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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Os verdadeiros rostos do terrorismo em África

por Komla Kpogli
 
Recursos africanos. Dizem-nos agora que o terrorismo ameaça a África e que em nome da luta contra o mesmo trava-se actualmente uma "guerra humanitária" no Mali. Examinemos o que é realmente o terrorismo sob os trópicos.

Após quatro séculos de razzias negreiras transatlânticas e árabo-muçulmanas e mais de um século de colonização, as populações africanas entraram em luta pela sua libertação. Mas estas lutas foram curto-circuitadas e os seus condutores logo assassinados e substituídos por fantoches sanguinários cuja única missão é confirmar a manutenção do continente na órbita daqueles que investiram para privá-lo de todos os seus recursos – a começar pelos recursos humanos que, depois terem servido nos campos de algodão, nas minas, nos estaleiros de obras longe da África, devem continuar a trabalhar para o seu bem-estar agora no próprio continente. Sob o controle de vigilantes vestidos com fato e gravata, tal como o mestre.

Infelizes os povos governados por escravos seleccionados e libertos para as necessidades da causa pelos mestres que os vestem à sua imagem, criando nestes "vigilantes" a ilusão de que se tornaram seus iguais. O poder do terror que o mestre atribuiu a estes contramestres revela-se tão destruidor que certos africanos não vacilam em lamentar abertamente a substituição do colono de olhos azuis por aqueles que, pela cor da pele, pareciam serem seus irmãos. Juventude remetida ao exílio pelo Mediterrâneo onde, se não for abatida pelos tiros dos guarda-fronteiras do Frontex , é devorada por tubarões, predação, avidez, desprezo para com as populações, violência incessante, destruição metódica de toda ideia voltada para o endógeno... eis alguns dos métodos de governo dos sátrapas.

Aqui está um breve resumo do terrorismo de alguns dentre eles. O leitor nos desculpará não termos mencionado todos. É por falta de espaço e nenhuma outra razão. Assim, o leitor é convidado a completar a lista, mesmo a enumerar os crimes que não puderam ser mencionados aqui.

1. Gnassingbé 1º + Gnassingbé 2º: 50 anos no poder no Togo, pelo menos 50 mil mortos directos por violências militar-policiais. Assassinato de Sylvanuys Olympio e a seguir o retorno do Togo ao regaço da França, pelo menos 100 mil togoleses mortos de diversas maneiras (crimes económicos, manutenção do Franco CFS, cooperação suicida, ausência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

2. Bongo 1º + Bongo 2º: 46 anos no poder no Gabão, pelo menos 20 mil mortos directos, pelo menos um milhão de africanos no Gabão mortos de diversos modos (financiamento de partidos políticos em França, manutenção do Franco CFA, cooperação suicida, ausência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

3. Paul Mvondo Biya : no poder nos Camarões desde há 31 anos, no mínimo 40 mil mortos directos, pelo menos um milhão de africanos do território dos Camarões mortos de diversas maneiras (crimes económicos, manutenção do Franco CFA, cooperação suicida, inexistência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

4. Blaise Compaoré: Assassino de Thomas Sankara , de Norbert Zongo e seus companheiros, no poder desde há 26 anos, pelo menos 15 mil mortos directos, no mínimo um milhão de africanos do Burkina Faso mortos de diversas maneiras (crimes económicos, manutenção do Franco CFA, cooperação suicida, inexistência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

5. Denis Sassou Nguesso (República do Congo): criminoso reincidente que totaliza 29 anos no poder, pelo menos 100 mil mortos directos por violências militares e policiais, saqueadores profissionais de fundos públicos com a sua família e clientes, pelo menos um milhão de africanos mortos de diversas maneiras (crimes económicos, manutenção do Franco CFA, cooperação suicida, inexistência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

6. Omar Guelleh: no poder no Djibuti desde há 14 anos, mesmos crimes que os terroristas antecedentes.

7. Idriss Deby: no poder no Tchad desde há 23 anos, mesmos crimes que os antecedentes.

8. Alassane Dramane Ouattara (Costa do Marfim): no poder desde há um ano, criminoso com o FMI onde dirigiu directamente o Planos de Ajustamento Estruturais. Chegou à presidência transportado nos carros de combate e bombardeiros franceses, acompanhados de terroristas dirigidos por Guillaume Soro desde há 10 anos, pelo menos 30 mil mortos directos, no mínimo 50 milhões de africanos mortos via FMI e Banco Mundial a quem Ouattara serviu + crimes económicos, manutenção do Franco CFS, cooperação suicida, inexistência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

Etc, etc. Todos estes terroristas beneficiam do apoio logístico, intelectual e mediático da França, bem como de outros "Amigos da África" que não hesitam em combater directamente nas suas costas contra os africanos que actualmente "salvam" no Mali do terrorismo que corta mãos e pés. Quem libertará os africanos dos terroristas?
18/Janeilro/2013
Ver também:
  • A guerra no Mali
  • No African Union troops to Mali
  • Pentagon’s Hand Behind French Intervention in Mali

    O original encontra-se em http://lajuda.blogspot.com/ e http://www.legrandsoir.info/les-vrais-visages-du-terrorisme-en-afrique.html


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • O PCF e a guerra no Mali

    por Greg Oxley [*]
    Cartoon de Latuff. A intervenção militar no Mali envolveu a França numa nova guerra imperialista. Por trás das motivações oficiais, esta visa garantir e estender as posições económicas e estratégicas do capitalismo francês naquela região. Além dos seus recursos naturais – actuais e potenciais –, o Mali, terceiro produtor africano de ouro, está rodeado por vários países em que grandes grupos franceses, como a Total e a Areva, estão fortemente implicados. O grupo Areva encontra no Níger um terço das suas necessidades de urânio. A Total explora o petróleo da Mauritânia. O capitalismo francês domina a Costa do Marfim. Com as suas vastas reservas de gás e de petróleo, a Argélia é o primeiro parceiro comercial da França na África. São sobretudo os interesses dos grandes grupos franceses nestes países vizinhos que fazem do Mali uma aposta estratégica importante do ponto de vista do imperialismo francês.

    François Hollande saudou a aprovação "unânime" desta guerra tanto na Assembleia Nacional como no Senado. A UMP (direita) e a Frente Nacional (extrema direita) aprovam-na. O Partido Socialista também aprovou. Mas Hollande também pôde contar com o apoio da direcção do nosso próprio partido, o PCF, o que chocou numerosos militantes comunistas. Esta decisão, como em 2001, aquando da invasão do Afeganistão, associa o partido à política imperialista da França diante da opinião pública. Ela vai contra a tradição anti-imperialista e antimilitarista do PCF.

    A verdade é a primeira vítima de uma guerra imperialista. A dissimulação dos verdadeiros objectivos das guerras é de importância vital para os imperialistas. O primeiro dever do movimento operário – e do nosso partido em particular – é explicar as suas verdadeiras causas e objectivos. Quanto à guerra no Mali, a direcção do nosso partido fracassou neste dever.

    Uma guerra contra o fundamentalismo?

    Segundo o governo francês, a intervenção em Mali justificava-se pela ameaça iminente da tomada de Bamaco [a capital] por "fundamentalistas islâmicos". Oficialmente, a intervenção visava portanto bloquear o avanço das milícias islâmicas, destruí-las e proteger assim a população dos seus abusos. Motivações tão nobres são dificilmente criticáveis. O problema é que a explicação oficial é uma farsa. Serve só para mascarar os verdadeiros objectivos desta operação. Cada vez que as potências imperialistas lançam uma guerra, armam-se de pretextos "humanitários" deste género: a guerra contra a Sérvia era para proteger os albaneses, os Estados Unidos invadiram o Iraque para proteger os xiítas e o Afeganistão para proteger a mulher afegã e erradicar o terrorismo; a guerra na Líbia visava impedir um massacre iminente da população de Bengazi. Deveríamos por isso apoiar estas intervenções?

    No Mali, a França estaria em guerra contra o jihadismo e a intervenção responderia a um pedido do regime local. No entanto, este regime é uma ditadura militar, culpada, também ela, de numerosos abusos e assassinatos. Mas o governo dá a entender que, em comparação com os jihadistas, a ditadura militar seria um "mal menor". Em contraste, na Líbia, a aviação francesa – em aliança com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos – apoiou fortemente milícias jihadistas para derrubar a ditadura de Kadafi. As potências ocidentais coordenaram seus ataques para facilitar os movimentos em terra de grupos como o de Abdel-Hakim Belhaj. Ligado à Al Qaeda, Belhaj tomou o controle de Tripoli após a derrota das forças de Kadafi. Naquela época os media apresentavam-nos estes jihadistas não só como o "mal menor", mas até como autênticos "revolucionários"!

    Na Síria, o alinhamento de forças é comparável àquele que prevaleceu durante a guerra na Líbia. Aqueles que os media nos apresentam como "revolucionários" são, no essencial, financiados, armados e enquadrados por agentes da Arábia Saudita e do Qatar. O mesmo François Hollande que justifica a guerra no Mali pela necessidade de bater o "fundamentalismo" faz ao mesmo tempo sermões a favor de uma intervenção militar na Síria a fim de apoiar as milícias fundamentalistas. Ele já concedeu o reconhecimento diplomático da França ao Conselho Nacional Sírio (CNS), cujo componente dominante é nada menos que a Irmandade Muçulmana.

    Assim, a França imperialista – da qual Hollande não é senão o executante – não se opõe por princípio ao "fundamentalismo islâmico". Ao contrário, não hesita em apoiar fanáticos fundamentalistas quando isso pode beneficiar seus interesses. Em outras circunstâncias, o imperialismo francês poderia apoiar os jihadistas no Mali, chamando-os oportunistamente de "rebeldes" ou "revolucionários", contra o regime de Bamaco. Mas, neste caso, a guerra actual no Mali é conduzida no interesse dos grandes grupos capitalistas franceses e para contrariar as ambições de seus rivais, nomeadamente, nesta região, o Qatar, que financia milícias (Mujao e Ansar Eddine) para expandir a sua zona de influência e fortalecer a sua posição em futuras "negociações". A intervenção francesa é apoiada pela Arábia Saudita que, apesar de armar e financiar movimentos fundamentalistas por todo o mundo, quer travar a expansão dos interesses do Qatar na África do Norte. O Qatar reforçou consideravelmente as suas posições na Líbia, no Egipto e na Tunísia.

    Para tentar justificar a sua posição, a direcção do PCF explica que quaisquer que sejam nossas análises sobre os objectivos reais da intervenção, esta ainda assim permitiu repelir as milícias fundamentalistas, bloqueando seu avanço rumo à capital e libertando várias cidades que estavam sob o seu controle. Estes são factos que ninguém pode negar. Mas o reconhecimento desta realidade não esgota a questão. Se considerarmos a "protecção das populações" contra abusos, e repressões, etc, como um pretexto suficiente para justificar intervenções militares, então seria preciso apoiar e até mesmo exigir intervenções militares em numerosos países do mundo! É verdade que a intervenção francesa repeliu a milícia para o Norte, por enquanto sem grande dificuldade. Ainda que essas milícias continuem a estar omnipresentes no Mali ou alhures – e talvez, conforme as circunstâncias do momento, com o apoio da França! – O seu recuo actual é, por assim dizer, um subproduto de uma intervenção que continua a ser imperialista. Portanto, este recuo dos jihadistas não deveria justificar a caução a esta intervenção pelos dirigentes de nosso partido.

    Que fazer?

    Isso não impede que a nossa posição sobre a guerra no Mali não possa limitar-se a uma simples oposição de princípio. Muitos camaradas que são contra a intervenção ou que sentem, pelo menos, que algo "não claro" nas justificações oficiais, não querem ver o fundamentalismo propagar-se e instalar-se ainda mais, seja na África ou alhures. Opor-se à intervenção, dizem no essencial, equivaleria a permanecermos passivos perante a ameaça fundamentalista. De facto, a nossa atitude para com a guerra não pode resumir-se a uma espécie de pacifismo passivo. A guerra é um problema concreto que requer uma abordagem política também concreta. Como comunistas, precisamos de um programa de acção contra esta guerra e contra a guerra imperialista em geral, em solidariedade internacionalista com as vítimas de agressões militares – quer das milícias fundamentalistas quer dos exércitos "regulares".

    Quais deveriam ser os pontos chave do programa do PCF quanto à guerra no Mali?· Em primeiro lugar, o PCF deveria explicar que para lutar contra o fundamentalismo é preciso começar por atacar os poderosos interesses financeiros e industriais que são os principais fornecedores de armas e equipamentos das milícias, a saber, a Arábia Saudita, o Qatar e os outros países do Golfo. Na guerra contra Kadafi, os haveres do Estado líbio no estrangeiro foram apreendidos sob o pretexto de que os seus recursos iam servir para financiar massacres. Devemos portanto exigir a expropriação em França dos haveres do Qatar – e eles são consideráveis. Os sindicatos do sector bancário deveriam interessar-se pelos movimentos de capitais entre a França e os países promotores do integrismo – e torná-los públicos. O PCF deveria exigir o fim de todas as vendas de armas (aviões, fragatas, sistemas de defesa, etc) assim como a travagem dos programas de treino e outras formas de cooperação militar com os Estados envolvidos.·Nos portos, o partido e a CGT deveriam fazer campanha para convencer os trabalhadores a bloquearem todos os carregamentos militares destinados a Arábia Saudita, ao Qatar, etc. Os trabalhadores dos aeroportos deveriam bloquear os voos das suas companhias aéreas.·Finalmente, os grandes grupos capitalistas que praticam o "terrorismo económico" pilhando os recursos de Mali e que apoiam regimes corrompidos e ditatoriais em toda a África deveriam ser nacionalizados, seus dirigentes afastados, sua gestão reorganizada em bases democráticas e seus recursos utilizados para fins progressistas.

    Não esqueçamos, em meio a todos esses cálculos imperialistas, a classe trabalhadora maliana, a juventude e o conjunto do povo explorado e oprimido do país. É preciso estender-lhes uma mão fraternal e internacionalista, na base de uma política independente, ao invés de se atrelar à máquina de guerra imperialista. É aos trabalhadores do Mali que é preciso ajudar. É preciso dar-lhes os meios de se defenderem, não só contra alguns milhões de fanáticos islamistas, como também contra os elementos não menos reaccionários das forças armadas malianas. Este exército mostrou-se incapaz de defender o povo. Seus líderes são corruptos. Deve ser expurgado a partir de dentro e reorganizado em bases democráticas. Os soldados, saídos do povo e vivendo como ele, aliados aos trabalhadores de Bamaco e outras cidades, seriam o melhor baluarte contra o fanatismo armado.

    Ao defender a posição de classe e internacionalista que propomos é muito possível o PCF num primeiro momento não fosse seguido, nem em França nem no Mali. O PCF não pode dar uma solução imediata a este problema. Ninguém lhe pede isso. Mas em contrapartida o que se pode fazer, aqui e agora, é explicar os verdadeiros interesses que estão em jogo nesta guerra, dissociando-se completamente da política imperialista da França e das suas justificações falaciosas – e contribuir assim para formar a consciência antimilitarista e revolucionária dos trabalhadores, tanto em França como no Mali.

    A intervenção militar francesa não conduzirá a qualquer "estabilização", assim como não o fez na Líbia ou no Afeganistão, assim como a invasão estado-unidense tão pouco "estabilizou" o Iraque. Tanto na Europa como na África, o capitalismo não oferece nenhum futuro aos povos. Ele está na origem dos problemas que se colocam. Mais do que nunca, temos necessidade de um partido que se posicione claramente como o adversário implacável deste sistema e das suas consequências nefastas, tanto em França como no estrangeiro. Devemos nos esforçar por corrigir a política do PCF. Nosso partido deve opor-se à intervenção imperialista no Mali, na base de uma política revolucionária e internacionalista.
    02/Fevereiro/2013
    Ver também:
  • A invasão real da África não está nos noticiários , John Pilger
  • A guerra no Mali , R. Teichman

    [*] Editor do sítio web La Riposte, de militantes do PCF. O autor é um dos autores da tese "Combater a austeridade e acabar com o capitalismo" (ver texto alternativo do 36º Congresso do PCF ).

    O original encontra-se em http://www.lariposte.com/le-pcf-et-la-guerre-au-mali,1891.html


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • sexta-feira, 26 de agosto de 2011

    Especulação financeira, e não problema climático, explica a fome no Chifre da África

    Após a eclosão da crise financeira global de 2008, especuladores retiraram recursos de ativos de altíssimo risco e apostaram nos papéis de commodities, diz o economista Ladislau Dowbor à Carta Maior. Com os preços nas alturas, acesso à comida ficou mais restrito. Ações contra a tragédia humanitária no Chifre da África, onde fome atinge 12 milhões de pessoas, foram discutidas nesta quinta (25) na FAO, em Roma.

    SÃO PAULO - Não é a seca, mas sim a especulação financeira nas bolsas a causa mais profunda do drama humanitário existente hoje no Chifre da África, em especial na Somália. A análise é do professor Ladislau Dowbor, da PUC-SP, um especialista em questões africanas e desenvolvimento econômico.

    Após a eclosão da crise financeira global de 2008, explica o economista, especuladores retiraram seus recursos de ativos de altíssimo risco e apostaram nos papéis de commodities, puxando as cotações para cima. O índice de preços de alimentos da FAO, agência das Nações Unidas para a agricultura e a alimentação, marcava 234 pontos em junho passado, 39% acima do registrado no mesmo mês de 2010.

    O resultado: mais dificuldade de acesso à comida, sobretudo nas áreas mais vulneráveis do planeta.

    "Sem resolver isso, criando uma taxa planetária para onerar a especulação e ainda levantar fundos para um programa de recuperação mundial, a fome continuará sendo uma tragédia comum", disse Dowbor à Carta Maior.

    De acordo com o economista, a questão não atinge apenas países africanos, mas é mundial e está presente inclusive na América Latina. "Fala-se muito sobre a crise do Chifre da África hoje, mas a fome é um problema diário e mundial. Há 180 milhões de crianças passando fome no mundo e 11 milhões delas morrem todos os anos por um motivo ridículo. Isso não é causado pela crise de agora", ressalta.

    Dados da FAO apontam que o número de famintos no planeta saltou, durante a crise financeira, de 900 milhões para 1,2 bilhão de pessoas. No Chifre da África, que tem ocupado as manchetes diante da onda migratória gerada pela fome, são 12 milhões sem comida suficiente.

    Segundo Dowbor, a crise nessa região africana torna-se ainda mais dramática porque "Estados falidos" têm menos condições de administrá-la. "Falidos não apenas financeiramente, mas do ponto de vista institucional. São Estados que têm dificuldade de manter até políticas públicas relativamente simples, como coleta de lixo", diz o professor da PUC-SP. No caso da Somália, uma guerra civil está agravando ainda mais a situação.

    Encontro na Itália
    Altos representantes dos 191 países membros da FAO, outras agências do sistema ONU e organizações internacionais e não governamentais estiveram reunidos nesta quinta-feira (25), em Roma, a fim de discutir soluções para a crise humanitária no Chifre da África. Segundo despacho da FAO, o diretor-geral da entidade, Jacques Diouf, pediu atitudes urgentes.

    "Os efeitos combinados da seca, inflação e conflito criaram uma situação catastrófica que requer com urgência o apoio internacional", afirmou.

    Presente no encontro, o ministro da Agricultura da França, Bruno Le Maire, pediu a implementação do plano de ação sobre a alta dos preços dos alimentos discutido pelos ministros de Agricultura do G-20 em junho - "em especial com relação à coordenação internacional de políticas, à produção e produtividade agrícolas e às reservas de alimentos destinadas a emergência humanitária".

    Além disso, a ONU aposta na execução do "Plano de ação para o Chifre da África", criado pelo do Comitê Permanente dos Organismos da ONU (IASC, sigla em Inglês). O plano, elaborado pela FAO, o Programa Mundial de Alimentos da ONU e a ONG Oxfam, prevê trabalho conjunto com os governos nacionais da região - como Somália, Quênia, Uganda e Eritréia - para reforçar estruturas locais de ajuda humanitária e de apoio aos agricultores.

    Apesar da mobilização internacional, Ladislau Dowbor não é otimista. "Com a Europa e os Estados Unidos em crise, os problemas internos passam a gerar mais preocupação do que tragédias internacionais", lamenta-se ele, que vê essa posição dos países ricos como um equívoco. Ele explica:

    "A época de ouro da Europa, entre 1945 e 1975, foi justamente um perído em que se olhou para os pobres e distribuiu-se renda, com elevada taxa de imposto e construção de infra-estrutura. Isso gerou uma sociedade mais equilibrada e mais dinâmica em termos econômicos. Uma saída para a resolver a crise atual seria seguir essa estratégia, com os países do norte encarando os do sul como uma oportunidade, e não uma ameaça", propôs o economista.

    Fotos: FAO
    Fonte: Agenciqa Carta Maior 

    segunda-feira, 15 de agosto de 2011

    Piratas!

    Piratas!
    Excelente documentário! Veja aqui o que a mídia comercial não mostra, quem são os verdadeiros piratas que agem na Somália.



    Duração: 23 minutos e 26 segundos
    País: Espanha
    Idioma: espanhol
    Licença: CC - Attribution Non-commercial Não a Obras Derivadas
    Gênero: Documentário
    Produtor: Juan Falque
    Diretor: Juan Falque
    Visualizações: 100,535 (8,559 incorporado)
    Postado por: juanfalque em 28/01/2011
    Fonte: http://proftoni.blogspot.com

    terça-feira, 26 de julho de 2011

    Dinheiro imediato para salvar bancos , mas para salvar o povo.........

    Fome mata crianças em "estradas da morte" na África

    DA REUTERS, EM ROMA

    Centros de distribuição emergencial de alimentos no leste da África, devastado pela seca, estão sobrecarregados pela chegada todos os dias de milhares de pessoas famintas. As mães são forçadas a abandonar pelas estradas seus filhos mortos ou à beira da morte, disseram nesta segunda-feira funcionários dos serviços de ajuda.

    A diretora-executiva do Programa Mundial de Alimentos da ONU, Josette Sheeran, disse à imprensa em Roma que uma combinação fatal de desastre natural e conflito regional criou uma situação de emergência que afeta mais de 12 milhões de pessoas.


    Phil Moore/France Presse
    Mulher somali em campo de refugiados no Quênia; mais de 12 milhões de pessoas são afetadas pela fome
    Mulher somali em campo de refugiados no Quênia; mais de 12 milhões de pessoas são afetadas pela fome

    "Vemos que todos os postos capazes de distribuir comida estão completamente sobrecarregados... nosso alimento não dá conta, por isso estamos distribuindo por via aérea mais suprimentos para salvar vidas", disse ela.

    "Queremos nos certificar de que os suprimentos estão lá, ao longo da estrada, porque algumas delas estão se tornando estradas da morte onde mães têm de abandonar os filhos fracos demais ou que morreram durante o caminho", afirmou.

    Ela disse que um acampamento em Dadaab, no Quênia, por exemplo, construído para abrigar 90 mil pessoas está agora com 400 mil.


    Abdurashid Abdulle/France Presse
    Famílias somalis recebem alimentos da ONU em campos de refugiados em MogadícioAlinhar ao centro
    Famílias somalis recebem alimentos da ONU em campos de refugiados em Mogadício

    Ministros e autoridades se reuniram na Organização da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO), em Roma, nesta segunda-feira, para analisar como mobilizar ajuda para enfrentar a pior seca em décadas em uma região que se estende da Somália à Etiópia, Quênia e Djibouti.

    O Programa Mundial de Alimentos informou necessitar com urgência de recursos extras de US$ 360 milhões. A Oxfam avaliou que, no total, será preciso de outro US$ 1 bilhão para lidar com a situação.

    Em um comunicado, o Banco Mundial disse estar destinando mais de 500 milhões de dólares para ajuda às vítimas da seca, além de US$ 12 milhões em auxílio imediato para os que estão em pior condição.

    Em meio a alertas sobre a necessidade de ação urgente para impedir que um desastre humanitário se espalhe pelo Chifre da África, autoridades disseram haver ainda uma chance de apoiar as pessoas e ajudá-las a retomar sua vida como camponeses e pescadores.

    RESPOSTA LENTA

    A OMS e governos do mundo todo vêm sendo criticados pela lenta reação à tragédia, mas eles enfrentam grandes dificuldades para enviar ajuda a uma região imersa em conflitos violentos, que abrange boa parte do sul da Somália.

    A ONU declarou que há fome em duas regiões da Somália e alertou que a crise pode se espalhar para outras áreas.

    Anos de conflito anárquico no sul da Somália exacerbaram a situação de emergência, impedindo que entidades humanitárias levassem ajuda às comunidades locais. Quase 135 mil somalis abandonaram a área desde janeiro, na maioria em direção ao Quênia e Etiópia.

    O programa da ONU informou que não tem como entrar em contato com mais de 2 milhões de somalis à beira da fome em áreas controladas por militantes islâmicos, que proibiram a entrega de ajuda em 2010 e costumam ameaçar as entidades humanitárias.

    Fonte: Jornal Folja de São Paulo

    quinta-feira, 9 de setembro de 2010

    Moçambique: Milhões de braços, uma só fome



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    Esquerda - Os constantes crescimentos económicos em Moçambique traduzem pouca ou nenhuma melhoria na qualidade de vida da população, quando não real decréscimo. Por João Camargo, de Gorongosa, Moçambique

    Maputo, 2008: a 5 de Fevereiro pela manhã começava a agitar-se o povo, numa manifestação combinada via SMS contra o aumento de 50% no preço do "chapa", principal meio de transporte da paupérrima população de Moçambique. A repressão policial à manifestação (que apesar de alegar desconhecimento do protesto, encontrava-se dispersa por toda a cidade), aliada a saques a lojas e mercados, saldou-se em três mortos e cerca de 268 feridos (segundo a Televisão de Moçambique). O governo da Frelimo acabava por ceder à pressão popular e congelava o aumento dos preços. A "normalidade" estava restabelecida.

    A 1 de Setembro de 2010 organizava-se, novamente via SMS, um protesto contra subidas em catadupa: do chapa, da água, da electricidade, do cimento, do pão e do arroz. Num dos SMS's divulgados podia-se ler: "Mocambicano Prepara te no grande dia de greve 01/09/10. revendicamos sobre a subida de precos: de energia, imento, água, arroz, xapa e pão. envia pra outros mocambicanos. BOA N." (SMS de 31-08-2010 às 19:20)

    A resposta multiplica-se e, um ano e meio depois, o descontentamento espalha-se novamente pelas ruas da capital e na vizinha Matola: estradas cortadas, pneus incendiados, viaturas atacadas e destruídas, bombas de gasolina atacadas, assaltos a estabelecimentos comerciais, postes eléctricos derrubados, cânticos de contestação, repressão desmedida pela polícia.

    As primeiras declarações públicas vêm do porta-voz da Frelimo, depois José Pacheco, Ministro do Interior e finalmente, já a noite anunciava acalmia, fala Armando Guebuza, Presidente da República. A conclusão destas declarações é sempre a mesma: o povo foi usado, monopolizado, enganado por maus elementos, "aventureiros, desocupados e bandidos" nas "agitações" do dia (manifestação é expressão evitada). A resposta sobre quem terá maquiavelicamente organizado o protesto é ainda desconhecida, mas parece estranho que esta "organização" não tenha mantido o potencial despoletado pela repressão policial com fortes manifestações nos dias seguintes.

    No dia 2, os manifestos resumem-se aos bairros de lata periféricos da capital, compreendendo pouco mais que pneus incendiados e palavras de protesto. A polícia garante ter a situação controlada, mas o comércio continua encerrado e não circulam transportes. Há no entanto notícia (em particular nos média estrangeiros) de mais mortos e feridos.

    Saldo dos dois primeiros dias de protesto: 10 mortos e 443 feridos (entre os quais se encontram crianças).

    Sexta-feira, dia 3, anunciam-se novos focos de "agitação" na cidade do Chimoio, capital da província central de Manica. Na Beira, um grupo de crianças terá erguido barricadas e bloqueado a antiga estrada nacional nº6 na quinta-feira, dia 2. Estará a revolta a espalhar-se? Que esperar dos dias seguintes?

    * * *

    Moçambique é claramente um dos países mais pobres do Mundo, onde a fome e a pobreza não são relativizáveis segundo diferentes perspectivas, mas uma questão simples: não comer = não sobreviver. O comércio informal, assim como o pequeno roubo, são a base da economia para a maior parte da população, contrastando com elites riquíssimas. A tentativa de formalização de todas as actividades económicas fragiliza a vida das populações, que se vêm privadas de um momento para o outro das únicas actividades que sabem executar, sendo forçadas a entrar num mercado global, onde só podem perder.

    Maputo é seguramente a cidade em que há uma maior economia formal (que se salda em salários mínimos de cerca de 2300 meticais – 50 euros; geralmente não cumpridos), pelo que o aparecimento destes protestos na capital não é de estranhar, uma vez que provavelmente outras áreas menos ligadas à economia formal global têm provavelmente uma muito maior resiliência a estas oscilações, que por vezes só marginalmente as afectam.

    Desde a morte de Samora Machel e da queda do Muro de Berlim que o país, sob a liderança do seu governo, entrou num processo de ultraliberalização, enquadrado pelas reformas estruturais do Banco Mundial e do FMI, o que promoveu aquilo que o economista moçambicano Luís Castel-Branco designa por Economia Extractiva. Segundo esta definição, o país funciona como uma mina, em que apenas se retiram matérias-primas e lucros, deixando pouca ou nenhuma vantagem para a população.

    Apesar de ser apontado por muitas instituições de Bretton-Woods como um exemplo de desenvolvimento, a verdade é que os constantes crescimentos económicos em Moçambique traduzem pouca ou nenhuma melhoria na qualidade de vida da população, quando não real decréscimo. A procura de investimento externo guia as políticas económicas, havendo cada vez maior procura dos ricos recursos naturais do país (que como regra funcionam como uma praga para as populações que os "possuem" em África) e privatização das poucas actividades ainda geridas pelo Governo.

    * * *

    Como resposta aos manifestos, as autoridades declararam que não cederão a pressões, que a situação é fruto da conjuntura internacional e que a resposta às dificuldades passará sempre por um aumento de produtividade do país, implicando uma maior integração da economia formal. Assim sendo, as manifestações dos últimos dias deixam perguntas no ar: estará o "maravilhoso povo", como lhe chamava o Presidente, a atingir um ponto de ruptura, ameaçado pela fome e pela miséria absoluta que grassa no país?; que desenvolvimento económico propagandeado será esse, que em nada beneficia o povo?; até quando poder-se-á manter este "desequilibrado equilíbrio"?; quem não se torna agressivo com fome na barriga?. O povo o dirá.

    João Camargo, Jornalista Gorongosa, Moçambique

    sexta-feira, 3 de setembro de 2010

    A África ainda está a ser saqueada

    Cartoon de Corpwatch.org.





















    Por Patrick Bond [*]

    As próprias elites do continente, juntamente com o Ocidente e agora a China, continuam a tornar os africanos cada vez mais pobres graças à extracção de matérias-primas. O reinvestimento é desprezível e os preços, royalties e impostos pagos são inadequados para compensar a drenagem da riqueza natural da África. Campanhas anti-extracção por parte da sociedade (in)civil são a única esperança para uma reversão destas relações neocoloniais.

    Embora seja fácil provar, utilizando até o principal estudo do Banco Mundial da economia dos recursos naturais, aparentemente a alegação de saqueio é controversa. Quando eu a fiz durante uma entrevista à Canadian Broadcasting Corporation (CBC) na semana passada, o economista chefe do Banco Mundial para a África, Shanta Devarajan, imediatamente contraditou-me, afirmando (duas vezes) que não tenho o domínio dos "factos".

    Eis como foi:

    Patrick Bond: A África sofre neocolonialismo e isto significa que a tendência básica de exportar matérias-primas, produtos agrícolas, minerais, petróleo, ficou pior. E isto realmente deixou a África mais pobre por pessoa em grande parte do continente do que no momento da independência. A ideia de que há crescimento firme em África é muito enganosa e representa realmente o abuso de conceitos económicos por parte de políticos, de economistas, que excluem a sociedade e o ambiente. E é sobretudo um mito, porque, na realidade, com a extracção de recursos não renováveis eles nunca estarão disponíveis para gerações futuras. E há muito pouco reinvestimento e muito pouca ampliação da economia para um projecto industrial ou mesmo uma economia de serviços.

    CBC: Sr. Devarajan, como responderia a este ponto de vista?

    Shanta Devarajan: Primeiro, quero corrigir um dos factos, o qual é que o continente não está mais pobre por pessoas. O PIB per capita não está mais baixo hoje do que estava dez a quinze anos atrás. De facto, está consideravelmente mais alto.

    Aqui, Devarajan maltrata a discussão acerca pobreza africana utilizando a medida do Produto Interno Bruto (PIB), apesar de alguns segundos antes eu haver advertido contra isso. As economias africanas sofrem distorções extremas provocadas pela exportação de minerais, petróleo e madeira de lei insubstituíveis. Se ele fosse honesto, Devarajan confessaria que o PIB calcula tais exportações como um processo unicamente positivo (um crédito), sem um débito correspondente na contabilidade do capital natural de um país.

    Procurando uma contabilidade da riqueza menos enviesada – isto é, levando em conta a sociedade e o ambiente de modo a calcular as 'poupanças genuínas' de um país de ano para ano – descobrimos que a África fica progressivamente mais pobre. Isto foi demonstrado mesmo no próprio livro do Banco Mundial, Where is the Wealth of Nations?, publicado há quatro anos (e ainda disponível no sítio web do banco).

    Segundo os autores do livro, "Poupanças genuínas proporcionam um indicador de sustentabilidade muito mais amplo ao avaliar mudanças nos recursos naturais, qualidade ambiental e capital humano, além da medida tradicional das mudanças nos activos produzidos. Genuínas taxas de poupança negativas implicam que a riqueza total está em declínio".

    Os investigadores são cautelosos nas suas suposições, mas uma vez que consideram a sociedade e o ambiente do mais populoso país da África, a Nigéria, caem de um PIB per capita de US$297 em 2000 para US$210 negativo em poupanças genuínas, principalmente porque o valor do petróleo extraído foi subtraído da sua riqueza líquida.

    Mesmo o país africano mais industrializado, a África do Sul, sofre da maldição dos recursos: ao invés de um PIB per capita de US$2847 em 2000, o modo mais razoável de medir riqueza resulta em poupanças genuínas a declinarem para US$2 negativos por pessoa naquele ano. A partir de 2001, o problema tornou-se ainda mais agudo graças à remoção das maiores corporações da Bolsa de Valores de Johannesburg, a qual acrescentava não apenas a produção de riqueza mineral como também de lucros e dividendos que em anos anteriores teriam sido retidos na África do Sul.

    (O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, aprovou estas políticas e ele ainda está a afrouxar controles de câmbio, permitindo portanto ainda mais saída de riqueza. Foi à altura da incompetência das Nações Unidas, ou da ironia, que na semana passada Zuma tenha sido nomeado como co-presidente do novo painel de sustentabilidade global de Ban Ki-moon, "encarregado de descobrir caminhos para retirar o povo da pobreza enquanto cuida das alterações climáticas e de assegurar que o desenvolvimento económico é ambientalmente amistoso". E depois de fracassar a cimeira climática das Nações Unidas em Cancun, em Dezembro de 2010, um ano mais tarde Zuma hospedará a sequência em Johannesburg do Protocolo de Quioto, cujos objectivos de redução de emissões em 5% expiram em 2012. O que se pode esperar? Devendo favores ao capital mineiro/fundidor, com o seu filho e sobrinho a procurarem o status de magnatas da mineração, Zuma assinou o Acordo de Copenhagen em Dezembro último. Mas isto confirmou principalmente que a sua família vulnerável ao clima na Zululandia rural sofrerá de modo a que accionistas da BHP Biliton e Anglo American de Melbourne e Londres possam continuar a receber a electricidade mais barata do mundo, das centrais termoeléctricas a carvão em rápida expansão na África do Sul. De modo que ficam advertidos). [NR]

    Como os preços das commodities aumentaram entre 2002 e 2008, o fluxo de saída de riqueza foi ampliado. Mas desde a data de independência de muitos países nas últimas cinco décadas, a história é a mesma: a África está a ser saqueada de um modo que mesmo a equipe de ambiente do Banco Mundial reconhece, ainda que Devarajan tenha ignorado a sua investigação. Portanto é enganoso Devarajan contradizer minha afirmação de que os africanos estão a ficar mais pobres.

    A entrevista voltou-se então para políticas públicas associadas ao saqueio da África.

    CBC: O Banco Mundial foi muito criticado pelos seus programas de ajustamento estrutural. E isto acontece quando o Banco Mundial oferece empréstimos sem juros mas eles são condicionados a algumas medidas de austeridade tão severas que algumas pessoas dizem poderem ser contraproducentes porque mais prejudicam do que ajudam as economias em causa. E vocês têm sido criticados, nomeadamente por economistas como Patrick Bond, e eu gostaria de ouvi-lo mais uma vez falar-nos sobre isso.

    Patrick Bond: O Banco Mundial e também o Fundo Monetário Internacional enganaram-nos, em 2008-2009, porque pareciam afastar a sua ideologia de uma agenda empedernida de promover mercados acima de tudo o mais. E por um momento parecia que estavam a promover défices governamentais e uma estratégia keynesiana: o governo deveria intervir quando o sector privado falhasse. Mas agora parece tudo de volta aos negócios de sempre, nomeadamente orientação para a exportação e austeridade. E o Banco Mundial, conduzido pelo presidente Robert Zoellick que veio da administração Bush – ele trabalhou para a Enron e para a Goldman Sachs –, com esta espécie de liderança e a orientação favorável ao Norte e a mentalidade de banqueiro, significa que o único caminho de avanço é afastarmo-nos destas instituições, talvez incumprir a sua dívida, chutá-los para fora do país. E a América Latina proporciona um bom modelo de como fazer ambas as coisas.

    CBC: E de facto alguns países latino-americanos, como a Argentina, disseram com êxito a instituições como a sua e o FMI para caírem fora e de facto acabaram por sair-se muito bem. Então, como é que você responde a alguém como Patrick Bond?

    Shanta Devarajan: Oh, penso mais uma vez que temos de olhar os factos. Não há dúvida de que as políticas de ajustamento estrutural da década de 1980 e do princípio da de 1990 foram muito criticadas. Mas então ponha a questão: 'o que mudou?' Como estava a dizer, o crescimento acelerou-se desde a década de 1990. Não podemos esconder este facto. E você vê o que mudou. E é que estes países adoptaram exactamente as políticas do Consenso de Washington em meados da década de 90, os países africanos. A diferença é que fizeram isto a partir da sua própria vontade, a partir do consenso político interno, ao invés de imposições de Washington ou Paris ou Londres. E penso que é o ponto que as pessoas não estão a reconhecer, que as políticas reais que estão a gerar o crescimento são realmente muito semelhantes ao que era criticado na era do ajustamento estrutural.

    Repito outra vez: o crescimento do PIB africano pode ter acelerado quando os preços das commodites subiram, mas a África tornou-se mais pobre uma vez que calculemos o efeito de riqueza líquida e poupanças genuínas. Devarajan não pode esconder este facto.

    Clique a imagem para encomendar. Disfarçar isto dizendo que o ajustamento estrutural não funcionou antes de meados dos anos 90 porque foi 'imposto' pelos colegas de Devarajan, mas funcionou depois disso porque foi adoptado através de um 'consenso político interno', é a mais bizarra afirmação que já ouvi acerca da macroeconomia africana. Nunca houve um consenso político para ajustar estruturalmente a África, além do problema permanente de elites não patrióticas que estão mais estreitamente aliadas a Washington, Paris, Londres, Bruxelas e Pequim do que aos seus povos — um problema para o qual Frantz Fanon chamou a nossa atenção com eloquência no seu livro Os condenados da terra, ( Les damnés de la terre ) de 1961.

    O relatório de 2006 do Banco Mundial menciona uma conclusão política óbvia, aprendida de um país com recursos petrolíferos que não se tornou vítima da maldição dos recursos: "A Noruega utilizou os fluxos de receitas de energia e emissões de gases com efeito de estufa para uma política que muitos países estão a considerar: mudar a estrutura fiscal para aumentar impostos sobre emissões e utilização de recursos".

    Mas a liberalização imposta empréstimos do Banco Mundial faz precisamente o oposto. Isto é a espécie de esquizofrenia que temos de esperar de investigadores do Banco que chegam a conclusões de senso comum, tais como a de que a extracção de recursos da África deixa o continente mais pobre. Mas não é de surpreender que Devarajan e o pessoal operacional do Banco Mundial fujam quando se conta, em entrevista com jornalistas crédulos como Mike Finnerty da CBC (que falhou diante das mentiras grosseiras de Devarajan) e quando impõem políticas neoliberais às desgraçadas elites africanas.

    Neste contexto, os únicos sinais encorajadores são a miríade de desafios a indústrias extractivas por parte de activistas que muitas vezes colocam seus corpos em riscos em sítios de constante violência estatal e corporativo como o Leste da República Democrática do Congo onde observadores de direitos humanos lutam para documentar uma história de assassínio em massa que se eleva talvez a 5 milhões relacionada com a extracção de recursos – em empresas como as minas de diamante de Marange do Zimbabwe, os campos de platina do Limpopo e da província Noroeste da África do Sul e as praias ricas em titânio de Xolobeni do Cabo Leste, os riachos encharcados em petróleo do Delta do Niger e os campos de petróleo do Chad, as plantações liberianas da Firestone, as barragens do Lesotho que abastecem os consumidores de água de Johannesburg e outras zonas deslocamento por barragens incluindo Gibe na Etiópia, Mphanda Nkuwa em Moçambique e Bujagali no Uganda, para mencionar apenas umas poucas.

    Como se pode esperar que os responsáveis do Banco Mundial continuem a ignorar a sua própria investigação e portanto continuar a promover exportações de recursos não renováveis; como este sistema adequa-se às corporações multinacionais e agências doadoras e como as elites africanas continuarão a seguir este conselho (muitas vezes com incentivos de suborno como foi o caso do Congresso Nacional Africano da controvérsia da central eléctrica de Medupi, financiada pelo maior empréstimo de projecto do Banco, US$3,75 mil milhões, em Abril de 2010), a África continuará a ficar progressivamente mais pobre.

    As redes da sociedade civil africana que promovem o "publique o que você paga" e outros artifícios para a transparência, participação e direitos humanos deveriam finalmente chegar à percepção de que este sistema de saqueio não está em vias de ser reformado sob o equilíbrio de poder em vigor e que é necessária resistência à extracção muito mais vigorosa – e está a caminho.

    17/Agosto/2010
    [NR] O autor comete dois erros neste parágrafo. O primeiro é a crença ingénua na impostura do aquecimento global . O segundo, consequência do primeiro, é a sua condenação de novas centrais termoeléctricas a carvão na África do Sul. Este último erro mostra as consequências práticas da teoria mistificatória do aquecimentismo global . O carvão, na verdade, é o combustível ideal para centrais termoeléctricas pois é o que existe em maior abundância no planeta. Neste momento em que o mundo atinge o Pico Petrolífero, o carvão constitui a melhor alternativa possível para a produção termoeléctrica. É absurdo portanto consumir refinados de petróleo para essa finalidade. Igualmente absurdo é desperdiçar gás natural – um combustível demasiado bom e demasiado precioso – só para produzir electricidade.

    [*] Director do Centre for Civil Society da Universidade de KwaZulu-Natal – http://www.ukzn.ac.za/ccs . A partir de Setembro estará em licença sabática na Universidade da Califórnia/Berkeley, Departamento de Geografia. Email: pbond@mail.ngo.za

    O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/bond08172010.html

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    sexta-feira, 9 de julho de 2010

    De volta à África (2): do medo às novas elites

    Blog Passa Palavra

    Muitos dentre os libertos “retornados” envolveram-se com o tráfico negreiro como forma de sobrevivência e sua estadia forçada nas Américas impôs-lhes o aprendizado de outros ofícios com os quais se sobrepuseram às populações africanas. Graças aos libertos retornados, formava-se na costa ocidental da África uma elite profissional e política. Por Manolo e João Bernardo

    africa-1

    A onda de levantes de negros escravizados do final do século XVIII e início do século XIX resultou num clima generalizado de histeria antinegro nas colônias, do qual nem as metrópoles escapariam. À luta dos negros pela sua liberdade, seus escravizadores respondiam com ondas de repressão que envolviam o controle rigoroso sobre a circulação e o exercício profissional dos libertos, os espancamentos, os assassinatos. Mas a principal inovação neste período foi o envio de negros “indesejáveis” de volta à África, para que não perturbassem a ordem escravista. Aquilo que servira inicialmente para o alívio da consciência de “filantropos” – e para a estabilização do sistema escravista, já bastante sacudido por lutas de todos os tipos – inaugurou conflitos sociais de outro tipo.

    As guerras de independência na América e as guerras napoleônicas na Europa impunham outro cenário para a continuidade das exploração predatória dos recursos naturais e humanos necessária para a continuidade do capitalismo. A África, até então bordeada por navegadores e entrepostos, aparecia como um dos cenários mais prováveis, junto com a Ásia. O fim do tráfico negreiro, impulsionado principalmente pela Inglaterra a partir de 1807, teve outras razões além do humanitarismo: abrir uma porta de entrada para as riquezas da África através do combate aos chefes africanos mais poderosos e suas famílias, com quem antes negociavam[1]. No território da atual Nigéria, os britânicos intervieram ativamente nas disputas locais – revolta de Egba e Daomé (c. 1818), a jihad Fulani (1835), etc. No norte da África, os franceses impunham seu domínio sobre o território hoje conhecido como a Argélia (1830). O colonialismo europeu mudou de rosto: ao invés de seguir baseando-se no estabelecimento de entrepostos para negociação com autoridades autóctones como fizera no longo período mercantilista, a presença cada vez maior de europeus na diplomacia entre povos africanos e nos territórios que antes respeitavam tornou-se a regra. Era o passo inicial do processo que resultaria, no final do século XIX, nas disputas pelo controle do território africano por potências europeias, que tentariam chegar a acordos na Conferência de Berlim (1884-1885).

    Serra Leoa: cabeça-de-ponte do domínio britânico na África

    soldado do Royal Ethiopian Regiment

    soldado do Royal Ethiopian Regiment

    A escravidão fora judicialmente decretada ilegal em 1772 na Inglaterra, embora seguisse vigente nas colônias; daí levas de negros das colônias fugirem de seu cativeiro na tentativa de alcançar Londres e livrar-se da escravidão. O rei Jorge III da Inglaterra, por isso, era tido por eles como uma espécie de redentor. Na luta para manter as treze colônias da América do Norte rebeldes, John Murray, 4º Duque de Dunmore e governador britânico da Virgínia, aproveitou-se deste estado de espírito para lançar em novembro de 1775 uma proclamação na qual garantia liberdade para todos os negros que fugissem de seus senhores patriotas e viessem lutar com ele contra os colonos rebeldes – que já vivam em estado de alerta contra os levantes como os de Nova Iorque (1712 e 1741), de Cuba (1731) e do rio Stono (1739), e talvez temessem mais as rebeliões negras que o jugo inglês. Ao final da Revolução Americana, dezenas de milhares de negros haviam buscado integrar-se ao Regimento Etíope criado pelo Duque de Dunmore (embora poucos houvessem conseguido fazê-lo realmente)[2], cumprindo a dupla função de encorpar as tropas legalistas e sabotar a economia dos rebeldes ao reduzir seu estoque de força de trabalho disponível[3].

    Terminada a guerra, ficou a dúvida entre os britânicos: que fazer com estes negros a quem se havia prometido a liberdade? Eles migravam aos milhares para Londres, e a promessa de liberdade estabelecida pela Proclamação do Duque de Dunmore seguia vigendo. Os “pobres negros” - marinheiros, ex-escravos, fugitivos, etc., que dominavam a paisagem do East End, de Marleybone e dos Seven Dials, em Londres – tornavam-se um problema social sério. Outros 3 mil legalistas negros, a maior parte ex-combatentes do Regimento Etíope, haviam-se estabelecido na colônia da Nova Escócia (atual província do Canadá). Em 1786, a partir da iniciativa de um padeiro, formou-se o Comitee for the Relief of the Black Poor, que, além das ações caritativas típicas da sociedades organizada sob o regime das poor laws britânicas, bolou o plano perfeito para resolver os dois problemas: mandar os pobres negros de volta para a África. Com um mínimo de arrecadação de fundos, três navios foram alugados em 1787 para levar os primeiros 280 negros de volta à África[4].

    A colônia criada para que os britânicos resolvessem o problema da migração negra receberia o nome de Província da Liberdade, e sua cidade principal Granville (em homenagem ao abolicionista inglês Granville Sharp, responsável pelos planos de viagem até a África). Estaria tudo bem, se não fosse um outro imprevisto, na verdade bastante previsível: já havia gente por lá. Os tamnes não cederiam suas terras facilmente. Um acordo foi feito com o rei dos tamnes, mas logo após sua morte tudo mudou: o novo chefe ameaçou destruir a Granville como vingança pela destruição de sua aldeia. Não demorou muito e Granville foi atacada pelos tamnes, que levaram alguns dos pobres negros como escravos. (Que destino para fugitivos do cativeiro britânico!) Os 64 colonos negros restantes seguraram-se como puderam até à chegada de reforços em 1791 com Alexander Falconbridge, já em nome da Sierra Leone Company, que resultou na fundação de Freetown (hoje capital de Serra Leoa)[5]. Nesta segunda leva de migrantes negros que chegou com Alexander Falconbridge, os diretores da Sierra Leone Company consideraram ser melhor trazer negros da Nova Escócia, o que terminou em pouco tempo se tornando a rota migratória imposta a estes negros. Disputas sobre o governo da colônia opuseram os colonos negros e a Sierra Leone Company, e a coroa britânica optou por tomar a colônia para si[6] - e logo a colônia de Freetown seria transformada em destino de negros rebeldes, como os maroons jamaicanos para lá enviados em 1800[7]. Estes colonos se transformaram em ativos comerciantes, e foram alguns dentre os responsáveis por fazer da Serra Leoa um entreposto comercial para os britânicos no processo de transição entre a colonização mercantilista e a colonização direta da África durante o século XIX. Como sinal de sua importância e hegemonia sobre os outros povos locais, ainda hoje, embora os krios representem apenas 5,4% da população de Serra Leoa, sua língua materna, o krio (mistura de inglês e diversos idiomas africanos), é falada por 97% da população do país.

    Libéria: de escravos a escravizadores

    Nos EUA, a ideia de expulsar os negros, fixando-os em África, era já antiga e fora proposta por alguns ilustres fundadores da independência (Jefferson por exemplo)[8]. Desde então não faltaram reformadores religiosos e figuras políticas a defender a colonização da costa ocidental africana por negros livres procedentes dos Estados Unidos, e em 1819 o governo federal encarou, embora com pouco afinco, a possibilidade de adotar medidas neste sentido, encetando-se o processo de que resultaria a fundação da Libéria[9]. A experiência britânica em Serra Leoa estimulou a proliferação desta ideia, que se transformaria.

    um certificado da American Colonization Society

    um certificado da American Colonization Society

    Com uma argúcia que nunca deixa de surpreender, Alexis de Tocqueville identificou na primeira metade da década de 1830 muitos dos êxitos e dos problemas da sociedade norte-americana, contando entre as dificuldades a presença dos negros. Nos estados do norte a situação contraditória da população negra − que por um lado era livre, mas por outro lado não exercia na prática os direitos de que dispunha em teoria − não tinha consequências ameaçadoras, porque era em número relativamente reduzido[10]. Mas era abundante nos estados do sul, e aí os brancos, para conservarem a supremacia, teriam de manter a escravidão, apesar de para muitos deles serem já notórios os inconvenientes econômicos deste sistema[11]. Tocqueville não considerava que houvesse possibilidade de resolver pacificamente a questão[12] e adiantou que, no caso de a federação se desfazer, rompendo-se portanto a unidade existente entre os brancos, os negros do sul ficariam em condições de obter a vitória[13]. Esta antecipação da Guerra da Secessão não se conta entre as menos surpreendentes devidas a Tocqueville, mas é outra faceta da sua análise que nos interessa aqui salientar. Para evitar os inconvenientes da luta entre pessoas de cor diferente, ele relatou aos seus leitores o projeto nascido de um grupo de cidadãos que em 1820 fundara a Libéria, mas ele não acreditava que o transporte em massa dos negros para África resolvesse o problema. “Em doze anos, a Sociedade de Colonização dos negros transportou para África dois mil e quinhentos negros. No mesmo período, nasciam nos Estados Unidos cerca de setecentos mil negros”. Mesmo que a Libéria estivesse em condições de receber um fluxo imigratório maior e que o governo federal norte-americano empregasse as suas reservas e os seus navios para proceder ao transporte, argumentou Tocqueville, ainda assim não se suprimiria aquele excedente demográfico[14]. Como o fato de ter sido demonstrada a inviabilidade desta solução não impediu que ela continuasse a ser proposta por gerações sucessivas de políticos, vemos que se tratava aqui de necessidades históricas e não de opções racionais.

    O que melhor caracteriza socialmente este projeto é a simpatia com que contou por parte de elementos dos estados escravistas do sul e a oposição com que deparou por parte da esmagadora maioria dos negros, que reivindicaram o direito de viver no seu país em situação de igualdade com o resto da população e denunciaram na colonização africana uma estratégia destinada a transferir além-mar os críticos mais enérgicos do escravismo[15]. Mas a escassez de realizações práticas e a antipatia generalizada dos negros não dissuadiu os promotores de um movimento migratório concebido para evitar que a população branca enfrentasse os problemas de uma sociedade etnicamente variada, e tanto antes como durante e depois da Guerra da Secessão Lincoln defendeu o envio dos escravos libertos não só para a África mas também para a América Central e do Sul ou para as Antilhas[16]. Foi sem dúvida uma data histórica, aquela em que pela primeira vez um presidente dos Estados Unidos recebeu uma delegação de negros, quando se estava em pleno conflito armado entre os estados do norte e os do sul, e para lhes dizer o quê?

    Vós e eu pertencemos a raças diferentes. [...] Com frequência a vossa raça sofre intensamente por habitar entre nós, tal como nós sofremos com a vossa presença. [...] Se vós não estivésseis entre nós não haveria guerra, embora muitos dos que nela participam, de um e outro lado, não se preocupem grandemente convosco. [...] Portanto, é melhor que nos separemos. [...] O nosso povo – e devo dizê-lo, por duro que o seja – não aceita de bom grado que vós, homens livres de cor, permaneçais connosco[17].

    Se eram estas as palavras de Lincoln, presidente e comandante-chefe dos estados não escravistas, podemos imaginar o que pensavam os proprietários das grandes plantações do sul. Mas mesmo naquelas circunstâncias a população negra continuou a encarar com relutância a hipótese de embarcar para o “estrangeiro”, e aliás os outros países não se mostraram interessados em aceitar nas suas metrópoles ou nas suas colônias um tal afluxo de colonizadores[18]. Mais tarde, alguns anos depois de terminada a guerra civil, o presidente Ulysses Grant congeminou o plano de anexar a ilha de São Domingos e de povoá-la com os antigos escravos, igualmente sem êxito[19]. Já nos finais do século XIX era Cuba que um senador sulista propunha conquistar para fixar aí a população etnicamente indesejável, enquanto outro dos seus colegas sugeria o estabelecimento de um protetorado sobre o Haiti e um terceiro recomendava a colonização das costas de África[20]. E na passagem da primeira para a segunda década do século XX o presidente Taft declarou a uma delegação de estudantes negros que a emigração era a melhor solução para o problema racial[21]. A partir do segundo quartel do século XIX e até ao final desse século, vários milhares de antigos escravos haviam abandonado a América do Norte para se instalar numa região da costa ocidental africana, onde implantaram um Estado próprio, a Libéria, independente desde 1847.

    Ora, estes escravos emancipados tinham-se convertido numa classe dominante tão feroz que condenou ao trabalho forçado a população autóctone, a quem foi inclusivamente negado o direito de representação política. Elisée Réclus diria da Libéria no final do século XIX:

    A população branca contava, em 1884, não mais que quarenta pessoas, todos homens, à exceção da esposa de um missionário. As pessoas de cor diziam-se brancas, e como tal aspiravam ao governo da república. Aqui as lutas partidárias dão-se em torno da ascendência dos “de cor”, ou mestiços, e dos negros de sangue puro; até então os primeiros têm-se mantido no poder.

    À parte alguns homens direitos que tentaram levar adiante o trabalho de regeneração moral pelo qual a colônia foi fundada, a maioria dos Weegee, ou liberianos “civilizados”, busca afirmar sua própria superioridade pelo desprezo aos “fedorentos negros dos bosques”, como chamam os aborígenes, e por manterem-nos num estado de servidão e degradação.

    um regimento liberiano

    um regimento liberiano

    Dificilmente são contraídas quaisquer relações entre “americanos” e mulheres nativas, para que a população civilizada seja recrutada fundamentalmente através das chegadas recentes, tal como a dos numerosos negros emancipados da Carolina do Sul em 1877. Deixada por conta própria, esta população diminuiria ano a ano, até finalmente ser absorvida pelos aborígenes circundantes.

    A escravidão foi abolida apenas nominalmente, pois embora a lei imponha penas severas contra compradores de escravos, não proíbe o tráfico de “meninos”, que os latifundiários conseguem de chefes insolventes no interior e mantêm em estado de servidão. Os missionários, que são aqui relativamente numerosos, fundaram muitas estações no interior, onde compram órfãos e os criam segundo o modelo americano, dando-lhes o nome de algum patrono dos Estados Unidos, que custeia a educação de sua criança adotada. Muitas das tribos no entorno dos latifúndios também têm se convertido a várias seitas protestantes, e, como seus consanguíneos no Novo Mundo, celebram aqueles encontros campais onde orações, o entoar de salmos e rezas ou gritos são intercalados com gemidos, soluços, danças frenéticas, ataques e convulsões[22].

    A ditadura dos américo-liberianos só foi encerrada em 1980, mas seu apeamento do poder político não representou qualquer alteração em seu poder econômico.

    Os que vieram do Brasil: agudás, tabom, minas, etc.

    O mesmo Elisée Réclus diria, da população de outra região próxima:

    Outros na costa oeste, conhecidos coletivamente como Minas, descendem de negros e mestiços importados do Brasil e ocupam, na opinião do público, o lugar mais avançado em força física, qualidades morais e amor pela liberdade. Eles são também mercadores ativos, que competem com sucesso com europeus, e que por suas alianças familiares com os nativos estão paulatinamente adquirindo preponderância numérica sobre todos os outros estrangeiros. Os antropônimos Souza, Almeida, Andrada e Albuquerque têm se tornado muito comuns, e o português já rivaliza com o inglês como língua corrente nas relações internacionais. Perto da Costa do Ouro o inglês prevalece, mas o português é majoritariamente falado em Ajudá e ensinado nas escolas locais[23].

    Costa do Ouro, Costa do Marfim, Costa da Malagueta, Costa dos Escravos… Em tempos de mercantilismo, os mapas europeus nomeavam os lugares em função de seus produtos. A Costa da Mina foi um dos outros nomes pelos quais a região composta por tantas “costas” ficou conhecida; estendia-se desde o forte de São Jorge da Mina (atual Elmina, em Gana) até a foz do rio Níger[24]. Abarca o litoral do território que hoje forma a Costa do Marfim, Gana, Togo, Benim e Nigéria. Para facilitar a narrativa, a região tratada será considerada como a Costa da Mina; o trânsito de pessoas entre os territórios que viriam a compor os atuais países locais era tão intenso, e as comunidades de “brasileiros” tão interligadas, que é comum, por exemplo, encontrar séculos depois descendentes de “brasileiros” que chegaram em Gana vivendo no Togo[25].

    Os que retornaram do Brasil tiveram certamente muitos motivos, mas não é possível esquecer, dentre eles, a violenta repressão à Revolta dos Malês (1835): das 3.585 pessoas com saída registrada para a África no porto de Salvador entre 1834 e 1870, 913 (ou seja, 25,46% do total) fizeram a viagem entre 1835 e 1836, sendo que 824 dentre estas pessoas (ou seja, 90% do total do período) eram libertos[26]. Entre 1828 e 1854, quando escravos do Nordeste eram comerciados em massa para o Sudeste, o fluxo de libertos do Rio de Janeiro para a África indica que, dos 471 a fazer a viagem no período, 304 (ou seja, 64,45% do total) partiram para a Costa da Mina[27].

    o presidente Lula com o rei Nii Azumah V

    o presidente Lula com o rei Nii Azumah V

    Não obstante existirem notícias de brasileiros que haviam chegado à Costa da Mina muito antes das levas de degredados do século XIX – a maior parte deles envolvida no tráfico de escravos – pode-se considerar como um dos primeiros grupos de “brasileiros” na região as sete famílias que chegaram a Acra em 1829 sob a liderança de Kangidi Asuman[28]. Um segundo grupo – de 200 pessoas, incluindo homens, mulheres e crianças – chegou na mesma cidade em 1836[29]. Kwaku Ankrah, autoridade autóctone, parece ter tido bastante sucesso em cooptar estes recém-chegados para o tráfico de escravos; em 1845 e 1864 há notícias da participação dos tabom (nome dos “brasileiros” radicados em Acra) na atividade, e sua prosperidade era tal que, numa foto de 1887, suas casas de pedra contrastavam com as palhoças da população autóctone[30]. Além desta atividade menos nobre, entre os tabom encontravam-se pedreiros, carpinteiros, alfaiates, ferreiros, ourives, escavadores etc.; as famílias Azumah Nelson e Peregrino, por exemplo, eram lembradas por sua habilidade [competência] com a costura, enquanto as famílias Aruna e Nassu eram conhecidas por sua experiência com a agricultura de poços de água potável e famílias com habilidades [competências] no cultivo agrícola[31]. Nesta última atividade, os tabom subverteram a forma tradicional de uso coletivo da terra: em 1912 a área que lhes foi cedida já havia sido transformada em propriedade privada das famílias que delas cuidavam. Nas primeiras décadas do século XX, os tabom participavam ativamente das duas estruturas de poder local (o governo colonial e a autoridade autóctone)[32]. A comunidade tabom permanecia unida – e próspera – em 1961, quando o presidente brasileiro Jânio Quadros quis retomar o contato com a comunidade; em 1981, Paulo Wolowski, embaixador brasileiro, presenciaria a posse de Nii Azumah V, descendente daquele mesmo Kangidi Asuman entronado por Kwaku Ankrah como líder de sua comunidade[33].

    Mas é entre os agudá de Uidá[34] que a relação entre “brasileiros” e locais fica mais evidente. O primeiro a ser reconhecido como “brasileiro” no local foi Francisco Félix de Souza, traficante de escravos. Sua permanência em Uidá – e suas atividades de traficante – importaram não somente para a comunidade “brasileira”, mas para o próprio reino de Daomé: ajudou a derrubar o rei Adandozan, e em troca recebeu do rei Guezo, vitorioso, o título de chachá, tido pela tradição local como uma espécie de vice-rei[35]. Em 1835, novas levas de brasileiros se fixariam em Uidá, ainda sob a patronagem de Francisco Félix de Souza[36]; mesmo com o declínio de suas atividades na década de 1840 e a entrada de novos comerciantes na praça, inclusive de outras nacionalidades, toda a região da laguna costeira de Uidá (Grande Popó, Pequeno Popó, Agoué, Godomey, Cotonou e Porto-Novo) era área de influência dos “brasileiros”. Frederik Forbes, jovem capitão inglês que visitou o reino de Daomé entre 1849 e 1850, descreve a fazenda de um brasileiro de nome Souza, liberto vindo da Bahia que, na África, dedicara-se a plantar dendê para produzir azeite, além de milho, algodão e mandioca – usando técnicas agrícolas europeias de adubação e outros procedimentos muito mais avançados que os existentes na região[37].

    A Costa da Mina não era o único destino destes “brasileiros”. Em Lagos (atual Nigéria), mesmo após a intervenção britânica de 1851 que tornou a cidade praticamente um protetorado da coroa inglesa, retornados do Brasil representavam 9% da população em 1880. Eram tidos como artesãos notavelmente qualificados e conhecidos pelo estilo nitidamente brasileiro de suas habitações. Tal habilidade [competência] na construção civil não passaria despercebida para empreiteiros, que os contrataram como mestres-de-obras[38]. Os “brasileiros” chegaram desde muito cedo em Luanda, mas na mesma região (atual Angola) seu destino principal era Moçâmedes (atual Namibe)[39]. Em 1851, o projeto de um grupo de libertos do Rio de Janeiro mostrou-se bastante próximo daquele dos libertos de Serra Leoa e Libéria[40]. Numa petição intitulada Reasons upon which the freed Africans, residing in Brazil, ground their desire to go and lay the foundation of a town at Cabinda on the West Coast of Africa, Joaquim Nicolas de Brito[41], representando um núcleo de 106 libertos, justificava assim o desejo de embarcar para Angola:

    O melhor lugar para onde os libertos africanos e seus descendentes livres, residindo no Império do Brasil, podem ir fundar uma cidade, uma população civilizada, é o lugar chamado Cabinda (…) porque os nativos daquele lugar têm sido por muitos anos desejosos de adquirir civilização europeia, e como prova enviam seus filhos ao Rio de Janeiro e Pernambuco para aprender a falar, ler e escrever em idioma português, eles também desejam que homens civilizados de cor unam-se a eles no propósito de prover a povoação com uma forma civilizada de governo. As pessoas que deverão fundar a povoação supramencionada começarão com o cultivo do solo, e com o plantio de café, algodão, cana-de-açúcar, tabaco, anil, mandioca, feijão, milho e todo tipo de vegetal, tanto para consumo quanto para exportação, para assim manter relações comerciais com todas as nações do mundo, pois este sistema servirá não apenas como um estimulante para os antigos habitantes de Cabinda, mas também para aqueles do interior aplicarem-se de igual maneira ao trabalho do campo e ao comércio, e gradualmente levá-los a esquecer a prática ilegal de venderem-se uns aos outros a traficantes de escravos[42].

    A opinião generalizada sobre estes “brasileiros”, na Costa da Mina ou alhures, ressaltava seu “caráter de intermediários e de portadores de qualidades de caráter civilizador e promotor do progresso local”[43]. Com o combate cada vez mais duro ao tráfico negreiro, que resultou na sua quase total extinção na década de 1850, foi fácil para os “brasileiros” mudar de atividade e dedicar-se ao comércio legal de óleo de palma, tabaco, cachaça, azeite de dendê, nozes de cola e tecidos africanos[44]; na década de 1860 os funcionários franceses de Porto-Novo dedicaram páginas à comunidade de “brasileiros”, a quem tiveram como aliados de primeira hora[45].

    Novas elites, novas ideologias

    O fim da escravização legal de africanos pelo mundo, com as sedutoras promessas de integração nas sociedades locais, arrefeceu o mito paradisíaco do retorno à África. O fluxo de libertos para a África, então, diminuiu significativamente, até estabilizar-se num mínimo, reduzido no final do século XIX a um grupo de libertos mais velhos, “majoritariamente acima dos quarenta anos, o que para a época significava uma idade avançada. Um liberto que voltava nessa fase da vida levava, mais do que tudo, um sonho de viver seus últimos dias na terra em que nascera, na terra em que haviam sido enterrados seus ancestrais”[46]. Se muitos dentre os libertos “retornados” envolveram-se com o tráfico negreiro como forma de sobrevivência, sua longa estadia forçada nas Américas impôs-lhes o aprendizado de outros ofícios com os quais se sobrepuseram às populações africanas tidas como “incultas”, “incivilizadas”, etc. Graças aos libertos retornados, formava-se na costa ocidental da África uma elite profissional e política que, lá, conseguira o que a aristocracia agrária e escravista lhes negara nas Américas: a integração num sistema de poder em posição de mando. Embora sua inserção geopolítica fosse absolutamente subalterna, seu exercício de poder sobre as populações autóctones era real e indiscutível.

    Grupos brancos conservadores seguiriam por todo o século XIX martelando o discurso da expulsão de negros como expressão do receio da competição na venda da força de trabalho, mas aquilo que era visto a princípio como punição ou como forma de eliminar do seio das sociedades escravistas os elementos disruptores “mudaria de sinal” com o passar do tempo. A ressurgência entre os negros do ideal do retorno à África nas primeiras décadas do século XX nos quadros de uma revolução dentro da ordem: Marcus Garvey, fundador da Universal Negro Improvement Association (UNIA) e principal responsável pela ressurreição de uma proposta a esta altura quase sem audiência, diria sobre seu papel político: “Nós fomos os primeiros fascistas. Disciplinamos homens, mulheres e crianças e preparamo-los para a libertação da África. As massas negras viram que só neste nacionalismo extremo podiam depositar as suas esperanças e apoiaram-no de imediato. Mussolini copiou de mim o fascismo, mas os reacionários negros sabotaram-no”[47].

    Notas

    [1]: Mônica Lima e Souza. Entre margens: o retorno à África de libertos no Brasil 1830-1870. Tese de doutorado apresentada no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Rio de Janeiro, 2008, p. 26.

    [2]: Entre 800 e 2.000 negros teriam conseguido alcançar os britânicos, embora 100.000 houvessem tentado. Ray Raphael. A people’s history of the American Revolution: how common people shaped the fight for independence. Nova Iorque: Harper Collins, 2005, p. 324; Michael Lee Lanning. African americans in the Revolutionary War. Nova Iorque: Citadel, 2005, p. 59.

    [3]: Como visto, poucos negros conseguiram alcançar os britânicos, mas as fugas constantes funcionaram como sabotagem estimulada pelos britânicos. E os resultados não foram de pouca monta. Thomas Jefferson, um dos “pais fundadores” dos EUA, denodado defensor da liberdade, declarara (indignado!) sobre a escravidão: “com que execração se deve cumular o estadista que, permitindo que metade dos cidadãos tripudie sobre os direitos de outrem, transforma aqueles em déspotas e este em inimigo, destrói a moral de um e o amor patriaeEscritos políticos. São Paulo: IBRASA, 1964, p. 58) Mas ele mesmo escravizava negros; afundado em dívidas e tendo perdido muitos negros que tinha como seu patrimônio, instigou seus concidadãos virginianos a não pagar débito algum aos britânicos enquanto estes não lhes devolvessem os “cerca de 30 mil escravos” que estes últimos lhes haviam roubado, em violação do Tratado de Paris. (Cassandra Phybus. “Jefferson’s faulty math: the question of slave defection in the American Revolution. The Willam and Mary quarterly. Vol. 62, nº 2, abr. 2005. Disponível em http://www.historycooperative.org/journals/wm/62.2/pybus.html) Suas reais opiniões sobre os negros podem ser vistas nas Notas sobre o Estado da Virgínia: “Muito provavelmente se perguntará, Por que não manter e incorporar os negros ao Estado, e assim economizar as despesas com o preenchimento, pela importação de colonos brancos, das vagas que deixarão? Preconceitos muito arraigados mantidos pelos brancos; dez mil reclamações, por parte dos negros, das injúrias que sofreram; novas provocações; as distinções reais feitas pela natureza; e muitas outras circunstâncias nos dividirão em partidos e produzirão convulsões que provavelmente nunca terminarão em outra coisa além do extermínio de uma raça ou da outra. A estas objeções, que são políticas, podem ser adicionadas outras, que são físicas e morais. (…) E esta diferença [a cor da pele] não é importante? Não é ela o fundamento de uma maior ou menor parcela de beleza nas duas raças? Não são as finas misturas de vermelho e branco, expressões de cada emoção pelo maior ou menor rubor em uma, preferíveis àquela eterna monotonia que reina nos semblantes, aquele imóvel véu negro que cobre todas as emoções da outra raça? Adicione a isto o cabelo leve, uma mais elegante simetria de formas, seu próprio julgamento em favor dos brancos declarado em sua preferência por eles, tão uniforme quanto é a preferência dos orangotangos pelas mulheres negras sobre as de sua própria espécie. A circunstância da beleza superior é tida como digna de atenção na reprodução de nossos cavalos, cães e outros animais domésticos; por que não na do homem?” (Thomas Jefferson. Notes on the State of Virginia. Richmond: J. W. Randolph, 1853, pp. 149-150) do outro! Pois se um escravo pode ter um país neste mundo, este deve ser qualquer outro em preferência à quele em que nasceu para viver e trabalhar para outrem…” (

    [4]: Stephen Braidwood. Black poor and white philanthropists: London’s blacks and the foundation of the Sierra Leone settlement 1786 – 1791. Liverpool: Liverpool University Press, 1994; Mary Louise Clifford. From slaveru to Freetown: Black Loyalists after the American Revolution. Jefferson: McFarland & Co., 1999.

    [5]: Mary Louise Clifford, ob. cit.; Cristopher Fyfe (ed.). Anna Maria Falconbridge’s Narrative of two voyages to the river Sierra Leone with Alexander Falconbridge’s An account of the slave trade on the coast of Africa. Liverpool: Liverpool University Press, 2000.

    [6]: Mary Louise Clifford, ob. cit.

    [7]: Mônica Lima e Souza, ob. cit., p. 108.

    [8]: Eli Ginzberg e Alfred S. Eichner. El negro y la democracia norteamericana. México: Unión Tipográfica Editorial Hispano-Americana, 1968, pp. 2 e 51; F. W. Knight, Y. Talib e P. D. Curtin, “The African Diaspora”. Em: UNESCO International Scientific Committee for the Drafting of a General History of Africa (org.) General history of Africa, vol. VI: J. F. Ade Ajayi (org.) Africa in the Nineteenth Century until the 1880s, Londres: Heinemann; Berkeley: University of California Press; Paris: UNESCO, 1989, p. 771.

    [9]: E. Ginzberg e A. S. Eichner., ob. cit., pp. 68-70; Arthur Herman. The idea of decline in Western History. Nova Iorque: The Free Press, 1997, pp. 198-199.

    [10]: Alexis de Tocqueville De la démocratie en Amérique. [Paris]: Gallimard, 1968, p. 203.

    [11]: Id., ibid., pp. 203-204.

    [12]: Id., ibid., pp. 197 e segs.

    [13]: Id., ibid., pp. 200-201.

    [14]: Id., ibid., 202. Ver ainda a pág. 201. Segundo F. W. Knight et al., ob. cit., , p. 771, em 1860 só cerca de quinze mil negros havia abandonado os Estados Unidos para se fixar na Libéria.

    [15]: E. Ginzberg et al., ob. cit., pp. 70-72.

    [16]: Id., ibid., 2-3, 93, 107, 109, 121.

    [17]: Citado em id., ibid., 109-110.

    [18]: Id., ibid., 110.

    [19]: Id., ibid., 2-3.

    [20]: Id., ibid., 219.

    [21]: Id., ibid., 245.

    [22]: Elisée Réclus, The Earth and its inhabitants. Africa, vol. III: West Africa. New York: D. Appleton and Co., 1892, pp. 221-222

    [23]: Elisée Réclus, ob. cit., p. 260.

    [24]: Mônica Lima e Souza, ob. cit., p. 165.

    [25]: Os primeiros brasileiros a chegar na costa de Gana foram traficantes de escravos, que operavam a partir das fortalezas dinamarquesas de Ada e Keta. Ainda em 1853 esta rede de tráfico negreiro seguia funcional – a ponto de Sylvanus Epiphanio Kwami Olympio, neto de um destes traficantes, ter sido o primeiro presidente eleito do Togo após a independência do país, em 1960. (Alcione Amos e Ebenezer Ayesu. “Sou brasileiro: história dos Tabom, afro-brasileiros em Acra, Gana”. Afro-Ásia, nº 33, 2005 , p. 37.)

    [26]: Dados obtidos em Mônica Lima e Souza, ob. cit., p. 120.

    [27]: Dados obtidos em Mônica Lima e Souza, ob. cit., p. 137.

    [28]: Alcione Amos e Ebenezer Ayesu, ob. cit., p. 40.

    [29]: Idem, p. 40.

    [30]: Idem, p. 42.

    [31]: Idem, p. 44.

    [32]: Idem, p. 58.

    [33]: Idem, p. 52.

    [34]: A cidade desenvolveu-se junto ao forte português de São João Baptista da Ajuda; tanto agudá quanto Uidá são tidos como formas locais de pronunciar “ajuda” (Milton Guran. “Da bricolagem da memória à construção da própria imagem entre os agudá do Benim”. Afro-Ásia, n.º 28, 2002, p. 46).

    [35]: Robin Law. “A carreira de Francisco Félix de Souza na África Ocidental (1800-1849)”. Topoi, nº 2, mar. 2001, pp. 9-39.

    [36]: Robin Law. “A comunidade brasileira de Uidá e os últimos anos do tráfico atlântico de escravos, 1850-66”. Afro-Ásia, nº 27, 2002, p. 42. Segundo o autor, “um fator de coesão da comunidade foi, também, a influência suprema de Francisco Félix de Souza, ao qual praticamente todos os membros estavam ligados por laços de parentesco, parceria comercial ou clientelismo” (idem, pp. 43-44).

    [37]: Mônica Lima e Souza, ob. cit., p. 63.

    [38]: John Michael Vlach. “The brazilian house in Nigeria: the emergence of a 20th-century vernacular house type”. The Journal of American Folklore, vol. 97, nº 383, jan. 1984, p. 6.

    [39]: Mônica Lima e Souza, ob. cit., p. 122.

    [40]: Em termos de projeto, apenas, pois o intercâmbio entre “brasileiros”, américo-liberianos e krios já existia há muito. Cf. Idem, p. 192-195.

    [41]: Como o texto encontrado por Mônica Lima e Souza nos arquivos do Foreign Office britânico foi traduzido do português e toda a intermediação do assunto foi feita por ingleses, é muito provável que seu nome correto seja Joaquim Nicolau de Brito. Há outros erros de tradução no original, como “Nicolão Domingues” e “Jacob Fernandes”. Cf. uma transcrição da troca de correspondência entre o Foreign Office britânico e James Hudson, intermediário dos libertos, em idem, pp. 239-246.

    [42]: Tradução do documento transcrito em idem, pp. 245-246.

    [43]: Mônica Lima e Souza, ob. cit., p. 66.

    [44]: Idem., pp. 151-152.

    [45]: Idem, p. 68.

    [46]: Segundo Mônica Lima e Souza, o fim do tráfico negreiro a partir da década de 1860 e o reforço das lutas abolicionistas fizeram destes que retornavam uma população . (Ob. cit., p. 119). Um exemplo é buscado por ela na saída de um dos últimos comboios de libertos para a África em 1897, narrada por Nina Rodrigues (Idem, p. 119).

    [47]: Citado em E. D. Cronon, ob. cit., p. 199 e G. Padmore, ob. cit., p. 106. Ver ainda A. Herman, ob. cit., p. 213.

    Fonte: http://passapalavra.info/?p=25958