. Por fim, deve ser feita a avaliação do custo dos acidentes, que como são assumidos por toda a sociedade nunca são incluídos nos cálculos de rentabilidade efectuados pelos agentes da fileira nuclear. Uma subparte desta questão seria conhecer de forma bem precisa o balanço energético global do sector. Que parte da energia produzida é realmente utilizável, uma vez subtraídas as perdas em linha (centrais evidentemente distanciadas dos locais de consumo), a energia dissipada na construção e depois no tratamento dos resíduos e, por fim, no desmantelamento. Sem falar de todo o tipo de custos em caso de acidente.
• Qual é o real impacto do nuclear na saúde, tanto em doses reduzidas [3] como, evidentemente, em situação de acidente? Neste quadro, não nos podemos limitar aos mortos imediatos (em Tchernobil foram uns trinta): é preciso contabilizar as consequências posteriores nas populações vizinhas e nos liquidadores. A morbilidade (doenças, mal-estar, problemas crónicos…) merece toda a nossa atenção. Os estudos relacionados com Tchernobil sempre minimizaram este aspecto [4]. E quando o médico bielorrusso Yury Bandazhevsky mostrou as consequências de Tchernobil nas crianças nascidas depois do acidente, o poder preferiu fechá-lo na prisão. As consequências no Japão, que dispõe de um excelente aparelho estatístico e de um acompanhamento médico particularmente eficaz e competente na área do nuclear — uma herança de Hiroxima e Nagasáqui — devem merecer toda a nossa atenção. Os doentes não podem continuar a ser descartados como vítimas de uma síndrome de paranóia atómica.
• Quais são as implicações do nuclear energético sobre a paz no mundo? É nas chamadas fileiras «civis» que têm origem os produtos utilizados pelas armas nucleares, tanto no caso dos materiais físseis de alta energia usados para a bomba como no caso dos chamados materiais «empobrecidos» usados para as armas penetrantes. A mesma origem «civil» têm os produtos usados nas «bombas sujas», utilizadas por agentes não-estatais. E não são as centrais nucleares pontos de fraqueza que podem ser explorados por atacantes? O exemplo japonês mostra que o acidente não está forçosamente ligado a causas «internas» às próprias centrais.
• Qual é o impacto social da indústria nuclear? Porque se tornou o emprego precário a norma numa indústria em que a força de trabalho que se compra, para intervir em zona contaminada, é a própria vida dos operários? O excelente romance La Centrale, de Elisabeth Filhol, é uma investigação junto destes precários do nuclear em França [5]… Basta imaginar qual será a situação em países onde a pobreza, e portanto a necessidade de vender o que se tem para alimentar a família, é mais forte. A que modelo de trabalho recorre o sector nuclear? E de que modelo de dessensibilização se cobrem os «assalariados»? Quem lida com trabalhadores do nuclear tem, evidentemente, histórias anedóticas para contar sobre a mistura de medo da radiação e de valentia que muitas vezes leva, em caso de exposição a doses excessivas, a que se acuse os detectores de radioactividade em vez de reconhecer as emissões.
Os entusiasmos das décadas entre 1930 e 1950, período em que reinou a ideia de uma energia «inesgotável», de alto rendimento e de baixo custo, podem ser compreendidos. Tratava-se de dominar o fogo, uma actividade que os homens adoram… Mas será possível que tudo fique igual depois de Tchernobil? Podemos persistir no mesmo? Porque o argumento da «segurança» reforçada nas centrais refere-se sobretudo a problemas internos, nomeadamente aos meios para enfrentar as más decisões humanas. Mas será possível oferecer garantias suficientes face aos actos externos de alta energia (sismo, tsunami, mas também tempestade, ataque terrorista dirigido, etc.)? É certo que, a partir do momento em que há um alerta sísmico, as centrais japonesas são colocadas em suspensão, mas esta é uma operação longa e que pode correr mal, como temos vindo a constatar nos últimos dias. Haveria uma «segurança» que pudesse ter estado à altura do acontecimento? À altura das consequências sociais e sanitárias do acidente?
É a este tipo de questões que a comunidade científica, mas também os cidadãos, a quem elas dizem respeito, devem dedicar a sua atenção. Para que a escolha de manter ou abandonar o nuclear se apoie em dados globais e coerentes, e não em pressupostos, sejam eles ideológicos (a mistificação do progresso e do controlo humano dos acontecimentos) ou mais especificamente ligados a interesses económicos. Os poderes públicos podiam dedicar os seus esforços a estas reflexões abertas, em vez de servirem de representantes comerciais internacionais aos transnacionais do sector.
Acrescentemos um último ponto sobre a informação relativa ao nuclear. Estamos agora perante um estudo de caso. O que nos dizem os jornalistas é fiável? Quais são as suas fontes? Seguir, hora após hora, os fios das informações, das negações, dos desmentidos, das confirmações e dos erros de informação difundidos desde que o sismo ocorreu mostra os limites de uma informação planetária quando estão em jogo questões económicas, mas também políticas, militares e ideológicas.
É verdade que o papel da comunicação social não é fazer com que as populações entrem em pânico. Muitas vezes o pânico provoca catástrofes ainda maiores. Mas à distância também será assim? Teremos de fazer o luto de uma informação apoiada nos factos em benefício de uma «informação de guerra», isto é, orientada pelas necessidades de segurança dos poderes públicos? Por fim, será que se deve tomar as populações por ignorantes e acreditar que ninguém consegue perceber a preocupação que está por detrás da agitação? E, neste caso, a ausência de transparência não será ainda mais preocupante?
Os acidentes são momentos muito sensíveis durante os quais é preciso calar e agir (o perigo está ali, é preciso enfrentá-lo) e preparar o amanhã, retirar lições e prever consequências. Infelizmente, uma vez passada a emoção, as questões tendem a ser postas de lado pela rotina, pelos compromissos, pela ausência de reflexão global e, sobretudo, pela imunidade de que gozam os agentes dos sectores que criam os acidentes (e não apenas o nuclear…). No fim de contas, se ainda há pessoas vivas para continuar a informar, é certamente porque o perigo foi «vencido»…
Ulrich Bek, no livro premonitório La Société du risque (escrito antes de Tchernobil e publicado na semana seguinte, com um prefácio escrito a quente [6]), explicava que depois de o risco se ter concretizado, as sociedades, para continuarem a existir, tinham como principal obsessão simplesmente negá-lo. Até à sua próxima ocorrência?
Texto de Hervé Le Crosnier
Foto de Dalaiama Street Art
quarta-feira 16 de Março de 2011
Notas
[1] Ver Dominique Chouchan, «Les survivants de Tchernobyl», Le Monde diplomatique, Abril de 1999.
[2] Ler «Brennilis: 25 ans de centrale. Il est plus facile de construire une centrale nucléaire que de la démanteler», Le Canard enchaîné, 28 de Julho de 2010; Angélie Baral, «Nucléaire pas cher: la fin du rêve», Urbiz.fr, 25 de Agosto de 2010.
[3] Ver Jean-François Viel, La Santé publique atomisée. Radioactivité et leucémie, Les leçons de la Hague, La Découverte, 1998.
[4] Para um balanço actualizado da catástrofe, ler Alison Katz, «Os dossiês enterrados de Tchernobil», Le Monde diplomatique — edição portuguesa, Dezembro de 2010.
[5] Elisabeth Filhol, La Centrale, POL, Paris, 2010.
[6] Traduzido em francês em 2001, Flammarion, Paris.
Retirado de: http://pt.mondediplo.com/spip.php?article797
Fonte: http://pimentanegra.blogspot.com/2011/03/japao-sismo-desencadeia-alerta-nuclear.html
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Terremoto no Chile. Uma análise de conjuntura necessária

Escrito por FR-IC Chile
Companheiros (as), a primeira coisa que devemos dizer –mesmo que seja muito repetitivo- é que o terremoto veio simplesmente aguçar a situação de crise econômica pela qual atravessa nosso país, imerso na crise econômica mundial. Hoje a crise econômica está sendo enfrentada na Europa com grandes mobilizações, como as greves da classe operária grega; mas também os mais de seis milhões de desempregados no Estado Espanhol são expressão da crise.
Por outro lado, devemos ser claros, o mercado norte-americano não tem ainda uma clara reativação e a locomotiva chinesa movimenta-se mais lentamente do que o desejo de todos; enquanto muitos investidores continuam especulando com os preços das comoditties, economistas como Stiglitz e Krugman temem que sejam simples bolhas; e que, se estas explodirem, a crise vai piorar…
…e queiramos ou não… neste frágil palco se movimentam todos os países da América Latina, e o Chile não é a exceção.
No Chile…
No Chile, o terremoto evidenciou a situação de pobreza em que vivem milhões de trabalhadores, e que estamos longe de ser um país desenvolvido (brilhante membro da OCDE), e que também estamos imersos na crise, mesmo que muitos a queiram ocultar. Não é por acaso que um general de exército lembrou: “… simplesmente somos um país subdesenvolvido, terceiro-mundista, alguém tem alguma dúvida…?”
Aquela afirmação, a do subdesenvolvimento, percorre toda a coluna vertebral do Estado, e não só o mundo social. Inicia-se no “Governo” e termina nos serviços públicos, um governo completamente ineficiente, e que a única coisa que sabe fazer bem é reprimir. É a tarefa que melhor cumpriu, durante a Concertação [1], e agora com o governo de Piñera [2]; no resto, demonstraram ser completamente inoperantes.
O Chile, país com submarinos nucleares, com F-16, com tanques Leopard… mas sem telefones via satélite (ou seja, se realmente houvesse guerra, tudo aquilo não serviria para nada); país onde o fornecimento de energia é cortado e ficamos completamente sem comunicação à noite por longas horas; somos claramente um “país de papelão”.
… e das desigualdades
Este é nosso o Chile, o Chile onde os ricos, os que tudo têm não perderam nada; mas no qual os trabalhadores, os que tudo produzem, perderam tudo ou quase tudo e em muitos casos ficaram na rua e sem trabalho. É preciso ser claro, a zona afetada pelo terremoto é a de maior desemprego do país, junto com Araucanía e Maule (suas regiões vizinhas e igualmente atingidas). Aqui o desemprego é maior que 10% da população ativa. Ou seja, ali os problemas serão mantidos e intensificados ainda mais pela catástrofe, portanto é altamente provável que as mobilizações também se mantenham e se agucem, pois as possibilidades de uma melhora imediata são impossíveis sob este sistema econômico e sob este governo de Piñera de “Unidade Nacional”.
A crise nas alturas…
A situação política nacional, também foi remexida pelo sismo, não é a mesma que antes do terremoto. Este provocou uma evidente “crises nas alturas” tanto no dia 27 como no domingo, 28 de fevereiro, quando nos demos conta que neste país: ninguém mandava.
A confusão foi total, e à ineficácia do governo Bachelet somou-se um governo entrante, o de Piñera completamente ausente; com ministros que não estavam no local, sem governadores e Seremis (Secretários Regionais Ministeriais) nomeados e só com alguns intendentes. A ineficiência do governo entrante ficou em evidência quando a zona afetada não recebeu a ajuda que necessitava; e foi ante esta situação que os trabalhadores de Concepción, Talcahuano, Lota, Coronel e outras localidades, organizaram-se para buscar o básico nos supermercados: alimentos (muitos trabalhadores não receberam seu salário de fevereiro – de fato, muitos ainda não o recebem - e o corte da energia provocou a perda dos alimentos refrigerados, além da falta de água potável). A imprensa burguesa, de fato quase não há outra no Chile, demonizou os fatos falando de saques e que todos eram delinquentes, uma falsidade que caía em pedaços, pois na verdade eram trabalhadores na sua grande maioria organizados, buscando as coisas básicas para sobreviver.
A militarização… da região (e também de todo o país?)
Com o passar dos dias, o governo que sai (Bachelet) e o entrante (Piñera) concordaram em militarizar a zona afetada e para isso foi declarado Estado de exceção constitucional, o Estado de Catástrofe; isto permitiu a presença militar em Concepción, Talcahuano e outras cidades próximas e certamente a implementação do toque de recolher. Militares que tiveram só uma missão - resguardar a propriedade privada e os interesses dos empresários.
Ante esta situação, o impressionismo político apoderou-se de alguns setores de esquerda, que começaram a afirmar - equivocadamente em nosso entendimento - que mal Piñera assumisse, iria decretar Estado de Catástrofe em todo o país, e, portanto, com esse pretexto, iria militarizar todo o território, podendo decretar toques de recolher em todas as cidades.
Nós, do FR-IC, dissemos que isso não estava formulado, que no Chile não se abria uma situação reacionária, muito menos contrarrevolucionária, como afirmaram alguns; mas muito pelo contrário a situação da luta de classes se aguçou e a mostra disso foi a reação dos trabalhadores com sua auto-organização; que este aguçamento é pela esquerda, mesmo que sem direção. E que isto ficou demonstrado na proliferação espontânea de organismos comunitários e de classe que se formaram por fora dos sindicatos, como uma clara demonstração de organização e luta, ante a ausência de uma direção política revolucionária e classista; demonstrou-se na criação de inumeráveis “cordões de ajuda”, e nos trabalhos voluntários, que muitos sindicatos estão levando a cabo.
Mas devemos nos perguntar: Piñera gostaria de governar com os militares nas ruas? A resposta é sim. Mas é a mesma resposta que daríamos para a Concertação; o problema é que esta tinha o telhado de vidro, era mais frágil, de uma ou outra forma a Concertação não podia, por seu “prestígio” antiditatorial, aparecer chamando os militares (até que finalmente o fez). Devemos lembrar que a Concertação, cada vez que pôde, mandou milhares de carabineiros às ruas para reprimir. Então voltamos à pergunta, mas de outra forma: e por que Piñera não enviou todos os carabineiros e militares às ruas? Há duas razões que se combinam para que não possa fazê-lo. Uma é o ânimo do conjunto das massas que não o veriam com bons olhos, e diriam - Voltou a Ditadura! - e esta situação não está colocada.
Outra razão importante é que o governo Piñera não tem a quantidade suficiente de militares e carabineiros para fazê-lo; de fato, na VI Região houve outro sismo com características de terremoto, em 11 de março, e de imediato foi declarado Estado de Catástrofe para a região, mas… se abstiveram de estabelecer toque de recolher. Na sexta-feira pudemos constatar que em Rancagua, capital da VI Região, simplesmente não havia um só carabineiro ou militar nas ruas. Entre as 20 h e as 24 h simplesmente não havia Forças Armadas nas ruas.
Transferindo perto de seis mil efetivos militares a uma zona que só contava com 600 e que tem uma população perto de um milhão de habitantes. A burguesia e seus governos de turno sabem que a “modernização das Forças Armadas” significou reduzir suas forças, estão conscientes disso e, portanto, não é tão simples decretar Toques de recolher onde eles quiserem. Ainda assim, devemos estar atentos aos eventos, e às mobilizações; pois não há dúvida de que o governo Piñera tentará reprimir com todas suas forças, e também devemos dizer que suas forças não são muitas e ele sabe disso. Por isto é que tiveram, mais do que nunca, que proclamar o Governo de Unidade Nacional, pois de outra forma os trabalhadores podem passar por cima deles.
…a Unidade Nacional
Desde antes de chegar ao governo, Piñera chamava um governo de Unidade Nacional; pois sabe de sua debilidade, e sabe que precisa do apoio de “todos” para poder governar. O que ficou claro quando nomeou Jaime Ravinet, militante da Democracia Cristã (partido da coligação Concertação pela Democracia), ministro da Defesa. Mas agora o sismo “caiu como uma luva”, pois desde o governo anterior escutavam-se vozes dizendo que: “Todos devemos trabalhar juntos pela reconstrução do país”. Foi eloquente o abraço entre Piñera e Bachelet durante o Teletom [3], onde ambos pareciam emocionados e a ponto de quase chorar.
Esta Unidade Nacional explica porque Piñera deixou muitos ex-funcionários do Governo de Bachelet nos seus postos de Seremis; estes são postos de confiança e de caráter eminentemente políticos.
Desta “Unidade Nacional” não escapou nem o PC, que defendeu o desenvolvimento de uma oposição construtiva e fiscalizadora; nem a direção da CUT (PC-PS), que fez um pacto com o empresariado representado na SOFOFA (Sociedade de Fomento Fabril); nem a FECH, a Federação de Estudantes da Universidade do Chile, dirigida pela juventude do PC, que na sua campanha de coleta de alimentos simplesmente optou por entregá-los ao… governo.
Em vez de realizar uma aliança entre a FECH, a CUT e/ou a CGT para a entrega dos alimentos, todos estes dirigentes preferem chamar a unidade política para a reconstrução, dando um voto de confiança ao governo patronal e assim bloquear o avanço na consciência dos trabalhadores e do povo.
Que o caminho a seguir é o que têm feito de forma independente e classista o SITECO com o sindicato Agrosuper; isto é, confiar nas forças dos próprios trabalhadores e organizar-se para levar a ajuda às zonas sinistradas; aí se deve colocar todo o empenho. Por isso propomos:
De imediato:
1. Não à militarização das zonas afetadas. Fora os militares das ruas. Abaixo o Toque de recolher. Fim às restrições das liberdades individuais.
2. Ante a ineficiência do Governo; auto-organização dos trabalhadores.
3. Por uma corrente sindical classista que lidere a ajuda aos afetados. Seguir o exemplo do SITECO. Que os dirigentes honestos e de base da CUT levantem estas bandeiras de luta; ante a nula atuação da burocracia que dirige a CUT, três semanas depois da catástrofe.
4. Plano de emergência já, com soluções dignas, com moradias dignas.
5. Trabalho para todos os desempregados, com um plano de reconstrução de moradias, estradas, hospitais, escolas com amplo financiamento do Estado e sob o controle dos trabalhadores; isto é possível e demonstrado pela imensa quantidade de trabalhadores que de forma voluntária acodem em ajuda aos danificados e se auto-organizam em grupos de trabalho.
6. Como se financia tudo isto? Com um imposto de 50% sobre as grandes empresas; com a estatização dos bancos, que no ano passado tiveram lucros de 640 bilhões de pesos, quando no Teletom foi conseguido perto de 50 bilhões em “ajuda empresarial”; e renacionalizando e estatizando a mineração do cobre e todos os recursos naturais.
7. Perdão já de todas as dívidas hipotecárias! Prisão para os inescrupulosos que construíram moradias que caem e racham. No bairro alto, nenhuma caiu, nenhuma rachou.
8. Desmascarar este governo de Unidade Nacional, que só serve aos patrões.
No médio prazo:
1. Fortalecimento dos organismos sindicais e populares e de todos aqueles que se auto-organizaram ante a catástrofe; unindo laços entre estes. Seguir o exemplo do SITECO e do AGROSUPER da sexta região.
2. Fortalecimento das coordenações sindicais, populares, estudantis ou outras; que já existem, como a Assembléia da mulher.
3. Devemos realizar de conjunto, tanto trabalhadores como organismos populares, uma campanha contra a política econômica neoliberal, denunciando as compras de armamentos; denunciando a falta de construções de moradias de qualidade e de estabelecimentos educacionais e de hospitais, e que, além disso, por décadas foram postergados.
4. Todos os que nos organizamos devemos realizar uma campanha explicativa ante os trabalhadores e o povo do Chile, que nosso país conta com os recursos necessários para sua reconstrução e que devemos deter o “saque” que as transnacionais fazem de nossas riquezas naturais.
5. Todos os que nos organizamos devemos explicar àqueles trabalhadores confundidos pelas imagens de televisão que na atual crise social existem “setores lumpens” que inclusive atacaram os próprios trabalhadores e, embora minoritários, não são mais que a expressão desta “barbárie capitalista”; que são a expressão social de um sistema em decadência que inculcou o individualismo e o consumismo acima dos valores da solidariedade entre a classe trabalhadora.
Por último não podemos deixar de explicar que a única solução aos nossos problemas é o Socialismo e que isto significa: trabalhadores no poder, sem nenhum tipo de burocratas, nem políticos, nem sindicais.
NT:
[1] A coligação de partidos que levou Michele Bachelet ao governo.
[2] O novo governo de Piñeras, vencedor na última eleição presidencial.
[3] Campanha periódica de solidariedade, que se realiza para associações beneficentes, e que esta vez foi em ajuda dos danificados pelo terremoto.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Terremoto no Chile expõe a perversidade da lógica do capital



Escrito por Marcelo Luis B. SantosSábado, 27 de fevereiro de 2010, 3 horas e 37 minutos da madrugada, litoral central do Chile. Parou de tremer. Depois de quase 3 minutos agachado ao pé da porta com minha mulher, cremos que o pior passou e estamos bem. Passado o susto inicial, começam as réplicas (novos tremores ao longo dos dias seguintes que correspondem ao acomodamento das placas tectônicas), mais ou menos fortes, segundo a regra, menos fortes que o tremor inicial. Era um terremoto cujo epicentro apontou 8,8 pontos na escala Richter. O epicentro, para nossa sorte, foi a cerca de 500 km da casa onde estava. Dormimos ao ar livre, admirando a lua quase cheia se pondo no mar, uma beleza natural que contrastava com a catástrofe em curso e o medo de que um tsunami escalasse a altura da casa em que estávamos, a dois quarteirões do mar encosta acima.
Catástrofes naturais podem ser lidas como grandes crises, apenas com a graça que são provocadas por forças alheias à ação direta do homem – ou ao menos assim fomos ensinados a percebê-las no ocidente. Aparte do lado trágico que todos acompanham, pessoalmente ou mediado pela televisão e demais meios de comunicação, levando muita gente a empatizar coletivamente com o sofrimento de seus semelhantes, mais ou menos próximos – depende da distância tanto quanto do conceito de próximo –, as catástrofes têm um importante lado revelador, como qualquer crise.
Em situações limítrofes, somos convidados a enfrentar o lado mais transparente das pessoas ao nosso redor, que abarca desde a solidariedade até o vandalismo, da tranqüilidade ao desespero, das formas mais desprendidas de coletividade e organização altruísta para os eventos mais macabros marcados por inaceitável egoísmo. Assim descobrimos facetas encobertas de gente que conhecemos há anos, como colegas de trabalho, amigos, parentes e até mesmo cônjuges. Mas também é a oportunidade de conhecer a reação imediata e desprovida de marketing ou de preparação das grandes corporações e organizações da sociedade, em particular e principalmente o governo de um país.
No entanto, na conjuntura atual, na maior parte das sociedades no Ocidente, os serviços e bens fundamentais para a cidadania – moradia, luz, água, alimentação, telecomunicações, saúde, transporte – não estão nas mãos dos governos, e sim subjugados à perversa lógica das concessionárias privadas. Digo ¨perversa¨ porque, ainda que sob uma (suposta) regulação do governo, as tais concessionárias têm por objeto o lucro, não o bem estar social. Em estado de paz, os dilemas e problemas não ficam tão evidentes, mas, quando há crise - por exemplo, uma crise econômica como a recente –, algumas das contradições desta ¨solução¨ contemporânea à gestão dos bens e serviços públicos rapidamente vêm à tona.
Mas não estou falando aqui de uma crise econômica ou outra com estas proporções menores. Estou falando de uma catástrofe natural: o segundo maior terremoto da história chilena (ao menos da história da história) teve repercussões até mesmo em cidades tão distantes quanto São Paulo e Buenos Aires. Para efeito de comparação, nos respectivos epicentros, o terremoto recente de 8.8 graus supera de longe a intensidade de tremor do também recente terremoto do Haiti, de ¨apenas¨ 7.0 graus.
Do radinho de pilha, já com o sol quente, dois depoimentos marcaram a jornada jornalística após o tremendo movimento sísmico: da presidente em mando e do presidente eleito. Era de se esperar: ambos representam visões de mundo altamente antagônicas, partidos com posições políticas diametralmente opostas. Enquanto Bachelet é símbolo da resistência à ditadura e do projeto socialista chileno, sufocado por Pinochet e sua maldita herança, Piñera é um dos maiores expoentes do seleto grupo conivente com a ditadura e que se aproveitou da liberalização da economia para fazer fortuna – no lugar certo, na hora certa, mas também com os amigos certos e com a disposição política conivente. Para complicar mais ainda a situação, a troca de mando está prevista para 11 de março, apenas 13 dias após a tragédia, o que fazia mais determinante e dramática a coordenação entre ambas as lideranças e respectivas equipes. Daí tanta expectativa.
Sem luz, sem água, sem telefonia celular, mas com o radinho de pilha de meu sogro, pudemos ouvir o pronunciamento inicial de ambos, suficiente para forjar a perspectiva do desenrolar das ações e, em particular, da tônica do governo que vem por aí. Piñera dirigiu-se a um encontro com os governantes para colocar sua equipe à disposição dos mesmos, mas, mais que isso, discursou como ¨representante da iniciativa privada¨, afirmando assertivamente que o papel da iniciativa privada na reconstrução do país era fundamental – tônica que nos dias seguintes se repetiu continuamente.
Já Bachelet, serena, chegou em seu automóvel pessoal ao palácio La Moneda, sem segurança, sem escolta, definitivamente com o sentido de urgência que a situação demandava. No entanto, em seu discurso, revelou a cara do Estado chileno que os ¨socialistas¨ da centro-esquerda chilena não conseguiram – ou não quiseram – mudar nesses 20 anos de governo: pediu, usando a expressão ¨por favor¨, que as concessionárias se esmerassem em restabelecer os serviços básicos, em particular luz, água e telecomunicações. Pediu... faltou rogar.
Aos poucos, foi se revelando que, além disto, também estavam deterioradas vias de acesso, estradas e aeroportos, portos, escolas, hospitais. De favor em favor, a verdade ficou clara: Piñera tinha a mais completa razão quando ressaltava o papel fundamental da iniciativa privada na situação de catástrofe. E mais: ele insistia – e segue insistindo – em usar um fundo de emergência para estado de calamidade nacional que consiste em 2% do orçamento do Estado para cobrir os gastos. Afinal de contas, segundo a lógica da concessão de serviços, o estado é um cliente, portanto, seu papel é pagar, contratar, e não cobrar, quanto menos fazer com as próprias mãos.
O quadro final é que o país se denuncia nas entrelinhas refém hecho y derecho de empresas privadas que, mesmo em estado de catástrofe, permanecem firmes com seus discursos marketeiros, sempre defendendo o valor da marca de sua empresa. E o discurso se repete, independente do campo de atuação: energia, água, celular, telefonia fixa, internet, gás, sistema viário, transporte aéreo, marítimo e terrestre, construção civil, até mesmo sistema penitenciário, entoam em uníssono, enquanto o governo pede reiteradamente empenho, como quem estivesse pedindo algo fora de seu direito ou, mais adequado à lógica capitalista, como quem pede esmola.
Ao cabo de alguns dias, Bachelet decretou oficialmente estado de catástrofe, só que regional, em duas regiões ao sul do país: VII (Maule) e VIII (Bío Bío, onde há maior concentração de mortos até o momento), de forma que não abre o cofre dos 2% por enquanto. Isso significa, na figura jurídica do decreto, que o governador da região (intendente) tem grande autonomia e que, entre outras coisas, os direitos constitucionais podem ser violados em função do critério que ele determinar em prol de resolver a situação de exceção. Entre estes direitos que podem ser violados estão o de se reunir em grupos, o livre trânsito, a liberdade de expressão, mas está, por outro lado, o direito à propriedade privada, permitindo a apropriação, pelas forças legais coordenadas pelo intendente, de víveres, hospitais e outros imóveis, veículos e qualquer outra propriedade privada com o propósito de melhor servir à população. Resta agora torcer para que estas lideranças tenham melhor critério do que demonstraram na primeira noite em que, somente na cidade de Concepción, prenderam 55 pessoas por ¨desrespeitarem o toque de recolher¨ e mataram a um cidadão. Ainda não se sabe a justificativa, se é que há justificativa para tal ação.
A reflexão aqui não serve para o Chile no curto prazo, pois o governante que se assoma já deu o tom em recentes declarações: continuará privatizando o cobre chileno, uma das poucas áreas que ainda tem uma presença relevante do Estado, e obedecerá cabalmente às orientações do FMI e Banco Mundial, além de ser o único presidente latino-americano que não demonstrou entusiasmo com a nova organização dos estados ao sul do Rio Bravo. Pelo contrário, reiterou seu apoio – provavelmente sua subordinação – à OEA, exaltando qualidades fictícias desta organização.
Nosso Brasil, por sorte, não está sujeito, a princípio, a terremotos, furacões, maremotos. Nossas desgraças são sobretudo obra do homem, o que não impede que as chuvas, secas e outras intempéries tropicais derivem em catástrofes que podem eventualmente chegar às proporções do duro golpe que o território chileno sofreu no último sábado, inclusive por omissão em precaver-se destas. Quem sabe a desgraça de outros possa servir de lição e alerta para conscientizar a cidadania e o Estado do papel fundamental que têm determinados serviços que não podem, sob hipótese alguma, seguir a lógica do mercado e do lucro, e sim a do bem estar social. É imperativo que o povo, representado pelos governantes eleitos e não por meia dúzia de empresários, recupere as rédeas de seu Estado, inferindo sobre seu destino e seus recursos, em vez de ficar à mercê daqueles que te tratam de cliente e não de cidadão.
Marcelo Luis B. Santos, jornalista, reside atualmente no Chile.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Terremoto é desastre natural, mas a pobreza extrema, não!

Por Eduardo Sales de Lima e Igor Ojeda
Quase em uníssono, os meios decretaram: os efeitos do terremoto de 7 graus na escala Richter ocorrido no dia 12 no Haiti são ainda mais graves devido à extrema pobreza em que vive a população do país, o de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do hemisfério ocidental. A análise um tanto óbvia não é incorreta, mas a imprensa em geral “esqueceu-se” de explicar o porquê de tanta miséria, praticamente naturalizando o subdesenvolvimento acentuado do Haiti.
“É preciso que se diga que se, de fato, as causas da tragédia são naturais, nem todos os efeitos o são”, opina Aderson Bussinger Carvalho, advogado e ex-conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que visitou o país em julho de 2007. “É preciso saber que indústrias exploram a mão-de-obra barata haitiana, cujos produtos são exportados para o mercado dos EUA, assegurando imensos lucros que não se revertem em favor do povo. As casas construídas somente com areia, a ausência de hospitais, a falta de luz e água... tudo isso vem de antes do terremoto”, afirma.
Pobreza extrema
Atualmente, 80% dos haitianos vivem abaixo da linha de pobreza, sendo que 54% se encontram na extrema pobreza. A mortalidade infantil é de cerca de 60 mortes para cada mil nascimentos (no Brasil, a proporção está em torno de 22 para mil), a expectativa de vida é de 60 anos e o analfabetismo atinge 47,1% da população.
Além disso, o país sofre com a falta de infra-estrutura e indústria nacional. As estradas são bastante precárias, assim como as áreas de energia, telecomunicações e transporte. Dois terços dos haitianos dependem da agropecuária para sobreviver, enquanto apenas 9% trabalham em fábricas, em sua maioria nas chamadas maquiladoras, unidades especializadas em produção de manufaturados para exportação que se utilizam de mão-de-obra barata. “Durante o ano de 2009, percorremos todo o Haiti. Nossa brigada percorreu dez departamentos e conhecemos a situação de pobreza em que vive a imensa maioria da sociedade haitiana”, relata José Luis Patrola, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Brigada Internacionalista Dessalines da Via Campesina, que atua com as organizações camponesas do país.
Triste e estranha realidade para uma nação que foi a segunda das Américas a se tornar independente (da França) e a primeira a abolir a escravidão, em 1804. Ou seja, que tinha tudo para oferecer uma vida digna para seus habitantes.
Construção histórica
“A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária, produto da incessante intervenção colonialista e imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o Haiti a primeira e única nação negreira onde os trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a liberdade. Isso após derrotar expedições militares francesa, inglesa e espanhola”, explica Mário Maestri, historiador e professor do Programa de Pós Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul.
Segundo ele, a partir de então, o Haiti passou a ser temido pelos EUA, pois poderia servir como exemplo aos escravos estadunidenses. Assim, o país passou a “ser objeto de bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas nações metropolitanas e americanas independentes. Já em 1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agressão militar, pesadíssima indenização à França. Conheceu nas décadas seguintes intervenções militares dos EUA, que, mesmo após a desocupação, em 1934, transformaram o país em semi-colônia, sobretudo através das sinistras ditaduras dos Duvaliers, Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986]”.
De acordo com Osvaldo Coggiola, professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), o Haiti não é uma exceção na região em que se encontra, mas um caso extremo da dominação imposta pelos países centrais do capitalismo. Assim, para ele, “atribuir seus males à incapacidade da sua população, descendente de escravos forçados a trabalhar na ilha pelos colonialistas franceses, é um conceito abertamente racista. A classe dominante, ela sim, é corrupta até a medula. Se chegar ajuda para o governo local, vão roubar, para vender e chantagear a população”.
Casas amontoadas
Além da pobreza, outro fator vem sendo apontado como potencializador dos efeitos do terremoto, embora ambos estejam fortemente vinculados: a grande quantidade de pessoas vivendo nas cidades (especialmente na capital, Porto Príncipe) em casas amontoadas e construídas precariamente, o que fez com que desabassem mais facilmente. Segundo Patrola, o desastre deixou evidente a precaridade do sistema urbano no Haiti. “Porto Príncipe e as favelas de Cité Soleil e Bel-air foram construídas de forma espontânea com a ausência de recursos mínimos de construção civil. Isso potencializou a destruição”.
Aqui, outra triste e estranha realidade: como se explica que um país cuja agricultura representa 28% do PIB (no Brasil, esse índice é de 7%) possua um índice de êxodo rural tão acentuado e tenha 47% de sua população vivendo na zona urbana?
“Pela eliminação das culturas agrárias locais pelos produtos importados, inclusive os das famosas 'ajudas internacionais'. O subdesenvolvimento eliminou as florestas locais, pois o carvão é quase a única fonte de energia no interior. Em 1970, o Haiti era quase auto-suficiente em alimentação, hoje importa 60% do que come”, responde Osvaldo Coggiola. Segundo dados da ONU, entre 2005 e 2010, a população das cidades haitianas cresceu 4,5% por ano.
Migração
O historiador Mário Maestri explica que a revolução de 1804 teve como consequência a divisão dos latifúndios existentes em lotes familiares, que retomaram as tradições camponesas africanas, proporcionando uma independência alimentar. No entanto, “as intervenções imperialistas, com a colaboração das frágeis e corruptas elites negras e mulatas, desdobraram-se para metamorfosear a agricultura familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram duramente reprimidos, para reconstituir a grande propriedade”, diz.
Patrola, da brigada da Via Campesina no Haiti, responsabiliza ainda as políticas neoliberais mais recentes pelo “desmonte” do campo. “A abertura comercial está destruindo a agricultura haitiana. O Haiti é o quarto importador de arroz dos Estados Unidos”, diz.
O resultado de todo esse processo vem sendo uma grande migração para a cidade. E hoje, de acordo com Maestri, as enormes massas de miseráveis urbanos são vistas como mão-de-obra extremamente barata para as indústrias maquiladoras que se estabeleceram no Haiti.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Solidariedade com o povo haitiano
A Conlutas vem desenvolvendo nos últimos 5 anos uma campanha de denúncia contra a ocupação de tropas estrangeiras, inclusive brasileiras (“Fora as tropas do Haiti”), e de solidariedade ao povo haitiano.