quinta-feira, 24 de maio de 2012

León Trotsky - Pela liberdade de educação (1938)


Introdução
por João de Regina 
(Foto: Os Incompreendidos [1959], de François Truffaut)
Publicamos um texto de Leon Trosky, durante seu período de exílio no México, sobre a necessidade de libertar a educação dos inúmeros vieses de autoritarismo imposto a ela pela sociedade de classes. Trotsky, e a quarta internacional, travaram uma luta decidida contra o autoritarismo sobre a educação mostrando como a libertar as escolas, e o processo educacional como um todo, das mãos da burguesia, era parte da luta de garantir um futuro a juventude e ao mundo. As resoluções sobre juventude do congresso da quarta internacional, do mesmo ano do texto que publicamos, afirmavam: “Os jovens querem aprender, mas o caminho da cultura é barrado a eles.(...) Os jovens querem criar um mundo novo, mas a eles se permite apenas manter ou consolidar um mundo decadente. Os jovens querem conhecer seu futuro, mas o capitalismo apenas responde a eles: ‘Hoje vocês têm de apertar mais os cintos; amanhã veremos...’”.
O autoritarismo stalinista era uma demonstração a mais de como seu projeto era contrário a continuação do processo histórico iniciado pela revolução de outubro na Rússia. O autoritarismo imposto aos professores na Rússia e aos sindicatos que dirigia era uma semelhança a mais com o capitalismo que estava na contramão da internacionalização do socialismo, da revolução mundial.
O capitalismo não pode garantir nenhuma liberdade real à educação. Esta enquanto estiver atrelado aos interesses do lucro das frações de classe burguesa só garantirá a cultura, o conhecimento e a ciência de forma utilitária e estratificada. Ou seja, apenas se servir aos lucros empresariais, a divisão da classe operária e ao disciplinamento alienado da grande massa da população.
A educação capitalista deseja disciplinar os professores para eles melhor disciplinarem os jovens e os trabalhadores. Assim foi na época de Trotsky, nos países de capitalismo democrático, fascistas, nacionalista-burguês (como o de Cárdenas no México) e, infelizmente, na URSS, um estado operário degenerado pelo stalinismo. Mas continua sendo, mesmo que as duas últimas décadas tenham propagado os discursos fáceis de “triunfo do capitalismo e da democracia como valor universal”. A educação ainda se encontra presa a economia capitalista e ao projeto de privações para a maioria da juventude, trabalhadores e pobres. Garantir a liberdade da educação e a universalização do conhecimento ainda é uma tarefa histórica indissociável de um projeto anti capitalista.
                                                 ***
 10 de julho de 1938

Sinceramente agradeço aos diretores de Vida por haverem me pedido para expressar minha opinião sobre as tarefas dos educadores mexicanos. Meu conhecimento da vida deste país é ainda insuficiente para formular juízos concretos. Mas existe, entretanto, uma consideração geral que posso expor aqui.
            Em países atrasados, o que inclui não só o México, mas em certa medida também a URSS, a atividade dos professores não é uma simples profissão, mas uma missão enaltecedora. A tarefa da educação cultural consiste em despertar e desenvolver a personalidade crítica entre as massas oprimidas e escravizadas. A condição indispensável para isto é que o educador possua uma personalidade desenvolvida em um sentido crítico. Uma pessoa que não desenvolveu sérias convicções não pode ser um dirigente das massas.  É por isso que um regime totalitário em todas suas formas, no Estado, no sindicato, no partido, ocasiona irreparáveis danos à cultura e à educação.
Quando as convicções são impostas de cima para baixo, como uma ordem militar, o educador perde sua individualidade mental e não pode inspirar a crianças ou adultos respeito ou confiança na profissão que exerce. Isso ocorre atualmente, não só em países fascistas, mas na URSS. As bases criadas pela Revolução de Outubro ainda não estão – por sorte – destruídas completamente. Mas o regime político já tem assumido definitivamente um caráter totalitário. A burocracia soviética, que tem violentado a revolução, quer que o povo a considere infalível. É aos professores a quem encomendou a tarefa de enganar as pessoas, como fazem os sacerdotes.
Para calar a voz da crítica, têm introduzido um sistema totalitário na educação dos sindicatos operários. Os funcionários da polícia põem os dirigentes sindicais a empreender furiosas campanhas de calúnia e repressão contra os educadores de mente crítica, acusando-os de serem contra-revolucionários, “trotskistas” e “fascistas”. Aqueles que não se rendem, são suprimidos pela GPU[2]. Além disso, a burocracia soviética tenta estender o mesmo sistema ao mundo inteiro. Seus agentes em cada nação buscam estabelecer o sistema totalitário dentro dos sindicatos daqueles países. Este é o perigo terrível que ameaça a causa da revolução e ameaça a cultura, particularmente nos países jovens e atrasados, onde a população está propícia, ainda tal como é, a dobrar os joelhos ante o feudalismo, o clericalismo e o imperialismo.
Meu desejo mais fervoroso é o de que a educação mexicana não seja submetida a um sistema totalitário em seus sindicatos, com as mentiras, calúnias, repressões e estrangulamentos do pensamento crítico que este traz consigo. Somente uma honesta e tenaz luta ideológica pode assegurar a formação de convicções sérias com raízes firmes. Só uma educação com estas convicções é capaz de ganhar autoridade indestrutível e realizar sua grande missão histórica. 

[1] Por la libertad de educación: IV Internacional (México), agosto de 1938. Traducido del español para el libro de Trotsky, Problems of Everyday Life (Problemas de la vida cotidiana) (Pathfinder, 1973) por Iain Fraser. O texto era uma carta para Vida, o periódico dos professores de Michoacán, México. IV Internacional  era o periódico da sessão mexicana do MFI (Movement for the Fourth International – Movimento pela Quarta Internacional) Tradução de Iuri Tonelo.


[2] Criada em 1922 como administração política do estado, substituindo nesse ano a sua antecessora Cheka, órgão soviético máximo de combate à sabotagem e à contra-revolução, tornou-se a polícia política do regime stalinista, perseguindo e assassinando diversos militantes históricos do partido bolchevique na URSS, e lutadores e ativistas contra o stalinismo em todo o mundo. (Nota do tradutor)

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