sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Prisão no próprio trabalho


Em Francisco Beltrão (PR), há 800 aviários que envolvem 8%
da força de trabalho da cidade - Foto:Ana Nascimento/ABr


Por Pedro Carrano de Dois Vizinhos (PR) 

Avicultores integrados à Sadia protestam contra preço e condições impostos pela transnacional

"Não há alternativa”, é a frase comum entre muitos trabalhadores, uma vez que a decisão de integrar sua granja à empresa levou ao endividamento, resultado da exigência de modificação constante da infra-estrutura. O sucateamento precoce do equipamento mantém a renda do produtor abaixo dos gastos e do necessário para sobreviver. “Dormimos em prestação”, compara um produtor.    
Dia 10 de outubro, cerca de 500 pessoas juntaram-se na praça de Dois Vizinhos (PR), concentrados na Igreja Matriz – coincidência ou não, a data coincide com o 10 de outubro de 1957, quando a cidade principal de Francisco Beltrão foi tomada por seis mil agricultores, no capítulo conhecido como “Revolta dos Colonos”, no sudoeste do estado. Agora, eles gritaram por melhores preços pela unidade de frango, denunciando as condições impostas pela Sadia. Lideranças do ato calculam que a unidade local da corporação recebe as aves de cerca de 939 famílias integradas, dentre as quais 10% são produtores com bom rendimento, porém o restante têm aviários antigos, “são produtores mais velhos que passam por sérios problemas”, define Cândido da Silva, produtor de Salto Lontra, a 35 km dali. 
O universo total de granjas integradas à Sadia chega a 10 mil no país. Em Dois Vizinhos – que se auto-intitula a “capital do frango” - cada família entrega, no prazo de 28 dias, perto de 50 mil frangos para essa empresa encarregar-se de vender 90% para o mercado externo. Todos os dias, as entregas nos caminhões às portas da empresa somam 505 mil frangos. O peso na economia do sudoeste é inegável. A unidade de abate instalada em Francisco Beltrão (PR), por exemplo, integra 800 aviários e envolve 8% da força de trabalho da cidade.          
Naquela mesma manhã do dia 10, poderiam ser mais pessoas reunidas, não fosse a Sadia/BRF ter pressionado uma série de produtores a não aderir ao protesto. A coação já é de praxe. Assim mesmo, esse primeiro grito rompeu uma passividade e revolta contida de décadas. São trabalhadores que, no atual período histórico, o sindicalismo rural não deu conta de organizar, e, no caso, coube ao padre Deoclézio Wigineski, da paróquia local, propor as primeiras reuniões e manifestos.      
Os protestos contra a Brasil Foods começaram no dia 12 de setembro, quando os avicultores se posicionaram em frente à unidade da empresa em Dois Vizinhos. “Eles não têm condições de pagar as contas, a grande maioria está devendo bastante no banco e para terceiros”, descreve o padre. A indignação desses produtores era visível em cada palavra de ordem, em cada fala no microfone, as mãos tremendo: “O avicultor não precisa se confessar, já paga todos os pecados”, disse Elenice, avicultora, em um ato que também teve um forte caráter ecumênico.    

Organização dos trabalhadores       
No interior dos frigoríficos e matadouros, há embriões de organização dos trabalhadores, cuja ação mais importante foi a vitória, em 2010, da oposição ao Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Carnes e Derivados (Sitracarnes), na cidade de Chapecó (SC), em unidade da mesma Sadia, onde há 22 anos não haviam eleições sindicais. Na ocasião, o Ministério Público do Trabalho (MPT) garantiu que, se o trabalho da chapa de oposição fosse criminalizado, a direção da Sadia seria acusada de formação de quadrilha, por estar vinculada à antiga direção do sindicato.       
A Brasil Foods é resultado da tentativa de fusão entre a Sadia e a Perdigão, no pico da crise de 2009, ação recentemente questionada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), alegando que a concentração econômica da empresa resultaria em aumento de preços de alimentos e da inflação. Isso gerou, por um só dia, em julho de 2011, interrupção das ações do grupo na Bovespa.
Hoje, o controle das ações ordinárias da BR Foods pertence sobretudo ao Fundo Petros e Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, que somam 22% das ações.         

Exploração dentro e fora      
As condições de trabalho na criação e também no abate dos animais começam a enfrentar uma crítica de entidades, espantadas com superexploração nesses locais de trabalho. Basta ver o documentário Carne e Osso, produzido pela Repórter Brasil (janeiro de 2011), revelando as condições de trabalho no interior de frigoríficos no Sul e Centro- Oeste do país. A película mostra que o setor emprega 750 mil operários, 500 mil no abate de aves. 
O número podia ser bem maior, pois somente um trabalhador realiza por minuto de 80 a 120 movimentos para desossar frangos, sendo que uma média de 30 movimentos seria um limite seguro para evitar doenças do trabalho. Um operário de frigorífico está sujeito a 743% mais chances de desenvolver doenças nos nervos e músculos do braço que outro trabalhador. Rotatividade e doenças nesse ramo são inevitáveis.         
Certo é que, no Paraná, a falta de denúncias coincidia com a falta de ferramentas para reorganizar os trabalhadores, que passam a se movimentar. “É uma ruptura que pode se dar (nesses locais) a partir de dentro, e não das instituições. A organização é muito difícil, e acontece depois que eles deixam a fábrica. 
Em Francisco Beltrão (PR), há a organização dos lesionados pela Sadia”, afirma Valdir Duarte, da Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural (Assessoar). No caso dos avicultores integrados, trata-se de um sujeito político pressionado pela intensificação de produção e exportação de carnes, mas ainda sem experiência de luta.    

Pedra de Sísifo      
A primeira pauta foi construída baseada nos preços dos lotes e nas condições de produção. Os benefícios e direitos trabalhistas ainda aparecem de forma tímida na luta dos avicultores, que não têm acesso a férias remuneradas, carteira de trabalho assinada, como observa o coordenador no Paraná do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Robson Formica, presente ao ato, entre diferentes organizações e sindicatos que prestaram solidariedade. “Não há diferença para a exploração da indústria, a diferença é que esses trabalhadores não tem cartão-ponto”, afirma.       
O produtor Paulo Furlan está no ramo há vinte anos. O que o preocupa é o alto investimento pessoal, o baixo retorno e a necessidade de cumprir metas. Produtores calculam o endividamento em torno de 80 mil, o que faz da entrada nessa cadeia produtiva um verdadeiro cárcere para eles, onde quem entra “nunca mais sai”, como afirma Furlan. “É muito investimento. Não consigo comprar uma casa, não consigo. A despesa é alta. E a esperança é sempre o próximo lote de vendas”, diz, admitindo que a desigualdade no pagamento da Sadia aos produtores gera a expectativa de que é possível ganhar melhor, tal como no mito grego de Sísifo – carregando a pedra ao topo de montanha até que ela desmorone. Os produtores acusam a Sadia de não assumir erros na produção, ao passo que eles são penalizados quando não cumprem a meta ou apresentam a mercadoria fora dos padrões exigidos pela empresa. “Na região é um monopólio da Sadia/BRF. Isso submete agricultores, uma vez que a proposta inicial da empresa é ótima. Mas, com o aviário, a proposta não responde mais. Muito complicada essa questão de vender a imagem que não é verdadeira”, critica o padre Wigineski.    
Aléssio Antonio Cervinski tem três filhas, que o ajudam nas lidas da propriedade. As jovens não querem ficar nessa vida e sonham tomar outro rumo. Ele sacode a cabeça e admite que mesmo com o trabalho tomando, literalmente, as 24 horas do seu dia, não ganha o suficiente para se manter. “Nós somos escravos”, afirma outra produtora, chamada Elenice. Por sua vez, Rosane Dorigoni e Pedro Luiz Dorigoni, que produzem desde 1986, têm que diversificar outras atividades para sobreviver. O aviário na verdade acaba sendo apenas uma pedra no meio do caminho.          
No dia 10 de outubro, os avicultores ainda não foram à frente da Sadia para paralisar os caminhões, o que estava previsto na convocatória aberta do ato. A empresa, por intermédio da Igreja, resolveu negociar e os trabalhadores por ora se apressam em refundar uma Associação de Produtores - a antiga já estava fora de movimento há muito tempo e não dava conta dos seus interesses.  

Agronegócio e submissão
A mesoregião de Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná, é rica em memórias de lutas, como foi a Revolta dos Colonos (1957) quando famílias de colonos e descendentes de imigrantes mantiveram, armas em punho, a posse de suas terras. Hoje a produção local orbita em torno das unidades da Sadia. Há uma tensão entre a agricultura camponesa e familiar e a constante proletarização determinada pelo Capital, afirma Valdir Duarte, da Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural (Assessoar). A maneira como as empresas do agronegócio conquistam os agricultores locais, de acordo com Duarte, dá-se por meio das empresas agroveterinárias, cujos técnicos estão em contato diário com o agricultor, para convencê-lo a implantar tal modelo. “É por onde chegam a Syngenta, Monsanto, uma estratégia que não é apenas local. Não há uma elite local capaz de um projeto próprio, seu projeto é desigual e combinado com as grandes transnacionais. É a exportação”, sintetiza. 

Propostas dos produtores à Sadia 
Renda: Que a renda dos lotes de frango seja de, no mínimo, R$ 0,35 por ave entregue à empresa Sadia/BRF, atingindo a conversão real estipulada no alojamento. 
Pagamento: Quanto ao sistema de pagamento, o pedido é o de voltar a três dias úteis após a data do abate. 
Investimento: Rever a viabilidade e a possibilidade dos investimentos obrigatórios a serem feitos pelos avicultores.
(Fonte: Assesoar)
Fonte: Jornal Brasil de Fato

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A maior destruição de riquezas da história da humanidade

A maior destruição de riquezas da história da humanidade
Vencem neste ano as onze maiores dívidas públicas (US$ 8 trilhões) e enormes volumes de títulos das multinacionais; compra e venda é feita com recursos públicos. Juros e déficits em aumento. BRICs tentam atrair capitais especulativos

Os vencimentos das dívidas públicas dos países do chamado G7 (as sete principais potências imperialistas: França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá) e do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) ultrapassarão os US$ 7,6 trilhões em 2012. Considerando os juros do ano, o valor ultrapassa os US$ 8 trilhões.
O governo do Japão enfrentará vencimentos por US$ 3 trilhões e juros por US$ 117 bilhões. O Japão teve um balanço de contas correntes positivo em 2011, mas deverá piorar em 2012 devido à queda das exportações provocada pelo aprofundamento da recessão a nível mundial. Os títulos públicos japoneses pagaram, em 2011, juros menores que 1%, apesar da sua dívida pública representar 200% do PIB.
O governo dos EUA terá vencimentos de US$ 2,8 trilhões e juros por US$ 212 bilhões. O déficit público, assim como na maioria dos países, continua aumentando e ultrapassará os US$ 1,5 trilhões em 2012.
Somente para manter o pagamento dos serviços da dívida pública, os países da Zona do Euro emitirão € 794 bilhões em 2012. O governo da Itália deverá emitir € 220 bilhões com esta finalidade, de um total de US$ 428 bilhões que deverá refinanciar, além de US$ 72 bilhões para o pagamento de juros. O governo italiano conseguiu vender somente € 7 bilhões dos € 8,5 bilhões títulos públicos que eram a meta em 28 de dezembro.
O governo da França enfrentará vencimentos por US$ 367 bilhões e juros por US$ 54 bilhões. O governo da Alemanha por US$ 285 bilhões e US$ 45 bilhões respectivamente. O Canadá por US$ 221 bilhões e US$ 14 bilhões; o Brasil por US$ 169 bilhões e US$ 37 bilhões; a Grã Bretanha por US$ 165 bilhões e US$ 67 bilhões; a China por US$ 121 bilhões e US$ 41 bilhões; a Índia por US$ 57 bilhões e US$ 39 bilhões; e a Rússia por US$ 13 bilhões e US$ 9 bilhões.
A Grécia deverá rolar 27% do seu PIB em 2012. A Itália 24%; a França 15%; a Espanha 15% e a Alemanha 9%. Os EUA 20%. O Japão 40%. O Brasil 15%. Mas, além da rolagem propriamente dita, os déficits estatais estão em contínuo aumento, são emitidos grandes volumes de títulos com vencimentos no próprio ano, há enormes volumes de recursos que são repassados através de mecanismos legais e ilegais para os especuladores, resgates das multinacionais parasitárias em bancarrota etc. Contemplando esses vários aspectos, a realidade é que praticamente todos os recursos da sociedade estão direcionados para a especulação financeira.

Dívida da Grã Bretanha: um exemplo do profundo fracasso histórico do capitalismo

A dívida total da Grã Bretanha, contemplando a dívida pública, municipal, dos consumidores e das empresas alcança 466% do PIB. O crescimento da sua economia, assim como acontece com os países europeus, Japão e EUA, é anêmico e, em 2012, entrará em recessão. As medidas adotadas para suportar o chamado “crescimento econômico”, que, de fato, referencia mecanismos, cada vez mais distantes do crescimento produtivo, para suportar a manutenção dos repasses de recursos públicos para os especuladores financeiros, está baseado no fomento artificial do crédito tomando como base a impressão de papel moeda para injetar recursos públicos nos bancos imperialistas.
O crédito tem sido usado de maneira obscena desde o fortalecimento das políticas neoliberais, a partir da década dos 80, e está na base da disparada especulativa dos preços dos ativos financeiros. Os enormes volumes de papel moeda injetados tiveram resultados nulos em relação a crescimento econômico.

Os juros dos títulos públicos (e privados) continuarão aumentando em 2012 para sustentar a ciranda financeira

Os bancos centrais têm mantido as taxas de juros muito baixas e comprado títulos públicos dos tesouros através da impressão de papel moeda (política conhecida como quantitative easing) com o objetivo de manter o controle das despesas de custeio do estado, os repasses para os especuladores financeiros e os ataques contra o nível de vida das massas trabalhadoras através da perda do seu poder de compra. O presidente da FED (Reserva Federal – banco central) dos EUA, Ben Bernacke, declarou que tem como objetivo a manutenção de taxas de juros entre 0% e 0,25% para os empréstimos interbancários overnight (de um dia para o outro).
As taxas de juros médias pagas em 2011 nos EUA foram de 2,18%, no Japão menos de 1%, e na Alemanha 1,9%. A previsão para 2012 é que aumentem, pelo menos, para 2,6%, 1,35% e 2,5% respectivamente.
As taxas de juros dos títulos públicos a 10 anos continuarão aumentando devido ao acirramento da especulação financeira, que inclui a degradação das notas da maior parte dos países europeus já colocadas em perspectiva negativa pelas agências qualificadoras de risco, e a escassez de crédito. O aumento deverá ser de, pelo menos, 39% de acordo com análise da Bloomberg.
Os juros dos títulos italianos a 10 anos ultrapassaram os 7% no último trimestre de 2011 e chegaram a 6,98% no final de dezembro. Este foi o nível que levou à bancarrota os governo de Grécia, Portugal e Irlanda.
Apesar da inundação dos bancos europeus com € 500 bilhões, no último trimestre de 2011, com recursos provenientes do BCE (Banco Central Europeu), os resultados continuam sendo pífios, apesar de terem atingido o seu objetivo principal que é manter os lucros dos especuladores financeiros a curto prazo a qualquer custo.

A compra e venda de títulos dos governos é feita com recursos públicos

As multinacionais imperialistas, principalmente as que atuam no setor financeiro, somente sobrevivem como parasitas dos recursos do estado. Sem isto, elas quebrariam imediatamente, o que revela a semente do socialismo crescendo dentro da própria sociedade capitalista em estado de putrefacção.
O governo dos EUA, através da chamada Operação Twist está vendendo US$ 400 bilhões de títulos a curto prazo e reinvestindo em títulos a longo prazo. Somente neste mês, comprará em torno de US$ 45 bilhões, do sistema financeiro imperialista parasitário, e venderá aproximadamente US$ 44 bilhões: operação simples, mas que garante altas taxas de lucro para os especuladores.
O governo dos EUA emitiu títulos públicos por US$ 2,135 trilhões em 2011. Para cada dólar emitido através desses títulos, injetou US$ 3,04 dólares na economia através de repasses ao sistema financeiro norte-americano.
Os bancos centrais mundiais diminuíram os seus estoques de títulos públicos do Tesouro dos EUA em mais de US$ 70 bilhões. O governo japonês interveio em sentido contrário, comprando US$ 100 bilhões.
Em contrapartida, com o objetivo de reduzir a exposição ao risco, os 10 maiores fundos de investimentos norte-americanos têm diminuído os empréstimos aos bancos europeus desde o terceiro trimestre de 2011; somente no mês de outubro, a diminuição foi de 9%. A exposição aos bancos franceses diminuiu de 6,7% para 5,5%. Os empréstimos chamados “repos”, que envolvem seguros colaterais, aumentaram em 24%, mas com exigências de colateralização cada vez maiores. Tem aumentado a tendência à retirada dos depósitos das multinacionais dos bancos espanhóis, italianos, franceses e belgas.
O Banco do Japão comprou títulos públicos por US$ 260 bilhões em 2011 e tem mantido as taxas de juros abaixo de 0,5%. O Banco da Inglaterra comprou títulos públicos por US$ 431 bilhões em 2011 e continua mantendo a taxa de juros em 0,5%.
O BCE (Banco Central Europeu) reduziu as taxas de juros de 1,5% para 1% e, em cima dessa taxa, repassou € 489 bilhões em empréstimos a três anos para os bancos imperialistas no final de 2011. Uma nova rodada de repasses está prevista para o próximo dia 28 de fevereiro. Uma parte importante desses recursos será usada para a compra de títulos públicos, o que ajudará na tentativa de manter sob controle as taxas de juros nos primeiros meses deste ano.
O BCE tem comprado € 212 bilhões de títulos públicos da Grécia, Portugal e da Irlanda nos chamados mercados secundários desde maio de 2010 para conter a disparada dos juros. A partir de agosto, incluiu na operação os títulos da Espanha e da Grécia.
A expectativa dos especuladores financeiros é o aumento da monetização da dívida pelo BCE.

Acentua-se a maior destruição de riqueza da história da humanidade

Somente na zona do euro, US$ 6,3 trilhões foram varridos das bolsas de valores em 2011. Os mercados globais perderam 12,1% e caíram para US$ 45,7 trilhões. No mês de setembro, já tinha havido uma queda de US$ 56 bilhões quando as taxas de juros a 10 anos passaram para o menor valor desde 1945, 1,67%.
Nos EUA, o governo tem injetado nos bancos imperialistas mais de US$ 25 trilhões desde o colapso de 2007-2008. A sua produção real tem declinado em ritmos acelerados. A máquina de impressão de papel moeda sem lastro produtivo continua trabalhando a todo vapor, transformando-se no principal componente das exportações norte-americanas e inundando o mundo com dólares baseado no controle das transações de petróleo através dos chamados “petrodólares”.
Na Europa, os repasses feitos nos últimos três anos ultrapassam os € 10 trilhões.

Perante o aprofundamento da crise capitalista, os países do chamado BRIC tentam atrair capitais especulativos

O Brasil conseguiu atrair um saldo positivo de US$ 65 bilhões de capitais especulativos em 2011. US$ 55 bilhões foram usados para fechar o balanço de contas correntes do ano. No próximo período, devido à queda do superávit das exportações, que já começou no último trimestre, e ao aumento das importações, o País ficará ainda mais dependente dos capitais especulativos. As últimas medidas do Ministério da Fazenda reduzem os impostos para a entrada e a saída dos capitais especulativos.
A China continental está levantando as restrições dos mercados financeiros aos especuladores financeiros com o objetivo de balancear o forte endividamento dos bancos e o iminente estouro das bolhas imobiliárias e das obras de infraestrutura.
Na Índia, o governo levantará as restrições para os investimentos diretos nos mercados financeiros internos a partir do dia 15 de janeiro, anteriormente restritos aos fundos mutuais e outros fundos. As exportações indianas têm diminuído sensivelmente devido à queda da demanda mundial. O índice Sensex caiu 25% em 2011. A rúpia indiana caiu 17% contra o dólar o que contribuiu para diminuir os lucros dos especuladores imperialistas e a sua cotação continua descontrolada apesar das intervenções do governo. Em 2011, o fluxo de investimentos externos foi negativo em US$ 380 milhões contra um fluxo positivo de US$ 29 bilhões em 2010. No passado mês de dezembro, a Bolsa de Mumbai, que é a quarta maior da Ásia, perdeu US$ 1 trilhão o que representou o seu pior nível desde maio de 2010. Na declaração de Réveillon, o primeiro ministro Manmohan Singh disse que as altas de crescimento do País não poderão ser mantidas com investimentos públicos em obras de infraestrutura, como tem sido feito na China, pois o déficit público tem crescido após o colapso capitalista de 2007-2008 a níveis que ameaçam a estabilidade fiscal do governo. Neste ano, o déficit de contas correntes será entre 7% a 9% do PIB, acima de US$ 60 bilhões. O déficit público atingiu 2,9% do PIB em 2011, contra 1% (US$ 9,6 bilhões) em 2006. A inflação ultrapassa os 10%. As taxas de juros foram aumentadas 13 vezes desde o mês de março de 2009. O parlamento indiano está debatendo uma série de reformas para tentar conter a crise. As medidas deverão ser as mesmas que estão sendo implementadas a nível mundial sob o controle dos grandes especuladores financeiros: maior liberalização econômica para atrair os capitais especulativos, principalmente nos setores de varejo, a indústria de aviação e a comercialização das terras, o aumento dos impostos, os cortes dos gastos públicos principalmente nos programas sociais e investimentos produtivos. Há uma bolha enorme em andamento relacionada com os preços da terra; na província de Punjab aumentaram 200% no último ano.
O RBI (banco central da Índia), seguindo políticas muito similares ao QE ou Twister da FED dos EUA, sob o programa denominado LAF (liquidity adjustment facility) tem comprado títulos dos bancos por 2 bilhões de rúpias para possibilitar que eles comprem títulos públicos.
Devido ao aprofundamento da crise capitalista, todos os governos estão há procura de mecanismos para atrair capitais especulativos. Os custos de capital (taxas de juros e lucro) têm aumentado e continuarão aumentado ainda mais devido ao aumento da procura e da aversão ao risco.

Em 2012, vencerão enormes volumes de títulos das multinacionais

Um enorme volume de títulos emitidos pelas multinacionais imperialistas europeias vencerão em 2012 e deverão ser refinanciados, pois a maior parte dos CLOs (collateralised loan obligations), que são títulos financeiros que permitem a compra de empréstimos feitos a empresas financeiras para financiar aquisições, começaram a escassear. As regras dos CLOs não permitem ser usados para comercializar refinanciamentos de empréstimos já existentes ou reinvestir os ganhos recebidos nos empréstimos pré-existentes. Até 2014, mais de 98% dos CLOs na Europa entrarão em estado “estático” de acordo com a Standard & Poor’s. O impacto será a perda de uma fonte de crédito para refinanciar € 250 bilhões que foram outorgados como empréstimos alavancados (a empresas fortemente endividadas).
Na prática da especulação financeira, quando todos os contratos são liquidados e compensados enfrenta-se uma situação altamente deflacionária como o evidenciou o colapso capitalista de 2007-2008. Em 2008, um dos componentes da crise capitalista foi a crise do crédito que levou a que US$ 5 trilhões não tivessem sido compensados. Mas, quando esses contratos foram compensados ou anulados contra os títulos colaterais correspondentes, o valor líquido das obrigações (títulos) remanescentes caiu para US$ 200 bilhões. Essas gigantescas diferenças levaram o sistema financeiro imperialista mundial à bancarrota e estão na base dos gigantescos volumes de recursos repassados para os especuladores financeiros.
Nos últimos três anos, a especulação financeira não só não diminuiu, mas aumentou muito, pois cada vez fica mais difícil para as multinacionais imperialistas extraírem lucros das atividades produtivas devido às próprias leis do capitalismo. Os especuladores têm aumentado o arsenal de títulos e documentos financeiros; uma verdadeira “sopa de letrinhas” para camuflar a espoliação dos recursos da sociedade: CDO's; SPVs, incluindo os ABS, RMBS e CMBS; os CDS; os REPO's; RE-HYPOTETICATION; liquidity SWAPS etc.
A brutal sangria dos recursos da sociedade teve como resultado em 2011 uma enorme queda no valor acionário dos principais bancos imperialistas, o que se traduz no aumento dos custos de financiamento e a necessidade de maior socorro estatal. O Bank of America perdeu 60,38%; o Citibank 44,76%; o Goldman Sachs 46,41%; o JPMorgan 23,03%; o Morgan Stanley 45,24%; o RBS 50%; o Barclays 34,32%; o Lloyds 63,02%; o UBS 29,33%; o Deutsche Bank 28,55%; o Crédit Agricole 56,04%; o BNP Paribas 37,67% e o Société Générale 59,57%.
O capitalismo, na sua atual etapa altamente parasitária, levou à recessão econômica, acentuada pelos cortes aos investimentos produtivos e os programas sociais, e ao destino parasitário dos recursos públicos e privados que são usados na compra e recompra de papéis, que em essência são papéis podres, pois não agregam absolutamente nenhum valor à economia real e têm como única finalidade garantir altas (altíssimas) taxas de lucro a qualquer custo para o punhado de especuladores financeiros imperialistas que dominam o mundo.
Fonte: PCO

Com quantas crises se faz uma revolução?

Escrito por Daniel Romero, do Ilaese   
Com a crise econômica, a “Primavera Árabe” e a Guerra Social na Europa, estamos vivendo as maiores transformações sociais desde a queda do Muro de Berlim, mas para que direção apontam estas mudanças? 
Semelhante ao período da Queda do Muro de Berlim, uma mudança histórica se anuncia, embora o sentido e a dinâmica das transformações sejam ainda bastante incertos. Mas, diferente daquele período é no coração do capitalismo que está o epicentro da turbulência mundial. Estamos vivendo uma nova situação internacional caracterizada pela combinação de três tipos de crise: crise econômica global, crises políticas e crise do imperialismo.

Quem está em crise?

Quando se fala atualmente da crise econômica, do que exatamente está se falando? Depois de tantas idas e vindas, quais setores da economia efetivamente estão em crise? Crise econômica, grosso modo, é a interrupção do processo de acumulação do Capital, quando não se consegue obter lucro com os novos investimentos.
Com o início da crise imobiliária, em 2008, o setor bancário americano quebrou e levou consigo o mercado financeiro mundial. Neste momento, a crise se tornou global, atingindo todos os setores da economia e todos os países, resultando numa recessão econômica em 2009. O PIB dos países centrais (EUA, Japão e Zona do Euro) caiu para -3,5% e o PIB mundial também sofreu uma queda de -0,7%, só não sendo mais acentuada em função da manutenção do crescimento na China (9,2%) e Índia (6,8%), contrariando a tendência mundial.
Iniciou-se a pior crise econômica desde a depressão de 1929. Uma crise de superprodução agravada por uma brutal crise financeira. O início de um longo período de decadência da economia imperialista, que pode durar de 15 a 20 anos, e ser marcado por crises fortes e recuperações lentas, com uma ameaça sempre presente de uma nova depressão.
 

2010: suspiro da recuperação e regressão social

Em 2010, começou o suspiro, com os primeiros sinais de recuperação da atividade econômica. Mais uma vez, China e Índia ocuparam um papel de destaque, ambos crescendo cerca de 10%, acompanhados também pelo Brasil, que cresceu 7,5%. Embora com ritmo menor, os países centrais também recuperaram parte da atividade econômica, crescendo em média 3%, mesmo nível dos EUA e um pouco menor do que Alemanha (3,6%) e Japão (4,0%).

No caso da China, a manutenção do crescimento se deveu a incentivos públicos destinados à “burguesia costeira” (setores exportadores), investimentos em indústrias de aço e cimento e pressão pelo não cumprimento da Nova Lei do Trabalho, aprovada em 2007. No caso do Brasil, a retomada do PIB foi proporcionada pelo endividamento dos trabalhadores.
Foram nos países centrais, no entanto, que a situação se tornou mais grave e mais complexa. Nos EUA e na Zona do Euro, as empresas conseguiram inverter a dinâmica de queda de seus lucros. Dois aspectos são determinantes para compreender isso. No caso do mercado financeiro, o óbvio: os planos de salvamento aos bancos produziram a maior transferência de recursos públicos para o setor privado na história. Com eles, o mercado financeiro ganhou fôlego novo e, em 2010, o volume de ativos financeiros já era 10 trilhões de dólares a mais do que em 2007, ano anterior à crise (Instituto McKinsey. “Mapeamento do Mercado Global de Capitais”, agosto de 2011, p. 02).
Isso significa que, para além de casos particulares, o sistema financeiro como um todo precisou de apenas dois anos para recuperar as perdas (e ultrapassá-las) de uma das maiores crises econômicas da história. É claro que isso não é isento de contradições, pois uma recuperação tão acelerada das finanças ao mesmo tempo em que o crescimento econômico mundial ainda é letárgico, resulta em pressão por novas bolhas especulativas. Um sinal disso é que também voltou a crescer a relação entre capital financeiro e o PIB, atingindo 356%, no mundo, e 462% nos EUA.
A maior economia mundial e mais avançada tecnologicamente conseguiu aumentar seus lucros com um processo de regressão social. A participação dos salários no PIB do país reduziu cerca de 2% desde 2008, acentuando uma queda que ocorre desde os anos 2000. No setor produtivo, a retomada dos lucros não foi resultante de aumento dos investimentos em capital fixo (máquinas e equipamentos, que permitem aumentar a produtividade do trabalho); de fato, estes caíram -2,7% em 2009 nos EUA. Apesar disso, a “produtividade” do trabalho aumentou 3,5% no mesmo período, decorrente da intensificação das tarefas.
O desemprego, por sua vez, saltou de 5,8 para 9,6% entre 2008 e 2010, mas ele ficou ainda maior entre a população negra (de 10 para 16%), latinos (de 7,5 para 12,5%) e mães solteiras (de 8% para 12,3%), setores tradicionalmente marginalizados e uma das principais bases eleitorais do governo Obama. No caso europeu, a situação é semelhante: aumento do desemprego (de 7,6 para 10%), retração dos salários e inúmeros cortes sociais e de direitos trabalhistas. O diferencial é que, na Zona do Euro, está muito mais difícil administrar a dívida pública do que nos EUA. Em síntese, 2010 foi um ano de grande regressão social para a classe trabalhadora mundial, principalmente europeia e norte-americana. A taxa de desemprego levou esses países a se assemelharem a América Latina, o que possibilitou a leve recuperação de suas respectivas economias, quer por vias diretas (aumento da exploração do trabalho), quer por vias indiretas (endividamento público e redução da rede de proteção social).
Mas, mesmo com o crescimento na taxa de lucros, as grandes empresas não retomaram em grande escala os investimentos. O grau de ataque aos trabalhadores ainda está longe de ser o suficiente para garantir uma nova fase de crescimento do capitalismo.
Para abrir a perspectiva de uma saída da crise, o Capital assume uma guerra social contra o proletariado. O objetivo é acabar com o chamado “Estado de bem estar social”, ou seja, com as conquistas do proletariado dos países imperialistas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Isso significa aproximar o nível de vida desses trabalhadores aos da América Latina. Como num efeito cascata, os latino-americanos seriam rebaixados aos níveis chineses; e os chineses a um nível ainda mais baixo. Junto com isso, a regressão de países imperialistas periféricos (como Grécia, Portugal e outros) para um status semicolonial.
A reação do capital para sair de sua crise aproxima o mundo de situações de barbárie. Parafraseando Lênin, essa é a catástrofe que nos ameaça.
 

2011: da regressão social às revoluções e à resistência

Felizmente, 2010 terminou mais cedo do que de costume, mais precisamente em 18 de dezembro. No dia seguinte, ocorreu na Tunísia, a primeira grande manifestação contra o desemprego e o aumento do custo de vida no país. O desenrolar dos acontecimentos instalou uma nova fase da crise, transformando-a em crise política.
No norte da África surgiram as primeiras grandes vitórias dos trabalhadores desde o início da crise econômica, com a derrubada de três governos aliados do imperialismo.
Em várias cidades do mundo surgiram praças Tahir e uma explosão de lutas sociais de todos os tipos varreu o mundo ocidental, aumentando a resistência da classe trabalhadora frente aos planos neoliberais. A Grécia viveu seguidas greves gerais, que se estenderam para Espanha, Portugal e Inglaterra. O movimento dos indignados expressou a radicalização da juventude, de largas camadas da classe média e do proletariado sem perspectivas de manter seu nível de vida. Ocuppy Wall Street marcou o início de mobilizações populares nos EUA e se transformou em “Ocupe os EUA”.
A reação dos trabalhadores e da juventude nublou ainda mais o panorama econômico. A necessidade de impor os planos econômicos de austeridade se transformou em crise política. E isso terminou por agravar a crise econômica: o ensaio de recuperação econômica foi substituído por sinais claros de uma nova recessão, a recuperação do mercado financeiro, pela retomada da instabilidade e a administração da dívida pública europeia não tem conseguido afastar a possibilidade de calotes. 

 
Dilemas, perspectivas e desafios

Aos olhos do Capital, os dilemas para a crise atual são: a) retomar o crescimento econômico, b) estabilizar o sistema financeiro e c) administrar a dívida pública. A curto prazo, nenhum deles é possível.
O crescimento econômico nos países centrais não está sendo retomado porque a burguesia duvida de novos investimentos perante a crise política que se abre com as lutas dos trabalhadores. Os planos de austeridade também são em si mesmos, recessivos, por cortar em investimento público, salários e direitos.
Ou seja, as medidas que viabilizaram a leve recuperação em 2010 são as mesmas que estão causando a recessão atual. Não se trata de saber se a recessão irá começar no quarto trimestre de 2011, no primeiro de 2012 ou um pouco depois, mas qual a intensidade dela. A perspectiva para os próximos anos, caso se afirmem as políticas dos governos atuais, é de longas fases de baixo crescimento econômico, alternando com períodos de recessão, principalmente nos países centrais. E ainda segue aberta a possibilidade de uma nova depressão.
Vale lembrar que este cenário não significa imediatamente prejuízos para o Capital: ainda lhe resta apostar no mercado financeiro. 

 
Novas turbulências financeiras

É justamente isto que os capitais têm feito: apostado na valorização dos ativos financeiros para garantir sua lucratividade. No entanto, como as finanças não criam riqueza nova, a valorização do capital financeiro depende da criação ou transferência constante de valor de outro setor. Antes da crise, os novos recursos foram garantidos pelo crescimento econômico e o endividamento público. Com a crise e a recessão, o endividamento público passou a cumprir este papel sozinho.
Os pacotes aos bancos não foram utilizados para abrir linhas de crédito para o setor produtivo. Estes recursos têm sido usados para aumentar ainda mais a especulação financeira, sempre com a possibilidade da formação de novas bolhas. Ou seja, as mesmas medidas que levaram à estabilização do mercado financeiro em 2010 contribuíram, junto com a crise da dívida pública, para as turbulências financeiras em 2011. Neste sentido, a perspectiva para 2012 é de aumento da instabilidade, com a possibilidade de formação novas crises financeiras e quebras de bancos na Zona do Euro e dos países europeus.
A cada vez que isso ocorrer, uma fuga de capitais para os investimentos considerados seguros vai provocar queda das bolsas no mundo todo, desvalorizando as ações das empresas e aprofundando ainda mais o quadro recessivo. Ironicamente, uma regulação do mercado financeiro limitando-se apenas a conter a especulação para evitar uma nova crise financeira, só iria antecipá-la. O primeiro país que quiser apenas regular o mercado financeiro ao invés de estatizá-lo, será o primeiro a sofrer com a fuga de capitais. O reformismo, que sempre foi apresentado como realista pela social-democracia, é a proposta mais utópica das que estão colocadas à mesa.
Com baixo crescimento econômico e sobreacumulação de capital, a estabilidade financeira na Europa em curto prazo só pode ser conseguida por uma estatização do sistema financeiro sem indenização. É claro que isto não interessa ao capital. Sendo assim, seus esforços não têm sido para superar a crise em curto prazo, mas administrá-la por meio do caráter rentista do Estado. Visivelmente, isso está agravando a crise.

Quais sãos as alternativas?

Quando as grandes crises econômicas do Capital também se tornam grandes crises políticas dos governos e dos regimes burgueses, o confronto entre Capital e trabalho resulta em quatro tipos de saídas históricas: contra-revolução, reformas sociais, contra-reformas ou revoluções. A contra-revolução foi largamente utilizada, quer pelo nazi-fascismo na Europa a partir dos anos 1920, quer pelas ditaduras militares na América Latina durante quase todo o século 20. Ao invés de uma demonstração de força do poder burguês, ela denota a sua fraqueza, pois expressa a incapacidade de manter a dominação burguesa sem o recurso da repressão direta e sistemática às reivindicações dos trabalhadores e às suas organizações.
A implementação e expansão de reformas sociais foi a alternativa do Capital para sair da crise de 1929 nos EUA e conter a ameaça da revolução social no fim da Segunda Guerra Mundial. O período foi marcado pela hegemonia do capital industrial e pela criação do Estado de bem-estar social. Esta via de acumulação entrou em crise nos 1970 e as contra-reformas neoliberais se constituíram como sua alternativa que, por sua vez, também entraram em crise, na década passada. 

 
Mudar as estações

Com a crise da dívida pública na Europa e a guerra social em curso, mais uma vez estamos diante de crises históricas. A sua solução não cabe mais nos salões estreitos das reuniões do G20, o seu desfecho será nas praças europeias. O projeto da burguesia já está desenhado: completar a privatização do Estado iniciada em 1980, aprofundando as contra-reformas neoliberais. Para salvar a Zona do Euro, o capital optou por sacrificar a sua periferia. É preciso atacar o Estado do bem-estar no conjunto da Europa, e não deixar qualquer resquício dele em países como Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda. Existe a tendência de que esses países também tenham seu status imperialista rebaixado para semicolonial. Ao mesmo tempo, eles poderão se tornar um cinturão de exército de reserva que irá pressionar a classe trabalhadora dos países centrais a também aceitarem os pacotes de ajustes.
Mesmo que consiga aprovar os planos de austeridade, novos planos serão necessários. O ataque do Capital está apenas se iniciando, e não há garantia nenhuma na sua efetivação. A queda recente de vários governos é um termômetro do aumento da crise de dominação burguesa. Mesmo medidas simples da democracia burguesa que até ontem eram largamente utilizadas, como os plebiscitos, hoje têm o poder de colocar em risco a União Europeia. O próximo período pode levar a situações e crises revolucionárias em países imperialistas, o que não ocorria desde a revolução portuguesa de 1975. É a luta de classes que vai decidir o curso da crise econômica.
Como os revolucionários bem sabem, o que está em jogo é uma mudança histórica que será decidida nos próximos anos. Como a queda dos Estados do Leste Europeu colocou em cheque o socialismo, essa crise pode colocar de novo o embate capitalismo-socialismo na ordem do dia. O inverno dos europeus está chegando e promete ser rigoroso, mas as primaveras árabes decidiram ficar por mais um tempo. Como o mundo está realmente muito mudado, vamos ver que tem força para alterar as estações.
Fonte: http://www.litci.org/

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

China: A Revolução Silenciosa



O ano de 2011 foi marcado por grandes lutas e, principalmente, revoluções. São tantas e em tantos locais que levantes fenomenais, como ocorreu recentemente em Wukan, na província de Guangdong, não mereceram sequer análise mais profunda. Neste ano que acaba, fazer levantes transformou-se numa atitude óbvia.
Em Wukan, após vários dias de rebelião aberta contra a burocracia governante, que cercou o povoado, deixando-o isolado, a população local arrancou uma importante vitória, ainda que não se possa dizer que não venha a haver retaliações nos próximos dias.

Após o levante, que explodiu com o assassinato de Xue Jinbo, dirigente da luta contra o roubo das terras por construtoras e funcionários comunistas corruptos, os manifestantes forçaram o Partido Comunista a congelar as negociatas das terras que estavam a ser roubadas, libertar vários ativistas presos e demitir funcionários corruptos da administração local. O que, desde logo, não é pouca coisa na repressiva China e, mais do que isso, se transformou num grande símbolo de luta para todo o país.

A poeira nem tinha baixado em Wukan e, na seqüência, a população de Hainem, a apenas 130 km de Wukan, na costa da província de Guangdong, levantou-se em protestos contra a construção de uma central de carvão. “As fábricas são prejudiciais à
saúde. Os nossos peixes estão a morrer, várias pessoas estão com cancro. Em que lugar no mundo se constroem duas centrais a apenas um quilómetro de distância?”, comentou um dos manifestantes.

Greve vitoriosa na LG

As revoltas de Wukan e Hainem poderiam ser as últimas de um ano convulsivo, mas não foi o caso.

Cerca de oito mil trabalhadores da sul-coreana LG, líder mundial na produção de ecrãs, entraram em greve, que durou três dias, contra as diferenças no pagamento de bónus anuais.
Enquanto os trabalhadores coreanos recebem o equivalente a seis meses de salários como bónus de final de ano, os trabalhadores chineses recebiam apenas o equivalente a um mês de salário.

Esta foi a fagulha que desencadeou a curta greve, em Nanjing (Nankin), na província de Jiangsu, ao norte de Shangai, que obrigou a LG a pagar dois meses de salários como bónus de final de ano. Uma importante vitória parcial, sem dúvida.

Mas, se alguém pensa que essa foi a última luta do ano, enganou-se. No coração da vanguarda chinesa concentrada na província de Guangdong, que possui o mais poderoso proletariado do planeta, estourou outra mobilização.

No dia 27, os trabalhadores da Guangzhou Áries Autopeças, de capital japonês, localizada na cidade de Guangzhou, capital da província de Guangdong, que fornece peças para a Honda e Toyota, iniciaram uma mobilização contra a redução no bónus de final de ano, num período em que a empresa obriga os funcionários a uma jornada mais longa de trabalho.

Segundo pesquisadores, as greves, protestos e manifestações na China em 2010 foram cerca de 180 mil. Um numero fantástico. Segundo a burocracia chinesa, o número foi bem menor, apenas 90 mil! O que não deixa de ser, em qualquer caso, um número fabuloso.


Censura do PC

A revolução chinesa transformou-se numa revolução silenciosa, não por decisão dos trabalhadores. Mas pelo facto de o Partido Comunista censurar com todas as suas forças as informações.

Apagando-as sistematicamente da Internet, cujo número de utentes, o governo não consegue controlar completamente. A Internet tem sido um dos principais instrumentos na organização da luta e para driblar a censura governamental. Transformou-se numa fonte de dores de cabeça tão grande que o governo chinês pretende obrigar todos os
bloggers a registarem-se com os seus nomes verdadeiros. O que representa mais um ataque às poucas liberdades conquistadas.
A China transformou-se na segunda potência económica e isso todo o mundo sabe. Mas a outra face desse fenómeno, que poucas pessoas se deram conta, é de que a China está grávida de uma grandiosa revolução, que tem tudo para acontecer num futuro próximo.

O crescimento económico criou também o mais poderoso proletariado do planeta, concentrado nas fábricas de Guangdong. É um proletariado jovem, rebelde, que não está amortecido pelas burocracias sindicais que infestam o movimento operário mundial, que demonstrou neste ano que finda uma valente combatividade, protagonizando uma poderosa e simbólica maré de greves.

A crise mundial está a provocar uma desaceleração no crescimento económico chinês e isso será mais um dos combustíveis na explosão que se aproxima, já que obrigará os trabalhadores a sair à luta para se defenderem.
Fonte: http://www.esquerda.net/ 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O capitalismo que era sólido está se desmanchando no ar: Desemprego atinge mais de um milhão de jovens na Inglaterra

A crise econômica está golpeando com força os jovens. No Reino Unido, o desemprego juvenil superou a barreira do milhão de pessoas e ninguém parece ter esperança de que as coisas melhorem neste 2012. Uns porque nunca tiveram expectativa de outra coisa, outros porque as portas abertas estão fechando e não há maneira de abri-las: este ano a matrícula universitária custará uns 16 mil dólares e a ajuda estudantil  secundária desapareceu. 

Por Marcelo Justo - Correspondente da Carta Maior em Londres

“Eu tive 20 anos e não permitirei que digam que é a idade mais linda da vida”. A famosa frase de Paul Nizan tem mais peso do que nunca na Europa atual e não por razões existenciais.

A crise econômica está golpeando com particular força os jovens. No Reino Unido, o desemprego juvenil superou a barreira psicológica do milhão de pessoas e ninguém parece ter esperança de que as coisas melhorem neste 2012. Uns porque nunca tiveram expectativa de outra coisa, outros porque as portas abertas estão fechando e não há maneira de abri-las: este ano a matrícula universitária custará uns 16 mil dólares e a ajuda estudantil secundária desapareceu. Neste cenário, não surpreende que os estudantes estejam engrossando as filas da prostituição para financiar uma carreira que melhore, sem oferecer garantias, sua perspectiva de trabalho.

Em uma tentativa de capturar e transmitir a gravidade da crise, a ONG Barbados, que defende os direitos dos menores, chamou os jovens de “futuros pobres”. Em alguns casos, o futuro não é mais que a continuação do passado: levam a pobreza inscrita desde o nascimento. Nos bairros londrinos de Tottenham, Lewisham, Hackney, nos bolsões pobres das grandes cidades, em Manchester e Liverpool, Birmingham e Newcastle, há muito que se abandonou toda esperança. Durante a onda de saques que sacudiram o Reino Unido em agosto, cerca de 80% dos saqueadores presos tinha menos de 25 anos.

Em sua mensagem de ano novo, anunciada neste domingo, a máxima autoridade da Igreja Anglicana, o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, exortou os britânicos a não demonizar os jovens. Pediu aos britânicos que abandonem a hostilidade para com os jovens. “É uma tragédia que existam saques quando podemos ver o que se pode conseguir com esses jovens quando essa energia é canalizada positivamente em um contexto de segurança e amor”, assinalou o Arcebispo. Mas como advertiu David Lammy, deputado trabalhista por Tottenham, o bairro onde iniciaram os incidentes, não há uma consciência social ou política sobre a gravidade e urgência do tema. “Precisamos de políticos de todos os partidos que atendam estes problemas ou os saques podem voltar a acontecer”, vaticina Lammy.

E não há sinais de que o governo esteja escutando. A primeira reação aos distúrbios foi desclassificá-los como mero vandalismo juvenil de gangues descontroladas. O primeiro ministro David Cameron suavizou um pouco suas próprias palavras falando da desintegração moral da sociedade e prometendo uma investigação dos fatos, mas a política socioeconômica do governo não variou um centímetro.

Em seu comparecimento ante o Parlamento, em outubro, o ministro de Finanças, George Osborne, reafirmou o plano de austeridade do governo que contempla uma redução de 140 bilhões de dólares no orçamento do período 2011-2015. Os programas juvenis, dizimados pelos cortes, não receberam nenhuma nova fonte de financiamento. O bairro de Tottenham é um claro exemplo do abismo social que existe em um dos países mais ricos do planeta.

É a zona com maior desemprego de Londres e uma das 10 mais pobres do Reino Unido: os clubes da juventude desapareceram logo depois de o orçamento municipal ter sofrido um corte de 75%.

Economia sem rumo

A aposta da coalizão conservadora-liberal democrata é que o setor privado compensará o draconiano encolhimento do Estado. Até aqui, essa aposta não deu resultado. Entre julho e setembro de 2011, cerca de 67 mil pessoas perderam seu emprego estatal: o setor privado só criou 5 mil novos postos. Segundo o prestigiado Chartered Institute of Personnel and Development, essa situação piorará este ano com a demissão de cerca de 120 mil servidores públicos. Charlotte Foster, uma menina de 21 anos que terminou o ano passado a universidade, resumiu ao Daily Telegraph sua falta de expectativas. “No melhor dos casos passarei de um emprego temporal a outro. Com tantas demissões vai ser muito difícil. Há gente com 10 anos de experiência no mercado buscando trabalho”, declarou ao jornal.

Se a estratégia da coalizão para o conjunto da sociedade faz água, para os jovens ela naufragou em meio ao nada. Uma das medidas de austeridade da coalizão que mais os afetaram foi a triplicação do valor das matrículas universitárias, que entra em vigor este ano, e a eliminação da ajuda a estudantes secundário. As massivas manifestações entre outubro de 2010 e março do ano passado tiraram os jovens da situação de letargia política das últimas duas décadas, mas não conseguiram evitar a reforma da lei da educação.

Com custos subindo às nuvens e sem acesso a empregos temporários, muitos estudantes estão recorrendo a variadas formas de prostituição. “Com todos os cortes que ocorreram, muitas estudantes se prostituem para escapar da pobreza. Com esse tipo de trabalho, é possível, em uma noite, cobrir mais ou menos os gastos da semana”, assinala Sarah Walker, de um grupo de defesa dos trabalhadores do sexo, o English Colective of Prostitutes (ECPL).

Um estudo da Universidade de Leeds, no norte da Inglaterra, revelou que cerca de 25% das “strippers” e “lap-dancers” da capital eram estudantes. Outra investigação da Universidade de Londres mostrou que 16% das universitárias estavam dispostas a se prostituir para pagar seus estudos e cerca de 11% contemplava a possibilidade de trabalhar em agências de acompanhantes. “A maioria são estudantes que acabam de iniciar a universidade ou estudantes adultos que querem um título. O governo sabe que o trabalho sexual é uma maneira de escapar dessa situação, mas isso não parece importar muito”, assinala Walker.

Em meio ao desalento, a União de Estudantes se comprometeu a continuar com os protestos para mudar a política universitária da coalizão. Em novembro, quase um ano depois de o parlamento aprovar a triplicação do valor das matrículas, milhares de estudantes se manifestaram por uma mudança de política. A maioria não estava diretamente afetada pela medida que só entrará em vigor para a camada que ingressa na universidade em setembro deste ano. 2012 promete ser um ano movimentado.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Dois Brasis

Por João Paulo da Silva

Não sei se você sabe. Mas existem dois Brasis. Parafraseando um autor cujo nome não lembro, posso dizer que nos dividimos em dois grupos. Aqueles que têm mais jantares do que apetite e os que têm mais apetite do que jantares. Pode até parecer uma definição simplista demais. No entanto, isso não faz dela uma mentira. É claro que existe um evidente confronto de classes nisso tudo. Tratemos desses dois Brasis de maneira metafórica. Até mesmo porque – “nunca na história deste país” – uma metáfora foi tão real.
Existe um Brasil chamado “doutor” Luiz Cavalcante Alves Calheiros Gomes de Moraes Sobrinho, que por motivos didáticos chamarei de doutor Luiz. Homem branco, dono de vários latifúndios, empresas, bancos e usinas, morador de um condomínio fechado e de alto luxo, o doutor Luiz também possui fazendas, chácaras, casas de praia e coberturas espalhadas pelo mundo todo. Sua fortuna pessoal está avaliada em torno de 70 bilhões de dólares. Sem falar, claro, nas contas secretas em paraísos fiscais. Além de tudo isso, o doutor Luiz também é um político de sucesso. Um parlamentar que constantemente aprova no Congresso Nacional leis que flexibilizam os direitos trabalhistas e favorecem os lucros de suas empresas. E eu nem preciso mencionar os casos de desvio de dinheiro público em que o doutor Luiz está metido.
Em contrapartida, existe outro Brasil chamado José da Silva. Mais conhecido na periferia como “Zé da Construção”. Co-habitante de um barraco no morro do Sururu (pois divide um único cômodo com a mulher, os filhos, os ratos e as baratas!), Zé da Construção é negro, pobre, miserável e não possui nenhuma propriedade em seu nome. Trabalha como ajudante de pedreiro numa construção em um bairro nobre da cidade. Mas nas horas vagas também faz uns bicos como encanador, eletricista e marceneiro. O único lazer do Zé da Construção é a cachacinha que toma com os amigos jogando sinuca nos finais de semana. Mas o Zé da Construção não é nenhum bobo, não! Conhece alguns de seus direitos e em determinados momentos até já chegou a se mobilizar em greves.
O fato, senhoras e senhores, é que esses dois Brasis um dia tiveram seu encontro com a justiça. O doutor Luiz descuidou-se um pouco da segurança dos seus “esquemas”. Tsc, tsc. Aí já viu, né? Alguém deu com a língua nos dentes, veio o grampo do telefone, a câmera escondida. Doutor Luiz acabou virando manchete de jornal. As acusações que pesavam sobre sua cabeça eram as mais diversas. Desvio de verba pública, sonegação de impostos, estelionato, caixa-dois, tráfico de influências, compra de voto, trabalho escravo, formação de quadrilha, envolvimento com o narcotráfico, quebra de decoro, cárcere privado e até assassinato de fiscais tributários. Mas o doutor Luiz era branco, rico, parlamentar, tinha curso superior, muitas posses etc, etc, etc. Enfim, não foi preso. Não sentiu o peso das algemas. Nem entrou no camburão. Foram abertos vários processos. E todos, posteriormente, acabaram arquivados. Motivo: insuficiência de provas. O doutor Luiz teve apenas que renunciar ao seu mandato. Mas isso ele mesmo disse que não era problema. Iria se candidatar de novo no ano que vem. E voltaria à política “nos braços do povo”.
Com o Zé da Construção foi um pouco, digamos, “diferente”. O Zé tava com o salário lá da construção atrasado fazia tempo. Em casa já não tinha mais nada para comer. A mulher e os meninos viviam chorando de fome e de doença. O Zé estava aperreado. Não sabia nem o que fazer. Um dia, chegando no trabalho, descobriu que não ia mais ter trabalho. A empresa tinha dispensado todo mundo e não ia pagar nada. “Faliu!” – disseram para o Zé. E o dono? “Sumiu!” – completaram. O Zé desesperou-se. Saiu de lá se sentindo um ninguém. E se sentir um ninguém é uma merda. Entrou no primeiro bar que viu e bebeu todo o dinheiro que tinha. Uns míseros trocados. Chorou, chorou muito. Mas tinha de ir pra casa. Como? Com as mãos abanando? Sem levar nada para os meninos? Não podia. Saiu do bar disposto a fazer uma coisa que nunca tinha feito.
“A dona daquela casa cria umas galinhas” – disse o Zé para si mesmo. Pulou o muro que dava para o quintal e deu de cara com as “bichinhas”. Abriu a portinhola do galinheiro e catou pela asa uma ave bem gordinha. Na saída, acabou derrubando umas gaiolas, cuias, canecos. Fez muito barulho. As luzes se acenderam e o Zé ouviu uns gritos. “É ladrão! É ladrão!”. Soltaram os cachorros. O Zé pulou de volta o muro numa pernada só. Com a galinha na mão, se pôs a correr em disparada. Na esquina, o vigia da rua já soprava com toda força o apito que tinha na boca. “Pega ladrão! Paga ladrão!” – gritava o vigia.
A polícia chegou rápido. E mais rápido ainda chegou até a casa do Zé. Não é difícil seguir o rastro de um homem correndo com uma galinha embaixo do braço. Os policiais entraram derrubando a porta do barraco. O Zé não teve tempo nem de correr. Foi logo arrastado para fora de casa. Juntou gente para ver. Chorando, a mulher e as crianças pediam para não levarem o Zé preso. Não teve jeito. “Bandido é bandido, dona. A Lei é igual para todos”. Bateram muito na cara do Zé da Construção. Assim, além de sangue, ele também perdia a dignidade. Depois, a agressão dos policiais a um homem desarmado seria justificada com a já conhecida frase: “O acusado reagiu à prisão.”.
O Zé conheceu pela primeira vez o fundo do camburão e o peso das algemas. Sentiu tanta vergonha que até mesmo o choro ficou engasgado, sem querer sair. Na delegacia, foi jogado numa cela com outros 50 presos. Todos uns ninguéns. Assim como ele. Negros, pobres, miseráveis. Desgraçados.
O Zé foi levado para o presídio. Lá, aguardaria durante uns anos a data do julgamento. Depois esperaria mais uns tantos outros até cumprir a pena. Quando saísse, nunca mais arrumaria emprego e viveria infeliz o resto de seus dias.
Mas nada disso aconteceu. Não deu tempo. O Zé morreu antes. Teve rebelião no presídio. Armada até os dentes, a polícia entrou atirando em todo mundo. “Era preciso manter a ordem.” – disseram mais tarde. Uma das muitas balas encontrou o Zé. E ele finalmente teve seu encontro com a justiça. E viu que ela não era cega. Sabia exatamente em quem estava atirando.
O Brasil chamado Zé da Construção provavelmente nunca leu Eduardo Galeano. Possivelmente uma parte dele nem sabe ler. Mas talvez não seja preciso. A conclusão é simples e dura.
Nós, os ninguéns, somos os filhos de ninguém, os donos de nada.
Nós, os ninguéns, custamos menos do que a bala que nos mata.
Fonte: http://ascronicasdojoao.blogspot.com/

domingo, 1 de janeiro de 2012

“Cidade dos agrotóxicos” tem o dobro da taxa mundial de câncer

Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados aprova relatório sobre contaminação por agrotóxicos
O relatório de Padre João apresenta várias sugestões para controlar o uso de agrotóxicos.
A Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira, dia 7 de dezembro, relatório da subcomissão que analisou as consequências do uso de defensivos químicos para a saúde humana e o ambiente. O relatório da Subcomissão sobre o Uso de Agrotóxicos e suas Consequências à Saúde será transformado em projetos de lei e em recomendações para os órgãos de governo.
Resultado de seis meses de trabalho, o parecer do deputado Padre João (PT-MG) aponta a correlação entre o aumento da incidência de câncer e o uso desses produtos na agricultura. A cidade mineira de Unaí está entre os exemplos. Com presença marcante do agronegócio, o município registra 1.260 novos casos da doença por ano a cada 100 mil habitantes. A incidência mundial média é de 600 casos por 100 mil habitantes no mesmo período.

Contaminação
O texto aprovado menciona também estudo realizado na cidade de Lucas do Rio Verde (MT) que constatou a presença desses compostos no leite de 100% das nutrizes (mulheres que estão amamentando) analisadas. “Além das proteínas, vitaminas e anticorpos, a amamentação dos recém-nascidos de Lucas do Rio Verde também fornece agrotóxicos”, afirma Padre João.
Na pesquisa também foram observadas, segundo o relatório, malformações em 33% dos anfíbios de um curso d’água da região e de 26% em outro. No grupo de controle, o índice teria ficado em 6% de casos.

Propostas
Como forma de reduzir o que chama de “crescente envenenamento dos campos”, o relator apresentou proposta para reduzir de forma gradativa os benefícios fiscais e tributários concedidos aos agrotóxicos. Segundo o texto, hoje o produto conta com redução de até 60% do ICMS e isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), PIS/Pasep e Cofins.
Sugere-se ainda a adoção de incentivos – como mecanismos tributários e linhas de crédito e financiamento público – à produção agroecológica. “Há exemplos de que no longo prazo esse tipo de agricultura é viável”, sustenta o relator.

Recolhimento de embalagens
Padre João explicou que há problemas sérios relacionados a registro, comercialização e rotulagem dos agrotóxicos no País.
Apesar de exigido por lei (9.974/00), o recolhimento e a destinação adequada das embalagens de agrotóxicos também seriam falhos, de acordo com a subcomissão. O relator destacou que existem também irregularidades no recolhimento obrigatório de embalagens vazias desses produtos. Os deputados da comissão constataram que no Amapá, por exemplo, não existe sequer sistema de recolhimento. “As pessoas acham que estão se alimentando bem porque na mesa tem verdura, legumes, frutas, mas todos têm certo percentual de agrotóxico e alguns com percentual além do tolerável, além do permitido. Em algumas culturas, os resíduos são de agrotóxicos proibidos para aquela cultura.”
Segundo a Anvisa, o pimentão, o morango e o pepino lideram o ranking dos alimentos com maior número de amostras contaminadas por agrotóxico em 2010.
Controle rigoroso
A subcomissão constatou ainda que não há segurança no controle da comercialização dos agrotóxicos, porque as informações do receituário agroeconômico, previsto em lei, simplesmente não chegam até os órgãos do governo. Com isso, nem estados nem União possuem dados concretos sobre o mercado dos agrotóxicos no Brasil.
O relatório aprovado recomenda que o controle e a fiscalização do setor sejam mais duros. O texto aponta também a necessidade de mais técnicos e fiscais, que hoje não chegam a 100 para cuidar de todo o território nacional.
Padre João também propõe que a receita, hoje em duas vias, seja emitida com cinco cópias – uma para o agricultor, uma para o comerciante, e as três outras para os órgãos de fiscalização do governo.
Há ainda uma sugestão para que se adote para os agrotóxicos um sistema de controle semelhante ao existente para os remédios controlados.
Consumo de agrotóxicos
O relator lembrou que atualmente o Brasil ocupa a primeira posição no volume consumido de substâncias agrotóxicas em todo o mundo. “Sendo a nossa agricultura fortemente embasada no uso de substâncias químicas para o controle de pragas e doenças vegetais e de ervas invasoras, quanto maior a produção e a área plantada, maior vem sendo o volume de agroquímicos utilizados. Mas o fato a ser destacado é que no Brasil, o aumento do consumo é superior ao aumento da produção agrícola, ampliando ainda mais a preocupação quanto ao tema.”
Padre João ressaltou ainda em seu relatório que paralelamente ao aumento no consumo, o Programa de Avaliação de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem constatado a presença de resíduos de agrotóxicos em alimentos acima dos limites máximos recomendados e a presença de produtos não permitidos para determinados alimentos. “Afora isso, nas fiscalizações junto às empresas produtoras se observam recorrentemente algumas irregularidades. Os desvios são certamente sentidos pelo solo, pela água, pelo ar e nas condições de saúde dos seres humanos”, acrescentou.
Outras sugestões da subcomissão de agrotóxicos
Como resultado da subcomissão que analisou o uso de agrotóxicos no País, instalada em maio deste ano, surgiram ainda outras propostas para tornar o controle e a fiscalização do setor mais rígidos e capacitar o setor de saúde.
Entre as providências a serem tomadas constam:
- venda de agrotóxicos feita somente com capacitação do produtor que compra o produto;
- mudança no prontuário de atendimento médico, para identificar intoxicações por agrotóxicos;
- contratação de mais fiscais e técnicos, que hoje não chegam a 100 para cuidar de todo o território nacional;
- oferecimento de assistência técnica específica a produtores rurais para o uso de agrotóxicos;
- adequação na grade curricular de cursos na área de saúde, para maior capacitação na área de toxicologia;
- maior fiscalização dos rótulos dos agrotóxicos;
- controle da contaminação das águas pela Agência Nacional de Águas (ANA).
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Fonte: http://www.viomundo.com.br/