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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Patrimônio estrangeiro no Brasil soma 30% da riqueza anual do país

 Censo de capitais estrangeiros 2010 do Banco Central (BC) recolhe 13 mil declarações e contabiliza US$ 660 bilhões, o equivalente a 30% do produto interno bruto (PIB). Sistema financeiro controla quase US$ 100 bilhões. Holanda e Estados Unidos são os principais países de origem dos recursos. Medidos pela primeira vez, empréstimos entre matriz e filial atingem US$ 80 bilhões.

BRASÍLIA – Os estrangeiros possuem US$ 660 bilhões no Brasil, o equivalente a 30% das riquezas produzidas no país durante um ano (PIB). Na divisão por setor de atividade econômica, o maior volume está nos serviços, com destaque para o sistema financeiro (US$ 99 bilhões). Já em relação ao país de origem do capital, a liderança é da Holanda (US$ 169 bilhões) ou dos Estados Unidos (US$ 104 bilhões), dependendo do critério usado pelo Banco Central (BC), autor das estatísticas.
Os números constam de um censo dos capitais estrangeiros que o BC faz a cada quatro anos desde 1995, a partir de declarações entregues pelos controladores dos recursos. A versão preliminar da pesquisa, com 13,7 mil declarações sobre dados de 2010, foi divulgada nesta quinta-feira (15).
O censo anterior, com valores de 2005, registrara US$ 472 bilhões. De lá para 2010, a quantia subiu 40%. A comparação entre ambos não dá uma ideia correta sobre a evolução do estoque de capital estrangeiro no país, pois o BC mudou a abrangência do censo. Passou a contabilizar também dinheiro emprestado por uma matriz no exterior para sua filial no Brasil, em operações chamadas de intercompanhia. Segundo o BC, esse procedimento é comum no mundo todo.
O total de dólares que circulou entre multinacionais em 2010 foi de US$ 80 bilhões. Excluindo-se esse montante, para que se possa comparar com o resultado do censo 2005, a variação observada nestes cinco anos foi de 53%.
Pelos setores de atividade, os US$ 660 bilhões se distribuem em 43% nos serviços, 40% na indústria e 17%, na agropecuária e mineração. No primeiro, a liderança é do segmento sistema financeiro (US$ 99 bilhões). Na indústria, bebidas (US$ 52 bilhões). E, na agropecuária/mineração, petróleo (US$ 56 bilhões).
Em relação ao país de origem do dinheiro, o BC utiliza dois critérios contábeis. Um chamado de “investidor imediato”, outro de “investidor final”. O primeiro indica qual foi a última parada do dinheiro antes de aportar no Brasil. O segundo faz um novo “carimbo” no dinheiro, levando em conta quem são os acionistas por trás da empresa investidora.
De acordo com o BC, o segundo critério “permite conhecer a origem primária dos recursos investidos, minimizando a distorção que a canalização de investimentos por paraísos fiscais e centros financeiros internacionais gera nas estatísticas bilaterais”.
Pelo primeiro critério, quem ganha é a Holanda, terra da Ambev/Inbev, seguida de Estados Unidos (US$ 169 bilhões), Espanha (US$ 125 bilhões) e Luxemburgo (US$ bilhões). Pelo outro, Estados Unidos (US$ 104 bilhões), Espanha (US$ 85 bilhões), Bélgica (US$ 50 bilhões) e multinacionais brasileiras (US$ 47 bilhões).
Fonte: http://www.cartamaior.com.br

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

INDÚSTRIA DO ALUMÍNIO - A FLORESTA VIRADA EM PÓ



A exploração de bauxita e sua transformação nos minérios industriais alumina e alumínio é um caso extremo do que os estudiosos denominam Economia de Enclave.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Capitalismo selvagem: Brasil Foods é multada em quase R$ 5 milhões por exploração de trabalhadores

 
 
A BRF Brasil Foods S.A. de Capinzal, em Santa Catarina, que responde por 9% das exportações mundiais de proteína animal e é a única companhia do Brasil com rede de distribuição de produtos em todo o território nacional, foi multada em quase R$ 5 milhões, por descumprir decisão judicial. A Unidade que abate cerca de 450.000 frangos/dia, emprega hoje 4.500 pessoas das quais 20% tem algum tipo de doença ocupacional.
No dia 8 de fevereiro de 2010, a Juíza da Vara do Trabalho de Joaçaba, Lisiane Vieira, concedeu tutela antecipada em ação movida pelo Ministério Público do Trabalho obrigando a empresa a conceder pausas de recuperação de fadiga de 8 minutos a cada 52 minutos em atividades repetitivas e notificar as doenças ocupacionais comprovadas ou objetos de suspeita. 
A mesma tutela proibiu a BRF Brasil Foods S.A de promover jornadas extras para minimizar os efeitos nocivos do trabalho a seus funcionários. Ao julgar mandado de segurança movido pela empresa, o Tribunal Regional do Trabalho cassou a tutela antecipada, mas em recurso interposto pelo MPT o Tribunal Superior do Trabalho, por unanimidade, restabeleceu a decisão da Vara do Trabalho de Joaçaba.
O descumprimento das pausas gerou a execução de multa no valor de R$ 10 mil ao dia, desde 28 de junho deste ano. Também foram executadas multas de R$ 20 mil ao dia, desde a mesma data, em razão da BRF Brasil Foods SC não emitir Comunicações de Acidentes de Trabalho. 
As multas somam R$ 4,7 milhões. Da decisão cabe recurso, mas a empresa deverá depositar o valor para poder recorrer. O Frigorífico solicitou à Justiça a nomeação de um bem em garantia ao invés de realizar pagamento em dinheiro, pedido negado em razão da legislação processual estabelecer prioridade de penhora em dinheiro.
Para o Procurador do Trabalho Sandro Eduardo Sardá, Gerente Nacional do Projeto do MPT de Regularização das Condições de Trabalho em Frigoríficos, "é lamentável que mesmo após a concessão de tutela antecipada pela Vara de Joaçaba, mantida pelo TST, determinando a adoção de medidas essenciais à proteção à saúde e dignidade humana, a empresa continuou violando os direitos fundamentais dos trabalhadores. Trata-se de grave desrespeito ao Poder Judiciário Trabalhista, ao Ministério Público, aos trabalhadores e a toda a sociedade".
Nesta segunda-feira (12), o Procurador lembrou que recentemente a BRF Brasil Foods em Capinzal investiu cerca de 50 milhões de reais em automação de seus processos industriais, e "mesmo assim os empregados continuam submetidos a um rito de trabalho intenso e incompatível com a saúde física e mental, com a realização de 70 a 120 movimentos por minuto, quando estudos apontam que o limite de 30 a 35 movimentos por minuto não deve ser excedido", enfatizou.
A BRF Brasil Foods fechou 2010 como a terceira maior exportadora do país. É uma das maiores empresas de alimentos do mundo, e foi criada a partir da associação entre a Perdigão e Sadia. Atua nos segmentos de carnes (aves, suínos e bovinos), alimentos industrializados (margarinas e massas) e lácteos, com marcas consagradas como Perdigão, Sadia, Batavo, Elegê, Qualy, entre outras.
Com faturamento líquido de R$ 23 bilhões registrado em 2010, a BRF exporta para 140 países, opera 61 fábricas no Brasil (distribuídas em 11 Estados) e três no exterior (Argentina, Reino Unido e Holanda). Mantém 24 escritórios comerciais no Exterior e emprega cerca de 115 mil trabalhadores.

DOENÇAS OCUPACIONAIS*


Estudos realizados pela própria BRF Brasil Foods na Unidade de Videira comprovam:
  • 68,1% dos empregados do setor de aves sentem dores causados pelo trabalho;
  • 65,31% dos empregados do setor de suínos sentem dores causados pelo trabalho;
  • 61,79% dos empregados estabelecem relação entre a dor e o trabalho desenvolvido na área de aves
  • 60,34% dos empregados estabelecem relação entre a dor e o trabalho desenvolvido na área de aves;
  • 70,89% dos postos precisam de intervenção ergonômicas no setor de aves;
  • 95,5% dos postos precisam de intervenção ergonômicas no setor de suínos;
  • 30,24% dos empregados manifestaram dormir mal no setor de aves e 33,18% no setor de suínos;
  • 49,64% dos empregados manifestaram se sentir nervosos, tensos ou preocupados no setor de aves e 50,43% no setor de suínos;
  • 12,26% dos empregados manifestaram que alguma vez pensou em acabar com a sua vida no setor de aves
  • 13,46% dos empregados manifestaram que alguma vez pensou em acabar com a sua vida no setor de suínos.
  • Cerca de 20% de toda a mão de obra em frigoríficos vem sendo acometida de doenças ocupacionais.
*Fonte: Programa de Reabilitação Ampliado mantido pela Perdigão em Videira.
Fonte: http://www.bonde.com.br/?

terça-feira, 5 de abril de 2011

Walmart: um monstro próximo de você!

Mulheres trabalhadoras contra Walmart que ganhou uma estranha vida própria

A defesa da Walmart frente uma ação coletiva que acusava a empresa de práticas discriminatórias contra suas mulheres trabalhadoras lança nova luz sobre a biologia das megaempresas privadas. A companhia argumenta que com “sete divisões, 41 regiões, 3.400 estabelecimentos comerciais e mais de um milhão de empregados”, as experiências dos empregados individuais são demasiado distintas para permitir juridicamente uma ação coletiva. O artigo é de Barbara Ehrenreich.

O que é a Walmart, em um sentido estritamente taxonômico? Considerando somente suas dimensões, seria fácil tomá-la por uma nação: em 2001, suas receitas anuais eram iguais ou maiores a de 22 países. Se reuníssemos todos seus empregados – 1,4 milhões só nos Estados Unidos – diríamos que é uma grande cidade. Mas também é possível ver a Walmart e outras empresas de alcance planetário, não como conjuntos agregados de pessoas, mas como formas independentes de vida, como espécies de superorganismos.

Essa parece ser a conclusão da decisão de Citizens United v Federal Election Commission, onde a Corte Suprema dos Estados Unidos, incorrendo em delirante antropomorfismo, resolveu que as grandes corporações empresariais são realmente pessoas e que, por essa razão, gozam de liberdade de expressão e do direito de fazer contribuições financeiras ilimitadas para campanhas eleitorais. Vocês dirão que a noção de personalidade já se degradou a ponto de resultar irreconhecível pelos ativistas “pró-vida” que a estenderam a células individuais como os zigotos. Mas a Corte deve ter pensado que seria discriminatório atender a razões de tamanho: se uma célula microscópica pode ser uma pessoa, por que não um brontossauro, um tsunami ou uma empresa transnacional?

Mas a defesa da Walmart frente uma ação coletiva que acusava a empresa de práticas discriminatórias contra suas mulheres trabalhadoras – Dukes x Walmart – lança nova luz sobre a biologia das megaempresas privadas. A companhia argumenta que com “sete divisões, 41 regiões, 3.400 estabelecimentos comerciais e mais de um milhão de empregados”, as experiências dos empregados individuais são demasiado distintas para permitir juridicamente uma demanda “coletiva”. A Walmart, em outras palavras, é demasiado grande, demasiado multifacetada e demasiado diversa para ser juridicamente demandada.

Assim, a Walmart é realmente uma pessoa, uma pessoa sem sistema nervoso central, ou ao menos sem controle central das distintas partes de seu corpo. Existem pessoas assim, admito, mas não há dúvida que, quando a Suprema Corte declarou que as corporações empresariais eram pessoas, não se referia a “pessoas com enfermidades neuromusculares degenerativas agudas”.

Para quem nunca visitou um estabelecimento da Walmart, direi que a empresa não é um conglomerado de boutiques governadas por divas egoístas. Todos os detalhes, desde as políticas de pessoal até a equipe de ferramentas de cada planta, estão determinados pelo quartel general da empresa em Bentonville. Um exemplo: em 2000, trabalhei durante três semanas no departamento de roupa feminina de um Walmart (isso me permite agora ser parte da ação coletiva contra a empresa por discriminação de gênero, ainda que a possibilidade de uma indenização com uma cifra de vários dígitos, creio, não tenha influído em meu juízo sobre o assunto). No curso do meu trabalho, tive a oportunidade de fazer várias sugestões ao meu supervisor. Por exemplo: que as calças de tamanho extragrande não fossem exibidas junto ao chão, porque as mulheres que usam esse tamanho não poderiam pegá-las sem precisar de ajudar para voltar a se levantar. Boa ideia, me disse, mas cabe a Betonville decidir onde se colocam as calças ou qualquer outro produto.

Muitas coisas mudaram desde que eu trabalhei na Walmart. A companhia lutou para melhorar sua tradicional imagem de empresa exploradora. Empenhou-se em dizer que promoverá mais as mulheres. Mas uma coisa que certamente não fez foi reestruturar-se como um coletivo anarquista. Betonville segue imperando absolutamente tanto sobre os direitos dos estabelecimentos como sobre os “associados”, o termo eufemístico empregado por Walmart para referir-se aos seus sempre mal retribuídos trabalhadores.

De modo que, se Walmart é uma forma viva, é de uma espécie inclassificável. Come, devorando cidade após cidade, às vezes mudando de nome: Walmex no México, Asda no Reino Unido. No entanto, na defesa apresentada na ação Dukes vs. Walmart, a empresa alega não ter ideia do que está fazendo. Isso poderia ser uma metáfora do capitalismo, ou um indício de que está em curso uma invasão alienígena exitosa. A única coisa certa é que, se a Corte Suprema decidir a favor da Walmart, experimentaremos uma proliferação dessas criaturas: “pessoas” monstruosamente superdimensionadas que insistem em sua incapacidade para controlar suas ações.

(*) Barbara Ehrenreich é presidente da “United Professionals” e autora, recentemente, de “This Land is Their Land: Reports From a Divided Nation”.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Agencia Carta Maior

Veja também esse Documentário - " The Corporation" que lança uma luz sobre as cooporações transnacionais.



segunda-feira, 12 de julho de 2010

Milho transgénico: farsa e violência

Por Silvia Ribeiro

Em finais de 2009, o governo mexicano autorizou o cultivo experimental de milho transgénico em 12,7 hectares, rompendo uma moratória de mais de 10 anos, a favor das transnacionais Monsanto, DuPont (proprietária da Pioneer Hi-Bred) e Dow.

Em 2010, sem ter os resultados da sua suposta experimentação, aceitou outra vintena de solicitações das mesmas transnacionais, às quais se juntou a Syngenta. As novas solicitações para cultivos experimentais de milho transgénico estão em consulta pública, outro eufemismo governamental, já que as opiniões críticas são ignoradas.

Se lhe parece que 12,7 hectares das solicitações aprovadas em 2009 não é muito, imagine um metro quadrado e pense que são mais de 120 mil metros quadrados, em apertadas filas de milhares de plantas manipuladas geneticamente, cada uma das quais emite pólen suficiente para contaminar muitas mais. As novas solicitações pretendem ocupar mais de mil hectares, ou seja, mais de 10 milhões de metros quadrados.

Ao dar trâmite a estas novas solicitações, o governo evidenciou que não julga necessário esperar os resultados dos mal chamados "experimentos", como faria qualquer instituição séria, porque de qualquer modo não se trata de experimentar: os resultados mostrarão o que eles tiverem decidido previamente, uma vez que são apenas uma formalidade para legalizar as plantações comerciais das empresas. Cedo veremos um show mediático dizendo que comprovaram que «o milho transgénico produz mais, as pragas não sobrevivem, e nada foi contaminado». O que vai contra a evidência que existe da produção real, segundo estatísticas oficiais sobre dezenas de milhares de hectares e 13 anos de cultivos comerciais nos Estados Unidos, que mostram que 75-80% do aumento de produção de milho nesse país se deveu a enfoques agronómicos não transgénicos [1]. Plantar transgénicos não aumenta a produção, antes a detém. A semente é até 35 por cento mais cara e, estando patenteada, a contaminação torna-se num delito para as vítimas. Também está amplamente demonstrado que o milho transgénico contamina inexoravelmente outras variedades. Nos Estados Unidos, a contaminação difundiu-se de tal maneira por todo o país, que até se encontrou nos pacotes de sementes etiquetados como não transgénicos.

A razão pela qual os Estados Unidos e uns poucos países os plantam (em mais de 170 países não estão autorizados) não é que os transgénicos ofereçam algo melhor, senão que a Monsanto e algumas das outras cinco transnacionais que monopolizam as sementes, controlam de tal modo o mercado (e/ou os governos), que os agricultores não têm escolha.

Procuram que tudo isto se replique no México. Mas aqui a contaminação transgénica do milho implica muitas outras questões, ainda mais graves. O México é o centro de origem do milho e o cultivo está no centro das economias e da autonomia das culturas milenárias que o criaram. O milho integra a dieta quotidiana da grande maioria da população, urbana e rural, pelo que os impactos sobre a saúde se multiplicam como em nenhum outro lugar. A vasta maioria da população do país, desde artistas e intelectuais a cientistas e camponeses, opõe-se à sua liberalização. Os argumentos para isso são numerosos, diversos e sólidos.

Por outro lado, faça você uma busca electrónica para ver quem defende o cultivo de milho transgénico em México. Todos, começando por Agrobio México, fachada das multinacionais de transgénicos, têm vinculação directa ou indirecta com essas empresas. Todos recebem ou receberam dinheiro e favores destas, sejam académicos, directores de organizações de agricultura industrial, funcionários ou assessores que estão na maquinaria da bio(in)segurança no México, incluído o próprio secretário executivo da comissão de bio-segurança (Cibiogem).

O cultivo de milho transgénico no México é uma imposição do governo, contra os interesses do país e a favor de umas poucas multinacionais. Nem sequer cumprem as leis que eles mesmos delinearam, nem esperam pelo arranque da farsa de "resultados positivos" dos seus "experimentos". Tentam que as pessoas do campo e da cidade se acostumem também a esta forma de violência, que pensem que não há nada a fazer.

Muito pelo contrário, a Rede em Defesa do Milho, integrada por centenas de comunidades indígenas e camponesas, em conjunto com a Via Camponesa e a Assembleia Nacional de Afectados Ambientais denunciaram em Março passado esta farsa, assentaram que o milho transgénico na Mesoamérica é um crime contra a humanidade, que as transnacionais e o governo querem pisar 10 mil anos de história colectiva e que o seu objectivo é roubar-nos o futuro a todos e a todas. Estão a construir um caso colectivo para denunciar este crime em tribunais internacionais, mas sobretudo, continuarão a praticar a defesa territorial do milho, a partir das assembleias, das comunidades e das organizações, informando sobre os riscos, conservando e trocando as suas sementes, não deixando plantar milho de programas de governo. A violência imposta existe e cresce, mas também a experiência de mais de 500 anos de resistência.

[1] Failure to Yield, Union for Concerned Scientists, 2009.

Fonte: Diário da Liberdade

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Monsanto é autuada pela ANVISA.


Monsanto é autuada

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que autuou a Monsanto por omissão de informações. A Anvisa informou que, durante fiscalização realizada na fábrica da multinacional em São José dos Campos (SP), na semana passada, "constatou que a Monsanto omitiu informações relacionadas ao processo de produção do agrotóxico Glifosato Técnico Monsanto". "O objetivo de conhecer o detalhamento do processo de síntese do Glifosato Técnico tinha a finalidade de definir o produto como sendo de referência para a concessão de registros por equivalência de outros agrotóxicos com o mesmo ingrediente ativo", afirma, em comunicado, o diretor da Anvisa José Agenor Álvares

Fonte: Curtas - Jornal Valor Econômico ( 04.05.2010).

sábado, 30 de janeiro de 2010

Stédile promete cerco mundial à Cutrale

Líder do MST critica polícia, defende ataque à fazenda da empresa e diz que ''ocupar terra pública não é crime''

Por Sandra Hahn
O líder do Movimento dos Sem-Terra João Pedro Stédile criticou ontem a prisão de nove pessoas ligadas ao MST nesta semana, disse que "ocupar terra pública não é crime" e prometeu uma campanha "de denúncia" contra a Cutrale por injustiças que atribuiu às atividades da fabricante de suco. "Vamos mobilizar nossos amigos em todo o mundo", afirmou Stédile, dizendo que a campanha começaria no Fórum Social Mundial, onde participou de seminário.
"Vamos aproveitar o fórum para denunciar a forma como a Cutrale produz esse suco, que depois ela entrega para a Coca-Cola", declarou o líder.
A Operação Laranja, que resultou nas prisões, foi desencadeada pelas investigações para apurar os responsáveis pela invasão da Fazenda Cutrale em Borebi (SP), em outubro. Sete nomes estavam na lista dos mandados de prisão que seriam cumpridos e dois foram detidos por porte ilegal de armas.
Stédile reiterou que "ocupar terra pública não é crime, é um dever". Acrescentou que "a Polícia Civil de São Paulo está exagerando por motivação política" e considerou que a ação aproveitou o calendário eleitoral, porque em fevereiro o Congresso voltará do recesso e recomeçam os trabalhos da CPI que vai apurar denúncias de irregularidades em convênios entre a União e entidades ligadas ao MST. Segundo ele, a fazenda foi ocupada para denunciar "que a Cutrale é invasora de uma terra pública".
REFORMA AGRÁRIA
Stedile criticou andamento da reforma agrária, dizendo que o presidente Lula descumpriu compromissos com o MST, e pediu que o governo faça a revisão dos índices de produtividade, que servem para avaliar as propriedades rurais para fins de reforma agrária.

Fonte: O Estado de São Paulo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A nova geopolítica da fome


Por João Pedro Stedile*

Nos anos 60, 80 milhões de pessoas sofriam fome no mundo. Estava no auge o capitalismo industrial e as empresas multinacionais se expandiam por todo o planeta para dominar os mercados e explorar a mão-de-obra barata e os recursos naturais dos países periféricos. Nesse contexto foi lançada a Revolução Verde, que prometia acabar com a fome. Seu mentor, Norman Borlaug, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1970.
O verdadeiro objetivo era introduzir uma nova matriz produtiva na agricultura com base no uso intensivo de insumos industriais. A produtividade por hectare aumentou e a produção mundial quadruplicou. Mas os famintos passaram de 80 milhões para 800 milhões.Hoje em dia, 70 países dependem das importações para alimentar seus povos. Isto demonstra que o novo modelo de agricultura serviu para concentrar a produção e o comércio agrícola mundial de alimentos em não mais de 30 multinacionais: Bunge, Cargill, ADM, Dreyfuss, Monsanto, Syngenta, Bayer, Basf, Nestlé, etc. Uma notícia ruim recente nos diz que, segundo as estimativas, as reservas de petróleo, fonte de energia dominante no mundo contemporâneo, não vão durar mais de 30 anos. Outra avaliação inquietante nos alerta que avança perigosamente o aquecimento global.
Diante desta perspectiva se formou uma aliança diabólica entre as empresas petroleiras, automobilísticas e agroindustriais para produção em grande escala de agrocombustíveis (que enganosamente são chamados de biocombustíveis) como o etanol em países com abundância de terra, sol, água e mão-de-obra barata. Nos últimos cinco anos, milhões de hectares antes dedicados à alimentação e controlados por camponeses foram captadas por grandes empresas e utilizadas para implantar monoculturas de cana-de-açúcar, soja, milho, palma africana ou girassol a fim de produzir etanol ou óleos vegetais.
Está se repetindo a manipulação da Revolução Verde. Neste caso, como o preço do etanol está vinculado ao preço do petróleo, a taxa média de lucro da agricultura sobe de nível e faz aumentar os preços da comida. Entretanto, os agrocombustíveis não resolverão o dilema da energia nem do aquecimento global. Os cientistas nos alertam que para substituir apenas 20% de todo o petróleo consumido no mundo atualmente teríamos de utilizar todas as terras férteis do planeta. Já estávamos vivendo uma situação anômala na produção e nos preços dos alimentos quando sobreveio a crise do capital financeiro.Muitos detentores de volumosas quantias de capital financeiro, seja na forma de dinheiro ou de capital fictício (títulos do Tesouro, obrigações, hipotecas), temerosos de enfrentar perdas, correram para investir nas bolsas de mercadorias e futuro e comprar bens naturais – terra, energia, água – nos países periféricos.
Com conseqüência desses movimentos de capitais as cotações dos produtos agrícolas em todo o mundo já não estão relacionadas com os custos de produção e nem mesmo com os volumes da oferta e da demanda. Agora oscilam rapidamente ao ritmo das especulações na bolsa e do controle oligopólico exercido pelas multinacionais sobre o mercado internacional de alimentos. Isto é, que a humanidade está nas mãos de um punhado de multinacionais e de grandes especuladores.Resultado: segundo a FAO os famintos aumentaram novamente, somente nos dois últimos anos, de 800 milhões para 925 milhões.
E milhões de camponeses na América Latina, Ásia e África estão perdendo suas terras e emigrando. Diante desta nova situação, a Via Camponesa, que reúne dezenas de organizações de camponeses de todo o mundo, postula uma transformação radical no sistema da produção e do comércio dos alimentos. Defendemos o princípio da soberania alimentar: que em cada região e em cada país os governos apliquem políticas públicas que estimulem e garantam a produção e o acesso a todos os alimentos necessários para suas respectivas populações.
Não existe nenhuma região no mundo que não tenha capacidade potencial de produzir sua própria alimentação. Como explicou na década de 50 Josué de Castro, autor de “Geopolítica da fome”, a fome e a falta de alimentos não provêm de uma condição geográfica ou climática, mas são resultado de relações sociais de produção. Afirmamos que a humanidade deve considerar à alimentação como um direito natural de todo ser humano. Isto implica que os produtos agrícolas não devem ser tratados como uma mercadoria cuja finalidade seja o lucro empresarial, e que se deve estimular e fortalecer os pequenos agricultores, já que esta é a única política que pode manter a população nas áreas rurais. E desde já, com a meta de obter alimentos sãos e seguros, excluímos o uso de agrotóxicos.
Até agora, os governantes de fizeram de surdos às nossas reclamações. Mas, a menos que adotem mudanças radicais, as contradições e os problemas sociais se agravarão e, cedo ou tarde, explodirão. (IPS/Envolverde)* João Pedro Stédile, membro do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e da Via Campesina Internacional.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O monopólio é a causa da fome no mundo

Por Archibaldo Figueira
Bastou Luiz Inácio anunciar que pretendia fazer do Brasil "a Arábia Saudita do Biocombustível" e informar que os pobres do mundo estão comendo mais, para o imperialismo, representado por Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, pedir um esforço global contra o flagelo da fome, que seguirá em escalada até 2015 devido à alta dos preços dos alimentos.
Responsabilizando os biocombustíveis pela disparada dos preços alimentícios, Zoellick, como Luiz Inácio, finge não saber que apenas 50 transnacionais controlam a produção agrícola mundial, detendo a terra, os cultivos, a industrialização e a comercialização.

Voracidade
A escandalosa alta de preços do arroz, feijão, milho, soja e outras commodities vai matar 100 milhões de pessoas, sendo 10 milhões na América Latina, segundo cálculos da CEPAL, visto que a irracionalidade da chamada "globalização neoliberal" atingiu grau tão elevado, que as leis de mercado funcionam ao contrário do que apregoam os economistas de aluguel: a maior oferta, junto com a menor capacidade de compra, não resulta em queda de preços, mas no contrário.O mito do "livre mercado" produziu concentração e centralização de capitais e recursos em poucas mãos, ou seja, fortaleceram aqueles poucos donos do mundo que intensificam a exploração e impõem os preços que bem entendem para obter o lucro máximo. Na verdade, a "globalização" não intensificou a concorrência, mas facilitou a tomada de controle do mundo por meia dúzia de potências que dão as cartas no FMI e Banco Mundial e OMC. Sem a menor preocupação em alimentar a humanidade, os Monos-pólios condicionam diariamente a vida de todos, criando guerras reais e de mercado, infiltrando-se nos governos e meios de comunicação, concentrando enorme poder de propaganda, comprando políticos e tribunais inteiros, e se apropriando dos mercados, desde a produção até a compra direta do consumidor. Se é assim, em âmbito doméstico, pior ainda no plano internacional, no qual o preço de cada mercadoria internacionalizada é objeto de especulação. Não há mais uma relação direta do preço com o custo de produção, que é apenas uma referência. A manipulação maior dessas empresas sobre a produção nacional e comércio internacional é um instrumento para alcançar seus lucros.A influência desse setor sobre a política econômica da gerência Luiz Inácio é por meio do Banco Central, que monitora as taxas de juros e câmbio. Numerosos especialistas estabelecem uma correlação direta entre o aumento do preço do arroz e outros gêneros e a desvalorização do dólar. Para eles, governos (como o chinês) e os fundos de risco, que representam capitais especulativos, estão aplicando grandes somas de seus dólares, antes que se depreciem, em terras e bolsas de artigos agrícolas, como o arroz.

Supermercado

O bicho-papão dos supermercados é o Wal-Mart, com 4.500 lojas em 14 países e faturamento maior do que o produto interno bruto da Arábia Saudita e da Áustria. Em seguida, vêm Carrefour, Home Depot, Metro e Royal Ahold, segundo pesquisas do Grupo ETC, Oligopoly Inc 2005, que monitora as atividades das corporações globais, especialmente na agricultura, alimentação e farmácia.Maior rede varejista do mundo — tem quase 1,7 milhão de funcionários —, maior companhia ianque, mais poderosa cliente das indústrias de bens de consumo, o Wal-Mart passou de um empório a uma potência cujas vendas alcançam inacreditáveis 300 bilhões de dólares ao ano. Muitos dos grandes movimentos do capitalismo americano — como a recente fusão da Procter & Gamble com a Gillette — foram resultados da enorme pressão exercida pela rede. As prateleiras do Wal-Mart e de todos os outros supermercados do Brasil estão abarrotadas de produtos da Bunge, como as margarinas Delícia, Primor, Soya, Cyclus; os óleos Soya, Primor, Salada e Cyclus; as maioneses Primor e Soya; e azeites Delícia e Andorinha. Muitos desses óleos são transgênicos e, por determinação judicial, deveriam ter um rótulo especial para alertar o consumidor. Nunca respeitaram esse dispositivo legal. A gerência Luíz Inácio prometeu quebrar este monopólio, mas até agora não adotou nenhuma providência.Com a Cargill e a ADM, a Bunge controla 60% da produção de soja no Brasil, para alimentar o gado na Europa. O preço e o comércio das commodities, em geral, são manipulados ainda pela Dreyfus, Syngenta e Monsanto.Para colocar cada vez mais produtos no mercado mundial, esse grupo promove o desmatamento ilegal, inclusive com trabalho escravo, grilagem de terras públicas e violência contra comunidades locais.A especulação desses grupos é responsável pela elevação dos preços dos cereais, principalmente o arroz, artigo que não é utilizado na produção de biocombustíveis e cuja safra atingiu o recorde de 423 milhões de toneladas. Seu preço, entretanto, mais que duplicou em um ano, passando a tonelada de 360 para 760 dólares.

Laticínios
Na área de laticínios, o mercado é manipulado por apenas três: a Nestlé, a Parmalat e a Danone. A Nestlé domina também o setor de processamento de alimentos e vende o dobro ou o triplo dos demais componentes do monopólio: Archer Daniel Midlands, Altria, PepsiCo, Unilever, Tyson Foods, Cargill, Coca-Cola, Mars e Danone. Há décadas a Nestlé é responsabilizada pela desnutrição e morte de crianças de idade tenra, devido à suspensão precoce das campanhas em prejuízo do aleitamento materno, para expandir as vendas dos seus produtos, principalmente o leite em pó, as sopinhas e papinhas que, muitas vezes, contém até alimentos transgênicos.

Há décadas a Nestlé é responsabilizada pela desnutrição e morte de crianças devido à suspensão das campanhas do aleitamento materno, para expandir (suas) vendas principalmente do leite em pó,das sopinhas e papinhas que até contém transgênicos

Cerca de 46 milhões de crianças frequentam as 170 mil escolas fundamentais mantidas pelo poder público no Brasil. Pelo menos 30% dessas crianças só podem frequentar os bancos escolares porque é servida uma refeição na escola. E a merenda escolar também é campo para toda sorte de corrupção por parte dos monopólios.Recentemente, o Tribunal de Contas de São Paulo descobriu uma fraude na Prefeitura de São Paulo que promoveu uma licitação para a merenda escolar. Examinando o processo, o Tribunal de Contas percebeu que o edital fora preparado para beneficiar a Nestlé-Maggi, corporação transnacional que se comprometia a atender todas as exigências dos nutricionistas, compreendendo 7 kg de carne, 2 kg de cenoura e 3 kg de "outras" hortaliças (por 100 kg de sopa desidratada a ser distribuída). Logo após a contratação, Kassab autorizou a Nestlé-Maggi a mudar a receita da sopa, que passou a ter apenas 0,5 kg de carne, 0,8 kg de cenoura e 1 kg de "outras" hortaliças. O preço do contrato, todavia, permaneceu o mesmo.Constatou-se que a Nutri Plus, empresa terceirizada responsável pelo fornecimento da merenda escolar, oferece um bônus mensal de R$ 40 reais às merendeiras que reduzirem a quantidade do ali-mento dos estudantes das escolas municipais, entregando maçã aos alunos pela metade; misturando pedaços de frango a legumes não previstos no cardápio ou acrescentando bastante água ao molho de tomate para a refeição render mais.Este crime foi denunciado por nove cozinheiros de escolas municipais, que, indignados com a medida, se recusaram a receber o abono. Nem a Câmara Municipal conseguiu instalar uma comissão parlamentar de inquérito para comprovar a fraude.

Sementes e Fertilizantes
Entre 2005 e 2007, as 10 maiores indústrias de sementes, que detinham um terço comércio global, passaram a controlar a metade, e a Monsanto, após a compra da empresa mexicana Seminis, passou a controlar 90% da venda, inclusive das transgênicas, seguida pela Dupont, Syngenta, Groupe Limagrain, KWS Ag, Land O'Lakes, Sakata, Bayer Crop Sciences, Taikii, DLF Trifolium e Delta and Pine Land. Em agrotóxicos, as 10 principais concentram 84% das vendas globais e são: Bayer, Syngenta, BASF, Dow, Monsanto, Dupont, Koor, Sumitomo, Nufarm e Arista. Os analistas dizem que, com tal nível de concentração, em breve serão apenas três: Bayer, Syngenta e BASF. No Brasil, as lavouras de soja (33%), de milho (17%), de cana-de-açúcar (15%), café (8%) e algodão herbáceo (5%) são as maiores consumidoras de fertilizantes, respondendo por 78% do consumo nacional. Esse mercado movimenta mundialmente cerca de US$ 60 bilhões anuais. O grupo Bunge, com sede no USA, faturou R$ 18,2 bilhões em 2006 no Brasil. Só a Bunge fertilizantes tem aqui 3.000 funcionários e 60 mil clientes.

Criança implora por comida
Ao atribuir a escalada mundial dos preços dos alimentos ao aumento de consumo das massas empobrecidas, o Califa do Etanol, Luiz Inácio varreu da memória a pesquisa realizada pelos Correios no último Natal, comprovando que as crianças pediam a Papai Noel uma cesta básica digna do nome, e não os tradicionais brinquedos. O jornal francês Le Figaro analisou a pesquisa, batizada de "Operação Papai Noel", destacando que em Pernambuco, 60% das 11 mil cartas revelavam que as crianças pobres pediam geralmente uma cesta básica, mesmo que suas famílias fossem atingidas por um dos programas caritativos e compensatórios da gerência FMI-PT.Para o jornal francês, as cartas "têm um efeito ainda mais chocante porque as lojas experimentaram a maior explosão de consumo nos últimos 11 anos no Brasil, onde se verifica um dos mais elevados índices de desigualdade do mundo. A Operação Papai Noel demonstra que o programa de subsídios sociais instaurado pelo governo Lula não é suficiente nem para reduzir os desvios estruturais, nem para erradicar a fome.
A escassez dos alimentos Analisando os custos da alimentação, em 2007, todos os institutos de pesquisa constataram que o preço dos artigos básicos superou de longe o reajuste de 8,57% fixado para o salário mínimo em abril, com aumentos da cesta básica variando de 11,46% em Curitiba, 24,38% em Aracaju e 29,79% em Belo Horizonte. É preciso afirmar que entre os setores mais empobrecidos da população esses índices são consideravelmente ampliados.Os repetidos discursos de todos os integrantes da gerência FMI-PT, estimulando cultivos vinculados à monocultura latifundiária para exportação e destinados à produção de biodiesel, como soja, cana, milho e outros artigos, provocou o abandono da produção de alimentos como o feijão, que registrou um aumento de preço de 200%, em média. O desvio de finalidade de alimentos para os biocombustíveis causou também o aumento dos preços nos supermercados, como o milho em grão (50,7%), e óleos combustíveis (33,27%). A plantação total ocupou em 2007 uma área de 46,4 milhões de hectares, 0,3% maior que a do período anterior. Os produtos que mais apresentaram incremento na produção foram: o trigo com 71,5% (1.597,7 mil toneladas); o milho 1ª e 2ª safra com 3,9% (1.999,3 mil toneladas) e o arroz com 5,5% (625,7 mil toneladas). Porém isto não acompanha as reais necessidades da população. Como consequência, o salário mínimo necessário para suprir as despesas (alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência) de uma família de quatro pessoas seria, em dezembro, de R$ 1.803,11, de acordo com o calculo do Dieese. Isto representa 4,75 vezes o valor do salário mínimo fixado pela gerência Luiz Inácio. O economista Heron do Carmo, da Faculdade de Economia e Administração da USP, explica que o padrão de inflação registrado em 2007 foi mais intenso para os pobres, que, segundo ele, gastam mais da metade do que ganham com comida.Ele diz que foi um padrão diferente do que acontecia em anos anteriores, em que a alta de preços era sentida pelas pessoas com renda maior.

Agora, o domínio da terra
Com a intensificação das grandes jogadas no mercado de alimentos e produção de biocombustíveis, bancos e especuladores estrangeiros passaram a comprar maciçamente terras no Brasil, único país a dispor de campos com área e clima favoráveis à expansão da agricultura para atender às exigências das grandes potências. Esse movimento tem provocado alta no preço das propriedades rurais. Entre 2001 e 2007, o valor médio subiu 131% em reais e 219% em dólar. AIG Capital, fundo de investimentos que já teve participação na Gol Linhas Aéreas, no Frigorífico Mercosul e na Fertilizantes Heringer, está investindo US$ 65 milhões na compra de ações da Calix Agro, subsidiária da Louis Dreyfus Commodities, criada para adquirir terras e plantar no Brasil. A Cargill construiu ilegalmente um porto às margens do Rio Tapajós, em Santarém, no Pará, de onde exporta soja para seu terminal em Liverpool, na Inglaterra. De lá, a soja vai até a produtora Sun Valley, também de propriedade da Cargill que, por sua vez, a utiliza para alimentar frangos para produzir os nuggets, distribuídos para as lanchonetes do Mcdonalds em toda a Europa.
Texto Original Postado em:
http://www.anovademocracia.com.br/content/view/1694/105/

terça-feira, 21 de julho de 2009

A MODERNIDADE TRANSGÊNICA - Dioclécio Luz


Nos idos de 1500 chegaram uns bandidos por esta terra brasilis trazendo a boa nova religiosa e capitalista, modernosa e modernista. Os que estavam aqui, ditos povos primitivos, atrasados, aborígenes, preguiçosos e indolentes, trataram bem aqueles. Afinal, os invasores, embora feios, barbudos e exalassem uma fedentina medieval, pareciam seres humanos feito eles.
O preço da amistosidade saiu-lhes caro. Os índios foram presos, torturados, massacrados. Quase foram exterminados. Eram 5 milhões quando esses bandidos chegaram aqui. Pois, resistiram, e hoje devem ser uns 300 mil. Sobreviveram à modernidade.
Passou o tempo, e o arado da modernidade rasgou terras, sujou os rios, destruiu as matas, poluiu o ar e a alma, fez guerras, ampliou a miséria, e então, dois pontos, revelou o caráter sujo da civilização. O que sobrou da Segunda Guerra foi uma divisão do mundo – o de lá e o de cá. Por azar ficamos do lado de cá, onde ficam os servos do império da norte-amerciano.
Nos idos de 60 foi imposto ao mundo, e ao Brasil em particular, uma modernidade especial: a agricultura tecnológica, também chamada de “agricultura moderna”. Essa modernidade, com o apoio da FAO (Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), foi imposta ao planeta, obrigando-o a descartar todo seu conhecimento agrícola e ambiental – sua história - e substituí-lo por este. Ora, aqui havia pelo menos 10 mil anos de convívio dos índios com a terra e outros 400 anos de experiência negra e do europeu miscigenado. Foi tudo pro lixo em nome da modernidade nos campos.
E o que é essa modernidade? Primeiro ela é industrial (seu caminho é o interesse da indústria); segundo, ela é radical, fora dela nada presta. O bloco industrial capitalista, fortalecido no pós-guerra com a vitória no conflito mundial, criou produtos para o mercado. Pior para nós, o pacote de insumos para agricultura é todo ele casado: o agricultor compra sementes; as sementes são frágeis e precisam de adubação ou não crescem; por serem frágeis, também são facilmente atacadas pelos insetos, e daí o agricultor tem que usar agrotóxicos; os inseticidas fazem surgir tribos de insetos mais resistentes (são 400 espécies imunes hoje no mundo) e, por isso o agricultor tem que usar cada vez mais quantidade de veneno ou partir para um novo produto (moderno!) que a indústria oferece; como o agrotóxico é veneno, o trabalhador tem que tratar da saúde com remédios (produzidos pelos mesmos fabricantes, como Rhodia, Hoescht, Novartis...); as sementes são “selecionadas”, só produzem uma vez, o agricultor tem que ir ao mercado todo ano; como tudo isto custa caro, o agricultor tem que plantar em larga escala para que haja o lucro – usando o trator que eles vendem, claro. Eles vendem tudo. O agricultor não
vive sem ele. Quem tem mercado tem tudo.
No cerne desse balaio tecnológico, a indústria é a única entidade que não corre riscos. Se chover, se a terra tremer, se der geada, se cair granizo, se o Diabo vomitar na terra, mesmo assim, o lucro estará garantido para a indústria.
A agricultura moderna é isso aí. Uma das consequências óbvias deste modelo é a concentração de terras a expansão do latifúndio. Aliás, não há como produzir nenhuma das culturas tradicionais se não se pensar em larga escala, em monocultura.
Outras efeitos da introdução da agricultura moderna: poluição generalizada do meio ambiente, contaminação e morte de agricultores, produção de alimentos poluídos, dependência total do agricultor,... Este é o modelo adotado para se fazer a “revolução verde”. Qualquer alternativa dentro dele não é revolucionária, não é socialista. Verticalizar a produção, por exemplo, é um viés de lucro dentro do modelo. Tanto que o discurso ruralista inclui a verticalização. O ícone maior – dependência da indústria – se mantém gordo e bonito. Agora, considere fazer reforma agrária dentro deste modelo? Imagine um assentamento depender de insumos e dos preços determinados pelos financista de Wall Street?
O discurso modernista é o discurso ruralista. E ele pega, gruda na cultura porque vem embalado como ciência. As universidades deram o embasamento a este modelo negocista-colonialista e anti-ecológico. O Governo, através da Embrapa, colocou seus melhores pesquisadores a serviço da indústria, deste modelo, e, através da extensão rural, impôs este arrumado tecnológico aos agricultores do país. Disse para esta gente: “eis a modernidade, fora disto é o primitivismo”. Repare direitinho, que é a mesma conversa de Cabral e sua gangue quando chegaram aqui. O debate ecológico sobre o uso moderado, controlado, adequado, racional, ou integrado, de agrotóxico, portanto, é papo de aranha carangueijeira. Todas essas “alternativas” não são alternativas. É banda de pagode – é tudo igual, a diferença é só a grife do terno, não muda nada.
O problema é o modelo tecnológico. A pressão dos ambientalistas obriga os governos a buscarem solução para os problemas. Mas, veja bem, os problemas são gerados pelo próprio governo e pela indústria. E a solução que propõem não é para mudar o modelo. Pelo contrário. Por exemplo, se é grande o nível de contaminação por agrotóxicos no meio rural, o Estado procura os fabricantes que propõem uma saída; uma saída que não reduz o consumo de venenos.
Ela pode ser uma proposta moderna como o "manejo integrado de pragas", ou outra moderna, como "o controle biológico", mas, principalmente, os cursos de "uso adequado de defensivos agrícolas". Tudo isso para mostrar que: 1) se o agricultor morre ao manipular venenos, a culpa é sua, que não adotou as normas recomendadas pelos fabricantes; 2) o modelo não pode ser modificado; 3) o modelo é moderno e tem o aval acadêmico.. Enfim, o modelo se mantém. Nada se altera. Agora é a vez dos transgênicos, a biotecnologia. Todo mundo já sabe que isto é moderno. Exatamente como antes, quando impuseram os agrotóxicos, também dizem que se o Brasil não adotar os transgênicos, vai perder o metrô da história. Enfim, a gente que receber bem Cabral e sua gangue, mais uma vez. Quem diz isto? Ora, o Governo, a indústria e – como sempre – um bom número de cientistas.
O curioso na categoria dos cientistas (se é que é categoria) é que muitos se comportam como se a sociedade devesse ouvi-los e acata-los como se fossem enviados de Deus para nos trazer a verdade. Veja bem, olhe nos olhos de alguns deles, não parece que integram uma seita radical, absolutista, com seus dogmas suas imposições?...
Quando a indústria trouxe a "revolução verde" não faltaram (e não faltam ainda) cientistas para avalizar o grande crime ecológico, social e econômico contra a humanidade. Citam números, estatísticas, pesquisas, para mostrar que, apesar de algumas falhas (morte e devastação) a agricultura moderna produziu alimentos. Alguns consideram normal tem um quinto da população passando fome no planeta, outros acham até razoável que crianças se contaminem e morram ao manipular agrotóxicos nas lavouras, e há aqueles que acham lógico que a pequena propriedade rural tenha se tornado inviável economicamente. Há cientistas assinando a propaganda da indústria; algumas até mentirosas, como a barganha em cima da miséria humana, ao declararem que é preciso aumentar a produção de alimentos porque cresce a população mundial. Ora, a produção mundial de alimentos já daria para abastecer todo mundo. Se tem gente morrendo de fome não é por ter ou não alimento, o problema é que a comida está no mercado, e falta dinheiro para comprar.
A expansão da engenharia genética realça este debate. Antes de tudo, porém, é preciso compor a mesa: quem deve participar deste debate? Quem for à página eletrônica da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), o órgão que aprovou a entrada e comércio da soja transgênica, sem avaliar seus riscos sobre a saúde humana e ao meio ambiente, vai encontrar textos científicos favoráveis aos transgênicos. Tudo que está lá é prótransgênico. Não há uma linha citando as experiências (científicas) que mostram que os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) são perigosos à saúde, ou representam riscos à flora. Enfim, a CTNBio tomou posição radical em defesa dos interesses da indústria. É a mais abjeta expressão de servidão de um órgão público ao império do momento; ainda mais que se instala no altar da ciência para impor seus argumentos. Usa desta prerrogativa cultural (a ciência como dona da verdade) para determinar o que a sociedade deve consumir.
No início, portanto, é o verbo. Ao invés de permitir que a verborragia burocrática, eivada de interesses ex-pátrios determine seu futuro, cabe a sociedade falar, e estabelecer seu norte. Nenhuma categoria tem o dom da verdade, e, por isso, deve a sociedade lhe entregar a última palavra sobre as coisas e as coisas. Cientistas, economistas, políticos, engenheiros, médicos, faxineiras, jogadores de futebol, ambientalista, é tudo gente, é tudo ser humano. Uns prestam e outros não prestam, uns são decentes e outros indecentes, mas todos são parte da sociedade e têm o mesmo peso de opinião neste debate. Todo mundo tem que entrar nele. Nas vezes em que se deixou para o Estado ou a classe empresarial, ou uma outra classe aí, decidir sobre a introdução de nova tecnologia, a sociedade se ferrou.
Também tem uma coisa: a discussão não é nem científica. A discussão é sobre se a sociedade deve aceitar ou não os transgênicos no mercado. Os fabricantes estão pensando em negócios, em monopolizar a produçãode alimentos; o Governo FHC pensa nos negócios desta gente; mas, e a sociedade? Deve engolir este tipo de comida só porque, dizem, é moderno?
No caso específico dos OGMs, o que está em jogo é uma revolução. Se alimentos engenheirados, ou com produtos engenheirados forem colocados no mercado, o que acontecerá com que os consumir? Quais os efeitos sobre o organismo? O corpo humano se adaptará facilmente ou algumas pessoas terão que morrer até que surjam os capazes de suportar a introdução da nova tecnologia? O pulmão aumentará de tamanho? Que novas doenças surgirão?
Ora, ora, ora, é tempo de se fazer um grande debate sobre o assunto. O que vem exatamente por aí não se sabe. Talvez a cura do câncer, talvez a cura da AIDS, novas armas letais, talvez novos vírus e novos fungos, novos seres,... Lá, naquele sorvete de maracujá com sabor de girimun, aonde foi instalada uma bactéria que lhe dá a cor vermelha... De uma coisa, porém, a gente tem certeza, trata-se da introdução no meio ambiente de novo tipo de poluição, a biotecnológica. Esta é muito pior e de efeitos menos conhecido que a nuclear ou a química. Se uma coisinha transgênica, uma quimera aí, escapar pro meio ambiente, pode fazer um estrago no planeta que o transformará em sucata.
O jeito será substituí-lo. Será que os seres humanos comuns, os que não têm ações da Monsanto ou da Novartis, estão preparados para esta possibilidade? Devem participar do debate ou comprar uma passagem para Júpiter em 345 prestações?