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sábado, 9 de janeiro de 2010

Análise do Censo Agropecuário de 2006, algumas informações importantes, artigo de Frei Sergio Gorgen




Cada 10 anos o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – faz um levantamento, uma pesquisa, indo de casa em casa, para saber como está a vida e a produção no meio rural brasileiro.
O último Censo Agropecuário foi feito em 2006 e publicado em 2009. Esta pesquisa permite fazer um retrato, uma fotografia, de como está a vida e a produção na roça e dá para fazer algumas comparações importantes sobre as diferenças entres os grandes e pequenos agricultores, entre o agronegócio e a agricultura camponesa.
Vamos ver alguns números desta pesquisa:

1 – Propriedade e Posse da Terra Os pequenos agricultores tem 24% de todas as terras privatizadas do Brasil.Quer dizer, de cada 100 hectares de terras, 24 é de camponês.Os médios e grandes tem 76% de todas as terras.De cada 100 hectares, 76 é do agronegócio.

2 – Número de Estabelecimentos – Propriedades, Posses, LotesOs camponeses são mais de 4 milhões e 360 mil estabelecimentos.Os médios e grandes são apenas 807 mil estabelecimentos.Os grandes proprietários acima de mil hectares são apenas 46.000. E os latifundiários acima de 2 mil hectares são apenas 15 mil fazendeiros que detêm 98 milhões de hectares.

3 – O que Produzem:Os camponeses produzem 40% da produção agropecuária do Brasil (medida pelo Valor Bruto da Produção Agropecuária Total), apesar de terem apenas 24% das terras, e ainda, nas piores condições de topografia e fertilidade. Além disso, sabe-se que grande parte da produção do camponês é para auto-sustento, e por tanto não é vendida.Os médios e grandes produzem 60% da produção agropecuária do país, tendo 76% de todas as terras do país, entre elas as mais planas e férteis e melhor localizadas para o mercado.

4 – Valor da Produção Por Hectare 1 hectare da agricultura camponesa teve, em média, uma renda de R$ 677,00.1 hectare do agronegócio teve, em média, uma renda de apenas R$ 368,00.


5 – Quem produz o que o Povo Brasileiro Come: Daquilo que vai para a mesa dos brasileiros, 70% é produzido pelos pequenos agricultores, pelos camponeses.Só 30% do que vai para a mesa dos brasileiros vem das grandes propriedades, que priorizam apenas as exportações, ou seja, não produzem comida, querem produzir apenas “commodities”!

6 – Trabalho para o Povo: As pequenas propriedades dão trabalho para 74% de toda mão de obra no campo brasileiro.As médias e grandes empresas do campo, o agronegócio, mesmo com muito mais terra, só empregam 26% das pessoas que trabalham no campo. Pois preferem utilizar mecanização intensiva e muito agrotóxico. Por isso, o Brasil se transformou na safra de 2008/2009 no maior consumidor mundial de agrotóxicos. São aplicados no campo brasileiro 713 milhões de litros de veneno por ano!

7 – Quantas pessoas trabalham por Hectare: Na agricultura camponesa, em cada 100 hectares, trabalham 15 pessoas.No agronegócio, em cada 100 hectares, dão emprego para apenas 2 pessoas (média real de 1,7 pessoas/ha).

8 – Os recursos do Crédito Agrícola:Os valores do crédito não estão no Censo Agropecuário, mas no Plano Safra. No Plano Safra 2009/2010 foram destinados R$ 93 bilhões para o agronegócio. E 15 bilhões para a agricultura camponesa. Mesmo assim, sabe-se que apesar da crescente oferta de recursos para a agricultura camponesa, apenas 1,2 milhões de estabelecimentos familiares tem acesso ao crédito, e na última safra utilizaram apenas 80% do que estava disponível.
Isto significa que os camponeses utilizam apenas 14% do crédito agrícola total ofertado pelos bancos, através das normas e determinações da política do governo federal.
Resumo comparativo entre os dois modelos de agricultura vigentes no Brasil

PERSPECTIVAS SE HOUVESSE UMA REFORMA AGRÁRIA MASSIVA
Usando os dados do Censo/2006 podemos fazer uma projeção de como poderia ser o Brasil se houvesse uma Reforma Agrária massiva, que democratizasse a propriedade e posse da terra e reorganizasse a produção agrícola para o mercado interno.
Tomando como base só os Estabelecimentos acima de 1.000 hectares.
Com mais de 1.000 hectares são apenas 46.911 estabelecimentos.
Ocupam uma área de 146.553.218 hectares, isto é, mais de 146 milhões de hectares. Dá uma média de 3.125 hectares por propriedade.
Agora vejamos como ficaria esta terra que agora pertence a apenas 47 mil grandes proprietários, se fosse distribuída em lotes com tamanho médio de 50 hectares por família?- Seriam criados 2 milhões e 920 mil novos estabelecimentos agrícolas, ou seja, quase 3 milhões de novas famílias de camponeses.- Considerando que a agricultura camponesa ocupa 15 pessoas a cada 100 hectares, esta reforma agrária criaria trabalho para mais 21 milhões de pessoas, ao contrário de 2 milhões e 400 mil criados, hoje, através do agronegócio. Que além do mais, trabalham como assalariados para o agronegócio, recebendo salários ridículos, muitas vezes apenas temporários, e sem direitos trabalhistas ou previdenciários.- Considerando que na agricultura camponesa, cada hectare gera uma renda média anual de R$ 677,00, a renda gerada nas áreas distribuídas produziria uma nova riqueza no valor aproximado de R$ 99 bilhões por ano.
É só comparar. O latifúndio e o agronegócio não trazem benefícios para a sociedade brasileira, nem social, nem economicamente, e muito menos é sustentável ambientalmente. Pois a sua matriz tecnológica é altamente destrutiva pelo uso intensivo de agrotóxicos.
Uma Reforma Agrária que atingisse apenas os estabelecimentos acima de 1.000 hectares, preservando os médios proprietários, geraria muito mais trabalho, produção, renda e desenvolvimento para todos os Brasileiros.
Frei Sergio Gorgen é Membro do MPA e da via campesina Brasil, Assentamento de Hulha Negra, RS.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Reparo em dado do IBGE não esconde concentração de terras

Brasil possui uma das estruturas mais desiguais do mundo. Enquanto pequenos lotes com menos de 10 hectares ocupam 2,7% da soma de propriedades rurais, grandes fazendas com mais de 1 mil hectares concentram 43% do total
Por Maurício Reimberg
O grau de concentração de terras no país está praticamente inalterado desde 1985, ano que marca o início da redemocratização brasileira. Segundo o
10º Censo Agropecuário 2006, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de Gini - indicador da desigualdade no campo - registra 0,854 pontos, patamar próximo aos dados verificados nas duas pesquisas anteriores: 0,856 (1995-1996) e 0,857 (1985). Quanto mais perto essa medida está do número 1, maior é a concentração na estrutura fundiária.

O mais recente indicador foi oficializado em 5 de novembro, após um "recálculo" do IBGE. Em nota publicada no site da instituição, a diretoria de pesquisas corrigiu o dado inicial do censo, divulgado no final de setembro. O instituto informara na ocasião que o índice de Gini atingia 0,872 pontos, o que representava um crescimento de 1,9% na média nacional.
"O valor correto da área total dos estabelecimentos agropecuários é 0,854", sustenta a nota. Mesmo após a mudança, o novo índice confirma a estrutura agrária nacional como uma das mais desiguais do mundo. Enquanto os estabelecimentos rurais de menos de 10 hectares ocupam 2,7% da soma de propriedades rurais, as grandes fazendas com mais de 1 mil hectares concentram 43% da área total. Ao todo, cerca de 5,2 milhões de propriedades agropecuárias ocupam 36% do território nacional.
Antes da retificação no processamento dos dados, o gerente do Censo Agropecuário do IBGE, Antonio Carlos Florido, havia declarado ao jornal Folha de S. Paulo que a maior concentração não era "necessariamente algo ruim", já que a terra era explorada por quem tinha capital para investir, o que seria um dos motivos do ganho de produtividade do campo.

No entanto, o próprio Censo Agropecuário identifica problemas relacionados à concentração de terras. "Tanto no Nordeste, como, mais recentemente, no Centro-Oeste, a desigualdade vem acompanhando o processo de modernização produtiva e inserção ao competitivo mercado mundial de commodities agrícolas", afirma o relatório. Essa desigualdade é mais elevada em Alagoas, onde o índice de Gini atinge 0,871 pontos, seguido por Mato Grosso (0,865) e Maranhão (0,864). Os maiores aumentos, contudo, ocorreram em Tocantins (9,1%), São Paulo (6,1%) e Mato Grosso do Sul (4,1%).Como "potencializadores" desse processo, sobretudo no Centro-Oeste, o IBGE cita a produção em grande escala de grãos, como a soja e o milho, além da expansão mecanizada do algodão e da incorporação de áreas em direção à fronteira agropecuária ao Norte de Mato Grosso. "A monocultura da soja ou do binômio soja-milho, além do algodão, fez por reforçar a desigualdade que marcava a propriedade da terra em uma região historicamente ocupada por uma pecuária ultraextensiva", diz o documento.

O Centro-Oeste concentra o menor número de propriedades rurais (317,5 mil) e a maior área (103,8 milhões de hectares), implicando numa área média de 327 hectares. Já o Nordeste detém o maior número de estabelecimentos (2,4 milhões) e a menor área média (31 hectares). Em relação ao total de propriedades, cerca de 47% têm menos de 10 hectares, enquanto aquelas com mais de 1 mil hectares representam cerca de 1% do total.
Fronteira agrícola

O período abrangido pelo censo - intervalo entre 1995/1996 e 2006 - foi marcado pela incorporação de tecnologias na estrutura produtiva e pela forte expansão do agronegócio, beneficiado pelo ciclo expansivo do comércio agrícola internacional. A nova conjuntura econômica, porém, não democratizou o histórico "fosso" no perfil fundiário do país.
"Chama a atenção a confirmação de um movimento que já era esperado: o avanço do agronegócio para a fronteira da Amazônia. Esse é um dado muito claro. Tanto que a Região Norte atualmente já participa com 17% da atividade agropecuária. Em 1970, era só 8%", explica o agrônomo Gerson Teixeira, que foi presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra) entre os anos de 2000 a 2002. O especialista elaborou uma análise dos dados agregados do setor apresentados no Censo Agropecuário 2006.
A Região Norte foi a maior responsável pela expansão do rebanho bovino, com aumento do plantel de 14 milhões de cabeças (81%). De 1996 para 2006, a participação desse rebanho no total nacional saltou de 11% para 18%. Em 1980, era de apenas 3%. As pastagens se estendem como uma frente pecuarista para o interior do Pará, com o município de São Félix do Xingu (PA) contabilizando um dos maiores rebanhos do país. A criação de bovinos é a atividade mais comum no campo. Segundo o IBGE, o rebanho nacional chegou a 171,6 milhões de cabeças em dezembro de 2006.
As pastagens plantadas expandem-se para o Norte, e a lavoura aumenta mais no Centro-Oeste. A área cresceu 5,8 milhões de hectares (39,7%) na Região Norte, sobretudo em Rondônia (1,9 milhão de hectares) e no Pará (3,2 milhões de hectares). As áreas de lavouras permanentes também se expandiram em maiores escalas no Centro-Oeste (188%) e no Norte (155%).
As duas regiões foram as que apresentaram, também, as maiores taxas de expansão de áreas com lavouras temporárias, ficando o Norte em primeiro (89%) e o Centro-Oeste em segundo lugar (82%). Houve ainda uma redução de 12,1 milhões de hectares (-11%) nas áreas com matas e florestas contidas em estabelecimentos agropecuários em relação a 1996. Foram menos 6,8 milhões de hectares no Norte, concentrados em Rondônia e Pará, e 3,2 milhões de hectares no Centro-Oeste, sobretudo no Mato Grosso.
Capital estrangeiro

Para Gerson, a concentração verificada pelo IBGE reflete três processos ligados diretamente à entrada do capital estrangeiro. Ele cita a expansão dos agrocombustíveis, em especial do etanol, a corrida de capitais na compra de terras em países em desenvolvimento com potencial agrícola - movimento detectado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) -, e a formação do mercado de carbono, que também teria direcionado investimentos com expectativa de especulação.
"A legislação que está em vigor não é eficaz para fazer a regulação das formas de penetração do capital estrangeiro na compra de terras no Brasil", argumenta o agrônomo. O
Programa Terra Legal, criado neste ano pelo governo, determina que os proprietários beneficiados podem vender os seus títulos de posse apenas para brasileiros na Amazônia Legal. Além disso, o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, também já defendeu publicamente o estabelecimento de um limite para o tamanho da propriedade rural no país.
Nesse cenário de valorização da terra, o IBGE detectou a continuidade do êxodo rural. Em 1996, a população rural era de 33,9 milhões de pessoas (22% do total). Em 2006, esse índice caiu para 28,7 milhões (equivalente a 15% da população). "É muito acentuado", surpreende-se Gerson. O agrônomo sustenta que o êxodo foi alimentado, basicamente, pelo abandono de atividade agrícola. "Não foi por falta de recurso, mas pela inadequação das políticas ofertadas, que acabam acelerando a saída da turma do campo".
O pessoal ocupado nos estabelecimentos agropecuários, em 2006, foi de 16,5 milhões de pessoas; um contingente 1,3 milhão inferior ao registrado em 1996. Embora a soma de suas áreas represente apenas 30% do total, os lotes inferiores a 200 hectares responderam por 84% das pessoas ocupadas nas propriedades rurais. Quase 12 milhões tiveram empregos temporários em 2006 (até 180 dias no ano). Mais de 1 milhão de crianças com menos de 14 anos de idade trabalhavam no campo.
Agricultura familiar

O fluxo em direção às cidades, analisa o agrônomo, está articulado com o "sumiço" de propriedades menores de 10 hectares (mini agricultura familiar), sobretudo nas Regiões Norte e Nordeste. No Norte, essas pequenas propriedades, que ainda representam 27% do número total de estabelecimentos da região, perderam 25% do seu território (124 mil hectares) de 1996 a 2006. No Nordeste, a perda de área nessa faixa foi de 325 mil hectares (-8%). Segundo ele, os dados desse estrato evidenciam a continuidade do processo de concentração que vem desde a década de 1980.
"É um processo de definhamento muito grave", afirma Gerson. "Do ponto de vista político, significa que toda política de estímulo à agricultura familiar não está gerando o efeito esperado". A agricultura familiar, complementa, está perdendo participação na geração de renda: a atividade patronal gera 66% da renda, e a familiar, 34 %. "O valor bruto da produção teve média de R$ 3 mil no ano só em estabelecimentos pequenos. É um retrato da situação de risco para esse segmento da base", adiciona.
Segundo o pesquisador, os dados do IBGE mostram que a política agrária não conseguiu atingir o seu principal objetivo no país. "O programa de reforma agrária passou a ter um caráter peculiar no Brasil, que é o de ser reativo aos conflitos. Como a concentração de terras se manteve, é possível afirmar que o programa não assumiu dimensão redistributiva. É sinal de que o programa de reforma agrária não teve eficácia no seu principal propósito".
Ocupações

Como reação à concentração, cresce o número de ocupações de terra, principalmente em São Paulo. A expansão da cana-de-açúcar em terras paulistas está traduzida em números: o estado atingiu a marca de 60% da produção nacional em 2006. Levantamento do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (Nera), ligado à Universidade Estadual Paulista (Unesp), indica que foram registradas, no primeiro semestre de 2008, 36 ocupações com a participação de 2.414 famílias no estado. No mesmo período de 2009, houve 68 ocupações, que mobilizaram 4.096 famílias.
O estudo do Nera, elaborado pelos pesquisadores Tomás Sombini Druzian e Nallígia Tavares de Oliveira, observa um aumento da luta contra o agronegócio. "Esta é a contradição estrutural da questão agrária no capitalismo hoje: os movimentos socioterritoriais lutam pela terra tanto na fronteira agrícola na Amazônia, onde o agronegócio desterritorializa camponeses e indígenas, como no estado de São Paulo, onde o agronegócio está consolidado e enfrenta as ações dos movimentos camponeses", diz a análise. Já o Censo de 2006 coloca que a especialização em lavouras "modernizadas" de cana-de-açúcar no estado "repele" o produtor com menor grau de capitalização.
Expansão

Nesse contexto de fortalecimento do agronegócio, a soja foi a cultura que mais cresceu nos últimos dez anos, registrando um aumento de 88% na produção e 69% na área colhida. Isso representa uma expansão de 6,4 milhões de hectares, em grande parte no Centro-Oeste. Os dados do IBGE mostram que esse crescimento acelerado se deu à base de produtos geneticamente modificados. Cerca de 46% dessas propriedades utilizaram sementes transgênicas, com uso disseminado de agrotóxicos nas lavouras. As dívidas também se multiplicam. Cerca de 91% dos produtores apontaram os bancos como uma das fontes de recursos e 85% receberam dinheiro de programas governamentais. As propriedades com 1 mil ou mais hectares captaram 43% dos recursos, mesmo representando apenas 0,9% do total de estabelecimentos que obtiveram financiamentos. As unidades que possuem menos de 100 hectares representam 36% da dívida contabilizada.
Metade dos proprietários que obtiveram financiamento declararam ter como finalidade o "custeio". O "investimento" aparece em segundo lugar, com 40%. Já o item "manutenção" foi declarado por 8% dos estabelecimentos. As propriedades que têm como atividade principal a cana-de-açúcar ficaram com a maior participação no valor da produção agropecuária (14%), seguidos por aqueles que se dedicam prioritariamente ao cultivo de soja (14%), à criação de bovinos (10%) e ao cultivo de cereais (9%).

Notícias relacionadas:








sábado, 17 de outubro de 2009

Transgênicos: liberou geral!


Por Cândido Cunha
Seguem 3 notícias recentes sobre transgênicos nos links abaixo. Como se vê, corre solta a liberação de Organismos Geneticamente Modificados no governo Lula, apesar do compromisso assumido de que haveria restrições à produção e comercialização destes produtos.

Conselho libera venda do milho transgênico da Syngenta (http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid191951,0.htm )

Brasil produz primeiros caprinos transgênicos da América Latina para gerar medicamentos


CTNBio analisará liberação de mais 10 transgênicos agrícolas(http://noticias.terra.com.br/interna/0,,OI2957948-EI8177,00.html)


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Disputa de modelos agrícolas

Esperamos que retorne o debate sobre qual o modelo de agricultura que interessa ao povo brasileiro.
por
Michelle Amaral da Silva
Editorial Jornal Brasil de Fato (n°346)
O censo agropecuário de 2006, divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), põe uma luz sobre os dois modelos agrícolas em disputa hoje no nosso país. Nele está evidenciado que: a agricultura familiar, ocupando apenas 24% da área agrícola, produz 38% da riqueza desse setor produtivo; emprega 75% da mão de obra no campo; responde por 87% da produção nacional de mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café , 34% do arroz, 21% do trigo, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das aves e 30% dos bovinos.
Do outro lado, a agricultura não familiar, o chamado agronegócio, representa apenas 15,6% do total dos estabelecimentos agrícolas, mas monopoliza 75,7% da área agrícola e impõe ao país um modelo, há cinco séculos, centrado na grande propriedade, na monocultura extensiva e no interesse de atender o mercado externo. Se é verdade que o setor agroexportador é responsável por um significativo saldo na balança comercial, é impossível ignorar a que custos – econômicos, sociais e ambientais - essas divisas externa são obtidas. A depredação ambiental, trabalhadores mantidos em regime de semi-escravidão, concentração da renda e da riqueza, anistia das dívidas dos ruralista há cada cinco anos, expulsão de milhares de famílias do campo, são apenas alguns exemplos do que nos custa a manutenção do modelo do agronegócio.
Um modelo agrícola que tem, num dos seus alicerces de sustentação, a violência contra os trabalhadores que ousam se contrapor a essa forma de produzir no campo. Já na República Oligárquica (1889 – 1930), a questão social era caso de polícia, nas melhores terras não se podiam plantar alimentos, as melhores terras destinadas apenas para o plantio do café para exportação, a população pobre do campo era vista como jecas tatus, merecedores apenas de um sentimento de pena e de ações assistencialistas. Mas o criador do Jeca, Monteiro Lobato, soube identificar a causa da pobreza e da ignorância do seu personagem: os vermes que o jeca tinha na barriga, a elite os tinha na cabeça, sentenciou o escritor.
O golpe militar de 1964 não poupou forças para reprimir e extinguir os movimentos populares do campo, da década de 50, que passaram a exigir “reforma agrária na lei ou na marra”. A ditadura militar liquidou com os movimentos organizados dos trabalhadores e iniciou-se, logo a seguir, o período histórico em que houve o maior numero de assassinatos de trabalhadores rurais, agentes, pastorais, presidentes dos sindicatos de trabalhadores rurais, padres, freiras e advogados que se posicionaram a favor da reforma agrária e da causa da agricultura familiar. A violência dos coturnos dos quartéis, associada com a certeza da impunidade dos crimes cometidos pelo braço armado do latifúndio, assegurou que a agricultura brasileira fosse modernizada, mantendo intocável suas estrutura fundiária.
A partir dos anos 1990, com as transformações ocorridas na economia capitalista, sob o rótulo do neoliberalismo, as os grupos agro-industriais transnacionais e o capital financeiro tomaram conta agricultura brasileira, de olho em nossas reservas de riquezas naturais e dos enormes lucros decorrentes da exportação dos produtos primários brasileiros. Mas os métodos para enfrentar os que se opõem, não mudaram. Apenas receberam uma aliada, a mídia. É necessário, perseguir, criminalizar e, se possível, extinguir os que ousam se opor ao agronegócio e defendam a agricultura familiar e a soberania alimentar do nosso país e, principalmente, quem ousa organizar os pobres do campo.
A forma como a mídia tratou os acontecimentos da ocupação da fazenda da agro-indústria Cutrale, em São Paulo, só pode ser compreendida dentro dos marcos de disputas desses dois modelos de agricultura. Os dados do censo agropecuário e o que representam, ficaram em segundo plano. Montou-se um aparato midiático para impactar a sociedade com imagens que, de acordo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foram fabricadas para tal objetivo. A chamada grande mídia eximiu-se do dever de informar a sociedade. Tomou partido e, ainda de acordo com o MST, foi conivente com uma farsa montada para criminalizar as famílias que acamparam naquela fazenda.
Em nota divulgada, o MST afirma que não promoveu a depredação na fazenda e muito menos tocou nos pertences e nas moradias dos trabalhadores que residem na área. A nota faz alguns questionamentos, com a versão insistentemente vinculada na mídia, que qualquer jornalismo sério e comprometido coma verdade faria: a Policia Militar de SP não tem nenhuma imagem filmada da depredação? Como seria possível desmontar os tratores, como foram apresentados, não tendo equipamentos necessários para isso? Como seria possível furtar 15 mil litros de combustíveis, escoltados pela PM e sendo transportados em cima de uma carroceria de caminhão? Por que tendo recebido imagens da destruição dos pés de laranja ainda no dia 28 de setembro, somente no dia 5 de outubro a Rede Globo resolveu exibi-las? Por que os integrantes do MST foram impedidos de acompanhar a entrada da PM na fazenda, logo após a saída das famílias acampadas? O que realmente aconteceu na fazenda após a saída das famílias acampadas? Apenas uma comissão independente, como exige o próprio MST, poderá dar respostas à essas perguntas.
Para completar o espetáculo circense, os três parlamentares, paladinos do atraso, defensores do latifúndio, entraram imediatamente em cena para tentar constituir uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o MST. O deputado federal do Demo-GO, Ronaldo Caiado, chegou a dizer que essa CPI é para averiguar se o MST recebe dinheiro do governo para repassar à candidatura da ministra Dilma Roussef. Nada pode ficar mais evidente, no ato falho do parlamentar Caiado.
Esperamos que retorne o debate sobre qual o modelo de agricultura que interessa ao povo brasileiro. Certamente a escolha recairá sobre uma agricultura que garanta a produção de alimentos saudáveis, assegure a preservação ambiental e promova a distribuição da riqueza e renda produzida. Conquistas – para a sociedade – incompatíveis com o modelo de agricultura do agronegócio.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A velha nova face do campo


Mapa publicado em Atlas da Questão Agrária Brasileira
Por Denise Ribeiro
Avanço da soja, produtores rurais semianalfabetos, 1 milhão de menores de 14 anos trabalhando, agricultura familiar responsável pela segurança alimentar do País, diminuição da área destinada à agropecuária.
Esses são alguns dos principais dados apurados e finalmente compilados do Censo Agropecuário 2006, raio X da estrutura produtiva do agronegócio brasileiro que atualiza os dados de 1995, ano da última medição. O décimo Censo traça um perfil detalhado de 5,2 milhões de propriedades rurais do Brasil e revela que a concentração de terras permanece praticamente inalterada ao longo dos anos. O índice de Gini, que mede a concentração fundiária, registrou uma piora. Passou de 0,856 para 0,872. As propriedades com mais de mil hectares ocupam 43% da área total, ante os 2,7% de área ocupada pelas menores (abaixo de 10 hectares), que representam 47% das propriedades.


Mas houve uma queda na concentração de terras em 2.360 cidades brasileiras. O movimento de concentração, segundo o IBGE, foi puxado pelas grandes culturas de exportação (soja e milho, especialmente), pela profissionalização do agronegócio e pelo avanço da fronteira agropecuária em direção à Amazônia e ao Pantanal – impulsionada pela criação de bovinos e pela soja. Com crescimento de 88% na produção, a soja foi a cultura que mais se expandiu na última década, muito em razão do uso de sementes transgênicas, adotada por 46,4% dos estabelecimentos. A área destinada à agropecuária diminuiu em 23,7 milhões de hectares -(-6,69%) em relação a 1995.
O IBGE acredita que a criação de novas Unidades de Conservação Ambiental (crescimento de 19,09% de área) e a demarcação de terras indígenas (crescimento de 128,2%), totalizando mais de 60 milhões de hectares, podem explicar a redução.
Nas propriedades, houve diminuição das áreas de florestas (-11%) e de pastagens naturais (-26,6%), e aumento nas áreas de pastagens plantadas de 1,7 milhão de hectares (1,8%). Como era de esperar, o crescimento coincide com o avanço das fronteiras agropecuárias. O maior ocorreu no Centro-Oeste (63,9%), o que pode explicar os índices recordes de desmatamento medidos na região. Gerente do Censo Agropecuário desde 1991, o engenheiro agrônomo Antonio Carlos Simões Florido participou de cinco levantamentos semelhantes. Prefere, por isso, se distanciar de conclusões simplistas. “Não dá para olhar um dado e emitir um juízo de valor. O resultado será ruim ou bom, dependendo do viés que se dê a ele.” Dá como exemplo um dos dados mais polêmicos apurados pelo IBGE: o de que há 1 milhão de crianças de até 14 anos trabalhando no campo. “A maior parte delas pertence a famílias de produtores que trabalham e vivem em suas unidades de produção. Os filhos ajudam a capinar, cuidar de galinha, mesmo que frequentem a escola”, argumenta. “Não quero dizer que não há crianças sendo exploradas, mas a maioria ajuda os pais, da mesma forma que pedimos aos nossos filhos para lavar a louça e varrer o chão”, compara. Os maiores porcentuais de produtores analfabetos ou com poucos anos de escolaridade estão concentrados nas regiões Norte (38%) e Nordeste (58%). No Centro-Oeste (13%) e no Sudeste (11%) aparecem os níveis mais elevados de campesinos com grau técnico agrícola ou ensino médio completo. O reflexo mais imediato do semianalfabetismo é a aplicação incorreta de agrotóxicos. Segundo o estudo, nos estabelecimentos em que houve aplicação de agrotóxicos, 77,6% dos responsáveis (1,06 milhão) declararam ter ensino fundamental incompleto (1° grau) ou nível de instrução menor.
Como as orientações de uso de agrotóxicos que acompanham esses produtos são de difícil entendimento, o baixo nível de escolaridade, incluindo os 15,7% que não sabem ler e escrever (216 mil), está entre os fatores socioeconômicos que potencializam o risco de intoxicação. Pela primeira vez foi feito um mapeamento minucioso da agricultura familiar, um microcosmo de 4,4 milhões de propriedades espalhadas por 80,25 milhões de hectares (45% deles destinados à pastagem) e com área média de 18,37 hectares. Apesar de representarem 84,4% das propriedades brasileiras, correspondem apenas a 24,3% da área ocupada. As propriedades não familiares, com área média de 309,18 hectares, que representam 15,6% do total dos estabelecimentos, ficam com 75,7% da área ocupada. Apesar de cultivar uma área menor com lavouras e pastagens (17,7 milhões e 36,4 milhões de hectares, respectivamente), a agricultura familiar é voltada basicamente à produção de alimentos da cesta básica. Em 2006, respondeu pela produção de 87% da mandioca produzida no País, 70% do feijão, 46% do milho e 38% do café.
Também na pecuária as propriedades menores e familiares são fortes. Na produção de leite, respondiam, em 2006, por 58% do total. Tinham ainda 59% do plantel de suínos e 50% do de aves. Outros dados atualizados do levantamento:
1. Em 2006, a criação de bovinos era a atividade mais comum dos cerca de 5,2 milhões de estabelecimentos agropecuários existentes no País: praticada em 30% deles. Em seguida vem o cultivo de lavouras temporárias, como feijão e mandioca (18%), o de cereais (12%) e a criação de aves (9%).
2. As propriedades rurais ocupavam 36,75% do território nacional.
3. O nível de emprego nas propriedades rurais está diminuindo. Entre o Censo de 1995-1996 e o de 2006, a queda foi de 7,2%.
4. Em 2006, quase 12 milhões de pessoas trabalharam de modo temporário (por até 180 dias). Perto de 4 milhões tinham parentesco com o produtor. Do universo dos temporários, 5 milhões trabalharam na pecuária (ou criação de outros animais) e 4 milhões na lavoura.
5. A cana-de-açúcar é a cultura com maior valor da produção (14%), seguida pela soja (14%), criação de bovinos (10%), cultivo de cereais (9%) e cultivo de outros produtos da lavoura temporária (8%).
6. Os estabelecimentos especializados foram responsáveis por 81% do valor da produção agropecuária. O IBGE considerou como especializado o estabelecimento cuja atividade principal representasse 66% (ou mais) de seu valor total de produção, a soma do valor da produção animal e vegetal e do valor agregado da agroindústria rural.
7. O setor empregou dois de cada dez trabalhadores brasileiros. As pequenas unidades concentravam 84,36% dos trabalhadores rurais.
8. Dos 80,25 milhões de hectares da agricultura familiar, 45% eram destinados a pastagens, 28% a florestas e 22% a lavouras.
Fonte: Carta Capital - 05/10/2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Mudanças no Código Florestal e propostas da Via Campesina


Por Frei Sérgio Antônio Görgen
O Código Florestal: Uma Oportunidade para a Agricultura Camponesa

1 - Um pouco da História
O Código Florestal Brasileiro data de 1934. Surgiu como forma de regrar a expansão da economia agrícola para as áreas de florestas estimulada pelo desenvolvimentismo do Governo Vargas. Não funcionou pois a lei não foi respeitada nem exigida.
O Código foi reformado pelo Governo Militar em 1965, também como forma de controlar minimamente o desmatamento quando o governo da ditadura montou um grande programa de colonização da Amazônia como forma de esvaziar a luta pela Reforma Agrária que surgira no início dos anos 60. Mas foi novamente letra morta. Os militares induziram duas brutais ondas de migrantes, uma do sul e outra do leste/nordeste em direção à Amazônia. Era, no dizer dos militares, levar “os homens sem terra para a terra sem homens”. Grandes rodovias foram construídas. Milhões de famílias nordestinas e sulistas adentraram a Amazônia para “colonizá-la e levar o desenvolvimento”. A exploração da madeira vai na frente, levando os pobres como mão de obra barata, muitas vezes através de projetos de colonização, vindo logo em seguida o grande capital comercializando madeira, tomando terra e criando gado. O estímulo era desmatar e não cumprir o Código, mais uma vez, “letra morta”. Nos projetos de colonização, quem desmatasse um lote, ganhava outro.
O Código veio a sofrer ainda, duas reformas significativas, uma em 1989 e a outra no ano de 2001. A reforma de 1989 foi quando o Brasil se preparava para a ECO 92 no Rio de Janeiro e a chamada “pauta ambiental” passou a ser um elemento de pressão internacional sobre o governo brasileiro. É nesta reforma de 89 que o Código tenta controlar o uso de motosserras, por exemplo. O agronegócio amplia o desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Nova onda de expansão capitalista pisoteia sobre as florestas e sobre as normativas do Código, deixando atrás de si a ampliação da chaga ambiental.
Em 2001, através de Medida Provisória, o governo tucano de Fernando Cardoso fez a última grande reforma no Código onde o mesmo é flexibilizado para permitir a implantação de grandes obras de interesse do Capital. No que trata da preservação ambiental, esta reforma cria mecanismos facilitadores para o cumprimento dos objetivos do Código, mantendo as exigências em termos de áreas e percentuais estabelecidos em 1989 quanto às Áreas de Preservação Permanente e a Reserva Legal.
Porém, não se estabeleceu nenhuma Política Pública nem Programa de Governo para adaptação e muito menos medidas efetivas de controle do desmatamento desregrado.
O Código Florestal se impôs pela luta dos brasileiros que sempre, ao longo da história, defenderam o meio ambiente e a natureza como um bem estratégico do povo. Conseguiram fazer escrever medidas importantes na lei, mas que nunca foram levadas a sério nem pelos governos, nem pelo conjunto da sociedade. Hoje a natureza cobra a conta e o cerco aperta, de modo especial com as conseqüências já comprovadas do efeitos do aquecimento global e as freqüentes intempéries climáticas, exigindo mais do que discursos na defesa de um ambiente saudável para todos. Neste momento, em rota contrária aos sinais “do tempo” e “dos tempos”, os poderosos querem destruir a lei ambiental para continuar destruindo a natureza. Nosso desafio, e os camponeses e camponesas podem fazer isto, é produzir alimentos saudáveis e em grande quantidade, respeitando a mãe natureza.
Esta história nos leva a algumas conclusões:
- O Estado Brasileiro, ao longo dos anos, na legislação florestal, fez lei para efeito público e não para cumprir.- A ação efetiva do Estado Brasileiro e o Movimento do Capital, andaram na linha contrária à preservação ambiental e isto continua (veja-se o PAC) e se acentuou sucessivamente em quatro grandes Etapas Históricas da expansão capitalista no Brasil, refletidas nas Reformas do Código Florestal: anos 30, com Getúlio; anos 60 com a Ditadura; anos 90 com a reorganização do Estado Brasileiro; e primeira década do século 21 com a expansão neoliberal.- O Estado criou leis ambientais sob pressão (inclusive internacional, veja-se a Eco 92), mas não construiu condições objetivas para que fossem cumpridas ou que pudesse haver adaptação, pelo contrário, as políticas econômicas, agrícolas e energéticas continuaram induzindo e financiando a devastação.- A legislação florestal nunca foi devidamente divulgada e o sistema educacional não a incorporou em seus conteúdos. Nem sequer as áreas afins, como as ciências agrárias e biológicas. O desconhecimento de seu conteúdo é geral.- A corrupção campeou nesta área e o poder político local ( com seus interesses, sua voracidade e suas ligações com grandes grupos econômicos), nas áreas de expansão da devastação, sempre desprezaram a legislação, qualquer que fosse (“aqui a lei sou eu”). Os corruptores, porém, via de regra, foram e são grandes empresas transnacionais exportadoras de madeira, minérios, carne e produtos do agronegócio.

2 - Destrinchando o Código Florestal
Criou-se um verdadeiro pavor do Código Florestal, como se o mesmo fosse um “bicho papão” que vem para acabar com os pequenos agricultores e os assentados de reforma agrária e outras formas de produção camponesa. Muitos querem apresentar os pequenos agricultores e assentados como os grandes culpados pela devastação ambiental que atingiu o Brasil nos últimos 70 anos.
Temos que afirmar categoricamente: se há algo preservado, quem preservou foram os camponeses e os índios. O latifúndio e o agronegócio, agora comandados pelas transnacionais, foram e são os grandes devastadores. Este pavor, alimentado por ações policialescas e punitivas dos governos estaduais e uma interpretação conservacionista equivocada do Código Florestal, tem servido para os verdadeiros devastadores, o agronegócio e as empresas capitalistas, buscar nos camponeses novos aliados para continuar devastando. Um de seus principais objetivos é destroçar o Código Florestal no Congresso Nacional para continuar devastando sem piedade. E para isto insuflam os pobres do campo contra o Código.
Por isto que, para desfazer os mitos e as mentiras e acabar com o pavor criado nas famílias camponesas, é preciso conhecer o que o Código Florestal realmente diz e fazer uma interpretação correta do mesmo.
Precisamos conhecer algumas definições importantes que constam no Código Florestal e que são fundamentais para os Camponeses e Camponesas Brasileiros e seus Movimentos Sociais tomarem as decisões corretas neste momento em que o Agronegócio das Multinacionais e dos Latifundiários querem continuar fazendo uma agricultura e pecuária destruidora do solo, das águas, do ar, das chuvas, trazendo prejuízos enormes para todos os brasileiros.
Vejamos quais são estas definições:

1 – As Florestas e outras formas de vegetação existentes no Brasil SÃO BENS DE INTERESSE COMUM A TODOS OS HABITANTES DO PAÍS, e neles o direito de propriedade não é absoluto e tem que respeitar as leis do meio ambiente ( Art. 1º).
2 – O desrespeito ao meio ambiente é considerado USO NOCIVO (mau) DA PROPRIEDADE ( Art 1º, parágrafo 1º).
3 – Pequena propriedade rural ou posse rural familiar é aquela EXPLORADA PELA FAMÍLIA com mais de 80% da renda vinda de atividades camponesas e que tenha menos de 150 hectares na Amazônia Legal,
menos de 50 hectares no Maranhão e menos de 30 hectares no restante do País. ( Art 1º, parágrafo 2º, inciso I).É importante ressaltar que, no Código Florestal, a pequena propriedade tem um tratamento diferente.
4 - ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE – APP: é a área que deve ser protegida NAS BEIRAS DE RIOS, CÓRREGOS, SANGAS, IGARAPÉS E CORRENTES DE ÁGUA; NASCENTES E OLHOS D’ÁGUA; LAGOAS, LAGOS E RESERVATÓRIOS D’ÁGUA; TOPOS DE MORRO, MONTANHAS E SERRAS; ENCOSTAS COM DECLIVE ACIMA DE 45º; RESTINGAS; BORDAS DE TABULEIROS E CHAPADAS, COM FUNÇÃO AMBIENTAL DE PRESERVAR A ÁGUA, A PAISAGEM, A BIODIVERSIDADE, A FAUNA (animais), A FLORA (plantas), PROTEGER O SOLO E ASSEGURAR O BEM ESTAR DAS PESSOAS (Art. 1º, parágrafo 2º, inciso II).
As dimensões da APP são as seguintes:- de 30 (trinta) metros para os cursos d'água de menos de 10 (dez) metros de largura;- de 50 (cinquenta) metros para os cursos d'água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinquenta) metros de largura;- de 100 (cem) metros para os cursos d'água que tenham de 50 (cinquenta) a 200 (duzentos) metros de largura;- de 200 (duzentos) metros para os cursos d'água que tenham de 200 (duzentos) a 600 (seiscentos) metros de largura;- de 500 (quinhentos) metros para os cursos d'água que tenham largura superior a 600 (seiscentos) metros;- um raio mínimo de 50 (cinquenta) metros de largura nas nascentes e nos chamados "olhos d'água".- em faixa nunca inferior a 100 (cem) metros em projeções horizontais nas bordas dos tabuleiros ou chapadas, a partir da linha de ruptura do relevo ( Art 2º).

5 – RESERVA LEGAL – RL: é a área no INTERIOR DE UMA PROPRIEDADE OU POSSE RURAL, NECESSÁRIA AO USO SUSTENTÁVEL DO RECURSOS NATURAIS, À CONERVAÇÃO E REABILITAÇÃO DA NATUREZA (processos ecológicos), CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE E ABRIGO PARA PLANTAS E ANIMAIS NATIVOS ( Art 1º, parágrafo 2º, inciso III).
As dimensões da Reserva Legal são as seguintes:
- 80 % em áreas de floresta na Amazônia Legal;
- 35% nas áreas do cerrado da Amazônia Legal, sendo 20% na propriedade ou posse e 15% podem ser compensados e outra área desde que na mesma microbacia;
- 20% em outras regiões do país, seja de floresta ou campos. (Art 16º, incisos I,II,III e IV).
6 – ATIVIDADES DE INTERESSE SOCIAL: podem ser consideradas atividades de interesse social, para fins de cumprimento do Código Florestal, entre outras, as seguintes atividades:
- Atividades necessárias à proteção da vegetação nativa, tais como: prevenção e combate ao fogo, controle da erosão, proteção de plantio com espécies nativas reconhecidas pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA).
- Atividades de MANEJO AGROFLORESTAL SUSTENTÁVEL PRATICADOS NA PEQUENA PROPRIEDADE OU POSSE RURAL FAMILIAR, desde que não descaracterizem a cobertura vegetal e não prejudiquem a função ambiental da propriedade;
- Planos, obras e projetos definidos em resoluções do CONAMA.

3 – As Áreas de Preservação Permanente e as Áreas de Reserva Legal são Áreas de Uso
Tanto a Área de Proteção Permanente como a Reserva Legal são ÁREAS DE USO e não de PURO CONSERVACIONISMO sem nenhuma utilização no sustento da família camponesa. Este é o primeiro equívoco que tem que ser desfeito e que tanto mal tem causado às famílias agricultoras.
Há uma diferença profunda entre Unidades de Conservação, tanto Públicas como Privadas, que tem o objetivo de preservar a Fauna, a Flora e outras formas de vida de uma determinada região e que são intocáveis. Nelas, a não ser em casos muito especiais, não podem se desenvolver projetos econômico-produtivos.
Não é este o caso das APPs e das RLs. Estas são áreas de uso, nas quais o componente Florestal e a preservação devem ser preponderantes. Mas não são áreas que o agricultor não possa usar para nada. Pode e deve.
Para que isto aconteça é preciso vencer dois obstáculos:
1º - Regulamentar corretamente o Código para que a família agricultora possa trabalhar com tranqüilidade e desenvolver atividades produtivas preservadoras do Meio Ambiente nas Áreas de Preservação e nas Reservas Legais, acabando com o terrorismo que as Polícias Ambientais e o Ministério Público de algumas regiões tem feito equivocadamente. E justamente porque, em muitos casos, as exigências do MP, dos Órgãos Ambientais e da Polícia Ambiental são irracionais em relação à cultura camponesa e em desconformidade com a letra e o espírito do Código, a causa ambiental e o próprio código acabam sendo rejeitados pelos principais sujeitos e protagonistas da preservação que são os pequenos agricultores. Isto precisa acabar imediatamente sob o risco de transformar esta repressão equivocada em efeito bumerangue. Além de regulamentar corretamente é preciso preparar os agentes dos órgãos fiscalizadores, pois o despreparo e o desconhecimento de elementos basilares das práticas agrícolas e pecuárias e da cultura camponesa também são enormes e causam grandes prejuízos.
O Código Florestal não pode ser lido e interpretado com o rigorismo que não se tem em relação aos descalabros ambientais dos grandes centros urbanos, que aprendeu a suportar e conviver com cidades ambientalmente insustentáveis, mas quer impor a uma família de pequenos agricultores exigências impossíveis, desnecessárias, irracionais e não constantes no Código Florestal, colocando sobre ele uma repressão policial implacável, fazendo de um ambientalista nato (a família camponesa), um inimigo das políticas ambientais. Isto tem que acabar para o bem da causa que é de todos.
2º - As diversas organizações políticas, sociais e econômicas dos camponeses brasileiros precisam se convencer de vez que o cuidado com o meio ambiente faz bem para todos, melhora a produção, melhora o regime de chuvas, diminui o impacto das pragas, garante volumes mais regulares de produção, traz novas fontes de renda e de auto-sustento nas áreas de preservação ambiental.
Promover e lutar por políticas públicas que promovam uma agricultura com áreas de uso múltiplo, que cumpram funções ambientais, seqüestrem carbono, protejam as águas e o solo e ao mesmo tempo produzam alimentos e outros bens de uso e finalidades econômicas é uma pauta bem mais interessante e inteligente do que ser linha auxiliar de um projeto de agricultura que destrói e devasta. Além do mais, esta proposta de agricultura aponta novas possibilidades de viabilidade social e econômica das produção agropecuária de pequena escala e coloca a agricultura camponesa familiar na rota do futuro e não no caminho do atraso.
Neste sentido, é necessário que as Organizações do Campo travem um debate profundo sobre a questão ambiental, os modelos de agricultura e o papel das florestas na produção e na qualidade de vida no campo e as disputas que se estabelecem em torno do Código Florestal, seja inseridos neste contexto. Não podemos debitar ao Código uma conta que não é dele. Os camponeses precisam melhorar as práticas produtivas, o Estado precisa regular melhor o Código e os Órgãos Ambientais precisam atuar preventiva e educativamente buscando com o tempo necessário as devidas adaptações.
A repressão, a polícia, os órgãos ambientais e judiciários devem centrar suas ações sobre os grandes devastadores, que certamente terão muito a fazer e com bem melhores resultados para a preservação ambiental.
O Código Florestal é sensato, pode ser cumprido e algumas questões que são dúbias podem ser resolvidas através de resoluções no âmbito do CONAMA e dos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente e no âmbito dos Ministérios do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário, aplicando corretamente o que já está definido no Código e ajudando ao Brasil todo fazer uma Agricultura realmente sustentável.
Cito, a título de exemplo que pode ser sensatamente ampliado, a Resolução 369/2006, art 11, do CONAMA estabelecendo várias possibilidades de Usos Produtivos em Áreas de Preservação Permanente, que podem ser desenvolvidas junto com a preservação Florestal:
Definições do Conselho Nacional de Meio Ambiente – Conama, sobre a retirada de vegetação em Áreas de Preservação Permanente, quando o impacto ambiental é baixo.
Art. 11. Considera-se intervenção ou supressão de vegetação, eventual e de baixo impacto ambiental, em APP:
I - abertura de pequenas vias de acesso interno e suas pontes e pontilhões, quando necessárias à travessia de um curso de água, ou à retirada de produtos oriundos das atividades de manejo agroflorestal sustentável praticado na pequena propriedade ou posse rural familiar;II - implantação de instalações necessárias à captação e condução de água e efluentes tratados, desde que comprovada a outorga do direito de uso da água, quando couber;III - implantação de corredor de acesso de pessoas e animais para obtenção de água;IV - implantação de trilhas para desenvolvimento de ecoturismo;V - construção de rampa de lançamento de barcos e pequeno ancoradouro;VI - construção de moradia de agricultores familiares, remanescentes de comunidades quilombolas e outras populações extrativistas e tradicionais em áreas rurais da região amazônica ou do Pantanal, onde o abastecimento de água se de pelo esforço próprio dos moradores;VII - construção e manutenção de cercas de divisa de propriedades;VIII - pesquisa científica, desde que não interfira com as condições ecológicas da área, nem enseje qualquer tipo de exploração econômica direta, respeitados outros requisitos previstos na legislação aplicável;IX - coleta de produtos não madeireiros para fins de subsistência e produção de mudas, como sementes, castanhas e frutos, desde que eventual e respeitada a legislação específica a respeito do acesso a recursos genéticos;X - plantio de espécies nativas produtoras de frutos, sementes, castanhas e outros produtos vegetais em áreas alteradas, plantados junto ou de modo misto;XI - outras ações ou atividades similares, reconhecidas como eventual e de baixo impacto ambiental pelo conselho estadual de meio ambiente.
Determinações semelhantes podem ser construídas, à várias bons e com intensos debates, contribuições e estudos para Reservas Legais e mesmo para as APP.
Também já há suficiente acúmulo científico, técnico e prático ( no Estado Brasileiro, principalmente no MDA, no MMA, na Embrapa e no Sistema Brasileiro de Ater e de Pesquisa Agropecuária e Florestal) para estabelecer formas de Manejo Florestal Sustentável, Manejo Agroflorestal Sustentável e Atividades reconhecidas de Interesse Social que possam estabelecer regras e parâmetros para produzir em escala, qualidade e quantidade necessários e CUMPRIR O CÓDIGO FLORESTAL, com o devido tempo de adequação e adaptação para as áreas que já foram devastadas no passado, não raro, com estímulo de políticas de Estado.
O que precisa são Políticas do Estado forte e dinâmicas para induzir estas práticas.
Para as Áreas de Reserva Legal basta ficar mais claras quais são as atividades previstas no Código, no Artigo 16º, parágrafos 2º e 3º, que dizem:
§ 2o - A vegetação da reserva legal não pode ser suprimida, podendo apenas ser utilizada sob regime de manejo florestal sustentável, de acordo com princípios e critérios técnicos e científicos estabelecidos no regulamento, ressalvadas as hipóteses previstas no § 3o deste artigo, sem prejuízo das demais legislações específicas.
§ 3o - Para cumprimento da manutenção ou compensação da área de reserva legal em pequena propriedade ou posse rural familiar, podem ser computados os plantios de árvores frutíferas ornamentais ou industriais, compostos por espécies exóticas, cultivadas em sistema intercalar ou em consórcio com espécies nativas.
E no Artigo 1º, parágrafo, inciso V, letra b, que define as atividades de interesse social:V - interesse social:b) as atividades de manejo agroflorestal sustentável praticadas na pequena propriedade ou posse rural familiar, que não descaracterizem a cobertura vegetal e não prejudiquem a função ambiental da área;
Fica claro que o agricultor PODE fazer:
a) Manejo Agroflorestal sustentável, quando for reconhecido de Interesse social, que, via de regra, o é;

b) Manejo Florestal sustentável, isto é, ele pode tirar madeira desde que não SUPRIMA, isto é, tire toda, devaste a área toda. Manejo florestal sustentável também é usar árvores para produzir comida e renda, como frutas, chás, lenha, madeira, óleos, energia, todas as formas de extrativismo;
c) Plantios de árvores frutíferas, ornamentais e industriais, inclusive exóticas, cultivadas de maneira intercalar (combinando cultivos diferentes) ou em sistemas de consórcio com espécies nativas. O Código é quase flexível demais, mas fica claro que a família agricultora pode fazer agroflorestas para extrair renda de forma inteligente e dinâmica e cumprir o Código Florestal;
d) Desenvolver Regimes de Uso das áreas de preservação que combinem plantios perenes com anuais, utilização sustentável de madeira para diversos usos, extrativismo, produção de frutos e óleos, energia e outras que possam combinar produção e preservação.
Precisa também o Estado Brasileiro, através dos Governos e do Judiciário, antes de exigir dos agricultores, cumprir as suas tarefas, ainda não cumpridas ou só cumpridas em parte, que Constam do Código, entre elas, as definições quanto:

I - o plano de bacia hidrográfica;
II - o plano diretor municipal;
III - o zoneamento ecológico-econômico;
IV - outras categorias de zoneamento ambiental
Além do mais, o Governo não precisa mudar o Código, caso precise adaptar algumas situações difíceis, pois já tem autoridade delegada para tanto, como por exemplo, mediar situações difíceis para os camponeses da Amazônia.

O Governo pode reduzir a reserva legal caso situações especiais o exijam sem mudar o Código: O Poder Executivo, se for indicado pelo Zoneamento Ecológico Econômico - ZEE e pelo Zoneamento Agrícola, ouvidos o CONAMA, o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Agricultura e do Abastecimento, poderá:
I - reduzir, para fins de recomposição, a reserva legal, na Amazônia Legal, para até cinqüenta por cento da propriedade, excluídas, em qualquer caso, as Áreas de Preservação Permanente, os ecótonos, os sítios e ecossistemas especialmente protegidos, os locais de expressiva biodiversidade e os corredores ecológicos;
II - E em muitos casos, as Áreas de Preservação Permanente podem contar também para Reserva Legal:Será admitido, pelo órgão ambiental competente, o cômputo das áreas relativas à vegetação nativa existente em área de preservação permanente no cálculo do percentual de reserva legal, desde que não implique em conversão de novas áreas para o uso alternativo do solo (.....).

4 – Propostas para implementar uma Política Ambiental e Florestal Adequando para o Campo Brasileiro:
1 – Manter o Código Florestal e cumpri-lo de forma a implementar uma agricultura camponesa sustentável, reconhecendo a importâncias das florestas para alcançar este objetivo;
2 - Interromper a devastação florestal imediatamente e criar condições e prazos compatíveis para a adequação e regularização dos que estão em desconformidade com o Código, pois a maioria foi induzida a esta desconformidade por políticas do próprio Estado;
3 – Programa amplo com recursos não retornáveis para florestar e reflorestar; constituir agroflorestas, sistemas agroflorestais e agrosilvipastoris implantando em todo o Brasil uma agricultura que preserve o meio ambiente;
4 – Recursos não retornáveis para acompanhamento técnico e assistência técnica nas comunidades camponesas e para coleta de sementes e construções de viveiros de mudas em todo o território nacional;
5 – Implantação imediata de um Programa de Pagamento por Serviços Ambientais no campo para os que preservarem matas, solo, agroflorestas, fontes e nascentes, rios, encostas, mangues, restingas e todo e qualquer serviço ambiental relevante no campo, com pagamento mensal e permanente em valores de R$ 150,00 a R$ 400,00 por família (corrigidos anualmente pela correção do Salário Mínimo) de acordo com a situação de renda e da área ambiental protegida.
6 – Criação de um Fundo Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas com imposto sobre grandes fortunas, indústrias poluentes e eletrointensivas, empresas acumuladoras de lixo, sobre produção e consumo de produtos petrolíferos e carboníferos, sobre a indústria do cimento, empresas do agronegócio, etc. Este fundo financiaria o pagamento por serviços ambientais e os custos da adequação da agricultura às exigências ambientais.
7 – Implementação de um amplo Programa de Educação Ambiental, tanto nas escolas como nas comunidades camponesas, em parceria com os sistemas educacionais e Moimentos Sociais, e campanha pública de informação através dos Meios de Comunicação, visando informar e formar a população sobre a questão ambiental e as conseqüências da devastação e as vantagens da preservação.

domingo, 4 de outubro de 2009

LEITURA GEOGRÁFICA DO DESENVOLVIMENTO E DA RESISTENCIA CAMPONESA A PARTIR DOS CONCEITOS DE CAMPONÊS E AGRICULTOR FAMILIAR.


Munir Jorge Felício[1]
I-Introdução
Como fruto do desenvolvimento tecnológico e do avanço capitalista no campo, há desde a década de 1990, diversos trabalhos acadêmicos objetivando diferenciar o camponês do agricultor familiar como dois sujeitos distintos. Concebem o primeiro como representante do velho, do atraso e do arcaico, enquanto o segundo representa o progresso, o novo e o moderno.
O esforço deste trabalho consiste em demonstrar que esta diferença não é tão nítida como se pretende, advogando a tese de que ambos são os mesmos sujeitos vivendo em condições diferenciadas. São componentes do campesinato e resistem ao avanço capitalista por vias distintas, realidade que persiste em desafiar a Ciência a encontrar o papel e o lugar dos camponeses na sociedade capitalista.
A discussão será proposta por meio de uma leitura geográfica do desenvolvimento e da resistência camponesa presente na Região do Pontal do Paranapanema. Serão discutidos os conceitos de camponeses e de agricultores familiares, por terem a organização do trabalho familiar preponderante no território camponês tanto das famílias assentadas nos projetos de Reforma Agrária, quanto das tentativas das associações dos pequenos produtores rurais.
Por fim, o conceito de conflitualidade será responsável por propor novos questionamentos, bem como, indicar uma nova direção para as discussões sobre a importância e a função dos camponeses na sociedade capitalista, elementos que interessam ao estudo da questão agrária neste início de terceiro milênio.

II - Desenvolvimento e questão agrária: teorias e debates
A leitura geográfica aqui desenvolvida é interessante por focalizar uma região do Estado de São Paulo na qual constatam-se inúmeros conflitos fundiários envolvendo posseiros, grileiros, trabalhadores rurais e governo.

“Para compreender melhor esta questão, é preciso uma breve retrospectiva histórica da ocupação do Pontal do Paranapanema. As terras da região começaram a ser griladas desde a segunda metade do século XIX, com a formação do grilo fazenda Pirapó-Santo Anástacio, com área de duzentos e trinta e oito mil alqueires. Até a década de 1990, com exceção das lutas de resistência de posseiros e de movimentos sociais isolados, os grileiros não encontraram maiores problemas no processo político de assenhoreamento das terras devolutas do Pontal. Grilagem é o processo de apropriação de terras públicas por meio de falsificação dos títulos de propriedades. Não faltaram ações do Estado para tentar impedir esse processo de grilagem” (BERGAMASCO et. al.,2003: 81-82).
O que significa refletir sobre o desenvolvimento territorial rural num contexto como esse? Qual desenvolvimento? Desenvolvimento para quem?
O desafio de quem se põe a refletir neste contexto, poderá contar com autores que, no passado produziram interessantes pesquisas e teorias sobre desenvolvimento, como Caio Prado Júnior (1989), Alberto Passos Guimarães (1977) e Celso Furtado (1964,1974), entre outros.
Para Alberto Passos Guimarães, um determinado tipo de desenvolvimento só se implantará com sucesso se tiver força para exigir o fim da coação feudal e da coação extra-econômica sobre o trabalhador. Força para ordenar a necessária destruição dos monopólios da terra e das relações coercitivas entre o coronel e o morador agregado ou o meeiro. Força para determinar o fim de todas as relações arbitrárias dos senhores da terra e também da produção voltada exclusivamente à exportação.
Na interpretação de Caio Prado Júnior o desenvolvimento implantado no Brasil, desde o período colonial, engendrou um modelo de dependência e subordinação da economia brasileira dentro do contexto internacional do capitalismo comandado pelos seus centros financeiros. Os trustes de ontem são as multinacionais ou transnacionais de hoje a serviço do imperialismo econômico mundial.
Já Celso Furtado, ao analisar a economia brasileira, entende que o subdesenvolvimento é um aspecto do modo pelo qual o capitalismo industrial vem crescendo e se difundindo desde o seu surgimento. A introdução de inovações tecnológicas em uma cultura não se efetiva sem suscitar resistências e estas, as mais das vezes, se manifestam através de conflitos sociais. Constata que a difusão mundial do progresso técnico e os decorrentes incrementos da produtividade não tenderam a liquidar o subdesenvolvimento.
A estes três autores acrescentem-se a análise de outros dois teóricos, Frank (2005) e Oliveira (2003), para os quais, o processo de expansão socioeconômica do capitalismo no Brasil, inclusive na agricultura, vem gerando, ao longo da história, desenvolvimento e subdesenvolvimento ao mesmo tempo. São concepções como estas que corroboram nas explicações dos conflitos fundiários presentes na Região do Pontal do Paranapanema, local em que se dá a disputa política por diferentes projetos de desenvolvimento do campo.
O desenrolar dessa disputa contém os elementos básicos para o estudo da questão agrária, vez que ela se interessa pelas transformações nas relações de produção: como se produz? De que forma produz?
A questão agrária é o movimento do conjunto de problemas relativos ao desenvolvimento da agropecuária e das lutas de resistência dos trabalhadores, que são inerentes ao processo desigual e contraditório das relações capitalistas de produção. Em diferentes momentos da história, essa questão apresenta-se com características diversas, relacionadas aos distintos estágios de desenvolvimento do capitalismo. Assim, a produção teórica constantemente sofre modificações por causa das novas referências, formadas a partir das transformações da realidade (Fernandes, 2001, p. 23).

O estudo da questão agrária, principalmente a partir da década de 1990, constata o enfrentamento de dois modelos de desenvolvimento territorial rural: o modelo em construção concebido pelos movimentos camponeses e o modelo norte-americano.
O modelo norte-americano, denominado agronegócio, forma o seu espaço e ocupa o território com a lógica da concentração de terras, vez que precisa de largas faixas territoriais para a utilização adequada dos seus maquinários, alguns deles guiados por satélite, instalando assim, um enorme complexo agroindustrial de formidável produtividade.
O modelo engendrado pelos movimentos camponeses, forma o seu espaço e ocupa o território guiado por outra lógica: o seu potencial de produção de alimentos está mais na diversidade do que no produtivismo e a utilização, de forma sustentável, dos recursos naturais, cuidado do meio ambiente e de suas fontes renováveis.
Desta forma, o modelo de desenvolvimento engendrado pelos movimentos camponeses no Brasil é a reação à agressão do modelo norte-americano, que, as elites nacionais dependentes, vem implantando, desde a década de 1990, como forma de maquiar o velho latifúndio. Assim, na Região do Pontal do Paranapanema e, em dimensões nacionais, por todo o Brasil, o futuro se dá no confronto da implantação destes modelos de desenvolvimento territorial. Esse é o foco do presente trabalho, interessado em refletir e discutir questionamentos como, por exemplo: qual o papel e o lugar dos camponeses na sociedade capitalista? Até que ponto o camponês e o agricultor familiar são os mesmos sujeitos vivendo em condições diferenciadas? Quais são estas condições? Ou são componentes da mesma classe social, o campesinato, que, ao longo da história foram se diferenciando por comportarem-se de forma distinta diante do avanço capitalista no campo? O futuro do campesinato está na integração do camponês ao mercado ou na luta contra o capital?
A pretensão deste texto consiste mais em abrir espaço para discussões e debates, do que apresentar definições e respostas conclusivas.

III - Os camponeses, os agricultores familiares: paradigmas em questão.
Desde a década de 1990 os conceitos de camponês e agricultor familiar sofreram profundas alterações as quais têm desencadeado pesquisas acadêmicas em diversas áreas. Na área da Geografia, a análise de duas produções acadêmicas, uma de 1990 e outra de 2000 poderá, de forma preliminar, colocar o problema em questão.
No trabalho científico de Silveira (1990, p.231), sua análise demonstra
uma gama muito grande de tipos de camponeses que vai desde aquele que racionaliza ao máximo sua produção, que está ligado a cooperativas, e tenta ajustar-se às necessidades do mercado, minimizando ao máximo seus riscos, até o posseiro, com condições mínimas de existência, que as vezes planta para ter o que comer.
Verificando os conceitos utilizados pela pesquisadora, constata-se uma mistura muito grande impedindo o esclarecimento e a compreensão.
No trabalho científico de Hespanhol (2000) há a refutação do conceito de camponês, pelo fato dele ter perdido o seu poder explicativo e ser substituído pelo conceito de agricultor familiar. Ela afirma:
que a utilização na década de 1990, da categoria de análise agricultura familiar para designar genericamente as unidades produtivas, nas quais a terra, os meios de produção e o trabalho encontram-se estreitamente vinculados ao grupo familiar, deve ser aprendida como um reflexo das alterações recentes ocorridas na agricultura brasileira e que, em última análise, levaram a valorização do segmento familiar. Nesse sentido, as categorias de análise até então utilizadas para caracterizarem essas unidades de produção, como campesinato, pequena produção, agricultura de subsistência, produção de baixa renda, entre outras, perderam seu poder explicativo, favorecendo à emergência de novas concepções teóricas consubstanciadas na categoria agricultura familiar (HESPANHOL,2000, p.2).

Ocorre que a pesquisadora optou por
restringir o foco de análise, às formas tradicionais de acesso à terra, representado pelos pequenos proprietários e arrendatários que, conduzindo diretamente as atividades e utilizando predominantemente mão de obra familiar (HESPANHOL,2000, p.3).

Esta opção é responsável pelo desaparecimento dos demais camponeses como, por exemplo, os posseiros, os agregados, os moradores, os rendeiros, os assentados, os acampados, etc...
As duas análises proporcionam vir à tona questões como: quais as principais alterações ocorridas no campo no decorrer dos últimos vinte anos? Qual a participação da produção agropecuária do agricultor familiar e do camponês no total da produção no Pontal do Paranapanema? Quais os impactos da luta pela terra na organização sóciopolítica da região? Como compreender a família como unidade doméstica de produção?
Trata-se de estudar, discutir e compreender as relações sujeito-espaço analisando as ações dos dois sujeitos: o camponês e o agricultor familiar. As Ciências Humanas não conseguiram delinear ainda, de forma satisfatória, as diferenças entre eles.
Diversos teóricos com diferentes concepções construíram inúmeras interpretações de realidades, nas quais as ações destes sujeitos podem ser identificadas. Em tais interpretações encontram-se teorias que indicam direções diferentes, compreendendo, desde a eliminação do camponês, como fruto do avanço capitalista, até sua capacidade de luta e resistência responsáveis pela criação e recriação do campesinato.
Lênin (1980;1985), por exemplo, ao discutir o desenvolvimento do capitalismo na Rússia e nos Estados Unidos, explica o processo de exploração e destruição do campesinato e a eliminação do camponês, como fruto do avanço capitalista. Para ele o trabalho familiar de fato não existe no campesinato. É pura ilusão. Tudo acaba sendo cooptado pelo capital.
A expressão fundada no trabalho familiar é um termo oco, uma frase declamatória sem qualquer conteúdo, que contribui para confundir as mais diversas formas sociais da economia, beneficiando apenas a burguesia. Essa expressão induz ao erro, ilude o público, levando-o a acreditar na não-existência de trabalho assalariado (LÊNIN, 1980, p.18).

O capitalismo utiliza enorme diversidade para atingir seu objetivo na agricultura e todos os recursos disponíveis são usados para crescer e se desenvolver.
Kautsky (1986) entende que a reprodução do campesinato com o seu trabalho familiar era resultado de um processo de auto-exploração que se aproximava da barbárie. A presença do trabalho familiar camponês significava o atraso econômico e social presente neste meio, pois
em geral sempre desconfiado, o seria em particular diante da organização, porque as condições atuais de seu trabalho e de sua vida o isolam ainda mais do que o artesão, desenvolvendo menos que neste as virtudes sociais (KAUTSKY, 1986:148).

O pequeno proprietário ou arrendatário que cultiva com sua família o seu pedaço de terra é ainda proprietário de seus meios de trabalho, representa, assim um vestígio de um modo de produção próprio de épocas passadas.
Ao estudar a unidade econômica camponesa Chayanov (1974) quer de fato averiguar a força de trabalho familiar como atividade econômica no campo e não a produção deste campo. Assim,

se queremos tener un simple concepto organizativo de la unidad de explotación doméstica campesina independiente del sistema econômico em el cual está insertada, inevitablemente deberemos basar la compresion de su esencia organizativa en el trabajo familiar (CHAYANOV, 1983-34).

Em tal unidade doméstica de exploração não existe a força de trabalho assalariado e por isso difere da unidade de exploração capitalista.
Além de analisar as relações entre terra, capital e família; a circulação do capital na unidade econômica camponesa, Chayanov analisa também as conseqüências que, para a economia nacional, surgem da natureza desta unidade econômica. Cada família conforme sua idade constitui em suas diferentes fases um aparato de trabalho completamente distinto de acordo com sua força de trabalho, a intensidade da demanda de suas necessidades, a relação consumo-trabalho e a possibilidade de ampliar os princípios da cooperação complexa.
A unidade doméstica camponesa, na compreensão de Shanin (1983) consiste na família e na sua exploração agrícola. A família fornece o trabalho necessário principalmente à produção de subsistência para satisfazer suas necessidades básicas e os tributos impostos pelos poderes econômicos e políticos. Era uma comunidade de mesa, antes de ser uma comunidade de sangue, sob a autoridade patriarcal,
una unidad doméstica campesina rusa estaba compuesta, en la mayoria de los casos, por familiares consguineos de dos ou tres generacines. Sin embargo, la condicion básica para convertirse en miembros de la misma no era el vinculo de sangre, sino la participacion total en la vida de ésta, o, en expresion de los campesinos, ‘comer del mismo puchero. (SHANIN, 1983:55).

A unidade doméstica camponesa era uma unidade básica de produção, consumo, posse, socialização, sociabilidade, apoio moral e ajuda econômica mútua.
Em uma perspectiva diferenciada, Abramovay (1992) discute o camponês e a sua forma familiar de organizar o trabalho, não mais como simples “modo de vida”, e, sim como profissão. O mercado oferece condições para profissionalizá-lo, convertendo-o em agricultor familiar cada vez mais integrado e, como novo personagem, racionaliza ao máximo sua produção,
é o que ocorreu de maneira intensa no sul do Brasil – integram-se plenamente a estas estruturas nacionais de mercado, transformam não só sua base técnica, mas sobretudo o círculo social em que se reproduzem e metamorfoseiam-se numa nova categoria social: de camponeses, tornam-se agricultores profissionais. Aquilo que era antes de tudo um modo de vida converte-se numa profissão, numa forma de trabalho (ABRAMOVAY, 1992:126-127).

Nesta mesma perspectiva alinham-se, entre outros, autores como Martins (2001), Wanderley (2001) e Neves (2005), esta última defendendo a hipótese de que o agricultor familiar é “um agente em construção, é um devir, é um emblema instituinte de representações sobre modos de organização da sociedade” (NEVES, 2005 p. 22-23).
Marques (2004), por sua vez, advoga que, por intermédio de seu trabalho, a família camponesa está apenas “perifericamente” vinculada às tramas do mercado, diferenciando assim, da família operária, que, pelo trabalho assalariado, o operário estabelece relações de dependência com o capital, pois, por esse trabalho está assegurada a sua sobrevivência. Enquanto que,

para o camponês, o trabalho se realiza de forma independente e o que ele vende ao capital é o fruto de seu trabalho transformado em mercadoria. Assim, o trabalho não aparece como coisa em si, separada do produto que dele resulta. Por seu trabalho ser independente, sua vida está apenas perifericamente vinculada às tramas do mercado, embora, na maioria dos casos, essa relação venha se adensando crescentemente (MARQUES, 2004 p.152).

Por conseguinte, a família camponesa por produzir seus próprios meios de subsistência, tem condições de suportar melhor os confrontos e os embates na defesa da terra e da vida.
Estas teorias, se agrupadas, configuram duas correntes distintas na analise da questão agrária advogando teses diferentes. Se, de um lado, agrupam defesas do desaparecimento do campesinato, por outro lado, há também quem defenda que, o campesinato não só não desapareceu, mas permanece com força produtiva respeitável desafiando teorias e teóricos a explicar tal paradoxo.
Esse trabalho insere-se nessa discussão aliando-se àqueles que entendem que o campesinato não desapareceu, vez que sua presença e atuação indicam a necessidade de compreensão do papel e do lugar dos camponeses na sociedade capitalista.
O presente trabalho procura compreender o papel e o lugar dos camponeses a partir da análise da realidade sóciopolítico da região do Pontal do Paranapanema discutindo o desenvolvimento da agricultura no capitalismo e, dentro deste quadro, entender a agricultura familiar, conceito presente desde a origem do campesinato, sendo responsável por explicar que a família, ao mesmo tempo em que é proprietária dos meios de produção, assume o trabalho no estabelecimento produtivo. Desta feita o camponês só pode ser agricultor familiar.

IV – Desenvolvimento e conflitualidade: entre a resistência e a submissão.
Analisar a produção, o trabalho e a ocupação do território nas terras do Pontal do Paranapanema não é preocupação recente, como indicado anteriormente, nas duas produções acadêmicas: de Silveira (1990) e Hespanhol (2000), por contemplarem, em suas análises, a questão agrária e, nela, o trabalho familiar.
Silveira (1990) investiga a especificidade da produção familiar camponesa como componente da produção econômica na Região do Pontal do Paranapanema, dentro da qual ocorre um processo de desterritorialização e reterritorialização com as ações de desapropriações e implantações de projetos de assentamentos e reassentamentos.
Hespanhol (2000) entende que as expansões de formas capitalistas de produção no campo levaram parcela considerável desses produtores a expropriação de seus meios de produção. Isso provocou uma grande diversidade de unidades produtivas que, não obstante as enormes diferenças de ordem econômica, social, cultural e política que as caracterizam, apresentam em comum, o fato de terem a terra, o trabalho e a família vinculados.
Assim sendo, as famílias camponesas que exploram as terras do Pontal do Paranapanema possuem pelo menos duas características comuns: a de ocupar o mesmo e determinado tipo de território: o território camponês, e, de organizar a produção tendo o trabalho familiar predominante. Desta perspectiva, contrariando a tese de Abramovay (1992), é possível afirmar que não há como diferenciar o camponês do agricultor familiar, pois são os mesmos sujeitos vivendo em condições diferenciadas.
Nos assentamentos da Reforma Agrária, implantados na Região do Pontal do Paranapanema nos últimos vintes anos, dão conta de que a história da família assentada, quase na sua totalidade, contém, entre outras informações, suas angustias e esperanças na luta pela terra. Anos de espera nos acampamentos e nas ocupações e reintegrações de posse. Marchas, ocupações de prédios públicos, atos públicos utilizados para demonstrar à sociedade a real situação de quem vive na e da terra.
Nas pequenas propriedades rurais, nos últimos vinte anos, a história da família, contém suas angustias e esperanças nas tentativas de se organizarem em associações de pequenos produtores rurais, como forma de permanecer na roça. A Associação dos Pequenos Produtores Rurais (APPR) não deixa de ser uma forma de resistência por procurar uma alternativa diante do avanço do capitalismo como demonstram, por exemplo, os dados atuais da APPR do Bairro Palmitalzinho e da FARAM do município de Alvares Machado (SP).
A APPR do Bairro Palmitalzinho possui 37 filiados entre pequenos proprietários de Regente Feijó e Anhumas. São propriedades de tamanho variados de 15 até 110 alqueires. A sede da associação se localiza no bairro rural do Palmitalzinho e disponibiliza aos associados uma máquina beneficiadora de café; um trator MF 265 equipado com uma plantadeira (para lavoura branca); um micro computador com Internet; uma unidade abastecedora de óleo diesel. Esses bens pertencem aos associados em sistema de cotas.
Seus principais produtos são leite, café, feijão, milho e algodão, além da engorda de suínos para o consumo familiar e da horta.
A análise dos seus quinze anos de existência não autoriza dizer que seus associados conseguiram proporcionar um pujante desenvolvimento, pois, além do uso comum dos equipamentos citados acima, os proprietários se unem uma vez por ano para a compra coletiva do adubo. Juntos conseguem melhor preço do que individualmente.
A FARAM do município de Álvares Machado (SP) é a extinta Federação das Associações Rurais de Álvares Machado que chegou congregar 10 APPRs daquele município, que, num universo de 805 pequenas propriedades de até 50 hectares, essa federação congregou metade delas. Nada desprezível.
Hoje a FARAM está juridicamente constituída, mas deixou de funcionar. Em outras palavras, existe no papel, mas não na prática. Para montar a estrutura física e administrativa há recursos do governo estadual e federal, porém os agricultores não conseguiram mantê-la em exercício, em virtude do seu alto custo de funcionamento. Como informou um agricultor: “Não conseguimos manter a máquina funcionando” (depoimento do Sr. João Vitorino de Moura, ex-integrante da FARAM)
A luta pela terra nos assentamentos da Reforma Agrária e as iniciativas das associações dos pequenos produtores rurais do Pontal do Paranapanema configuram os resultados do modelo de desenvolvimento territorial rural que vem sendo implantado pelas elites dependentes neste país. Modelo que privilegia o latifúndio em detrimento das unidades menores de produção, acirrando a luta de classes e o conflito entre a territorialidade capitalista e a territorialidade camponesa.
Neste contexto, a pequena produção cuja organização tem como preponderante o trabalho familiar é atividade secundária, periférica e acessória (Wanderley, 2001). São os

... pequenos agricultores que, ao longo do tempo, gravitaram marginalmente em torno da agricultura de exportação e de suas crises e vicissitudes. Nunca no centro dos projetos nacionais (MARTINS, 2001).

Contudo, a cada ano, a cada safra os resultados demonstram o paradoxo que se instalou nos campos do Brasil, pois as pequenas unidades de produção são responsáveis pelos melhores índices:

1. Em 2003, o PIB da Agropecuária Familiar cresceu 14,31% em relação ao ano anterior. Esse valor é superior ao crescimento do PIB da Agropecuária Patronal (11,08%).
2. Em 2003, o PIB das Lavouras da Agricultura Familiar cresceu 18,41% em relação ao ano anterior. Esse valor é superior ao crescimento do PIB das Lavouras da Agricultura Patronal (14,61%). (apud. FERNANDES, 2005a p. 52).

Como compreender isso? Qual a função do trabalho familiar dentro desta conjuntura? O futuro do campesinato está na sua integração ao mercado ou na luta contra o capital?
Esse entendimento é mais bem construído se se partir de uma visão crítica e comprometida com a transformação da realidade, aprofundando e ampliando a discussão numa perspectiva que confronte o pensamento consensual. Nesta perspectiva torna-se indispensável à construção da análise que contemple de forma inerente à dimensão da conflitualidade.
Conflitualidade é um conceito que, recentemente, vem sendo utilizado para a leitura e interpretação da realidade atual dentro da questão agrária conforme Fernandes (2005 a; 2005 b); Gonçalves (2005) e Santos (2004). São contribuições que corroboram para a compreensão de realidades como a violência no campo, a criminalização da luta pela terra, a violência do Poder Público e privado (Comissão Pastoral da Terra, 2004).
A conflitualidade é o processo de enfrentamento perene alimentado pela contradição estrutural do capitalismo que produz concentração de riqueza de um lado e expande a pobreza e a miséria do outro. Ou, como dito anteriormente, o capitalismo produz desenvolvimento e subdesenvolvimento simultaneamente.

Um conflito por terra é um confronto entre classes sociais, entre modelos de desenvolvimento, por territórios. O conflito pode ser enfrentado a partir da conjugação de forças que disputam ideologias para convencerem ou derrotarem as forças opostas. Um conflito pode ser ‘esmagado’ ou pode ser resolvido, entretanto a conflitualidade não. Nenhuma força ou poder pode esmagá-la, chaciná-la, massacrá-la. Ela permanece fixada na estrutura da sociedade, em diferentes espaços, aguardando o tempo de volta, das condições políticas de manifestações dos direitos. [...] Os acordos, pactos e tréguas definidos em negociações podem resolver ou adiar conflitos, mas não acabam com a conflitualidade, porque esta é produzida e alimentada dia-a-dia pelo desenvolvimento desigual do capitalismo. (FERNANDES, 2005a:26).

Gonçalves (2005) elenca alguns elementos para compreender a reprodução continuada da conflitividade e da violência no campo brasileiro que aqui serão sucintamente reproduzidos. São eles:
a) além da violência física, há a violência simbólica praticada pela imprensa, omitindo informações e veiculando uma noção acrítica do que seja progresso;
b) a simples presença de organizações indígenas, de afrodescendentes, de camponeses e de mulheres, enquanto protagonistas, já é por si indício de que uma outra ordem está em curso e que a ordem estabelecida está em questão;
c) nossa formação social e política desde os primeiros momentos, não se pautaram pela mediação pública na resolução de conflitos;
d) são os pactos políticos responsáveis pela segurança e garantia de governabilidade;
e) a estrutura fundiária desigual que admite e aceita que mais de 50% das terras do País não sejam sequer cadastradas (GONÇALVES, 2005, p.150-156).
A reprodução da conflitividade e a violência no campo indicam que os movimentos camponeses no passado e no presente simbolizam e concretizam um caminho alternativo, uma proposta diferente, que, pelo confronto presente perspectivas futuras são inauguradas, como ensina Fernandes (2005 a: 27) “o tratamento da questão agrária não pode contemplar apenas o momento de conflito, mas sim o movimento da conflitualidade, seu caráter histórico e geográfico em todas as dimensões atingidas pela questão agrária”.
A conflitualidade se faz presente na análise da realidade, mas pode também estar presente nas discussões teóricas objetivando convencer ou derrotar oponentes. A conflitualidade presente nas teorias, nos paradigmas, nos discursos promove verdadeira disputa intelectual confrontando compreensões e leituras, as quais indicam necessariamente alternativas distintas, às vezes opostas, outras antagônicas e nem sempre complementares.
Quando estas defesas forem executadas por um conjunto de pensadores e suas respectivas produções cientificas, diz-se tratar de um “think tank”.
Os “think tanks” configuram um conjunto de pensadores e um conjunto de produções cientificas necessárias, para com elas, dominarem a política. O domínio político é a sua razão de ser e existir. Para atingirem esse objetivo, constroem referências teóricas a partir de suas leituras e interpretações da realidade e com elas, estabelecem paradigmas, como um conjunto de pensamentos, teorias e teses através das quais almejam compreender e explicar a realidade.
O pensamento consensual, aquele que defende a expansão do capitalismo de maneira única e homogênea, agrupa alguns de seus teóricos como “think tank” denominado RIMISP
[2] - Centro Latinoamericano para el Desarrollo Rural, trata-se de
una organizacion sin fin de lucro, fundada en 1986, que apoya el aprendizaje organizacional y la innovacion para promover la inclusion, la equidade, el bienestar y el desarrollo democrático en las sociedades rurales latinoamericanas.

O pensamento crítico, aquele que defende o aprofundamento e a ampliação da discussão numa perspectiva que confronte o pensamento consensual possibilitando a compreensão das realidades em suas complexidades e diversidades, agrupam alguns de seus teóricos como “think tank” denominado CLACSO
[3] – Centro Latino Americano de Ciências Sociais.
O RIMISP está vinculado ao Banco Mundial, enquanto que a CLACSO vincula-se a Via Campesina.
Assim, a análise da produção, do trabalho familiar e da ocupação do território na Região do Pontal do Paranapanema, onde se encontram as associações dos pequenos produtores e as famílias assentadas nos projetos de Reforma Agrária torna-se cenário provocativo para uma leitura geográfica sobre o desenvolvimento e a resistência camponesa numa realidade onde acontece concomitantemente resistência e submissão.
V - Conclusão
A leitura geográfica do desenvolvimento e da resistência camponesa construída neste trabalho analisou a questão agrária a partir da observação da realidade sóciopolítico da Região do Pontal do Paranapanema.
Nesta região do Estado de São Paulo há uma acirrada disputa política por um determinado modelo de desenvolvimento territorial. A disputa se dá entre o modelo norte-americano, denominado agronegócio e o modelo engendrado pelos movimentos camponeses. A resistência camponesa, como componente inerente deste último modelo, é empreendida pelas famílias acampadas e pelas famílias assentadas nos projetos de Reforma Agrária. É empreendida também pelas famílias dos pequenos produtores rurais que se organizam em pequenas associações.
Ambas resistem ao avanço capitalista no campo e, simultaneamente, são submissas ao capital. Ambas têm o trabalho familiar predominante. Ambas usufruem os laços de parentesco e de vizinhança como as colaborações mútuas, o uso do mutirão em determinadas ocasiões e os vínculos de solidariedade. Assim sendo, o camponês só pode ser agricultor familiar, não havendo como estabelecer diferenças entre eles. Na verdade o que há são duas formas de resistências contendo métodos e perspectivas diferentes.
A resistência torna-se ainda mais pujante quando estas forças se aglutinarem formando uma frente de oposição ao avanço capitalista, como promove a Via Campesina juntando, em determinadas ocasiões, as organizações camponesas que são as forças vivas de resistências no campo.
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[1] Professor universitário e membro do NERA((Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária – UNESP – campus de Presidente Prudente/SP).
[2] Conferir: www.rimisp.org
[2] Conferir www.clacso.org